1808 por Drikka Silva


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A cidade de Leopoldina amanhece calma e tranqüila. Isabel dirige sem pressa. Estava cansada da viagem de quase nove horas ininterruptas. Ela já trazia o que precisava para sobreviver por uma semana, o tempo que queria passar longe de tudo e de todos. Depois do enterro de Dona Josefa há quinze dias, foi surpreendida pelo testamento da sua avó que deixou a fazenda sob seus cuidados. Os irmãos de sua mãe queriam vender a fazenda, mas Dona Josefa sabia que ela não teria coragem de fazer isto, o que explicava sua decisão. O que Isabel não sabia era que o verdadeiro motivo poderia levar dias até ser descoberto. Não havia falado com Sophie nesse intervalo. Por vezes ficou tentada em ligar para saber como ela estava, mas não queria voltar atrás da sua decisão. Não iria falar com ela até que Julia não fizesse mais parte da vida dela. Nem Julia nem mulher alguma, pois não havia criado a filha para ser sapatão. Não queria que essa mancha sujasse a reputação da família.

Isabel foi recebida na fazenda pelo casal de caseiros que tomavam conta do lugar. Todos estavam desolados pela morte da mulher que fora o pulso forte naquele lugar: A estrutura em que todos se apoiavam. Eles receavam pelo destino obscuro, o mais certo é que fossem despedidos, pois uma jurista não teria tempo de levar uma vida pacata de administradora da imensa fazenda que havia sido a raiz dos senhores do café. Isabel conversou com os empregados falando que nem lhe passava pela cabeça a idéia de vender a fazenda. Depois de acalmá-los passou o resto da tarde e inicio da noite dormindo. Joana a cozinheira, fez galinha caipira e pirão para o jantar. Mal acostumada como estava estranhou a comida forte e pesada. Horas depois voltou para o quarto amaldiçoando o fato de não ter levado um aparelho de DVD e alguns filmes para passar a noite, pois a TV só pegava os canais abertos e com uma qualidade de imagem horrível graças a uma parabólica. Não teria absolutamente nada para fazer durante a noite, então teria que se cansar o suficiente durante o dia para que dormisse cedo. O dia seguinte chega e com ele uma sinfonia de galos que interrompem seu sono. Nada de musica clássica no celular, apenas um bando de aves cacarejando sem parar. Isabel sentiu o cheiro de pão caseiro fresquinho saindo do forno. Joana era de um cuidado invejoso e preparou um verdadeiro banquete no café da manha. Um pouco mais disposta depois da comilança, Isabel resolve explorar a fazenda como fazia desde criancinha.

- Caso a senhora não se incomode, minha filha Natalia pode te acompanhar...

- Não há a necessidade Joana. Não quero atrapalhar nos afazeres. Eu me viro bem sozinha. Apenas peça para o Pedro selar um cavalo manso.

- Pois não, senhora.

Joana sai da casa para cumprir o ordenado e Isabel sobe para o quarto colocar uma roupa confortável para montaria. Minutos depois já montada num cavalo por nome de lua-cheia, ela sai a passeio. Alguns quilômetros plantação adentro, ela encontra o que estava procurando: Um rio de águas claras e tranqüilas que costumava brincar quando criança. As recordações que saltam na mente eram tão vivas, como se fossem reais. Conseguia ouvir o riso da sua mãe junto com o de sua avó enquanto ela ainda com sete anos pulava na água. Doces lembranças... Ela fica sentada na beira da água por horas a fio escutando o barulho da correnteza muito mais relaxante do Mozart. O ritmo e o balanço dos ventos nas arvores fazendo conjunto com o zunidos dos pequenos insetos e a pequena cachoeira a alguns metros faziam o cenário perfeito com uma orquestra que nenhum maestro no mundo conseguiria reger a não ser a mãe natureza.

O sol começa a castigar sua cabeça e Isabel decide voltar para casa. O relógio já marcava 11:30 da manha. O tempo havia passado e ela nem percebera, imersa nas lembranças. Quando começa a trotar com o cavalo em direção à plantação um barulho de algo caído dentro do rio chama sua atenção. Ela se vira procurando o que ouvira controlando o cavalo pelas rédeas e uma menina surge de dentro do rio: Pela feição devia ser Natalia, filha de Joana que a muito tempo não a via. Devia ter a mesma idade de Sophie. Ficou observando-a sair da água e ir para debaixo da pequena cachoeira. A blusinha colada de malha e a calcinha branca fizeram com que pensasse no que Sophie veria naquele corpo. Balançando a cabeça e repreendendo a si mesma saiu cavalgando pela plantação.

- A comida já, já está pronta – Joana fala enxugando a mão no avental – Você demorou no passeio.

- Eu estava no rio lembrando da minha infância... Muito bom... Ah! Vi uma menina morena lá. É sua filha?

- É sim. A Natalia tem a mania de ir tomar banho de rio todo dia de manha. Vou brigar com ela.

- Porque?

- Ela não incomodou a senhora?

- De maneira nenhuma, Joana. Só queria saber se era sua filha. Ela deve estar com a idade de Sophie, não?

- Não senhora. Ela é dois anos mais velha que a Sophie. Tem 26 anos.

- Já esta na hora de ela arrumar um rapazinho e se casar. Já passou da idade pra isso.

- Ela ta namorando o Adenilson um rapaz que trabalha na lavoura, mas ela não quer casar. Diz que prefere a vida que leva.

- Isso não é bom Joana. Você tem que orientá-la a construir uma família. O que ela vai ter quando estiver com a nossa idade se não tiver filhos e marido?

- É o que eu falo, mas ela é cabeça dura.

- Essa meninada de hoje é difícil de controlar mesmo. Eu vou para a sala. Quando estiver pronto me chame.

Isabel sai em direção ao imenso salão na extremidade de outro corredor. As paredes cheias de quadros, alguns trazidos de Portugal junto com a família que deu o ponta-pé inicial na cultivação de café naquelas bandas do estado. No outro lado da sala, já dando na entrada principal uma grande parede com mais de 150 quadros. Todos eles seus antepassados. Tinha também fotos dela mesma, de Sophie e de sua queria avó. Todos os retratos tinham seu respectivo nome e data de nascimento e lá no alto no topo de todos, uma menina triste olhando para o nada como se não visse o pintor, estava Ana Maria Gonçalves, uma garota de pele alva e olhos negros profundos que refletiam uma dor assustadora. Isabel sempre olhava para aqueles quadros, mas nunca reparara nos olhos daquela pequena criança.

- Dona Isabel o almoço está pronto.

- Ai que susto! – Isabel exclama levando a mão ao peito, se virando parada menina parada na sua frente.

- Desculpa... É que a senhora estava tão quietinha que achei que ia me ouvir.

- Eu estava distraída – Isabel fala olhando os cabelos negros molhados – Você é a filha da Joana... Me lembro de você tão pequenina...

- É que eu passei alguns anos morando com minha tia em Curitiba para estudar...

- Eu sei. Uma cidade magnífica! Vamos?

Isabel havia planejado uma volta por toda a fazenda depois do almoço, mas com a refeição preparada por Joana perdeu toda a coragem. Começou a caminhar perto do casarão mesmo: De um lado ficava o estábulo e do outro um grande armazém. A estrutura original fora mantida através dos anos e cada pedaço de terra daquele lugar transpirava historia. Desde pequena Isabel ouvia relatos de sua avó sobre os moradores da fazenda. Ainda se lembrava com certo terror das historias sobre os escravos e senhores de terra que passaram por aquele lugar. Caminhando entre a grama mal-cuidada e as arvores perto do armazém ainda se via os instrumentos artesanais de trabalho dos escravos. Peças dignas de estarem num museu. O galpão do armazém estava cheio de maquinas e sacos agrícolas. Sua próxima parada seria no estábulo, mas foi detida por Pedro no meio do caminho.

- É bom passear por essas terras, não é?

- Muito, Pedro. Me lembro perfeitamente das minhas aventuras de menina. Seu pai ficava muito bravo quando me via invadir o armazém para brincar.

- Vixi... Nem me lembra... Apanhei tanto por brincar ali dentro.

- E como anda seu Manuel?

- a saúde dele não está nada boa, mas ta vivendo.

- Que bom! Vou ver ele, creio que esta semana ainda.

- Vai sim ele vai adorar a visita.

- vou continuar minha exploração... Andar por aqui é ficar um pouco mais perto do passado.

- Pelas historias que contam, eu não quero ficar perto do passado, não.

- Existe muita lenda torno da verdade, Pedro. Muitas coisas ruins aconteceram aqui, de fato, mas não se pode levar tudo o que dizem a serio.

- seu Teodoro era um homem ruim. Deus me livre viver naquela época. A senhora se lembra da forca que ficava ali e do tronco ali daquele lado? – Pedro pergunta apontando para um lavo vazio perto do estábulo.

- Lembro. Vovó mandou tirar porque gostávamos de brincar neles.

- Pois é. Me disseram que de noite ainda se ouve o lamento dos escravos no estábulo onde era a senzala.

- Pedro, por deus... Você mora aqui desde que nasceu... Já ouviu alguma coisa?

- Não senhora.

- Então, isso é historia que o povo conta. Não precisa ter medo. Foi um tempo muito ruim que ficou no passado e o que estou revivendo não é a época em que o pai de Ana Maria morava aqui e sim minha infância, a infância de minha avó... É dessa época é que quero me lembrar.

- A senhora é quem sabe... – Pedro fala dando as costas deixando Isabel com um sorriso maroto nos lábios.

Já dentro da confortável casa, Isabel começa explorar os quartos como fazia desde pequena. Sabia cada detalhe sobre as acomodações e as pessoas que haviam habitado em cada quarto. Eram suas raízes. Os dias seguintes são ocupados pelo redescobrimento daquele lugar. Com a cabeça mais serena, Isabel da atenção aos pequenos detalhes antes esquecidos e na tarde do terceiro dia ela encontra um enorme livro e dentro dele recortes de jornal e folhetos com noticias a tudo que se referia a família Gonçalves Silva desde meados de 1839. Havia folhas amareladas quase ilegíveis sobre as façanhas dos senhores do café. Natalia que depois do primeiro encontro sempre se mostrou muito solicita, ajudou Isabel a encontrar outros livros igualmente raros e com sua ajuda levaram tudo para seu quarto. As noites de Isabel passaram a ser ocupada pelo mergulho no passado que a deixava extasiada: Como não havia se atentado a tantos tesouros daquele lugar? Uma importante parte da historia do Brasil, desde a chegada da família real ao Rio de Janeiro, a abolição da escravatura, a independência do Brasil estava ali documentada e data com esmero por Leopoldina, filha de Ana Maria. Com certeza a avó de Dona Josefa quis deixar registrado tudo o que acontecia naquela época para a sua futura geração. Os dias foram ocupados pela exploração física: Vasculhou tudo o que pode no armazém, na biblioteca, no estábulo onde ainda existia marcas que o tempo não fora capaz de apagar. Ouvia atentamente as historias contadas por Joana e Pedro, lendas que quanto mais ouvia e lia ia criando dimensões reais. Natalia passou a ser sua companheira na viagem. Isabel se divertia enquanto ela com uma carinha chocada escutava como os escravos eram severamente punidos com tentativas de fuga e furto, alguns chegando a serem executados e expostos como exemplo para os outros que tentassem fazer a mesma coisa. Isabel a observava e pensava na afeição que desenvolvia por ela. Uma menina-mulher com seus 26 anos. “Poderia ser minha filha. Com certeza me desapontaria menos que Sophie”.

- A senhora tem que dar uma olhada no sótão. Tem muita coisa lá dentro que a senhora ia gostar – Ela fala com um brilho no olhar - Muitas das coisas lá dentro são de Ana Maria. Dizem que ela era uma menina muito triste porque seu pai batia nos escravos.

- Acredito que era mesmo. Como alguém podia viver em paz ouvindo gritos de dor de outro ser humano sem se importar? Outra coisa Natalia: Para de me chamar de senhora. Bel. Me chame assim.

- Tudo bem, Bel. Vamos lá?

- Claro.

 

Isabel sobe as escadas na frente de Natalia que não tira os olhos de seu corpo bem desenhado. Bel a fazia lembrar de atrizes que se não falar a idade ninguém sabe qual é. Ela passa na sua frente e abra a porta. A luz dentro do lugar é escassa e ela começa a passar as mãos encima dos objetos cheios de poeira.

- Nossa! Isso daqui ta muito sujo – Natalia fala limpando as mãos na calça.

- Ta mesmo – Isabel fala se ajoelhando perto de um monte de livros. – Mas você tinha razão... Aqui tem muita coisa...

- Eu te disse. A Sophie vai vir pra cá no final de semana? – Pergunta folheando um livro.

- Não.

- Faz tempo que não a vejo. A ultima vez foi nas férias do ano retrasado.

- Hum... – Isabel fala distraída. Não queria falar sobre a filha.

- Aconteceu alguma coisa Bel? Você parece não querer falar dela.

- E não quero mesmo. No que me diz respeito eu não tenho filha.

- Desculpa.

- Tudo bem. Não é com você. Eu que tenho te pedir desculpas se fui grossa. Eu tive um baque muito grande no inicio do mês com uma revelação que ela me fez e com a morte da minha avó. Vim pra descansar, esquecer de tudo que me chateia...

- Entendi. Você ficou tensa de repente quando falei dela. Não vou tornar a fazer isso.

- Obrigada – Isabel fala pegando na mão de Natalia.

O arrepio que percorreu seu corpo foi involuntário.

 

Ao começar a fuçar as caixas Isabel encontrou vários objetos e livros do Brasil império, coisas que hoje valiam uma fortuna, cobertos com uma espessa camada de poeira. Num canto reservado estava o baú que pertencera a Ana Maria. Isabel nunca teve a permissão da mãe ou da avo para mexer ali. Com cuidado ela abriu e começou a tirar as coisas guardadas com tanto cuidado. Havia bonecas corroídas pela traça, objetos b de metal sendo deteriorados pelo tempo. Quase com referencia ela tira as coisas de dentro. Uma rosa seca ainda era guardada com cuidado dentro de uma caixa forrada com veludo. Natalia se ajoelha ao lado dela e quase com referencia ela tira a rosa de dentro da caixa. Tinha certeza que aquela rosa tinha um significado especial para Ana Maria. Isabel deixou a rosa num canto e começou a guardar tudo dentro do baú novamente e com a ajuda de Natalia levaram tudo para o seu quarto. O que ela não havia percebido era o fundo falso do baú.

 

 

Nome: jake (Assinado) · Data: 07/04/2017 12:08 · Para: Capitulo 2 VIVENDO O PASSADO...

Muito obrigada DIVA por compartilhar consco mais um dos seus trabalhos ....

PARABENS SOU SUA FAN  N 1

 



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 07/04/2017 04:06 · Para: Capitulo 2 VIVENDO O PASSADO...

Muito interessante ansiosa por mais



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