Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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Finalmente acordada

 

 

 

Meus olhos estão fechados há tanto tempo. Essa sensação é tão boa. Tudo o que existe é um completo e absoluto silêncio. Meu corpo está calmo. Não existe mais dor. Estou devidamente anestesiada. Eu daria tudo para ficar aqui. Talvez eu simplesmente fique.  Tenho pequenos lapsos de consciência. Algumas vezes ouço pessoas chorarem. Mas eu não sei o porquê. Não sei o que está acontecendo. Outras vezes elas simplesmente conversam. Não consigo entender o quer falam ou quem são. Mas pra mim, isso não importa.

Sinto leves toques em minha pele. É como um pequeno foco de calor. Ele me aquece e depois me joga no frio. E novamente as vozes, sempre as mesmas vozes. Agora elas estão sempre conversando. Acho que estão falando comigo. Mas eu não consigo responder. Eu nem mesmo consigo intender o que dizem. Tento abrir os meus olhos, mas eles estão pesados. Tento gritar, mas não sair som. Eu estou em uma completa escuridão. Então adormeço novamente. Estou sempre com sono. Ouço um som sussurrado, ele é tão mínimo. Ele me despertar lentamente do meu abismo.

Então eu me lembro de minha infância. De duas garotinhas conversando próximas ao rio. E o som começa a fica nítido. Eu o conheço tão bem. Essa foi a primeira melodia que aprendi a tocar no violão. Lembro-me tão bem do sorriso encantado da garotinha de olhos verdes. Nunca tinha ficando tão envergonhada em toda a minha vida. Essa foi a primeira vez que tocava pra alguém. E o som vai criando forma. Vai se expandindo e invadindo a minha alma. Por que eu conheço esse som. E então os meus olhos se abrem lentamente. Por que eu o reconheço. Uma luz forte me deixa desorientada.

E então eu mergulho naqueles olhos verdes brilhantes. A minha cabeça estava confusa. Ouço-a falando algo. Mas eu não entendo. Tudo o que escuto é a melodia que continuava a ressonar ao fundo. Suas mãos tocam o meu rosto. Elas estavam quentes. E dessa vez eu não fui jogada no frio. Sinto uma emoção, talvez ela não seja minha. Mas da garota chorosa sobre mim. Meus olhos voltam a ficar pesados. E então novamente caio no abismo.

E fico ali por longos momentos. É tão agradável não sentir nada. Agora estou mergulhada em milhares de notas confusas. São como vozes. Estão discutindo. Estão caindo sobre mim como um amontoado de nada. Por que eu não as entendo. Não são conhecidas por mim. Me sinto tão diferente de quem eu era. Então uma leveza me envolve em um abraço sentido. Rouba o que eu não tenho. Então eu sou tão vazia, tão monstruosamente inalterada que me assusta.

E minha respiração se aproxima em pequenas doses. Meus pulmões voltam lentamente a trabalhar. Então finalmente eu respiro. Sinto um toque delicado. Ele se espalha lentamente em meu rosto. Contornando a minha superfície. Sinto um hálito quente ao meu ouvido. Um leve sussurrar que começa a ganhar forma. Então eu reconheço. Eu conheço aquela voz chorosa. Aquele tom amável e protetor. E como se algo me soprasse. Respiro fundo aquele ar estranho. E então tomo folego como se finalmente eu pudesse despertar. E os meus olhos azuis se abrem. Então eu estou finalmente acorda. 

Os olhos acinzentados caem sobre mim emocionados. E delicadamente a senhora se aproxima, depositando um leve beijo em minha testa.

-Seja bem vinda de volta meu amor. - Vovó Rúbia diz em um fio. Seus olhos estavam banhados de lágrimas.

Confesso, não estava entendendo nada. Tento focar em vovó. Em sua imagem distorcida, estreito os meus olhos para vê-la melhor. Minha garganta estava seca e dolorida. Eu daria tudo por um copo de água naquele momento. Olho em volta, as imagens ao meu redor começam a ganhar vida. Tento puxar em minha memória algum foco de conhecimento. Que lugar era esse?! Então vejo as paredes brancas, a janela ao meu lado direito. O teto acima de mim, também era desprovido de cores fortes e profundas. Apenas o velho e tão conhecido branco. Ouço alguns sons ao meu lado. Meus olhos curiosos são atraídos por eles. Então eu sei.

-Vai ficar tudo bem agora.

-Vovó! - Minha voz sai baixa e arranhada.

-Eu estou aqui minha linda. - Ela me diz amorosa. -Eu sempre estarei aqui.

-O que... acon... aconteceu? - Pergunto confusa. Era dolorido arrancar as palavras de minha garganta.

-Não se preocupe com isso. - Os olhos cinza fogem dos meus. –Só fique quietinha ai, que vou chamar o seu medico.

-Medico?!

Vovó aperta uma pequena campainha ao lado de minha cama. Tento me mexer, mas não sinto o meu corpo. Era como se só a minha mente estivesse ligada. Meu coração acelera acionando o aparelho cardíaco ao lado de minha cama. Minha respiração fica agitada.

-Lizandra. Fique calma. - Vovó sussurra nervosa.

-O que... o que aconteceu? - Pergunto com dificuldade?

-Por favor, Liz. - Vovó Rúbia suplica. –Fique calma. - Sinto suas mãos indecisas tentando inutilmente me passar conforto.

-O que está acontecendo? - Um homem de aproximadamente 40 anos se aproxima apresado dos aparelhos, os analisando. –Lizandra?! - Ele se volta pra mim. –Você pode me entender?

-O que aconteceu? - Pergunto novamente.

-Se você ficar calma eu te explico. - Ele me sorri carinhoso. –Tudo bem.

Respiro fundo. E os aparelhos começam a se normalizar.

-Isso! - Seus olhos verdes são agradáveis, e me parecem conhecidos. Mas de onde eu os vi? –Agora você pode me dizer o que te aborreceu. - Ele diz analisando o meu pulso direito.

-Eu não consigo... eu não consigo sentir o meu corpo. - Digo voltando a me agitar.

-Fique calma. - Ele volta a me incentivar. –Os efeitos da anestesia devem está perto de acabar. Você acordou antes que o efeito chegasse ao fim. – Tio Leonardo diz sorrindo, agora eu o reconheço. Dr. Leonardo Pacheco. Ele trabalha no hospital em que vovó Catherine trabalha e é pai... –Você é bem apressadinha. - Ele volta a me chamar a atenção.

-O que...

-Vejo que continua teimosa. - Ele diz em tom de brincadeira.

-Você nem imagina o quanto. - Vovó Rúbia diz mais calma.

-Ok. - Ele solta um suspiro descontente. Já não gostei disso. –Te conheço desde que nasceu. - Ele comenta como se procurasse as palavras. –Você é a melhor amiga de minha filha. E não sabe o susto que nos deu. - Ele dizia sem desviar os olhos dos meus. –Serei honesto, por que sei o quanto presa isso tanto quanto eu.

Então o homem parado ali, começou a narrar o que havia acontecido. E em cada palavra as minhas lágrimas caiam. Lentamente comecei a sentir o meu corpo se normalizando. Dr. Leonardo continuou a falar. E eu não me atrevi a interrompê-lo em momento algum. Quando finalmente ele chegou ao fim. Eu apenas me encontrei em um estado de choque profundo. 

O quarto caiu em um silêncio sufocante. Apenas pedi que me deixassem sozinha. Dr. Leonardo fez apenas alguns exames de rotina. E se retirou. Os exames mais complexos foram feitos ontem mesmo. E alguns ele marcaria para depois. Vovó foi mais difícil. Ela não queria de forma alguma sair do meu lado. Mas finalmente ela entendeu que eu precisava daquele tempo. E com lágrimas nos olhos vovó Rúbia se retira, mas só depois de me dizer o quanto me ama.

-Três meses. - Sussurro. Baixinho. –Eu perdi três meses de minha vida. - Olho para a minha mão esquerda que estava completamente enfaixada. A faixa cobria do meu braço aos meus dedos. –Perdi mais que isso. - Digo com uma dor tão grande.

Chorei baixinho por tanto tempo. Agora eu estava ali, inercia. Então quer dizer que acordei ontem por volta das 05:00hs. Depois de longos três meses os meus olhos resolveram se abrir. No acidente fraturei duas costelas no lado esquerdo. Tive um corte profundo em minha sobrancelha direita. Uma contusão do lado direito de minha cabeça. Lembro-me do momento em que a virei e sentir a pata de Júpiter cair sobre ela. Logo depois não vi nada, não sentir nada. Eu fiquei completamente inercia em mim mesma. Mas o pior veio antes. Olho a minha mão esquerda novamente. O pior estava ali.

Passei por uma neurocirurgia. Minha cabeça foi aberta. Só de pensar nisso me dar um arrepio de pavor. Passei por outra cirurgia em meu pulso. Duas em minha mão. E mais três para reconstrução. Todas essas em meu braço esquerdo, mas especificamente do meu pulso a minha mão. Passei cinco semanas na UTI.

Quando finalmente acordei de meu coma. Priscila estava aqui. Os olhos verdes que vi depois de tanto tempo. Time After Time – Cyndi Lauper. Ela sempre me pedia para tocar essa música. Ela era a sua música. Priscila havia me proibido de toca-la para qualquer outra pessoa. Lembro-me do dia do lago. Pri tinha por volta dos dez anos. Eu tinha oito. Ela me deu meu primeiro violão. Disse que eu não podia aprender a tocar apenas músicas clássicas. Me infernizou um mês inteiro para aprender a toca-la. E logo depois me fez tocar para ela. Nunca tinha me apavorado tanto. Mas quando a vi sorri tão radiante, me apaixonei ainda mais pela música. Pelo o efeito que ela causava nas pessoas.

E agora... Agora eu não podia mais tocar. E isso era desesperador de uma forma tão profunda.  

 

 

 

 

Notas finais:

Mil desculpas meninas. Sinto muito pela demora. Estou passando por alguns probleminhas e, estou sem tempo de escrever. Mas sempre que puder estarei por aqui. Bjusss...



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