1808 por Drikka Silva


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Isabel deixou o diário de lado. Os restos das folhas se seguiram em branco até o final. Restava somente uma carta dentro de outro livro. Com os olhos marejados de lagrimas ela começa a repensar em quem eram pos Gonçalves Silva: Uma farsa. Não havia outra forma de definir sua família e seu sobrenome que sempre cultuou. Toda a estrutura que ela acreditava veio abaixo. Teve esse nome apenas porque Aninha se sacrificou por um pedido da mãe. Desceu as escadas para ter com Natalia. Teria que resolver essa situação.

- Joana onde está Natalia?

- Não sei Dona Isabel. Deve ta no quarto dela.

Isabel seguiu até o aposento da menina que a havia surpreendido com um desejo insano.

- Oi bel... Tudo bem?

- Tudo. Quero falar com você.

- Entra... – Natalia deu passagem a Isabel que ficou parada perto da Janela.

- Sobre o que aconteceu no rio Bel, quero que me desculpe foi um ato...

- Não quero que se desculpe. Não posso julgá-la e não vim aqui para fazer isso. Talvez compreenda seu sentimento, talvez não. Ainda é um pouco confuso pra mim, mas estou tentando me acostumar.

- O que foi então?

- Sente-se aqui. Nat o que aconteceu no rio foi uma explosão do que você sente. Fiquei sem reação na hora... Não soube como falar alguma coisa, mas agora eu sei exatamente o que te dizer...

- Bel eu...

- deixa-me terminar, por favor...

- Desculpe.

- O que você sente por mim é admiração, paixão... Isso vai passar com o tempo. O que eu não posso agora é te enganar em relação ao meu sentimento. Não consigo deixar de te ver como uma filha. Minha orientação não é a mesma que a sua. Você já amou uma mulher de verdade? Do fundo da alma, daquele jeito que dá, ate uma dorzinha gostosa no coração só de pensar nela?

Natalia deixou a mente voltar para Curitiba, para Simone.

- Amei sim bel... Mas fui obrigada a separar-me dela.

- Ela é de Curitiba?

- É

- Se você ainda ama ela reconquiste-a. Não há distancia que possa separar o amor...

- Ai Bel... É tão difícil... Como vou explicar isso pra minha mãe? E toda essa atração que sinto por você?

- Você só sente isso por mim porque me viu como uma substituta do seu verdadeiro amor. A Sophie me disse que pretende abrir uma loja lá. Posso resolver essa questão com sua mãe.

- Minha mãe nunca vai deixar eu morar sozinha...

- Vai sim. Sei como convencê-la. Quanto a mim, assim que você ver essa mulher vai me esquecer rapidinho e como você mesma me disse que não me vê como uma mãe, vai mudar de idéia.

- Nunca vou te ver como uma mãe... Talvez uma amiga...

- Me dá um abraço? Quero que seja muito feliz menina e não deixe que ninguém lhe diga o contrario.

- O te fez mudar de idéia?

- Você vai ler os diários da Aninha... Uma menina que não teve a mesma oportunidade que você e Sophie tem hoje.

- Quer dizer que ela...

- Que ela encontrou o verdadeiro amor, mas não pode viver ele. Ela nasceu no século errado. Eu vou subir e conversar com sua mãe. Vou ficar na fazenda só mais essa noite. Amanha volto pra casa.

- Liga pra Sophie... Ela está com muita saudades de você.

- Vou ligar.

Isabel saiu do quarto de Natalia com a sensação de dever cumprido, mas ainda havia um obstáculo a ser transposto: Joana. Encontrou-a no terreiro junto do marido. Não foi uma conversa fácil, se mostraram irredutíveis, mas Isabel sabia como dobrá-los. Com muita argumentação conseguiu a permissão de Joana para que Natalia trabalhasse e estudasse na cidade que ela tanto amava. Com o coração apertado voltou pára seu quarto. Só restava a ultima carta de Aninha:

 

“... Não tive mais coragem para escrever meus dias, mas meu fim está próximo. Sinto-me desfalecer por dentro. Minha alma já não vive mais: Morreste junto com Zambine. Desde aquele trágico dia não consegui sorrir. Casei-me com Joaquim um mês depois. Por muito tempo não deixei que ele me tocasse, queria deixar minha alma imaculada para minha querida, mas ao rever minha vida tive que me atentar a uma coisa: A quem deixarei tão belas recordações? Alguém precisa repassar para futuras gerações o amor que existiu entre uma senhora e sua escrava. Tive uma filha de Joaquim depois de dois anos. O único ser que me trouxe alegria nesse tempo. Seus olhos inocentes e seu doce sorriso invadem a casa. Não tenho forças para me levantar e correr atrás dela pelos cômodos. Francisca é uma criança ativa, meu pequeno raio de luz na escuridão em que vivo. Tenho hoje 21 anos e não passarei deste aniversário. Minhas madeixas negras que por diversas vezes zambine alisou perderam o brilho. Às vezes mamãe me coloca na varanda para um banho de sol. Todas as vezes lua-cheia vem pastar perto do cercado. Admiro aquele belo cavalo que nasceu e cresceu com o meu amor por Zambine. Rezo a Deus que ele tenha mais sorte que eu. Mamãe se mostrou uma mulher guerreira. Não há mais escravos na fazenda: Todos são renumerados pelo seu trabalho, todos podem ir e vir quando quiserem. Peço ao criador que em um futuro não distante seja abolida essa forma tão mesquinha de vida. A mesma vida que subjugou minha amada. Antonia me faz companhia todos os dias. Escutei-a dizendo que estou com banzu: Acredito nela porque tenho certeza que essência é negra e queridos, não levem pelo sentido ruim da palavra: Não existe cor mais bela... A rosa de Zambine continua ao lado da minha cama. Não quero que ela vá para a sepultura comigo. È o mais belo presente que ganhei em minha vida: Guardem-na com todo o carinho que existe no mundo como assim o faço. Todas as noites choro ao vê-la: no começo era pela dor da perda, hoje é pela alegria de saber que irei me encontrar em breve com minha doce amada. Nos meus sonhos a vejo sempre bela com seu lindo sorriso e de braços abertos a me esperar... Na noite anterior senti seus braços me enlaçando e um pedido de apresse-se. Perdoe-me Joaquim por não ter correspondido o amor que sentes por mim. Mesmo em minha dor senti seu carinho me confortando. Iras encontrar uma jovem e bela esposa para o acompanhar em sua lida. Mamãe perdoe-me por não ter sido a filha que a senhora quis. Jamais teria a sua força de suportar tudo o que lhe foi infligido. E você minha querida filha ame de todo o seu coração. Viva intensamente todo o prazer que a vida lhe proporcionar. Perderás uma mãe jovem, mas tenhas certeza que estarei feliz onde estiver olhando e intercedendo por ti. Se causei mal a alguém por amar me perdoem, mas não se manda no coração... Um dia, em outra vida poderei consumar meu grande amor, agora parto para o lado doce da vida... Até em breve meus queridos...

 

Ana Maria Gonçalves Silva.

 

08 01 1813.”

 

 

Isabel dobrou a carta e juntou tudo o que fora de Ana Mara novamente no baú. A rosa protegida pela caixa de veludo foi em sua bolsa. Com a ajuda de Pedro colocou tudo em seu carro. Iria cumprir o desejo de sua avó.

O dia amanheceu ensolarado e quente. Isabel iria pegar a estrada depois do almoço. Foi visitar o pai de Pedro e ao retornar ao casarão viu Joana vindo ao seu encontro nervosa.

- O que aconteceu Joana?

- O cavalo sumiu!

- Que cavalo?

- O Lua-Cheia. Fui colocar ração para os bichos e ele não estava na baia. O Pedro ta rodando por ai tudo tentando encontrá-lo.

- Não se preocupe Joana – Isabel respondeu com um sorriso na face – Ele não vai voltar pra essas terras nunca mais.

Isabel entrou em casa deixando Joana com um ponto de interrogação na testa. Encontrou Natalia na sala em frente aos quadros da família.

- Isso que vocês fazem é tão bonito... Deixar todos da família aqui, juntos...

- Não estamos juntos nesta parede. Estamos ligados no coração. Bom, agora tenho que ir senão vou chegar muito tarde em casa.

- Ta bom Bel. Nós veremos em breve não é?

- Nos veremos sim e espero que você me apresente sua namorada. Qual é o nome dela mesmo?

- Simone.

- Simone. Quero aprová-la pra ti.

- Você vai gostar dela.

- Vou sim. Se você gosta porque eu iria contra não é mesmo?

- Tchau Bel. Boa Viagem.

- Obrigada.

Já dentro do carro Isabel pegou a estrada que levava a rodovia. As plantações que iam ficando pra trás formavam uma paisagem magnífica. Estava voltando renascida. Cantarolando uma canção de ninar que sempre cantava para Sophia ia dirigindo sorrindo. Quem a visse diria que estava louca, mas a alegria nos deixa meio bobos mesmo. Resolveu colocar um cd para distrair a mente. Levantando a cabeça do radio ela ouviu trotes de um cavalo: Lua cheia corria por cima de uma das colinas ao redor encima dele, um homem negro que quando avistou o carro sorriu. Isabel tinha certeza que jamais veria aquele animal novamente. Ele também estava liberto. Pegou o celular e ligou para a filha.

- Sophie?... Mamãe está voltando da fazenda, Quero te ver... Quero ver Julia também... Chego por volta das dez da noite. Ta bom passo em sua casa então... Tenho um presente magnífico para você... Ta bom... Eu te amo, filha... Até mais...

 

******

 

• Ana Maria Gonçalves Silva morreu uma semana após escrever a carta descrita acima. Os médicos não chegaram a nenhum diagnóstico.

• Natalia voltou a morar em Curitiba. Trabalha na loja de Sophie e é casada com Simone

• Sophie continuou casada com Julia por mais cinco anos. Se separaram e ela encontrou seu verdadeiro amor nos braços de uma mulher por nome Claudia.

• Isabel casou-se com um promotor de justiça. Vivem em perfeita união.

 

• O cavalo Lua-cheia... Bom esse jamais saberemos o seu mistério.

Notas finais:

Lindonas, obrigada a todas que dispuseram de um tempo para ler, ou reler, esse conto. Muito obrigada pela cia!!!

 

Bjoksssssssssssssssss

 

Drikka



Comentários


Nome: Cristiane Schwinden (Assinado) · Data: 29/03/2018 05:20 · Para: Capitulo 12 - Final

Que conto lindinho! Tem sua tragédia e sofrimento, mas mesmo na tragédia pude ver beleza! Uma narrativa que foge das fórmulas conhecidas e nos joga dentro de duas histórias que nos ensinam muito sobre preconceito.

Entendo pq tem tanto carinho por ele, é uma história arrebatadora. Parabéns!



Nome: Vanessa (Assinado) · Data: 22/06/2017 05:04 · Para: Capitulo 12 - Final

Ate chorei, amei o conto.

Meu coração doeo, mas foi gostoso de ler.

Drikka vc é uma das minhas autoras preferidas.

Parabéns.



Nome: cidinhamanu (Assinado) · Data: 29/04/2017 09:11 · Para: Capitulo 12 - Final

Oie Drikka!!

Não tenho palavras para explicar-te minha emoção quando terminei de ler esse conto.
Quando li o primeiro capítulo, depositei muitas esperanças nele, e vejo a cada palavra que está sendo escrita, está me devolvendo em dobro.
Eu entendo a pressão que é gostar de uma pessoa do mesmo sexo, e o que mais me emociona é como você transparece todo conhecimento.
Deixo relatado aqui o pouco que posso explicar-te sobre minha dádiva e agradecimento por você ter criado essa história.
Continua escrevendo assim, tens futuro.
Esperando que nem louca pelo próximo capítulo de Wall Street

Beijos
~Da sua leitora nada normal..................Eu 



Nome: Lenah Amaral (Assinado) · Data: 28/04/2017 19:37 · Para: Capitulo 12 - Final

Nossa!!! Que lindo esse texto. Uma história emocionante do inicio ao fim! Drikka sua escrita é sempre um prazer!! Obrigada por lembrar e descrever tão bem o que foi o sofrimento do povo negro no Brasil. E deixar essa mensagem de esperança na luta contra o preconceito e na vitória do amor!!!



Nome: CarolM4 (Assinado) · Data: 14/04/2017 22:04 · Para: Capitulo 12 - Final

Como sempre maravilhoso !!! Parabéns e obrigada por disponibilizar novamente.



Nome: mtereza (Assinado) · Data: 14/04/2017 02:14 · Para: Capitulo 12 - Final

Lindo conto amei



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