Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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A supressa

 

Demorei um pouco pra dormir. Mas quando finalmente conseguir foi como se o meu corpo flutuasse. Dormir é tão bom. Estava tudo tão perfeito até que...

 

-Aii, meu Deus! - Dou um grito ao sentir alguém me erguendo da cama. Começo a me debater desesperada.

-Fica quieta. - A voz masculina reclama. –Assim você vai acordar a casa inteira. - Rodrigo fala baixinho se afastando da cama comigo nos braços.

-Ficou louco! - Reclamo fuzilando meu primo com os olhos. –O que pensa que está fazendo? - Pergunto colocando as minhas mãos em volta de seu pescoço.

-Te sequestrando. - Diz com um sorriso zombador.

-Estou com sono. - Fecho os meus olhos sentindo o rapaz me carregando. –Então me leve de volta a minha cama.

-Nem vem. Fiquei planejando isso há semanas. - Ele diz já saindo do meu quarto. –Sam está nos esperando. - Quando ele diz isso, arregalo os meus olhos me lembrando que aqueles dois estavam aprontando pro meu lado.

-Rodrigo! - Reclamo tentando sair de seus braços. –Me solta! - Digo séria.

-Eu não. E fica quieta se não vovó vai nos matar.

-Pra onde estamos indo? - Pergunto desistindo.

-É segredo.

-Será que eu posso ao menos trocar de roupa?

-Pra quer. - Ele sorri de lado. –Você está linda vestida com esse moletom velho. E esses seus cabelos estão um charme.

-Seu idiota. - Digo fazendo bico. -Posso ao menos escovar os dentes? - Rodrigo parece pensar. –Por favor. - O rapaz para antes que descêssemos a escada para o andar de baixo. E me coloca no chão.

-Ok. Você tem cinco minutos.

-Obrigado. - Digo dando um beijo em seu rosto e correndo de volta ao meu quarto.

 

-Vamos Lizandra! - O rapaz estava reclamando na porta do meu banheiro a pouco mais de dez minutos. –Se você não abrir essa porcaria eu vou derruba-la.

-E como você pretende fazer isso? - Pergunto sorrindo do outro lado.

-Você quer mesmo pagar pra vê?! - Ele diz irritado. –Lizandra, eu juro que... –Antes que o rapaz termine a frase eu abro a porta, fazendo-o cair.

-A culpa foi sua. - Digo saindo o mais rápido que posso do meu quarto sendo seguida pelo rapaz furioso.

-Eu vou te matar. - Ele sussurra já ao meu lado. –Sua sorte é que não podemos fazer barulho. Então se prepare.

-Eu tô morrendo de medo. - Falo e logo depois lhe mostro a língua.

O rapaz estreita os olhos cinza em minha direção. Eu apenas finjo que não é comigo. Pegamos um dos jipes de vovô e saímos às escondidas às 4 horas da madrugada. Eu não tinha dormido nem uma hora direito. Eu mato esses dois! Quando pegamos a estrada, apaguei.

 

-Vamos dorminhoca. Acorde. - Sinto mãos delicadas passearem pelo meu rosto. –Liz... - Ouço uma voz conhecida me chamar. Mas eu estava com tanto sono. Mas a pessoa insiste.

Abro os meus olhos com dificuldade. Olhos amarelados me sorriam. Eles estavam tão próximos. Arregalo os meus olhos, supressa. Nem mesmo havia percebido quando Samantha havia chegado. Ela estava novamente ali, tão perto.

-Vamos? - A voz de Rodrigo me chama a atenção

-Pra onde? - Pergunto com dificuldade.

-Não acredito que você se esqueceu de nossa tradição de família. - Quando o rapaz loiro diz isso. O encarro assustada. “Não pode ser!” Penso desesperada.

-Ah não, Rodrigo! - Digo me levantando as presas do banco do carona e me aproximo de meu primo. –Você ficou louco se acha mesmo que eu vou...

-Ah, você vai! - Ele diz estreitando os olhos.

-Não acredito que você está envolvida nisso Sam. - Reclamo olhando para a garota ao lado de Rodrigo.

-Ah, é legal. - A garota diz sorrindo. –Quando Rodrigo falou que precisava de ajuda para te fazer uma supressa. Topei na hora. E quando soube do que se tratava, eu também quis uma. E aqui estamos nós. - Samantha abre os braços mostrando a minha frente o estúdio de tatuagem.

-Que eu saiba somos menores de idade. - Digo com astucia para a garota de olhos amarelados. –Então deixa pra próxima. - Dou meia volta e me aproximo do carro.

-Nem pensar. - Sinto meu corpo sendo erguido.

-Me solta seu idiota! - Digo reclamando para meu primo. –Será que já não sou colorida o suficiente para não ter que passar por essa tortura?!

-Vamos lá minha baixinha. Pensei que fosse mais valente que aqueles dois medrosos. - Rodrigo fala se referindo aos meus outros dois primos. Que tiveram que passar por isso quando tinham a minha idade.

Essa tradição começou com nossos pais. E agora estávamos nós dois ali. Pra falar a verdade, era para papai me acompanhar. Como os pais de meus primos. Mas ao menos eu tinha Rodrigo para passar comigo essa fase transitória em nossa família. Eu tinha o que nenhum deles tiveram. A minha Sam estava ali.

-Ok. Mas me coloca de volta no chão. - Reclamo. O rapaz loiro faz o que peço a contra gosto. –Mas e o que Sam está fazendo aqui? - Pergunto contrariada.

-Precisava de testemunha para o seu chororô. - Diz zombando.

-E eu adorei a ideia. - A voz rouca comenta calmamente.

-O quer?! Vê meu chororô? - Pergunto perplexa.    

-Não boba. - Samantha me encara séria. –Eu também quero uma.

-Tia Sarah vai te matar.

-Que seja. - A garota ergue a sobrancelha. –Mas ao menos eu terei marcada em minha pele a lembrança de minha adolescência. E quando eu me lembrar. - Os olhos amarelares que encaram amáveis. –Você estará nela.

-Ei, eu também estou aqui. - Rodrigo reclama fazendo bico.

-E esse chato também. - Sam completa sorrindo. Sam e Rodrigo sempre se deram bem desde pequenos. Acho que a cisma da garota de cabelos negros naquela época era só comigo mesmo.

 

E lá estava eu. Esperando que o tatuador acabasse com a tatuagem de Samantha. Não sei como meu primo conseguiu convencê-lo. Não só a fazer as tatuagens, como a nos atender aquela hora da manhã. Confesso, estava nervosa. Ainda mais com a cara de dor que Sam fazia. Ela choramingava toda vez que as agulhas lhe tocavam a pele. Fiquei com medo.

Então para o meu terror chegou a minha vez. Escolhi uma tatuagem. “Já que é pra fazer, então que seja algo que vale a pena.” Penso sorrindo com a escolha da tatuagem. Ela era grande. Iria demora mais tempo que a de Sam que foi o símbolo do infinito na lateral do pulso esquerdo. A tatuagem era pequena e delicada. Levou pouco mais de meia hora. Rodrigo me sorrir aprovando a minha escolha. E isso significou muito pra mim. Ele está aqui comigo nesse momento, era muito importante. E ter Sam ao meu lado, eu não tinha palavras para descrever isso.

-Está pronta? - O homem de cabelo colorido e coberto de tatuagens me pergunta.

-Não. Mas pode começar. - Digo prendendo a respiração quando escuto o barulhinho da maquininha de tatuar. O homem de olhos escuros me sorrir como se assim me passasse confiança. Logo depois coloca a mascara sobre a boca. Então começamos.

Quando as agulhas tocaram a minha pele não foi tão aterrorizante quanto imaginei. E eu passei as próximas horas sentindo-as rasgarem a minha pele. A música tranquila de fundo. Me fez ter mais certeza de minha escolha. Eu a terei tatuada em minha superfície pra sempre.

O tempo passou rápido. Quando dei por mim. Ratão o tatuador já estava acabando, e só estava dando os últimos retoques.

-Ficou linda. - Ele fala admirado com o seu próprio trabalho. –Boa escolha. - Ratão elogia.

-Obrigado. - Digo baixinho.

 

Olho pelo grande espelho a tatuagem pronta. Lágrimas discretas embaçaram os meus olhos azuis. Rodrigo, nem Samantha se atreveram a dizer nada.

-Tudo bem? - O tatuador pergunta confuso.

-Sim. - Digo sem desviar os olhos do piano e da mulher sentada de costas diante dele. Lá estava ela, fazendo o que mais amava. E o que mais me aproximava dela. A tatuagem cobria boa parte de minhas costelas. Ela ficava do lado esquerdo, logo abaixo do meu seio. –Apenas estou emocionada. - Digo sem desviar os olhos da tatuagem em minha pele.

Escolhi em meu celular uma das fotos que eu mais gostava de mamãe. E lá estava ela. Realmente Ratão era um excelente tatuador. Cada traço, cada sombra. Ficou perfeita. “Só faltou papai aqui.” Penso com tristeza. Eu também queria que a mulher que eu jamais terei o prazer de conhecer, e de chamar de mãe também estivesse. Mas nem tudo é do jeito que queremos ou desejamos.

O tatuador passa um spray para não infeccionar. Cobre a tatuagem com um plástico com cuidado. Agradeço novamente e visto a camiseta. Ele nós passou uma lista de recomendações do que não fazer ou comer até que as tatuagens estivessem cicatrizadas. Rodrigo pagou e fomos embora. Não conversamos muito durante o caminho. Deixamos Sam em casa e fomos direto para a fazenda. O garoto loiro respeitou o meu momento, assim como a garota de olhos amarelados que partiu alguns minutos atrás.

Em todo o caminho, eu fiquei ali, olhando para fora da janela. Sam estava certa. Essa lembrança tatuada em minha pele jamais será esquecida. Assim como a minha adolescência. Eu não esquecerei esse dia. Por que Sam e Rodrigo estiveram nele.

As semanas se passaram vovó ficou uma fera quando ficou sabendo do que fizemos. Tia Sarah quase trucida Samantha e Rodrigo. Eu escapei por pouco de seu olhar matador. Afinal, foram os dois que me arrastaram. A tatuagem já tinha cicatrizado. Confesso, se futuramente aparecer outra oportunidade. Farei outras. Rodrigo estava amando ficar na fazenda. E eu a companhia dele. Estávamos sempre juntos. Sam às vezes nos fazia companhia. Nunca tinha conhecido alguém que gostasse tanto daquele lugar quanto vovô Bernardo.

Paco e Priscila também passaram a frequentar a fazenda com mais frequência. Havia um clima romântico entre meu primo e minha amiga. Priscila estudava com Sam. Tinha dezesseis anos, morena e olhos verdes. Aqueles olhos eram a marca registrada da família Pacheco. Era mais alta que eu. Mas quem não era?! Tinha uma personalidade doce e amável. Era uma das pessoas mais educadas e amigas que conheço. E eu a adorava. Sempre nos demos super bem. Priscila era a irmã que nunca tive. 

 

-Você gosta dela? – Pergunto para o garoto loiro deitado ao meu lado na espreguiçadeira. Estávamos há horas ali. Curtindo aquele clima agradável. Não estava tão quente, então resolvemos aproveitar a piscina. Afinal, somos dois transparentes. Se pegássemos muito sol. Torraríamos.

-Acho que sim. - Diz envergonhado.

-Não acredito! - Olho-o sorrindo. –Então por que você ainda não se declarou pra ela?

-Por que eu vou embora daqui a alguns dias. - Sua voz soa triste. –Eu não quero magoá-la.

-Estou orgulhosa de você. - Rodrigo volta a fechar os olhos. –Fique sabendo que se você o fizesse, eu te mataria. - Digo séria.

-Eu sei. - Ele me sorrir. –Priscila tem sorte de ter você.

-E eu de ter ela. - Minha voz sair risonha. –Então estamos quites.

-Sim. Estão.

-Por que você não mora aqui com a gente. - Minha voz sai esperançosa. –Você pode fazer faculdade, assim como o tio Marcos quer. E de quebrar não vai embora.

-Papai me mataria. Ele...

 

-Mas que porra é essa?! - Uma voz estrondosa nos assusta. 

 

 

 

 

 

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