1808 por Drikka Silva


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Isabel deixou o diário de lado e começou a andar pelo quarto. Um turbilhão de emoções passava pelo seu consciente. Aninha nutria um amor puro, verdadeiro e inocente por sua dama que indo contra todos os preceitos era uma mulher! Não havia como condenar aquela criança. Não havia como condenar Zambine. Um amor nascido do carinho e cumplicidade mutua. Zambine era uma garota machucada pela vida e Aninha uma menina que jamais teria a vida que ela queria na corte. Isabel abriu a janela e deixou o ar quente invadir seu quarto. Seus pensamentos alternavam entre Natalia e Sophie. Natalia estava deslumbrada com ela e Sophie vivia com a mulher que ela com todas as letras disse amar, talvez um amor puro e inocente como o de Aninha e Zambine. Isabel estava agindo como Teodoro que desconhecia os sentimentos da filha e da escrava: Estava sendo inflexível e intransigente como uma ditadora da moral e dos bons costumes. "Você é uma Gonçalves Silva e tem que se comportar como tal". Afinal quem eram os Gonçalves silva de verdade?,

 

"... O tapa que papai me deu marca meu rosto. Ainda arde, mas isso não é nada ao que fizeram com Zambine. Papai nos viu chegar em casa com o cavalo. Viu também a cesta de piquenique que estava em minhas mãos. Nunca senti o peso de sua cólera, papai jamais havia levantado a mão pra mim. Zambine levou três açoites e foi trancada na senzala. Mesmo com papai xingando-a e batendo ela não demonstrou medo. Apenas me olhava enquanto tentava de todas as formas livar-me das mãos de mamãe e Antonia.

- Papai não fizemos nada de errado! Não a machuque... Por favor!

- Cala-te Ana Maria. Avisei que não querias que te afastasses da casa! Tenho certeza que foi essa crioula que te incitou a fazer tal ato!

- Estive com Zambine de bom grado. Foi vontade minha.

Nunca havia gritado com papai antes e foi nessa hora que senti o peso de sua mão em meu rosto.

- Leve esta imunda daqui e a tranque no quarto! Não que minha filha tenha modos tão selvagens. - Papai disse a mamãe e virou-se para o capitão do mato - Leve esta daqui para a senzala e tranque-a como um animal. Se quiseres podes tomá-la a ti.

As palavras de papai me chocaram! Ele não pode ser tão ruim assim! Papai era um homem bom... O que aconteceu para que se torna-se este ser tão mesquinho e sem coração? Fechei os olhos e fiquei sentada num canto do quarto no chão. Tentei não ouvir os gritos que saia da senzala. Não queria acreditar que era minha amada, sim minha amada e não se zangue comigo querido amigo, que soltava aqueles sons grutuais...".

 

"... Hoje acordei ansiosa por ver Zambine. Esperei-a em meu aposento, quem veio pentear-me foi Pedrina.

- Onde está Zambine? - Perguntei com o coração disparado.

- Ela não ira acompanhar-te mais.

- E porque não?

- Aninha jamais contrarie teu pai. Ele é um homem rude e cruel. Se não queres que nada de mal aconteça a Zambine arranjas outra dama. Deixe-a cuidar dos serviços da casa com as outras escravas.

- Não quero ficar longe dela, Pedrina. Sua presença me traz paz.

- Zambine está muito machucada. Não poderá estar contigo pelos próximos dias.

- O que fizeram com ela Pedrina?

- O que teu pai faz com todos os escravos que desobedecem as suas ordens. Com licença.

- Espera!

- Pois não senhorita?

- Ajude-me Pedrina. Por favor! - Pedi pegando em suas mãos.

- O que queres que eu faça?

- Quero vê-la. Não me negue isto. Quero somente vê-la.

- Seu pai me mataria.

- Ele não saberá. Apenas deixe a porta de meu quarto aberta e irei até a senzala. Se ele porventura me ver, direi que pulei a janela.

- Seu pai mataria você.

- Ele jamais faria isso comigo e no mais prefiro a zanga de papai do que ficar longe de Zambine.

- Sentes muito afeto por esta escrava não é?

- Muito Pedrina. Muito.

- Que os orixás te protejam.

- Pedrina saiu do quarto e deixou- me aliviada por saber que a porta estava aberta. Coloquei um vestido um pouco mais leve que me permitia correr. Sai do quarto e não encontrei ninguém pelo corredor. Dei a volta na sala e corri para a grande cozinha que dá a saída mais próxima da senzala. Dei um esbarrão em Antonia.

- Menina Ana, O que faz fora d teu quarto?

- Não conte para ninguém, Antonia. Preciso ver Zambine.

- Não poso permitir que cometas esta loucura!

- Papai não ficara sabendo... Por favor, Antônia ajude-me a ver minha querida...

- Estou colocando meu corpo no tronco, mas não posso te impedir de ver Zambine. Vá.

Sai correndo do casarão em direção da senzala. Por sorte não encontrei ninguém que prestasse atenção em mim. Alcancei a porta da senzala que já estava sem o cadeado. Pedrina havia tirado pra mim. O chão lamacento sujou meus sapatos e quase não consegui ver nada. As acomodações precárias e os leitos no chão me fizeram lamentar ainda mais pela sorte de Zambine. Nenhum ser humano conseguia viver em um lugar como aquele.

- Zambine! - Chamei baixinho.

- Aninha és tu?

- Sou eu minha querida...

- Vá embora! Teu pai é capaz de matá-la se te ver aqui.

- Não suportei ficar sem ti. - Falei encontrando o corpo negro encima de um leito improvisado por Antonia.

- Se arriscas muito...

- Não me importo...

Ajoelhei-me ao lado de Zambine sem me importar com o vestido que se enchia de lama. Uma fosca claridade me permitiu ver teu rosto... Meu lindo rosto que agora estava marcado com a violência sofrida. Seu rosto inchado não permitia que abrisse um dos olhos e com dor na alma passei as mãos naqueles lábios machucados que por diversas vezes esteve colado aos meus.

- O que fizeram contigo, meu amor?

- Eu te avisei que sofreríamos pelo nosso sentimento...

- Não me importo em sofrer por ti, mas meu coração sangra vendo-te neste estado...

- Já me acostumei a sentir dor. Juro que tive ímpetos de matar teu pai quando o vi te batendo.

- Não foi nada em comparação ao que fizeram contigo... - Falei abraçando-a. - Jamais deixarei que te façam mal novamente.

- Não podes me prometer o que não podes cumprir. Não podes enfrentar teu pai.

- Não posso enfrentá-lo, mas posso te libertar... Podemos arrumar um cavalo rápido e irei contigo até um ponto onde papai não poderá encontrá-la.

- Jamais digas isto novamente. Morrerei sem ti. Posso agüentar a dor do açoite, mas não a dor de te perder.

- Isto é tolice, Zambine. Podes ter uma vida livre?

- De que servirá a liberdade? Olhe para minha pele: Ela é preta e em qualquer lugar que eu for serei uma escrava.

- Promete-me que não fará nenhuma tolice.

- Zambine...

- Promete-me!

- Eu prometo. Dá-me um beijo teu?

- Te dou não só um beijo, mas todo o meu corpo e minha alma.

Tomei Zambine nos braços e a beijei com ternura. Não foi um beijo como o do piquenique. Foi um beijo sofrido e doloroso não pelos machucados que Zambine ostentava no rosto e sim porque papai havia machucado nossas almas..."

 

Isabel fechou o diário enxugando as lagrimas que teimavam em saltar a seus olhos. Com um nó na garganta ela sai para o corredor buscar um copo de água. O amor podia se manifestar de qualquer maneira, em qualquer forma, em qualquer circunstancia. Ela não era uma Gonçalves Silva. Não conseguia se sentir como tal. Não era boa e compreensiva. Não aceitava as diferentes opiniões. Sua avó estava certa. Sophie era a mais legitima descendente de Ana Maria: Com dificuldade assumiu isso para si mesma. Se Ana Maria vivesse nos tempos atuais teria sido feliz, mas ela nasceu na época errada. Não só ela: Zambine o seu grande amor também nasceu na época errada. Era como se um véu negro fosse tirado dos seus olhos: "O que tem demais ser feliz?" Sophie que apenas teve a oportunidade de lutar pelo que sentia. "Mãe estamos juntas a mais de um ano e nada do que você disser vai mudar minha opinião porque a amo e ela me ama e com seu consentimento ou não vou tratar de ser feliz”. Essas tinham sido suas palavras e era a verdadeira felicidade. Não uma felicidade encima do que os outros vão pensar. "Ninguém vai chorar por mim se um dia eu falir ou se ela for embora. Vai ser somente eu. Porque você não aceita?"

- Bel o que aconteceu? - Natalia pergunta quando Isabel entra na cozinha. - Você está chorando me conte o que aconteceu?

 

- Eu entendi o sentido da palavra preconceito e ele é nojento. - Ela responde saindo da casa grande indo em direção ao estábulo. Sabia que ali era a senzala antes e procurou um canto no escuro para sentar. "Há duzentos anos a pessoa mais importante da minha existência chorava neste mesmo lugar porque não podia ser feliz. Duzentos anos depois choro porque não sei amar e compreender". Isabel fechou os olhos e deixou a mente vagar. Não viu Natalia que a observava de longe. Também não viu os fantasmas que a cercavam transmitindo conforto.

Nome: mtereza (Assinado) · Data: 14/04/2017 01:43 · Para: Capitulo 8 - O começo da dor

Finalmente Isabel esta compreendendo 



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