Sunshine: esperança. por femarques


[Comentários - 184]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

 CAPÍTULO 9

            Olhava a fachada do prédio em que passei três anos estudando, fugindo de um relacionamento abusivo e terrível, e também o ano em que conheci a mulher mais complicada da minha vida.

            Allegra segurou em minha mão, me acordando de meu transe quando sua pele gelada tocou a minha. Olhei para ela e sorri.

            “Tudo bem?”

            “Sim, é só saudade.”

Abri outro sorriso amarelado e caminhei com ela para o saguão do prédio, onde Bob, o porteiro que ainda trabalhava aqui abriu um sorriso largo para mim e veio em minha direção, me tomando nos braços em um gesto espontâneo e assustador.

“Você está diferente, menina!”

Allegra ria ao meu lado enquanto eu espalmava as mãos no peito dele em uma vã tentativa de me soltar. Apenas depois de falar um discurso inteiro sobre como os ares de Chicago me fizeram bem ele me soltou.

“Obrigada, Bob. Podemos subir?”

“Claro, mas o senhor Miller não sabe que vocês estão aqui, ele não me avisou.”

“É uma supresa.” Allegra se antecipou e piscou para ele, colocando fim na conversa banal e que me deixava mais ansiosa ainda.

A formatura de Tom era daqui dois dias e eu não falara com ele desde que brigamos quando resolveu me contar, tarde demais, que Scoutt procurou por mim logo que deixei Seattle, quando resolveu me contar que entregou a ela aquele bilhete cheio de súplica, que não contou a ela sobre meu destino, que a deixou vivendo com essa angústia. Um ano se passou desde que tudo isso aconteceu e eu só soube agora. Nada disso me pareceu justo.

Estávamos em dezembro de 2017, Tom se formaria finalmente. Um mês desde a nossa briga. Allegra não sabia o motivo da briga, achava que era um desentendimento bobo causado pela saudade, então insistiu em vir antes para cá para que fizéssemos as pazes.

“Você está estranha, está tudo bem?” Ela perguntou apertando seus dedos nos meus, com eles entrelaçados. Queria dizer a ela que isso doía, mas não tive coragem.

“Sim.” Abri outro sorriso, daqueles que a enganam e consegui de novo o silêncio que precisava.

O elevador parou em três andares antes de chegar em meu destino e minha cabeça começava a latejar de tanto pensar. Tanto pensar em Allegra, em minha falta de coragem, em meus excessos de tentativas de dar certo com ela, de dar certo apenas comigo mesma, e em nada disso eu ter sucesso.

O elevador se abriu quando minha garganta já doía de tanto segurar o choro acumulado. Puxando uma mala e Allegra puxando outra, caminhamos de mãos dadas até a porta 505. Tom estava parado ali, encostado no batente com os braços cruzados, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, sem camisa, o cabelo bem cortado, mas com uma barba enorme tomando seu maxilar e queixo. Maldito Bob.

Ele abriu um sorriso enorme e deixou os braços caírem ao longo de seu corpo, dando um passo para frente, cheio de esperança. Não sei se foi essa cena ou o número prateado pregado em cima da porta – que me remete, mais uma vez, a ela -, mas caí no choro e corri até Tom, envolvendo meus braços em sua cintura, me agarrando a ele, a única pessoa que poderia me trazer de volta desse pesadelo em que me enfiei.

“Ela está emotiva, Tom.” Escutei a voz de Allegra explicando meu comportamento para ele e isso só me fez sentir o aperto em meu peito aumentar.

Tom gritou por Adele e pediu que ela ajudasse com as malas, e sem me soltar, andou comigo agarrada a ele até o seu quarto, onde fechou a porta e me sentou na cama, ajoelhando em minha frente.

As lágrimas rolavam por meu rosto, caindo em meus lábios, me forçando a sentir o gosto salgado da saudade, da dor, da tristeza, da incerteza, da desonestidade, de um amor que parece perdido.

“Informação demais voltar aqui?” Ele perguntou baixinho, como se não quisesse me assustar.

Balancei a cabeça concordando e funguei, passando as costas da mão no nariz, limpando-o de forma nada delicada e higiênica, para recomeçar a mexer nos pingentes da pulseira que eu nunca tirava, a que ganhei de meu pai anos atrás, mania essa que adotei no aeroporto em Chicago para conseguir lidar com a ansiedade.

“O que foi?”

“Estou brava com você ainda.”

“Me perdoa, eu achei que fosse o melhor para você, mas olha só o seu estado... tem escondido isso tudo há quanto tempo?”

“Desde que me mudei e piorou quando Allegra se mudou lá para casa.”

“Mea, você é um caso perdido e Scoutt também. Achei que era melhor afastar ela de você para que não se destruíssem, mas vocês duas conseguem isso mesmo afastadas de uma forma pior ainda!”

“Eu me sinto culpada por ter perdido ela. Ela veio me procurar e eu não fiz nada. Se perdi todas as esperanças é porque a culpa é minha.”

“Eu que não te avisei, gata. Me desculpa.”

“Eu fiquei brava, mas eu sei que a decisão desse rompimento brusco foi minha. Eu quis cortar o vínculo de uma vez porque não suportava mais sofrer, ficar nessa situação de me doar e não receber nada em troca. E agora eu fico pensando em voltar atrás porque a vi e não consigo esquecer.”

“Mea...”

“Foi muito ruim ver ela na empresa, mas agora vou ter que trabalhar com ela. E ela fica me provocando, sabe? Tina disse que foi ver ela antes de voltar para cá mês passado, e desde então eu não a vejo.”

“E o que Tina te disse?”

“Não muita coisa, disse que ela está sozinha e que me ama, só isso.”

“Você precisa resolver isso, Mea.”

“Eu não queria. Queria conseguir esquecer, queria tentar de novo.” Respondi enquanto mexia obsessivamente na pulseira.

“De novo o que, se você nem terminou o que começou? Você quer dizer que vai continuar tentando esquecer ela. Então, boa sorte.”

Abri um sorriso para ele, com o nariz escorrendo de novo, e dessa vez não precisei usar a mão. Tom se esticou por cima de mim e pegou sua camiseta atrás de mim, limpando meu nariz para mim.

“Está calor aqui.” Reclamei e comecei a tirar o moletom grosso que eu usava.

“É o aquecedor, quero usar quando começar a nevar para ver se funciona.”

Dei risada dele. Com Tom era simples assim. Não era preciso dizer muita coisa, divagar muito e me expor, ele sabia, simplesmente sabia e estava ali, como sempre esteve nos momentos que mais precisei. Ele me mostrava com um sorriso que eu podia confiar nele, acreditar que mesmo que eu continuasse me enganando ou largasse tudo para ir atrás da minha felicidade – tão assustadora e ainda cheia de enigmas e assuntos não resolvidos -, eu o teria por perto me dando o apoio necessário.

“Vamos lá para a sala, tudo bem? Só cuidado para não se machucar. Veja por qual caminho você se machuca menos. E pare de puxar esses pingentes que está me irritando.”

Respirei fundo, inspirando devagar e segurando um pouco a respiração antes de expirar. Concordei com a cabeça e segurando em sua mão, fomos para a sala.

Depois desse ataque de choro e desabafo, conseguir relaxar e me divertir. A barba de Tommy estava mesmo enorme e Adele reclamava bastante, apesar de estar se acostumando. Ele iria se mudar logo que se formasse para trabalhar comigo e em breve ela iria também, só estava esperando a resposta de uma empresa de advocacia. Tudo se encaixava e parecia mostrar a mim que a melhor opção era ficar com Allegra, tocar a minha vida.

A festa de formatura foi em um sábado gelado, com a temperatura baixa o suficiente para que as pessoas na festa bebessem menos. O pai de Tom chegou um dia antes e foi ótimo matar a saudade dele, era como se eu pudesse ter meu pai presente naquele momento.

Observei Allegra o tempo todo enquanto dançávamos ou enquanto eu mentia sentir dor no pé para poder sentar e ter a visão limpa dela dançando sozinha. Ela era linda, encantadora, doce. Mas não tinha a complicação de Scoutt, o quebra-cabeças que era jogado em minha mão para resolver, e como recompensa eu ganhava amor e carinho recheados de uma faísca que esquentava tudo que só ela tinha. Comparar as duas era a pior coisa que eu podia fazer, mas minha cabeça e meus sentimentos já não sabiam mais separar as coisas.

Na segunda-feira pela manhã Allegra voltou sozinha para Chicago, pois tinha que trabalhar, e eu ainda ficaria mais para ajudar Tom com a mudança. No aeroporto, enquanto ela me abraçava forte e roçava o nariz em meu pescoço, me esforçava para pensar no que dizer a ela.

“Vou sentir saudade.”

“Eu também, mas é por dois dias apenas.”

Ela deu risada e beliscou de leve minha barriga. “Mesmo assim, eu vou sentir saudade.”

Dei risada junto com ela e acabei concordando. Eu sentiria sua falta, sentiria falta da cobrança que ela era para mim, da certeza que me passava de que eu poderia ter um relacionamento normal, que eu poderia seguir em frente que iria sobreviver e a dor um dia passaria, ou eu me acostumaria com ela.

“Tudo bem mesmo eu voltar antes?”

“Claro, fica tranquila. O importante era a formatura e você esteve comigo.”

“É que você parece distante desde que chegamos, não quis sair do apartamento para lugar nenhum.”

“É só cansaço, está tudo bem.”

Nos despedimos depois de muitos beijos e abraços. Dirigindo de volta para o apartamento decidi ir ao Salty’s para completar minha nostalgia. Estar em Seattle me trazia de volta ao começo de tudo, ao início de toda essa incerteza. É como se dentro de mim ainda existisse uma pontada de esperança, de desejo de que tudo desse certo, de que se eu voltasse atrás de minha decisão de ter partido ainda estaria com ela, feliz. Evitei sair com do apartamento, e era ruim saber que minha namorada percebeu, porque andar pelas ruas de Seattle mesmo que fosse para ir ao mercado, me lembraria Scoutt.

Engoli em seco enquanto pensava nisso e o motorista do táxi me levava ao restaurante. Pensar assim era o mesmo que sentir um soco no estômago. Era como se a realidade interferisse o tempo todo esfregando em minha cara como estou errada e quão estúpida sou de ter esperanças. Sofri muito com o passado de Scoutt, conheço os fantasmas dela e de nosso relacionamento, e com certeza não daria certo sem resolver tanta coisa que ainda é uma incógnita. Quanto mais eu me lembro das coisas boas que vivemos, de como ela é diferente de Allegra e de como eu me sentia com ela – liberta e feliz -, pior ficam os meus sentimentos. Mais eu me lembro, automaticamente, como uma defesa, dos piores momentos, das brigas e das ofensas, das mentiras, dos argumentos escolhidos a dedos para me magoar afim de me manter afastada.

"Preciso de qualquer sinal, qualquer coisa."

"O que foi moça?!"

O taxista perguntou enquanto parava o carro na entrada do Salty’s. Olhei para ele sem entender e franzi o cenho.

"Chegamos e a senhora estava falando de sinal."

Arregalei os olhos para ele e abri um sorriso tímido, pedindo desculpas. Paguei pela corrida e desci do carro envergonhada por ter falado alto os meus pensamentos. O vento gelado que vinha do oceano arrepiou minha pele e tornou impossível qualquer tipo de tentativa de arrumar meu cabelo.

Com um lacinho de cabelo que andava sempre em meu pulso agora, prendi-o em um rabo de cavalo e entrei, sentindo um cheiro familiar, não só da comida, mas do ambiente. O cheiro que vinha da cozinha, que vinha do porto, que vinha do mar. O cheiro de quando meu pai vinha até aqui comigo, das comemorações com Tom e com nossos pais, da primeira vez que trouxe Allegra aqui e ela foi extremamente gentil, e da última vez que estive aqui com minha mãe e Scoutt não quis entrar.

Enviei uma mensagem a Tom avisando que não me esperasse para o almoço.

O local estava lotado de pessoas empacotadas com roupas de frio. Por ser no porto o frio era pior, mas ninguém perdia o sabor delicioso de comer aqui. Enrolei mais o cachecol em meu pescoço e fui até uma última mesa vaga ao fundo, encostada na janela.

Um garçom se aproximou enquanto eu mexia nos pingentes de minha pulseira de modo nervoso e ansioso, e perguntou o que eu ia querer. Mal sabia que o que eu queria estaria ali, parada na porta, pedindo por uma mesa. Era esse o sinal? Queria que fosse e ao mesmo tempo não queria. Quando levantei a cabeça para olhar o garçom e ditar meu pedido de sempre, vi Scoutt parada na porta com o cabelo esbranquiçado preso em um coque horrível como sempre, todo bagunçado, uma calça jeans clara, seus coturnos pretos, uma camisa polo preta e uma jaqueta por cima, com um cachecol preto jogado nos ombros de qualquer jeito. Senti meu sangue gelar e meus dedos perderem a força, derrubando o cardápio na mesa, fazendo barulho o suficiente para que ela olhasse para mim.

 

 

Notas finais:

Cá estou eu, escrevendo às 3:50 da manhã para você, Lo, a pedido de Bro. Um capítulo novo (que nem ia sair já), mas que... você sabe como Bronte coage as pessoas, não é? Pois é. Eu que escrevi, claro, mas a intenção e o presente são de Bronte. Espero que goste.

"não possa tanta distância

deixar entre nós

este sol

que se põe

entre uma onda

e outra onda

no oceano dos lençóis."



Comentários


Nome: ckamila (Assinado) · Data: 22/12/2015 00:30 · Para: Capitulo 9

Parabéns minha querida...amo de mais a Scoutt

Ela merece uma nova chance com a mea

Quem nunca cometeu erros nessa vida que não mereça uma segunda chance. Tô na torcida pelas duas.

 



Resposta do autor em 11/03/2016:

Obrigada!

Pois é, o passado de Scoutt (que ainda virá a tona), torna seu comportamento compreensível, e quem nunca fez uma besteira ou outra, não é? 

Vamos continuar torcendo!

Beijos, obrigada por ler!



Nome: SaraRilery (Assinado) · Data: 21/12/2015 10:22 · Para: Capitulo 9

Agora que o sinal 'chegou' vê se anda o trem dessas duas agora! Kkkkkk ótima história! 



Resposta do autor em 11/03/2016:

Obrigada!!

Quantos sinais ainda serão precisos, não é? Que demora...

Beijos!



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.