Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 25:

 

            Finalmente eu podia sentir a paz dentro de mim, a tranquilidade que buscava por estar ao lado de Mea. Voltar com ela demorou menos do que pensei, apesar do caminho tortuoso, cansativo, insistente e cheio de acontecimentos para impedir que ficássemos juntas.

 

            Minha vida, que sempre achei que seria marcada pelo que aconteceu comigo na adolescência com minha mãe e padrasto desequilibrados e repulsivos, acabou se suavizando e se tornando prazerosa. Mea foi meu raio de sol, de todas as formas possíveis.

 

            Apesar do carinho dos amigos da faculdade e de meu pai sempre presente, Mea foi a primeira que quis estar ao meu lado de forma íntima, me conhecer profundamente, mesmo eu a afastando cada vez mais. Foi a primeira que me estendeu a mão e me prometeu um futuro melhor, prometeu estar ao meu lado lutando contra minhas dificuldades. Não posso perder essa garota nunca mais. Perde-la, novamente, seria uma loucura.

 

            Sorrio para meus próprios pensamentos e, ao me virar na cama, olho para o lado, vendo Mea respirando tranquilamente, dormindo como se não houvesse preocupação alguma, usando apenas uma camisola, toda enrolada na coberta.

 

            Minha menina veio passar o fim de semana em Seattle comigo, já que na semana passada eu fui até Chicago. Ela saiu do apartamento de Allegra depois de uma briga, graças ao vizinho que nos viu juntas no prédio. Allegra ainda tinha dificuldades para aceitar o término, e agora elas não se falam mais, o que era amizade termina assim, mal resolvido e cheio de mágoas. Mas sinceramente? Para mim está ótimo.

 

            Me aproximo de Mea e deixo um beijo molhado em sua testa, me levantando logo em seguida. Perdi o sono depois de um daqueles pesadelos familiares e terríveis com minha mãe e sua flor no cabelo. Suas incidências diminuíram, mas ainda não cessaram.

 

            Vestindo meu pijama ainda, calça de moletom e uma camiseta branca desgastada com manchas amareladas, peguei meu maço de cigarro e isqueiro na sala e fui até a sacada, sentando no banco de madeira desconfortável que já estava no apartamento quando o aluguei.

 

            Daqui para frente minha vida com a Mea daria certo, eu continuaria indo ao terapeuta, enfrentando meus fantasmas com a ajuda do sucesso do meu livro e evitando ao máximo ser uma babaca como antes. Acho que nunca me senti com tanta esperança, com tanta vontade de deixar tudo realmente como um passado distante, de tornar minha história o mais indolor possível. Quanto mais eu trabalho em cima disso, mais coisas boas acontecem para mim, mais eu me sinto feliz e no caminho certo. O próximo passo seria convencer Mea de ser minha para sempre, de morar comigo, de nunca mais sair do meu lado. Insistia nesses pensamentos para que a angústia que me acordou passasse.

 

            Estava terminando o segundo cigarro quando senti braços quentes me abraçarem por trás, envolvendo meu pescoço.

 

            “Bom dia, linda.”

 

            Virei-me e beijei seus lábios, dando-lhe um selinho demorado. Olhei para seu rosto depois de me afastar, admirando sua beleza recém-acordada e ri sozinha, exibindo um sorriso de orelha a orelha.          

 

            “Oi, amor.” Mea beijou minha cabeça e se sentou no meu colo, aninhando o rosto em meu pescoço, inspirando e expirando devagar.

 

            “Dormiu bem?”

 

            “Dormiria melhor se não tivesse acordado sozinha.”

 

            “Acordei com um pesadelo e perdi o sono.”

 

            “Está tudo bem agora.”

 

            Comecei a acariciar a coxa desnuda dela com a mão e suspirei. “Está sim, linda. É só uma sensação ruim.”

 

            Mea beijou meu pescoço. “Está tudo bem.” E beijou de novo, dessa vez chupando devagar a pele.

 

            “Acordou disposta, bom saber. Mas se você não parar agora, já sabe. Pode ser que as pessoas da rua vejam você na sacada em um estado íntimo.”

 

            Ela riu, me deixando sentir graças a seu corpo colado no meu, seu peito reverberando, escutando no silêncio daquela manhã o som mágico de sua risada saindo de sua garganta.

 

            “Eu te amo, Mea.”

 

            “Eu te amo mais.” Ela sussurrou, soltando ar quente em minha pele e me fazendo arrepiar. “E agora, quero você.”

 

            Mea mordeu de novo meu pescoço e foi o suficiente para que eu levantasse, fazendo-a abraçar minha cintura com as pernas. Segurando-a com força, fomos até a sala e nos perdemos uma na outra, como sempre. Nunca é tedioso com ela ou rotineiro. Passamos a manhã nos divertindo no sofá e algumas vezes no chão, nos amando como sabemos fazer.

 

 

 

            “Scoutt, corre, vai começar!”        

 

            Escutei Mea gritando da sala. Depois da manhã agitada que livrou meu peito da angústia, fomos ao mercado, passei a mão em sua bunda – como sempre -, almoçamos fora e agora tínhamos acabado de tomar café, feito por mim e muito elogiado por ela.

 

            Seu programa favorito de competição culinária iria começar e ela queria que eu estivesse com ela para assistir. No começo odiava programas assim, mas agora, já estou acostumada.

 

            Segurando uma long neck, pois Mea recusou a dela, me sentei ao seu lado, esticando minhas pernas em seu colo. Dei um longo gole e suspirei. “Delícia, tudo o que eu precisava.”

 

            “O que? Cerveja e massagem nos pés?” Mea respondeu já puxando meu pé para começar a massagear.

 

            “Também. Mas cerveja e você no meu apartamento novo. Nunca mais esse sofá e esse tapete serão os mesmos depois de hoje.”

 

            Demos risada, a minha baixa e a dela alta e empolgante. Feliz. Achei que nunca mais a veria sorrindo para mim desse jeito pela forma como ela me tratava quando nos reencontramos. Achei que eu tivesse pego uma menina feliz e a transformado de uma vez por todas em alguém amargurada.

 

            “Sua boba. Presta atenção no programa, você pode melhorar seus dons culinários.”

 

            Antes de responder meu celular tocou, vibrando na mesa de centro. Estiquei-me para pegar e atendi depois de ver que a chamada era de meu pai.

 

            “Oi, pai.”

 

            “Emma, eu preciso falar com você. Posso ir até seu apartamento?”

 

            Mea me olhava desconfiada, esperando que eu contasse a ela o porquê de eu ter ficado séria, sentindo calafrios na base da barriga ao estranhar o tom de voz dele no telefone.

 

            “Claro, estou esperando. Aconteceu alguma coisa, pai?”

 

            “Conversaremos aí.”

 

            A chamada foi desligada antes que eu tivesse tempo de me pronunciar a respeito.

 

            “O que aconteceu?”

 

            “Não sei, meu pai está estranho. Está vindo para cá, quer conversar.”

 

            “Não deve ser nada de importante.”

 

            Dei de ombros e respirei fundo. Dei um gole longo na cerveja, seguindo de outros, a fim de terminá-la rápido e antes de meu pai chegar.

 

            Não demorou muito e a campainha tocou. Deixei a garrafa na mesa de centro e fui atender. Meu pai não parecia tranquilo, estava com a testa franzida como quem sente dor de cabeça o tempo todo, os lábios pressionados, notavelmente tenso.

 

            “Oi, pai.”

 

            Nos demos um abraço rápido e o deixei entrar. Logo Mea o cumprimentou, dando-lhe um abraço rápido.

 

            “Oi, John.”

 

            “Mea, que bom te ver!” Foi a primeira vez que ele sorriu desde que chegou.

 

            Logo sua expressão se tornou carrancuda outra vez e ele se virou para mim, tomou fôlego como se tivesse algo muito importante a dizer.

 

            “Podemos conversar em particular?”

 

            “Vou para o quarto.” Mea se prontificou sem me dar tempo de defendê-la e exigir sua presença. Que porra está acontecendo hoje que todo mundo está me cortando antes de me deixarem responder?

 

            Ouvi a porta do quarto batendo e cruzei os braços, encarando o homem pálido e nervoso a minha frente.

 

            “O que aconteceu?”

 

            “É sobre sua mãe.”

 

            Soltei uma risada cética, rápida e baixa. Neguei com a cabeça, balançando-a de um lado a outro algumas vezes, devagar. “Você sabe que não quero saber nada dela.”    

 

            “Ela está presa, desde que... descobrimos tudo, você sabe. Ontem recebi uma ligação do presídio em Boston para me notificar que Emma está muito doente, com câncer.”        

 

            “Que bom.” Respondi e peguei um cigarro, colocando-o na boca sem acender. Minhas mãos suavam e tremiam. Era um assunto delicado demais receber qualquer notícia dela, saber que ela era real, que meus pesadelos foram reais um dia, quando tudo o que eu tento fazer é esquecer esse passado, me livrar da culpa que sinto e ser uma pessoa melhor.

 

            “Eu preciso te contar uma coisa. Achei que nunca te contaria, mas ela nesse estado... não posso saber que você poderia descobrir de outro jeito caso ela venha a falecer.”

 

            “Como assim? Do que você está falando?”

 

            “Não sei o que se passa na sua cabeça sobre ela, eu precisava te avisar que ela vai morrer logo, e com isso, você deve saber algo muito importante e que faz eu me culpar até hoje.”

 

            “Fala logo, droga.”

 

            “Ela não é a sua mãe biológica.”

 

            “O que?!” Gritei, cuspindo o cigarro da boca. Comecei a rir, me sentindo nervosa e trêmula. Não tinha controle sobre meu corpo, parecia que minhas pernas não funcionavam e meus braços perderam a força. Cambaleei até o sofá e me joguei nele de qualquer jeito. Olhei para meu pai que estava com os olhos marejados, demonstrando toda a sua culpa e chateação por fazer isso comigo. Grande merda. Minha visão embaçava cada vez que a frase “ela não é sua mãe biológica” se repetia em minha cabeça.

 

            “Está de brincadeira comigo?”

 

            “Emma.”

 

            “Não me chama assim agora!” Gritei, apontando o dedo indicador para ele.

 

            “Ela não é a sua mãe biológica, mas foi por muito tempo, sua mãe.”

 

            “Ela nunca foi minha mãe. Ela sempre foi um monstro! Do que você está falando?”

 

            “Eu vou te contar, me deixe falar. Eu saí com uma garota algumas vezes, éramos muito jovens e ela engravidou. Nunca quis saber de mim, e eu só soube que teria uma filha quando você nasceu. Nesse tempo, comecei a namorar sua... comecei a namorar Emma. Estávamos juntos, em um relacionamento sério de verdade quando recebi o telefonema do hospital dizendo que você havia nascido, mas que sua mãe morrera no parto.”

 

            Lágrimas de tristeza e raiva escorriam de meus olhos. Não é possível que eu nunca vá ser feliz! De novo meu passado estragando a minha vida, e agora piorando tudo o que eu já havia construído de melhor!

 

            “Bom, eu fui até o hospital e me responsabilizei por você. Sua mãe biológica deixou um testamento dizendo que em caso de sua morte era para me notificarem, por isso o hospital ligou dias depois que você nasceu.”

 

            “Emma concordou na hora em me ajudar a criar você, fiquei sensibilizado com aquilo e dei seu nome em homenagem a ela, me arrependo muito disso.”

 

            “Espera.” Me levantei e andei em volta do sofá, olhando para meus pés enquanto eu pensava. “Quer dizer que você nunca foi casado e eu nasci e todo aquele blábláblá? Eu tive uma mãe que morreu quando eu nasci e aí você me criou com uma maluca?”

 

            “Sim. Eu criei você, mas não sabia que ela era maluca. Quando nos separamos porque eu a traí, ela quis te tirar de mim, eu vim trabalhar em Seattle e vocês ficaram em Boston. Era um inferno para ver você, e eu sempre fui muito irresponsável também, acabei desistindo. Quando resolvi me ajeitar e ir te ver, era tarde demais.”

 

            Eu ria alto e batia palmas. “Que história bacana. Vamos recapitular: você me deixou ser estuprada por dois anos por uma pessoa que não era minha mãe de verdade?” Parei de andar em volta do sofá e o encarei. Meu corpo todo tremia e minha respiração saia entrecortada, totalmente desregulada. “Seu filho da puta!” Gritei, deixando toda a minha dor sair junto, passando a chorar copiosamente. Cruzei meus braços na altura do abdômen e me abaixei, me sentando no chão, sem força para nada.

 

            “Ela foi sua mãe, entende? Por isso a deixei morando com ela, jamais imaginei que fosse ser capaz disso! Ela tinha amor por você, pelo menos era o que parecia. Eu me sinto culpado todos os dias, mas agora é tarde.”

 

            “Eu não acredito.” Sussurrei, com a voz embargada. Passei a mão pelo rosto, limpando a mistura de lágrimas com catarro. “Eu fui estuprada, por dois anos. Tem noção disso?” Falava baixo, sem saber se era para meu pai ou para mim. “E nem é culpa minha.” Soltei uma risada baixa, balançando a cabeça. “Você nunca me contou isso, me deixou convivendo com uma culpa enorme por todos esses anos porque a porra da sua culpa era maior? Você é tão nojento quanto a tal da Emma. Eu odeio meu nome! Você me deu o nome de uma mulher que nunca foi nada minha... você é louco? Você é culpado por eu ter sido abusada.”

 

            “Filha.” John começou dizendo e se aproximou de mim, se abaixando na minha frente. “Eu a amava, ela criou você, ela quis você. Dei o nome dela a você por isso. Eu não sabia que ela faria isso! Nunca tive muito juízo, comecei a ter e a ser um homem melhor quando você veio morar comigo em Seattle.”

 

            “Você não é um homem melhor. Sai da minha casa.”

 

            “Filha...”

 

            “Não sou a porra da sua filha. E quer saber?” Levantei a cabeça e olhei para ele. “Não sou a porra da filha de ninguém. Sou, como sempre achei, ninguém. Sai daqui agora!”

 

            John foi até a porta e segurando a maçaneta, antes de sair, virou-se e me olhou. “Espero que me perdoe um dia.”

 

            Levantei a cabeça e o encarei, sentindo meu estômago embrulhar no mesmo instante. “Você é um egoísta. Foi egoísta por nunca ter me contado nada do tipo e está sendo egoísta agora! Não faz sentido eu ter que saber isso, se ela morrer na prisão ou fora dela, eu jamais saberia disso! Só está me contando para livrar a sua culpa! E eu que me vire com a minha bagagem de merda.”

 

            Ele abaixou a cabeça e suspirou. “Você merecia saber. O nome da sua mãe é Elizabeth Sanders.” E então ele saiu, fechando a porta silenciosamente.

 

            Fiquei encarando o vazio por um curto período de tempo até que escutei passos vindo do corredor e sabia que era Mea. Me levantei do chão e fiquei andando de um lado para o outro, sentindo as lágrimas escorrerem automaticamente. Quando ela apareceu na porta vi nela aquele olhar de dó. Mas convenhamos, até eu estou com dó de mim. Já era fodida e consegui me foder ainda mais.

 

            “Scoutt...”

 

            “Eu não quero falar sobre isso agora.”

 

            “Mas você... eu escutei tudo. Seu pai foi capaz...” Ela se aproximava enquanto falava, mas parou no meio da sala quando virei para encará-la e gritei.

 

            “Para de falar!”

 

            Ela ficou me encarando, de olhos arregalados e já cheios de lágrimas. Que bosta. Preciso tirá-la daqui, não vou suportar a dor dela agora depois de descobrir mais um pedaço divertidíssimo da minha vida.        

 

            “Mea, eu acabei de descobrir que não sou porra nenhuma. Entende isso? Eu carreguei uma culpa e dor por anos, por uma pessoa que nunca foi nada minha. Minha mãe de verdade está morta e eu nunca pude visitar seu túmulo, enquanto outra mulher era conivente com meu estupro. Consegue entender o quão bizarro isso é? Consegue? Eu achava que tinha uma história, mas eu não tenho nada. Eu tenho um borrão...não sei quem eu sou.”

 

            “Eu posso te ajudar, Scoutt.”

 

            “Eu preciso ficar sozinha.” Respondi sem pensar. Estava sentindo a mesma coisa que senti por todo aquele tempo obscuro da minha vida, em que não suportava qualquer tipo de toque mais profundo ou ajuda de verdade, de pessoas que queria estar ao meu lado e me amar. Me fechei completamente em segundos, minha defesa foi ativada e eu sabia que seria uma imbecil com ela se não a tirasse logo do meu apartamento. “Vai cuidar da sua queridinha, a Allegra.”

 

            Mea soltou uma risada baixa, cansada, e negou com a cabeça. “De novo ela? De novo esse assunto?”

 

            “Sim, de novo. Eu não consigo engolir que você dormiu com ela!”

 

            “Não tinha sentimento algum, nunca consegui sentir nada com ela!”

 

            “Mea, se você tivesse dormido com mil garotas, sem rostos, sem nomes, eu engoliria essa porra. Mas como dormiu com ela por um ano sem ter sentimento algum? Se ela era sua amiga, tinha sentimento.”

 

            “Eu sinto muito falar isso, mas não aguento mais esse assunto, então Scoutt, presta atenção: a culpa disso é sua. Eu não ficaria com ela se não fosse você com essa sua...”

 

            “Sua o que? Minha bagagem incrivelmente divertida? Ou fodida? Escolhe uma palavra que me defina melhor.”

 

            Mea bufou e tentou se aproximar de mim, mas conforme ela dava passos em minha direção, eu dava mais passos para trás. “Vai embora, por favor.”

 

            Vi uma única lágrima escorrer de seu rosto e ela se afastou, indo para o quarto. Fiquei na sacada fumando todos os cigarros do meu maço até que escutei a porta da sala abrindo e fechando, fazendo barulho demais. Mea estava com raiva. Não mais do que eu.

 

           

 

            Quando me vi sozinha no apartamento o choro foi substituído por um sentimento de ódio que só aumentava. Senti-me culpada por todos esses anos, achando que o estupro era por alguma coisa que eu havia feito de errado, que por qualquer coisa em mim minha mãe não me amava. Sentia agora que todos esses problemas que geraram em mim um trauma gigantesco e horrivelmente doloroso, podiam não ter acontecido, ou pelo menos não era para ter acontecido. Vivi uma coisa que não era para ser minha, se meu pai tivesse agido diferente. Suportei um peso que não era meu, mas que agora, até uma hora atrás, eu achava que me definia como pessoa, achava que – começava a melhorar minha cabeça – tudo o que passei foram apenas obstáculos, dificuldades, e eu era capaz de vencer isso. Mas como agir, o que pensar ou sentir, depois que se descobre que você não é filha de quem sempre achou? Que seu único familiar próximo é tão egoísta a ponto de te deixar sozinha se fodendo com a pior dor da sua vida? Aquela dor do trauma que pelo menos me dava algum sentido em minha vida, agora perdera todo o sentido! Nem isso mais eu tinha para me definir. Não sou filha de quem achava, não tenho uma história que faça sentido. Me sinto vazia, cansada, perdida.

 

            Quebrei todos os móveis que consegui, arremessei a garrafa vazia de cerveja que tomara mais cedo, soquei a parede – sendo nada inteligente – e machuquei todos os meus dedos e mão.

 

            O apartamento estava um caco. Assim como eu.

 

            Depois de colocar uma calça jeans, um moletom e um par de tênis com pressa, peguei a chave do carro, minha carteira e saí.

 

 

 

            Minha cabeça doía, minha visão já estava embaçada e meu corpo todo estava amortecido. Estava sentada dentro do carro, encarando o muro alto com um portão tão grande quanto, todo fechado, do presídio.

 

            Depois que saí do apartamento tive a grande ideia de pegar o carro e vir para Boston. Quarenta e cinco horas de viagem. Levei dois dias, era terça-feira à tarde e eu não conseguia pensar em nada, nem entender como cheguei até aqui. Fazendo apenas paradas para ir ao banheiro e comer uma ou outra porcaria que vendia nos postos de gasolina, consegui vir visitar minha querida... não sei o que ela é mais. Preciso saber o motivo dela de ter feito isso comigo, qual foi seu gatilho.

 

            Desci do carro, com as pernas bambas o suficiente para me obrigar a me apoiar na porta do mesmo, me pus de pé, enfiei a carteira no bolso e joguei o celular no banco do passageiro. Perdi as contas de quantas vezes esse celular tocou.

 

            Olhei meu reflexo no vidro do carro e soltei uma risada baixa, que fez meu peito doer. Eu estava literalmente um lixo: olheiras roxas e profundas e olhos vermelhos e inchados, de tanto chorar e por dormir pouco. Minha roupa estava suja e úmida da chuva que peguei em algumas partes da estrada, amassada, fedendo. Passei a mão por meu cabelo embaraçado e o prendi no pior coque de todos os tempos. Respirei fundo e cambaleei até o interfone ao lado do grande portão.

 

            Depois de me identificar e de responder algumas perguntas, dentro de meia hora desde que cheguei, eu finalmente estava sentada em uma cadeira de metal, dobrável, gelada e dura, em uma sala de paredes beges, aparecendo o reboco, mas bem iluminada, esperando por ela. Olhar as paredes do local fez minha mão doer, e olhei para ela, vendo os nós dos meus dedos sujos de sangue, com a pele em volta dos cortes bastante roxa e inchada. Suspirei e fiquei esperando.

 

            Alguns minutos depois uma mulher com o rosto marcado por rugas, com o cabelo louro manchado por fios brancos e com uma expressão divertida, entrou no local algemada e acompanhada de um guarda, que a sentou e então saiu, encostando a porta. Olhar para ela me deu náuseas, vontade de chorar, de gritar. Um filme passava por minha cabeça e eu podia sentir uma dor terrível tomando conta de meu corpo, de minhas entranhas, do meu ser. Tudo o que evitei sentir a vida toda vinha com força total agora.

 

            Emma riu ao me olhar. Não precisei me apresentar, ela sabia quem eu era.      

 

            Pigarrei antes de soltar o que queria falar de uma vez. “Me culpei a vida toda achando que eu não era uma filha boa. Me culpei por gostar de meninas. Me culpei por toda a merda que você fez comigo e passei anos tentando não gostar de ninguém, de nenhum tipo de pessoa!”

 

            “Você está acabada, sabia que você não tinha futuro.”

 

            Ouvir sua voz fez lágrimas se formarem em minha garganta. Tencionei o maxilar para segurar o choro. Um filme passava em minha cabeça, todas as vezes que ouvia sua voz grave falando comigo como uma criança desobediente.

 

            “Porque fez isso comigo?”

 

            Ela riu e se encostou na cadeira, deixando as mãos algemadas sobre a mesa, presas em um tipo de gancho.

 

            “Bom, você nunca foi minha filha. Tive que aguentar você, achei que podia suportar você. Mas então, você disse que era lésbica.” Seu rosto se contorceu, como se sentisse nojo. “E aí eu vi que perdi meu tempo com você, não se parecia comigo e ainda era...isso? Você precisava de um castigo. Sei lá, garota.”

 

            Respirei fundo, assenti com a cabeça e saí dali às pressas, apertando os dedos contra minha barriga, segurando a vontade e vomitar. Voltei para meu carro. Não conseguiria ouvir mais nada, até porque, nada melhoraria minha situação atual.

 

            Ouvir sua justificativa me fez sentir pior, um nada, ninguém que mereça ser amada. Porque eu tenho que sofrer tanto? Segurando no pneu do carro, com os joelhos dobrados, vomitei tudo o que havia comido de ruim na estrada, me deixando vazia, literalmente.

 

            Dirigia devagar, pensando em enfrentar a viagem de volta, quando o nome de minha mãe biológica brotou em minha mente. Dei meia volta com o carro e fui até um dos cemitérios da cidade.

 

            Enquanto passava pelas ruas de Boston, me lembrando de minha infância e adolescência, sentimentos bons tentavam tomar o lugar da dor que dominava meu peito. Em algum momento da minha vida, fui feliz, antes de tudo acontecer.

 

            Logo que cheguei ao cemitério pedi ajuda a um senhor que parecia ser quem cuidava do local e tempo depois eu estava em frente a lápide de Elizabeth Sanders.

 

            O vazio em meu peito aumentou e eu não sabia o que sentir. Queria poder visitar essa lápide e chorar por saudade, amor, qualquer coisa. Mas eu não conheço essa mulher, nunca soube dela. Talvez, se ela estivesse viva, nada disso estaria acontecendo.

 

            Bufei e chutei a grama, estragando um pedaço do jardim bem cuidado. Culpar a morte dela não resolve minha situação. Sentei-me ali, sentindo a grama molhada, e fiquei encarando as letras esculpidas de seu nome no granito.

 

            “Desculpa pela minha história. É uma grande confusão.” Sussurrei, baixo o suficiente, tentando evitar que eu mesma escutasse a maluquice de falar sozinha, ou para uma pessoa morta. “Sou sua filha. Desculpa, eu nunca soube disso. Sabe, não é sua culpa o que aconteceu. Na verdade, não é de ninguém, só daqueles dois...monstros. Espero que você tenha orgulho de quem eu me tornei.” Levantei, bati as mãos na calça e resmunguei de dor pela mão machucada, que estava mais roxa ainda, e então sai dali, de volta para o carro.

 

            No meio do caminho para Seattle vi um bar na beira da estrada, de paredes de madeira escura e envelhecida, e resolvi parar.

 

            Me sentei no balcão, sentindo olhares em mim, mas preferi evitar. Pedi uma dose do que tivesse de mais forte no bar e o homem grandalhão, careca e barbudo, depois de me olhar e fazer cara de nojo, foi me servir.

 

            “Eu sei, estou deplorável.” Sussurrei a mim mesma. 

 

            A dor estava insuportável. A dor física, dos meus machucados, estava imperceptível perto do que sentia dentro de mim, da minha cabeça.

 

            Afastei Mea de mim para fazer uma viagem maluca, achando que algumas coisas seriam explicadas, mas tudo o que eu conseguia ter certeza agora era de que perdi o rumo da minha vida e o sentido de tudo. Essa dor passaria, eu sei que sim, mas a angústia de ter passado por coisas que... nem são parte de mim de verdade, estava terrível.

 

            Precisava tirar essa dor de mim. Coloquei a última nota que eu tinha na carteira sobre o balcão, para pagar o estrago que eu faria, e então virei de uma vez a quinta dose de sei-lá-o-que, segurei o copo pequeno, me virei e arremessei ele contra a parede.

 

            Todos os homens enormes, parecidos com o barman, e algumas mulheres, se viraram para mim e me encararam. Podia ouvi-los rosnar.

 

            “Moça, para com isso.” Um deles me alertou e eu ri.

 

            “Não sinto nada além de dor.” Sussurrei, sabendo que ninguém escutaria, e peguei a garrafa mais próxima de mim dentro do balcão, e a arremessei também, rezando para que alguns deles me desse uma surra ou me apagasse, qualquer coisa que fizesse minha alma doer menos. Não tive tempo de agir mais quando fui pega e levantada como uma pena por deles e arremessada porta afora, caindo no chão de pedregulhos do estacionamento.

 

 

 

            Acordei não sei quanto tempo depois, sentindo gosto de ferrugem e minha bochecha arder, ainda caída no chão. Devo ter apagado quando me expulsaram do bar. Era tarde da noite, minha cabeça doía de cansaço. Mal conseguia me colocar em pé.

 

            Já dentro do carro, quando olhei meu rosto no espelho retrovisor pude ver que havia cortado o lábio inferior e ralado a bochecha, que por sinal estava suja de terra e com pequenas pedrinhas grudadas na pele.

 

            Liguei o carro e antes de sair ouvi um latido agudo embaixo da porta do carro. Ainda com o motor ligado, abri a porta com cuidado e pude ver um cachorro, ainda filhote, de pelos brancos e manchas escuras em marrom, uma delas inclusive ao redor de um dos olhos. Era lindo.

 

            Dei um sorriso para o filhote e estendi a mão, que logo foi cheirada e lambida.

 

            “Está abandonado aqui também, amigo? Sua vida é ruim também? Posso te levar para casa.”

 

            Peguei-o com a mão boa e o coloquei sentado no banco ao meu lado. Liguei o rádio e Arctic Monkeys começou a tocar, fazendo com que meu companheiro abanasse o rabo.

 

            “Mea também gosta dessa banda agora.” E então meu peito doeu de novo. De saudade. De culpa por tê-la deixado.

 

            Peguei um pacote de salgadinho meio comido no console do carro e dei para o cachorro. “Desculpa, é o que temos agora.”

 

            Naquela noite, continuei meu caminho para Seattle, tentando dormir o menos possível, assim como parar para comer e ir ao banheiro. Nas próximas quarenta e cinco horas, tentei achar um sentido para minha vida, até para meu livro, que agora já não o tinha mais.

 

            Quando, na quinta-feira estacionei o carro na frente do apartamento de Megan, no campus, sabia que não tinha chego à conclusão alguma, a não ser de que acabei com meu dinheiro e fiz uma conta enorme no cartão de crédito.

 

            Assim que desci do carro, meus pés falsearam e eu podia sentir todos os meus ossos doerem. Peguei meu novo amigo no colo e entrei no prédio. Chorava por estar esgotada física e emocionalmente enquanto subia de elevador até sua porta.

 

            Duas batidas foram o suficiente para que Megan abrisse e soltasse um grito logo que me viu. Minha visão escureceu e eu sentia que finalmente podia fechar os olhos, foi quando caí de joelhos e um borrão escuro tomou minha cabeça, me fazendo apagar.

Nome: Palas F (Assinado) · Data: 11/11/2016 03:05 · Para: Capitulo 25

Não tô sabendo lidar com esse cap. Eu estava pronta pra comentar o fascínio que a Scoutt é, com toda sua autenticidade e seu crescimento nessa história, sem perder a essência, agora estou simplesmente sem conseguir fechar a boca!!!



Nome: Palas F (Assinado) · Data: 11/11/2016 03:05 · Para: Capitulo 25

Não tô sabendo lidar com esse cap. Eu estava pronta pra comentar o fascínio que a Scoutt é, com toda sua autenticidade e seu crescimento nessa história, sem perder a essência, agora estou simplesmente sem conseguir fechar a boca!!!



Nome: Lohad (Assinado) · Data: 13/03/2016 18:59 · Para: Capitulo 25

Eu devo ter algum problema porque eu adoro esse jeitinho filha da puta da Scoutt! Eu fiquei encantada com o cachorrinho, tenho certeza que Scoutt vai dar a ele um nome muito maneiro. Não gostei da Scoutt ter ido procurar Megan, parece que todo mundo é mais importante que Mea! Aguardando ansiosa para o próximo capítulo! Espero que ele seja um capítulo enorme! Fê, voce é uma escritora incrivel! Parabéns. 



Resposta do autor em 13/03/2016:

Aw, muito obrigada!!! Vocês é quem são leitoras incríveis!

Olha, vou te contar um segredo: esse jeitinho filha da puta pega todo mundo, viu?

Já me falaram isso, sobre a procura por Megan... e me pegaram de jeito. Estou pensando.

Até semana que vem! Beijos!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 13/03/2016 14:46 · Para: Capitulo 25
Q fodida e a scout. Pqp . Mulher psicopata do cacete. E mea mais uma vez foi rechaçada p scout. Será q ela perdoa? Muito triste. Um dos cap mais tristea até hj. Bj

Resposta do autor em 13/03/2016:

Acho Scoutt uma personagem triste, mas Mea está aí para mudar isso, então, considerando a situação que Scoutt está passando agora, ela perdoaria.

Obrigada por ler, beijo!

 



Nome: lih (Assinado) · Data: 13/03/2016 02:02 · Para: Capitulo 25

Putz, sabia que atualização antes da hora ia ser treta,  espero que a scoutt peça desculpas a mea e não se fecha e volte a ser a babaca que era antes.  Ela estava tão bem,  ela não merece passar por mais coisas ruins. 



Resposta do autor em 12/03/2016:

Poxa, postei bom boa intenção, não para dar treta... Hahahaha

Vamos torcer para que Mea não fique muito brava. 

Obrigada por acompanhar, beijo!

 



Nome: annagh (Assinado) · Data: 13/03/2016 01:36 · Para: Capitulo 25

Olá Fê...

Primeiramente, amei o capítulo grandão!!!!... Kkkkkkkk..

Comecei a ler imaginando que até que enfim Scoutt e Mea teriam uma vida tranqüila...puro engano...

Tenho dó de Scoutt...fiquei profundamente triste por ela ter afastado Mea nesse momento. Poxa, era a hora de provar pra Mea sua mudança, que confia realmente nela...e depois que volta ainda vai bater na porta dessa Megan...PQP...olha que não gosto de xingar viu Autora, mas você tá me provocando essas sensações....rsrsrs..malvada você moça...Quero muito vê essas duas felizes. Espero que não demore muito essa agonia.

Beijos Flor!??

Paulinha.



Resposta do autor em 12/03/2016:

Oi, Paulinha.

Eu ri do seu comentário sobre Megan. Veja bem, Megan é apenas uma amiga, mesmo, ela entendeu seu papel, e você verá isso nos próximos capítulos. Mas eu entendo, e até tenho um pouco desse sentimento; porque Scoutt pede ajuda a Megan e não a Mea?

Até eu vou tentar entender isso agora...

Obrigada por acompanhar! Beijão!



Nome: DuAmaralz (Assinado) · Data: 13/03/2016 01:21 · Para: Capitulo 25

espero que as duas consigam conversar e suoerar isso



Resposta do autor em 12/03/2016:

Vamos torcer!

Obrigada por ler. Beijos!



Nome: Mika (Assinado) · Data: 13/03/2016 00:45 · Para: Capitulo 25

Caracaaa... Nossa! 

 

Espero que desta vez Scoutt deixe Mea ajudá-la.

 

Que loucura gente. Deu pena viu, mas espero que Mea também não desista e insista essa cabeça dura a deixar ajudá-la!

 

As vezes não comento autora, mas sempre acompanhei essa história, amo muito Scoutt e Mea... Elas são fofas!

 

Beijo!



Resposta do autor em 12/03/2016:

Obrigada!! Que bom saber que acompanha e que gosta!

Deu pena, né? Vamos pegar Scoutt no colo e também dar uma bronca sobre deixar Mea ajudar.

Beijos!



Nome: lohs (Assinado) · Data: 13/03/2016 00:36 · Para: Capitulo 25

Aiiii meuuuu coraçãoo!!!!! 😍😍😍🐕🐕🐕🐕🐕🐕

Ta...Voltando a história, Scoutt sofre muito. 😓. Mas é assim, pessoas fortes superam essas coisas chatas da vida, será só mais uma pra nossa linda. Ela só descontou em Mea, mas Mea vai entender que esse é o jeito de Scoutt mesmo.. 

Voltando a minha emoção, que lindo, Fê! Ele não poderia ter entrado em capítulo melhor, agora ela pode dar brócolis pra ele. 😍

Beijo super, mega, ultra especial!!!



Resposta do autor em 12/03/2016:

Tá aí o cachorro e a sua linda sofrendo, de novo... já quer pegar ela no colo?

Devolvo seu beijo, super, mega, ultra especial! Obrigada mesmo por me aguentar, beta.



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