12 dias de terror por NAIROBI


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Oito da manhã: 04/05/2018

A rodoviária estava lotada, pessoas andando apressadas de um lado para o outro com suas bagagens, Ruth seguia sempre atenta a minha frente, olhando para todos os lados como quem procura alguém ou alguma coisa. Pegamos a escada rolante e descemos para o andar inferior, onde andou feito barata tonta procurando o que finalmente parecia ter encontrado.
BAGAGENS
Era o que dizia num imenso letreiro na parede, logo acima de um amontoado de armários numerados, Ruth seguiu eufórica na direção deles, tirando rapidamente o molho de chaves de sua bolsa, pondo-se em seguida a encontrar o seu armário.

-- O que tem aí? – Questionei impacientando-me com seu nervosismo.

-- Miguel guardou uma coisa aqui! – Respondeu.

-- Que coisa? – Insisti, deixando-a ainda mais impaciente.

-- Quer calar a boca, por favor? – Explodiu cuspindo as palavras, até pensei em retrucar, mas certamente não era o lugar e nem o momento, senti que o nervosismo tomava conta dela. – Vem aqui e fica quieta! – Concluiu assim que tirou uma sacola de viagem do armário, puxando-me pelo pulso até o sanitário feminino, que pelos deuses estava vazio.

-- Miguel traçou um plano de fuga, que precisamos seguir. – Começou falando enquanto se certificava de que todos os reservados estavam vagos, pondo em seguida a sacola sobre a bancada da pia. – Por favor, não entra em pânico ta? – Pediu amenizando a voz enquanto depositava as mãos sobre a sacola, tateando o zíper.

-- Como quer que eu não entre em pânico pedindo desse jeito? – Respondi fazendo menção ao tom de voz rouco e cavernoso, com qual praticamente implorava-me pra não pirar com o que quer que fosse o conteúdo da sacola.

-- Lembra da grana que seu irmão roubou? – Fiz sinal com a cabeça, já prevendo o que vinha pela frente. Então ela abriu a sacola revelando milhares de Euros. Arregalei os olhos, olhando instintivamente para os lados, certificando-me de que ninguém estivesse nos vendo ali.

-- Que merda! Quanto tem ai? – Questionei aproximando-me da sacola, afinal eu nunca tinha visto tanto dinheiro assim.

-- Quatro milhões de Euros! – Respondeu num sussurro fazendo-me arrepiar. – Sem esbanjar, da pra viver numa boa com essa grana até bater as botas. Dá pra transformar isso em real, dólar, ou simplesmente ir embora pra qualquer lugar do mundo. Esse dinheiro era a porta de saída dele desse mundo, Miguel estava negociando com um grupo da Espanha, cobrou uma parte que não existia ninguém saberia, sem testemunhas sem roubo, mas algo deu errado e aqui estamos.

-- O que faremos? – Eu estava atordoada, mas confesso que toda aquela grana me deixava empolgada.

-- Temos que ir embora, até a poeira abaixar. Mas antes disso precisamos tirar o Miguel dessa cidade, ele não vai a lugar nenhum sem dinheiro. – Ruth falava enquanto fechava a sacola e colocava no ombro.

-- E onde vamos encontrá-lo agora? – Perguntei enquanto me oferecia para carregar a sacola, afinal eu era mais alta que ela, e aparentemente mais forte.

-- Conheço alguns lugares onde ele possa estar, ou na pior das hipóteses, deixar algum recado. – Deixamos o banheiro indo na direção do Box onde pegaríamos o ônibus, eu estava perdida em pensamentos, mas o que mais me assustava e que agora eu estava gostando da idéia de “fugir” com Ruth, para sei lá onde.

-- Pra onde iremos? Você fala de fugir, ir embora, pra onde? – Pergunta boba, era bem óbvio que no plano de fuga de Miguel, eu não estava incluída.

-- Assim que o encontrarmos, você volta correndo pra casa dos seus pais, e não sai de lá nos próximos dez anos. – Ruth falou tudo de uma vez, sem olhar-me nos olhos um instante sequer. Engoli em seco aquela revelação, ficando bastante frustrada com a parte generosa que meu irmão reservara pra mim, afinal ele estava destruindo a minha vida e o pagamento era me por num ônibus de volta pro interior, o lugar que eu odiava e nunca mais queria voltar se não pra visitar nossos pais.

-- E você? – Que puta pergunta eu fiz, meu irmão não estava nem aí pra mim, porque a namorada dele que havia conhecido a algumas horas estaria?

Ruth seguiu sem olhar-me nos olhos, respondendo minha pergunta num sussurro, quase que como uma confissão pecaminosa.

-- Eu vou com ele! Se ele deixar. – Acrescentou sem me olhar. – Não tenho ninguém, cresci em orfanatos. Não há pra onde ir ou pra quem voltar.

Fiquei em silêncio, não havia nada que eu poderia dizer ou fazer naquela situação, me sentia traída por meu irmão e agora, por meus próprios sentimentos, e pensar que não havia passado nem 24 horas desde que a conheci. O ônibus que esperávamos chegou, a viagem foi longa e silenciosa, nenhuma palavra de nenhuma das partes, não havia o que se dizer.


Dez da manhã: 04/05/2018


Quando desembarcamos na rodoviária, Ruth continuava calada, seu semblante estava abatido e eu me mantive quieta, respeitando o seu silêncio apesar de ser incômodo, afinal eu gostava de ouvi-la falar, gostava do tom rouco de sua voz. Deixamos a estação a passos largos como de costume, mas em determinada altura reparei na inquietação de Ruth, ela seguia atenta olhando para trás vez ou outra, com a cara fechada e cenho franzido.

-- Vamos pegar aquele táxi! Rápido! – Apertei o passo para podê-la acompanhar, assim que embarcamos e o taxista deu a partida, Ruth virou-se para olhar através do vidro traseiro. – Estávamos sendo seguidas, como eles sabiam que estaríamos aqui á esta hora? –A pergunta saiu mais pra si, do que pra mim, até porque eu não saberia responde-la. Olhei na mesma direção que seus olhos verdes estavam fixados, e mesmo distante pude ver o mesmo homem alto que esteve em meu apartamento no dia anterior, mas desta vez acompanhado de uma mulher.

-- É ele! Aquele cara esteve no apartamento pouco depois que você me ligou. O vi quando sai de lá. – Seu olhar incrédulo voltou-se pra mim.

-- O nome dele é Giovane! O matador da quadrilha. Considere se com sorte dona Júlia. – Ajeitou-se no banco ao meu lado, roçando levemente seu braço no meu, não podia sentir sua pele devido ao blazer que vestia, mas o calor que emanava do seu corpo me fez desejar que aquela situação louca não acabasse tão cedo.

-- Que louca! – Me xinguei baixinho, mas ainda assim fui ouvida.

-- O quê? – Questionou fixando seus olhos nos meus.

-- Pra onde estamos indo? – Mudei de assunto, mas ela não respondeu.

-- Se eles nos pegarem, Miguel se entregará. – Concluiu seu pensamento em voz alta. – Pare aqui! – Gritou para o motorista, apanhando-me mais uma vez pelo braço. – Vem!

Desembarcamos em frente a um terreno baldio, atravessando em seguida o mesmo, saindo em uma rua paralela, seguimos andando a passos largos pela viela, até alcançarmos uma pracinha no final a rua, onde fizemos uma pequena parada para observar o velho casarão a nossa frente, com dezenas de janelas fechadas, e um portão alto de ferro desbotado.
Entramos cautelosamente no terreno, Ruth seguia a frente como de costume fazendo com que eu me sentisse cada vez pior, estava agoniada com aquela situação, e ficava ainda mais impaciente cada vez que precisava segui-la às cegas. Chegamos à portaria do casarão, onde Ruth bateu três vezes ritmicamente, e logo em seguida a porta se abriu.

-- Quem é essa com você? – Perguntou a velha carrancuda que abriu a porta, encarei-a de cima, pois não havia gostado nenhum pouco do seu tom de desdém.

-- Uma amiga do Miguel. – Respondeu Ruth calmamente. – Viemos esperar por ele Rita.

-- Mas ele esteve aqui semana passada. Estamos abastecidos. – Questionou a velha, dando-nos espaço para entrar.

-- Mas ele vem Rita. Marcamos de nos encontrarmos aqui. – Falou Ruth tranquilamente. – Tem um lugarzinho pra gente esperar por ele? – Questionou-a enquanto a seguíamos pelo casarão, passando primeiramente pela sala de jantar, para então alcançarmos o extenso corredor, deixando-nos em frente a uma das várias portas de dormitórios que havia ali.

-- Vão querer alguma coisa? Temos erva e pó. – Perguntou à velha, enquanto abria a porta do quarto e entregava a chave para Ruth.

-- Vamos querer café com leite e pão se tiver. – Respondeu Ruth num sorriso forçado.

-- Mando trazer. – Respondeu dando-nos as costas logo em seguida.

O quarto era simples, qual não foi minha surpresa haver apenas uma cama de casal, acompanhada de uma poltrona, uma cômoda velha e um televisor de tubo 14 polegadas, porém felizmente havia banheiro no quarto. Logo que entramos, joguei a sacola que continha os euros sobre a cama, sentando ao lado em seguida.

-- Pelo jeito ficamos com a melhor suíte. – Concluiu Ruth com um sorrisinho irônico no rosto, enquanto trancava a porta por dentro e sentava-se na poltrona velha a minha frente.

-- Que lugar é esse? – Questionei deitando-me de costas na cama encarando o teto, estava cansada física e mentalmente.

-- Uma pensão pra todos os efeitos. – Levantou-se da poltrona, deixando sua bolsa sobre ela, vindo até a cama onde empurrou a sacola de dinheiro para a beirada, jogando-se ao meu lado de costas na cama. – Mas ta mais pra um bordel, uma ponto de drogas, chame do que quiser. Seu irmão vinha sempre aqui, fazia pedidos pra Rita, e recebia dela também.

-- Nunca imaginei que meu irmão fosse um merda! Tinha orgulho dele, nossos pais tem orgulho dele. Eu vim pra cidade porque queria ser como ele, tipo, queria ter uma vida confortável como a dele. Pra nossos pais ele dizia ter um ótimo emprego. – Sentia tanta vontade de falar pra ela como estava me sentindo, mas não valia apena, ela era namorada dele.

-- O importante é sairmos bem dessa. – Ruth virou-se na cama, ficando de frente pra mim, com os olhos cravados no meu rosto fazendo-me temer encará-la.

-- Eu não quero voltar pra casa. – Confessei num sussurro, fechando os olhos com medo que pudesse estar demonstrando minha fraqueza.

Senti o toque suave dos seus dedos em meu rosto, uma leve carícia que se estendeu para o pescoço, mas logo cessaram.

-- Miguel teme por sua vida. – Defendeu-o tentando me confortar daquele destino.

-- Miguel não sabe o que eu quero. Não pode saber o que é melhor pra mim. – Respondi, abrindo os olhos e virando-me em sua direção. – Não há nada pra mim lá Ruth, meus pais vivem numa realidade totalmente diferente da nossa, querem que eu conclua a faculdade de agronomia e volte a trabalhar com eles no campo, lá não tem nada entende? Nada! Eu não gosto de lá, eu não quero me casar com um fazendeiro e ter um monte de filhos que serão como nós, e os filhos deles e os netos. Não quero voltar a morar lá.

-- Você é ainda mais linda que ele. – Disse ela encarando-me com aqueles olhos verdes cintilantes, num tom rouco que me fazia arrepiar.

-- Ele é homem, não dá pra nos comparar. – Resmunguei numa falha tentativa de resistir aquele momento, mas ela insistiu.

-- Claro que dá! Veja bem. – Tocou meu rosto mais uma vez, com a ponta dos dedos roçando-me levemente com as unhas. —Seus olhos castanhos são mais claros que os dele, seu nariz é mais delicado, sua boca é mais convidativa. – Passou as unhas em meus lábios. –Seu corpo é muito mais definido, e a bunda?! – Sorriu vulgarmente. –Nem preciso falar dela não é?

Falar? E eu lá queria falar? Eu não sentia nada além do frenesi que ela estava me causando, não respirava mais, eu ofegava sentindo suas unhas brincarem com meus lábios, então o inevitável aconteceu, Ruth aproximou-se lentamente do meu corpo, deixando seus lábios roçarem depravadamente nos meus, numa carícia leve, sem pressa, apenas sentindo o calor uma da outra, com os olhos cravados nos meus.
No entanto, aquele momento não durou mais que dez segundos, fomos interrompidas por leves batidas na porta.

-- Café da manhã. – A voz feminina do outro lado da porta se pronunciou, tirando-nos do torpor que nos encontrávamos. Ruth finalmente desviou os olhos dos meus, levantando-se da cama e indo em direção à porta.

-- Pode deixar! – Disse ela enquanto apanhava das mãos da mulher, a bandeja que ela segurava, fechando a porta logo em seguida. Neste momento, eu já estava em pé no quarto, recriminando-me pelo ocorrido de instantes antes, meus pais me deserdariam se soubessem daquilo, sem falar em Miguel que provavelmente me mataria por ter tocado em sua namorada, eu me sentia horrível.

O restante do dia foi angustiante, após o café passamos horas a fio sem nem ao menos trocar uma palavra, estávamos visivelmente constrangidas com a situação, e nenhuma de nós queria que aquilo voltasse a acontecer não é?

Notas finais:

Segundo capítulo meninas, espero que estejam gostando. beijos



Comentários


Nome: mtereza (Assinado) · Data: 12/05/2018 19:59 · Para: Capitulo 2 Segundo dia

Essa Ruh é um mistério gostando do clima de suspense da história a atração entre elas já se fez presente curiosa para saber até quando elas irão resistir ainda mais com esse clima de perigo com a adrenalina nas alturas rsrs



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