Enternecer por femarques

CAPÍTULO 9:

GIULIANA

 

            Abigail ficaria em casa apenas até o horário do almoço, depois passaria o feriado em sua casa com sua neta e alguns parentes próximos que iriam visita-las.

            Ainda estou de pijama, com minha calça de moletom preferida e uma camiseta larga e surrada. Levo a xicara com café quente e delicioso de Abigail até a boca, enquanto com a outra mão coloco meu cabelo para trás repetidas vezes.

            “Por que essa carinha emburrada logo cedo?”

            Escuto a voz de Calliope e tiro os olhos do jornal em cima da mesa. Coloco minha xícara na mesa e olho para ela, que também está usando ainda seu pijama.

            “Bom dia, Callie.”

            Abigail acreditava no carinho que eu tinha por sua neta devido ao tempo em que convivíamos juntas. E apesar de nossa brincadeira, eu tinha carinho  e cuidado por elas.

            “Não saiu para correr hoje?” Ela insiste, sentando a minha frente.

            “Calliope.” Sua avó interrompe, olhando em sua direção franzindo o cenho, juntando as sobrancelhas.

            Solto um riso baixo e antes de responder, sinto seu pé roçar minha perna.

            “Não estava com vontade hoje, mas agora estou.” Me levanto da mesa e agradeço a Abigail pelo café.

            Subo as escadas pulando os degraus de dois em dois e me visto com pressa. Coloco meus fones de ouvido e saio de casa para caminhar. Calliope estava sempre disposta para as visitas em meu quarto, mas por algum motivo, hoje eu não me sentia disposta. Me sentia irritada desde a noite anterior e não entendia o motivo, mas sabia que não queria que o comportamento dos meus amigos se repetisse. Beatrice é muito reservada e quando resolvo apresenta-la aos meus amigos, eles insistem em algo que ela não quer. Isso foi no mínimo falta de respeito com ela.

            Passo o tempo da caminhada tentando me convencer de que o que eles fizeram foi errado e eu, como amiga, deveria zelar por ela. Faz sentido.

            Depois que volto para casa, fico na cozinha ajudando Abigail, desde sempre ela tentou me ensinar a cozinhar, mas eu sempre fui um desastre e consigo reproduzir apenas coisas simples, e isso se eu tiver a receita para seguir detalhadamente.

            Mando uma mensagem para Matteo e Andrea, combinando de tomarmos umas cervejas a tarde e claro, sem compromisso no feriado, eles aceitam e marcamos de nos encontrarmos.

            Ofereço carona a Callie e Abigail já que eu sairia também e elas aceitam depois de prometer a Abigail que não me atrapalharia em nada. E assim, saímos de casa e as deixo em seu destino.

            Quando contratei Abigail para trabalhar em minha casa, ela morava comigo, mas quando sua neta veio a cidade para estudar, ela preferiu ter sua própria casa. Onde elas moram hoje foi um presente meu, já que as casas com melhores condições não cabiam em seu orçamento. Por insistência dela, me pagava aos poucos conforme podia, e sempre que eu conseguia, a enrolava em alguns meses.

            Vou até o bar que combinamos, um de meus preferidos em Norwich, mais afastado do centro e bem tranquilo. Era um bar esportivo, com as paredes em seu interior de tijolos alaranjados, cheio de bandeiras e pôsteres de times de futebol. As mesas eram pretas e os assentos eram sofás dos dois lados da mesa.

            Andrea e Matteo já estão lá quando chego, sentados em uma mesa logo na entrada. Cumprimento-os com um aceno de cabeça apenas e coloco a chave do carro e meu celular em cima da mesa antes de me sentar.

            “Alguém está de mau humor.”

            Olho para Matteo e reviro os olhos por seu comentário. Andrea levanta sua garrafa de cerveja, apontando para o garçom, que logo me traz outra igual.

            “Então, o que você tem?” Ela pergunta.

            “Vocês dois assustaram a menina ontem.”

            “Assustamos? Mas tinha alguém afim dela, era só brincadeira, Giu.”

            Olho para Andrea e franzo o cenho, pressionando os lábios em seguida.

            “Ela disse que não queria e vocês insistiram. E ainda me fizeram parecer alguém sem coração.”

            Matteo começa a rir e dá de ombros.

            “Qual é, ela não é sua amiga? Não entendo o motivo da irritação. Qual o problema de apresentarmos ela a alguém? E pelo jeito, sua amiga é hétero.”

            Tomo um longo gole da cerveja e me encosto no sofá.

            “Eu percebi, idiota. Mas ela não queria, ela disse que não podia e vocês a chatearam.”

            Vejo de canto de olho minha amiga balançar a cabeça de um lado a outro, me olhando com atenção. Ela estava só esperando a oportunidade de falar.

            “E você ficou irritada por empurrar ela a alguém? Andie...” Matteo começa dizendo e vira seu corpo para ficar de frente com Andrea. “Ela não disse que era só amiga de Beatrice?”

            “Eu não fico irritada quando você paquera alguém, Matteo, somos só amigos.”

            “Ah, faça-me o favor, vocês dois.” Reviro os olhos e nego com a cabeça, soltando a respiração pesada. “Eu só me preocupei como amiga, se ela disse que não queria, deveriam respeitar. Ela é toda estranha com esse tipo de coisa, vocês não sabem.”

            “Giu, você não pode querer que ela ache que você é toda romântica se sua vida amorosa se resume a ficar com garotas sem envolvimento emocional.”

            “Mas ela não precisava saber disso daquela forma, Andrea.”

            “E isso te incomoda por quê? É tão importante o que ela vai pensar?”

            “Claro, ela é minha amiga. E ela é diferente, não precisa achar que eu sou alguém sem coração, que não se importa com nada.”

            “O que ela tem de tão diferente? Ela me pareceu tímida, mas bem normal.” Matteo comenta enquanto levanta sua cerveja, pedindo por outra.

            “Ela não gosta de sair, pelo pouco que sei. Alguma coisa aconteceu com ela e com a irmã, e agora ela vive para cuidar da irmã e não gosta de nada que a tire disso, como se ela achasse que a qualquer momento pudesse falhar com a irmã.”

            “Que interessante. O que mais você sabe?” Andrea comenta.

            “Eu não sei nada além de que ela perdeu os pais um acidente, ela não me conta nada. Mas sempre me parece triste. Sabe quando alguém está sempre preocupada? Beatrice está sempre assim e realmente prefere se concentrar em sua rotina e evitar qualquer coisa que a tire disso, mas ela nunca conversou comigo sobre isso.”

            “E você sabe tudo isso sobre as suas outras “amigas” também?” Matteo pergunta fazendo aspas no ar com os dedos, e os dois caem na risada.

            “Desisto de vocês.” Me levanto e saio da mesa para ir até o bar, pegar outra cerveja.

            Quando volto e me sento, Andrea está me olhando com um sorriso bobo no rosto.

            “O que foi?”

            “Você pode gostar dela, Giu.”

            “Eu não gosto dela, Andie. Sinto te decepcionar, mas não gosto. Primeiro por ela gostar de rapazes, segundo por ser só minha amiga.”

            “Ah, nós não sabemos se ela realmente gosta, ontem pareceu que sim, mas vai que não? E outra coisa, Giu, do jeito que você é, iria adorar conquistar uma garota heterossexual.”

            Andrea coloca as mãos na boca, tentado esconder o riso do que Matteo diz.

            “Ótima a imagem que você dois têm de mim. Estou impressionada.”

            Os dois estão rindo e levam as mãos até a minha, segurando-a. “Estamos brincando, ela é só sua amiga, tudo bem.”

            Franzo o cenho, encarando os dois, e concordo balançando a cabeça.

            “E então, me falem de vocês.”

            Os dois se entreolham e eu prefiro fingir que não vi, Andrea começa a contar sobre um homem que está interessado nela e é seu colega de trabalho, e nós dois nos dispomos a ouvir. Meus amigos eram ótimos, mas não perdiam a oportunidade de me zoar.

            Tudo o que conversei com eles acabou ficando em minha cabeça. Por que eu me importo tanto com a imagem que Beatrice de mim? É óbvia a resposta. Ela parece ser uma pessoa que sofre com alguma coisa e não quer ficar ao lado de alguém que não se importe com os outros. Eu adoro a nossa amizade e como nos divertimos juntas, sinto que a faço bem, já que vive preocupada, e não quero estragar a nossa amizade forçando-a a coisas que não são boas para a sua vida.

            No final da tarde, nos despedimos já que Matteo abriria o restaurante a noite. Minha irritação havia passado durante as horas em que me diverti com eles, mas o assunto ainda me incomodava, o que não fazia sentido.

            Enquanto dirigia de volta para a casa, decido ligar para Beatrice. Usando o sistema do próprio carro, disco a ela e fico esperando ser atendida, o que não demora muito.

            “Oi, Giu.”

            “E aí, tudo bem?”

            “Estou bem.”

            Dou risada de como ela, por vezes, parece fria, algo que já acostumei. Era seu jeito de ser, talvez por ser reservada demais e não saber como conversar em algumas vezes.

            “Quer assistir a um filme hoje? Podemos ficar na minha casa.”

            “Se não for até muito tarde, eu trabalho amanhã cedo.”

            “Achei que a livraria não fosse abrir.”

            “Bom, o feriado é só hoje.” Ela diz com a voz baixa, o que me faz rir de novo.

            “Claro, até não muito tarde.”

            “Então tudo bem, você me passa seu endereço?”

            “Eu mando para você por mensagem. As sete horas está bom?”

            “Sim, até mais tarde.”

 

            Nos despedimos e eu ligo o som do carro. You only live once começa a tocar e eu amento o volume. Dirijo até a minha casa com a cabeça cheia de dúvidas que pretendia tirar a noite, provaria a mim mesma que sou apenas uma boa amiga.

Notas finais:

Começo essa nota me desculpando com vocês, leitoras. Aqui não é o lugar para isso, mas eu que sempre gostei de escrever, costumo não perder oportunidades. E desculpa também a você para quem esccrevo, que provavelmente vai querer me matar.

Então, vou tentar não enrolar, quando começo a falar de você, não tem parada. Você sabe. Mas, eu queria dizer aqui o quanto você é importante, não somente por ter o seu nome da sinopse como "ajudante especial", ou por você ter o título de beta e namorada. Não somente por seus pitacos espetaculares que, muitas das vezes, mudam minha ideia e tornam tudo muito melhor, que me inspira e me dá ideias incríveis. Não apenas por me aguentar no meu, como você mesma disse, humor incrível e insegurança surreal. Não apenas por corrigir, por me falar que o capítulo ficou bom. Você sabe que você é importante a ponto de não existir Enternecer sem você. Eu escrevo para te fazer sorrir (não é meu único objetivo ao escrever antes que você brigue comigo), escrevo com você tornando isso aqui algo nosso. É nosso programa de casal, e até mesmo um dos melhores, não é? Sem a sua empolgação, cobrança, atenção, pitacos, nada disso existiria. 

Você já me ensinou demais, me mudou demais em relação a insegurança, comportameto por aqui (você sabe do que estou falando), já me mostrou e continua mostrando a importância de certas coisas e detalhes. Me desculpa se tem dia que falo besteira. Obrigada por me ajudar a crescer e melhorar, por estar do meu lado nisso. Por construir Enternecer comigo. Você está tão nessa quanto eu. Ele é tão seu, quanto meu. E eu sou tão sua, quanto ele. Te amo.



Comentários


Nome: laisl (Assinado) · Data: 27/09/2016 06:13 · Para: Capítulo 9

q fofo o Recado. Parabens fe, virei sua fã com Sunshine e mais ainda agora com Enternecer Bjs Boa noite



Resposta do autor:

Oi, tudo bem?

Que bom saber que me acompanha desde Sunshine. Espero que goste tanto quanto de Enternecer!

Beijão, boa noite!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 25/09/2016 06:13 · Para: Capítulo 9
Que notas finais linda. A estória é ótima. Bj

Resposta do autor:

Oi, Patty!

Obrigada pelas notas finais *-*

Espero que a estória continue te agradando.

Beijo!



Nome: sonhadora (Assinado) · Data: 25/09/2016 05:46 · Para: Capítulo 9

Oi Femarques, aqui estou novamente te acompanhando, já te disse o quanto gosto de suas histórias? Pois é, leio tudo que escreves e adoro!!! Como estou adorando mais essa história, você tem um jeito único de contar uma história, e eu te admiro muito, portanto parabéns e que venha mais projetos seus aqui no Lettera.

Beijos e que o universo te cubra de inspirações!!!!



Resposta do autor:

Oi! Tudo bem?

Devo dizer que fiquei imensamente feliz com seu comentário. Que bom que você gosta de tudo o que escrevo, muitíssimo obrigada por me acompanhar!

Muito obrigada e esperemos que não me falta inspiração (Alow! beta, tá vendo? Que o universo também te cubra de inspiração!)

Beijo, espero te ver por aqui de novo!



Nome: Rita (Assinado) · Data: 25/09/2016 05:35 · Para: Capítulo 9

Acho que a Gui já gosta dela :) vamos lá ver né 



Resposta do autor:

Oi, Rita! Que bom te ver por aqui de novo.

Acho que Giu é uma fofa, não é?

Beijo!



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