Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 13:

 

SCOUTT

             Passei a manhã toda sentada na porcaria de minha mesa esperando a reunião, esperando por vê-la. Já perto das cinco horas da tarde, tomei o elevador para ir até o departamento financeiro afim de conseguir a autorização para a publicação de uma versão atualizada de um exemplar antigo de Jane Austen.

            Meu coração nunca bateu tão rápido dentro de um elevador, era como se justo naquele dia ele não fosse veloz o suficiente e eu fosse perder a chegada de Mea. Meu corpo estava agitado, minha boca seca e minhas mãos suavam, podia sentir a presença de Mea mesmo antes de vê-la.

            “Apertar várias vezes o botão não o faz subir mais rápido.”

            Uma voz fina e irritante me fez parar de apertar o botão enquanto eu esperava que o elevador chegasse do térreo até o andar do financeiro. Olhei para o lado, virando o rosto apenas o necessário, e vi uma mulher com peitos enormes, cabelo louro platinado, feio para caramba. Franzi o cenho enquanto a encarava e respirei fundo para não a mandar se foder. Um dos elevadores finalmente chegou e a mulher entrou, caminhando com a bunda empinada. Já lá dentro me olhou como se eu fosse estranha, o que não deixo de ser, e eu apenas neguei com a cabeça. Não suportaria pegar o mesmo elevador que uma pessoa assim.

            Continuei apertando o botão para que eu chegasse ao meu andar em dez minutos e pudesse ver Mea saindo do mesmo elevador, caminhando em direção a uma reunião que tinha tudo para dar certo ao meu favor.

            Quando finalmente o outro elevador chegou e a porta se abriu, demorei alguns segundos para entrar, precisando bater a mão na porta que já começara a fechar. Entrei em silencio e fiquei observando Mea parada no fundo do elevador, de costas para a porta, encostada como se quisesse se esconder do mundo em um cantinho. Ela falava ao celular com, provavelmente sua namorada, e o assunto me interessava. Cruzei os braços e encostei com o ombro em uma das paredes geladas.

            “É uma reunião, foi marcada pelo meu chefe e o chefe da editora, como eu desmarcaria? Chego aí amanhã, vou pegar o voo hoje a noite.”

            “Não precisa se preocupar.” Mea começou dizendo e sua voz foi ficando mais baixa. “Eu e ela não temos nada e apenas trabalhamos juntas, reuniões vão acontecer, deixa de ciúme bobo.”

            Abri um sorriso largo ao ouvi-la se referir a mim daquela forma, ao saber que eu sou motivo de preocupação, é como se ganhasse mais confiança.

            “Tudo bem, depois conversamos, estou atrasada. Beijos. Eu também.”

            Quando Mea desligou a chamada e guardou o celular na bolsa, virou por último para a frente, com a respiração pesada de quem acaba de brigar por telefone e assim que me viu, deu um passo para trás, tropeçando em algo invisível, o que para ela nunca foi difícil, e se encostou na barra de ferro de apoio do elevador, batendo as costas contra a parede do mesmo.

            Meu sorriso não se desfazia e eu a encarava sem esconder minha felicidade.

            Segurando ainda na barra de apoio, Mea endireitou sua postura e respirou fundo, como se tentasse parecer o mais formal e profissional possível. “Não ouse fazer comentários sobre isso.”

            Soltei uma risada baixa e virei de costas para ela, ainda de braços cruzados, me pus a encarar a porta e dei de ombros. “Tudo bem, já ganhei o dia só de escutar que sou um assunto tabu entre você e sua namoradinha.”

            Sem tempo para me xingar, o elevador abriu e ela saiu pisando duro, passando por mim. Corri a tempo de alcançá-la e coloquei a mão na base de suas costas.

            “É só para que você não caia.”

            Mea bufou, mas não tirou minha mão e caminhamos assim pelo escritório até a sala de Oscar, onde precisei bater apenas duas vezes até que ele gritasse para entrar.

            “Oscar, licença. Mea chegou.”

            Com a cabeça apenas para dentro da porta, vi Oscar me olhar sem entender muita coisa, estreitando os pequenos olhos pretos.

            “Bradley & Miller.”

            “Ah sim! Entrem!”

            Abri mais a porta e entrei com a Mea, tirando minha mão dela e colocando-a junto com a outra nos bolsos da minha calça jeans.

            Meu chefe se levantou e andou até nós, me deu um tapinha no ombro, dispensando a formalidade não mais necessária entre nós, e apertou a mão de Mea por tempo demais para meu gosto, encarando seu rosto lindo, pintado com algumas sardas em torno do nariz, os olhos azuis e os lábios pintados com um batom vinho, que me dava vontade de tirar com minha própria boca. Eu sei que Oscar a estava admirando, e isso me irritava.

            “Srta. Bradley, é um prazer tê-la aqui.”

            “O prazer é meu, senhor.”

            “Pode me chamar de Oscar, por favor.”

            Ele finalmente soltou a mão dela e apontou para os sofás luxuosos de sua sala. “Vamos nos sentar. Quer beber alguma coisa?”

            Mea pediu apenas água e se sentou no sofá, em um canto distante do que eu me sentei. Ficamos nos encarando por um tempo, como se nossos olhos pudessem dizer o tamanho da tensão entre nós, da saudade que sentimos, da vontade de nos tocarmos. O rosto dela corava mais e mais a cada segundo nessa situação enquanto Oscar pedia por telefone para alguma secretária a água e um café para mim e para ele.

            “Então, garotas.” Oscar se aproximou e se sentou em uma poltrona solitária de frente para o sofá de três lugares em que nós duas nos encontrávamos. “Vamos falar de Sunshine e depois, Srta. Bradley, teremos nossa reunião com Joan e a agente dela.”

            Mea pegou sua bolsa e tirou de lá um notebook. “Eu não sabia da reunião até segunda-feira, então precisei pedir a minha secretária que me mandasse os arquivos por e-mail.”

            “Tudo bem, fique à vontade.”

            Acho que Mea poderia dormir durante a reunião que Oscar não se importaria, só de olhar para ela tudo estava indo bem. Respirei fundo e fiquei esperando o momento em que ele perceberia quem Mea é.

            Fomos interrompidos por um tempo curto pela secretária baixinha e de cabelos grisalhos, com o rosto marcado por rugas que nos trouxe o café e a água. Sorri para ela gentilmente e ganhei de volta uma piscadela.

            Mea apresentou vários documentos a Oscar e a mim, mostrou uma prévia do que pensaram na capa do livro, alaranjada com Sunshine escrito em preto, 505 páginas de minha terrível história que agora me coçava para saber se Mea havia lido. Mostrou a parte financeira, os gastos e futuros possíveis lucros.

            “Pensamos em atingir o público jovem, o público que já sofreu com o mesmo problema que Emma, o que acabaria tocando pessoas de várias idades. Para publicar, com o nome da editora de vocês, vamos fazer uma propaganda na internet, entrar em contato com jovens famosos na internet e dispor a eles alguns exemplares, isso é viral hoje em dia.”

            “Boa ideia, esses jovens que falam sobre tudo na internet hoje estão com tudo mesmo, muito bom seu trabalho, senhorita.”

            Mea deu um sorriso sem graça e suas bochechas coraram. Tão competente e tão modesta. Tão linda e tão minha, mesmo que ela ainda não saiba disso.

            “O que eu queria saber é se vocês conseguem agendar uma coletiva de imprensa com a Emma e outra com a personagem do livro que é a heroína que a salva dos traumas.”

            Mea arregalou os olhos e pressionou os lábios, levou os dedos para seu pulso com a pulseira de sempre e começou a mexer nos pingentes, como se contasse um a um.

            “Oscar...” Sussurrei a ele e apontei com a cabeça para Mea, estreitando os olhos, tentando fazê-lo entender minha expressão de “é ela e cale a boca.”

            “Mea Bradley.” Ele sussurrou seu nome como uma oração e ficou a encarando ainda mais, boquiaberto. Depois olhou para mim e tentou balbuciar algo incompreensível.

            “Sim, Oscar. Essa é a Bradley do livro.”

            Nunca vi o pescoço dele tão vermelho, nunca o vi sem palavras. Oscar pigarreou, tomou um gole do café e se ajeitou na cadeira, esfregando a bunda de um lado para o outro no estofado da poltrona, como um cachorro quando tenta ajeitar o lugar para dormir. “Eu sinto muito não ter percebido antes. Isso é uma situação constrangedora.”

            Mea pigarreou, limpando a garganta e se ajeitou no sofá da mesma forma, fechando a tela de seu notebook e o guardando na bolsa. “Eu e Scoutt somos colegas e profissionais, posso agendar uma coletiva de imprensa com ela com os melhores jornais e revistas da cidade, mas comigo...eu não gostaria que eu ficasse muito conhecida.”

            “Mas essa história é sua também, Mea.” Falei sem pensar, sem conseguir segurar a fúria em meu peito por vê-la rejeitar o livro de tal forma.

            “Não, Emma. É sua história e você usou minha imagem sem permissão. Fico feliz de ter sido alguém importante em seu passado, mas agora é só isso que eu sou, um passado.”

            “Passado ou não, você faz parte do livro.”

            “Que fiquem em especulações, não quero fazer parte disso.”

            “Por que?”

            “Porque eu tenho minha vida agora, Emma.”

            Oscar tossiu tentando ser discreto para nos lembrar onde estávamos e sorriu para nós com os dentes amarelados de tanto café.

            “Senhorita Bradley, o seu trabalho está exemplar. Veja o que consegue com a imprensa e avise diretamente a Emma, ela tem carta branca nesses projetos. Joan deve estar aqui já, se puder aguardar aqui, vou chamá-la.”

            “Claro, Oscar.”

            Ele se levantou e olhou para mim, sem precisar dizer que era para eu acompanhá-lo. Saí da sala sem me despedir de Mea, com a garganta cheia de coisas para dizer a ela e explicar.

            Parados no meio do corredor enquanto Joan e sua agente se levantavam para vir até nós, Oscar estava com a pele toda vermelha parecendo que iria explodir.

            “Como me fez passar essa vergonha, menina? Você me deixou te enviar para trabalhar com a sua ex.?”

            “Ela não é minha ex., Oscar, ela só não sabe disso ainda.”

            Ele olhou para os lados como se verificasse a ausência de testemunhas antes de me apontar o dedo que mexia para cima e para baixo e falar. “Você está parecendo meu filho adolescente de quinze anos que namora sem a menina saber. Toma vergonha nessa cara.”

            Soltei uma gargalhada alta e neguei com a cabeça. “Eu me comporto como um moleque de quinze anos? E você babando na menina lá dentro da sua sala? Pensa que eu não vi? Quem pega naquele corpo sou eu, seu babão.”

            Oscar começou a rir também e seu rosto corou ainda mais, se é que isso é possível. Joan e sua agente com cara de militar pararam ao nosso lado. “Qual é a piada?”

            “Nenhuma, Joan. Vou trabalhar, boa reunião para vocês.”

            Me afastei deles e fui até minha mesa para ler os vários livros em mídia digital e física que eu tinha que aprovar e passar para Oscar ou jogar no lixo. Decidi trabalhar até conseguir ver Mea saindo da reunião.

            O escritório foi ficando vazio conforme as horas passavam sem que eu percebesse. Meus olhos lacrimejavam de cansaço e as letras dançavam a minha frente enquanto eu relia o mesmo parágrafo várias vezes de uma história de amor sem graça.

            Larguei o exemplar em cima da mesa e passei as mãos no rosto, esfregando os dedos nos olhos, tentando amenizar a dor de cabeça. Guardei minhas coisas em minha bolsa e pendurei sua alça comprida e larga no ombro. Fui até a cozinha para tomar água antes de sair do prédio. Oscar devia estar com elas em sua sala ainda, já que por baixo da porta era possível ver que a luz ainda estava acesa.

            Cansada de esperar, estava passando pelo saguão do prédio quando o porteiro acenou para mim.

            “Não quer esperar a chuva passar?”

            O senhor de bigode preto e calvo, sempre simpático, não deixava de me cumprimentar quando passava por aqui no começo e no final do dia. Olhei para a porta de vidro escuro da entrada do prédio e vi uma chuva forte caindo, e só então parei para escutar o barulho forte do lado de fora do edifício. Passei a maior parte do tempo concentrada em ouvir o ranger da porta de Oscar ao se abrir, um barulho que sempre fora tão irritante, que não fui capaz de escutar a chuva caindo.

            “Como foi o trabalho hoje?” Encostei no balcão retangular da portaria para perder o tempo da chuva conversando com meu amigo porteiro. Ultimamente pessoas assim são as que mais escutam mais, como o porteiro em Chicago e Stella em seu bar.

            Enquanto falávamos sobre o jogo da noite passada e do azar do Seattle Seahawks, o time local de futebol, Mea passou por nós.

            Pedi licença ao meu amigo e corri até ela, começando a andar a seu lado. “Você vai embora agora?”

            “Sim.”

            “Na chuva?”

            “Vou de táxi.”

            Segurei em seu braço e a fiz parar para olhar para mim.

            “Odeio que me segure assim, Emma.”

            “Eu sei. Odeio que me chame de Emma.”

            Mea respirou fundo no mesmo instante que eu e nos encaramos por alguns segundos, sendo despertadas pelo estrondo de um trovão.

            “Quer uma carona? Posso te levar até seu apartamento antigo.”

            “Eu posso ir de táxi.”

            “Qual é, Mea. Ninguém precisa saber que te fiz essa gentileza.”

            Outra respiração pesada e eu já estava começando a achar que ficar perto de mim era um fardo impossível de carregar.

            “Tudo bem, eu aceito a carona.”

            Depois de um sorriso largo e bobo, e uma piscada irresistível que dei a Mea, fomos de elevador até a garagem e saímos na chuva em direção ao apartamento de Tom. 

O céu de inverno e agora chuvoso já estava escuro, o parabrisa do carro não dava conta de clarear a visão para mim e o ar de congelar até mesmo protegida dentro do carro anunciava que em breve nevaria.

Sem ligar o rádio, seguimos de carro sem trocar uma palavra, enquanto minha cabeça ensaiava a melhor maneira de puxar assunto. Até que, guiada pelo destino que está sempre se metendo entre nós duas, meu carro parou de funcionar no meio de uma avenida abandonada.

“O que foi isso?” Mea perguntou enquanto eu tentava dar partida no carro e escutava o motor afogado responder de volta.

“Não sei, Mea.”

“Parece que seu carro quebrou.”

“Merece o prêmio de sabedoria, parabéns.”

Encostei a testa no volante e fechei os olhos, tentando me concentrar no barulho dos pingos fortes batendo contra a lataria do carro.

“Era só o que faltava ficar presa com você no carro, no meio da chuva.”

“É tão ruim ficar perto de mim?” Levantei a cabeça e a olhei, sentindo que explodiria a qualquer segundo.

“Agora? Sim. Nessa situação e depois da bela situação constrangedora com seu chefe? Sim.”

“Porra!” Esbravejei, fazendo-a recuar e arregalar os olhos.

Saí do carro no meio da chuva, ensopando minha roupa em segundos e fui até o motor do carro, onde apoiei minhas mãos na lataria sem abrir a tampa.

“O que você vai fazer?” Mea gritou colocando a cabeça para fora com a janela aberta. Molhando a si e ao meu carro.

Não tive coragem de responder nada e apenas abaixei a cabeça, tentando um exercício de respiração que meu psicólogo insistia que eu aprendesse. Essa droga tinha que funcionar agora.

“Entra, Scoutt. Você vai ficar doente e não pode olhar o motor agora com toda essa água caindo.”

Minha cabeça doía mais do que quando saí do trabalho. Parecia uma piada ficar presa com Mea dentro do carro em meio a uma chuva dessas. Presa com ela, só eu e ela, em um silêncio chato e torturante, quando temos tantas coisas não ditas, tantas coisas engasgadas, prontas para serem vomitadas.

Voltei para dentro do carro e Mea fechou a janela, passando as mãos por seu cabelo e rosto, tentando amenizar o estrago de toda a água que caiu nela.

“Posso fumar aqui dentro? Minha cabeça dói demais.”

“Pode.” Ela respondeu baixinho e deu de ombros, se encostando no banco do carro, cruzando os braços e abrindo um pouco as pernas. Se ajeitando para passar muito tempo comigo.

Peguei o cigarro no console do carro, coloquei um na boca e o acendi, dando uma tragada longa, sentindo todo meu corpo relaxar e o nervosismo passar por hora.

“Fui abusada sexualmente por dois anos por minha mãe e meu padrasto.” Soltei as palavras uma a uma, com calma e serenidade, tentando passar a Mea a mesma sensação que eu tentava buscar agora: paz dentro de mim.

Ela por sua vez, saltou do banco como se ouvisse uma bomba sendo jogada e sua expressão suave se tornou algo transtornado, não por piedade ou dó, mas por dor, a mesma dor que eu senti por anos e agora luto para amenizar.

“Meus pais foram casados por dez anos. Vamos começar por aí. Com quatro anos de casados, eu nasci. Com seis anos de idade, eles se separaram. Quis morar com minha mãe, ficamos em Boston e meu pai foi para Seattle. Dois anos depois ela se casou de novo com um cara chamado Tim. Pois é, um nome ridículo para um estuprador. Odeio meu nome por ser o nome dela, isso você já sabe e deve bem entender agora.”

Parei de falar para dar outras tragadas no cigarro, abri uma fresta da janela que fazia com quem pingos gelados atingissem meu rosto e me fizessem arrepiar de frio, e soltava a fumaça devagar entortando os lábios em um bico, mirando na frestinha.

Mea me olhava sem reação, com os lábios secos e quase rachados entreabertos, os olhos azuis sem esconder sua dor, já se banhando em lágrimas.

“Eu consigo entender agora que é uma coisa difícil, que as pessoas se emocionam. Mas sabe, Mea, foi muito difícil por um tempo. Olhar para o rosto das pessoas e ver nelas dó, ver as pessoas mudando seu comportamento comigo por eu ser uma pobre garota estuprada pela própria mãe, de certa forma. Tive comigo o sentimento de rejeição desde o ocorrido, o incidente, como alguns gostam de chamar. Fui rejeitada por minha mãe de modo cruel, como não carregar isso comigo? Me entende?” Olhei para ela que chorava copiosamente e obtive como resposta apenas um chacoalhar de cabeça para cima e para baixo, enquanto seus lábios trêmulos evitavam que o choro tomasse som.

“Então, Mea, sempre foi difícil me relacionar com as pessoas. Eu tinha medo de ser rejeitada de novo, e ter que conviver comigo mesma, quando minha autoimagem era desprezável. Eu me via como um ser desprezável, desmerecedora de amor e carinho, de qualquer tipo de afeto, e não precisava de pessoas me jogando isso na cara, na pele. E isso, segundo meu companheiro psicólogo, se deve por meu comportamento de me culpar. Qual o motivo de uma mãe...” Respirei fundo, dei outra tragada no cigarro já pela metade. “... mães não são seres agradáveis que tomam sorvete conosco ou que nos dão beijos de boa noite?”. Dei de ombros e traguei novamente. “Então, qual o motivo de uma mãe abusar da filha por tanto tempo? A culpa devia ser minha.”

Mea tirou os sapatos e colocou os pés no banco do carro, abraçando seus joelhos como uma criança assustada.

“Meu psicólogo tentou falar para mim que, por meus relatos, Tim seria um estuprador cheio de termos psicologicamente aplicáveis, como ego desestruturado por vários motivos interessantes, mas que não valem a pena. Ele seria uma pessoa que vive em onipotência e usa da agressividade para satisfação de seus desejos, sendo um deles de ver a vítima em submissão. E então me estuprava. Com Emma tenho um relato de problemas maiores. Vi laudos que a taxavam de psicopata, algo difícil de detectar, que não a deixava sentir empatia ou gostar de mim. Então talvez a culpa não fosse minha, não é? O ato dela de permitir os abusos pode ter sido ativado, como um gatilho, por frustração ou vingança, algo que fiz que a deixou assim. Não sei, não entendo.”

“O que eles te falavam, Scoutt?”

Respirei fundo, terminei o cigarro, o apaguei na água da chuva, colocando-o para fora pela janela, e depois o deixei no console do carro para jogá-lo mais tarde, conforme minha mania de não jogar cigarro no chão.

“Quando eu tinha quatorze anos contei a eles que eu gostava de meninas. Algumas semanas depois minha mãe me perguntou se eu havia mudado de ideia. E então ela me mandou tomar banho e depois do banho ela me deixou no quarto com meu padrasto.” Senti o choro atingir minha garganta em cheio, como quem passa dias segurando a vontade de gritar, e então deixei as lágrimas escorrerem silenciosamente, sem atrapalhar meu discurso. “Ele dizia que eu tinha que aprender a ser gente, a gostar de homem. E fazia o que queria comigo. Isso se repetiu algumas vezes até que se tornou rotina. Minha mãe me mandava tomar banho depois de perguntar se eu havia mudado de ideia, eu não respondia mais, e ela me levava para o quarto. Quando eu não queria ir e gritava e chorava, era pior. Apanhava dele e ia para o quarto assim mesmo.”

“E John? Seu pai não fazia nada?”

“Meu pai não tinha ideia. Quando fui morar em Boston ele parou de me ligar, e só mais tarde descobri que minha mãe e ele brigaram por mim. Ela queria ficar comigo e não queria que ele me visse, diz ele que por pura maldade, e ele por sua vez, como deu o motivo do término do casamento a traindo, permitiu que ela ficasse comigo. Ele já me pediu desculpa de diferentes formas incontáveis, mas enfim. Ele descobriu depois que eu já vivia isso por dois anos, quando apareceu de surpresa para me ver, cansado da situação de não me ver. Não éramos próximos, fiquei sem notícias dele, sem ter pai por todo aquele tempo, mas foi minha salvação naquele momento. Ele percebeu algo de errado e eu contei. Tim se matou um dia depois de meu pai me levar a polícia para fazer exames constrangedores que comprovaram a veracidade de minha história. Emma está em uma prisão de segurança máxima e nunca mais tive notícias dela. Prefiro pensar que ela morreu também.”

“E as flores?” Mea fungou, com o nariz entupido de tanto chorar.

“Ela usava uma flor no cabelo. Não sei porque tatuo flores, parece autodestrutivo, não?”

“Parece.” Mea deu uma risadinha baixa e se virou para mim, ficando praticamente deitada no banco, mas de lado.

“Escuto do psicólogo que, querendo ou não, eu amei minha mãe, e isso é uma forma de ter os momentos bons comigo. A flor estava no cabelo dela sempre, todos os dias. Ele diz que é como uma lembrança do que eu passei de bom e de ruim. Parece coisa de maluco, não é?” Rimos juntas e fungamos ao mesmo tempo, tentando parar de uma vez o choro de ambas.

“Você não tem vontade de saber porque o tal gatilho foi ativado nela? O que pode ter acontecido?”

“Não. Nunca tive vontade e ainda não tenho. Não tem o que fazer para mudar a situação, buscar explicações apenas amenizaria a situação ou me traria mais dor. Hoje eu tenho uma visão mais clara de tudo o que aconteceu comigo, me sinto menos culpada e tenho lutado muito com meu medo de ser rejeitada, porque quero mudar e ser melhor.”

“Obrigada por me contar isso.”

“Desculpa falar disso em um livro antes de você saber.”

“Tenho orgulho de estar no seu livro. Sua história é difícil e você merece estar onde está agora.”

            “Então por favor, agende uma coletiva de impresa com Mea Bradley e Emma Scoutt.”

            Demos risada e eu me virei de frente para ela, dobrando um joelho em cima do banco.

            “Eu te amo, Mea.”

            Ela fechou os olhos e soltou um suspiro bastante audível, até que os abriu e me encarou. “Eu te amo ainda. Mas eu tenho outra vida.”

            “Deixa eu te conhecer de novo, deixa eu te apresentar outra Scoutt, sem compromisso.”

            “Como assim?”

            “Seja minha amiga por enquanto, escondido, ninguém precisa saber. Deixa eu ter essa chance.”

            “Desde que você saiba que eu tenho outra vida agora, tudo bem.”

            Abri um sorriso largo para ela e respirei aliviada. “Percebe como isso é patético? Nos amamos e agora estamos aqui, tão perto mas muito longe uma da outra ainda.”

            “Porque você sempre se comportou da maneira errada, Scoutt, até que acabou comigo.”

            “E você fugiu para Chicago sem me escutar.”

            “Desculpa ter fugido. Nós duas, se pararmos para pensar, nos comportamos de maneiras erradas. Não temos uma comunicação das melhores, não é? Sempre fomos impulsivas. Desculpa mesmo ter fugido, mas não posso mudar tudo o que aconteceu nesse tempo comigo em Chicago.”

            “Eu sei disso, mas isso não me faz desistir de você. E agora você já aceitou em me dar uma chance, não pode voltar atrás.”

            Mea riu baixinho e concordou com a cabeça.

            “Eu preciso de um táxi, preciso ir para o aeroporto. Sinto muito.”

            “Tudo bem, não tem problema, eu entendo.”

            Chamei um táxi para Mea e por conta da chuva, ganhei trinta minutos com ela até que o táxi chegasse. Usamos esse tempo para conversar sobre coisas engraçadas, para relembrar momentos divertidos, como se fossemos amigas de verdade ou um casal se divertindo. Ouvir o riso dela tão descontraído, leve, sentindo ao mesmo tempo minha cabeça livre de todo o medo de que ela soubesse quem eu sou e pudesse me repugnar, era como estar vivendo o melhor momento da minha vida, era como respirar tranquilamente, de peito aberto.

            Com o táxi parado ao lado do meu carro, esperando por Mea, nos despedimos com um beijo demorando na bochecha e um abraço apertado, em que aproveitei para sentir seu cheiro tão familiar e acalentador.

            “Obrigada de novo por me contar. E eu sinto muito que você passou por isso, mas agora você é outra pessoa e eu consigo ver isso.”

            Sorri para ela e concordei com a cabeça. “Boa viagem, linda. Nos vemos em Chicago.”

            Mea sorriu e piscou para mim. Abriu a porta do carro e logo sumiu pela avenida dentro do táxi.

 

            Chamei pela seguradora do carro para que me ajudassem e fiquei encarando a rua vazia e escura, a qual não me deixava ver seu final, como se fosse uma imensidão. E agora, via uma imensidão de coisas boas. Meu peito alegre e aliviado, doía de amor por Mea ao mesmo tempo que pulsava com esperança de ver nosso futuro juntas cada vez mais próximo.

Nome: Ada M Melo (Assinado) · Data: 05/01/2016 17:20 · Para: Capitulo 13

me emocionei com o cap, foi forte mas as duas mereciam esse momento, continuo torcendo por essas duas e Mea a vida é tão breve vai ser feliz mulher...



Resposta do autor em 11/03/2016:

Sim, as duas precisavam desse momento e demorou muuuuito! 

Obrigada por ler, beijos!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 05/01/2016 17:14 · Para: Capitulo 13
Q capítulo. Emocionante. Agora dar p entender a scout. Nossa. Q barra. Uma mae psicopata. Um padrasto estuprador. Ela e uma heroína p ter sobrevivido a todo esse horror. Dois anos. Quero ver o ponto de vista da mea. Feliz ano novo autora linda. Bjs

Resposta do autor em 11/03/2016:

Obrigada, feliz ano novo suuuuuper atrasado! (Desculpa, correria da faculdade, só consegui parar agora).

Com certeza tudo o que a Scoutt passou define muito sua personalidade, seu jeito de se comportar, mas Mea está aí para ajudar, né? 

Beijos!



Nome: lih (Assinado) · Data: 05/01/2016 14:07 · Para: Capitulo 13

Que lindo!



Nome: sonhadora (Assinado) · Data: 05/01/2016 12:57 · Para: Capitulo 13

Chorei quando li este capítulo! Sinto dizer mas essa mulher não é mãe coisa nenhuma, nem aqui nem na galáxia! Eu tenho uma filha e te garanto se um cafajesto desses sequer tocasse um dedo nela eu o mataria sem a menor culpa ou emoção de piedade!!! Scoutt é uma guerreira forte, não é qualquer uma que passa por isso tudo e consegue vencer. Espero que a Mea não a faça esperar muito, afinal Mea precisa deixar de olhar seu própriio sofrimento e enxergar a pessoa linda que a Scoutt se tornou e tudo culpa dela. Linda sua história Fmarques, considero uma das melhores aqui do Lettera.

Beijos e continua firme menina!!!



Resposta do autor em 05/01/2016:

Muito obrigada pela seu comentário! Ganhei meu dia!

Beijão!



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