A ruína dos anjos por Drikka Silva


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O frio era congelante. Uma forte nevasca caia fora da cabana coberta de fenos e barro. O fogo trepidava em uma lareira no canto, levantando pequenas labaredas e esquentando o pequeno espaço. Levantou os olhos quando a mulher entrou pela porta do pequeno casebre. Se adiantou para ajudá-la a carregar o pesado caldeirão, mas foi impedido pela morena que acenou para que voltasse para a cama. Obedeceu, fraco demais para discutir. Ela colocou o caldeirão no fogo e voltou para o seu lado. Passou a mão lentamente por seu rosto, encarando seus olhos. Sabia que não a veria mais por muito tempo, muito provável que não passasse daquela noite. Ela também sabia disso.

            — Se não fizer nada, vou te perder – pronunciou em voz alta.

            — Nos vemos no paraíso. Esperarei por ti pela eternidade.

            — Eu posso te curar, mas terás que confiar em mim.

            — Irás falar com o sacerdote?

            — Não. Posso fazer isso aqui mesmo. Agora. Promete-me uma coisa: fique de olhos fechados.

            — Não posso prometer isso. Eu sei que és uma criatura divina, enviada pelos deuses. Nenhum ser humano teria tanta bondade e serenidade. Como um último pedido, deixe-me ver quem realmente és?

            A mulher o olhou atentamente antes de se abaixar para depositar um beijo em seus lábios, sentindo o gosto salgado de uma lágrima. Afastou e se prostrou no chão da cabana, rezando em uma língua desconhecida. Aos poucos seu corpo foi crescendo, à medida que seus membros iam se esticando. O medo tomou conta do seu corpo quando a mulher que amava sumiu por completo, ficando apenas a criatura. Ela levantou a cabeça, ainda prostrada no mesmo lugar. Quando seus olhos se encontraram, enxergou todo o amor que ela lhe direcionava. Não importava quem era. Amava sua essência. Amava sua alma.

   *ترس نیست - 

           — Não compreendo o que me diz.

            A criatura se arrastou lentamente em sua direção, esticou a mão o envolvendo com seus dedos gélidos. Desmaiou com a dor que o afligiu.

 

            Andressa acordou assustada, respirando apressadamente e tremendo de frio. Passou a mão no rosto em um ato involuntário, para ter a noção de que estava realmente acordada. Vitória, sua esposa ao lado se mexeu, mas voltou a ficar imóvel, entregue a um sono profundo. Afastou as cobertas e foi até o banheiro. Fora tão real! Ainda conseguia visualizar com detalhes a cabana, o calor do fogo na lareira, a dor da ferida causada em campo de batalha. Principalmente, conseguia se lembrar de cada detalhe da mulher morena: sua pele alva, cabelos abundantes que caiam em uma cascata pelas costas. Lindos olhos negros e expressivos que enxergavam sua alma. Depois a criatura. Era para se assustar com sua aparência, mas por alguma razão, mesmo acordada, não sentia medo.

            Nunca fora de ter sonhos daquele tipo. Não se lembrava de ter tido pesadelos na adolescência e nem no começo da fase adulta. O primeiro que teve, foi no natal de 2011. Desde então, tinham se tornado frequentes. O cenário mudava, o tempo, as circunstâncias, mas a mulher era sempre a mesma. Jamais seria capaz de esquecer aquele rosto cheio de brandura.

            O relógio marcava quatro e quarenta da manhã. Saiu do quarto e foi até a cozinha preparar um chá. Dexter logo começou a rondar suas pernas, atrás da refeição matinal. Colocou a água no fogo e, em seguida, serviu a ração do gato. Voltou para o quarto e contemplou a esposa dormindo. Se ajeitou ao seu lado e deixou a mente vagar para o passado, no momento em que tinha se apaixonado pela mulher mais perfeita que já tinha visto na vida.

            Tinha conhecido Vitória na época da faculdade, com vinte anos. Ela tinha mudado de período por conta do trabalho e havia se colocado à disposição para situa-la em tudo o que estava sendo feito. Os encontros fora da faculdade começaram com a desculpa de estudo. Um mês depois já se encontravam sem precisarem de subterfúgios para viverem a paixão que havia nascido intensa e rapidamente. Vitória tinha sido sua segunda namorada e depois de três anos se tornara sua esposa. Tinham uma linda história de cumplicidade, amor, união. Não conseguia imaginar sua vida sem ela.

            O dia amanheceu sem que conseguisse pegar no sono novamente. Desligou o despertador e se virou para a esposa dando delicados beijos em seu rosto para acorda-la. Vitória era o ser humano mais difícil de acordar que existia na face da terra. Ela resmungou alguma coisa e se virou para o lado. Conhecia de cor aquele ritual.

             — Amor, não esquece que hoje tem a festa na casa da tia Heloisa – gritou Vitória da cozinha. – Passa em uma loja e compra algum presente pra ela. Pode ser uma bolsa ou um perfume ou maquiagem. Ela adora essas coisas.

              — Tinha me esquecido – respondeu Andressa. Cuspiu a espuma da pasta de dentes na pia antes de continuar. – Eu compro. Vai direto da faculdade pra lá?

            — Hoje é sexta-feira amor – respondeu Vitória aparecendo na porta do banheiro. – Não tenho aula presencial.

            — Esqueci – confirmou Andressa com uma careta. – Vai direto do trabalho então?

            — Sim. Vou ajudar ela preparar as coisas. Te encontro lá as sete da noite.

            — Estarei lá. Tenha um bom dia!

            — Você também. Te amo, linda. Até mais tarde.

            — Também te amo. Até mais tarde.

                A criatura observou enquanto as duas mulheres se despediam em um beijo demorado. A loira saiu do apartamento e em pouco tempo alcançou a rua e, depois, a esquina. Entrou em um carro e abraçou a mulher ruiva ao volante. Em seguida depositou um beijo demorado em seus lábios. Já faziam sete luas novas que elas se encontravam. Conseguia enxergar que a loira estava direcionando uma grande parte dos seus sentimentos a ela. Doía ver que seus espíritos estavam ligados, porém não conseguiam enxergar isso além da luxuria que havia se instaurado. Esperava, com fé e esperança, o dia em que elas enxergariam isso para que pudessem se conectar e assim, consequentemente, libertar o espirito por quem esperava

.             Voltou os olhos para o apartamento e enxergou Andressa fazendo carinho no felino antes de sair de casa. Esquadrinhou a rua e depois os telhados vizinhos procurando algo que pudesse ameaça-la. A morena saiu do prédio e caminhou para o ponto de ônibus, duas quadras a frente. A acompanhou, pulando os telhados. Preferia sempre observar do alto: não era de bom tom que muitos humanos a vissem. Quanto mais permanecessem na ignorância do plano celestial, melhor.

            Andressa parecia triste aquela manhã. A cabeça levemente abaixada e uma atmosfera pesada ao seu redor. Alguma preocupação parecia a afligir, mas não conseguia saber o que era. Não podia ver seus pensamentos, o que ia no seu coração. Daria tudo para arrancar a angustia que a afligia. O ônibus chegou e ela entrou. Observou enquanto ela ia para um assento ao fundo da condução. Assim que ela sentou, desviou os olhos do ônibus, visualizando o trajeto que ele faria. Não havia nenhum impedimento no caminho e nenhuma ameaça oculta para colocar sua vida em risco. Se prostrou em oração, pedindo aos céus proteção, em seguida se levantou e correu, saltando pelos prédios rapidamente de modo que nem mesmo o olhar mais atendo de um humano a veria.

 

                Andressa deu o dia por encerrado as dezoito horas. Trabalhava no administrativo de uma empresa que desenvolvia softwares para grandes corporações. Desligou o computador a frente, pegou a bolsa e seguiu para o elevador, se lembrando da recomendação de Vitória para comprar o presente da tia. Ali perto tinha um shopping grande: iria comprar uma bolsa e pegar o metrô. Seria bem mais rápido e não iria enfrentar o transito caótico de São Paulo às sete da noite.

            As dezoito e quarenta já estava a caminho do metrô. Parou no farol esperando que o sinal ficasse verde e aproveitou para mandar uma mensagem para Vitória, informando que já havia comprado o presente e que estava a caminho. Olhou de soslaio, quando a sinaleira mudou para verde e começou a travessia, distraída. Tudo aconteceu mais rápido do que pode visualizar: as pessoas gritando, o barulho de sirene de polícia e o carro na frente em alta velocidade. O corpo paralisou com a colisão iminente. Só conseguiu ficar travada olhando o fim que se aproximava a centésimos de segundos. Levantou os braços para o rosto em um gesto instintivo de sobrevivência, em uma vã tentativa de se proteger, antes de escutar o forte estrondo. Voltou a olhar, ainda em estado de choque, para a avenida a tempo de ver o carro capotando, indo bater no poste do outro lado da pista. A viatura de polícia freou a tempo, fazendo uma volta de cento e oitenta graus com os pneus travados pela frenagem. As pessoas começaram a se aglomerar, enquanto se recuperava do susto. Olhou ao redor, tentando assimilar a ação ocorrida segundos antes, e teve o vislumbre da sombra negra do outro lado da rua, subindo pela lateral de um prédio, antes de ter sua visão tampada pelos curiosos.

            — Moça, você está bem?

            — Que livramento!

            — Alguma coisa pegou em você?

            Andressa apenas balançou a cabeça em sentido negativo. Ainda estava dominada pelo susto e não tinha segurança na própria voz. Uma senhora a puxou de volta para a calçada. Falava com uma voz terna para que pudesse se acalmar. Desviou os olhos da mulher e voltou a olhar para a cena do acidente. O carro que estava em alta velocidade, a frente, tinha capotado de lado, impossível de acontecer naquelas circunstancias. Confirmou sua breve teoria ao escutar o homem que conversava, ao seu lado, com outro rapaz.             — ...Parece que o carro foi tirado da avenida!

            — Como se um guindaste tivesse batido na lateral. Não tem nada na pista que pudesse pegar na roda e fazer ele capotar.

            — Mesmo assim, velho, ele ainda seria levado pra frente desviando um pouco para a esquerda, não sairia de lado desse jeito. Será que alguém filmou? Alguma câmera de transito ou de segurança? Eu sou professor de física. Garanto que não tinha como aquele carro ter capotado daquele jeito sem nenhuma força externa.

            — Os freios da viatura travaram no asfalto! Nunca vi um carro frear desse jeito! O freio ABS reduz o impacto, mas não trava desse jeito!  Não arrastou pela pista!

            — Tem certeza? – Perguntou Andressa se intrometendo na conversa dos dois homens. Não sabia ao certo a quem a pergunta tinha sido direcionada.

            — Moça, você teve uma sorte e tanto! – Falou o professor de física. – Seu anjo da guarda deve ser dos bons!

            Andressa apenas anuiu e respirou fundo. Voltou a cabeça para enxergar a cena do acidente e um pouco a frente, o prédio onde tinha visto a sombra negra se movimentar. Devia ser apenas uma ilusão da sua cabeça por causa da adrenalina. Ainda ficou durante meia hora sendo segura pelas pessoas que insistiam que ela havia renascido de novo. Se o carro a tivesse atropelado, não estaria viva naquele momento. Só foi liberada para ir para casa depois que um paramédico confirmou que estava tudo bem, depois das oito horas da noite.

 

— Demorou para chegar amor! – reclamou Vitória assim que viu a esposa. – Aconteceu alguma coisa?

            — Quase sofri um acidente hoje. Um carro quase me atropelou na avenida perto do trabalho.

            — Nossa, linda, mas você está bem? Se machucou?

            — Eu estou bem – tranquilizou. – Ele capotou antes de me atingir.

            — Ainda bem que nada te aconteceu! Não saberia o que fazer! Vem, vamos beber alguma coisa para relaxar. Meu tio fez aquela caipirosca que você gosta.

            — Preciso – concordou Andressa ao segurar a mão da esposa. – Vamos entregar o presente da sua tia? Achei uma bolsa linda! Tomara que ela goste.

            Andressa se juntou aos familiares da esposa na comemoração do aniversário. Havia passado a impressão para a mulher de que o acidente não tinha sido grave para não preocupa-la, mas a todo momento visualizava a cena que tinha se desenrolado horas antes, se perguntando o que de fato havia acontecido.

 

Nota da autora - O texto em arabe é escrito da direita para a esquerda, porém nossa configuração não permite que ele se alinhe de forma correta. Se alguém manjar de arabe ai, vai ver esse erro. Sorry!

 

 

 

Notas finais:

 

Oi oi lindonas!!!

Obrigada pela acolhida no retorno! 

Mais um cap no nosso anjinho perdido nesse mundão de Deus!

Até domingo!

 

bjokasssssssssssssss

 

 

 



Comentários


Nome: Angell (Assinado) · Data: 07/04/2018 01:47 · Para: Capitulo 2

Será que alguma câmera gravou o acidente? Espero que a andressa descubra logo que está sendo traída.



Nome: EriOli (Assinado) · Data: 16/03/2018 01:35 · Para: Capitulo 2

E aí lindona!

Um início de leitura ótima, uma história de amor, com toda a certeza. Talvez perturbadora, um primeiro esquadro já cheio de emoção e revelações, igredientes certos pra algo inesquecível e de tirar o fôlego e quem sabe, despedaçar alguns corações por aqui! kkkkkk

Perfeito!!!

Há braços



Nome: Lai (Assinado) · Data: 11/03/2018 14:12 · Para: Capitulo 2

Muito bom!

Sempre mandando bem!!

Coitada de Andy,mas foi salva pelo anjo...

* Não tenha medo....kkkk

Melhoras, por favor!!!

Beijos



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 10/03/2018 06:56 · Para: Capitulo 2

Paciência e abnegação devem ser o sobrenome dessa anja , mesmo o destino dela a alma gêmea não sendo Andressa muita sacanagem da Vitória esta traindo a esposa e a tempos pelo q a anja observou . Bjs ansiosa pelo reencontro dessas almas 



Nome: Baiana (Assinado) · Data: 09/03/2018 23:25 · Para: Capitulo 2

A aparência real do anjo é feia? Ou ele é o anjo da morte?

Rapaz,agora sei pq são almas gêmeas,tanto o anjo quanto sua amada são chifrudos kkkkk



Nome: siflima (Assinado) · Data: 07/03/2018 23:35 · Para: Capitulo 2

Isso sim é um anjo....salva do acid3nte ñ se mete na vida delas aí aí, o fato de Andress lembrar das vidas passadas em sonhos,  fará com que ela se lembrae da morena anjo quando ela encontra-la?  

Ansiosa demais para mais um capítulo.

Ñ se preocupe lindona está tudo perfeito, tico e teco estão trabalhando em harmonia rsrsrs 

Amando demais. Parabéns 



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 07/03/2018 20:08 · Para: Capitulo 2

Ufa! Que anja boazinha!

Então Vitória põe um belo par de chifres na Andressa? Que sacanagem!! Quando perder vai se dar conta da burrada que está fazendo.

Quando será que vão se encontrar?

Abraços fraternos procês aí!



Nome: preguicella (Assinado) · Data: 07/03/2018 19:31 · Para: Capitulo 2

Eita, esse anjo é um anjo mesmo! Salva a vida do seu amor, sabe dos podres da mulher dela e não fala nada. Não sei se seria tão boazinha assim não! hahaha

Bjãoooo



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