1808 por Drikka Silva


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O estrondo foi muito alto. Isabel deu um salto na cama esfregando os olhos tentando focalizar alguma coisa no escuro. Conseguiu localizar o interruptor do abajur e a luz baixa revelou que o estrondo não havia partido do seu quarto que continuava impecável. Levantou-se e pegou o penhoar nos pés da cama e saiu para o corredor procurando a origem do barulho. Encontrou com Pedro e Joana nos pés da escada que levava ao sótão.

- O barulho veio lá de cima – Eles falam quando Isabel se junta a eles.

- Isso não acontece sempre não é?

- Não senhora...

- Vamos subir e ver o que aconteceu.

Ao entrar no sótão tudo parecia extremamente normal a não ser o fato do baú que pertencia a Ana Maria estar com a tampa aberta.

- Tem como algum bicho entrar aqui?

- Não senhora. O telhado é muito alto e as janelas continuam trancadas. – Pedro fala analisando as fechaduras.

- Que estranho... Será que a casa é de fato mal-assombrada? – Isabel pergunta rindo.

- Que horror Dona Isabel! – Joana fala se benzendo – A senhora ainda fica fuçando nas coisas do passado...

- Para de ser medrosa, Joana. Fantasmas não existem. –Isabel fala analisando o baú – Ele tem um fundo falso... Me ajuda aqui Pedro.

Isabel tira a tabua que esconde o resto do baú e encontra uma jóia rara: Livros guardados com todo o cuidado envoltos em papeis de seda, lenços e plástico. Ao abrir um deles, uma letra pequena e caprichosa salta a seus olhos. A pagina inicial revela que se trata de um diário datado de 1806 e no rodapé da folha a assinatura de Ana Maria Gonçalves

 

“... O cantar dos pássaros na janela me acordaram como sempre, o sol brilhante fez com que me levantasse com uma alegria contagiante. Mamãe tomou chá comigo e depois saiu para a aula de montaria. Dona Pedrina escovou meus cabelos e me fez companhia pela tarde, me contado as historias de sua querida terra. Papai chegou quase de noite dizendo que hoje era a nossa ultima aula de escrita. Disse que já sei ler e escrever perfeitamente. Estou tão feliz...”.

“... Na próxima semana vai haver o baile na corte. Pela primeira vez vou até o palácio. A comemoração se dá ao fato da vinda ao mundo da pequena Ana de Jesus. Mamãe esta polvorosa porque seu vestido ainda não está pronto. A ouvi gritando com o costureiro. Ainda bem que o meu já está feito... Ele é lindo com rendas e flores como os que mamãe usa. Ela disse que tenho que estar impecável, pois vai ter muitos rapazes de posses lá e eu já estou com idade para casar... Tenho medo... Tenho apenas 13 anos...”.

 

Isabel parou a leitura se dando conta que Pedro e Joana ainda continuavam parados na sua frente esperando alguma ordem. Ela despede os dois e leva os diários para seu quarto. A riqueza dos detalhes colocados nas folhas impressiona. Não era costume da época meninas saberem ler e escrever a não ser quem de fato pertencia a realeza, mas Ana Maria mais uma vez fazia jus a seu sobrenome. Colocando tudo em ordem cronológica Isabel começa a ler desde os primeiros escritos de sua ancestral. Vencida pelo sono ela adormece com os livros na cabeceira da cama pensando em como aquela criança doce e feliz ficou com os olhos tão tristes.

 

Pelas inscrições Ana Maria nasceu no ano de 1793 na cidade de Lisboa. Seu pai trabalhava para a família real o que possibilitava uma vida tranqüila. Sua mãe era uma mulher vaidosa e ativa que adorava freqüentar festas e reuniões que eram dadas por todos aqueles que possuíam um titulo ou um brasão. Aninha por vezes ficava em casa escrevendo em seu diário imaginando o dia que poderia usar os mesmos vestidos majestosos que sua mãe costumava desfilar. Por varias passagens ela afirmava que queria ter a mesma vida da mãe: Casada com um homem de respeito da corte e com filhos adoráveis.

 

Isabel interrompeu a leitura apenas para almoçar. Não havia saído do quarto antes. Ao chegar na cozinha, Natalia está sentada no balcão perto de uma janela. O cabelo molhado informa que voltou a seu habito diário de se banhar no rio. Isabel a cumprimenta e fala do achado na noite anterior.

- A historia dela é maravilhosa... Quero que leia depois.

- Eu vou ler. Mãe vou encontrar o Nilso. Tchau. – A menina pula do móvel e sai em busca do seu cavalo.

- Ela parece brava... – Isabel fala indo pra perto da janela vendo o cavalo que se afasta rapidamente.

- Ela ta estranha mesmo. Não sei o porquê. Deve ter se desentendido com o namorado.

- Talvez... Essas crianças nunca estão satisfeitas com nada.

- A senhora tem razão. Ela ficou muito brava quando voltou de Curitiba. Por ela ficava morando lá.

- Isso eu entendo Joana. Ela devia ter amigos lá, quem sabe até outro rapazinho que ela gostasse mais do que esse.

- Mas não tem jeito, né dona Isabel, Ela tem que ficar junto com seus pais.

- Concordo com você Joana. Nada melhor do que a família.

- E quando é que sophie vai vir pra cá?

- Eu não quero falar sobre ela, desculpa.

- Tudo bem. Eu que peço desculpa.

- Deixa pra lá.

Depois do almoço Isabel voltou para o seu quarto para continuar a leitura. As transcrições relatavam os 13 e 14 anos de Ana Maria. Os locais pelo quais ela andava, sua predileção pelo cais, o amor que nutria pelo mar, fatos que deixavam Isabel fascinada. Mergulhada na vida de outra pessoa, cancelou sua volta à cidade por mais uma semana. Não havia ninguém esperando por ela, somente a pequena Aninha a esperava nas folhas do diário.

 

“... Minhas queridas primas estiveram em casa. Vieram me contar a nova: Julieta vai se casar! Seu noivo é filho de um membro iminente da corte. Ela diz que ele é uma versão humana dos seus poemas, eu com franqueza não achei formoso. É baixo e gordo. Falta-lhe a beleza...”

 

“... Ontem na parte da tarde ouvi papai gritando com mamãe. Nunca o vi tão bravo! Mamãe se ajoelhou aos seus pés e pediu perdão por algo que fizera que não consegui compreender... Sei que nosso escravo foi açoitado. Pedrina entrou no quarto chorando dizendo que iam decapitá-lo. Fiquei horrorizada com tanta maldade em papai... Não creio que mamãe tivesse coragem de fazer algo terrível como se deitar com um crioulo...”.

 

Isabel fechou a pagina deixando a mente vagar. A traição da esposa já revelava o porquê de Teodoro ter sido um homem tão ruim com os escravos. Claro que ele estava errado, mas isso não é uma coisa que se explicasse a um homem no século XIX. Uma batida na porta tira sua atenção. Ajeitando as roupas ela abre a fechadura. Natalia adentra o quarto com uma correspondência na mão.

- Essa carta chegou pra senhora. – Ela fala entregando o envelope.

- Obrigada. O que aconteceu com o “Bel”?

- Desculpa.

- Está tudo bem Nat?

- Está sim. É que às vezes as pessoas demoram em entender o que queremos. – Ela fala indo até a janela.

- Algum problema com seu namorado? - Isabel pergunta pegando em sua mão.

- É... É o Nilso... Ele não entende que estou completamente atraída por outra pessoa.

- Mas se ele te ama acaba sendo injusto você pedir isto.

- To confusa Bel...

- Senta aqui menina...

- Tenho 26 anos Bel, não precisa me tratar como uma criança...

- Não é minha intenção, mas todos que tem menos do que trinta anos considero meninos... – Ela fala rindo, tirando uma mecha de cabelo que caia sobre os olhos de Natalia. - Agora me conte o que aconteceu...

- Chegou uma pessoa na cidade e essa pessoa é incrível... Não consigo parar de pensar nela.

- E você já teve contato com esse rapaz?

- Não é um rapaz...

- Não entendo...

- Ele tem mais idade do que aparenta – Natalia se apressa em corrigir – Mas tem uma energia e uma inteligência que deixa qualquer garoto da minha idade pra trás.

- Ele não é casado é?

- Não! Claro que não... Ele é viúvo.

- Tem filhos?

- Uma menina quase da minha idade.

- Uma situação delicada, mas se você acha que ele é uma pessoa de boa índole por que não tentar?

- Tenho medo dele não me querer... Tenho medo de falar pra ele...

- Nat... Minha linda, não se sinta insegura. Você é adorável. É linda e muito inteligente também, porque ele não iria querer?

- Me diga você Bel... Se derrepente aparece um homem com 26 anos apaixonado por você. O que você faria?

- Não costumo ter esse tipo de sonho com meus 47 anos... Mas se isso um dia viesse a calhar e fosse conveniente para ambas as partes, porque não?

- Acho que eu só precisava ouvir isso. Obrigado Bel. – Natalia dá um abraço e um beijo em Isabel que fica olhando a menina saltitante que sai do seu quarto.

Isabel volta sua atenção para a carta em suas mãos. Não havia remetente. O primeiro impulso foi jogar fora, mas a curiosidade a levou a abrir o envelope. Ninguém sabia que ela estava ali. Não tinha avisado suas irmãs e nem Sophie. A única pessoa que sabia da sua presença ali era o advogado da família que tomou conta do testamento da sua avó. Dentro da carta ela encontra outro envelope com a letra da sua avó e do lado um bilhete de Sophie.

 

“Mãe eu não mandei com remetente com medo da senhora não abrir. A bisa pediu que te entregasse essa carta já tem mais de um mês, mas não me disse quando. Disse apenas que eu saberia o momento certo e sinceramente não sei se este é o momento certo.

Sua filha, Sophie”.

 

De fato sophie conhecia a mãe. Isabel não teria aberto se soubesse que era dela, mas o que a intrigava era a carta de Dona Josefa. Abriu o segundo envelope e começou a ler a pequena letra da avó:

 

“Minha querida Bel,

 

Já vivi muito, Bel. Mais do que meus 101 anos de idade. Não se faça perguntas do tipo porque? Como? Quando? Nenhuma dessas perguntas serão respondidas, somente o tempo pode responder essas questões. Dos meus oito filhos Fui obrigada a ver o funeral de cinco. Não há dor maior do que ver a morte dos seus próprios filhos. Deus me manteve forte em cada um deles, me deu coragem para superar todas as tragédias que a vida me impôs e permanecer com a cabeça serena. Meu tempo se encurtou. Já vivi demais. Já pedi minha partida ao criador e tenho certeza que ele vai me atender em breve. Das minhas netas e bisnetas você e Sophie me deram alegrias incalculáveis. Às vezes sem precisar dizer nada, apenas com um sorriso mudavam meu dia. Lembra-se de quando sophie nasceu? Nunca vi um brilho tão especial como vi nos seus olhos naquele dia. Você me disse que tinha certeza que uma criatura especial havia nascido naquele dia e você estava com toda a razão: Sophie é muito especial... Às vezes nossas escolhas não são as mesmas dos nossos pais.Sua mãe nunca gostou do seu marido. Por mais que vocês fossem felizes ela nunca gostou do Jorge, dizia que ele não era um bom partido e mesmo que vocês tivessem o casamento perfeito ela era contra. Lembro-me de quando ela faleceu: mesmo em seu leito de morte ela me pediu para tomar conta de você para que ele não a fizesse sofrer e vocês foram felizes, com todas as diferenças que todo casal tem, mas foram felizes até que a morte do Jorge separou essa felicidade. Sophie é uma Gonçalves Silva mais do que você imagina, talvez até a mais legitima descendente direta de Ana Maria. Não importam quais sejam seus motivos ou desejos, ela é sua filha e isso nunca vai mudar, mas para que você entenda o motivo de eu escrever essas linhas vá até a fazenda: No sótão tem aquele baú que eu não deixava você mexer. Agora você tem minha permissão. Dentro dele há um fundo falso e lá no fundo os diários de Ana Maria, se você ainda não encontrou faça isso, leia todos eles do começo ao fim depois guarde tudo novamente e entregue para Sophie. Espero-te no lado doce da vida...

Amor

Josefa”.

 

 

Com os olhos marejados de lagrimas Isabel guarda a carta. Era como se sua avó soubesse de tudo o que acontecera no dia de sua partida, como se soubesse do que sophie estava fazendo e soubesse de como ela havia reagido a noticia. Com uma curiosidade ainda maior Isabel guarda a carta na gaveta e volta para cama onde o diário continua repousando. Agora não só a Historia de sua ancestral a instigava a continuar, mas a vontade de entender as palavras de sua querida avó também era um incentivo.

Nome: mtereza (Assinado) · Data: 10/04/2017 00:27 · Para: Capitulo 3 DIÁRIOS

Adorando a história ansiosa para saber mais história de Ana Maria



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