Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 20:

SCOUTT

 

            Havia acabado de chegar de Chicago após a entrevista, o corpo todo dolorido de ficar sentada na poltrona do avião, a cabeça latejando desde o pouso e ainda tinha seis horas para dormir e ir trabalhar. A vida de ir para Chicago e voltar a Seattle rápido assim estava acabando comigo, mas em compensação, meu livro estava lançado e sendo comprado.

            Joguei a chave do apartamento novo em cima da mesa de centro da sala e fui em direção ao quarto, tirando os tênis no meio do caminho e prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo, quando Jeremy apareceu no corredor, vindo de encontro a mim.

            “Chegou esse convite para você enquanto esteve fora.”

            Peguei da mão dele e segurando em seu ombro, o empurrei para sair da frente.

            “Valeu.”

            “Deu tudo certo na entrevista?”

            “Sim, estou cansada.”

            “O cara que vai pintar aqui vem amanhã.”

            Apenas concordei com Jeremy e entrei no meu quarto, batendo a porta. Com o dinheiro que estava ganhando na editora consegui alugar um apartamento novo no centro da cidade e sair do campus da universidade. Jeremy ainda tem um ano para se formar e ficou com o apartamento no campus, a não ser quando viajo a trabalho para Chicago e peço para ele dormir aqui e cuidar de tudo, o que ele adora.

            Sentei na minha cama depois de tirar o moletom e abri o envelope. O nome da empresa de Mea, Bradley & Miller, estava escrito em letras delicadas e douradas. Era um convite para o baile anual de arrecadação de fundos para uma ONG que cuida de crianças órfãs ou que foram tiradas de situações de risco dentro de seu próprio núcleo familiar. Todo começo de ano o baile acontecia para que a ONG tivesse um ano tranquilo, e a empresa convidava todos os envolvidos com a mesma, inclusive a mim, que tenho um contrato com ela.

            Abri um sorriso largo, mas cansado, e lá iria eu novamente para Chicago. O baile era em três dias, no fim de semana. Conseguiria adiantar os atrasos do trabalho e chegar a tempo, só precisava de uma acompanhante.

 

            Bocejei quando entrei automaticamente no hotel em Chicago, no sábado às cinco horas da manhã. Tomei o voo em Seattle logo após o expediente na sexta. Estava literalmente acabada e com o corpo doendo. Fui até a sacada do hotel e acendi um cigarro, me debruçando sobre o metal gelado. O fim de janeiro anunciava o fim do inverno, com apenas mais um mês, e já era possível sentir o clima se tornando mais ameno.

            Entre uma tragada e outra, tentei ligar para Mea, mas ela não me atendia. Desde a entrevista estava sem falar com ela, e talvez seja pela besteira que eu consegui soltar para a jornalista curiosa, mas era tempo demais sem falar com ela. Era um tempo longo demais que estava dando a ela depois de termos praticamente nos acertado, era tempo demais para terminar com a tal namorada misteriosa.

            Acabei dormindo naquele dia sem querer, depois de deitar no sofá para assistir à televisão com um pote de cereal que pedi na cozinha do hotel, acordando horas depois, com o sol já posto e o cereal todo caído em cima de mim.

            Esfreguei a mão no rosto, acordando devagar. A sala toda escura, iluminada apenas com a luz da televisão me assustou. Dei um pulo no sofá, percebendo que perdi a hora.

            Peguei meu celular na mesa de centro da sala e vi que eram oito horas da noite e a festa estava marcada para as nove horas.

            “Merda.”

            Levantei e fui andando em direção ao banheiro enquanto ligava para Stella.

            “Oi, garota. Sentiu saudades de mim aí na sua cidade?”

            “Estou a metros de você.”

            “Já voltou para cá?!” Stella gritou no telefone, me fazendo rir.

            “Eu vim porque fui convidada a um baile de gala da B&M, sabe? Fica feio não ir, todos os associados foram convidados, e como trabalhei com eles...já sabe.”

            “Sei, veio correndo ver sua ruiva.”

            Dei uma gargalhada alta e balancei a cabeça de um lado para o outro. Liguei o chuveiro, já enchendo o banheiro de vapor e fui tirando minha roupa enquanto conversava.

            “Sua chata, não é isso. Eu nem sei se ela vai a essa festa.”

            “Ela é dona da empresa daqui, não é? Você quer mentir para quem?”

            Ri de novo e me sentei no vaso sanitário.

            “Para de encher o saco, Stella. Eu preciso de uma acompanhante, quer ir? É um baile de gala...”

            “Está me tirando? Está falando que não tenho roupa para ir nisso? Eu vou sim. Quando é?”

            “Ãhn...em uma hora.”

            “Scoutt!”

            “Eu sei, eu acabei dormindo, perdi a hora. A gente chega um pouco atrasada.”

            “Tudo bem, vou pedir para o Derek assumir aqui e te encontro na frente do prédio em...uma hora e meia?”

            “Tudo bem, tchau.”

            Stella riu e me mandou um beijo, desligando logo em seguida.

 

            Uma hora depois eu estava na frente do prédio, xingando baixinho o vento que podia estragar meu cabelo. Estava usando um terno, com a camisa social branca por baixo aberta alguns botões, e meu cabelo estava penteado para trás, arrumadinho até demais.

            Quarenta minutos depois vi Stella subindo as escadas, com os cabelos encaracolados soltos, usando um vestido curto, dourado e que brilhava muito. Seu sapato de salto alto a deixava quase maior do que eu. Sorri quando a vi, achando-a linda e fui até ela.

            “Uau!”

            “Uau digo eu! Eu sei que você ama essa ruiva aí, mas você é uma tentação.”

            Dei uma risada alta e dei o braço para ela.

            “Eu sei que sou uma tentação.”

            Stella me deu o soco no ombro de sempre e fomos atrás de um táxi.

            Chegamos a um salão enorme, com fotógrafos e pessoas tão bem arrumadas que quase quis voltar ao hotel. Stella estava adorando tudo aquilo e sorria para todas as câmeras, e provavelmente, se alguém conhecesse meu rosto devido ao livro, eu sairia de novo relacionada a Stella.

            Fomos logo servidas com champanhe e ficamos ali observando as pessoas e ouvindo as músicas que uma mulher loura e linda cantava. Stella se soltou de mim e disse que iria procurar mais bebida e andar um pouco.

            Do outro lado do salão vi Tina e Tom conversando, com Adele ao lado deles. Fui até eles sem pensar duas vezes, colocando a mão espalmada nas costas nuas de Tina, cumprimentando-os em seguida. Tina e Adele sorriam e Tom permaneceu sério.

            “Você veio!” Tina dizia empolgada.

            “Claro, recebi o convite e vim. Cadê a Mea?”

            Tom pigarreou e passou os dedos por sua barba enorme. Fazia bastante tempo que não o via e ainda não estava acostumada com seu novo visual.

            “Vamos até o bar, Scoutt.”

            Tom saiu andando na frente e eu o segui, até que sentamos em banquinhos e Tom pediu duas doses de whisky.

            “Então, Mea não chegou ainda.”

            “E vai chegar?”

            “Sim, com a namorada.”

            “Eu achei que...”

            “Eu sei. Ela está ficando em casa, está se separando, mas as coisas são difíceis, a Mea se importa demais com a pessoas. E como ela precisava de uma acompanhante, mesmo no meio do término, a namorada pediu para acompanhá-la. Quando você a ver, não provoque uma briga, ela já está irritada por ter que vir ao baile com a... a namorada.”

            “Ninguém me fala o nome dessa namorada, não sei o motivo disso.”

            “Logo vai entender.” Tom sorriu e bateu de leve seu copo no meu, se levantando. “Foi bom te ver, continua a mesma.”

            Dei risada e tomei um gole da minha bebida. “Bom te ver também, saudade de tomar uma cerveja contigo.”

            “Nunca deixei de falar com você.”

            “Eu sei, eu só...precisei de um tempo para melhorar as coisas.”

            “Eu entendo, Scoutt. Cuidado com a Mea, tá? Ela está abrindo mão de coisas para tentar um relacionamento com você de novo, se a magoar como aquela vez...”

            “Relaxa, barbudo.”

            Stella me encontrou assim que Tom saiu à procura de Adele. Ela se juntou a mim com seu champanhe e eu pedi outra dose de whisky.

            “Que horas vamos jantar?”

            “Em breve.”

            “Estou com fome.”

            Dei risada e olhei para ela, que estava linda demais, poderia conseguir qualquer pessoa, mas estava comigo, que só pensava em Mea.

            “Se comporte, garota.”

            A noite ia passando e eu ainda não havia visto Mea. Várias mesas compridas estavam dispostas em uma parte separada do salão, e após o jantar todos fomos convidados ao salão de baile para as doações a ONG. E então foi quando a vi, com o microfone na mão agradecendo a presença de todos e explicando a iniciativa. Não precisei de muito tempo observando para constatar que eu não era a única que ficava impressionada com sua beleza, a maioria dos homens e algumas mulheres ao meu redor a olhavam fixamente.

            Com um vestido de mangas compridas, todo justo ao seu corpo e longo até seus pés, em um verde esmeralda, Mea brilhava mais do que qualquer outra pessoa naquele salão.

            “É ela então.”

            Stella sussurrou ao meu lado, olhando-a com um semblante fechado.

            “É. É ela.”

            Mea sorria enquanto todos aplaudiam o fim de seu discurso e se retirava do palco, dando lugar a Tina, que seria quem comandaria os leilões. Enquanto descia as escadas do palco, Mea me viu ao lado de Stella que ainda segurava em meu braço, e no mesmo instante fechou a cara, pressionando os lábios e franzindo o cenho. Eu estava fodida.

            A segui com o olhar durante todo o leilão, vendo-a sorrir roboticamente para vários homens e mulheres, dando apertos de mãos e balançando muito a cabeça em sinais positivos. Eu poderia tirá-la daqui e faze-la esquecer de toda essa besteira, dar a ela o que ela mais almeja, assim como eu.

            Estava no quinto copo de whisky, esperando a melhor oportunidade para chegar perto dela.

            “Vai voltar a música, podemos dançar? Assim você consegue chegar perto dela.”       

            Olhei para Stella, vendo-a sorrir, mas totalmente desanimada, me fazendo sentir culpada. A trouxe até aqui e tudo o que eu estava fazendo era olhar fissurada para Mea e beber sozinha, sem nem ao menos conversar com meu par. Sorri para Stella e concordei com a cabeça, virando todo o restante do líquido de uma só vez, aprovando a sensação ótima na garganta do líquido gelado deixar um gosto amargo na boca e queimar a garganta.

            “Vamos dançar!”

            Me misturei no meio de vários corpos dançantes com Stella e começamos a dançar enquanto eu a conduzia. Ela ria de algumas pessoas e principalmente de pisar em meu pé algumas vezes e, pela primeira vez, eu estava me divertindo na noite. O que durou pouco.

            Logo vi Mea parada sozinha no meio do salão, olhando aflita para um dos cantos do mesmo, e foi então que vi Allegra se aproximando, usando um vestido longo vermelho vinho, esboçando seu melhor sorriso por ter consigo a mulher mais linda da noite.

            Mea deu um sorriso de canto e pude vê-la respirar fundo. Allegra a abraçou e a puxou para dançar. Parei de mover meus pés, fazendo Stella pisar neles por perder o ritmo e a soltei. Olhava para Mea e Allegra dançando juntas e então entendi tudo. Era ela a namorada. Ela ficou ao lado da Mea enquanto eu agia feito idiota. Ela é a pessoa boa que Mea não pode perder. Mordi meu lábio inferior com força enquanto passava uma mão pelo maxilar e maneava a cabeça de um lado a outro.

            “O que foi, Scoutt?” A voz de Stella soou longe e, tomada de raiva, não enxergava ou ouvia mais nada.

            Allegra soube esperar seu tempo, soube aproveitar de Mea fragilizada para se aproximar e a teve por mais de um ano, tocou seu corpo, beijou sua boca...coisas que eu sempre esperei retomar.

            “Não acredito nisso.” Foi tudo o que consegui dizer antes de partir em direção a elas.

            Andava a passos largos e apressados. Acredito que nenhuma das duas tiveram tempo de notar minha aproximação, assustando quando segurei Mea pelo braço e saí puxando ela como um homem das cavernas, mas não me importava com mais nada naquele momento. A arrastei até o banheiro mais próximo, entrando e trancando a porta, enfurecendo as mulheres que queriam entrar.

            “Eu odeio quando me puxa pelo braço! Odeio que me segure! Ficou maluca?”

            Mea gritava feito uma maluca e fazia gestos com as mãos, exasperada, enquanto eu andava de um lado para o outro do banheiro, encarando meus próprios pés.

            “Allegra é sua namorada?!”

            “Eu não estou falando com você! Não quero falar com você!”

            “Allegra é a porra da sua namorada?”

            “É, Scoutt! Allegra era minha namorada!”

            “Era? Mas continua abraçando e dançando com você?”

            “Scoutt, dá um tempo! Estou com raiva demais agora.”

            “Raiva? Raiva estou eu! Esse tempo todo achando que era uma qualquer sua namorada, mas não! É a porra da garota que já te amava, que sempre quis te roubar de mim, e conseguiu!”

            “Não conseguiu nada, você quem acabou com o que tínhamos. Ela só ficou do meu lado, me deu coisas que você não podia dar.”

            Olhei para Mea, com os lábios entreabertos e os olhos arregalados, sem acreditar no que acabara de ouvir. Me aproximei de Mea, encarando-a nos olhos.

            “Sério? Vai jogar isso na minha cara agora? Eu mudei! Já resolvi meus problemas, você já sabe o que aconteceu comigo, estava até disposta a voltar para mim! Ela nunca foi o que você quis, como conseguiu passar esse tempo todo com ela? Você tem algum sentimento por ela então?”

            “Scoutt, para com isso. Eu aprendi a ter. Ela apareceu quando eu não tinha ninguém, quando viver em Chicago tentando engolir o término de merda que tivemos era insuportavelmente doloroso. Eu aprendi a amar Allegra, mas você sabe que meu coração é seu.”

            “Eu não consigo acreditar que fez isso comigo. Podia namorar qualquer pessoa, menos ela. Ela é...ela sempre quis você! Ela tocou em você!”

            Mea riu alto e bateu uma palma na outra.

            “Tocou em mim como você anda tocando aquela mulher que está com você?”

            “É por isso que está brava comigo?”

            “Não estou brava. Você veio a Chicago, não falou comigo, mas teve tempo de falar com aquela mulher. Stella não é? Ela deve ter ficado feliz de sair na revista na sua entrevista sobre Sunshine.”

            Revirei os olhos e bufei, me encostando na pia.

            “Faça-me o favor, Mea. Stella é uma amiga. Ela sabe que estou aqui com você agora, nunca tivemos nada...”

            “Não vou nem perguntar se isso é verdade, Emma.”

            “Não me chama de Emma, caralho.”

            “Posso voltar para lá agora? Já devem estar se perguntando porque uma das proprietárias da B&M foi arrastada pelo braço por uma maluca.”

            “Pode, volte para a sua dança.”

            “Scoutt, eu e Allegra não temos mais nada, mas ela não precisa sofrer tanto com esse término, certo?”

            “Foda-se.” Dei de ombros e saí do banheiro, deixando-a sozinha. Meu sangue fervia e minha vontade de socar Allegra depois de dar-lhe os parabéns por ter conseguido o que sempre quis só aumentava.

            Tom surgiu em minha frente, tentando chamar minha atenção, o que só me levaria a outra briga.

            “Agora não, Tommy.”

            Saí andando a procura de Stella e quando a encontrei, segurei em sua mão e a puxei para sair dali. Fotógrafos nos atormentavam na saída enquanto conseguíamos um táxi.

            “O que aconteceu, Scoutt?” Stella perguntou já dentro do táxi, sentada a uma poltrona de distância, me encarando como se eu fosse um animal.

            “Mea namora uma garota que sempre a quis e nunca gostou de mim, se fez de amiga enquanto éramos namoradas.”

            “E vocês brigaram agora?”

 

            “Sim, fodi com tudo. Mas Mea vai ver só, vou mostrar a ela que aquela garota não chega a meus pés em vários sentidos.”

Nome: lohs (Assinado) · Data: 17/02/2016 15:56 · Para: Capitulo 20

P****!!! Que capítulo, Fernanda! Parabéns. 

Não achei muito bonito o que Scoutt fez com Mea, levando-a ao banheiro daquela forma, mas ela tava com raiva, ne? (Cadê a classe, Scoutt?) 

Mea, like always, supondo as coisas erroneamente. 😒

 



Resposta do autor em 09/03/2016:

Defende Scoutt até quando ela perde a classe, né? 

Mea fica brava com ciúme, assim como a Scoutt. Acho que no fim, as duas supõe coisas erroneamente e saem agindo feito bestas. 

Beijo, Lolo.



Nome: Mika (Assinado) · Data: 10/02/2016 17:33 · Para: Capitulo 20

Eitxaaa...

 

agora vai viu... Hahahaha

 

amo essa história de paixão!

 

ansiosa pelo próximo capítulo!

 

Parabens autora, sou sua fã!

 

bjos



Resposta do autor em 09/03/2016:

Amo os comentários de paixão!

Obrigada por ler, espero que continue gostando.

Será que agora as duas se acertam?

Beijos!



Nome: Ada M Melo (Assinado) · Data: 10/02/2016 15:36 · Para: Capitulo 20

Scoutt esta certa e ja correu muito atras da Mea, acho que agora é hora Mea se resolver... e concordo com a Scoutt a Alegra é uma aproveitadora de ocasião...kkkkk



Resposta do autor em 09/03/2016:

Allegra soube esperar e dar o bote, não é? Coitada, tentou tanto e vai morrer na praia.

Scoutt e Mea é um caso perdido!

Beijos!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 10/02/2016 14:48 · Para: Capitulo 20
Eita porra. O caldo entornou. La vai a scout fazer merda de novo. Mas mea tb. Terminou. Ficar desfilando e dançando c a ex é idiotice. Alegra se enche de esperança. Foda.

Resposta do autor em 09/03/2016:

Allegra se enche de esperança misturada com mágoa, Mea se enche de angústia pra essa situação acabar logo e Scoutt se enche de ansiedade, raiva e impaciência. O que fazer?

Beijos!



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