Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 16:

 

A sexta-feira amanheceu bastante gelada, sentia minha pele se arrepiar mesmo que por baixo das cobertas. Allegra ainda dormia do meu lado, com a expressão tranquila, os lábios entreabertos e a respiração suave e ritmada. Precisava tomar uma decisão sobre ela urgentemente.

            Me levantei e enquanto esticava os braços para cima e me espreguiçava, caminhei até a janela e puxei a cortina grossa o suficiente para barrar a luminosidade e pude ver o céu nublado, ainda escuro e com flocos de neve caindo, deixando o asfalto com uma camada bastante grossa de neve.

            Tomei um banho quente e demorado, aproveitando para pensar em toda a bondade de Allegra, a paciência, doçura, desejo de me ver sorrir e as inúmeras tentativas que nunca a cansaram ou a fizeram desistir. Precisava me redimir com ela e tratar Scoutt como profissional apenas, mas primeiro o sentimento que só crescia no meu peito tinha de diminuir.

            Já perto do final do banho, enquanto terminava de tirar o condicionador do cabelo, escutei a porta do banheiro abrir, e junto com ela uma corrente de ar frio invadiu o banheiro.

            “Fecha a porta!” Tentei pedir sem falar alto demais enquanto me encolhia.

            “Já fechei.” Allegra respondeu com a voz doce e calma, como sempre quando acaba de acordar.

            Em segundos ela estava abrindo o box e se juntando a mim no chuveiro, o que me causava uma certa decepção, uma pontada de desespero no peito. Queria lutar por nós, por meu sentimento por ela, ao mesmo tempo que já o sentia se esvaindo automaticamente.

            Allegra me beijou delicadamente, sem enrolar, mostrando exatamente a que veio, o que me lembrou de quando Scoutt fez o mesmo.

            Ao me encostar no azulejo, enquanto beijava meu pescoço e mordiscava a pele ali, sussurrou:

            “Tudo bem, já esqueci a história do livro. Não precisa ficar tensa.”

            Respirei fundo e decidi tentar me permitir sentir aquilo, sentir meu namoro, a mulher a minha frente me tocando. Me permitir enganar de que tudo aquilo poderia sair da minha cabeça e minha tensão era pela briga e não por lembrar de Emma.

            Nos beijamos por tempo o suficiente para que ela me tocasse ali. Tentou me estimular enquanto com a outra mão me guiava até seu sexo para que eu fizesse o mesmo, ao mesmo tempo.

            Quando Allegra me penetrou, e eu fiz o mesmo, sentindo todo seu calor e umidade, arqueei para trás e pressionei as pálpebras fechadas tentando me concentrar naquilo.

            Allegra logo se contraiu contra meus dedos e apertou seu corpo no meu. De tanto me estimular enquanto me penetrava, também me contrai contra seus dedos e deixei meu corpo saborear o orgasmo, apenas a sensação de alívio e de relaxamento, nada mais. Nenhum sentimento envolto nisso.

            Beijei seus lábios com ternura e me despedi dela, saindo do banho.

            “Eu preparo o café.” Foi tudo o que consegui dizer e saí, batendo a porta.

            Fiquei alguns minutos encarando as roupas arrumadas no closet, pensando no que vestir. Veria Scoutt logo cedo, na primeira reunião do dia e queria estar apresentável. A sensação de borboletas no estômago não passava, era como o primeiro dia de aula quando criança.

            Depois de acabar vestindo a roupa de sempre, calça social preta, camisa social de mangas compridas e um blazer, arrumei meu cabelo e passei maquiagem demais, sem contar as borrifadas de perfume exageradas. Fui para a cozinha e enquanto o café passava, fiz torradas e ovos mexidos, algo rápido para poder sair logo de casa.

            Allegra se juntou a mim na cozinha quando eu já estava sentada na mesa esperando-a, beijou minha cabeça e sentou-se de frente para mim.

            “Bom dia, amor.” Me encarou e sorriu, estampando no rosto a satisfação e alegria por nosso encontro mais cedo no chuveiro.

            “Bom dia, amor.” Dei o melhor sorriso que pude e me servi do que havia preparado.

            “Vai trabalhar até tarde hoje?”

            “Não sei, tenho várias reuniões. E como vão suas crianças?”

            “Progredindo, os pais me agradecem.”

            Sorri de verdade, vê-la falar do emprego como fonoaudióloga era sempre bom, poder sentir a paixão que ela tinha e o gosto por fazer o que faz.

            “Quando começa seu projeto voluntário?”

            “Semana que vem, já está tudo certo, serão duas vezes na semana, porque não posso parar com os atendimentos particulares.”

            “Fico orgulhosa de você.”

            “É mesmo?” Ela abriu um sorriso largo, cheio de expectativa e pronta para ganhar o dia por uma única palavra de carinho que partiu de mim, esfregando na minha cara a péssima namorada que eu havia me tornado e a falta que eu fazia a ela.

            “Claro que sim.” Pisquei para ela e sorri.

            Nos despedimos com um beijo demorado e cada uma em seu carro, seguimos para o trabalho. Cheguei na empresa uma hora mais cedo do que o horário da reunião e tratei de me ocupar com os papeis sobre o projeto de Emma.

            Com vinte minutos de antecedência, juntei as pastas de arquivos e fui até Tina.

            “Vamos para a sala de reuniões já?”

            “Quanta ansiosidade.”

            “Quanta graça, Tina.”

            Ela riu e se levantou, pegando seus papeis também. “A sala está pronta, vamos esperar por lá então.”

            Segui com ela até a sala, me sentei na ponta da mesa e ajeitei tudo em cima da mesma. Tina se sentou ao meu lado e conversávamos enquanto algumas outras secretárias entravam e saiam da sala para servir café e água.

            “Já decidiu o que vai fazer sobre seus relacionamentos?”

            “Não.” Respirei fundo e relaxei na cadeira por poder falar disso. “Eu ainda não sei, minha cabeça está uma confusão, sabe? Eu quero as duas, são tão diferentes.”

            “Quer as duas? Seja sincera.”

            “Tina, as duas não...não é isso. Uma é tudo o que a outra não é, em extremos opostos, mas sabe para qual meu coração tenta saltar do peito, não é? Eu só tenho medo de largar tudo e me decepcionar outra vez. Largar a minha garantia, que é tão boa para mim e ficar sem nada no final.”

            “Não vai ficar sem nada no final.” Uma voz bastante rouca ressoou da porta da sala e automaticamente ativou em mim aquele calafrio e tremedeira.

            Encarei Scoutt parada e apoiada na soleira da porta, com uma pasta pendurada em seu ombro, vestindo uma calça jeans bem clara, camisa polo branca e uma jaqueta preta de couro, os cabelos penteados e arrumados para trás, me encarava com um sorriso satisfeito no rosto.

            Tina se levantou em um pulo enquanto pressionava os lábios e tentava esconder o riso, e foi até Scoutt, pedindo a ela que entrasse e se sentasse, além de perguntar se queria tomar alguma coisa. Permaneci parada, roçando os dedos nas pastas como se fosse a coisa mais importante do mundo, tentando permanecer ocupada e despreocupada, como se a presença dela ali não me afetasse em nada.

            “Bom dia, Mea.”

            “Bom dia, Emma.”

            Vi ela revirar os olhos e sorri de canto, balançando a cabeça de um lado para o outro.

            “Sua voz está rouca.” Tina comentou ao voltar para seu lugar do meu lado.

            “É o tempo, acabei me resfriando.”

            “Fez boa viagem?”

            “Ah sim, Tina. Ótima viagem e cheguei no hotel muito bem.”

            Arregalei os olhos para ela, pedindo silenciosamente que ela não dissesse nada sobre a carona e ganhei um sorriso largo de volta. Ela estava brincando comigo, me provocando, como sempre.

            “Vamos logo a reunião? Não posso demorar. Tenho um almoço marcado com minha namorada.”

            Agora foi a vez de Tina arregalar os olhos para mim, sem entender nada do meu comportamento e talvez por não ter avisado a ela que sairia para almoçar, provavelmente eu tinha alguma reunião e isso deixaria Tina preocupada. Scoutt me olhava com o cenho franzido e o maxilar flexionado, sem esconder sua frustração e irritação. Ponto para mim.

            Terminamos de acertar todos os detalhes sobre seu livro, desde a formatação à parte financeira. Foi uma hora e meia inteira de tortura, sentindo seu cheiro fresco dominando a sala e minhas narinas, amolecendo meu corpo cada vez mais. A cada gesto meu, cada vez que eu me ajeitava na cadeira ou colocava a franja atrás da orelha, rezava mentalmente para que ela me notasse, e claro, nossa transmissão de pensamento ou desejo funcionou, e ela sorria para mim apenas o suficiente para mostrar que estava me notando.

            Ela assinou o último papel, o último contrato e agora não teríamos mais reunião, eu mandaria o modelo para publicação e meus meios de publicidade seriam contatados para começarem a trabalhar. Em breve ela teria uma entrevista marcada para falar sobre o livro.

            “Então é isso. Agora minha parte está feita.”

            “Obrigada, Mea.” Scoutt falou bem devagar, olhando em meus olhos. Seus lábios se moviam com precisão, exalando todo o desejo que ela tinha por mim. Ela sabia me provocar com pouquíssimas armas, e sempre dava certo.

            Apenas acenei com a cabeça e sorri, juntei minhas pastas e me levantei.

            “Tina termina tudo isso com você agora.”

            Saí da sala antes que tivesse tempo de dizer alguma coisa ou me arrepender de meu comportamento e corri até a minha, batendo a porta atrás de mim. Pronto, consegui fugir dela, ser apenas profissional e agora esse tormento de entrevistas havia acabado.

 

            Uma batida na porta me interrompeu no meio de um telefonema importante.

            “Pode entrar.”

            Scoutt abriu a porta e entrou, vestindo a mesma roupa que usava durante a reunião e sem nenhum receio se aproximou de mim, parando em frente à minha mesa.

            “Desculpa aparecer aqui de novo.”

            “Tudo bem. Aconteceu alguma coisa?”

            “Eu esqueci de pegar minha cópia do contrato.”

            “Vou providenciar.”

            Peguei o telefone de minha mesa e liguei para Tina, pedindo a ela outra cópia do contrato assinado por Emma.

            Ficamos nos encarando durante o tempo que Tina levou para aparecer com o contrato. A cada respiração, que era muito audível, a tensão e desejo entre nós aumentava, se tornando praticamente palpável. Podia sentir o calor que saia de Scoutt. Apertei os braços da cadeira, pressionando os dedos ali, deixando os nós dos mesmos brancos. Scoutt cruzou os braços e não desviou o olhar de mim nem mesmo quando Tina entrou na sala e deixou a cópia em cima da mesa, saindo de fininho.

            “Sabe, Tina deixou você entrar sem falar comigo antes.”

            Scoutt deu de ombros e apoiou as mãos na barra da mesa, se inclinando para frente.

            “Qual é, Mea.”

            “Vou ter que falar com minha funcionária depois.”

            “Antes de funcionária ela é sua amiga, e quer seu bem.”

            Ri baixinho e neguei com a cabeça. “Você não tem jeito mesmo. Sua cópia está aí, pode ir embora.”

            “Mea, você já disse que me ama, que me quer, só tem medo.” Scoutt deu a volta na mesa e parou na minha frente, se abaixando e segurando nos braços da cadeira, deixando suas mãos frias sobre as minhas. “Se você puder sentir de novo aquilo que sentia antes, vai tudo melhorar. Vai ficar tudo bem.”

            Entreabri os lábios e deixei a respiração pesada que estava segurando sem perceber escapar, encarando Scoutt nos olhos, tão transparentes para mim, a única pessoa que ainda a entendia e queria estar perto dela mesmo depois de tudo. Me levantei devagar, cautelosamente, e segurei em suas mãos, entrelaçando nossos dedos. Dei um passo à frente até encostar meu corpo no dela e, sem querer, deixei escapar um gemido baixinho junto com a respiração que já ofegava.

            “Isso, linda.”

            Fechei os olhos, umedeci um pouco os lábios com a ponta da língua e fiquei esperando pelo toque de Scoutt, que se aproximou devagar, me deixando sentir sua respiração quente e depois o toque da ponta de seu nariz na pele de minha bochecha, enquanto aos poucos tocava seus lábios nos meus, roçando-os devagar, quase como em uma lenta tortura, mas deliciosa ao mesmo tempo, como se nos deleitássemos com a saudade que sentimos por tanto tempo.

            Ela finalmente me beijou, chupando meu lábio inferior e logo que o soltou, tocando minha língua com a sua. Seus dedos se soltaram dos meus e se posicionaram em meu rosto, segurando-o com força.

            Nossa respiração acelerava cada vez mais, seus dedos se agarravam em meus cabelos enquanto sua outra mão descia pela minha cintura e me empurrava até encostar em minha mesa.

            Era tudo o que eu queria, beijá-la, sentir seu gosto de hortelã disfarçando o gosto de cigarro, seus lábios macios contra os meus, sua respiração pesada, demonstrando sua excitação em me ter nos braços. Era o que eu sentia falta, da forma de me pegar com força que só ela sabia fazer. Mas então, aquele gosto bom da saudade deixando meu corpo se transformou em lágrimas sem que eu percebesse, deixando nosso beijo salgado e molhado.

            “O que foi, linda?”

            Me afastei dela, com as lágrimas escorrendo e levei a mão a boca, limpando meus lábios.    

            “Eu não posso, Scoutt. Ainda não.”

            Peguei minha bolsa e saí às pressas da minha sala, deixando-a parada ali. Não tive tempo de falar com Tina, apenas corri até meu carro e dirigi até o apartamento.

            As lágrimas não paravam de rolar, me sentia culpada, por mais que tivesse feito o que eu mais desejava desde que vi Scoutt em Chicago.

            Allegra já estava em casa, sentada no sofá assistindo a qualquer porcaria na televisão. Ela me olhou logo que entrei e seu rosto empalideceu.

            “Allegra, precisamos conversar.”

 

            Sua expressão amedrontada, sem entender o que acontecia, se transformou em olhos semi-cerrados e lábios pressionados. De alguma forma, ela entendeu o que estava acontecendo. 

Nome: lohs (Assinado) · Data: 22/01/2016 14:47 · Para: Capitulo 16

Allegra não é uma pessoa ruim, é adorável e talvez seja o desejo da maioria das mulheres como companheira. Scoutt não é uma pessoa perfeita, porém, ela é perfeita pra Mea. Ambas tem uma conexão muito forte. É algo lindo de se "ver".

Felizmente, não há como lutar contra isso e foi oq aconteceu nesse cap. (Que descrição incrível do momento do beijo, Fê!! Não me canso de dizer que você é incrível e nos prende muito fácil!)

Realmente, todos os medos que Mea tem são compreensíveis, mas Scoutt ta lá, provando que não vai ser mais preciso. 😍 (E que entrada, einh? "Não vai ficar sem nada no final"😍😍 Essa mulher, com essa voz rouca, acaba comigo. Kkk)

Mea, bom...Mea tem que se decidir e terminar com Allegra, não é justo. 

 

Parabéns de novo, tava doidinha sem poder ler esse cap. Kkk

Beijos, Fê!



Resposta do autor em 09/03/2016:

Allegra deve ser mesmo, mas é calma demais, não acha?

Você diz muito que sou incrível, vou ficar mimada assim. E eu não me canso de te agradedcer! Muito obrigada, beta!

Até a voz dela você repara hein? Acho que esse seu comentário fez meu peito apertar de pensar no final de Sunshine...

Beijos, Lo.



Nome: Marcinha (Assinado) · Data: 21/01/2016 16:46 · Para: Capitulo 16

Não gosto nada do que Mea esta fazendo com Alegra...

Isso não se faz...Se ela ta em duvida a menina não tem culpa...larga de vez e deixa ela procurar a felicidade dela...Não precisa ficar com Scout se ainda não esta preparada, mas usar Alegra de Step não tem nada a ver heim...

To me irritando com ela já...affee



Resposta do autor em 09/03/2016:

Mea está errando, não é? Está com medo de se magoar de novo e usa Allegra como apoio para sanar sua dúvida.

Obrigada por ler!

Beijos!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 21/01/2016 01:11 · Para: Capitulo 16
Pqp. Foda.


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