Sunshine: esperança. por femarques


[Comentários - 183]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

CAPÍTULO 4:

 

Estávamos no primeiro dia de novembro. Allegra e eu fomos ao teatro no sábado e jantamos em nosso restaurante preferido em Chicago desde que decidimos aos sábados sair para explorar a cidade. Estava passando mal de tanto comer, era dia de rodízio de frutos do mar.

            Entramos em nosso apartamento rindo de como o garçom ficou espantando quando nos beijamos rapidamente na mesa, quando meu celular começou a tocar. Era Tina me ligando.

            “Oi, tudo bem?” Atendi parando de rir enquanto ia até meu quarto para trocar de roupa.

            “Mea, você vai sair amanhã? Preciso falar com você.”

            Franzi o cenho com a urgência dela e a falta dos cumprimentos.

            “Quer vir em casa? Não tenho nenhum compromisso amanhã.”

            “Você pode vir até a minha casa? É particular.”

            “Tudo bem, Tina. Aconteceu alguma coisa?”

            “Não, fica tranquila, só preciso conversar.”

            Sem mais delongas, Tina desligou a chamada sem enrolar muito na conversa.

            “Quem era, amor?” Allegra perguntou entrando no quarto tomando um copo de água.

            “Tina, amanhã vou encontrá-la, acho que deve ter acontecido algo no trabalho e ela não quis me contar.”

            “Espero que fique tudo bem.”

            “Não deve ser nada grave.”

            No dia seguinte, domingo, após almoçar e arrumar toda a cozinha, deixei Allegra sozinha e fui de carro para encontrar Tina. Mesmo oferecendo ajuda, ela negou e preferiu se bancar sozinha em Chicago, morando em um apartamento pequeno em um bloco com vários outros também pequenos grudados uns nos outros, mais para o subúrbio da cidade.

            Parei o carro em frente ao apartamento dela, cuja entrada era um portão baixo e preto, dando passagem a uma escada de três degraus para então chegar a porta, onde não precisei bater muito para ser atendida.

            Apesar da urgência em sua voz ao telefone, sua expressão era calma. Aceitei o copo de água que ela me ofereceu e fomos nos sentar na sala, onde já me esparramei no sofá. Tina era meu Tom, versão feminina.

            “Mea, vou te contar uma coisa, mas você promete não surtar. Eu não queria te contar, mas você vai acabar descobrindo de um jeito ou de outro.”

            Dei de ombros. “O que aconteceu? Pode falar. Eu demito quem te fez mal na empresa.” Dei risada, brincando com ela.

            “Vi a Scoutt.” Tina soltou, em alto e bom tom, de modo que suas palavras reverberaram por meu corpo, até se instalarem em minha mente, me causando a famosa sensação de vazio e sufocamento. Virei a cabeça para olhá-la, respirando fundo, olhando para ela com os olhos assustados.

            Ela concordou com a cabeça apenas, como se pudesse ler meus pensamentos. Seria verdade? Ela teria visto certo?

            “Ela trabalha para a Seattle Publisher. Ela foi a sua reunião que sobrou para mim.”

            Não conseguia responder nada. Fiquei calada nem sei por quanto tempo. Encarava Tina como se ela fosse invisível e eu pudesse enxergar através dela. Eu não queria nunca mais saber de Scoutt ou vê-la. Ou queria? Achava que minha vida estava boa, andando nos trilhos, e agora ela reaparece? Deus deve gostar de tirar uma com a minha cara. Não sabia se sentia raiva por ter faltado a reunião ou se agradecia aos céus por caído na sexta-feira.

            “Não vai falar nada?”

            Dei de ombros e suspirei. “Como ela estava?” Finalmente perguntei, em um fio de voz.

            “Parecia bem, sei lá. Do mesmo jeito de sempre. Calça, camisa, cabelo esquisito, tatuagens, sei lá, Mea. Tanta coisa para perguntar e você pergunta isso?”

            “Ela parecia bem?”

            “Sim, Mea. Parecia saudável.”

            Dei risada e balancei a cabeça. “E como foi a reunião com ela? Ela já sabe...”

            Nem precisei terminar a frase. “Sim, lógico. Ela matou quando me viu como secretária responsável pela reunião. Ela sabe que seria você no meu lugar e sabe do seu cargo na empresa. Ela queria falar com você, mas eu disse que não seria possível.”

            Acenei com a cabeça, concordando. Permaneci em silêncio, esperando que ela continuasse a contar.

            “A reunião em si correu bem. Tenho duas notícias, uma boa e outra ruim.”

            “Comece pela boa.”

            “Um dos projetos é um livro da Joan Dickens, aquela famosinha dos livros à la Cinquenta tons, sabe? Vai ser bom para nós. A empresa dela fez a revisão e o material está todo pronto, para nós só sobrou a parte de análise de lançamento, de mercado, e todo aquele blábláblá.”

            “Ótimo, vai elevar nosso nome. Ela está fazendo sucesso. Não é um peixe tão grande como o que estamos acostumadas a lidar, mas traz um público diferente para nossa empresa.”

            “Isso mesmo o que pensei. Agora, a notícia ruim. Scoutt está lançando um livro também e teremos que fazer a publicação. O chefe dela, um tal de Oscar, se interessou pela estória e quer algo grande, para vender em grandes proporções.”

            Fiquei pasma olhando para ela, entrando em outra crise de silêncio. Que merda era aquela? Será que sempre que Scoutt surgisse em minha vida as coisas sairiam dos trilhos assim? Virariam de cabeça para baixo?

            Tina continuou falando, percebendo minha falta de iniciativa mais uma vez. “A pior parte nem é essa, Mea. Eu posso trabalhar com ela para você. Você prepara o contrato, faz o que tem que fazer e o contato com ela fica por minha conta, posso fazer isso por você. A pior parte é sobre o livro em si...”

            “O que tem ele?”

            “Bom... é sobre superação... superação de um abuso sexual sofrido por uma garota, que só é superado quando ela encontra um amor...” Tina levou um século para terminar aquela frase cheia de pausas e entonações.

            Meu coração não sabia se palpitava mais rápido e mais forte ou se parava de uma vez. “O que?!” Me sentei no sofá, saindo da posição esparramada para uma de alerta.

            “É, ela escreveu um livro sobre vocês, parece muito. E você sabe, vai fazer sucesso, pelo menos com o público jovem, e aí vão surgir especulações...”

            Coloquei as mãos na cabeça enquanto a balançava de um lado para o outro. “Não pode ser. Ela ficou louca? Vou matar ela! Sabe o que me irrita mais?” Me levantei e comecei a andar de um lado para o outro. “Me irrita mais não é nem ela falar de mim em um livro, mas é escrever algo que na vida real ela não foi capaz de fazer! Como assim ela consegue se abrir para o mundo sobre a sua merda de vida, sobre a merda que ela passou e para mim não? Você sabe o que ela me fez quando eu descobri um terço sobre a história do abuso!”

            Tina ficou quieta, me encarando assustada.

            “Se eu ver ela na minha frente vou matar. Que direito ela pensa que tem para escrever uma mentira dessas? Quer dizer que depois de me mandar embora da sua vida sendo uma completa imbecil, ela resolve se curar e se abrir para milhões de pessoas? E eu fico sem descobrir? Só iria saber disso quando? Quando ela também desse com a língua nos dentes para um repórter sobre quem é a inspiração dela sobre o amor que a fez superar seu trauma? Porque Tina, esse tipo de pergunta vai surgir mesmo!”

            “Ela nunca teve coragem de me contar. Ela nunca me procurou depois que vim embora, depois que tudo acabou. Eu sou a parte importante de tudo isso, e nem mereço saber? Uma conversa para se explicar? Não acredito. Vou fazer essa merda para que a fofoca não comece desde já, mas não quero nem olhar na cara dela.”

            Respirei fundo, tomando fôlego depois de ter disparado tudo o que estava entalado.

            “Você quer falar com ela sobre o livro? Segunda ela vai aparecer para assinar o contrato.”

            “Não, deixa isso para lá. Quanto menos contato, melhor. Se ela decide escrever um livro mentiroso que me envolve e nem tem a coragem e o bom senso de me avisar, que assim seja.”

            “Tudo bem.” Tina suspirou, derrotada. Eu não falaria mesmo com Scoutt. “Eu assumo a responsabilidade de falar com ela. Vocês duas nem irão se ver, pode ficar tranquila.”

            Concordei com a cabeça e me despedi, agradecendo as informações.

            Voltei para meu apartamento dirigindo devagar, enquanto aquelas informações rodavam sem parar em minha cabeça. Era inacreditável o que ela estava fazendo, e como o destino gostava de ser um belo filho de uma puta. Ela nunca me procurou, tentou entrar em contato comigo desde que fui embora daquele salão da faculdade onde nos formamos. Aquele foi nosso último contato e nunca mais ouvi falar dela, quer dizer, não como gostaria. Perdi as contas de quantas vezes atendi ao Tom no telefone esperando que ele fosse me contar que encontrou com Scoutt e ela perguntou de mim. Mas isso nunca aconteceu. Ela devia estar ocupada demais bolando um livro utópico! Que absurdo. Que ódio.

            Cheguei em casa e quando subi encontrei Allegra estudando na mesa da cozinha.

            “Como foi a conversa?”

            “Ótima.”

            Respondi seca e fui para o banheiro, onde me tranquei sem dar chance para uma conversa fiada e para a melação dela.

            Depois do banho fiquei deitada na cama terminando de ler um livro, onde acabei pegando no sono.

            Fui acordada horas depois, quando já havia anoitecido, por Allegra perguntando se eu queria jantar. Ela estava sentada ao meu lado, sorrindo docemente enquanto eu abria meus olhos devagar.

            Não respondi sua pergunta preocupada sobre minha fome ou a falta dela, apenas segurei em seus braços e a puxei para mim, enlaçando minhas pernas em sua cintura, começando a me esfregar nela.

            Allegra começou a rir e se afastou de mim. Tentei mais uma investida, apertando sua bunda com força, e ela riu mais alto, finalmente se soltando de mim e se levantando.

            “O que é isso, amor?”

            Bufei e me levantei, indo até o guarda-roupas. “Sexo. Mas parece que você não curte, ou não conhece.”

            Ela ficou quieta, provavelmente observando meus movimentos, enquanto eu tirava a roupa e vestia minha calça e camiseta de corrida, colocando os tênis por último.

            “O que aconteceu com você?”

            “Tentei me esfregar em você e fui rejeitada.” Cuspi as palavras, sabendo que estava sendo dura demais, caminhando até o banheiro para prender a porcaria do meu cabelo. Até ele me lembrava da mentirosa da Scoutt, da idiota, daquela babaca!

            “Mea, eu quero me referir a sua reunião com a Tina.”

            “Não aconteceu nada, tudo bem? Você não precisa ficar dando uma de preocupada toda hora. Eu estou bem, estou bem. Quer que eu assine em algum lugar que estou bem?!”

            Saí do banheiro sem ter coragem de encarar sua expressão triste e espantada.

            “Onde você vai?”

            “Correr. E não, a essa hora não vou ao parque. Vou para a academia do prédio.”

            Saí do quarto, deixando-a sozinha. Peguei meu celular dentro da bolsa na sala e desci de elevador até o andar da academia, que a essa hora da noite estava vazia.

            Liguei a esteira em uma velocidade razoável e comecei a correr, tentando concentrar meus pensamentos nos sons dos meus pés, evitando pensar em como fui grossa e em como Scoutt me incomodava ainda.

            Peguei o celular e liguei para Tom, deixando o aparelho apoiado na esteira, ligado no viva-voz.

            “Oi, Mea.”

            “Tom.” O cumprimentei, com a respiração ofegante.

            “Você está transando enquanto me liga?”

            Dei risada. “Não idiota. Estou correndo. Quem me dera estar transando, mas a Allegra, se fosse homem, teria disfunção erétil.”

            Ele caiu na gargalhada e eu também. Tina ainda estava desenvolvendo o poder de me fazer rir e me acalmar só de ouvir sua voz. Ela ainda estava se formando em ser Tom.

            “O que aconteceu com vocês?”

            Então, contei tudo a Tom. Scoutt em Chicago, o livro, ter que trabalhar com ela, mesmo sem vê-la.

            “Que cretina, que canalha! Ela vai mesmo se abrir para o mundo antes de se abrir para você?”

            “É, não acredito. Estou com muita raiva.”

            “E com razão. Ela é uma idiota, Mea. Sempre soubemos. A sua história com ela começou assim, com vocês praticamente se odiando. Não comece tudo de novo, deixe mesmo a Tina cuidar disso.”

            Suspirei. Tom tinha razão, por mais que dentro de mim ainda existisse, muito bem escondida, qualquer tipo de esperança em Scoutt. Era melhor cuidar da papelada e do trabalho pesado do que lidar com ela. Faz, mês que vem, um ano que não a vejo e, talvez não lidasse tão bem com a situação, talvez não resistisse a ela.

            “Obrigada, Tom. Estou com saudades.”

            “Calma, mês que vem você está aqui para minha formatura e logo estarei em Chicago para ser seu fiel escravo.”

            Dei risada. Não via a hora de ter Tom em meu time de funcionários, como advogado da B&M. Nós prometemos, antes de eu sair de Seattle, que nos veríamos sempre, mas a verdade é que minha vida é extremamente corrida e a dele também, conciliando a Adele, a faculdade e o estágio. Aliás, Tom estava estagiando para Lincon, graças a um pedido meu.

            “Não vejo a hora de ir para Seattle matar a saudade.”

            “Não vejo a hora de te ver.”

            Conversamos mais um pouco e desligamos. Corri por mais algum tempo e quando meu corpo já pedia socorro, meus membros doíam, resolvi parar.

            Voltei para meu apartamento e tomei outro banho, mais rápido. Allegra já estava na cama dormindo, e ainda eram dez para as onze. O dia começaria bem cedo amanhã e então decidi me juntar a ela.

 

            Demorei para pegar no sono, imaginando onde Emma estaria instalada em Chicago, o que ela estaria fazendo agora e repassando em minha cabeça nossos melhores momentos. Não queria voltar para a pior agora, mas parecia um imã, algo inevitável. Com esse aperto no peito, acabei pegando no sono.

Nome: flawer (Assinado) · Data: 21/01/2016 21:19 · Para: Capitulo 4

Femarques, olá e Parabéns!

Comecei, segunda-feira à noite, a ler esta estória 1 temporada... genteeee eu não conseguia parar!!!! Dormi quatro horas de sono apenas, pois sempre que pensava em parar VOCÊ me envolvia com maestria na vida, dores, sorrisos, temores, confusões de Mea e Scoutt. Rssssss 

Resultado, ontem estava no final da 1 temporada e já devorando a 2. Amandoooooo a cada capitulo... sem palavras pra provar o quanto! Kkkkkkk

P.S.: Desculpa, sei que este é um direito seu, já que deu vida a ela... (kkkkkkkk) mas qdo me apaixono por um personagem, dou um rosto a ele!!! Então, vejo Scoutt assim:

http://3.bp.blogspot.com/-Zxbmp6-x3TA/TnvH7YtZXpI/AAAAAAAAADM/5CyzWcq1Q_Y/s1600/green_pan3.jpg

 

Bjsssssssssssssss e tchau, pois ainda faltam 12 capitulos cheios de maravilhas pra eu ler! Fui...



Resposta do autor em 21/01/2016:

Olá!

Primeiro muito obrigada! Fiquei extremamente feliz com seu comentário, é sempre bom "ouvir" que nosso trabalho está dando certo e é reconhecido, é sempre gratificante e nos enche de energia e vontade de continuar.

É normal darmos rostos as personagens. Olhei a foto que mandou e ela não se parece nada com a Scoutt que imagino kkkkkkkk. Mas tudo bem, não é?

Beijão! Até os próximos capítulos.



Nome: inha (Assinado) · Data: 02/12/2015 22:59 · Para: Capitulo 4

Eu ainda não tinha visto pelo lado da Mea sobre o livro. Realmente é muito chato saber da vida da mulher da sua vida por um livro, mas ela tem q pedir explicações antes de julgar, senão sempre será essa bola de neve de mau entendidos.



Resposta do autor em 11/03/2016:

Pois é, vendo pelo lado da Mea é chato, né?

Entre as duas falta muita conversa, é sempre essa briga por precipitações.

Obrigada por ler, beijos!



Nome: Mika (Assinado) · Data: 02/12/2015 18:38 · Para: Capitulo 4

Minha nossa... E pq Mea não dá uma chance de Scoutt se explicar. Olhe, Mulher é um bixo muito complicado viu... Caraca... Eu sou mulher também, acho que cai na real de como sou, preciso urgentemente pedir perdão a todas as pessoas que convivem comigo... Hahaha

 

A Mea tá é fazendo charme, quando ver Scoutt vai pular em cima dela com tudo... Hahaha 😂



Resposta do autor em 11/03/2016:

Eu ri do seu comentário. Será que devemos sair por aí pedindo perdão?! Talvez seja tarde.

Também acho que o probema da Mea é charme, viu...

Obrigada por ler, beijos!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 02/12/2015 17:20 · Para: Capitulo 4
Foda p mea. Pq a scout escreveu o livro e nao a procurou? Se ela queria a mea de volta pq nao correu atrás? Eca alegra hem? Sem paixão.

Resposta do autor em 11/03/2016:

Eca para a Allegra, essa foi boa.

Scoutt não a procurou porque nem sempre o destino é bom para as duas. Na verdade, ele é sempre engraçadinho com elas...

Beijos!



Nome: Nana2014 (Assinado) · Data: 02/12/2015 17:17 · Para: Capitulo 4

Fé, boa tarde

Bom poucas foram as vezes em que comentei a sua história na primeirafase, não por não ter gostado muito pelo contrário amei a forma que descreveu e desenvolveu os capítulos e venho mais uma vez parabenizar-te... Acredito que o amor supera barreirar e é capaz de curar as piores feridas.... Talvez a falta de diálogo seja o maior problema da Mea e da Scoutt... Vamos ver neh kkkk agora a Allegra por melhor que seja Não consegue fazer com q a Mea deixe dw lado o passado ops acho que mais presente do que nunca....acho que o encontro destas duas vai pegar fogo kkk

Parabéns 

 



Resposta do autor em 11/03/2016:

Boa tarde!

Obrigada! Eu concordo com tudo o que disse, o amor de Mea é capaz de fazer Scoutt superar suas barreiras, mas falta muito diálogo nesse relacionamento! E Allegra...pobre coitada.

Beijos!



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.