A ruína dos anjos por Drikka Silva


[Comentários - 114]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

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               A criatura observou a mulher no meio da rua a procurando. O primeiro chamado de sua alma acontecera. Sentia isso nitidamente na distância curta que as separavam. Ainda abaixada no telhado de uma casa próxima, viu o espirito adquirir uma aura brilhante, como não tinha visto nela antes. A mulher voltou para a viela andando devagar com a cabeça levemente baixada, mas sabia que não era de tristeza: ela também fora renovada com esperança. Mesmo que não se conhecessem no plano terrestre, se conheciam no espiritual e lá sempre estariam ligadas.

            Almozsaaladiel acompanhou a mulher até em casa, pulando pelos telhados. Assim que ela entrou no apartamento, se encostou no parapeito do prédio que havia se tornado seu reduto. Observou enquanto a morena deixava as sacolas sobre a mesa antes de ir se sentar no sofá ao lado do felino.

            - Quem será ela? – a ouviu conversar com o animal. – Como ela pode sair dos meus sonhos e se materializar na minha frente? Como ela é linda... Tem uma paz tão grande! Como é possível isso?

            Durante um longo tempo, a mulher permaneceu encostada no sofá olhando para o nada, com o pensamento distante. Com uma paz reconfortante, sentia sua energia chegando em ondas. Podia não saber exatamente o que ela estava pensando, mas tinha certeza que era nela. A morena se levantou do sofá por duas vezes e caminhou até a janela. Na segunda vez, ela mirou o céu e depois o local onde estava. Era nítido a sensação de que ela estava a enxergando, mas tinha a segurança que nenhum olho humano podia vê-la ali, ao contrário do felino que a enxergava exatamente como era, todas as vezes que se aproximava da janela.

            Duas horas depois sentiu a presença da outra mulher que ocupava o apartamento. Olhou para a esquina e enxergou o carro onde ela sempre chegava desde que tinha começado a se envolver com a mulher ruiva. Pulou do prédio e andou até o local para sentir sua aura mais próxima. Ela estava carregada, emanava uma forte onda de energia negativa ao mesmo tempo que se entregava ao prazer fugaz dentro do veículo. Fechou os olhos em uma prece ao Altíssimo para que nenhum sentimento ruim a afligisse. Por mais que tinha consciência do ato errôneo do espirito jovem, não podia julgá-la e nem lhe desejar mal. Os seus erros determinariam o seu crescimento.

            A loira desceu do carro depois de quarenta minutos. Ela caminhava distraída para o apartamento e não percebeu a mulher que vinha na sua direção.

            - Me desculpe! – pediu Vitória depois de colidir com a mulher morena.

            - Fique em paz – respondeu a criatura colocando a mão no seu braço. Por poucos segundos a encarou para desviar em seguida.

            Vitória ficou olhando a mulher se afastar. Se virou para a entrada do prédio e abriu o portão. Antes de entrar no hall esquadrinhou a rua mais uma vez sem enxerga-la mais. “Que figura estranha” pensou. Não era todo dia que encontrava uma pessoa trajando um sobretudo no calor de vinte e cinco graus em São Paulo. “Talvez ela esteja doente”. Era isso. Deixou a estranha pra lá e voltou a pensar no problema que queria resolver aquela noite. Estranhamente, a coragem que tinha reunido durante todo o dia para terminar com Andressa se esvaiu. Provavelmente a esposa não estava bem ainda. Quando tinha dores fortes de cabeça, só ficava bem no dia seguinte. Era isso. Iriam conversar no dia seguinte.

            Almozsaaladiel voltou para o parapeito do prédio, de onde tinha saído hora antes. O espirito continuava no mesmo lugar, ainda perdida em pensamentos. O barulho da porta desviou sua atenção para a esposa que chegava.

            - Oi amor! – cumprimentou Vitória. – Achei que te encontraria na cama já.

            - Aconteceu uma coisa estranha hoje – respondeu Andressa ainda sentada no mesmo lugar. – Sofri uma tentativa de assalto.

            - Caramba! Mas você está bem? Te fizeram alguma coisa?

            - Não. Uma mulher apareceu e evitou que algo pior acontecesse.

            - Que sorte! Foi na hora que foi ao mercado?

            - Sim. Dois caras me abordaram pedindo o celular.

            - Tá com o corpo aberto hein?! Primeiro o quase acidente, agora o quase assalto. Vamos tomar um banho de sal grosso?

            - Boba – riu Andressa. – Que perfume é esse?

            - Uma colega da faculdade resolveu tomar um banho de perfume e passar pra todo mundo – respondeu Vitória com naturalidade. – Comeu alguma coisa? E a dor de cabeça?

            - Perdi a fome depois do que aconteceu. A dor de cabeça passou. Acho que devido ao susto.

            - Provavelmente. Vamos para o quarto então. Mas falando sério, você tem que tomar cuidado. Foram dois eventos muito próximos.

            - Eu vou me cuidar mais. Pode deixar.

            Andressa seguiu a esposa, mas suas palavras ficaram martelando na sua cabeça. Dois eventos muito próximos. Dois eventos que colocaram sua vida em risco sendo evitados por algo estranho. Primeiro o carro saindo da pista, segundo a mulher dos seus sonhos surgindo do nada para defende-la. Seria apenas coincidência?

              Almozsaaladiel pulou do prédio e caminhou para a casa que tinha alugado duas quadras atrás do prédio onde o espirito habitava. Abriu o portão e entrou na garagem para depois alcançar a sala. Absalom, seu servo, já abria a porta para que pudesse passar.

            - Gratissimum – cumprimentou o senhor com um aceno.

            - Deus pacis erit vobiscum

            - Amen. Algum problema para voltar sem ele? – perguntou, preocupado, se referindo ao espirito.

            - Ela está ligada a outro espirito. Não posso interferir – explicou ao entrar na sala. Desde que alugara ali, tinha voltado poucas vezes durante os anos. – Tudo em paz por aqui?

            - O Senhor tem nos guardado.

            - Ficarei em oração. Preciso renovar minha energia.

            - Guardarei a casa.

            A criatura concordou com um aceno de cabeça e subiu para o quarto. Olhou ao redor analisando as paredes cobertas de runas, que remontavam a um tempo antigo, mesmo antes da grande inundação. Tirou as roupas lentamente olhando para os símbolos que cobriam as paredes. Se ajoelhou e clamou ao Altíssimo usando a língua reservada aos celestiais. Lentamente sentiu o corpo se expandir dentro do invólucro humano. A carne se rompeu para libertar o corpo original. Esticou as asas emanando toda a energia negativa que havia absorvido para ficar livre de qualquer sentimento ruim que viesse se alojar.

            Liberta completamente do corpo humano, se abaixou sobre o chão, encostando a testa no piso para se conectar com o Divino. As horas se passaram como se fossem segundos. Era pouco o tempo que dispunha, uma vez que estava condicionada ao tempo da mulher que o espirito habitava. Sentia falta dos anos que passava conectada com o mundo espiritual, mas sempre que o espirito estivesse encarnado, seu tempo seria dedicado a ele. Sabia que a espera até outra vinda seria longa. Não podia perder seu breve momento na terra.

            Devagar se levantou esticando todos os membros do corpo. Abriu ao máximo a envergadura das asas para tornar a junta-las. Andou até o espelho no canto e concentrou sua energia, criando um novo invólucro. A mulher novamente ressurgiu no reflexo, a casca que habitava.

            No quarto ao lado, se vestiu, olhando para as roupas que possuía no armário. Tinha que fazer algumas compras para se misturar a multidão. Percebia, quando se permitia ser vista por um humano, o estranhamento com suas vestimentas. Colocou as primeiras peças que encontrou na sua frente e desceu as escadas para encontrar Absalom sentado em uma cadeira com as escrituras na mão.

            - Actutum advenias – anunciou.

            - Ut custodiat te.

            Almozsaaladiel saiu da casa e esquadrinhou a rua, para se certificar de que nenhum humano estava por perto, antes de pular para o telhado vizinho. Em segundos chegou ao prédio onde havia passado grande parte dos últimos anos. Faltava cinco minutos para que a mulher acordasse para iniciar sua rotina matinal.

                        Andressa esticou a mão para desligar o celular antes que ele tocasse. Tinha passado a maior parte do tempo acordada, pensando no que tinha acontecido na noite anterior. O que faria para encontrar a mulher novamente? Ela devia ser da redondeza; poucas pessoas passavam pela viela onde havia sido abordada. Somente os moradores da região conheciam aquele trajeto.

            Afastou as cobertas e seguiu para a cozinha e depois banheiro. Durante todo o tempo, não conseguiu desviar seus pensamentos da mulher morena. Quando chegasse do trabalho, ia começar sua procura.

            Pontualmente as seis da tarde, descia do ônibus no ponto próximo de casa. Sua primeira parada foi na padaria que havia próximo a viela. Perguntou para os funcionários sobre a mulher, dando riquezas de detalhes sobre sua aparência, mas ninguém a conhecia. O mesmo aconteceu no mercado e na farmácia. Quando voltou para casa, já passava das sete e meia da noite e nenhuma informação, que despertasse uma vaga esperança vã, havia sido encontrada.

             Na manhã de sábado, descobriu que Dexter havia fugido. Vitória tinha saído cedo para fazer um trabalho da faculdade e só voltaria depois do almoço. Provavelmente ela nem tinha visto a hora que o gato fugiu. Saiu preocupada a sua procura. Dexter era um gato que sempre fora criado dentro do apartamento, não saberia se cuidar, solto na cidade. Andou toda a quadra procurando pelo bichano e não o encontrou. Expandiu a procura para a rua de cima, mas nada. Subiu mais uma quadra olhando para todos os lados, procurando por alguém que o tivesse visto. Estava a ponto de encerrar sua procura quando o avistou dentro de uma garagem, brincando com uma bolinha.

            - Dexter! – chamou brava. – Vem aqui seu fujão!

            O gato a olhou despreocupado, voltando a brincar com a bolinha. Chamou mais duas vezes sem sucesso. O jeito era tocar a campainha. Esperou exatamente dois minutos até enxergar o senhor que abria a porta da frente.

            - Sanctus Dei. Quid hic agis? – exclamou o homem assustado ao enxerga-la.    - Me desculpe. Não compreendo sua língua. Sabe falar o português? Esse gato é meu. Ele fugiu de manhã.

            - Non potes hic – tornou a falar na língua desconhecida enquanto saia completamente para a garagem – isso interfere na ordem!

            - Eu não sei do que está falando – respondeu Andressa com uma careta. Só quero meu gato.

            Andressa observou receosa enquanto o homem se aproximava do portão. Ele usava uma túnica azul, provavelmente alguma vestimenta do Oriente. Não conhecia aquele tipo de traje. Assim que se aproximou do portão, ele olhou atentamente para o alto, muito além dela. Quando voltou a encara-la, abriu um sorriso.

            - Me desculpe o mau jeito – falou em um tom afável. – Não costumo receber visitas. Então este gato é seu? Ele apareceu hoje de manhãzinha.

            - Sim. Acho que a porta ficou aberta e ele escapuliu. Posso pega-lo?

            - É claro. É seu, não é?

            - Sim – respondeu Andressa entrando na garagem. – Qual língua falava? Não parece estranha, mas não conheço.

            - Latim. Pouco usada no mundo contemporâneo.

            - Raramente usada – concordou Andressa. – A não ser em algumas missas.

            - É a língua oficial do Vaticano.

            - E já esteve lá?

            - Sim. Por diversas vezes. Vaticanum, Viterbo, palácio de Latrão. Memórias de um tempo longínquo.

            - Esteve em algum conclave?

            - Já vi muitas coisas nessa vida. Não pode imaginar o tanto. Inclusive conclaves. Palavra recente no vocabulário.

            - Como assim? Ela não é recente. Papas existem desde o início da Era Cristã.

            - Somente aquela que buscas lhe dará as respostas. Sugiro que não pense nisso. Pegue seu felino e siga na paz do Criador.

            Andressa o olhou atentamente antes de se abaixar e pegar o gato. Agradeceu e saiu pelo portão. “Um neurótico religioso” pensou. “Só isso”.

 

 

 

 

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!

Mais um cap! espero que tenham curtido!

 

Bjokasssssssssssss

 

 

 



Comentários


Nome: mtereza (Assinado) · Data: 08/04/2018 12:48 · Para: Capitulo 5

O gato fugiu logo para casa da anja esperto ele em rsrsr oremos para que a Vitória perceba o mal que as suas traições farão a vida dela e da Amanda que esta empenhada em encontrar a anja e já esteve na casa dela e concordo que o nome da anja é impronunciável vamos arranjar um diminutivo ou um apelido para a criatura bjs



Nome: Angell (Assinado) · Data: 07/04/2018 02:28 · Para: Capitulo 5

Hum...o destino está dando um jeito de aproxima-las 



Nome: IolandaStrambek (Assinado) · Data: 02/04/2018 16:19 · Para: Capitulo 5

Olá

primeira história sua que leio. Nossa que incrível isso que criou. Estou amando muito..

Beijos até maia



Resposta do autor:

Obrigada lindona! Seja bem vinda!

Espero não decepciona-la com o desenrolar!

Bjokasssssssssss



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 02/04/2018 14:17 · Para: Capitulo 5

E onde estava o anjo essa hora que não deu o ar da graça? Poderia aproveitar e ver sua amada mais de perto.



Resposta do autor:

Nossa Anja é discreta. Nõ aparece pra tomar chá com bolo hehehhehe 

Oremos por essas duas rs

 

bjokasssssss



Nome: EriOli (Assinado) · Data: 02/04/2018 02:01 · Para: Capitulo 5

Amandoooooo.... Parabéns Drika, arrazando como sempre!



Resposta do autor:

Obrigada lindona! 

Obrigada pela leitura e cia!

Bjokassssss



Nome: Vivica (Assinado) · Data: 02/04/2018 01:28 · Para: Capitulo 5

É tão rico de detalhes...tou impressionada. Imagino que sua pesquisa deve ter sido intensa, não é? Tou super curiosa sobre esse mundo que criaste porque confesso que não conheço muito e, acima de tudo, o texto é incrível. Até o próximo, meu bem. Forte abraço. Bj bj.



Resposta do autor:

Oi lindona! Obrigada! 

Fiz bastante pesquisas realmente, até pra não escrever uma bobagem maior do que a propria viagem da história hehehe É um tema que me agrada muito também, a biblia, num geral, é um livro maravilhoso, independente da crença depositada.  

bjokasssssssss



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 02/04/2018 00:31 · Para: Capitulo 5

TO CURTINDO MUITO, ANDRESSA CHEGOU PERTO DE DESCOBRI SOBRE A CRIATURA. BJS



Resposta do autor:

Valeu lindona!

A Andressa já sabe o endereço ao menos heheheh O Dexter é certeza rs

 

Bjokassssssssss

 



Nome: preguicella (Assinado) · Data: 01/04/2018 23:54 · Para: Capitulo 5

Gostando bastante! Tô doida ou Almozsaaladiel saiu de Onde Mora a Felicidade?! 

Bjao e excelente semana! 



Resposta do autor:

Oi lindona!

Hahhahha tá não. Só que em OMAF eu tinha colocado o titulo do livro da Angel como Angels falls. (anjos caidos) Só que como já tem o Geh Padilha (Anjo caído) eu troquei o nome. 

 

Bjokasssssssssssss



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 01/04/2018 23:34 · Para: Capitulo 5

Que Vitória sem caráter. Aff

Dexter é um vendido kkkk provavelmente vá virar um fujao kkkk partiu casa da anja kkkkk

Curti muito o capítulo

Abraços fraternos procês aí!



Resposta do autor:

hahahhahha O Dexter já conhece o endereço da felicidade ehehehe

A vitória, oremos por Vitória. Ainda tem bastante coisa por ai rs

VAleu lindona!

 

Bjokasssssssss



Nome: sonhadora (Assinado) · Data: 01/04/2018 23:07 · Para: Capitulo 5

Menina o nome desse anjo é qualquer coisa de infalável. Kkkkk quero só ver quando a Andressa descobri o chifre que está levando.... amando a sua história.

Beijos de Luz!



Resposta do autor:

ahhhahhahhhaa Almozsaaladiel Tão facinho ahahhaha

Ah Oremos pela Andressa hehehe, acho que ela nem vai ligar com um anjo na vida dela hehehe

Obrigada pela leitura e cia!

Bjokassss



Nome: Lai (Assinado) · Data: 01/04/2018 22:11 · Para: Capitulo 5

Oiee

Curti muito! 

Mais mais mais!!!!Mais FO RE VER! Kkkkk

Beijos



Resposta do autor:

hahaahah opa! Sempre! 

Quarta e domingo hehehehe

 

Bjokassssssss



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