1808 por Drikka Silva


[Comentários - 20]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

"... A cidade do Rio de Janeiro é suja e fedida. Nunca vi tanta sujeira junto. Os dejetos humanos são jogados a céu aberto e ninguem se importa com isso, mas por outro lado tem uma paisagem de inspirar poetas: As montanhas fazem fundo para o mar que fica pertinho de casa. Mamãe não me deixa ir até lá todo dia, só quando Pedrina me acompanha. Papai falou que vamos morar na casa de um comerciante local. Não quero ficar lá. Quero minha casa em Lisboa..."

 

" ...Papai deixou a corte. Não quer mais prestar serviços a familia real. Foi-lhe dado um pedaço de terra para cultivar numa provincia um pouco distante. Papai ganhou três escravos e disse-me que terei uma outra casa. Já fazem cinco meses que vivemos na Cidade do Rio de Janeiro. Vai ser difícil mudar-me novamente... Joaquim continua a escrever-me. Disse-me que virá ao meu encontro antes que se enmcerre o ano. Não há um dia que passe sem ‘que eu pense nele..."

 

"...Nossa nova casa é muito grande. Não temos vizinhos. Quem nos faz companhia são os escravos e os peões que papai contratou. A quietude do lugar me faz bem. Hoje de manhã pedi a papai para enviar uma carta a Joaquim. Ele me disse que vai ajudar a traze-lo de Lisboa para nos casarmos. Espero ansiosa..."

 

"... Hoje chegou uma nova remessa de crioulos. Papai os comprou para trabalhar na plantação de café e para ajudar nos afazeres da casa. Dentre eles uma garota não parava de gritar e falar absurdos para papai. Sua cabeça raspada não revela que trata-se de uma mulher, foi mamãe que me falou. Depois da refeição matinal, papai me chamou até a senzala. Havia varias negras paradas lado a lado e ele me disse que poderia escolher minha dama de companhia. Não queria que fosse nenhuma delas, mas papai falou que depois, com o tempo me arruma uma companhia branca. Resolvi então escolher a de cabeça raspada que se parece com um homem. Vai ser interessante transforma-la numa dama. Pelo menos vai servir de passatempo até a chegada de Joaquim.

- Apresente-se - Papai ordenou a ela que permanece calada.

- Apresente-se escrava! - Ele fala dando-lhe um tapa. Que ousadia dela não responder papai.

- Perdoe-me senhor... - Uma outra negra fala com a cabeça baixa - Esta escrava atende pelo nome de Zambine e fala pouco seu idioma.

- Tens certeza que desejas esta escrava, filha?

- Tenho sim papai. Posso ensiná-la nosso idioma.

- Tudo bem. Vá se lavar. Você fede.

Sai da senzala acompanhando papai. Estou feliz por minha dama de companhia..."

 

"... Pedrina levou Zambine até a sala para que ela comece a me auxiliar com meus afazeres. Parecia outro ser. Estava limpa e cheirosa com roupas cedidas por Pedrina. Pedi a ela que me acompanhasse até meu quarto. Dei-lhe um dos meus vestidos que não uso mais. Ela mostrou-se um pouco vergonhosa, mas despiu-se na minha frente. Ajudei-a a vestir-se. Ficou até mesmo apresentavel.

- Diga-me Zambine, não fala nada da minha lingua? Entende o que digo?

Ela não me responde fica muda observando-me. Parece um bichinho assustado. Pego suas mãos e peço que sente na cadeira do quarto.

- Tudo bem. Vou ensinar-lhe a falar meu idioma e se portar como uma dama. Teremos que deixar seu cabelo crescer para podermos pentea-lo. Vais se tornar uma verdadeira donzela.

- Fui arrancada de minha terra com selvageria por seu povo! Achaste mesmo que quero tornar-me uma dama? - Ela me compreende então!

- Não quero que fiques zangada comigo. Não sou culpada por sua sina. Quero tornar-te minha amiga. - Falei passando a mão na sua cabeça.

- Não ouse encostar a mão em mim! - Ela vociferou - Jamais me tornaria amiga de uma branquela sem coração!

- Tudo bem, mas sabes que papai a comprou e deu-me por minha dama. Terá que se comportar como tal.

- Seu pai é um monstro sem coração. Como um homem compra uma familia inteira por míseros trocados como se fossemos mercadorias?

- Já devias saber que a vida é assim. Vamos recomeçar... Meu nome é Ana Maria, mas voce pode me chamar de Aninha como todos.

- Não vou chamar-te de outra coisa que não seja branquela sem coração. Não vou me sujeitar as suas humilhações.

- Não é minha intenção humilhar-te. Quero que nos tornemos amigas.

- Deixa-me ir... Posso fugir para meu povo e a senhorita encontrará uma dama branca como foi sua intenção horas atras.

- Não quero outra dama. Já tenho você. Pedrina! - Gritei - Tire esta escrava daqui e lhe ensine bons modos. Papai não ficara contente em saber disto.

- Senhorita Ana Maria não há porque aborrecer teu pai com a malcriação desta escrava. Vou conversar com ela. - Pedrina pareceu-me assustada quando fiz menção de papai - Ela vai se comportar como queres...

- Leve-a.

Após este primeiro encontro fui encontrar-me com mamãe. Ela também tinha uma nova dama, a mesma que havia falado por Zambine na senzala.

- Sabias que Zambine fala nosso idioma? - Perguntei a escrava por nome de Antônia - Ela estava fingida.

- Ela é uma criança com medo... Não se zangue com ela - Antonia fala amarrando o vestido de mamãe.

- Pedi a Pedrina que lhe ensine bons modos. Você também podia fazer o mesmo por ela.

- Sim senhora.

Antônia faz uma reverência e sai do quarto. Pedrina jamais havia feito tal gesto.

- Sente-se aqui Ana Maria.

- Pois não mamãe.

- Jamais trate uma pessoa a menos que você. Não sejas igual a teu pai que é um monstro com os escravos. Eles são gente como nós. Possuem sentimentos e sentem dor como você. Não tiveram a opção de terem familia e um lar tranquilo. Foram arrancados a força de suas terras e das pessoas que amam e escravizados pela arrogância. Voce é uma menina linda, não se torne o que seu pai é.

- Não quero fazer mal a ela, mamãe. Quero que se comporte como minha dama.

- Faça isto conquistando sua confiança e não amedrontando-a. Jamais confunda respeito com medo.

- Vou lembrar-me disto mamãe.

Saio do quarto de mamãe e vou para a varanda da casa. Vejo ao longe Pedrina que conversa com Zambine. Ela chora e não entendo o motivo. Será que fui rude a tal ponto com ela?...".

 

Isabel interrompe a leitura para abrir a porta. Natalia entra trazendo uma bandeja com dois sucos e um lanche.

- Parece que voce adivinhou que estou com fome - Bel fala fechando a porta atras dela.

- Voce ficou a manha inteira dentro deste quarto. Nem desceu para almoçar...

- Cheguei na parte em Ana Maria relata sua vinda para a fazenda. Simplesmente não consegui parar de ler.

- Deve ser muito legal mesmo ler sobre quem foi seus avos e tataravós...

- Voce não tem ideia do quanto é agradavel conhecer as raizes...

- Quer ir no rio?

- Hoje não. Agora só saio do quarto para jantar.

- Uma pena...

- Quando você começar a ler vai pensar a mesma coisa que eu.

 

"... Zambine foi levada ao meu quarto hoje de manhã. Uasava o vestido que lhe dei. Seus modos pareciam mais contidos. Não pedi desculpas por ontem. Não havia sentido me desculpar. Ela me ajudou a vestir-me e escovou meu cabelo auxiliada por Pedrina. Tomei chá com mamãe e pedi para papai ensinar-me montaria. Ele me disse que o rapaz que doma cavalos vai fazer isso. Ajudei mamãe a fazer bordados e dei uma volta perto de casa. Zambine me acompanhou, mas fala pouco. Seus olhos parecem distantes. Acredito que esteja pensando em sua terra e seu povo. Lamento pela vida que ela leva. Depois do que mamae disse fiquei imaginando o quão ruim seria se alguém me levasse a força para um lugar desconhecido e me forçasse a fazer trabalhos pesados. Vou tentar aliviar Zambine o mais que posso. Andamos até a pastagem perto de casa. Zambine subiu em um cavalo tão rapido que nem consegui ver. Ela me disse que não nos cansariamos se andassemos de cavalo. Ainda não sei montar. Fiquei com receio de cair, mas ela pegou minha mão e me guiou encima do animal. Ela é uma excelente amazona. Cavalgamos por varios lugares. descobri um pequeno rio perto da plantação. Tem uma cachoeira pequenina, mas a plantação ao redor é linda! Tem mato de um lado e do outro. Zambine queria pular na agua, mas achei melhor não. Voltamos para casa e papai

estava muito nervoso pelo nosso sumiço. Gritou me ordenando entrar para o quarto e trancou Zambine na senzala...".

 

 

"...Zambine está mais solta ao meu lado. Começa a falar da sua gente e sua terra. Seu irmão mais velho foi comprado por papai tambem. Ele trabalha na plantação. Ela se queixa apenas do fato de não saber onde sua mãe está. Ela sabe que ela foi vendida tambem, mas não sabe pra quem. Queria ajuda-la a encontrar sua mãezinha, mas papai ficaria bravo se me visse ajudar a escrava. Comecei minha aula de montaria hoje e Zambine ficou rindo da minha forma pouco graciosa de se portar encima de um animal. Pela primeira vez vi seu sorriso branco com dentes lindos e enfileirados. Não é comum escravos terem a dentição perfeita...".

Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.