Enternecer por femarques

CAPÍTULO 7:

GIULIANA

            Olho para o lado, tentando disfarçar, e vejo a garota loura sentada no bar me encarando. Eu e meus amigos, Matteo e Andrea, estamos sentados no sofá, na área vip de meu pub.

            “Ela não para de me olhar?” Pergunto a Andrea, que notou a garota.

            “Não, é do tipo que você prefere. Sem compromisso.”

            Dou risada e pego outra garrafa de cerveja do pequeno balde cheio de gelo. Dou um gole, dando de ombros a Andrea.

            “Não sei, não.”

            “As coisas são tão fáceis para você.” Matteo reclama, me empurrando com o ombro. “Bonita, rica e ainda é reconhecida pelas fotos espalhadas em outdoor.”

            Nego com a cabeça, rindo dele, e antes de responder, meu celular vibra em cima da mesa. O pego e vejo que Beatrice respondeu minha mensagem. Estamos conversando há uma hora sobre coisas banais.

            “O que tanto seu celular toca, Giu?”

            Olho para meu amigo, que está sorrindo maliciosamente, e reviro os olhos. Se dependesse de Matteo, eu sairia com Norwich toda.

            “É só uma amiga.” Respondo sem olhar para eles, digitando a mensagem de volta para ela.

            “Estou no trabalho, quer vir aqui? Meus amigos estão por aqui também.”

            “Que amiga?” Andrea perguntando, sentando-se mais perto de mim, me encarando empolgada.

            Reviro os olhos de novo e pressiono os lábios. Esperança é a última que morre para ela.

            “Beatrice, e é só uma amiga mesmo.”

            “Ei, não é a garota perdida que você ajudou?” Matteo pergunta, sorrindo e todo empolgado.

            “É, a gente se esbarrou por aí e agora somos amigas.”

            “Sei, e quando vai ficar com ela?”

            Nego com a cabeça e dou um gole na cerveja. “Nunca, cara. Eu nem sei se ela gosta de mulher e ela nunca demonstrou nada, nenhum interesse. Então, por mim, está ótima a amizade.”

            “Você é fresca, isso sim.”  Ele me responde e faz Andrea rir. Os dois ficam falando de como estou desperdiçando tempo sendo apenas amiga dela, enquanto estou lendo a resposta da mensagem.

            “Não posso ir até aí hoje, podemos marcar para amanhã?”

            Era a segunda vez que Beatrice recusava vir até o pub, dizendo que estava ocupada. Queria pensar que isso fosse verdade, mas me lembrava do dia em que a ajudei e de como ela evitou entrar em todos os bares da rua.

            “Quer vir amanhã?”

            Sábado era uma das noites mais cheias do pub, mas se ela quisesse vir, daria um jeito e pedira ajuda a Micah para ficar de olho naquela noite.

            “Pensei em fazer algo em casa, você pode vir?”

            Respiro fundo e acabo concordando. Digo a ela que vou até sua casa amanhã, e seria a primeira vez que nos encontraríamos na casa de alguém.

            Guardo o celular no bolso e olho novamente para a loira no bar, que me encara e sorri, piscando para mim. Me levanto e sem falar nada aos meus amigos, vou até a garota no bar.

            Sem enrolar, ela é direta e abusada, dizendo que me conhece de algum lugar. Sinto vontade de revirar os olhos para ela e sua tentativa de esconder o interesse em mim por me conhecer como modelo fotográfica, mas não o faço. A menina é bonita, loira, cabelos compridos e ondulados, e olhos verdes que me encaram cheios de malícia.

            A garota que se apresenta como Maggie, se levanta e me pede um lugar para ficarmos a sós. A levo até meu escritório e fecho a porta.

            “Podemos ficar aqui?” Ela pergunta receosa.

            Dou de ombros enquanto tiro minha jaqueta. Suspiro ao me aproximar dela.

            “Sim, é minha sala.”

            Maggie abre um sorriso largo e se atira em mim sem dizer nada. Deixo que ela faça o que quer, assim como também faço o que tenho vontade. Perdemos alguns minutos em pé, encostadas contra a parede. Não dizemos nada quando terminamos. Ela está arrumando sua roupa e cabelo enquanto a espero para sairmos da sala.

            “Foi um prazer conhecer você.” Ela diz, com a voz cheia de esperança.

            “Claro, para mim também foi.”

            “Nos encontramos por aí?”

            “Com certeza.”

            Abro a porta quando vejo que ela terminou de se ajeitar e espero que ela saia primeiro. Volto para o sofá em que eu estava, sem olhar mais para ela.

            Me sento ao lado de Matteo e espero a primeira piada. Passamos a noite conversando e bebendo e fico quieta, pensando ainda no motivo de Beatrice não vir até meu trabalho. Meus amigos falam de suas vidas e eu os escuto, sem estar com vontade de compartilhar meus pensamentos com eles.

 

            No sábado à noite me arrumo com calma depois de avisar ao Micah que eu não estaria no Senses aquela noite. Visto uma calça jeans clara com um suéter preto, e uma jaqueta por cima. Havia dispensado Abigail depois do almoço e ela tentou investigar onde eu passaria a noite, com quem jantaria e se dormiria fora. Eu só dei risada e disse que jantaria com uma amiga, com certeza Calliope ficaria sabendo e estaria aqui na segunda-feira cheia de graça.

            Dirijo em direção a Booksellers e procuro por sua casa. Sabia onde ela morava, mas me certifico de que estou em frente ao Daily Press, o jornal onde Beatrice morava em cima. Deixo o carro em frente a loja e abro o portão conforme ela me instruiu.

            O portão velho e quase sem tinta range, como se anunciasse minha chegada. Passo pelo pequeno corredor, subo as escadas de ferro cinza escuro que estão ao lado direito e chego até sua porta, igualmente ao portão, estava quase sem tinta, escondendo sua cor branca.

            Depois que bato na porta não demora muito e Amber atende. Ela me lança um sorriso largo. É a primeira vez que vejo a menina depois daquele dia confuso. Reparo em seus olhos em tom de verde escuro, não são como os de Beatrice, cor de mel. Seu cabelo liso e comprido está preso em um rabo de cavalo e ela está apoiada na porta me esperando entrar.

            Peço licença educadamente e entro, escutando a porta fechar atrás de mim. Amber me acompanha até a cozinha, onde Beatrice termina de arrumar a mesa. Conforme entro em seu apartamento, reparo nos cômodos pequenos. As paredes são todas pintadas em cor creme, mas há alguns pedaços faltando, mostrando o interior da parede. No teto vejo marcas de goteira e me preocupa que aquilo desabe. O apartamento é realmente velho. Sua cozinha pequena fica de frente para sala, de tamanho igual, a única coisa que divide os dois cômodos é uma mesa de madeira pequena, de quatro lugares.

            “Oi!” Beatrice me cumprimenta, sorrindo. Ela está usando um avental azul na frente da roupa e acho graça. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo, mas alguns fios que escaparam estão caídos em seu rosto.

            “Não sabia que você ia cozinhar.” Digo, olhando para ela, que dá de ombros e começa a desamarrar o avental, colocando-o por fim preso e um pequeno gancho na parede ao lado da geladeira.

            “Ela gosta muito de cozinhar, e você vai ver que cozinha bem.” Diz Amber, já se sentando à mesa.

            Vejo que Beatrice fica sem graça, suas bochechas coradas e sua cabeça baixa.

            Nos sentamos também e nos servimos. Comemos enquanto Amber contava de suas provas na escola e me fazia perguntas sobre como era tirar fotos como um trabalho. Ela poderia entrar no ramo, era bonita e tinha o perfil para isso, o que a deixava super empolgada. Ao mesmo tempo, olhava para a irmã, parecendo buscar sua aprovação.

            Depois do jantar, ajudo com a louça depois de insistir muito e elogio a comida. Realmente ela cozinhava muito bem. Beatrice pede que eu vá me sentar enquanto ela e sua irmã terminariam de arrumar a cozinha e eu obedeço. Fico andando pela sala e vou até uma pequena estante de metal ao lado da televisão. Havia ali vários livros de latim e alguns romances clássicos.

            Estou sentada no sofá, com as pernas cruzadas, quando Beatrice vem até mim e se senta ao meu lado.

            “Então, latim?” Aponto para a estante com a cabeça.

            Ela abre um sorriso largo. Desde que estamos nos encontrando, sorrir tem se tornado algo mais frequente para ela, e quando sorria assim podia ver o pequeno furinho que se formava em sua bochecha esquerda, mostrando os dentes brancos e alinhados. Não entendia o motivo de esconder um sorriso desses.

            “Sim, eu e minha irmã aprendemos latim quando mais jovens e gostamos muito.”

            “Então, você sabe falar?” Pergunto espantada, arqueando minhas sobrancelhas.

            Ela acena com a cabeça, concordando e continua sorrindo. “É uma das coisas boas do nosso passado.”

            Pressiono os lábios antes de continuar perguntando e aproveito sua tranquilidade. “Problemas no passado?”

            Ela suspira e se levanta, dando de ombros. Enquanto sai da sala em direção a um corredor, me responde de lá.

            “Todos temos problemas no passado, Giu.”

            Bea volta mastigando algo e se senta ao meu lado. Sinto o cheiro da bala de café e percebo como ela tenta se esconder. A Beatrice divertida que estava aqui até agora se foi e deu lugar a alguém que está encolhida no sofá, de cabeça baixa.

            “Você gosta muito mesmo de balas.”

            Ela dá um sorriso de canto e balança a cabeça devagar de um lado a outro.

            “Eu preciso delas.”

            “Para que?”

            “Elas me ajudam, certo? E balas são gostosas, não há problema.”

            Acabo concordando quando vejo que ela não quer entrar no assunto. Realmente, todos tem problemas, mas algo pode ter acontecido com ela e tê-la deixado assim. Parece que ao mesmo tempo em que sabe de seu passado e precisa dessas balas, sente vergonha quando toca no assunto.

            “Então, o que acha de Amber tirar fotos?”

            Beatrice pressiona os lábios e respira fundo, mas seu corpo relaxa ao mudar de assunto, seus ombros caem um pouco e ela se ajeita no sofá.

            “Se não for atrapalhar em seus estudos, você e ela podem ir.”

            Abro um sorriso largo e toco sua mão, apertando de leve.

            “Conte a sua irmã depois, ela vai gostar. E diga que assim que conseguir um teste para ela, eu aviso.”

            Ficamos conversando sobre o clima, sobre o trabalho e sobre o novo carregamento de livros que a livraria receberia. Prometo a ela que vou passar para conferir.

            “Você é formada em que?” Pergunto a ela.

            “Em nada, nunca fiz faculdade.”

            Fico olhando-a, intrigada. Beatrice era linda e inteligente, poderia trabalhar em qualquer coisa. Não queria desmerecer seu trabalho, mas ela poderia até mesmo dar aulas de latim, se falava fluentemente.

            “Não tem vontade de trabalhar em outra coisa?”

            “Não, eu gosto de vender livros. O horário é bom, é estável, me dá dinheiro suficiente para pagar o aluguel e manter Amber na escola e dar a ela o que eu não tive.”

            “E sua irmã sabe que você pensa assim?”

            “Sim, Giu. Ela sabe que quero dar a ela uma vida estável. Eu estou bem no meu emprego, mantenho tudo em ordem, como as coisas precisam ser.”

            “Certo, eu entendo. Você tem capacidade para estudar, sabe disso, não é?”

            Ela maneia a cabeça concordando, mas não diz mais nada além de perguntar se eu fiz faculdade. Conto a ela que sou formada em administração para abrir meu próprio negócio, já que odiava trabalhar com meu pai, que está no ramo financeiro e cuida da conta de várias pessoas. Digo que meu irmão quer trabalhar com meu pai e então falo da minha família.

            Falo de Francesco, minha mãe e meu pai, até mesmo de Abigail e Calliope como membros da família. Ela me escuta impressionada e parece gostar do que ouve, já que mantém o sorriso no rosto.

            “Então vocês são uma família grande e que estão sempre juntos.”

            “Somos, nos damos muito bem, meu pai adora reunir a família. A sua família é pequena?”

            Beatrice volta a se encolher e entrelaçando seus dedos, pressiona uns nos outros.

            “Era pequena, mas perdi meus pais em um acidente. Somos só eu e minha irmã.”

            Ao ouvir isso, algumas coisas começam a fazer sentido para mim. Essa necessidade de ter algo estável que não a tire do foco de cuidar da irmã pode ter relação com ter perdido os pais e ter ficado com tamanha responsabilidade. Não me sentia confortável em dizer isso a ela, já que ainda a sentia triste demais e com isso, talvez seus problemas fossem ainda maiores. Beatrice não se sentia confortável consigo mesma.

            O restante da noite foi agradável à medida em que levamos o assunto para mim. Contei a ela sobre minhas besteiras de adolescente e algumas histórias de família, das quais ela riu bastante.

 

            A noite foi muito boa e sai de sua casa tarde, combinando de nos falarmos por mensagem, como sempre. A caminho de casa me lembro de Matteo e chego a conclusão de que Beatrice realmente não tem interesse por mim, talvez nem tenha interesse em alguém além de sua irmã, então, continuaria sendo sua amiga, já que ela se mostrava ótima companhia.

Nome: Val Maria (Assinado) · Data: 08/01/2017 02:53 · Para: Capítulo 7

É muito bom ler uma estória tão perfeita, com o enredo maravilhoso. Parabéns autora. 



Resposta do autor:

Oi, Val!

Obrigada! Fico feliz que você esteja gostando. 

Espero te ver mais por aqui, beijo!



Nome: Ada M Melo (Assinado) · Data: 22/09/2016 15:24 · Para: Capítulo 7

ja estou gostando demais da historia. Acredito que esse amor entre as duas vai acontecer aos pouquinhos até porque existir um trauma na vida da Bea, não sabemos ainda o que aconteceu, mas ela vai conquistar a Giu a cada encontro...kkkk

 

abraço!



Resposta do autor:

Oi, moça, tudo bem?

Fico muito feliz que esteja gostando. 

Bom, mesmo com todos os problemas de Bea, que ainda irão descobrir, ela e Giu vão conseguir se ajudar.

Obrigada por acompanhar.

Beijos e até a próxima.



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