Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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 De volta ao meu lugar sombrio

 

Estou inquieta. Olho para a garota refletida no espelho. E aqueles grandes olhos azuis me olham de volta. A imagem refletida zomba da imagem real. Não que sejamos diferentes, apenas ela zomba de si mesma. Dessa medíocre situação em que nos encontramos. Seus longos cabelos acobreados estão mais claros, e com pequenas mechas amareladas nas pontas. Em sua boca um batom escuro. Há também um piercing no seu lábio inferior, mas precisamente no lado esquerdo. A maquiagem escura destaca ainda mais os seus olhos claros. Há uma pequena cicatriz em sua sobrancelha direita. Existem também dezenas de pintas espalhadas em seu rosto, colo e adjacentes. Fora o restante do corpo. Eu sei de cor a sua altura, o seu peso e todos os seus gostos. Seus hábitos incomuns.

Sou tão ela que me assusta.

Lizandra Arantes D’Barriel, tenho 25 anos. Sou fotografa profissional. Ruiva natural com grandes olhos azuis. Tenho 1,68 de altura. 57kg bem distribuídos. Possuo varias tatuagens espalhadas em minha pele clara. E alguns piercing. Hoje estou quase uma gótica. Se eu usasse rótulos para me definir. Mas sou contra esses métodos irracionais utilizados em nossa tão estimada sociedade. Não somos objetos, então apenas me deixe ser...

Dou um longo suspiro, a imagem refletida repete esse gesto. Me assustaria se não o fizesse. Ligo novamente a torneira. Com cuidado molho a minha mão esquerda e delicadamente a passo sobre a minha nuca. Tentando aliviar a tensão. Estou no banheiro feminino do Aeroporto Internacional Salgado Filho em Porto Alegre. Minha vontade é de embarcar em qualquer aeronave que me leve para bem distante desse lugar caótico, ao menos pra mim.

Encaro com receio a mulher a minha frente.

-Seja uma garota valente. - Sussurro para a mulher de olhos azuis expressivos.

Uma senhora que estar ao meu lado me encara com antipatia. Seus olhos passeiam com repulsa sobre as minhas roupas escuras. Finjo que não é comigo. Afinal, já estou acostumada com a hipocrisia humana.

Dou um último suspiro. Pego a mochila xadrez e a coloco sobre as minhas costas. Seguro a grande mala preta. E em passos precisos me retiro sem olhar para a senhora de simpatia comum. Meus passos seguem o grande corredor. O som irritante das rodinhas sobre o piso me incomodam. Sei que ainda é cedo. Vovó só chegará daqui a duas horas. Preciso desse tempo para respirar. Por mim ficava em um hotel aqui mesmo na cidade, mas vovó insistiu que eu ficasse na fazenda. Não era distante. A fazenda Barriel era um lugar lindo. Vovô criava cavalos das raças mangalarga machador, crioula e entre outros puro sangue.

Lembro-me que nasci naquele pedaço de paraíso. Meus primeiros passos, minhas primeiras palavras e todas as minhas lembranças mais dolorosas. Posso dizer dezenas de motivos para minha estadia não ter sido tão agradável, mas há dois em especial que me repeliram pra bem longe. E o mais assustador é que esses dois motivos possuem nomes próprios. Eles possuem rostos, vozes e olhares gélidos. Se dependesse apenas de mim, eu teria dado meia volta agora mesmo e saído correndo desesperada para o mais distante possível. Eu já teria esquecido o qual patéticos são esses motivos. Eu já os teria enterrados. Mas como o universo é um grande filho da puta. Olha eu aqui sendo atraída para o caos que há anos atrás eu fugir.

Vovó como sempre pontual. Seus olhos castanhos estavam cheio de lágrimas. Fazia aproximadamente pouco mais dois anos que não a via. Não pessoalmente. Desde o enterro de Dona Rúbia, minha avó materna. Vamos dizer que depois de perder a única pessoa que me resgatou do inferno, eu pirei. Peguei minha mochila preferida, coloquei-a sobre as costas e sumir. Peguei o primeiro voo disponível e fui parar em Malta. Confesso, as ilhas maltesas são deslumbrantes. Fiquei por lá quase cinco meses sem contato com nenhum conhecido. Apenas eu e minha câmera.

Minha intensão jamais foi a de preocupar minha família e amigos. Eu apenas precisava de um momento só meu, precisava me encontrar em meio ao coas. Fiz algumas tatuagens no caminho, coloquei alguns piercings. Conheci pessoas e lugares maravilhosos. Nunca antes tinha sido tão eu. Escalei, pulei de paraquedas, mergulhei... Fiz tudo o que tive vontade de fazer. Eu sentir profundamente e mesmo de luto, eu vivi. 

Vovó quase me sufocou com tantos abraços apertados. E tantos beijos. Ela era uma senhora de uma alegria cativante. Sempre o foi. Seus cabelos escuros agora estavam cobertos de fios brancos. Ele estava em um corte curto e moderno. Dona Catherine era um pouco mais baixa que eu, um pouco acima do peso. E possuía os olhos castanhos mais amorosos que já conheci. 

-Você esta magra. - A senhora analisa a minha superfície com olhos de águia. –Aposto que tem se entupido de besteira.

-Nem tanto como eu gostaria. - Digo sorrindo. –Aiii... Vovó! - Digo passando a mão sobre o meu braço, fazendo bico. –Doeu.  – Reclamo emburrada pelo tapa.

-Era para doer mesmo. - Vovó diz estreitando os olhos castanhos em minha direção. -Como você some durante dois anos. – “Tava demorando.” Penso já sabendo a bronca que levaria. –Você quase nos mata do coração, Lizandra! - Ela diz e coloca as mãos na cintura. Eu poderia rir da situação se não fosse tão perigoso. rsrsrs

-Sinto muito vovó. - Digo nenhum pouco arrependida. 

-Ah, duvido muito. - Vovó esta parada bem a minha frente. Com aquela expressão de quem sabe tudo. Então pra quer mentir.

-É, eu realmente não sinto. - Falo sem desviar os meus olhos dos seus. –Foram os melhores anos da minha vida. E pretendo que continuem sendo. Então vamos, preciso saber como o velhote tá.

-Você não precisa sair fugida. - Sua expressão muda para a de magoada. –Faz mais de dois anos que não tenho o prazer de aproveitar a companhia agradável de minha única neta. As coisas mudaram durante esses dez anos minha querida.

-Que seja. - Digo cortando o assunto desagradável.

-Seu pai...

-Não faça isso vovó. - A repreendo.

-Liz...

-Existem coisas que não mudam. A senhora sabe muito bem disso! - Olho para um ponto qualquer. –E eu não faço a menor questão que mude. Não mais.

-Você está tão diferente. - Ela sussurra entristecida.

-Não tanto quanto deveria. - Seus olhos castanhos se enchem de lágrimas.

-Eu sinto muito! - A senhora a minha frente diz envergonhada.

-Não mais que eu. - Minha voz sai calma. Me aproximo de vovó e com um sorriso amável lhe beijo a testa. –Mas saiba que sempre amei a senhora. Não duvide disso.

-Jamais duvidaria. - Ela segura o meu braço livre e começamos a caminhar para a saída do aeroporto. –Eu só...

-Eu ainda estou de luto. - Digo baixinho. –Talvez eu sempre esteja.

 

Conversamos um pouco sobre coisas amenas. Ela me falou do estado do vovô. Disse que ele estava com Marcos seu braço direito e capataz da fazenda há mais de vinte anos. Os dois haviam indo em uma clinica de fertilização ou algo do tipo. Não entendi direito, não com vovó falando com aquele tom rápido e angustiado. Só entendi que quando estavam voltando, vovô sentiu uma dor forte no peito. E deu no que deu.

Meus olhos estão fixos na paisagem lá fora. O único som dentro do carro é do aparelho eletrônico que vomita uma musica qualquer. Não que eu não fosse uma boa apreciadora desse algo tão profundo. Apenas estou sem a menor vontade de mergulhar nesse sentimento inalterado pelo mais simples acorde que possa existir. Olho para o lado, vovó estar concentrada na direção. Sua expressão é calma. Sempre o é. Queria ter essa capacidade plena. Mas as circunstâncias me roubaram esse algo tão meu há muito tempo atrás. Não que eu seja uma pessoa fria. Apenas não deixo que se aproximem de mim o suficiente para me machucarem.

Ficarei aqui tempo suficiente. Nada além disso.

Respirar esse veneno já é assustador o bastante. Estar aqui é como me reduzir a pequenos pedaços cortantes. Volto a minha atenção para fora da janela aberta. Agradeço por vovó me conhecer tão bem, e me permitir esse silêncio agradável. O vento forte bagunça ainda mais os meus cabelos acobreados. Tocam a minha pele tentando reprimir meus tolos pensamentos. Fecho meus olhos. Preciso ser valente. Preciso recolocar a minha armadura intransponível.

Meia hora depois, desço do carro meio a contra gosto. Olho com receio a grande construção em estilo siciliana de dois andares. É sem duvidada alguma uma encantadora imagem. Algo de arrancar o folego de tão exclusivamente bela. Sei que vovó estar me observando. Mas não faço questão de lhe olhar de voltar. Meus pés estão presos ao chão. Reprimindo os meus passos. Impedindo-os que sigam em frente.

-Tudo bem Liz? - A voz amorosa de vovó me desperta.

-Não, mais vai ficar. - Digo sem muito animo.

Vou até o porta mala do carro. Retiro a mala preta colocando-a sobre o chão. Pego a minha mochila xadrez e a coloco sobre o meu ombro direito. Fecho o porta mala. Seguro a mala com firmeza. Minhas mãos estão suadas. Estou nervosa. Faz tanto tempo...

Dou um longo suspiro e com passos firmes subo o primeiro degrau da escadaria até a entrada principal da casa.

 

“Seja uma garota valente!” 

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