A ruína dos anjos por Drikka Silva


[Comentários - 119]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

Andressa parou na calçada enquanto olhava ao redor atentamente. As marcas do acidente, ocorrido na noite de sexta anterior, ainda eram visíveis no asfalto e no poste danificado do outro lado da rua. Calculou a rota do carro que a atingiria em cheio se ele não tivesse sido tirado da avenida. Sim, aceitara o fato surreal de que o carro tinha sido tirado do seu trajeto que, com toda a certeza, culminaria na sua morte. Que força tão poderosa teria feito aquilo? Se questionava.

            Desde pequena não se lembrava em nenhum momento da sua trajetória de ter tido fé em algo superior. Não havia frequentados igrejas, templos, centros de orações. Não fora educada dentro da doutrina cristã, judaica ou hinduísta. Não conhecia rituais das religiões africanas, indígenas ou protestantes. Não se considerava uma ateia, mas também não clamava pela misericórdia de um ser transcendente. Era apenas ela. Suas metas eram atingidas por suas ambições pessoais e seus fracassos atribuídos a algum descuido próprio.

               Era inegável, no entanto, que algo surreal tinha acontecido na noite anterior. Algo que ultrapassava sua existência de carbono. Algo que não vira com os seus próprios olhos, mas que sentira sua presença protetora, cuidando de forma eficaz para que pudesse ter a oportunidade de voltar ao local onde tudo ocorrera e ter aquela reflexão. Queria entender, queria ver o que tinha exatamente acontecido ali. Quem sabe uma câmera daria a imagem que seria perfeitamente explicado pela ciência.

              Passou nos prédios localizados naquela esquina, mas nenhum podia liberar as imagens das câmeras de segurança. Obviamente não podiam. Não era policial, juiz ou algum representante da lei para ter acesso aquilo. Era somente a pessoa que tivera sua vida poupada por algo que não sabia explicar.

            — Está tudo bem Andressa? – perguntou Cibele, uma colega do trabalho. – Você anda bem distraída ultimamente.

            — Está. Soube do acidente, na sexta, na avenida detrás? Ali, quase de frente o metrô?

            — Fiquei sabendo. O carro bateu no guarderreio e capotou. Travou todo o trânsito sentido zona sul.

            — Eu estava lá. O carro ia me atingir – explicou Andressa encarando a colega. – O carro não bateu no guarderreio. Passei lá agora. Não tem marcas de nada que fizesse ele capotar do jeito que capotou.

            — Sério?! – exclamou. – Caramba! Que sorte teve. Graças a Deus não te aconteceu nada.

            — Acredita nisso?

            — No que?

            — Que graças a Deus nada aconteceu?

            — Foi um livramento, não foi? Se não foi Deus quem te poupou, quem mais seria?

            — Não sei – respondeu somente. “Mas pretendo descobrir” completou em pensamento.

            Andressa começou uma busca desenfreada em procura de algo que pudesse fazer sentido. Leu matérias de física, deslocamento de objetos através da parapsicologia e poltergeist. Nada daquilo fazia a menor coerência. Primeiro física: precisava que algum objeto exercesse força na lateral do carro. Essa hipótese já era descartada pois nada batera no veículo. Segundo parapsicologia: não tinha desejado que aquele carro saísse do seu caminho. Não se lembrava de ter pensado em nada. Não sentira nem mesmo medo. Ficara completamente travada. Terceiro: poltergeist, que era a pior das hipóteses. Não queria acreditar que conseguia mover objetos alheios a sua vontade por ira ou qualquer sentimento espiritual negativo que carregasse. Era completamente arbitrário as suas ideologias. Se não acreditava que um Deus a tinha salvo, menos ainda que um demônio a tinha possuído.

            Voltara a estaca a zero. Se fixou nos segundos posteriores ao acidente. Exatamente na sombra se movendo em velocidade na lateral do prédio. Já tinha explicado aquela parte como fruto da imaginação causada pela adrenalina do momento. Tinha certeza absoluta que não era uma alucinação psicótica. Impossível também que tivesse tido um ataque de estresse pós traumático. Não tivera tempo para isso.

            Os dias a devolveram a sua rotina de trabalho casa, casa trabalho. A impressão de que estava sendo seguida apareceu por mais duas vezes, mas igual as outras, não tinha nada atrás dela. Talvez devesse levar em consideração procurar a ajuda de algum psicólogo: essa sensação de ser seguida e de ver vultos poderiam, muito bem, ser sintomas aparecendo lentamente de alguma enfermidade maior.

            Foi na sexta feira, oito dias depois do acidente, que teve a confirmação de que estava lidando com algo que não tinha explicação plausível.

            — Você viu o vídeo que está rolando? – perguntou Cibele se apoiando em sua mesa. – Lembrei de você na hora.

            — Que vídeo? – devolveu Andressa confusa.

            — Do acidente! Achei que já tinha visto – respondeu vitoriosa ao pegar o celular e esticar para a colega.

            Andressa pegou o aparelho estendido na sua direção e deu play no vídeo pausado. O vídeo era de uma câmera de segurança e mostrava o transito na avenida atrás do trabalho. Pode se reconhecer pelas roupas que vestia na ocasião: uma calça azul e uma blusinha branca. O sinal mudou e começou a atravessar a rua. Em segundos se viu levantando os braços e o carro tombando de lado. A imagem ficou preta para voltar em segundos no slow. Somente reduzindo a velocidade da imagem era possível ver a sombra negra que se aproximou e bateu no carro para sumir em seguida.

            — O que é isso? – perguntou com o coração levemente disparado.

            — Não fazem ideia. O texto que acompanha o vídeo diz que é um anjo.

            Andressa não pode deixar de rir. Um anjo!

            — Não acredita?

            - Acredito que um anjo tem coisas mais importantes para fazer do que ficar me protegendo. A guerra civil na Síria é um bom exemplo. Ele teria bem mais utilidade lá.

            - Talvez você seja especial – riu.

            - Sério, Cibele? – perguntou com uma careta. – Eu acho que essa sombra nada mais é que alguma pressão que escapou de algum lugar naquele momento. Só tive sorte.

            - Ok. Agradeça a Deus por essa pressão de ar ser tão precisa de escapar bem na hora que você ia ser atropelada por um carro com velocidade acima de cem quilômetros por hora.

            - Ninguém morre antes da hora. É regra da vida.

            - Tudo bem. Vamos acreditar nisso.

            - Vamos – concordou Andressa.

            Por mais que quisesse se convencer do que tinha dito a Cibele era verdade, visto sua incredulidade a algo sobrenatural, era inegável que sua teoria tinha muitos pontos falhos. Se baseando na física, uma explosão de ar muito forte teria que ter acontecido causar força o suficiente para fazer o carro tombar. Isso se ele estivesse parado. Em movimento – e em alta velocidade, atribuindo mais peso a matéria – a força incidiria sobre a lateral do veículo fazendo ele sair em um ângulo de, no máximo, sessenta graus. Não acontecera nenhuma explosão e o carro saíra em linha reta. Nada explicava o que tinha acontecido.

            Durante os dias seguintes, Andressa tentou não pensar no acidente. Se não havia uma explicação, o melhor era deixar pra lá. Tivera sorte. Só isso.

            Os dias se converteram em um mês. Outras preocupações tomaram conta da lembrança do acidente e raramente se lembrava do episódio. Quando isso acontecia, tratava de afastar com um suspiro.

            - Oi amor – Andressa cumprimentou Vitória pelo telefone. – Vai chegar mais cedo hoje?

            - Hoje não linda. Tenho aula até as dez da noite.

            - ok. Já comeu alguma coisa?

            - Já sim. Comprei um lanche agora a pouco. Não precisa se preocupar com o jantar.

            - Ok então. Vou comprar alguma coisa por aqui também. Não estou nem um pouco afim de ir para o fogão.

            - Não se preocupe – respondeu Vitória com o tom de voz afável. – aproveite para descansar.

            - Vou fazer isso. Quando chegar, se eu já estiver dormindo, tenta fazer pouco barulho. Estou com uma dor de cabeça daquelas.

            - Tá bom amor. Bom descanso.

            - Até mais tarde linda. Ou amanhã – completou com um risinho antes de desligar o telefone.

            Andressa olhou ao redor do apartamento procurando por Dexter. O encontrou rente a janela enquanto olhava fixamente para um ponto no escuro. Seus pelos arrepiados indicava que estava com medo de alguma coisa. Se aproximou da janela e esquadrinhou a vizinhança. Nada parecia fora do normal para causar tanto medo ao gato.

            - Você anda muito estranho Dexter – falou ao pega-lo no colo. – Preciso ir no mercado e o senhor vai ficar quietinho aqui dentro.

            Depois de fechar o apartamento, saiu para a rua. Várias pessoas transitavam por ali, mas passou alheia por todas. Já no mercado escolheu um pacote de pão e frios. Já estava no caminho de volta quando o celular tocou com uma mensagem. Pegou do bolso da calça e abriu para ver a mensagem de Vitória. Dizia que ia esticar um barzinho com o pessoal do curso. Estava respondendo que tudo bem, quando entrou na viela próxima para cortar caminho até o apartamento.

            - Passa o celular! Passa o celular!

            Andressa travou ao escutar voz nervosa. Levantou os olhos para ver os dois marginais que a abordava. Um deles portava uma arma apontada na sua direção. Segurou firme o aparelho e não soube o que falar ou fazer. Um dos rapazes repetiu a ordem ao pegar seu braço com violência. Deixou as sacolas caírem no chão quando foi empurrada contra o muro.

            - Deixa ela ir – ouviu a voz serene atrás dos rapazes.

            Andressa levantou os olhos para a voz e enxergou a bela mulher que povoava seus sonhos. Se antes estava estática por causa do assalto, agora exibia total incredulidade ao ver que a morena tomava dimensão real.

            - E você vai fazer o quê? – perguntou o rapaz virando a arma na sua direção.

            - Kyrie eleison – respondeu a mulher ao fechar os olhos. - Ab omni malo custodiat.

            Andressa ficou assistindo assustada enquanto a mulher desarmava o homem jogando-o contra uma parede e atingia o segundo com a perna, fazendo ele cair mais afastado. Os dois homens se arrastaram para longe delas, para tentarem se levantar já perto da avenida. Voltou os olhos assustada para a mulher a sua frente que a encarava com uma ternura ímpar. Ela tocou seu rosto lentamente transmitindo toda a paz que emanava. O toque suave fez seu medo sumir instantaneamente.

            - Eles iam te matar – falou a mulher. – Não podia permitir isso.

            - Como sabe disso?

            - Vá em paz. Nenhum mal lhe acontecerá – respondeu somente.

            - Qual o seu nome?  - perguntou Andressa quando ela fez menção de se afastar.

            A mulher parou e fechou os olhos. Não era o momento de ela saber, mas não podia mentir.

            - Saberá no momento consagrado pelo Altíssimo.

            Andressa acompanhou os passos da mulher até o final da viela. Assim que a figura em trajes preto sumiu, se permitiu ter alguma ação. Recolheu as sacolas do chão e seguiu o caminho contrário. O coração estava disparado no peito, mas não era por causa da tentativa de assalto. Ela era real. A mulher que povoada suas noites, era real. Não podia deixar ela ir daquela forma.

            Voltou correndo para a viela e atravessou rápida para a rua. Parou no meio do asfalto olhando ao redor. Passou a mão no cabelo em uma demonstração de desalento: a encontraria novamente. Tinha essa certeza dentro de si, tão clara como a agua. Ela a encontraria.

 

 

 

 

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!!!

Nossa anjinha é boazinha neh?! hehehheee

 

Ate domingo!!!

 

Bjokassssssssssss

 

Ps **

 

O grupo TamoJuntas nasce por conta da campanha #MaisAmorEntreNos com o intuito de atender mulheres vitimas de violência de forma gratuita, a partir da advocacia probono prevista no Estatuto da OAB.

 

  • Salvador/BA, Rua da Mangueira, 73, Salvador-BA
  • contato@tamojuntas.org.br
  • (71) 99185-4691
  • (71) 99185-4691

 

 



Comentários


Nome: Angell (Assinado) · Data: 07/04/2018 02:13 · Para: Capitulo 4

Que bom que a protetora se revelou, agora só falta ela descobrir a traição da esposa... rsrs



Nome: Polipokth (Assinado) · Data: 30/03/2018 20:36 · Para: Capitulo 4

Anja boa mesmo.. essas tentativas que vão em contra a vida de nossa protagonista é consequencia do destino que está aproximando-as.. A outra só chifrando.. kkkkk

 

Autora, admiro muito seu perfil de escrita.

:)



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 29/03/2018 23:01 · Para: Capitulo 4

A Andressa correndo risco de morte em espaços curtos de tempo isso tem haver com a anja será bjs Drikka feliz Páscoa



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 29/03/2018 13:44 · Para: Capitulo 4

Olha a anja, já está fazendo contato. Agora só falta a Andressa descobrir que é corna e ser consolada pelo anjo



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 29/03/2018 13:44 · Para: Capitulo 4

Olha a anja, já está fazendo contato. Agora só falta a Andressa descobrir que é corna e ser consolada pelo anjo



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 29/03/2018 01:43 · Para: Capitulo 4

Ainda bem sua anjinha está sempre por perto.

No momento oportuno você saberá quem é sua protetora

Abraços fraternos procês aí!



Nome: Lai (Assinado) · Data: 29/03/2018 00:38 · Para: Capitulo 4

Que fofa!!!!

Parece que querem matá-la, n é possível! Duas vezes já..rs

beijos iluminados



Nome: preguicella (Assinado) · Data: 29/03/2018 00:10 · Para: Capitulo 4

Que lindo! Finalmente se encontraram! 

Aquela coisa né, ansiosa para mais encontros! E ver uma certa cara de pau ser desmascarada! hahaha

Bjão moça! 



Nome: sonhadora (Assinado) · Data: 28/03/2018 23:59 · Para: Capitulo 4

Ah quero uma anjinha dessas tbm....

Amando esse conto, como todos que escreve!

Beijos de Luz!



Resposta do autor:

è Muito guti neh?! hehehe 

Obrigada lindona! Valeu pela confiança e cia!

 

Bjokasssssssssssssss

 



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.