Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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Mudanças

 

O restante do ano passou tão rápido que me assustou. E quando eu me dei conta já era novamente meu aniversário. Diferente do ano que passou, esse decidir fazer algo diferente por insistência de vovó Catherine. Então foi a primeira vez desde que eu tenho entendimento sobre o que esse dia significa em minha vida, que o deixo respirar o meu lado bom. Então resolvemos fazer um pequeno jantar para as pessoas mais próximas. E como sempre, papai não estaria ali.

Ouço leves batidas há porta.

-Posso entrar? - Uma voz calma soa do outro lado.

-Não sei. - Digo me olhando no espelho com duvida.

-Liz... - A pessoa insiste. Dou um suspiro para a garota do espelho. Ela continuava colorida demais.

-Entre. - Falo sem me importa muito para o visitante que caminha até onde estou, e fica me analisando por longos minutos. Seus olhos verdes brilham admirados.

-Você está linda! - Ele diz algum tempo depois. E outro suspiro irritado sai de minha boca. Paco me sorri amigável através do espelho.

-Por que eu tinha que ser tão colorida? - Questiono-o fazendo bico.

-Só você mesmo. – Ele fala revirando os olhos, entediado. –Nunca tinha visto alguém reclamar por ser tão bonita antes! - Paco volta a me olhar. –Você é linda, Liz.

Fico sem graça com o comentário do moreno de olhos verdes. Seus galanteios estavam sendo frequentes. Não que eu não gostasse de ser admirada. Mas Paco era um de meus melhores amigos. Crescemos juntos, e eu não o via com outros olhos a não ser de amizade. Vendo que fiquei sem jeito. Ele começa a contar algumas de suas tão conhecidas piadas. Fazendo-me sorrir. Quebrando aquele clima embaraçoso. Sua companhia era sempre agradável. Paco era aquele tipo de pessoa que sempre animava a todos. Era alegre e carinhoso. Aquele tipo de pessoa que você quer sempre ter por perto e levar para vida toda.

Nunca levei muito a sério as suas cantadas. Afinal, ele sempre fazia isso com toda garota que achava bonita. Sam penava na mão dele. Paco amava perturbá-la, principalmente por que ela se irritava com facilidade. Por vezes eu tive que acalmar os ânimos junto com Priscila. Prima de Paco. Ela assim como ele fazia parte principal de minha infância até aqui. Eles eram netos de Susana e Emanuel Pacheco. Amigos e companheiros de profissão de vovó Catherine.

-O que há de errado? - Paco volta a chamar a minha atenção.

-Odeio essas porcarias de sardas. - Reclamo tentando cobri-las com maquiagem.   

-Elas são o seu charme. - Comenta Paco com uma certeza tão grande que me deu pena contrariá-lo.

-Essa roupa está boa? - Pergunto mordendo o meu lábio inferior. Meus olhos atentos à imagem no espelho.

Ganhei corpo durante esse ano que passou. Comecei a criar formas de mulher. Cintura fina, pernas grosas. Até meus seios estavam crescendo. O que eu agradecia. Por que há alguns meses atrás eu parecia uma tabua de tão reta. Não que fosse algo exagerado. Afinal, eu ainda era uma garota que estava completando quatorze anos. Então o meu corpo tinha muito ainda o que desenvolver. O que me deixou mais feliz é que eu estou um pouco mais alta. O que demorou um século a acontecer.

Olho atentamente o meu vestido rodado curto. Ele era lindo. Preto com pequenos detalhes vermelhos. Estou de salto. Algo que não costumo usar. Mas que pela ocasião era necessário. Meus cabelos estão comportados em uma trança. Meus olhos azuis destacados pela maquiagem escura.

-Você está perfeita, Liz. - O garoto se aproxima colocando as mãos sobre os meus ombros. Ele era alto.

-Não sei... - Digo analisando com cuidado a imagem refletida. –Tem alguma coisa que não...

-Ok. - Paco dar um suspiro me virando para ele. Seus olhos verdes me encaram com carinho e seriedade. –Minha linda, você está perfeita como sempre. - Um sorriso discreto foge de seus lábios. –Eu até namoraria sério com você. - O garoto me diz e me pisca um olho. –Que tal?! Você aceita?

-Atrapalho? - Uma voz rouca e séria nos chama a atenção.

Meus olhos são atraídos pelos amarelados. Eles estão brilhantes. Há algo diferente na garota parada a porta de meu quarto. Mas eu não sei dizer o quer.           

-Talvez. - Paco diz sem tirar as mãos de mim.

-Oii! - Digo tímida. Os olhos amarelados se estreitam. Samantha continua parada no mesmo lugar.

-Talvez? - Ela pergunta para o garoto me ignorando.

-É, estou perguntando para a garota mais bonita que conheço se quer ser minha namorada. E ela ainda não respondeu. - O tom de voz de Paco não parecia brincadeira como das outras dezenas de vezes. Então arregalo os meus olhos, supressa.

-Ok, espertinho. - Digo me desvinculando de suas mãos. –Dessa vez eu quase levei a sério. - Digo lhe sorrindo carinhosa. Levo uma de minhas mãos ao seu rosto.

-Mas é sério. - Ele comenta segurando firme a mão que está em seu rosto a levando até a sua boca. Beijando-a em seguida. –Você aceitar ser minha namorada?

-Paco! - Em meus lábios ainda há um sorriso carinhoso. Já passamos por isso tantas vezes, que chega a ser cômico. Me aproximo, beijando a sua bochecha. –Sinto muito, mas você não faz o meu tipo. - Digo brincando.

-Aii! Essa doeu. - Um sorriso diferente aparece em seus lábios. –Mas não custa nada tentar. – O rapaz comenta. Me afasto, sei que estamos sendo observados pela garota de olhos amarelados. –Só uma pergunta. - Paco segura a minha mão me voltando novamente pra ele. –Por que eu não faço o seu tipo? Eu faço o tipo de todas.

-Eu não sou todas. - Comento debochada. Ele sorrir como se concordasse.    

-Lizandra! - A voz rouca me desperta. Sei que ela está sem paciência. –Sua avó está querendo falar com você. E estão todos te esperando lá embaixo.

-Diz que já descemos. - O garoto responde por mim.

-Não sou garota de recado. - A voz rouca soa zangada.

-Paco, vai indo na frente. - Minha voz sai baixa. Há algo errado com Sam. –Avise pra vovó Catherine que já descemos. Por favor.

-Mas...

-Não vamos demorar. - O garoto dar um suspiro entediado. Me sorrir e sem dizer mais nada me beija a testa.

-Você está realmente linda. - Ele diz e se volta pra saída. Mas antes de se retira, se vira para a garota séria parada a porta. –Sam, se ela não aceitar namorar comigo eu fico com você. - O cara de pau diz sorrindo. –Você também está linda. - Paco lhe beijo o rosto e se vai. Zombando das reclamações de Sam.

 

-O que houve? - Pergunto longos minutos depois. Não suportando o silêncio que caiu sobre nós duas. Mas garota continuava ali, parada me observando.

-Você está linda. - Sam diz com um sorriso de lado.

-Obrigado. - Digo constrangida. Por que toda vez que ela diz algo parecido, eu acredito. –Você está bem? - Volto a perguntar ao vê-la tão quieta.

-Só estou te admirando. - Sabe quando as palavras te fogem? As minhas fizeram exatamente isso.

-Ok. Por acaso vocês tiraram a noite para me constranger? - Pergunto me aproximando e lhe dando um abraço apertado. –Boa noite senhorita. - Digo me afastando.

-Boa noite. - Ela estava tão leve agora. –Tenho uma supressa pra você. - Seus olhos amarelados brilharam em expectativa.

-Ah não, Sam! - Reclamo fazendo bico. –Ainda não superei a sua última supressa.

-Eu não tenho culpa de você ter medo de altura. - Fala de forma inocente. –Prometo que você vai sobreviver.

-Tenho a ter medo de perguntar o que você andou aprontando. - Comento sem desviar os meus olhos dos seus.

-E quem te iludiu que eu te falaria. - Samantha me encara de forma travessa.  

-Então já que não tenho escolha. E não tenho como fugir dessa noite. - Me aproximo da garota lhe estendendo a mão. –Vamos?!

Samantha estava linda. Em um vestido curto. Ela estava mais mulher. Seus olhos amarelados com uma maquiagem também escura. E assim como eu, ela estava de salto. Descemos as escadas conversando sobre coisas rotineiras. Sam era mais que minha melhor amiga. Era algo em minha vida que eu ainda não sabia nomear.

Quando finalmente chego ao andar de baixo sou atacada por braços fortes e protetores. Sinto os meus pés deixarem o chão. Estou sendo esmagada pelo abraço de urso. Quando finalmente os meus pés voltam a tocar o chão. Olhos risonhos me encaram.

-Aii, Liz! - O rapaz a minha frente reclama passando a mão sobre o braço. –Isso tudo era saudade? - Meu primo me questiona risonho.

-Você quase me esmagou, Rodrigo! - Reclamo fazendo bico, sentindo os meus ossos doerem. Sam, apenas observava tudo sorrindo.

-Credo. Venha me dar outro abraço? - O rapaz loiro abre os braços me convidando.

-Nem morta. - Digo me colocando atrás de Sam. Que caiu na gargalhada chamando a atenção do restante das pessoas que estavam na sala de estar.

 

Rodrigo era meu primo mais velho. E o que eu mais gostava. Ele tinha dezenove anos. Era loiro, alto e chato pra caramba. Mas eu o amava como a um irmão. Ele havia acabado o colegial e, foi mochilar durante um ano. Tio Marcos quase fica louco quando descobriu os planos do rapaz. Vovô Bernardo que o convenceu a deixa-lo ter essa experiência. Ele sempre me ligava para contar sobre as suas aventuras. Até dizia que quando eu estivesse mais velha me carregaria para viajar por alguns meses com ele.

 

-Então quer dizer que você vai passar um tempo aqui na fazenda? - Pergunto esperançosa durante o jantar.

-Vou sim. - Rodrigo diz me sorrindo. –Já falei com papai. Ele deixou. - O rapaz faz uma careta engraçada. –Mas depois terei que voltar pra casa.

 

A noite não poderia ter sido mais agradável. O jantar foi maravilhoso. Vovó Rúbia não pode ir, mas me ligou desejando um feliz aniversário e, me prometeu que assim que tivesse uma folguinha iria me ver. Vovó sempre insistia para que eu fosse morar com ela. Mas tudo o que eu conheço e amo está aqui. Não que eu também não a amasse. Apenas não me via saindo do meu lugar seguro. Do lugar em que nasci e cresci.

Eu estava morrendo de curiosidade. Mas Sam não me dizia o que era a tal supressa. Rodrigo também estava envolvido, mas nenhum dos dois me dizia.

 

-Amei! - Digo olhando encantada para a pulseira agora em meu pulso. Meus dedos tocam com delicadeza um por um dos pingentes.

-Eu mandei fazer cada um dos pingentes. Ela é única. - Sam diz timidamente.

-Obrigado. - Agradeço lhe sorrindo.

-Você merece. - A garota de olhos amarelados fala com carinho. –Eu não ganho nem um abraço? - Reclama fazendo bico. Ela estava tão fofa. Então eu me jogo em seus braços a apertando e enchendo-a de beijos. Sam acabará de me dar uma pulseira de ouro branco personalizada de presente de aniversário.

 

O restante da noite aproveitei com meus amigos. Priscila se encantou com meu primo que pelo que pude notar também havia gostado da morena de olhos verdes. Minha professora de música me presenteou com um lindo violão preto. Júlia não era apenas minha professora de música. Ela era amiga há anos de minha família e uma das melhores amigas de mamãe.

Fizemos uma fogueira lá fora e improvisamos um luau. Júlia e eu tocamos e cantamos algumas músicas. A noite estava linda, com uma magnifica lua cheia. As horas foram passando e as pessoas se despedindo.

 

-Vamos, Liz.?! - Rodrigo me chama para entrar. Só restávamos nós dois.

-Pode ir Rô. - Lhe sorriu com ternura. –Quero ficar só mais um pouquinho.

-Não demora. - Ele diz protetor. –Está tarde.

-Tudo bem. - Digo sem desviar os meus olhos das braças quase apagadas da fogueira.

Ouço-o partir. A madrugada estava agradável. Um vento leve soprava afagando o meu rosto. Fico ali por alguns minutos. Meus olhos caem sobre o violão que ganhei de Júlia. Dou um sorriso magoado. E duvidosa o pego. Minhas mãos estão tremulas. Respiro fundo, e meus dedos delicadamente deslizam sobre as cordas do violão. E a música que ele tocar é tão triste.

-Desculpe-me, mamãe. – Minha voz sai em um fio. Fecho os meus olhos por um momento tão curto. E quando eles se abrem, eu me levanto com rapidez e vou embora sem olhar pra trás. 

 

 

 

 

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