Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 18:

SCOUTT

 

Meu peito estava liberto de todas as angústias. Tudo o que eu sentia era felicidade e esperança, enquanto uma calma – que não sei de onde surgia dentro de mim – me dominava para esperar o dia em que Mea estaria pronta. A melhor decisão de todas foi pedir uma folga e ir para Miami, por mais que tudo estivesse atrasado para mim agora.

            Logo que voltei de Miami passei horas extras depois do expediente no escritório adiantando manuscritos que estavam empilhados em minha mesa me esperando voltar de minha folga. E tudo deveria estar pronto até hoje, sexta-feira em que eu faria uma viagem de ida e volta para Chicago para minha coletiva de imprensa com uma jornalista da revista mais famosa para o público jovem e aqueles que gostam de leitura, Mea realmente fez um bom trabalho conseguindo uma entrevista para mim com essa revista.

            Mandei várias mensagens de texto a Mea e somente algumas foram respondidas, mas tudo bem, ela me pediu um tempo para deixar sua namorada sem maiores frustrações e brigas, e eu prometi que iria esperar.

            Estava rumo ao hotel de sempre depois de desembarcar em Chicago, dentro do táxi de um senhor pálido e calado, que me lançava olhares estranhos pelo espelho retrovisor do carro. Respirei fundo, tentando me acalmar e não entrar em pânico com aqueles olhares, mas enquanto eu usava o celular para digitar uma mensagem a Mea dizendo que estava em Chicago, o velho me olhou de novo, encontrando meu olhar pelo espelho e então sorriu de canto de boca.

            “Por favor, pare o carro. Vou a pé a partir daqui.”

            Comecei a arrumar a alça da mochila no ombro para saltar do carro o mais rápido que eu pudesse, quando a voz fina e rouca do velho me respondeu.

            “Dessa avenida até o hotel são quatro quadras.”

            “Eu vou andando.”

            Ele encostou o táxi e eu abri a porta e desci, batendo-a com força. Peguei algumas notas no bolso e dei a ele quando me disse o valor da corrida.

            “Só estava achando legal seu cabelo, moça.”

            Revirei os olhos e bufei, balançando a cabeça de um lado para o outro. Ajeitei a gola do casaco, puxando-a para cima para cobrir melhor o pescoço e comecei a andar com pressa até o hotel. Precisava tomar um banho e esperar a jornalista, já que a entrevista aconteceria no meu hotel.

            Peguei meu maço de cigarros de dentro do bolso da calça jeans velha e surrada que eu usava, coloquei um na boca e usei o isqueiro que guardava dentro do próprio maço quase vazio.

            Já havia se passado uma semana desde que janeiro entrou, e o frio continuava forte. Por sorte não ventava em Chicago enquanto eu caminhava, pois, o ar gelado estava sendo o suficiente para congelar a pele de meu rosto.

            Meu celular começou a vibrar no bolso quando já estava perto do hotel. O atendi depois de verificar que era Megan me ligando.

            “E aí, Megan.”

            “Scoutt, vamos sair?”

            “Estou em Chicago.”

            “De novo? Você não disse que iria dar um tempo para a garota?”

            Comecei a rir e decidi não entrar no hotel quando passei em frente a ele, seguindo para o bar ao lado. Fiquei parada do lado de fora terminando meu cigarro enquanto falava com Megan.

            Dei risada dela antes de responder. “Eu vim para uma entrevista sobre o livro, não enche.”

            “Vou sair com a minha garota então.”

            Ri ainda mais alto dela e neguei com a cabeça dando uma tragada longa no cigarro. “Sua garota? Que história é essa?”
            Megan riu também enquanto respondia. “Não vou contar, ia te apresentar pessoalmente, apesar de você já conhecer. E você viaja sem avisar aos seus amigos, não merece saber.”

            “Todo mundo agora que namora não quer me contar quem é a sortuda.”

            “Vai ver é porque você é chata.”

            “Idiota.”

            Megan riu alto o suficiente para me fazer afastar o celular da orelha. Terminei meu cigarro e o apaguei no chão, mas fiquei segurando o filtro do mesmo.

            “Preciso desligar, estou atrasada. Tchau, Meg.”

            “Beijo, Scoutt.”

            Desliguei a chamada e entrei no bar. Stella estava atrás do balcão vestindo uma blusa fina de mangas compridas com um decote em v bastante exagerado. Seus grandes olhos pretos me viram e sorriram junto com seus lábios. Ela se levantou, deixando de se debruçar no balcão e correu em minha direção, balançando os longos e cacheados cabelos negros.

            “Scoutt! Você apareceu!”

            Abri um sorriso largo e deixei que ela me abraçasse, envolvendo meus braços com cuidado em sua cintura para não apertá-la demais.      

            “Posso jogar no lixo?” Pedi mostrando a bituca do cigarro em minha mão.

            Ela franziu o cenho e deu de ombros, mas me apontou o lixo. Não sei o motivo de todos estranharem meu comportamento de jogar o resto do cigarro no lixo e não no chão.

            “E então, veio para tomar uma Stella?” Ela perguntou já rindo.

            “Não, minha querida. Eu vim a trabalho. Tenho uma entrevista essa noite e já vou embora de madrugada, preciso voltar para Seattle e trabalhar, só passei aqui para te dar oi.”

            “Entrevista de que?”

            “Do livro, lembra? Tenho uma entrevista para divulgar ele hoje, o processo de publicação termina semana que vem e então ele estará a venda.”

            “Isso é tão legal! Posso ir com você? Fico do lado, quieta. Nunca vi nada assim...”

            Olhei em volta pensando e, por fim, dei de ombros. “Tudo bem, sem problemas.”

            Stella seguiu comigo para meu quarto de hotel e logo se ajeitou no sofá de modo bastante à vontade, esticando suas pernas no estofado do mesmo. “Você parece cansada, Scoutt.”

            “É, vim andando metade do caminho do aeroporto para cá. E ainda tenho que tomar um banho rápido. Se a jornalista chegar pede para ela esperar.”

            “Sim, senhora. Mas veio andando por quê?”

            “Um velho tarado no táxi ficou me encarando, preferi vir andando.”

            Stella caiu na risada e negou com a cabeça. “Desde quando você tem medo de velhos abusados?”

            Inclinei um pouco a cabeça para o lado e estreitei os olhos, fiquei encarando seu rosto, pensando. Imagens terríveis tomaram minha cabeça e então eu sabia que o restante do meu dia seria uma merda. Quando essas malditas imagens me atormentavam custava para tirá-las da cabeça, elas são como recaídas para minha melhora gradativa. Desde quando eu tenho medo de velhos abusados? De sempre.

            “Não sei.” Fiz um biquinho com os lábios e dei de ombros. “Vou tomar meu banho”. Saí da sala, deixando-a sozinha e fui para o quarto.

 

            Quando voltei para a sala, com a roupa trocada, encontrei uma mulher vestindo uma saia preta social e uma blusa social coberta por um blazer preto. Os cabelos presos em um coque alto e elegante. Ela me olhou e sorriu, levantando-se do sofá para apertar minha mão. Dei apenas um sorriso tímido, sem vontade real para dá-lo. Por mais que eu tentasse esquecer aquelas imagens, eu sabia que elas estavam ali agora, era como se pudesse senti-las, como um mal-estar.

            A toalha que usei para secar o cabelo ainda estava em meus ombros, até mesmo para impedir que alguns pingos dos fios de cabelo ainda molhados molhassem minha camiseta.

            “Sou Ellen. Tudo bem?”

            “Oi. Pode me chamar de Scoutt. Tudo bem e a senhora?”

            Ellen soltou uma risadinha aguda e negou com a cabeça. “Pode chamar de você.”

            Nos sentamos no sofá e vi de relance que Stella estava encostada no balcão da cozinha observando tudo.

            Começamos a conversar sobre minha vida e o livro.

            “Fui abusada sexualmente por dois anos, é a história que conto no livro, sobre como passei por isso, como foi difícil e o que eu tenho feito para superar.”

            “No livro eu sei que você cita alguém que te deu grande ajuda, pode falar dessa pessoa?”

            “Foi uma namorada do último ano de faculdade, tivemos alguns problemas com o meu comportamento, eu era fechada, não queria que ela soubesse dos meus problemas e vivia me afastando dela para que isso não acontecesse.”

            “Mas ela ficou sabendo, não foi?”

            “Sim. Ela sabia que eu tinha um “problema”. Respondi fazendo aspas com os dedos no ar. “Mas não sabia qual, e mesmo assim continuou do meu lado. Ela quis me ajudar quando soube, tentou conversar comigo, mas não foi da melhor maneira que ela descobriu e eu, apesar da terapia de anos, não estava pronta para me abrir para outras pessoas. A terapia me ajudava comigo, internamente, não com as pessoas, porque ainda era um assunto delicado na minha cabeça para que outras pessoas soubessem. E quando ela soube, me afastei dela de uma vez, e então ela foi embora. Mas hoje somos amigas, e ela é publicitária. É pela empresa dela com a editora em que trabalho que estou lançando o livro.”

            “Acho que sua história é surpreendente, e o modo como você conseguiu se abrir para o mundo, para que outras pessoas pudessem ter a mesma força que você e verem que não estão sozinhos para enfrentar qualquer tipo de abuso é incrível. Eu sei que seu livro tem uma escrita leve, apesar da história pesada, e é engraçado, como você parece ser.”

            “Como eu estou tentando ser.”

            Demos risadas e Ellen concordou com a cabeça. O som da minha risada ecoou dentro da minha cabeça e senti uma pontada forte bem no meio da testa. A dor de cabeça vinha com força. Devia estar falando mais, dando uma entrevista muito melhor, mas tudo o que eu sentia dentro de mim era...solidão, medo e raiva.

            “Mas a dúvida é sobre a sua ajuda. Você pode falar o nome dela ou só para quem ler o livro? Vocês ainda se veem como amigas?”

            “É Mea. Mea é minha salvadora. E sim, nos vemos na empresa, somos amigas por enquanto. Inclusive estive com ela semana passada em Miami, tirando umas férias.”

 

            Ellen abriu um sorriso largo com essa informação. Jornalistas. Entretanto, eu também sorria por me lembrar daqueles dias em Miami até que percebi o que eu havia feito. Até perceber a informação que eu havia soltado, e então meu dia havia terminado de ficar uma grande merda.

Nome: lohs (Assinado) · Data: 17/02/2016 15:30 · Para: Capitulo 18

Aah :( Que chato o que Scoutt fez. Allegra não precisava saber desse jeito, mas acho que é o que vai acontecer, né?

Fiquei com medo desse velho tarado também. 😠

Nice cap, Fê! 😘



Resposta do autor em 17/02/2016:

FINALMENTE!

 



Nome: lih (Assinado) · Data: 29/01/2016 20:07 · Para: Capitulo 18

E quando parece que as coisas se ajeitam, vem algo para bagunça 

 



Resposta do autor em 09/03/2016:

Sempre, não é? Impossível essas duas..

Beijos!



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