Posso te falar de amor? por Tattah


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PARTE 1


 


CRISTIANE


 


Era estranho estar passeando por aquelas ruas estreitas e sem atrativos. Havia anos que não colocava meus pés nessa cidade. Tinha me esquecido como era o seu cheiro e os seus sons. Ela cheirava a uma mistura de mato com um pouco de concreto. Era delicioso e ficava ainda mais quando chovia, o que não era o caso daquela tarde ensolarada e abafada.


– Não sei a razão de você estar se escondendo atrás desse boné e desses óculos. – Henrique queixou-se pegando em minha mão e me dando aquele sorriso doce que só ele era capaz.


Sorri de volta.


– Não quero ser reconhecida, Rick. Acho que ainda não estou preparada.


Ele me deu novamente aquele sorriso meigo e carinhoso.


– Cris, é quase, aliás, é impossível alguém te reconhecer. – Soltou minha mão e sentamos em um dos bancos da praça. Um garotinho veio em nossa direção vendendo picolés, comprei dois e ficamos lá nos deliciando com eles, enquanto alguns fantasmas do passado assombravam minha mente.


Ele, por sua vez, ficou calado aproveitando seu picolé; sempre soube ficar em silêncio e esperar até que estivesse pronta para falar. Acho que fiquei perdida em meus pensamentos por tempo demais, pois ele me deu um cutucão nas costelas dizendo:


– O que você tanto pensa? Se demorar demais tudo que irá restar será apenas o palito. – Apontou para o meu picolé que já havia derretido quase todo.


– Pensava em nada em particular. – Menti dando um pouco de atenção ao picolé.


– Cris, se tem uma coisa que você não sabe fazer é mentir para mim. Você estava pensando naquilo que aconteceu, não é mesmo?


– Está tão na cara assim? – Deixei um suspiro escapar um pouco zangada comigo mesma por ser tão óbvia.


– Você sempre foi um livro aberto para mim. Não precisa se preocupar em ser reconhecida, afinal isso aconteceu há doze anos atrás. Você não é mais aquela adolescente de dezessete anos gordinha, quatro olhos e cheia de espinhas.


– Obrigada, por me lembrar que eu era horrível. – Sorri, sem me importar realmente com o que ele falou sobre minha aparência.


A beleza era agradável? Claro! Mas eu, mais do que qualquer outra pessoa, sempre me importei com o coração.


– Você sabe muito bem que a minha intenção não é essa. E você não era horrível! Só era um pouquinho desprovida de beleza na época.


Ele coçou a cabeça, encabulado ao perceber o que tinha dito.


– Ah, deixa disso! Olha só que mulherão você se tornou. Está uma gata! Se eu não estivesse noivo, você não fosse como uma irmã para mim e não fosse lésbica daria em cima de você descaradamente.


 Não pude deixar de rir com isso. Ele era, realmente, um amor de pessoa. Sempre foi meu porto seguro, principalmente naqueles dias horríveis da minha adolescência. O riso passou e o silêncio recaiu entre nós outra vez, a saudade me dominando. Não tinha boas lembranças daquele lugar, mas também, o amava de muitas maneiras já que foi ali que nasci e cresci.


– Cris. – Ele me trouxe de volta outra vez.


– Oi.


– Você tem vergonha do que é, de si mesma?


Sua pergunta me pegou desprevenida, mas fui sincera ao responder.


– Não. Tenho orgulho de quem sou e da mulher que me tornei. Mas, você deve compreender que não foi fácil para mim enfrentar tudo e todos. Me tornei uma reclusa, evitei ao máximo as pessoas naquele período, em parte, por ter medo de “encara-la” e, também, para evitar mais desconforto aos meus pais.


Ele baixou os olhos para o picolé que já estava quase no fim.


– Sou uma mulher totalmente diferente da adolescente que conheceu anos atrás. Mudei muito, creio que para a melhor. Mas mantive minha essência e parte dessa essência inclui o desconforto que é estar aqui e me mostrar diante de pessoas que me magoaram profundamente.


– Eu acho que entendo.


Sabia que ele entendia mesmo, embora não parecesse, Rick era muito mais profundo do que qualquer pessoa que já conheci, além de ser muito empático, principalmente, no que dizia respeito a mim.


Passeei o olhar pela rua, vendo as pessoas passarem felizes e despreocupadas e sorri me dando conta de que toda cidade de interior é assim, ninguém tem muito com o que se preocupar. Não que não tenham problemas, mas é que levam a vida com mais calma e tranquilidade. Não é a correria das metrópoles.


Continuei assim por um tempo, o meu picolé já havia derretido completamente e atirei o palito na lixeira ao lado do banco em que nos encontrávamos. Os pensamentos flutuando em minha cabeça entre o passado e o presente, trazendo-me de volta os antigos medos, as dores que pensei ter esquecido e o desejo de não mais senti-las.


Então, a vi.


Ela ia passando tranquilamente do outro lado da rua, fiquei completamente imóvel. Paralisada mesmo. Meu peito parecia querer explodir.


Como era possível que ainda ela continuasse tão linda?


Ela cruzou a rua e veio em nossa direção, a longa cabeleira negra e cacheada balançando às suas costas, aquele mesmo sorriso encantador nos lábios, os mesmos olhos negros e simpáticos. Ela foi chegando mais e mais perto de onde estávamos.


Henrique, percebendo meu estado, me deu uma cotovelada.


– Ai!


– Fecha a boca. Vai querer um babador? – me olhou sério. – Como é possível que depois de anos você ainda tenha essa mesma reação quando a vê?


Não consegui pronunciar nada em resposta, pois estava nervosa. Minhas mãos tremiam e o ar fugiu de meus pulmões por alguns segundos. Ele tinha razão e eu também não conseguia entender como, depois de tantos anos, ela ainda tivesse esse efeito sobre mim.


Ela parou à nossa frente.


– Boa tarde, Henrique. Quanto tempo! – disse ela ampliando o sorriso e meu coração se desmanchou dentro do peito.


Ele levantou e a abraçou rapidamente.


– Hellena, você está mais linda do que nunca! – Ele afirmou e ficou com o braço envolto na cintura dela, enquanto eu o fuzilava com os olhos através dos meus óculos escuros.


Eles conversaram por alguns minutos e pude observa-la melhor. Não usava aliança, então ainda era solteira. Será que tinha namorado? Doze anos e o bichinho do ciúme e da inveja me corroeu por dentro com a ideia dela ter alguém.


Os anos só lhe fizeram bem, estava ainda mais bela do que me lembrava. Meu coração se contraiu dentro do peito angustiado pelas lembranças doloridas e o amor não correspondido que nunca pude lhe declarar olhando em seus olhos.


Vez ou outra ela me olhava de rabo de olho, evidentemente curiosa com a minha presença a observá-los em silêncio. Por fim, perguntou ao Rick:


– Não vai me apresentar sua amiga?


Ele corou um pouco envergonhado. Eu corei decepcionada por ela não ter me reconhecido. Mas foi melhor assim, teria ficado com vergonha se ela o tivesse feito e não saberia como agir.


Rick pigarreou visivelmente incomodado.


– Esta é a minha amiga...


Ela sorriu olhando para mim e depois para ele que tinha se calado, obviamente sem saber o que dizer.


– Sei, sua amiga. E a sua “amiga” tem nome?


Ele olhou para mim desconcertado.


– Jéssica, meu nome é Jéssica. – Menti tentando dar firmeza a voz. Fiquei de pé e estendi a mão para ela que a apertou por um tempo longo demais, no qual meu coração quase parou.


Me observou por um longo segundo inclinando a cabeça em assentimento.


– É um prazer conhece-la, Jéssica.


E virou-se para ele dizendo:


– Bem, foi muito bom te ver, Rick. Agora, se vocês me desculparem, tenho que voltar ao trabalho. – E foi saindo com seu passo lento e cadenciado.


Rick pôs as mãos em meus ombros, enquanto pousava um olhar sério e um pouco triste em mim.


– Pensei que depois de tantos anos você já a tivesse esquecido. Mas, pelo modo que ficou, vejo que não.


Tentei sorrir, mas estava desconcertada demais para fazê-lo. Ele tinha razão, ainda a amava. Ela foi meu primeiro amor, minha razão de viver e nunca sequer me notou até o dia em que meu pequeno mundo de desejos e palavras veio a baixo.


Caminhamos em silêncio até o local em que havia estacionado meu carro e, antes que entrasse no veículo, ele me chamou.


– Você não precisa ficar em um hotel na cidade vizinha. Sempre será bem-vinda em minha casa. Você também tem parentes aqui.


Sorri.


– Obrigada, Rick, mas não quero incomodar. Além de você, não tem mais ninguém nessa cidade que queira visitar. Além disso, acho que a sua noiva não ficaria feliz em saber que você está hospedando uma mulher em sua casa. Não quero lhe causar problemas.


– Mas, você não é qualquer mulher. É a Cris, a minha irmãzinha!


Sorri agradecida pelo “irmãzinha”. Sempre fomos como irmãos mesmo e jamais conseguiria enxerga-lo de outra maneira, embora muitas pessoas imaginassem que eu nutria uma paixonite por ele na adolescência. Como vieram a descobrir um pouco antes que partisse daquela cidade, a pessoa que habitava meu coração era Hellena.


O olhei com carinho, mas deixei claro nesse olhar que não cederia e ele, que sabia me ler como ninguém, percebeu isso.


– Está certo. Não vou mais insistir, sei que você não vai aceitar mesmo. – Deixou um suspiro resignado escapar. – É muito cabeça dura. Esqueça o passado, Cris. Você sofreu, deu a volta por cima. Agora, seja feliz.


– Acha que não sou feliz?


– Não foi o que eu quis dizer. Mas, pelo o que vi lá na praça, você ainda não esqueceu a Hellena e isso ainda vai te destruir um dia.


– Já me destruiu uma vez. Lembra?


– Sim, lembro e não quero que isso aconteça de novo. – Ele deixou um sorriso triste vir aos lábios.


Um outro silêncio constrangedor caiu entre nós por alguns minutos até que ele o quebrou. Me olhava sério, as mãos nos bolsos da calça, a postura ereta.


– Cris, a Hellena é uma pessoa maravilhosa. É encantadora e gentil, sempre muito alegre e simpática com todos, mas não é lésbica. E, além disso, você já sofreu o pão que o diabo amassou por causa dela.


– É uma maneira de se definir – reconheci azeda.


Ele encolheu os ombros.


– Sei que é duro o que vou dizer, mas ela, provavelmente, nem lembra de você.


 


Sua última frase me acertou como um soco no estômago, mas sabia que, outra vez, ele era o dono da razão. Dei-lhe um beijo no rosto após um abraço longo e apertado, entrei no carro e arranquei em direção a estrada sentindo um misto de raiva e pena de mim mesma.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 12/06/2016 01:15 · Para: Parte 1: O reencontro

Olá. 

 

Que história forte. 

Que sofrimento a Cris trás dentro do peito. 

Amar e não ser correspondida. 

Sofrer preconceito. 

Não ser notada pela pessoa que ama. 

Ser humilhada e magoada a ponta de sair da cidade. 

Passar 12 anos e descobrir que ainda não esqueceu seu amor do passado. 

Triste. Dolorido. 

Até 



Resposta do autor:

É... ela viveu tudo isso e mais um pouco, flor. Mas, cresceu enquanto pessoa e isso, de certa forma a tornou uma mulher melhor.

Beijos!



Nome: lucy (Assinado) · Data: 20/03/2016 17:54 · Para: Parte 1: O reencontro

tadinha da Cris, mas acho que Helena também tenha mudado...quem sabe

jogando no mesmo time que a Cris, se é que me entende..... rs rs rs

bjs muito legal o conto ;)



Resposta do autor em 20/03/2016:

Bom, quem sabe?

rs...



Nome: darque (Assinado) · Data: 14/03/2016 00:53 · Para: Parte 1: O reencontro

A esperança nunca morre, por isso vejo que a Cris vai conseguir realizar os sonhos secretos do coração.

bjs

darque



Resposta do autor em 15/03/2016:

De fato, Darque, a esperança nunca morre. Se ela se for, não nos sobra mais nada para acreditar. Vamos torcer pela Cris! ^^

Beijo carinhoso.



Nome: Ana_Clara (Assinado) · Data: 13/03/2016 17:28 · Para: Parte 1: O reencontro

Puxa, que alma sofrida da Cris. Confesso que me senti muito mal por ela neste momento de reencontro com o passado. Que agora ela tenha a oportunidade de vencer os seus medos e preconceitos. 



Resposta do autor em 15/03/2016:

Sim, Ana!

A Cris sofreu, mas nunca desistiu de si mesma. Não se preocupe, seu coração é forte e vai superar o mal que lhe fizeram. 

Beijos!



Nome: Marie Claire (Assinado) · Data: 11/03/2016 16:35 · Para: Parte 1: O reencontro

Cris é tão fofa e ainda sofre com o mau dos românticos, a esperança.



Resposta do autor em 13/03/2016:

Rs...

Um mal terrível, mesmo assim, incrivelmente necessário para um coração apaixonado.

Beijo.



Nome: Maryya (Assinado) · Data: 06/03/2016 23:13 · Para: Parte 1: O reencontro

ler esse capítulo me fez lembrar de um passado nebuloso, ao qual presenciei e fui umas das intérpretes do enredo. A passagem que a Cris cita que era gordinha me desencadeou tais pensamentos. Já vivi isso!



Resposta do autor em 07/03/2016:

Sabe, Maryya, quando publiquei este conto pela primeira vez, muitas leitoras me contaram que se identificaram com a Cris, fosse pela aparência, o preconceito, os sentimentos, enfim, ela também tem um pouco de mim.

De certo modo, todos os nossos personagens tem um pouco de nós.

Também já fui gordinha, já fui magrinha, voltei ao gordinha, rs... A aparência nunca me importou realmente, mas as pessoas ligam e acabam por nos magoar.

De certo modo, a Cris representa muitas de nós. Não era bem minha intensão quando comecei a escrever sobre ela, apenas aconteceu e espero que as lições que ela aprendeu possam ajudar e inspirar a quem ler sua história.

Obrigada, pela companhia, flor.

Beijo carinhoso.



Nome: Paloma Lacerda (Assinado) · Data: 06/03/2016 21:59 · Para: Parte 1: O reencontro

Ual!!! Procurei muito este conto na net. Q bom q vc o está postando aqui. Ele eh maravilhoso... Bj



Resposta do autor em 06/03/2016:

Olá, querida Paloma!

Obrigada pelo carinho. Estou feliz em saber que minhas palavras a tocaram de forma que tenha desejado voltar a lê-las.

Tenho um carinho muito especial por este conto e fico encantada em saber que, de alguma forma, ele marcou a vida de quem o leu.

Seja bem, vinda!

Tenha uma boa leitura.

Beijos!



Nome: Chris V (Assinado) · Data: 06/03/2016 03:01 · Para: Parte 1: O reencontro

Amores ainda não esquecidos, esses são os piores, nos fazem sofrer com uma mera lembrança. Imagina como a coitada da Cris se sentiu vendo o seu primeiro amor, anos depois bem a sua frente. Aí ai

beijos



Resposta do autor em 06/03/2016:

Verdade, Chris!

Estes são os mais marcantes e dolorosos. Sempre haverá aquela sensação de algo mal resolvido.

Beijo e obrigada pela companhia, flor.



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