1808 por Drikka Silva


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“ ... – Ana Maria! – Ouvi o grito de minha mãe. Fiquei paralisada enquanto ela vinha em minha direção. – Que roupas são essas? Por acaso esteve brincando com os porcos?

- Não mame. – respondi a beira das lagrimas.

- Por que então teu vestido está todo enlameado?

- Por favor, mamãe não me castigue.

- O que fizeste Aninha?

- Fui ter com Zambine. Precisava ver como ela estava.

Mamãe não me respondeu nada. Ficou me olhando e depois colocou-me pra dentro de meu quarto, ajudou-me a tomar banho e a trocar de roupa.

- Quem deixou a porta aberta?

- Pulei a janela...

- Não mintas pra mim Aninha. Vi que a fechadura estava destrancada.

- Desculpe mamãe. Foi Pedrina, mas ela fez isto porque implorei que me ajudasse.

- Porque te arriscaste por uma escrava?

- Porque sinto um carinho muito grande por ela e não suportei a idéia de não vê-la.

- Gostas de sua escrava?

- Ela não é minha escrava. És minha queridíssima amiga.

- Sentes por ela o mesmo que sentias por Joaquim?

- Eu sei que é errado mamãe, mas não sinto o mesmo sentimento que nutria por Joaquim... É maior. Queria estar no lugar dela para que eu não a visse sofrer...

- Sente-se aqui Aninha.

- Não brigues comigo mamãe. – Pedi com os olhos cheios de lagrimas e medo.

- Não vou brigar contigo. Você está apaixonada por ela?

- Eu não sei. Mas seria capaz de morrer por ela.

- Jamais diga uma tolice dessa novamente. Estas amando Zambine e isso não é bom. Teu pai é um homem ruim e vai matá-la se souber disso.

- Não conte a ele mamãe...

- Não irei, mas quero te contar uma coisa. Lembra-se do escravo que possuíamos em Lisboa? Eu o amei de todo o meu coração. Queria viver ao lado dele por toda a minha vida. Queria ter um filho dele como fruto do nosso amor. Seu pai descobriu, pois um dos seus servos delatou nossos encontros as escondidas. Não me veja como um monstro, Aninha. Nunca fui apaixonada por teu pai. Casei-me com ele porque papai assim quis. Não pude escolher minha sorte e quando conheci aquele rapaz foi como se derrepente eu entendesse o sentido da palavra amor... Não há um dia que passe sem que eu não chore por nosso destino. Seu pai mandou matá-lo. Chamou-me de leviana e de outros nomes que não ouso pronunciar. Tenho certeza que de onde meu amado estiver, estas olhando por mim e esperando-me do lado doce da vida porque este lado é cruel e amargo. Jamais brigaria contigo por amar um escravo. Mesmo sabendo que não há chances de serem felizes, mas Zambine é uma mulher igual a ti e isto torna sua sina ainda mais triste.

- Não me importo com minha sina se sempre tiver Zambine junto comigo. Eu a amo mamãe.

- Eu sofri muito e ainda sofro por amor. E tu vais sofrer muito mais do que eu. Tens certeza que é isto mesmo que queres?

- É a única coisa que tenho certeza mamãe.

- Não tenho forças para ir contra este teu desatino. Vou rezar toda noite por ti e Zambine.

Mamãe saiu de meu quarto e trancou a porta novamente. Não sei quando poderei ver Zambine novamente...”.

 

“... Uma semana se passou querido amigo e não pude ver Zambine. Chorei por sua ausência, mas nada podia fazer a não ser aceitar a condição que me foi imposta. Mamãe esteve comigo e Pedrina também. A porta do meu quarto foi destrancada, mas não senti forças de me levantar da cama. Não havia nada apara fazer sem Zambine ao meu lado. Papai trouxe-me uma carta de Joaquim e disse que ele lhe escreveu também: Irá partir de Portugal no começo deste mês. Não tive como falar a papai que não quero casar-me...”

 

“... Acordei com papai entrando em meu quarto pela manha. Ele trazia Zambine junto a ele.

- Tua mãe me convenceu a deixar-te com esta escrava, mas se fizerem alguma coisa que me contrarie as conseqüências serão bem piores que da ultima vez.

Não ouvi as palavras de papai. Pulei da cama e corri de encontro a Zambine. Minha amada estava de volta! Ficamos por horas a fio quietas no quarto. Conversamos sobre o acontecido e de como teríamos que ser mais cautelosas para não causar a ira de papai. Zambine estava recuperada pela surra que levou. Ainda ostentava um machucado na boca, mas seu rosto não estava mais inchado. Ela não quis beijar-me e entendo seus motivos. Fomos até a cozinha e fiquei rindo com Antonia e Pedrina até o cair da noite. Ao despedir-me de Zambine de um beijo em suas mãos e corri para falar com mamãe.

- Não tenho palavras para agradecer-te por ter intercedido por mim e por Zambine.

- Agradeça-me sendo feliz mais do que eu fui...”.

 

Isabel fechou o livro e desceu para almoçar. Se sentia com o corpo leve. Entrou na cozinha mas não encontrou Natalia. Joana estava terminando de preparara refeição.

- A Natalia saiu? – Perguntou se sentando na soleira da porta.

- Foi ver o Adenilson. Disse que tinha um assunto muito serio para tratar com ele. Desculpa perguntar senhora, mas eu vi a senhora chorando ontem... Aconteceu alguma coisa?

- Nada. Me emocionei com a historia de Ana Maria. Sabia que ela nutria uma paixão secreta por sua dama de companhia?

- Que estranho... E como ela teve filhos?

- Não sei. Deve ter se casado obrigado pelo pai. Não li ainda.

- Jamais obrigaria minha filha a nada. Por isso que eu não falo que ela deve se casar. Nada do que é feito obrigado tem, bom resultado.

- Já imaginou se um dia sua filha fala que ama outra mulher? – Isabel jogou um verde.

- Eu vou me lamentar sim, dona Isabel, mas a vida é dela. Vou morrer primeiro que ela então de que vai adiantar eu brigar com ela e ir pro tumulo sem falar com a pessoa que mais amo no mundo que são meus filhos? Eu só não vou aceitar de maneira nenhuma coisa errada, fazer mal pra outra pessoa. Isso eu não aceito jamais... Mas e a senhora o que acha?

- Eu não sei mais o que pensar... Preciso desabafar Joana: A Sophie namora com uma mulher.

- Verdade dona Isabel?

- Verdade. Por isso que eu não to falando com ela.

- A senhora conhece essa menina namoradinha dela?

- Conheço. É a Julia. Você já a viu no ano passado. É aquela morena que esteve conosco aqui.

- É aquela uma que a senhora ficou chamando de... Tina... Ai não sei falar esses nomes estrangeiros....

- Tina Turner. – Isabel fala rindo da lembrança – Ela tem uma voz linda como a dela! Claro que a citação da cantora foi pelo fato dela ser negra também.

- Nossa ela é tão legal... De boa família...

- Eu sei, mas foi um choque tão grande...

- Foi como eu disse a sophie vai viver mais que a senhora e não vai adiantar nada ficar de bico. Liga pra ela.

- Ainda não cheguei nesse ponto Joana. Tenho que me acostumar com a idéia de ter uma nora e não um genro.

 

“ ... Zambine trouxe-me o chá matinal e escovou meus cabelos com a mesma ternura com a qual estou acostumada. Falei a ela que Joaquim está vindo e que só vou me casar se papai consentir que ela permaneça comigo. Ela se mostrou arredia, mas concordou que seria o melhor para nós duas. Tirei a bandeja do chá de sua mão e a abracei.

- Ninguém conseguirá nos afastar.

Dei-lhe um beijo demorado. Ela ficou com medo de que alguém entrasse no quarto, mas a tranqüilizei dizendo que papai não entraria sem bater. Tomamos sol no terreiro durante a tarde e ela me mostrou seu irmão Zambu. Ele disse que Zambine havia contado a ele o que estava acontecendo entre nós duas e disse que aquilo era loucura, mas não podia fazer nada a não ser pedir que os deuses olhassem por nós. Fiquei tão satisfeita com sua reação e mais feliz ainda por Zambine contar sobre nós a seu irmão. Passeamos perto do jardim de mamãe e Zambine colheu uma rosa, tirou os espinhos e colocou em meus cabelos.

- Esta rosa não és mais bela que ti, mas serve para enfeitar teus cabelos.- Falou pegando minhas mãos.

- Guardarei esta rosa como uma jóia.

- Sempre que a ver quero que pense em mim.

- Penso em ti mesmo sem a rosa. Mas vou lembrar-me disso sempre...

Fomos ver o potro que nascera, agora mais forte já pastava com sua mãe. Ele estava crescendo forte assim como o que eu sinto por Zambine. Voltei pra casa e coloquei a rosa que ganhei em uma caixa onde mamãe costumava guardar suas jóias. Tenho certeza que ela vai perdurar por gerações futuras...”.

 

 

Isabel deixou o diário encima da cama e foi atrás da rosa que havia encontrado no baú: Tirou-a da caixa e ficou imaginando aquela cena a mais de um século. Não havia duvidas do amor nutrido e como se quisesse deixar mais perto de Aninha depositou a flor dentro do diário.

Nome: mtereza (Assinado) · Data: 14/04/2017 01:54 · Para: Capitulo 9 - Rosas

Joana consegue enxergar do jeito dela que a felicidade dá filha é bem mais importante do que a sua sexualidade e Isabel não 



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