Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 24:

 

            “Tenho outra entrevista com uma revista, posso passar te ver?”

            Sorria feito boba só por ouvir sua voz, mas com um pedido desses, meu sorriso aumentava ainda mais. Estava deitada no sofá, ainda meio sonolenta, com os pés jogados por cima do braço do mesmo.

            “Scoutt, você já chegou em Chicago?”

            “Sim, senhora. Mas irei embora ainda hoje. Segunda-feira preciso estar na editora, preciso trabalhar. O livro e algumas entrevistas estão atrasando tudo.”

            “Está ficando famosa.”

            Sussurrei ao telefone, com uma pontada no peito ao pensar que ela poderia se tornar alguém conhecida e com isso, o desejo de algumas garotas.

            “E você ficará junto, bobinha.”

            “Que horas é a sua entrevista?” Mudei de assunto, evitando aquilo que ainda me proporcionava calafrios: me tornar conhecida demais.

            “Três horas. Logo depois irei embora.”

            Olhei no relógio pendurado na parede da sala e ainda não passavam das nove horas da manhã. Allegra continuava dormindo enquanto eu havia acordado com a ligação de Scoutt.

            “Pode vir até aqui, se quiser. Posso sair rapidinho.”

            “Ir até seu apartamento?”

            “Sim, mas poderemos ir até uma sala no prédio, no andar debaixo. Não é muito legal você vir aqui...Allegra pode te ver e você sabe, eu morava aqui com ela, tem algumas fotos...”

            “Ela ainda não sabe que vocês terminaram?” Scoutt pigarreou depois de falar, tentando se segurar.

            “Sabe, Scoutt. Ela sabe que eu converso com você no notebook, mas não precisamos ficar nos mostrando para ela, não é?”

            “Certo. Sem magoar. Daqui a pouco estou aí.”

            “Tudo bem, vou te esperar na entrada.”

            Desligamos a chamada e eu fui tirar o pijama, mas só depois de dar uma conferida em Allegra e ver se ela ainda dormia.

            Desde a volta para “nosso” antigo apartamento para ajudá-la com o pé quebrado, eu e Scoutt nos falamos regularmente. Demorou alguns dias para ela se acostumar com a ideia de que eu estaria tão perto de Allegra novamente, mas tudo ficou bem. Eu apenas a ajudo com comida, com o banho, a ir ao médico e a pegar algumas coisas. Pouco conversamos e ela me olha com os olhos sempre marejados, com a voz sempre rouca. É extremamente difícil vê-la assim e saber que a culpa é minha, mas infelizmente, nossa relação acabou e o carinho por amizade continuará, o que provavelmente, foi o que sempre existiu.

            Scoutt me conhece como ninguém, se liga a mim de um modo inexplicável e acredito que nada poderá nos separar de verdade. Enquanto pudermos tentar, estaremos juntas.

            Um mês se passou desde então e estávamos em março, em um domingo chuvoso e de brisa fria. Allegra tiraria o gesso na manhã seguinte, na segunda-feira, e então eu poderia voltar ao apartamento de Tom e começar a procurar um novo para mim.

            Estava no saguão de entrada no prédio, sentada em um sofá e folheando uma revista sobre a vida das celebridades quando alguém tocou meu ombro.

            “Não sabia que se interessava por esse tipo de leitura.”

            Olhei para cima e a vi, usando uma calça jeans preta e justa e uma camiseta preta de mangas curtas, mostrando todas as suas tatuagens que cobriam seus dois braços: flores marcando sua pele sobre o passado terrível que sofrera, em contraste com a única lembrança boa que tinha da mãe, seu maior conflito interno. Com os cabelos presos de qualquer jeito, em seu coque habitual, com um sorriso estampado no rosto de tirar o fôlego, Scoutt me encarava demonstrando sentir a mesma empolgação que eu.

            Quando Scoutt sorria todo seu rosto se iluminava e sorria junto. Seus lábios se encurvavam para cima, formando belas covinhas nas bochechas, seus olhos ficavam pequeninhos, brilhando em seu tom de verde tão lindo.

            “Oi! E sim, eu adoro saber a vida das celebridades, até namoro uma.”

            Demos risada enquanto eu me levantava para abraça-la, deixando um beijo em seus lábios e outro em sua bochecha.

            “Que saudade!”

            “Eu também, Mea.”

            “E então, para onde iremos?”

            “Não posso subir ao seu apartamento, me diga você.”

            Revirei os olhos e segurei em sua mão. “Estou com fome, já comeu?”

            Scoutt me respondeu apenas balançando a cabeça de um lado para o outro, sem tirar os olhos dos meus.

            “Então vamos tomar um café. Allegra dorme até mais tarde e se ela me ligar, volto para atender. Aqui na frente tem um café.”

            Entrelacei nossos dedos e saí andando na frente, puxando-a. Atravessamos a rua e estávamos no café na frente do prédio.

            Scoutt pediu apenas por um café preto e eu por um chá com um pedaço de bolo. Nos sentamos na área aberta, ao fundo do estabelecimento, para que ela pudesse fumar.

            “Não está com frio?” Perguntei depois de notar que havia gotículas de água da chuva em sua pele e em sua roupa, e apesar da brisa fria, ela não vestia nada além da camiseta. Nenhum casaco.

            “Não, mamãezinha.”

            Dei risada junto com ela, peguei um pacotinho de açúcar de cima da mesa e joguei nela, errando a mira.

            “Devíamos ter pego um guarda-chuvas. Vai voltar a chover logo.”

            “Saímos correndo, relaxa.”

            Neguei com a cabeça e resolvi conversar sobre outra coisa, já que isso não daria em nada.

            “Sobre o que será a entrevista hoje?”

            “Sobre mim, sobre as vendas, que por sinal, estão ótimas. E sobre a ótima empresa que me ajudou a publicar. Estou vendendo muito bem, Mea.”

            “Isso é bom. Fico feliz.” Abri um sorriso largo, realmente feliz por ela e seu sucesso. Scoutt merecia ser feliz, e agora eu entendia o motivo por trás do livro, de expor sua história dessa forma, ela precisava sair do esconderijo que ela mesma criou, pela vergonha do que passou, de ser quem ela é.

            “Já tem algumas fãs?”

            Scoutt estreitou os olhos, deu uma última tragada no cigarro e o apagou no cinzeiro a nossa frente. Pressionou os lábios que já formavam um meio sorriso e piscou lentamente seus olhos verdes machados de castanho. Se ela não fosse tão linda, em todos os sentidos, com certeza eu já teria lhe dado um fora, tamanha sua pretensão!

            “O que foi?” Perguntei, cruzando os braços.

            Com a mesma expressão, que mostrava que ela se divertia enquanto ria de mim, apenas deu de ombros e maneou a cabeça de um lado para o outro.

            “Nada, amor.”

            “Então me responde.”

            “Tenho sim. Algumas garotas me mandam e-mails. Mas você sabe, tenho que me segurar, tenho namorada.”

            Peguei outro pacotinho de açúcar e joguei nela, dessa vez acertando sua testa.

            Scoutt ria enquanto recolhia do chão os pacotes. Ela se levantou, pegou sua cadeira e colocou ao meu lado, passando o braço por meus ombros, me puxando para perto dela. Me deu um beijo na cabeça, demorado.

            “Te amo, Mea.”

            Fechei os olhos ao ouvir aquilo e suspirei, encostando por fim a cabeça em seu ombro. “Eu te amo.”

            “Então admite que está com ciúme.”

            Comecei a rir e me afastei para olhá-la, que já tomava seu café, que fora provavelmente entregue enquanto eu apenas respirava seu cheiro gostoso, fresco, de quem acaba de tomar banho.

            “Não é ciúme, é que algumas pessoas podem te conhecer pelo livro e então podem...querer te conhecer melhor.”

            “Você vai estar comigo sempre, quem vier até mim, virá até você também.”

            “Tudo bem.” Fiz um biquinho para ela, que logo se aproximou de mim e me beijou.

            “Posso falar que estamos namorando? Sabe, na entrevista...”

            Fiquei olhando para minha xícara de chá por um momento, pensando em tudo o que estava acontecendo antes de responder sua pergunta. Allegra já devia estar sentindo muita mágoa e raiva de mim, por mais que eu tivesse tentando evitar que ela soubesse da pior forma possível sobre minhas intenções de romper com ela, tudo desandou e saiu de meu controle. Não posso ficar por muito tempo evitando que ela tenha acesso a realidade, que ela saiba como eu me sinto e com quem estou. Eu e Allegra ainda não tínhamos conversado realmente, quando tentei terminar com ela e não consegui porque ela começou a falar que me amava e se trancou no quarto, me obrigando a ir morar com Tom, mas fui clara o suficiente para ela saber que não teremos mais nada além de amizade.

            Levantei a cabeça para encarar Scoutt e a vi roubando pedaços do meu bolo com seus dedos esguios.

            Dei um sorriso bobo e puxei o prato para perto de mim, pegando o garfo ao lado e apontando para ela.

            “Isso se chama garfo.”

            “E isso se chamam dedos.” Ela respondeu, colocando sua mão na minha frente e mexendo os dedos. “E você adora.”

            Caí na risada junto com ela e dei um tapa de leve em sua mão, fazendo-a abaixar e parar de besteira.

            “Para de roubar meu bolo, você disse que não estava com fome.”

            “Tá, tá bom, mesquinha. Me diz, posso falar que estamos namorando?”

            “Pode. Vou voltar para a casa do Tom amanhã, logo que Allegra tirar o gesso. E então irei ser mais enfática com ela e terminar tudo.”

            “Tudo bem. Vamos mudar de assunto. Não quero falar da nome de remédio.”

            Pressionei os lábios, tentando não dar risada para não me sentir mal depois, mas foi impossível.

            “Me diz, o remédio era tão boa quanto eu?”

            “Scoutt, você é terrível. Não vou responder isso para zoar ela.”

            “Já me respondeu, boba.”

            Passamos a manhã rindo bastante e conversando. Scoutt falava sobre o pai dela, seus planos, seu trabalho, sempre me tocando, segurando em minha mão ou acariciando meu braço. Estar ao lado dela era como perder a noção do tempo, perder as preocupações, me sentir extremamente feliz e inteira, como nunca ninguém me fez sentir.

            “Eu preciso voltar para o apartamento...” Disse baixinho, já me levantando.

            “Tudo bem.” Scoutt respirou fundo e se levantou também, passando os dedos pela boca e queixo, se limpando do bolo, do meu bolo, que ela comeu mais da metade.

            Ela insistiu em pagar a conta e então tornamos a atravessar a rua. Nos despedimos no hall de entrada com um abraço forte, com direito a roçar o nariz em seu pescoço e sentir seu cheirinho de novo.

            “Não demora para me ver de novo.” Sussurrei contra sua pele, fazendo a mesma se arrepiar.

            “Não demora para ser minha de uma vez.” Scoutt rebateu, com a voz grave e séria.

            Olhei para ela e beijei seus lábios, rápido, mas forte. “Não vou demorar.”

            Me soltei de seu abraço e esperei que ela saísse do prédio, a passos largos, como se fugisse de mim ou tentasse me impedir de saber que ela sofria com a despedida tanto quanto eu.

           

            Na segunda-feira pela manhã, depois de ajudar Allegra com toda a sua rotina para ir ao médio, estávamos saindo do apartamento quando o vizinho intrometido da porta da frente apareceu para tomar o elevador também. Aquele mesmo vizinho que sempre chama Allegra de “minha esposa”.

            “Bom dia, meninas.”

            “Bom dia, senhor Watson.” Allegra respondeu sorridente.

            “Já vai tirar o gesso?”

            “Sim, vou tirar hoje.”

            A porta do elevador se abriu, soltando um apito agudo e nós dois ficamos para fora, esperando Allegra entrar e se apoiar na barra de ferro ao fundo, a seguindo depois.

            “Como vai a sua visita, Mea? Moça diferente aquela.”

            Allegra me lançou um olhar perdido, sem entender do que ele falava, assim como eu, que demorei a entender. Demorei para responder, enquanto observava a porta do elevador se fechar como se fosse em câmera lenta e o tempo passasse absurdamente devagar.

            “Que visita?”

            “Aquela moça de tatuagem que estava com você ontem no saguão. Eu passei para ir até a banca comprar meu jornal de domingo e vi vocês, não quis atrapalhar, por isso não fui cumprimentar.”

            “Moça de tatuagem?” Allegra perguntou, me encarando enfurecida.        

            “Era uma amiga apenas, senhor Watson.”

            Me virei para frente e fiquei encarando a porta do elevador, sentindo nas minhas costas o olhar enfurecido de Allegra, mas também decepcionado. Não sei mais o que fazer para que ela entenda. Não sei mais como agir para que ela me desculpe por toda essa confusão.

            Fomos ao médico em silêncio, não tentei falar nada e ela também não, mal olhava para mim.

            Após a consulta, a retirada do gesso e as recomendações, voltamos para casa e fui direto para o quarto de hóspedes arrumar minhas coisas. Ainda tinha algumas roupas e acessórios no meu antigo quarto que precisaria pegar também.

            Justamente quando estava lá, pegando as coisas no banheiro com pressa e jogando tudo dentro da mala, Allegra apareceu e se sentou na cama.

            “Ela veio te ver, não é?”

            Saí de dentro do banheiro e me encostei na soleira da porta do mesmo. Respirei fundo antes de responde-la.

            “Sim.”

            “Veio te ver justamente no nosso apartamento?”       

            “Não. Eu saí com ela, não deixei que entrasse aqui.”

            “Grande coisa. Como se isso mudasse algo.”

            “Não importa se muda, Allegra!”

            “Não mesmo! Sabe porque, Mea? Porque eu soube, mais uma vez, por outra pessoa que você está com ela! Não basta todos lerem a porcaria de uma revista, mas ainda o vizinho tem que saber quão idiota eu sou!”

            “Eu tentei terminar com você, mas você não deixou, lembra? Ficou fazendo um discurso de que me amava e que era para eu pensar melhor, e depois não tivemos mais nenhum tipo de conversa!”

            “Claro, você fugiu para casa do Tommy.”

            “Allegra! Se eu ficasse aqui você tentaria algo comigo, tentaria me fazer mudar de ideia. Eu preciso que você entenda que nós não temos mais nada!” A essa altura já estávamos nós duas gritando. “Eu evitei magoar você quando EU soube que não conseguiria ficar longe dela, mas acontece que tudo saiu de controle. Sinto muito, mesmo! Vou passar o resto da vida tentando consertar isso, mas acabou.”

            “Sai daqui, Mea.” Allegra disparou, soltando em seguida um suspiro derrotado.

            Concordei com a cabeça, peguei o resto das coisas e joguei de qualquer jeito na mala, a fechando.

            “Eu sinto muito, Allegra.” Disse parando na solteira da porta, mas ela continuou encarando o vazio.

            Saí do apartamento, levando comigo tudo o que importava. Depois que os ânimos se acalmassem, diria a ela para fazer o que quiser com o apartamento.

            Enquanto dirigia até o apartamento de Tom, não pude controlar a vontade de chorar e precisei encostar o carro, deixando todas as emoções fluírem de uma vez só.

 

            Estava finalmente, depois de tudo, com quem eu amava, mas ainda assim, a culpa de magoar Allegra, da traição, pesavam muito em mim. O carinho que sentia por ela e que, claro, aumentou com o tempo, pesava por saber que a perdi, até mesmo na amizade. Sabia que essa sensação iria passar, que a dor passaria, e que no fim do dia tudo o que meu coração sentiria seria o mesmo que senti no domingo cedo: paz, amor, alegria e certeza de que tudo ficaria bem.

Nome: Palas F (Assinado) · Data: 11/11/2016 01:35 · Para: Capitulo 24

Não sei se esse jeitinho meio adolescente da Allegra de reagir ao término me dá dó ou raiva. Rss Que vontade de socar esse vizinho. Affz!!

Ps.: Anne ;D



Nome: lohs (Assinado) · Data: 13/03/2016 00:29 · Para: Capitulo 24

É, Mea lutou tanto, adiou pra magoar Allegra de um jeito mais "fácil", mas não deu muito certo. Mas é isso, ai, Allegra precisava de um "se liga!"

 

Beijos, Fê..



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 08/03/2016 21:23 · Para: Capitulo 24
Não e fácil mesmo. Tenho do da allegra. Mea nao e mau carater mas assim allegra a ver agora. Foda. Bj

Resposta do autor em 09/03/2016:

É difícil mesmo, para as três. Cada uma sentindo a situação de uma forma ruim. Beijo, obrigada por acompanhar!



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