Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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Sobrevivendo 

 

 

 

Não me escondi. Na segunda de manhã eu estava lá, de cabeça erguida. Mesmo com o meu coração partido. O clima do colégio estava estranho. Alguns garotos me olhavam e sorriam debochados. Alguns se aproximaram com cantadas baratas. Sempre achei esse tipo de coisa medíocre. Sabe, sempre achei coisa de pessoas sem capacidade de se expressar. Afinal, se queremos alguma coisa, não precisamos de truques tão baixos. A atitude é um dom pra poucos.

 

Os dias passaram se arrastando. E uma das coisas que mais machucava era vê Sam desfilando com seu namoradinho irritante. Samantha assumiu seu relacionamento com o engomadinho do terceiro ano. Aquele que ela estava atracada no dia da festa de halloween. Confesso, nos primeiros dias eu fugia sempre que os via juntos. Mas então entendi que não importava o que eu fizesse, a dor não diminuiria. Os olhos amarelados às vezes procuravam os meus. Mas os meus desistiram de esperar.

 

 

 

-Oi moça bonita! - Um sorriso involuntário foge de minha boca.

 

-Oi rapaz bonito. - Digo olhando carinhosamente para os olhos verdes a minha frente.

 

-Posso? - O rapaz pergunta se referindo ao espaço vazio ao meu lado no banco.

 

-Oh, lhe concedo a honra de minha presença. - Digo brincando.

 

-O prazer é meu em ter a sua companhia. - Ele diz e se acomoda ao meu lado.

 

Paco voltou a se aproximar de mim. Sentir a sua falta. Mas nunca soube o porquê do seu afastamento ou o porquê do seu jeito frio. E agora ele estava sentado ao meu lado no banco de concreto.

 

-Quais os planos para esse fim de ano? - Ele pergunta timidamente. Algo que me surpreende.

 

-Estou pensando em ir para Nova York. Estou com saudade daquela velhota. - Coloco as minhas mãos pra trás segurando o banco. Levo o meu corpo um pouco para trás e levanto a minha cabeça pra cima e fecho os meus olhos. O dia estava tão agradável.

 

-Ah! – Sua voz sai um pouco decepcionada o que chama a minha atenção.

 

-E você? - Pergunto me voltando para o seu lado.

 

-O mesmo de sempre.

 

Então ficamos ali conversando bobagens. Não via a hora das férias chegarem. Ir ao colégio nunca foi tão torturante. Olhar todos os dias para Samantha sem poder toca-la. Beija-la. Ou simplesmente me demorar em minha admiração. Era como morrer todos os dias. Vê-la sorrir, acariciar ou simplesmente está perto de outra pessoa que não fosse eu, era aterrorizante. Mas ela quis assim. Então tudo o que me restou, foi aceitar.  

 

O ano finalmente estava acabando. E finalmente as tão esperadas férias chegarão. Me sentir tão aliviada. Era como se tivessem tirado um pouco do peso que suprimia o meu coração. Aproveitei os primeiros dias de descanso para cavalgar com Júpiter. Curtir a água gelada da cachoeira, tocar violão e fazer o que eu mais gostava no mundo. Tocar o piano de mamãe mesmo sendo escondido. Por mim ficava o tempo todo curtindo ele. Mas eu tinha medo de papai chegar e me pegar no fraga. O que eu diria? Ele sempre deixou claro desde quando eu tinha cinco anos que aquele lugar era proibido. Que se um dia me pegasse novamente ali. Haveria consequências. E às vezes papai era assustador. Então pra quer brincar com a sorte.  

 

 

 

-O que faz aqui sozinha? - Vovô pergunta se sentando ao meu lado.

 

-Tentando esquecer vovô. - Digo sem desviar os olhos da cachoeira.

 

-Seu voo está marcado para a tarde de amanhã. - Sua voz sai calma. –Pretende mesmo passar suas férias inteiras em Nova York?

 

-Sim, pretendo. - Abaixo a minha cabeça.

 

-Está fugindo de quer Lizandra? – Vovô pergunta astuto. Não havia dito o que havia acontecido. Eu não conseguia dizer.

 

-Como se foge de um coração partido? - Ouve um longo silêncio.

 

-Por que você iria querer fugir? - O homem pergunta. 

 

-Por que está doendo. - Minha voz sai baixa e desesperada.

 

-Então apenas sobrevivemos. Sobrevivemos até que estejamos preparados para respirar novamente sem que doa tanto.

 

-E como se perdoa uma traição? - Pergunto voltando os meus olhos envergonhados para vovô.

 

-Se realmente houver arrependimento. - O homem de olhos escuros dar um suspiro triste. –Existem varias formas de ser traído. Assim como existem tantas formas de trairmos que nem notamos. - Seus olhos escuros confortam os meus. -Às vezes por comodidade ou às vezes por que não conseguiríamos imaginar viver sem a outra pessoa. Então perdoamos. Perdoamos tantas vezes quanto forem necessárias.

 

-O senhor perdoaria? – Questiono-o interessada.

 

-Você não?! - Sua voz é tão segura e calma.

 

-Não. - Digo sem nem mesmo parar para pensar. –Existem coisas que são imperdoáveis.

 

-Que tipo de coisas?

 

-Coisas que ferem o que nos tornam quem somos. Se traímos isso, o que nos restará?! - Digo em um fio. Vovô fica em silêncio por um longo tempo. –Por que as pessoas que amamos nos traem? - Pergunto tirando-o de sua inercia.

 

-Existem vários motivos. Sei que nenhum deles justifica. - Vovô pega uma pedrinha na margem e a arremessa na água. –Você viu o que a pedra causou na água? – Ele pergunta um longo tempo depois.

 

-A pedra agitou a água que estava calma. - Digo tranquilamente.

 

-Sim. Ela agitou a superfície, mas o fundo continua calmo. As pessoas são diferentes, às vezes elas estão tão calmas por fora, mas você não conhece o que se passa por dentro. - Seus olhos me olham com sabedoria. -Você não conhece os motivos da outra pessoa. Então...

 

-Sam acredita que não nos assumir por medo. - Minha voz sai magoada. –Ela acredita veementemente que eu tenha a traído. Afinal, sou covarde demais para assumir nossa relação. Ela me acha tão leviana. – Deixo um suspiro cansado fugir. -Samantha disse que apenas me deu o troco por tudo o que a fiz passar. – Digo convicta. –Será que realmente fiz algo errado? Será que sou essa garota de instinto medroso que nem mesmo foi capaz de assumir a garota que ama? Talvez ela tenha me traído por isso. Por não ser...

 

-Não se atreva a repetir isso. - Vovô me repreende. –Você é a garota mais valente que eu conheço. Nunca mais assuma a culpa dos outros. Se ela fez o que fez foi por que não soube esperar. Ela não soube enxergar a garota maravilhosa que você é. Por que você, Liz, é a pessoa que eu conheço que mais sabe amar. Você é tão intensa. E eu me orgulho tanto por ser o seu avô.

 

-Obrigado vovô! - Digo emocionada. –Isso significa muito pra mim.

 

 

 

Conversamos por tanto tempo. Aquele senhor era o que eu tinha mais perto de um pai. E eu a amava incondicionalmente.

 

 

 

-Por que não disse a ela? - O homem sentado ao meu lado me encara tentando entender.

 

-Eu não poderia dizer. - Abaixo a cabeça.

 

-Cedo ou tarde. Ela terá que saber.

 

-Eu não me importo mais com esse assunto.

 

-Sebastian sempre foi um cara bom. Talvez tenha mudado. – Vovô tenta ser otimista.

 

-Tia Sarah acreditava que não seria tão fácil. Então acho que a opinião dele sobre esse assunto continua a mesma.

 

-Sam deveria saber disso. - Ele insiste.

 

-Não tenho mais nada haver com Samantha. Então deixe-a viver como está. - Digo triste. -Ela adora o pai. Acho injusto destruir essa imagem de perfeição.

 

-Você continua protegendo-a!

 

-Talvez. - Digo voltando a ficar em silêncio.

 

 

 

Todas as pessoas que são importantes em minha vida, sabiam de meu envolvimento com Samantha. Falei antes mesmo de que ela me pedisse em namoro. Contei de meu sentimento por ela. E para a minha supressa todos eles me apoiaram. Vovó Catherine ficou meio receosa no começo. Mas depois veio me pedi desculpas. Já vovô disse que eu tinha o bom gosto dele. Vovó Rúbia apenas disse que me amava incondicionalmente. E que não se importava com quem eu amasse, se essa pessoa apenas me retribuísse de volta. Mas para Samantha, eu sempre escondi que a amava, eu sempre a neguei para o mundo. Mas não era bem assim. Nada era como ela pensava. Mas isso agora não importava.

 

Quando desembarco no aeroporto internacional... Lá estava ela, com um imenso sorriso nos lábios. Jogo minha mochila no chão e me atiro em seus braços protetores a enchendo de beijos. Estava morrendo de saudade daquela senhora de sorriso fácil.

 

-Assim você me esmaga, menina! - Vovó reclama se afastando. –Você está tão linda! - A senhora diz se afastando para me olhar.

 

Seus olhos cinza brilham carinhosamente. Ela era uma mulher alta, magra com seus cabelos amarelados em um corte curto e moderno. Vovó Rúbia era estilista. E eu tinha um orgulho danado dela. Por que ela era sem duvida uma das melhores pessoas do mundo. Recolho a minha mochila. Não precisava levar muito coisa quando ia visitá-la. Afinal, eu já tinha tudo o que precisava lá. Dona Rúbia era uma das pessoas mais atenciosas e malucas que eu conhecia. E um dia eu queria ter nem que seja a metade de seu caráter bondoso.

 

Andamos despreocupadas até o estacionamento. Fomos o caminho inteiro até sua cobertura conversando sobre assuntos despretensiosos. Adoro ouvi-la falar em como tinha sido seus desfiles, ou em como estava o andamento de sua marca. Vovó me fazia ri horrores quando contava os podres por de trás de todo aquele mundo brilhante. Eu sempre me sentir tão leve perto dela. Era como se o mundo não fosse tão ruim. Vovó Rúbia me dava um ar novo.

 

Fazia duas semanas que eu estava em Nova York. E durante esse tempo, me esqueci um pouco de Samantha e do que ela havia nos feito. Estando ali, nem doía tanto. Estou em um dos lugares que eu mais adorava na casa de vovó. Diante de mim, estava o piano branco. Ele era lindo.

 

Então me sento diante dele. E como em todos os outros dias, deslizo delicadamente sobre as suas teclas. Fecho os meus olhos e deixo a música fluir. Deixo-a limpar a minha alma. Aquele era o meu lugar. O lugar onde ninguém podia me ferir. O lugar ao qual eu pertencia.

 

-Tenho um presente pra você. - Uma voz emocionada me chama a atenção. Viro o rosto em direção à porta. E vovó está ali. Parada.

 

-Não há ouvir chegar. - Digo carinhosamente.

 

-Não queria atrapalhar. - A senhora diz se aproximando. –Tenho algo pra você. - Ela estende as mãos em minha direção com uma pequena caixa de madeira entre elas. “Como não a percebi antes?”

 

-Presente?! - Digo em um tom brincalhão. –Adoro ganhar presentes. - Vovó ri, e eu lhe dou espaço para que se sente ao meu lado. Algo que ela faz sem pensar duas vezes.

 

Pego a caixinha e com um sorriso de criança a abro. Há algo dentro, então delicadamente retiro o objeto. Era uma linda caixinha de música. Meus olhos brilharam na hora. Rodo a pequena manivela. E quando a música soa meu coração dispara enlouquecido. Eu conhecia tão bem aquela melodia. O carrossel começa a roda. Os meus olhos se enchem de lágrimas ao verem os cavalos rodarem em círculos. Eu fico ali, hipnotizada até a música acabar e o carrossel parar.

 

-Ele era de Lívia. Seu avó o deu a sua mãe quando ela fez três anos. Foi daí que ela se apaixonou pela música. – Vovó estava emocionada. -Pensei em lhe dar quando você fizesse quinze. Mas acho que agora também é um bom momento.

 

-O melhor. - Digo também emocionada. –Obrigado vovó. - Digo me jogando em seus braços. –Ele é lindo.

 

 

 

 

 

 

Nome: crisley (Assinado) · Data: 17/03/2018 13:29 · Para: Capítulo 21 – Sobrevivendo

Muito boa essa história, me perdi um pouco, kkk, . Normal eu acho, espero que não demore nas atualizações. O ideal seria uma por dia né? Kkk. Bjs autora.



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 17/03/2018 02:25 · Para: Capítulo 21 – Sobrevivendo

Quanta sensibilidade dessa menina. Dar pra sentir a dor dela. Funguei aqui. Ainda ben q ela tem Nova Iorque e uma avó amorosa lá. Bom fds.



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