Enternecer por femarques

CAPÍTULO 5:

BEATRICE

 

            Amber gostava de ir ao teatro, e sempre que eu podia a levava. No sábado depois de passar o dia arrumando a casa enquanto ela estudava, nos arrumamos e tomamos um táxi até o Theatre Royal.

            Eu estava usando meu melhor vestido, o único que tinha para situações como essa, preto e justo, de mangas compridas, com o comprimento até o joelho e um decote quadrado. Vestia um sobretudo por cima e sapatos de salto alto preto. Prendi parte do meu cabelo para trás, com uma presilha pequena e também preta, deixando-o todo solto na parte de trás.

            A fachada do teatro era linda, bem iluminada e com grandes portas e janelas de vidro. Assistiríamos a um musical e com uma promoção de última hora, havia conseguido bons lugares na frente.

            Amber entrou correndo para pegar lugares enquanto eu ia ao banheiro, para evitar sair durante a apresentação.

            Logo que saio do mesmo, estou andando olhando para baixo, com a pequena bolsa que carregava pendurada ao ombro aberta, verificando se peguei a quantidade de balas que preciso para incidentes, esbarro em alguém a minha frente.

            Levanto a cabeça com a pressa de me desculpar e vejo Giuliana, o cabelo novamente arrumado perfeitamente, vestida com uma calça jeans clara, uma camiseta branca de malha e um blazer azul marinho. Ela sorri para mim e se aproxima para beijar minha bochecha, me deixando sem graça e sem jeito. Estou acostumada com os cumprimentos do pessoal que trabalho, apertos de mão normais, sem muito contato físico.

            “Oi! Nos encontramos novamente, hein?”

            Dou um sorriso sem graça para ela e concordo com a cabeça. Ficamos nos encarando por alguns segundos longos demais até perceber que provavelmente eu deveria dizer algo e não ser tão esquisita com alguém que foi tão legal comigo.

            “E então, está gostando do livro que comprou?”

            Ela arqueia as sobrancelhas, mas acaba sorrindo. Seus lábios finos e bem desenhados se abrem em um sorriso largo, mostrando os dentes perfeitamente brancos. Antes que ela possa me responder algo, uma garota magra e de corpo espetacular se aproxima dela, tocando em seu braço e a puxando.

            “Vamos, Giu, vai começar.”

            Giuliana olha para a menina e desvencilha seu braço com calma.           

            “Vou em um minuto.”

            A garota, sem esconder sua expressão contrariada, se afasta em direção aos assentos.

            “Por que não anota meu número, me passa o seu, e combinamos outro café? Posso te contar sobre as biografias que li até agora.”

            Falar de livro é sempre um prazer. Abaixo a cabeça e dou um sorriso largo, sentindo minhas bochechas corarem.

            “Claro, podemos marcar.” Respondo assim que volto a olhar para ela.

            Marcamos nossos números de telefone e deixamos as escadas em silêncio. Não nos despedimos. Cada uma vai para o seu lugar, e logo me esqueço do encontro casual.

            “Você demorou, está tudo bem?” Amber pergunta quando me sento ao seu lado, mostrando-se realmente preocupada.

            Dou um sorriso a ela, tentando tranquiliza-la. “Sim, encontrei uma amiga, só isso.”

            “Você? Com uma amiga?”

            Ela vira seu corpo em minha direção, sentando-se de lado na poltrona. Seus olhos já estão maiores e ela sorri com empolgação.

            Antes que eu possa responder, as luzes se apagam.

            “É uma colega, Amber. Agora sente direito, vai começar.”

            Chegamos em casa tarde naquela noite, depois do teatro fomos comer e ficamos um bom tempo conversando e nos divertindo.

            Sento no sofá depois de colocar o pijama e logo minha irmã deita a cabeça em meu colo. Ligamos a televisão e esperamos começar um filme.

            “Então, quem é a sua colega?”

            Dou risada dela e começo a acariciar seu cabelo.

            “Lembra da moça que me ajudou a te achar aquele dia? Ela é cliente da livraria e nós tomamos um café dia desses.”

            “Então ela é sua amiga?”

            “Não, Amber. É minha colega ou cliente, não sei.”

            “Bea, não vai te fazer mal se você fizer uma amizade.”

            “Amber, você sabe das restrições e sabe que não quero ter que explica-las a alguém de fora.”

            “Mas você não precisa, não vai viver com essa moça. Ela só pode ser alguém para você sair, tomar chá e conversar. Deveria dar uma chance a ela.”

            Respiro fundo e fico pensando nos prós e nos contras. Nos perigos que posso correr me tornando amiga dela, de tudo o que pode vir à tona, das coisas que posso acabar não resistindo. Mas também, pode não acontecer nada. Ela pode ser apenas uma boa amiga. Só de pensar na situação, sinto a ansiedade tomar conta de mim.

           

            Era domingo à tarde quando acordei do meu cochilo. Amber ainda estava dormindo.

            Vou para a sala e me sento no sofá, cruzando as pernas em cima do mesmo. Pego meu celular da mesa de centro e abro a agenda de contatos, rolando a tela até o nome de Giuliana.

            “Não vai acontecer nada demais. Você pode se controlar perto de outras pessoas se acontecer algo.”

            Seleciono seu contato e envio uma mensagem de texto.

            “Oi, é a Beatrice.”

            Deixo o celular em cima do sofá e vou até meu quarto pegar o pacote com as balas. Levo-o para a sala comigo e me sento na mesma posição no sofá. Chupo uma bala enquanto espero a resposta. E nada.

            Depois de mais duas balas, o celular vibra ao meu lado e o pego alvoroçada.

            “Hey! Como vai?”

            “Bem, e você?”

            “Bem também. Aproveitando o domingo?”

            “Só estou em casa assistindo a televisão.”

            “Tenho um jogo daqui a pouco, quer vir assistir?”

            Fico olhando para a mensagem, sem saber o que responder. Há muito tempo não saio com ninguém que não seja minha irmã, não deixo ninguém se aproximar de mim para que não saibam do meu passado vergonhoso e muito menos, do meu destino.

            Mas Amber deve ter razão sobre dar uma chance a alguém, sobre ter alguém para conversar, uma amiga, e Giuliana parece ser divertida, poderia me distrair um pouco.

            “Claro, eu te encontro.”

            Ela me manda o endereço do local por mensagem e eu corro para tomar um banho e me vestir. Apesar do medo de tentar uma nova amizade, estava ansiosa e um pouco empolgada com a situação.

            Visto uma calça jeans escura e um suéter vermelho, com meu tênis branco. Prendo o cabelo em um rabo de cavalo e arrumo minha bolsa.

            Deixo um bilhete para minha irmã, avisando que sai e deixo o endereço de onde eu iria. Quando saio de casa, o táxi que pedi já estava me esperando e me leva até o local.

            Era um ginásio de esportes, grande e coberto. Pago ao motorista do táxi e entro no ginásio, segurando a alça da minha bolsa com mais força do que a necessária para segurar uma bolsa. Me sentia como quando criança, quando ia para a escola morrendo de medo e insegurança, agarrada a minha bolsa, como se isso fosse me proteger.

            Vou até uma quadra, onde algumas garotas, usando uniformes de times de futebol, estavam conversando ali dentro, mas não vejo Giuliana. Me sento na arquibancada, no terceiro degrau.

            Não demora muito, outras meninas entram na quadra, e então vejo Giuliana, também usando um uniforme preto. Ela olha para a arquibancada e ao me ver, acena para mim e me dá um sorriso largo, como sempre.

            Aceno de volta e sorrio de canto. Acho engraçado ela jogar futebol e me chamar para assistir a isso. Assisto ao jogo todo e até dou risada de quando ela se irrita com algumas meninas do time rival.

            Ao final da partida, uma Giuliana toda suada e com alguns fios do cabelo que está sempre arrumado caídos em sua testa, também suados, vem até mim correndo.

            “E então?” Ela pergunta empolgada.

            Me levanto e desço os degraus, ficando no mesmo nível que ela.

            “Eu adorei, foi engraçado.” Dou o melhor sorriso que posso e acho que funciona quando a vejo sorrir de volta.

            “Eu vou tomar um banho e então podemos sair e comer alguma coisa, o que você acha?”

            Concordo com a cabeça, balançando-a rápido demais, em uma mistura de medo e alegria. Ela sai de perto de mim e some por uma porta, como a maioria das outras garotas.

            Fico pensando se elas tomavam banho todas juntas e fico com vontade de conhecer o que deveria ser um vestiário.

            Giuliana volta, agora usando uma calça de moletom cinza e uma camiseta de mangas compridas branca, com um decote em v. Seu cabelo está molhado e jogado para trás, alguns fios estão soltos e caídos em seu rosto. Ela está carregando uma mochila pequena e a joga no ombro quando chega perto de mim.

            “Vamos?”

            Ando com ela até seu carro e entro cuidadosamente. O carro por dentro era maravilhoso, nada parecido com qualquer coisa que já tive contato na minha vida toda.

            Ela pergunta se podemos comer pizza e eu concordo, digo que qualquer coisa está bom. Passo a maior parte do caminho encarando minhas mãos sobre meu colo, até que uma voz maravilhosa invade o interior do carro, cantando Feeling good.

            “Quem está cantando?” Pergunto baixinho.

            Ela me olha rapidamente e sorri de canto, voltando sua atenção para a rua.

            “Nina Simone, é ótima, não?”

            “É, só conhecia essa música pelo Muse.”

            “Você gosta de música?”

            “Não escuto muito.”

            “Por que?”

            “Me distrai demais, é melhor não.”

            Giuliana me olha intrigada, com as sobrancelhas arqueadas e eu, me dando conta da resposta que dei, apenas maneio a cabeça negativamente. Tomara que ela esqueça o assunto.

            Aprecio a voz da mulher que continua cantando até que paramos em frente a uma pizzaria praticamente toda decorada nas cores verde e vermelha.

            Nós nos sentamos em uma mesa ao fundo e pedimos pela pizza. Fico apreensiva quando ela vai escolher sua bebida, mas como da última vez, pede por uma Coca-Cola.

            Ela me conta que começou a ler logo quando criança e sempre gostou, mas na adolescência se interessou por biografias e desde então, são suas preferidas. Ela fala por muito tempo sobre livros e eu converso com ela dizendo  como aprendi sobre muito deles enquanto passo meu tempo na livraria. Sempre que estou livre, leio algo aleatório das estantes.

            “Então, você joga futebol profissionalmente?”

            Ela ri alto e nega com a cabeça. “Não, apenas por hobbie.”

            “E o que você faz?”

            “Sou dona de um pub, lembra onde te encontrei agarrada ao meu segurança?”

            Sinto um rubor tomar conta de minhas bochechas e me encolho na cadeira. Ela é dona daquele lugar. Ela é dona de um lugar que eu nunca poderei entrar. Como vou ser amiga de alguém e nunca conhecer onde ela trabalha, já que geralmente ela me convidaria a ir até lá?

            “Então, sou dona de lá e tiro algumas fotos para algumas campanhas ou lançamentos.”

            Fico surpresa com o que ela faz e acabo gostando, é diferente do meio em que vivo e talvez isso venha a ser um problema um dia, mas quero realmente tentar, principalmente para agradar a Amber, que sempre fez tanto por mim ao tentar me entender e me ajudar.

            “E bom, eu trabalho na livraria.”

            Ela dá risada e voltamos a falar de livros. A garçonete traz nossa pizza e começo a comer, mas Giuliana pega a pizza com as mãos e a dobra no meio, dando uma mordida enorme.

            Arregalo os olhos e olho em volta, para ver se tem alguém olhando. Ela parece perceber e começa a rir, dando outra mordida antes de falar algo.

            “Aprendi com o meu pai a comer pizza assim, quando eu morava na Itália. E é muito mais gostoso.”

            Olho para seus dedos um pouco sujos pelo farelo da massa e sorrio de canto, tentando esconder a graça que vejo.

            “Sua família é grande?”

            “Bom, tenho dois irmãos e meus pais. Um mais novo e outro mais velho, que não mora aqui.”

            “Ah, onde ele mora?”

            Ela respira fundo e dando um sorriso doce, pede:

            “Podemos não falar dele?”

            Acabo concordando com a cabeça e dou de ombros.

            “Você pratica algum esporte?”

            Estou mastigando um pedaço de pizza e por isso respondo apenas negando com a cabeça.

            “E o que faz para se divertir?”

            “As vezes levo Amber para sair, como aquele dia no teatro. Vamos ao teatro, ou ao cinema, ou ao Royal Arcade.”

            “Então você só trabalha e se dedica a sua irmã?”

            “Isso.” Pressiono os lábios e minha respiração se torna pesada. Mais alguma pergunta pessoal e devo começar a entrar em assuntos que exigem explicações demais.

            “Bom, vou te levar a alguns lugares então.”

            Suspiro aliviada e solto uma risada baixa. Coloco mais um pedaço da pizza na boca para não ter que responder nada.

            “Não sei se é o costume inglês, mas você precisa rir mais, garota.”

            Franzo o cenho e cruzo os braços.

            “Não fale mal dos ingleses.”

            Ela ri alto de mim e levanta as mãos espalmadas, como se pedisse desculpas.

            “Não, eu adoro o sotaque de vocês.”

            “É pelo seu sotaque ser tão diferente do nosso, por isso.”

            “Não sei, mas eu gosto de vocês.”

            Ela termina a frase forçando um sotaque carregado e o resultado é hilário. Damos risada dela e seguimos a noite assim, conversando sobre assuntos banais e dando risada. Realmente, fazia muito tempo que eu não me divertia assim com outra pessoa.

            Giuliana insiste em me levar para casa e não me deixa pegar um táxi. Voltamos em silêncio dentro do carro, apenas ao som de Nina Simone, que pedi para escutar de novo e ela gentilmente deixou.

            Sentia todo meu corpo excitado pela noite, empolgado e agitado. Isso era uma coisa boa, se não me enchesse do pânico familiar de aonde eu poderia ser levada com isso. Começo a respirar com dificuldade, sendo tomada pelo pavor de cometer alguma besteira por estar me sentindo leve e bem demais, ou de desejar algo que seja meu fim. Eu sei que com eles começou assim. Ficavam felizes e acabaram estragando tudo.

            Abro a bolsa com a mão trêmula e pego duas balas. Abro uma com pressa e coloco na boca, sentindo um pouco do alívio costumeiro.

            “Também quero.”

            A voz de minha nova colega soa longe no momento em que estou vivendo meu drama, mas é forte o suficiente para me trazer de volta. Pisco algumas vezes e olho para ela dirigindo, com uma mão estendida para o meu lado, esperando a bala dela.

            Dou em sua mão a bala que eu também chuparia e dou um sorriso. Ela pede que eu abra a bala e assim o faço, devolvendo a ela, que coloca na boca em seguida.

            “Hm, bala de café. Você gosta?”

            Respiro fundo e encosto a cabeça no assento do carro.

 

            “Você não faz ideia.”

Notas finais:

Oi, meninas. Estou enchendo vocês de notas finais, mas é que venho aqui hoje agradecer pelas leituras. Em apenas quatro capítulos, atingimos mais de 800 leituras e estou imensamente feliz com isso! Muito obrigada pelos comentários que me incentivam e por estarem acompanhando.

Bom final de semana a todas!



Comentários


Nome: lohs (Assinado) · Data: 20/09/2016 19:02 · Para: Capítulo 5

Bem legal esse clima de descontração entre elas. 

Giu ainda joga bola, já tá se tornando minha personagem preferida,como aconteceu com Scoutt. Kkkk

Beijos,



Resposta do autor:

Você é um caso perdido com gostar das personagens, dá até canseira.

Não se esqueça que quem cria as personagens sou eu, logo, você gosta de... u.u

Beijo, gatinha.



Nome: Teresa (Assinado) · Data: 18/09/2016 05:39 · Para: Capítulo 5

Hmm balas de café salvadoras e deliciosas kkkk to adorando :D



Resposta do autor:

Balas de café com poderes mágicos, não? 

Obrigada por acompanhar!

Beijo.



Nome: Jessy (Assinado) · Data: 18/09/2016 03:10 · Para: Capítulo 5

Estou simplesmente encantada com essa estória, moça. Sua escrita e a construção das personagens são maravilhosas. Acompanharei com prazer seu conto, já ansiosa por mais. 

Parabéns! Beijo. 



Resposta do autor:

Oi! Tudo bem?

Fiquei muito feliz com o comentário. Saber que as personagens estão passando corretamente aquilo que imaginei é ótimo!

Espero que continue gostando.

Beijo.



Nome: Nana2014 (Assinado) · Data: 17/09/2016 23:45 · Para: Capítulo 5

Olá Fe...tudo bem contigo? Olha amando cada capítulo desta estória...tens uma leveza na escrita e o mais bacana...usa-se de temas bem relevante no cotidiano..cada dia admiro mais a tua escrita...gosto como desenvolve e lida com temas complexos...não há mocinhas e vilãs no contexto gerral...São pessoas comuns que vivem situaçoes complexas e que precisam de im conforto lpara superarem seus traumas...suas angústias... Curto isto nas tuas estórias...parabéns.. Bjs 

Ana Paula



Resposta do autor:

Oi, Ana Paula. Tudo bem comigo, e por aí?

É sempre bom receber elogios assim e saber que estou no caminho certo e agradando a vocês.

Obrigada por acompanhar e pelo comentário, espero que continue por aqui.

Beijo.



Nome: FernandaPRF (Assinado) · Data: 17/09/2016 23:22 · Para: Capítulo 5

Oi, autora. Estou amando a sua estória. O bom, guria , é que tu aumentasse os capítulos. 

BJ

 

 

Fernanda. 



Resposta do autor:

Oi, Fernanda. Tudo bem?

Fico feliz em saber que está gostando! Espero que continue acompanhando.

Beijos.



Nome: Endless (Assinado) · Data: 17/09/2016 22:31 · Para: Capítulo 5

Balas de café pra vc!! rsrsrsrs amo, mas nunca encontro fácil... Mentira!! Tenho preguiça de procurar! rsrsrsrs

Boa sorte.



Resposta do autor:

Oi!

Olha, se eu tivesse bala de café em casa, chuparia uma atrás da outra, mas somos duas com preguiça de procurar.

Obrigada!

Beijo.



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.