1808 por Drikka Silva


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"... Entrei em casa sorrateira para que mamãe não visse o estado do meu vestido. Estava todo molhado do banho no rio. Zambine ajudou-me a me despir e a banhar-me. Suas mãos gentis e carinhosas esquentaram meu corpo que tremia de frio. Já aquecida pedi que ela fizesse o mesmo. Não quero vê-la doente. Pedrina perguntou-me o porque de minhas roupas estarem naquele estado e tive que contar a ela. Fiz jurar que não contaria nada a papai. Zambine me fez companhia até de noite me contando sua vida. Falou-me do seu marido e do filho que perdera no dia de sua captura. Fiquei muito triste, mas não há nada que possa fazer por ela a não ser dar conforto e carinho para aquela alma sofrida..."

" Acordei com papai aos gritos. Um dos nossos escravos tentou fugir durante a noite e os capitães do mato o trouxeram de volta. Olhei pela janela e vi o pobre diabo de joelhos no meio do terreiro enquanto papai aos gritos lhe dava chibatadas. Nunca fiquei com tanto medo na minha vida! Zambine entrou em meu quarto chorando assustada pelo que estava acontecendo. Tentei consolá-la, mas também estava temerosa. Mamãe também entrou no meu quarto acompanhada de Antonia e me tirou Zambine dos braços. Queria proteger a criatura assustada que me olhava com olhos enormes, mas mamãe me puxou para a cadeira e falou para Zambine escovar meus cabelos, pois o dia seria longo. Não entendi a indiferença de mamãe. Os gritos do homem se ouvia por todo o quarto e ela parecia não se importar. Antonia enxugando as lagrimas de Zambine pediu para que ela fizesse mamãe mandava. Meu coração parecia querer sair pela boca de medo. Com um bom tempo os gritos cessaram. O silencio que tomou conta da fazenda me assustava. Ninguém falava nada e assim foi o dia inteiro. Zambine não me dirigiu a palavra e não perguntei o porquê. Sabia que estavas triste pelo amigo que fora brutalmente açoitado. Já de noite perguntei a mamãe se ela não se importava com o pobre escravo e ela apenas me disse.

- Com o tempo você acostuma.

Jamais vou me acostumar com a maldade de papai..."

"... Zambine veio ter comigo de manha. Seu rosto parecia uma mascara de dor. Não entendi o que aconteceu com ela. PArecia que havia chorado durante toda noite. Depois daquele dia em que açoitaram o escravo ela havia mudado. Talvez achasse que eu sou igual a papai. Tentei falar-lhe sobre assuntos corriqueiros, mas ela permaneceu distante. Hoje em especial está mudada. Não sei dizer como. Mas está mudada.

- O que aconteceste Zambine. Não queres conversar comigo?

- Estou triste, Ana Maria. Não é nada contigo.

- Converses comigo minha amiga.

- Lois, o negro açoitado esta com banzu e muito machucado. Não vais viver.

-O que é banzu?

- É a tristeza da alma. Nenhum homem consegue ser feliz novamente. Acho que também não serei feliz novamente.

- Não digas isto. - Falei dando-le um abraço - Vais ser muito feliz ainda.

- Não há felicidade para minha cor. Minha sina é servir aos outros e ser açoitada. Nesta noite um Capitão do mato veio ter comigo e obrigou-me a se deitar com ele.

- Não creio! Diga-me quem és e pedirei que papai o despeça.

- Não adiantaria nada Aninha, pois amanha será outro e outro... Não quero conviver com isso...

- Minha querida.... Minha querida... - Não consegui segurar as lagrimas - Perdoe-me pelo que a vida fez contigo...

- Não há o perdoar... Tu es a menos culpada por minha vida...

Zambine saiu do meu quarto e não pude me conter em ter com papai. Não era aceitável que os capitães fizessem o que bem entenderem. Papai tinha que me escutar, mas eu não sabia o quão estava enganada.

- Aquela crioula tinha que estar feliz por um homem a querer.

- Papai isto não está certo. E quando ela apaixonar-se o que será dela?

- Ela não tem o direito de apaixonar-se. É uma escrava que a única coisa que pode fazer é te servir. Quero que escolhas outra dama de companhia. Não quero aquela negra te falando coisas.

- Não papai. Por favor, meu senhor. Não quero outra dama. - Falei assustada. Não quero perder Zambine.

- Se não queres perdê-la não dê ouvidos as suas queixas.

- Sim, senhor.

Voltei para o casarão desolada. Não havia nada que eu pudesse fazer...".

 

Isabel fechou o diário deixando a mente vagar. Os escravos eram tratados apenas como um pedaço de carne. Nada alem disso. "Como o ser humano podia ser tão ruim até esse ponto? O preconceito daquela época era algo sem explicação". Ainda com a palavra preconceito na cabeça, Isabel pensou em Sophie. O que ela estava fazendo com Sophie era preconceito de uma forma diferente. Lembrou-se do que havia dito a Sophie no dia do enterro da avó. Exatamente o mesmo comportamento de Teodoro, pai de Ana Maria, um homem com o pensamento pequeno e cruel. Existem vários meios de tortura que não precisa ser usada com força bruta: Palavras e gestos podem machucar mais do que um chicote. Pegou o celular e discou o numero da filha. Se arrependeu na mesma hora.

- Alo?

Isabel não conseguiu falar nada.

- Mãe, é você?

Isabel desligou odiando a si mesma. Se sentindo uma idiota jogou o telefone encima da cama.

 

"... Com o passar dos dias Zambine parece mais relaxada. Voltou a falar e sorrir novamente. Gosto de sua companhia sempre tão agradável. Não consigo ficar longe dela. Tudo o que fazemos é sempre juntas. Não a considero apenas como minha dama e sim como minha querida amiga. Ela está aprendendo rápido como ler e escrever. Tem uma mente aguçada. Já sei beijar. Ela disse-me que faço isso muito bem. Mesmo já sabendo não quero deixar de beijá-la. Ela me fala que se alguém souber irão brigar conosco, mas não tenho medo. É muito bom...”.

 

“... Papai me perguntou ontem se deixei de gostar de Joaquim. Confesso que não me lembrei dele na semana passada e não lhe escrevi a carta costumeira. Estava tão entretida com Zambine que não me lembrei deste detalhe. Fiz uma as pressas e pedi que papai enviasse. Não sei se quero me casar com ele. Papai disse que quando me casar não posso levar Zambine, que meu marido terá que arranjar seus próprios escravos. Não quero perdê-la...”.

 

“... – Venha Ana Maria. Vamos dar uma volta pela plantação de café.

- Papai pode não gostar Zambine.

- Eu queria tanto sair daqui um pouco com você...

- Vamos então. Mas temos que nos apressar para a volta.

Zambine trouxe dois cavalos e falei a Pedrina que íamos dar uma volta. Entramos plantação adentro admirando a paisagem que se perdia de vista. Passei a amar aquelas terras do fundo do meu coração. Quero que toda minha futura geração viva neste pedaço de chão.

- Chegamos.

- Não há nada aqui Zambine.

- Tem sim. Venha.

Zambine pega a minha mão e me guia para uma pastagem nos limites da plantação. Embaixo de uma arvore ela retira de dentro de uma moita uma cesta de piquenique.

- Preparei para ti ontem de noite. – Zambine fala tirando uma toalha do dentro do cesto.

- Não tenho palavras para mencionar como estou feliz.

- Gostaste da surpresa?

- Sim. É maravilhosa!

- O manjar fui eu mesma que preparei. O fazia para meu marido.

- Que delicia!

E estava mesmo. Muito gostoso. Não sabia que ela sabia cozinhar. Zambine tirou a pequena bacia da minha mão e limpou os cantos da minha boca com os dedos longos e graciosos.

- Quero um beijo teu Zambine.

- Sabes que é perigoso...

- Não me importo. Não sei se é certo, mas tenho por ti o mesmo sentimento que nutria por Joaquim. É errado o que sinto Zambine?

- Não. Não é errado, mas sofreremos por este sentimento. Vais ter que se casar com um homem branco de posses.

- Não quero casar-me. Não quero perder-te.

- Não iras me perder nunca. Meus sentimentos serão eternamente seus. Se não for para ser consumado nesta vida que sejas em outra então. Ninguém, nem o tempo vai nos impedir de viver esse amor.

- Sentes o mesmo por mim então?

- De todo o meu ser Aninha.

 

Zambine tomou-me nos braços e beijou-me. Nunca senti tanta alegria como senti naquele dia. O doce manjar e seu sorriso ficarão guardados para sempre na minha memória...”.

Nome: mtereza (Assinado) · Data: 14/04/2017 01:35 · Para: Capitulo 7 - Um beijo antes da dor

Linda a história delas mais a época com pouca chances 



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