Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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Indo embora

 

-Não acredito que você me convenceu a fazer isso. - Rodrigo reclama se aproximando de onde estou com uma mochila nas costas.

 

-Larga de ser medroso. - Digo retirando com cuidado o soro de minha veia, e logo depois me levanto da cama.

-Medroso?! - Ele diz indignado. –Quando vovó Catherine descobrir vai arrancar meu fígado fora. - O rapaz loiro lamenta me entregado a mochila preta. –Nem vou dizer o que vovô Bernardo vai fazer se esse seu plano não der certo. E sua vó então! Rúbia vai me... - Rodrigo arregala os olhos cinza assustado. –Será que eu posso ir preso?! Eu sou muito novo para apodrecer atrás das grades por suas loucuras. Eu nem acabei a minha faculdade, pra falar a verdade, eu mal comecei. Vou ser colocado junto com os presos comuns. E se um deles se encantar por mim? Eu não vou trair a minha namorada. Mas e se...

-Por Deus, Rodrigo! - Digo revirando os olhos, entediada. Meu primo sempre falava demais quando estava nervoso. –Ninguém aqui vai preso. - Coloco a mochila sobre a cama e retiro o que tem dentro. –Credo. - Falo espantada.

-O que foi? - O rapaz pergunta assustado.

-Não tinha uma roupa menos chamativa para me trazer não?! - Levanto o moletom vermelho a minha frente. Não era completamente vermelho, haviam alguns detalhes brancos. Mas para mim era vermelho demais.

-Que foi?! - Ele diz contendo o sorriso. –Ele combina com os seus cabelos.

-Seu idiota! 

-Se não gostou pode ir com essa bata mesmo. - Ele diz olhando para mim com o rabo de olho. –É bom que o hospital inteiro verá sua bunda branca.

Me viro de uma vez, lhe lançando um olhar matador.

-Eu não tive culpa. - Ele levanta as mãos em rendição. –Você que virou pro meu lado. E eu tenho olho é pra olhar. - Diz fazendo bico.

-Vira de costas seu tarado. - Digo erguendo uma sobrancelha.

-Eu não sou tarado. - Rodrigo cruza os braços enfezado. –E você não conta.

-Como é que é?!

-Você é praticamente minha irmã. - Ele faz uma careta engraçada. –Seria o mesmo que cometer incesto. - Seus olhos cinza se aprofundam nos meus azuis.

-Eca! - Gritamos os dois ao mesmo tempo.

Rodrigo se vira para que eu possa me trocar. Algo que demora um pouco por ter apenas uma de minhas mãos funcionando. Dr. Leonardo disse que talvez eu precise fazer mais algumas cirurgias, algo que não me agradou muito. Afinal, não me davam esperanças para a recuperação completa de meus movimentos. Talvez até mesmo piorasse. Mas poderia ser apropriado para diminuir as dores que comecei a sentir constantemente no pulso e na mão. São os meus ossos e minha carne respondendo ao meu infortúnio.  

Termino de colocar a calça do moletom. Esse meu primo é uma figura. Estou parecendo um grande morango com pernas e braços. Me aproximo da poltrona e me acomodo. Pego as meias e o tênis branco. Tenho dificuldade para aflouxar o cadarço. Isso me irrita. Respiro fundo.    

-Rodrigo. - Chamo o rapaz em um tom baixo.

-Oi. - Ele diz sem se virar.

-Será que você pode me ajudar com isso aqui. - Digo sentida.

O rapaz loiro se vira e entende exatamente o que eu quero. Ele se aproxima sem dizer nada. Rodrigo se ajoelha aos meus pés. Pega o tênis branco e com toda a delicadeza o coloca em meu pé direito. Faz o mesmo procedimento com o outro. Quando acaba ele se levantar, mas não se afasta. O rapaz se abaixa beijando os meus cabelos acobreados. E me estende a mão gentilmente. Algo que aceito. Era como se ele me dissesse que ficaria tudo bem. E eu sei que irmãos mais velhos sabem disso, eles sabem como fazer tudo ficar bem.

Lhe dou um sorriso em agradecimento. Foi bem divertido fugir do hospital. Rodrigo estava mais pálido que um cadáver. Nos esgueiramos pelos corredores agora calmos. Era madrugada. Então não seria tão difícil. Difícil eu pensei que seria convencer o rapaz ao meu lado. Mas foi só fazer cara de gatinho de botas. Ai, pronto! Rodrigo me entregaria o mundo se pudesse. Sempre foi assim. Ele sempre fez bem o papel de irmão mais velho. Era protetor, gentil, amigo e cúmplice. Tenho certeza que não ser sua irmã de verdade não interferia em nosso amor. Isso nunca nos importou. Apenas nos uniu ainda mais.  

Quando finalmente chegamos ao estacionamento podemos respirar aliviados. Olho para o rapaz que também me encarou. E gargalhamos. Estávamos livres.

-O que pensam que estão fazendo? - Uma voz séria soa ao lado do carro de Rodrigo. Nos dois nos viramos assustados. Foi quando demos de cara com uma morena de olhos verdes faiscantes.

-Oi amor. - Rodrigo diz acanhado.

-Amor coisa nenhuma senhor Rodrigo! - Priscila diz revoltada. –O que acham que estão fazendo?

-Sem drama Pri. - Digo indignada. “Faltou tão pouco.” Penso chateada. 

-Sem drama, Lizandra?! - Ela se aproxima ficando a minha frente, sua feição séria muda para uma preocupada. –Não acha que já nos deu sustos demais por uma vida?! - A garota a minha frente ergue a mão tocando o meu rosto com delicadeza.

-Como você descobriu? - Pergunto desconfiada.

-Vocês dois se parecem demais, sabia?! - Priscila sorrir se referindo a Rodrigo e eu. –São péssimos mentirosos! - Faço uma careta e em troca recebo um abraço protetor. –Onde pensam que vão? - Ela sussurra ao meu ouvido.

-Preciso respirar. - Digo baixinho.

Ela mas que ninguém sabia o que aquela frase significava.

-Tudo bem. - Ela diz se afastando. –Mas eu vou junto.

-Por mim tudo bem. - Rodrigo diz todo sorridente.

-E com você... - A morena se vira em direção ao namorado. –Conversamos depois.

-Mas Pri...

-Sem essa Rodrigo. - Ela diz enfezada. –Vamos logo, antes que eu me arrependa.

Quando passo pela garota de expressão autoritária, lhe beijo a face com todo o carinho. Vejo um sorriso tímido surgir de seus lábios, mas ela disfarça.

-Eu amo vocês. - Falo já entrando no carro.

 

-E então... - Priscila pergunta no banco do passageiro longos minutos depois. –Pra onde vamos mesmo?

-É Liz, você ainda não me disse. - Rodrigo fala sem desviar a atenção da direção.

-Como você foge com uma paciente, e não sabe para onde vão? - A garota pergunta abismada.

Vejo o garoto encolher os ombros. Era sempre divertido está na companhia dos dois. Rodrigo era desastrado. Tudo por causa do seu jeito distraído e despreocupado. Já Priscila era toda certinha. Formavam um casal incrível. Sempre vou torcer pela felicidade desse relacionamento. Que ele seja duradouro.

-Mas amor... - Rodrigo tenta debater.

-E se algo acontecesse com ela, Rodrigo?! O que pretendia fazer? - Pri não dava descanso para o coitado.

-Eu estou bem Pri. - Digo tentando chamar a atenção da garota furiosa no banco da frente.

-É bom mesmo. - Ela diz emburrada. –Por que se algo acontecer com você. Eu juro que eu te mato.

-Recado dado. - Digo sorrindo. -Recado atendido.

-Pra onde Liz? - Rodrigo me pergunta sem saber para onde ir.

-Pra casa. - Digo encostando a minha cabeça na janela do carro. -Preciso saber como Júpiter está.

Houve um silêncio assustador. Então eu sabia, algo estava errado. Já desconfiava. Por que sempre que eu perguntava, desconversavam. Não quis prolongar o assunto antes. Afinal, meu mundo inteiro havia desmoronado. E sempre que eu tentava me mexer, era soterrada por todo o peso de ser quem eu sou. Por amar quem eu amo. E por ser filha de quem jamais me amou.

-Vamos lá. - Digo séria me acomodando melhor. –O que está acontecendo?! - Vejo a troca de olhares. E isso me apavora. –O que aconteceu com Júpiter?! - Priscila respira fundo. Não era coisa boa.

-Júpiter morreu algum tempo depois do seu acidente. - Ela diz na lata. A garota nunca gostou muito de enrolação.

-Não!  - Digo levando a minha mão boa até a minha boca a tampando.

-Vovô Bernardo fez de tudo. - Rodrigo diz com voz Triste. –Mas ele não queria se alimentar. Nem mesmo beber água. Júpiter apenas ficava parado olhando para a porta da baia. - A voz de meu primo embarga. –Vovô foi há vários veterinários diferentes. Mas nenhum deles foi capaz de ajuda-lo.

-Sinto muito, Liz. - A voz da garota sai em um fio. –Eu sei o quanto ele significava para você.

-Será que nunca vai ser o suficiente? - Pergunto fechando os meus olhos.

Nenhum dos dois se atreve a dizer mais nada. Então um silêncio assustador cai dentro do carro. Rodrigo segue em frente. Um caminho que para mim não importava mais. Fico ali, encolhida como uma criança indefesa. “Eu perdi meu melhor amigo.” Seguimos viagem por mais de uma hora. Olho distraidamente pela janela. Conheço muito bem essas árvores. Sei que mais a frente há um pequeno estacionamento. E logo mais, uma pequena trilha que leva até o topo. A paisagem lá de cima é de arrancar o folego. Rodrigo e eu sempre víamos aqui quando mais novos com vovô Bernardo. Às vezes acampávamos.

O carro para. O casal desce. Sei que Estão esperando o meu momento. Algo que não demora a acontecer. Limpo o rastro que as lágrimas deixaram em meu rosto com a manga do moletom. Respiro fundo e abro a porta. O caminho não é muito longo. E silenciosamente seguimos até o topo. Quando chegamos o vento frio bateu levemente em meu rosto. Fazendo-me suspirar. Eu precisava disso. Desse pequeno sopro de vida. Nos acomodamos no tronco caído que servia de banco. E ficamos ali por tanto tempo. Apenas admirando o nascer do sol. Ninguém ousou macular aquele espetáculo.

E então aquele momento ficou gravado em minha alma. Eternamente e para sempre.

-Eu estou indo embora. - Digo baixinho chamando a atenção do casal que continuava a olhar para o espetáculo a nossa frente.

-Mais falta tão pouco. - Rodrigo reclama. –Já que vamos ser torturados. Que Valha a pena até o final.

-Não foi isso que eu quis dizer. - Minha voz sai entristecida.

-Como assim? - Priscila pergunta ficando em alerta.

-Estou indo para Nova York com vovó Rúbia. - Digo em um folego só. Não queria perder a coragem.

-Mas... - Rodrigo diz confuso. –Mas aqui é a sua casa.

-Você vai embora? - Pri assimila a que acabei de falar. –Mais e a gente?

-Eu só preciso ir. - Fico envergonhada. Pela primeira vez me sentir completamente egoísta. –Sinto muito.

-Você sente muito?! - A garota se levanta enfurecida. –Você vai mesmo fugir?! Não acredito. - Ela parece desesperada. –Eu sei que Samantha é uma imbecil. Mas é uma imbecil que te ama. Se for por causa dela. Eu mesmo vou até ela e faço o que já deveria ter feito a muito tempo. Parto ela em duas. Eu juro que dou uma surra tão grande nela que ela...

-Não é só ela.

-Com tio Gustavo eu me resolvo. - Rodrigo diz emburrado. –Não sei se posso quebrar a cara dele. - Ele faz uma careta. –Acho que vovó Catherine me mataria se eu ao menos tentasse.

-Sim. Ela te mataria. - Digo sorrindo.

-Por que você vai embora? - Priscila reclama. -Samantha já sabe de toda a verdade. Agora ela sabe por que você não podia assumir o relacionamento de vocês duas. Sabe muito bem quem é o pai. Sabe que...

-Tia Sarah me falou que finalmente descobriram onde estava Cíntia. - Digo olhando para além da garota a minha frente. -Disse que tio Gustavo foi preso.

-Bem feito. - O loiro sentado ao meu lado comemora. –Como um ser humano tem coragem de fazer isso com outro?

-O preconceito é corrosivo e mordaz. Ele nasce como uma pequena sementinha, ai então o alimentamos. E ele vai crescendo e crescendo. Até que chega um dia em que ele é tão forte, que nos suga a consciência do que é certo ou errado. - Falo com calma. –Chega um dia em que ele é uma verdade exclusiva e venenosa. Por que o preconceito é isso, é uma verdade particular. Suja, maltrapilha e enferrujada. Mas uma verdade. Uma verdade tão profunda para quem a sente, que os seus olhos se tornam cegos, os seus ouvidos se tornam surdos e suas condutas são como uma destruição fatal. Então o frasco, o individuo que está contaminado com esse vírus destrutivo na alma. Agride, agride o seu alvo de repulsa. Agride tantas vezes forem possíveis. Talvez tentando saciar a sua pequenez de espírito. Tentando saciar algo que nem mesmo ele sabe que existe. Por que há um vazio. Um vazio tão grande que ele precisa agredir para se sentir vivo. Para saciar a sua própria estupidez humano.

-Às vezes eu tenho o maior medo quando você falar tão difícil. - Meu primo diz com um sorriso de lado. –Tenho maior orgulho de você. - Completa emocionado.

Sei que fiquei vermelha. Pois o casal que me fazia companhia cai na gargalhada. Tenho vontade de me afundar em uma areia movediça. Alguém sabe onde tem uma?

-Por que não disse para Sam que Danilo era gay? - Rodrigo pergunta após um longo momento.

-Esse era um assunto dele. - Priscila já estava devidamente acomodada ao meu lado. Apenas observando.

-Mas se você tivesse dito teria evitado tanta coisa. - Ela diz sem entender.  

-Sam era minha namorada. - Digo com um sorriso triste. Pego um graveto e começo a riscar chão. –Ela não confiou em mim, mesmo quando eu pedir para confiar. - Dou um suspiro frustrada. -A verdade sempre aparece. Mas ela não soube esperar.

-Mas se...

-Era um segredo. - Digo olhando para os olhos acinzentados. –E ele não me pertencia.

-Você falaria pra ela se por acaso o tempo voltasse e tivesse uma nova chance? - Pri me pergunta curiosa.

-Eu faria tudo de novo. - Houve um novo silêncio. –Eu faria o que sempre me foi certo ser feito.

-Então é isso... - Pri fala sentida.

-Sim. - Digo olhando para o sol que estava já alto. –Eu estou indo embora.

 

 

 

 

 

 

Notas finais:

Bom dia! 

 

Bom comecinho de semana para todas. 

 

Bjus...



Comentários


Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 14/05/2018 16:36 · Para: Capítulo 30 - Indo embora

Só suspiro. É muita coisa pra uma garota. Boa semana.



Resposta do autor:

Nem me fala. Rsrsr...

 

Obrigado! Pra vc também. 

 

Bjus...



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