Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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Sem olhar para trás

 

 

A discussão em meu quarto durou mais do que merecia. Samantha implorava para que eu a ouvisse. Mas ela já havia perdido essa chance há muito tempo. Fui salva por vovó Catherine que expulsou todos do meu quarto. Eu lhe pedi que não deixasse mais ninguém me incomodar. E ao perceber que eu não estava bem foi exatamente isso o que ela fez.

Receberei alta em dois dias. Não vejo a hora de sair desse lugar deprimente. Desde o dia em que Danilo veio aqui há uma semana, não derramei mais uma lágrima pela garota de olhos amarelados. Talvez eu esteja finalmente me libertando. Estou deitada de olhos fechados. Essa é uma das poucas vezes que me deixo mergulhar no silêncio desde que acordei. Minha mente parou de me agredi. Ela está tranquilamente silenciosa.

Levo a minha mão até o lado direito de minha cabeça. Mas precisamente um pouco acima de minha orelha. Há uma pequena cicatriz. Rodrigo disse que o corte de cabelo caiu bem em mim. Disse que valorizou o meu lado gótico. Vovó Catherine não permitiu que raspassem meu cabelo todo. Então lá estava eu, com um novo corte de cabelo.

Contorno a cicatriz com as pontas dos meus dedos. Logo depois os levo para a minha sobrancelha contornando a que também existia ali. Dou um suspiro e vou com a mão até o meu braço esquerdo. Desço lentamente as pontas dos meus dedos sobre o meu braço. Desço pelo pulso até chegar ao meu destino. Ontem eu vi o estrago que estava a minha mão sem faixa. Não que eu me importe com as cicatrizes. O que me entristece são os movimentos que elas tiraram.

Ouço a porta se abrir lentamente. Fico parada. Meus olhos continuam fechados. Os passos se aproximam timidamente. A pessoa não diz nada. Mas eu conheço muito bem esse perfume. Samantha fica ali parada por um longo tempo. E eu fico ali, inerte. De repente sinto os seus dedos deslizarem delicadamente sobre o caminho que os meus fizeram antes sobre a minha sobrancelha. Longo depois eles descem suavemente sobre a minha pele e contornam lentamente os meus lábios. De repente sinto seu hálito quente sobre o meu rosto, e antes que eu pudesse abrir os meus olhos ou dizer qualquer coisa, os seus lábios caem sobre os meus saudosos, em um beijo castro e demorado.

-Mas que pouca vergonha é essa?! - Um grito estrondoso faz Samantha se assusta e se afastar rapidamente. –O que diabos pensa que está fazendo Samantha?!

-Pai! - A garota sussurra desesperada.

-Vamos lá! Me explique o que está acontecendo aqui?! - Tio Sebastian grita alto. –Sem enrolação Samantha! - Abro os meus olhos e vejo a fúria contida nos olhos castanhos.

-Não precisa grita. - Digo em tom sério. Chamando a atenção dos dois intrusos em meu quarto.

-Liz. - A voz de Sam sai angustiada.

-Samantha, estou falando com você. - O homem não se da ao trabalho de amenizar a voz com a própria filha.

-Eu...eu a amo papai. - A garota de olhos amarelados fala em um fio. –Eu sempre a amei.

-Cale a boca, garota! - Tio Sebastian parecia desesperado. Ele passa as mãos sobre os cabelos, como se assim pudesse tirar as palavras de Sam de sua cabeça. –Isso não pode está acontecendo.

-Eu iria te falar. Mas... - Sam me olha como se pedisse ajuda.

-Mas eu não deixei. - Digo firme me sentando na cama. –Afinal, nos dois sabemos o que o senhor acha sobre o homossexualismo.

-Se sabia, então por que se envolveu com minha filha?

-Porque eu a amo. - Dou um suspiro magoado. -Mas nem sempre o amor é suficiente. - Meus olhos não olham em direção a Samantha.

-Liz. - A garota tenta me tocar mais eu me afasto. –Eu... eu sinto muito meu amor. Eu...

-Se afaste dessa garota agora mesmo Samantha!

-Mas papai...

-Isso é uma doença! - Ele se exalta. -Você precisa ser tratada.

-Como o senhor fez com sua própria irmã? - Pergunto para o seu espanto e o de Samantha. Tenho dois pares de olhos supressos sobre mim. -Pretende colocar a própria filha em uma clinica clandestina?

-Como sabe disso? - O homem me pergunta abismado.

-Descobrir por acaso. - Digo tentando manter tia Sarah longe de problemas. Havíamos descoberto há pouco tempo sobre Cíntia Alcântara. Por isso o medo de que tio Sebastian descobrisse meu relacionamento com Samantha. Estávamos procurando provas e como acha-la. Se ela ainda estivesse viva. É claro.

-Cíntia estava doente. Precisava ser tratada.

-Tia Cíntia?! - Sam sussurra. –Mas eu pensei que ela estivesse morta?

-Não Sam. - Dou um suspiro cansado. Chegou o momento que evitei por tanto tempo. Não queria que ela descobrisse a atrocidade que o pai foi capaz de fazer com a própria irmã. –Cíntia foi internada em uma clinica clandestina há alguns anos atrás, logo após seu pai ter descoberto de seu relacionamento com outra mulher. Por isso a mudança para Londres. Foi para evitar que você e tia Sarah descobrissem.

-Isso é mentira. - Sam diz desesperada. –Isso... - A garota coloca as duas mãos sobre a boca. Seus olhos se enchem de água.

-Cíntia estava doente. Ela não sabia o que estava fazendo. - A voz do homem diminui o tom agressivo. –Ela era a minha única irmã. Meu dever era protegê-la.

-Onde está Cíntia? - Pergunto séria. –A procuramos, mas até agora foi inútil.

-Você não tem o direito de se intrometer nesse assunto. - Tio Sebastian se aproxima segurando no ferro da cama. Ele está diante de mim. Seus olhos estão vidrados nos meus. –Ela está melhor agora.

-Você a destruiu! - Digo sentida. –Sabe o que acontece em lugares como esse? - Pergunto angustiada. –Eu só não consegui descobrir onde encontra-la. - Digo baixinho.

-Ela precisava ser tratada. - Ele se defende.

-Diga que é mentira papai. - Samantha implora angustiada. –Diz que é mentira. Por favor. - As lágrimas já desciam de seus olhos amarelados.

-Ela estava doente Samantha. - Ele desvia os olhos dos meus, para encarar os amarelados. –Ela só precisava de ajuda.

-E você fez isso? - Questiono-o abismada.

-Sim. Eu o fiz. - Ele diz convicto. –Era meu dever como irmão.

-E você faria o mesmo com Sam? - Pergunto com um nó na garganta.

-Se for preciso. - Sua voz sai sem emoção. –Sim, faria isso.

-Mas... mas isso não existe mais. - Samantha diz desesperada. –Não é Liz? Isso... isso é proibido. É sujo! - Meu coração doeu por ela. Só de imaginar que alguém pudesse feri-la dessa forma. Me deixava doente.

-Sim, Sam. É proibido! - Digo lhe olhando com carinho. Eu não conseguia ser indiferente com a sua dor. –Isso é um crime. Mas ainda existem muitas clínicas clandestinas no mundo. Sempre vão existir pessoas que pensam como seu pai. Pessoas sem integridade humana. Eles roubam o direito de amar, de viver e de ser diferente. Por que isso os assusta. O desconhecido sempre causa medo.

-Eu não tenho medo! - O homem volta a chamar a minha atenção. –Será que é tão difícil entender que isso não é normal? Que isso é contra a tudo o que é correto e aceito pela sociedade?

-A sua sociedade é diferente da minha. - Minha voz soa fria. –A sua é engessada por um falso moralismo. Por uma pequena parte de seres hipócritas que se fazem de senhores de uma verdade suprema e exclusiva. Por que tudo aquilo que suas mentes restritas não entendem ou não aceitam, não é correto.

-Mas...

-Pessoas como você o mundo está cheio. Isso sim é uma doença, uma doença de caráter. - Dou um suspiro. –Por que pessoas como você se acham no direito de julgar e ao mesmo tempo condenar pessoas como eu. Eu não me importo com o que você faz com a sua própria vida. Então não lhe dou o direito de interferir na minha.

-Foi você quem colocou essas ideias na cabeça de Samantha?! - Ele se exalta novamente. –Minha filha não tinha essa doença antes de voltamos para cá. Ela não...

-Eu não estou doente! - Sam sussurra baixinho.

-Como não minha filha?! - O homem tenta se aproximar de Sam, que se afasta assustada.

-Eu... eu não estou doente por apenas amar uma garota. - Ela diz emocionada. –Amar não é uma doença.

-Isso é pecado! - Tio Sebastian se revolta com as palavras da filha. –Isso vai te arrastar para o inferno.

-Isso é o que todos dizem quando não encontram mais argumentos. - Digo lhe chamando a atenção. –Dizem que amar pessoas do mesmo sexo é pecado. Enquanto matam, estrupam, roubam, mentem uns para os outros e para si mesmos e comentem as suas próprias atrocidades. Mas é tão difícil ouvir dizer que isso é pecado...

-Mas é um pecado! - Diz autoritário.

-Eu acredito que cada um vai responder pelos seus próprios atos. - Fecho os meus olhos, e respiro fundo. –Não sei se acredito que o meu amor por Sam seja um pecado. Mas eu acredito em Deus. Acredito que tudo o que acontece seja por um motivo maior. - Os meus olhos azuis se encontram com os castanhos transtornados. –Então eu assumo a minha responsabilidade pelas minhas próprias ações e escolhas. Não preciso de seres hipócritas que são tão pecadores quanto eu, me dizendo como viver ou amar.

-Você é bastante abusada garota!

-Não. Apenas estou cansada de ser ferida, de ser diminuída e magoada. - Minha voz sai sentida. –Estou cansada de acreditar que não mereço a dadiva de viver ou o direito de amar e ser retribuída em troca.

-Liz... - Sam tenta novamente me chamar. Mas eu não lhe dou importância.

-Samantha ou você sai agora mesmo de perto dessa sapatão, ou eu...

-O que está acontecendo aqui? - Um homem alto de jaleco branco adentra o meu quarto. Ele estava sério. Eu conheço tão bem aquela expressão sem sentimentos.

-Sai agora mesmo do meu quarto! - Digo com ressentimento. Minha respiração começa a fica agitada.

-Sua filha fez algo terrível, Gustavo. - O pai de Sam diz com um sorrisinho de lado.

-O que houve? - Dr. Gustavo diz preocupado.

-Essa aberração levou minha filha para o mau caminho. - Diz convicto. Os olhos escuros do homem a minha frente caem sobre mim. Eles não estavam com a mesma frieza tão conhecida por tantos anos.

-Fui eu quem a convenceu a ficar comigo. - Samantha diz dando um passo a frente. –Fui eu quem a beijou pela primeira vez. Quem a tocou e a amou. - Os olhos castanhos de tio Sebastian estavam supressos. –Fui eu quem lhe tirou tudo. Eu fui a primeira em cada uma das descobertas e reações de Lizandra. E não me envergonho ou me arrependo. - Sua voz diminui. –A única coisa que tenho para me arrepender e de tê-la machucado, decepcionado e traído.  

-Isso é mentira! - Tio Sebastian grita alterado apontado o dedo em minha direção. –Essa garota nunca serviu pra nada. Tudo o que ela faz é destruir. Ela só...

-Preste atenção de como fala ou o que diz de minha filha. - Papai se coloca na frente de minha cama fincando assim de frente para o homem enfurecido e de costa para mim.

-O que há Gustavo? - O homem pergunta sem entender. –Você sempre diz que odeia essa garota. Que era pra ela ter morrido naquele maldito dia ao invés de sua esposa. E agora...

-Eu... eu me arrependo de cada uma de minhas palavras. - Sua voz soa envergonhada. –Lizandra é a única coisa que me restou de minha amada Lívia. E quando eu quase a perdi naquele maldito acidente. Eu...

-Me poupe! Você nunca suportou nem mesmo olhar para a cara da garota. - O outro homem diz exaltado. –E agora me diz que quer bancar o de papai protetor! Aposto que desejou em cada segundo que ela estava na UTI que ela morresse.

Minha respiração ficou ainda mais agitada. As vozes a minha volta ficaram distantes e distorcidas. Sinto uma dor forte na cabeça. Levo a minha mão para o meu nariz. Algo viscoso descia dele. Quando olho o que era, meu coração começa a se acelerar. As máquinas que estavam na parede começam a grita desesperadas, chamando a atenção das três pessoas que estavam no quarto. Os olhos assustados de Samantha me deixam mais angustiada. Quando ela se aproximava, papai entra na frente tentado saber o que estava acontecendo. Mas quando ele tentar me tocar eu me afasto com dificuldade.

-Não... não se atreva... a ... a me tocar! - Digo com dificuldade olhando em seus olhos.

Então a minha respiração falha. Estou com falta de ar. Levo a minha mão boa para o meu seio esquerdo. Meu coração estava falhando. Sinto uma dor tão forte. Ouço uma gritaria. Estou verdadeiramente assustada. Uma correria sem fim começa. Me deitam novamente sobre a cama. Sinto minha mão direita ser retirada de onde estava. Tento entender o que estava acontecendo. 

Então é isso?! Esse era o meu destino desde o começo? Por que agora eu estou morrendo. Estou indo embora sem olhar para trás. 

 

 

 

 

 

Notas finais:

 

Capítulo novinho para alegrar o dia de vocês.

Bjusss...

 



Comentários


Nome: lis (Assinado) · Data: 12/05/2018 01:26 · Para: Capítulo 28 – Sem olhar para trás

Boa noite autora, tudo bem? Poxa mesmo a Sam não merecendo a Liz fez tudo para proteger e resguradar ela e ela sempre falando que a Liz a traiu ai fica dificil né, ela ta passando por tanta dor, é o pai que a culpa o amor da sua vida que não acreditou nela e agora esse acidente e não poder fazer o que ela mais gosta, espero que ela supere e consiga ser feliz, parabéns maravilhosa a sua estória.



Resposta do autor:

Também espero ansiosa por esse momento. Rsrsrs... O momento em que ela vai poder realmente ser feliz sem todo esse acumulo de dor. 

Obrigado, linda! 

Bjus...



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 11/05/2018 03:03 · Para: Capítulo 28 – Sem olhar para trás

Que autuação. Como Lizandra sofre. Sera q o pai se arrependeu nesmo?



Resposta do autor:

Só saberemos disso daqui a alguns capítulos. Rsrsrs

 

Bjusss...



Nome: zilla (Assinado) · Data: 10/05/2018 17:16 · Para: Capítulo 28 – Sem olhar para trás

Nossa que capítulo forte!

Mas tomara que não seja algo muito grave com a Liz!

Parabéns autora amando sua história, volte logo pfv não nós deixe nessa agonia



Nome: zilla (Assinado) · Data: 10/05/2018 17:16 · Para: Capítulo 28 – Sem olhar para trás

Nossa que capítulo forte!

Mas tomara que não seja algo muito grave com a Liz!

Parabéns autora amando sua história, volte logo pfv não nós deixe nessa agonia



Resposta do autor:

Obrigado! Não se preocupe. Sempre que puder estarei por aqui.

Beijuss...



Nome: sonhadora (Assinado) · Data: 10/05/2018 17:09 · Para: Capítulo 28 – Sem olhar para trás

Cara, com você acaba um capítulo assim???Ai meu core!! Sei não viu, essas manias de deixar a gente de coração doído.... kkk, por favor, faço coro com a minha colega Preguicella, não deixa o pai da Sam internar ela não!! Quanta maldade!!! Volta loguinho vai....

Beijos de Luz (muitos mesmo)



Resposta do autor:

Não se preocupe. Rsrsrs

Tudo o que tiver que acontecer, apenas acontece. Na vida real ou não. Então que vivamos cada minuto como se fosse o último. 

Bjusss...



Nome: erikarenata (Assinado) · Data: 10/05/2018 15:01 · Para: Capítulo 28 – Sem olhar para trás

Meu deus que capítulo mais emocionante!!!!

A maior tristeza é q acabou ele rs

Espero ansiosa, mto ansiosa pelo próximo

Parabéns autora, ta maravilhosa a história



Resposta do autor:

Obrigado. Espero que continue acompanhando essa maravilhosa descoberta. Rsrsr...

A escrita é algo novo em minha vida. Ao menos esse tipo de escrita. E estou amando.

Bjusss...



Nome: preguicella (Assinado) · Data: 10/05/2018 14:18 · Para: Capítulo 28 – Sem olhar para trás

Morrer ela não vai pq o primeiro capítulo ela tá mais velha! Mas agora vc me deixou nervosa! Não pode terminar um capítulo assim! Faz mal para os corações fracos das leitoras apaixonadas pelas mocinhas! 

Por favorzinho, não deixa o pai da Sam internar ela não! Por mais otária que ela tenha sido, ela não merece isso não! 

Bjão e volta logo tá! ;)



Resposta do autor:

Hum, você não faz ideia de como é escrever coisas desse tipo. Até eu fico com o coração apertado. É como se estivesse vivendo como pequena coisa.

Farei o possível. Rsrs...

Bjs...



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