Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


[Comentários - 186]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

Com o tempo

 

Com a mão livre, a garota sobre mim retira alguns fios de cabelos de meu rosto. As pontas de seus dedos tocam sutilmente a minha pele, fazendo o meu corpo arrepiar sem minha permissão. Arregalo os meus olhos. Não sei o que fazer. Os olhos amarelados estão tão calmos. Eles passeiam sobre a minha superfície, despreocupados. Um sorriso discreto surge em sua boca. E eu ainda não sei por que diabos eu estou olhando pra ela. Vejo-a morde levemente os lábios. Os meus olhos acompanham esse movimento com uma atenção que me assusta. 

-Seus olhos são lindos. - Sua voz rouca me desperta. –Não só eles. - Seus dedos agora passeiam em minha pele. –Acho um charme suas sardas. - Samantha diz tocando o meu colo.

-Sam... - Seu nome sai de minha boca arrastado.

Como se aquela pequena palavra a tivesse tirando de um transe a garota me encara duvidosa. Logo depois desvia os olhos amarelados dos meus. Sinto seu corpo inteiro tencionar. A mão que antes tocava delicadamente a minha pele já não estava ali. Um suspiro cansado foge de sua boca. Então eu sinto um vazio quando ela se afasta completamente. Samantha estende a mão direita em minha direção como se me oferecesse ajuda para levantar. Algo que aceito após longos segundos tentando entender.

-Vamos?! - A garota me questiona minutos depois sem olhar em minha direção.

-Mas eu queria dar um mergulho. - Digo contrariada.

-Outro dia, pequena. - Sam finalmente me encara e sorri. –Está tarde, e eu preciso ir.

-Mas...

-Despois eu te compenso. - A garota de olhos amarelados diz voltando a se aproximar.

Seus olhos estavam tão brilhantes que foram capazes de roubar o ar de meus pulmões por alguns segundos. Ela toca delicadamente o meu queixo o erguendo, a outra se enlaça em minha cintura. Olhos nos olhos. Ela se aproxima. Eu posso sentir o seu hálito quente sobre o meu rosto. Estou novamente paralisada. Sam continua se aproximando perigosamente. Sua mão direita continua firme, evitando que eu fuja. Os meus olhos se fecham no momento em que um sorriso se apossa de seus lábios. Então eu os sinto sobre o meu nariz.

Sabe o que é frustração?! Eu sentir isso no momento em que seus lábios delicados encontraram uma superfície diferente da minha boca. E esse pensamento não me deixou dormir por vários dias seguidos.

Coisas como essa se repetiram com frequência. Olhares, palavras toques. E cada vez que isso acontecia, deixava um turbilhão de questionamento em minha sanidade. 

 

As aulas voltaram. E os meus dias passaram de uma maneira inusitada. Afinal, agora eu tinha Sam. Ela passou a estudar no mesmo colégio que eu. E sempre que podíamos estávamos juntas. Era como se nossas almas se reconhecessem. Como se pertencêssemos o tempo todo e só agora aceitássemos essa situação. Ela não era mais aquela garotinha irritante que me assombrava. Já não era aquela garota egoísta e mimada de alguns anos atrás. Ela era simplesmente, a minha Sam.

Chegou o meu aniversario e como sempre dispensei qualquer tipo de comemoração. Mesmo sobre os protestos incansáveis de vovó Catherine. Sam também não havia gostado muito da ideia de que eu passasse aquela data em branco. Afinal, não é todos os dias que fazemos 13 anos. Vovó Rúbia como previsto passou alguns dias comigo durante a minha data especial. Era como ela se referia ao meu aniversario. Mas eu não via essa data como algo para ser comemorado. Era mais como o meu pequeno luto, meu pequeno momento de confirmação. E como sempre durante essa data a tristeza logo me veio, mas esse ano foi diferente. Eu tinha ao meu lado os olhos amarelados profundos. Samantha não me deixou afundar momentaneamente. Vovó Rúbia a adorou. Mas quem não adoraria a Sam?

Samantha tinha uma personalidade forte. Algo que sempre me encantou. Talvez pelo simples fato de minha timidez. Ela era como o meu total oposto. Sam sempre foi do tipo de pessoa que atrair pessoas. E aquele seu lado sério era um charme a parte. A cada dia que passava eu a conhecia um pouco mais. Sam era sempre atenciosa de uma forma tão complexa. Às vezes eu me assustava com a forma em como aquela menina/mulher me conhecia. Ela me enxergava. Me enxergava de verdade. Os meus gostos e vontades. As minhas manias. Ela respeitava os meus erros, as minhas falhas. Todos os meus defeitos comuns.  

As semanas passaram. Assim como os meses. E em toda a minha vida nunca tinha tido um ano com tamanha plenitude. Um ano em que eu pude ser eu mesma sem ser criticada. Um ano em que estará gravado em minha alma até a eternidade. Posso disser sem sombra de duvida que o ano em que passei conhecendo-a. O ano em que cresci e aprendi convivendo com a garota de olhos amarelados foi um dos melhores anos de minha vida.

Durante esse ano aconteceram tantos momentos em que tive a certeza que Samantha faria parte de minha vida pra sempre. Por que eu guardei cada sorriso, cada olhar intenso e todas as palavras ditas com emoção. Eu guardei só pra ter a certeza que eu os teria em meus momentos solitários. Aqueles momentos em que ela me fugiria entre as mãos. Se existisse um momento assim, eu não queria vivê-lo. Eu não o aceitaria. Mas eu guardei cada um desses momentos só para me certificar.

Júpiter estava cada dia mais dócil, ao menos comigo. Ele até mesmo aceitava a companhia de Sam. Não se agitava mais como antes com sua presença. Ele só não aceitava que a garota de olhos amarelados o montasse. O que mais gostávamos de fazer era de passear pela fazenda de vovô. De fazer piquenique próximo a cachoeira. Mas sempre com a toalha xadrez. Por que se a toalha não fosse xadrez, não seria um piquenique. Sam era irritante a maior parte das vezes, mas no momento seguinte era tão encantadora que eu deixava passar esse seu lado sombrio.

Sam fez sua festa de dezesseis anos. Ela foi exclusivamente maravilhosa. Nunca tinha visto a garota de olhos amarelados tão bonita. Eu toquei em sua festa. E por um momento eu vi aqueles olhos amarelados nublados de emoção. Esse foi o meu presente para ela. E eu sei que ela o adorou.

Papai continuava o mesmo em relação à filha. Talvez eu jamais me acostume com seu jeito frio e indiferente. E só eu sei o quanto aquilo me atingia. O quanto aquilo me feria a alma. Eu estava magoada, eu sempre estava magoada com ele. Afinal, eu já não tinha a mamãe. E eu nunca tive realmente um pai. Nunca tive um sorriso verdadeiro, um abraço ou uma palavra reconfortante. Talvez ele jugue que eu não mereça. Que eu não mereça a minha própria respiração. Um coração palpitante ou minha liberdade de escolha. Não, que não o entenda. Mas eu não sou culpada de...

E então eu me refugiava na música. Me abrigava em meus momentos íntimos com o piano. Vovó Rúbia passava horas conversando comigo ao telefone. E então ela me perguntou o que eu queria para o meu futuro. O que eu queria exercer. Então eu não tive duvidas. Papai ficou furioso, nunca antes o tinha visto tão irado comigo. Não que ele fosse agradável em suas ações. Quando o assunto era eu, ele já não era o homem de condutas amáveis, já não era o grande herói que eu merecia ter. Vovó Rúbia teve que vim interceder por mim. E eu tive a certeza que ela sempre me apoiaria. Sempre estaria ali por mim. Assim como vovô Bernardo e vovó Catherine. E então eu estudaria música. 

Todo tempo livre que eu tinha, praticava ao piano. Era isso o que eu sempre quis. E era por isso que eu me esforçava tanto. Quando Sam ficou sabendo, ficou sem falar comigo por dias. Isso foi como se arrancassem um pedaço meu. Sentir a falta dela em cada segundo. Mas então lá estava ela, com uma rosa nas mãos se desculpando. Foi como se o sol me sorrisse.

 

-E então, pequena?! - Ela me pergunta timidamente.

-Não sei se deveria. - Digo séria próxima à baia de Júpiter.

Seus olhos amarelados me olham com profundidade. Era sempre assim. Como se ela quisesse ler a minha alma. Sam respirou fundo e em passos lentos se aproxima de onde eu estou, sem desviar os olhos dos meus um segundo.

-Eu sei o quanto fui estupida. - Sua voz rouca soa calma. -Mas eu sei também que você é uma pessoa generosa e vai desculpar essa garota insensível.

-Como pode ter tanta certeza? - Digo ainda magoada com as palavras furiosas de Sam. Elas não me deixaram dormir por tantos dias.  

-Liz... - Sam desvia os olhos dos meus. Mas não demora mais que alguns segundos para me encarar novamente. –Eu só estava com medo. Você quer voar tão alto. Eu não sei se sou capaz de te alcançar. Não sei se sou capaz de ser merecedora de sua companhia. - Ela estava nervosa. Algo tão raro de acontecer. –Eu sei que magoei você. Te machucar também me machucou. E eu sinto tanto por isso.

-Sam...

-Não, eu ainda não acabei! - A garota a minha frente insiste. –Eu tive medo de que você me esquecesse quando estivesse longe. De que em um momento tudo o que vivemos fosse apenas passado. De que não existisse mais oportunidade de vê o seu sorriso todos os dias. Ou vê-la ficar tímida por coisas tão simples. De não ter mais a prazer de ouvi-la tocar. Ou de não ter mais nossas tardes de piquenique próximo à cachoeira. – Sam diz tudo em um folego só. -Eu perderia tanto se você me esquecesse no caminho. Por isso eu tive medo. Medo de você...

-Você apenas se esqueceu que entre nós duas. Você é quem irá se formar primeiro. Que também terá que escolher os caminhos que ditará o seu futuro. - Lhe dou um sorriso doce. –Não seremos crianças pra sempre.

-Eu não sou criança. - Sam diz emburrada.

-Mas a maior parte do tempo age como uma. - Seus olhos amarelados me encarram revoltados. Mas isso não me abala. –Sam, qualquer tipo de relacionamento só sobrevivi através do dialogo. Então quando eu fizer algo que a magoe, apenas converse comigo. Eu sei que crescer da medo, mas vai ser menos assustador se você estiver comigo.

Samantha me sorrir de lado. A rosa ainda em suas mãos. Eu já a tinha perdoado no momento em que ela apareceu no estabulo. No exato momento em que os meus olhos encontraram os seus, eu já havia perdoado.

-E falta tanto para esse momento chegar. - Digo dando um passo a frente. –É normal ter medo Sam. Mas saiba que é pior não realizar. É tão triste deixar um sonho morrer por medo de fracassar. Ou por medo de magoar outras pessoas no caminho. - Digo me referindo a ela. –Só não deixe que destruam a melhor parte que você possa chegar a ser. – A garota a minha frente desvia os olhos envergonhada.

-Liz...

-Eu estou fazendo tudo o que posso para conseguir. Estou me preparado para quando o momento chegar. - Minha voz sai emocionada. -Sam, tocar é a minha vida. É a melhor parte de quem eu sou. - Meus braços estão cruzados diante de meu corpo. Como se fossem capazes de me proteger. –Tocar é o mais perto que posso chegar de conhecê-la. De estar próxima a ela. É tudo o que me restou.

Antes que as lágrimas desabassem de meus olhos azuis, seus braços protetores já estavam me amparando. Me protegendo de qualquer fantasma do passado.

-Shiii. Tudo bem Liz... - Ela sussurra ao meu ouvido. –Eu sempre estarei aqui.

 

E eu acreditei. Eu realmente acreditei que ela estaria.

 

 

 

 

Notas finais:

Como prometido. 

Bjus...



Comentários


Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.