Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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Olhos amarelados

 

12 anos atrás...

 

-Ande logo Lizandra. Não posso te esperar a noite toda. - A voz irritada de papai soa me advertindo. –Já estamos atrasados. - Reclama impaciente.

Olho no espelho sem muito animo. Preferia ficar em casa, mas como não tenho direito de escolha. Dou um suspiro cansado olhando para a imagem da garota franzina de pele clara. Seus cabelos estavam mais rebeldes do que nunca. Aquele vermelho me dava nos nervos. E aquela multidão de pintas enferrujadas?!

-Credo. - Digo baixinho. –Bem que você poderia ser um pouquinho menos colorida. - Reclamo para a garota de olhos azuis do espelho.

-Lizandra! – Papai diz sem entrar em meu quarto. Ele nunca o fazia.

-Já estou indo. - Recolho o agasalho encima de minha cama e em passos inseguros me aproximo de papai. Que me olhava com reprovação. Sempre com sua postura inatingível.

Dr. Gustavo D’Barriel Fonseca, um dos melhores neurocirurgiã do país. Papai é um homem bonito. Com seus cabelos bem cortados, pele morena e olhos escuros. Com seus 1,80 de altura. Assim como vovó, ele seguiu a tradição da família Fonseca em medicina. Vovó Catherine é pediatra. Algo que se encaixa perfeitamente em sua personalidade doce. Já vovô Bernardo é fazendeiro. Ele cria cavalos das melhores raças possíveis. Vovô é um dos homens mais generosos que existem. Papai se parece muito com ele, ao menos no físico.  

Dou um suspiro, cansada. Dr Gustavo chegou em casa como um furacão. Nem ao menos me deu boa noite e já me mandou ficar apresentável. Por que iriamos até a casa dos Alcântara. Sebastian Alcântara era amigo de papai desde sempre. Ele e a família acabaram de voltar para o Brasil depois de longos 5 anos morando em Manchester Londres. Tio Sebastian era casado com Sarah, uma mulher de condutas gentis. Eles tinham uma filha dois anos mais velha que eu. Samantha, e para o meu total desgosto. Papai era seu padrinho. Não que eu não gostasse da garota. Apenas não entendia a diferença de tratamento.  

-Nem pra isso você presta. - Sua voz sair impaciente, voltando à chamar a minha atenção.  –Que roupa é essa garota?! - Seus olhos escuros me analisam desgostosos. –Não tinha algo menos ridículo que isso em seu guarda roupa não?!

Seguro com firmeza o agasalho entre as minhas mãos. Não o olho nos olhos. Ele me dá medo às vezes. Prendo o choro em minha garganta. Não sou mais uma garotinha para sair correndo assustada para me esconder. Em passos indecisos passo pelo homem que me olha com frieza. Sei de seu total desinteresse por mim. Não o culpo.

-Ande logo. - Ele diz passando ao meu lado. Papai desce as escadas apresado. –Não faça eu me arrepender de leva-la. 

Eu o sigo sem a menor animação. Quando chego no andar de baixo, vovô me encara encantado. Seus olhos amorosos tiram um pouco o peso da rejeição.

-Que moça mais linda. - O senhor Bernardo diz em um tom admirado. E por um segundo eu acredito que sou realmente, linda. –Venha, minha querida. - Vovô estende o braço direito em minha direção. E eu aceito com um sorriso Tímido.

-Onde estar à vovó? - Pergunto sendo guiada por ele.

-Ela já esta lá, foi direto do hospital. - O senhor ao meu lado comenta sem me olhar.

Quando chegamos à escadaria. Papai já nos esperava dentro do carro, impaciente. Sei que se fosse por ele, eu não iria. Mas eu tinha vovó e vovô. E papai não ia contra eles, ao menos a maioria das vezes. Às vezes em que ia, se devia ao seu desagrado a minha pessoa.

O caminho até a residência dos Alcântara foi tranquila. Vovô Bernardo e papai conversavam sobre assuntos variados. E eu?! Eu apenas olhava para fora da janela do carro. Olhava desaminada. Por que eu tinha certeza que minha noite seria um caos. Toda vez que saia com papai era assim. Ele fazia questão de me diminuir. Como se eu não fizesse isso por conta própria.

Olho para as minhas unhas ruídas. Faço uma careta. Tenho que parar com isso. Afinal, não é o que se espera de uma garota de quase 13 anos de idade. Estou vestida em um vestido preto de alças finas. Em meus pés, um all star cano alta coberto de caveiras. Não é a roupa mais apropriada para a filha de um grande cirurgião. Como se ele se importasse... Digo com a filha.

 

-Não me envergonhe. - Papai diz quando chegamos. Ele estreita os olhos escuros em minha direção. Um nó magoado fica preso em minha garganta.

-Gustavo! - Vovô o repreende. Papai apenas se retira a nossa frente. –Não se preocupe com isso minha querida. - Sinto os braços protetores do homem mais velho em meus ombros. Logo depois sinto-o depositar um beijo sobre os meus cabelos acobreados. Então eu estou protegida.

 

Olho em volta, a casa dos Alcântara é belíssima. Há um “pequeno” grupo seleto para o jantar de boas vindas. Em sua maioria são médicos do Hospital onde papai e vovó Catherine trabalham. Tio Sebastian também é médico. Ele é clinico geral. Tia Sarah é advogada. Não os vejo desde o dia em que foram embora do país. Papai às vezes viajava até eles. Mas nunca se dignou a me levar.

Tenho dois tios por parte de pai. Tio Marcos e tio Alberto. Tio Marcos é casado com tia Rebeca e tem dois filhos, Samuel e Rodrigo. Eles moram em Lisboa. Já o tio Alberto é solteiro, mas tem um filho, Diogo. Eles moram na Suíça. É tão raro virem ao Brasil. Quase não os vejo. Papai é o caçula entre os três. Eu?! Eu sou a única menina da família. E a mais nova entre os meus primos.

Isso é tão chato. Olho em volta, não encontro ninguém da minha idade. Dou um suspiro, entediada. Ando até a mesa mais próxima, e pego um salgado de aparência estranha. Não sou muito fã desses negócios cheios de frescuras. Então o recoloco de volta ao seu devido lugar.

Os adultos conversavam animados. Em um lado vejo papai, tio Sebastian, vovô e mais dois senhores que só conheço de vista. Sei que trabalham com papai. Um pouco mais longe, do outro lado do salão vejo vovó em um papo prolongado com tia Sarah, elas sorriam. Até que em um momento vovó fica séria. Tia Sarah fala algo, acho que não é tão aceito pela mulher mais velha. Mas ela insiste. Vovó apenas balança a cabeça afirmativamente.

Em todos os lados existiam grupos de três ou mais pessoas. Nessa “pequena” reunião entre amigos tinham umas trinta pessoas brincando. Mas para a minha infelicidade, eu sou uma ilha. Pego a taça com um conteúdo de cor não identificada sobre a mesa de salgados. Levo-a a boca. O seu sabor não é tão ruim quanto a sua aparência. Quando volto a olhar para onde vovó estava, não a encontro. Então os meus olhos astutos a procuram em volta. A encontrando conversando com papai. Longos minutos depois vejo-os seguindo em minha direção. Meu coração se acelera. Pela expressão de papai, não era coisa boa.

Coloco a minha mente para funcionar. “O que eu fiz de errado?!” Penso angustiada. Tia Sarah estava em seu encalço. Ela me sorria carinhosamente. “Talvez eu sobreviva a essa noite.”

-Lizandra. - A voz sem sentimentos de papai ferem a minha audição. Eu o olho com cautela, nunca sei o que esperar dele.

-Sim, papai?! - Digo em um fio.

-Sarah acaba de me fazer um pedido. E eu não tive como nega-lo. - O homem autoritário a minha frente fala em um tom superior.

-Um pedido?! - Digo sem entender.

-Sim, querida. - Tia Sarah me sorrir com os olhos verdes brilhantes. –Eu gostaria que tocasse. - Sua voz suave foi como uma explosão aos meus ouvidos.

-Como?! - Questiono-a confusa. Mas os meus olhos agora estão assustados olhando para os olhos escuros do homem a minha frente.

Papai me proibiu veementemente de até mesmo sonhar em colocar as minhas mãos em algum instrumento musical. Ao menos em sua frente. E agora isso!

-Na outra sala há um piano, e sei o qual talentosa você é. - Tia Sarah coloca a mão direita sobre o ombro de papai. –Gustavo permitiu. - Vejo-o fazendo uma careta contrariado. –O que me diz? - A mulher de cabelos claros me pergunta esperançosa.

-Se papai permitiu. - Digo encolhendo os ombros como um pequeno animal acuado.

-Estar tudo bem, Liz. - Vovó me sorrir carinhosa. –Iremos adorar vê-la tocar novamente.

-Se não for perdi demais. - Tia Sarah me encara envergonhada. –Gostaria que tocasse Sonata ao luar de Beethoven.

-Não será incomodo algum. - Meus olhos brilham, essa era uma das minhas melodias preferidas.

-Então vamos logo. - Papai sair na frente irritado. Tia Sarah me pisca um olho cúmplice. E logo vai ao encalço de papai.

Solto a respiração, eu nem mesmo sabia que a havia prendido por todo aquele tempo. Coloco a taça com o liquido de cor estranha de volta à mesa. Sei que estou sendo observada. Mas não me atrevo a olhar para aqueles olhos castanhos. Sinto vovó se aproximar, sua mão segura a minha. E em silêncio nos aproximamos da tal sala com o bendito piano.

Quando adentramos. A sala já estar cheia de olhores curiosos. Sei que minha pele estar da mesma cor do meu cabelo. Odeio ser tão branca. No centro da sala há um lindo piano preto de cauda. Ele era tão encantador. Minhas mãos ansiaram em tocar as suas teclas e criar...

-Você esta pronta? - Vovó sussurra baixinho.

-É um piano, vovó. - Digo lhe sorrindente. –Eu sempre estou pronta.

-Então me orgulhe. - A senhora mais velha diz para logo em seguida me dar um beijo sobre a face e me deixar sozinha diante de todos aqueles rostos curiosos.

Sem dizer nada, me acomodo no banquinho. Procuro entre as partituras a que tia Sarah deseja. Ao encontra-la dou um sorriso de lado. Ajeito-a sobre o suporte sobre o piano.

Coloco os meus pés diante dos pedais. Dou um suspiro, e como se o meu corpo fosse transpassado, eu sinto aquela velha emoção. Eu posso respirar tão bem aqui. Olho para as partituras, logo depois olho para as teclas. Então as minhas mãos ganham vida própria. Meus dedos deslizam sobre aquela superfície. Os meus pés prolongam as notas sobre os pedais. Eu me reconheço diante de tão bela melodia.

Sabe aquela sensação de plenitude? Eu sempre a sinto assim. Diante de um piano. Eu já não sou uma garota tímida, não sou aquela ilha intocável. O mundo não me parece tão hostil. Por que por um momento, um simples momento eu sou a nada e o tudo ao menos tempo. Eu sou o vazio e a transbordação. Enquanto deslizo sobre as teclas desse piano...

 

Ergo os meus olhos nas últimas notas da Sonata ao luar, e o meu corpo paralisa. Sabe o momento em que o ar foge dos seus pulmões? O momento em que o mundo para? O meu parou diante daqueles olhos amarelados profundos. 

Nome: Cris Reis (Assinado) · Data: 28/03/2018 20:23 · Para: Capitulo 3 - Olhos amarelados

Nossa que pai "maravilhoso" a Liz tem né? rs.. de qualquer forma ela ja me encatou com sua aparente delicadeza, quando tocou sonota ao luar entao... Posso dizer que esse olhar de samantha não atingiu somente liz. 

Sua estória é otima parabéns!! 



Nome: Cris Reis (Assinado) · Data: 28/03/2018 20:20 · Para: Capitulo 3 - Olhos amarelados

Nossa que pai "maravilhoso" a Liz tem né? rs.. de qualquer forma ela ja me encatou com sua aparente delicadeza, quando tocou sonota ao luar entao... Posso dizer que esse olhar de samantha não atingiu somente liz. 

Sua estória é otima parabéns!! 



Resposta do autor:

Obrigado, minha linda!

 

Beijuus...



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