Enternecer por femarques

CAPÍTULO 11:

BEATRICE

 

                        Era sexta-feira e eu estava fechando a loja. Sentia meu corpo cansado conforme caminhava para a casa por ter dormido tarde no dia anterior. Sai da casa de Giuliana mais tarde que eu esperava, mas valeu a pena toda aquela conversa.

            Me sentia bem por ter contado a ela sobre como me preocupo com as coisas e não ter precisado me explicar. Provavelmente ela ficou curiosa sobre o que me leva a ser assim, mas o fato de não ter me questionado significou muito para mim e para a nossa amizade.

            Quando entro em casa sinto um cheiro ótimo vindo da cozinha. Deixo minha bolsa jogada no sofá e vou até lá, onde encontro Amber pegando copos e refrigerante.

            “Você já está em casa?” Pergunto a ela enquanto abro a caixa da pizza para conferir sua escolha. E vejo queijo, muito queijo.

            “A aula acabou mais cedo hoje. O que acha de assistirmos Dr. Who e comermos?”

            Dou risada da sua sugestão e concordo com a cabeça. Pego a caixa e a acompanho até a sala, colocando tudo sobre a pequena mesa de centro, mesmo que existisse ali apenas um sofá de quatro assentos e em sua frente, a televisão presa a parede.

            Dr. Who era meu seriado favorito desde que eu me lembre como alguém que assiste a filmes e seriados, já o havia repetido várias vezes, mas não me cansava.

            Amber se joga no sofá enquanto espera o aparelho de dvd ligar.

            “Com que dinheiro comprou a pizza e o refrigerante?” Pergunto enquanto ando em direção ao meu quarto, tirando a blusa do uniforme no caminho.

            Visto um moletom largo e prendo o cabelo em um coque, voltando para a sala. Minha irmã dá início ao episódio e começamos a comer.

            “Então, como foi ontem na casa da Giu?”

            Dou de ombros e curvo um pouco para baixo os cantos da minha boca.

            “Foi normal, nós comemos e assistimos a um filme.”

            “Só isso?”

            “Sim. E sabia que ela gosta de mulheres?” Digo distraída, olhando para a televisão.

            Vejo de canto de olho que minha irmã para de mastigar e fica segurando com a mão com o pedaço de pizza no ar. Ela dá um sorriso de canto e nega com a cabeça.

            “Ela te contou isso?”

            “Não, seus amigos contaram. E ontem perguntei a ela como tinha descoberto isso, que me disse ser desde adolescente, acho. Bom, ela é bem resolvida com isso.”

            “E o que mais?”

            Olho para Amber que está sorrindo e franzo o cenho sem entender. Dou uma mordida na pizza e mastigo devagar, enquanto ela me encara assustadoramente.

            “Ela disse que eu era bonita, mas que éramos só amigas. Além disso, ela não gosta de relacionamentos.”

            “Ela estava te passando uma cantada, então?” Amber franze o cenho, juntando as duas sobrancelhas e deixa o seu pedaço de pizza no prato, limpando os dedos em um guardanapo de papel para depois levar a mão ao queixo.

            “Não, eu perguntei a ela se já tinha se sentido atraída por mim.”

            Amber pressiona os lábios, tentando esconder um sorriso.

            “E qual o seu interesse nisso?”

            “Nenhum, Amber. Eu só fiquei com curiosidade, eu não sou a melhor pessoa do mundo para ser amiga dela, ou de qualquer outro, então pensei que talvez ela me quisesse para outra coisa.”

            “E isso não te deixou com medo?”

            “Não, não vejo problema em ela gostar de mulher.”

            “Realmente, Bea.” Amber concorda com a cabeça, seu rosto com uma expressão séria. “Mas ela gosta de mulher faz tempo, você não.” E cai na risada.

            “Ei!” Cruzo os braços e tento não começar a rir com ela. “Eu não gosto de mulher, você sabe disso.”

            “Não, o que eu sei e você sabe é que beijou um menino quando tinha quase a minha idade, e só isso. Depois você ficou enfiada em tudo o que aconteceu com a gente, e infelizmente, teve seus problemas, Bea. Isso é o que você sabe. Nunca teve tempo para pensar em você, só pensa em mim e em evitar que aconteça com você o mesmo que com o nosso pai e a nossa tia, mas nunca parou para saber que tipo de boca gosta de beijar.” Amber solta uma risada curta e alta quando diz isso, e eu a encaro séria. Ela está se divertindo com a situação. “Qual o problema se você gostar dela? Afinal, pensou que ela poderia se interessar por você.”

            “O que eu sei...” Digo dando ênfase nas palavras. “...é que você tem só dezesseis anos para falar disso tudo comigo.”

            “Algumas pessoas são maduras para sua idade.” Ela diz com calma e me dá um sorriso cheio de ironia. Dá de ombros e volta a comer sua pizza.

            “Não, nada disso. Eu adoro a amizade dela. Ela nunca me perguntou nada sobre as balas, sobre o acidente, sobre eu ser estranha. Nunca falou nada e se contenta com o que eu digo, e isso por sermos só amigas. Nós nos divertimos e conversamos, é ótimo. Eu consigo me abrir com ela, acho que você tinha razão sobre eu precisar conversar com outras pessoas. Mas só. Um relacionamento com ela me faria ter que me abrir mais, e eu não quero que saibam.”

            “Uh, então considera até um relacionamento com ela?” Amber começa a rir de novo e bate palmas.

            “Amber! Faça-me o favor. Eu não quero nada com ela, eu não gosto de mulher. Eu gosto da amizade de Giuliana, não invente coisas.”

            “Tudo bem, tudo bem. Você só ficou curiosa, afinal, ela ser gay é algo que não pertence ao seu século, vovó.”

            Amber começa a rir de novo e eu empurro seu ombro de leve, o que a faz rir mais. Reviro os olhos para ela e falo um palavrão em latim.

            “Não se esqueça que eu sei tanto quanto você, Bea.”

            “Você deveria ter ficado na escola hoje, isso sim.”

            Minha irmã se aproxima e beija minha bochecha, envolvendo seus braços em meu pescoço e me apertando contra ela.

            “Eu fico muito feliz em te ver se divertindo com outras pessoas. Eu te disse que não aconteceria nada de ruim.”

           

            Mais tarde, naquela noite, espero Amber ir se deitar e pego seu computador emprestado. Vou até o meu quarto e me deito deixando o mesmo em meu colo. Procuro por filmes que tratam de relacionamentos entre mulheres e uma lista de filmes recomendados aparecem.

            Escolho um com nome de mulher, Elena Undone, e espero alguns minutos até que o mesmo carregue. Fico pensando em tudo o que Amber disse, em tudo o que fiquei pensando desde o jantar na quarta-feira com os amigos de Giuliana e o encontro em sua casa na quinta-feira.

            Realmente não via problemas nisso, não era uma pessoa preconceituosa, mas nunca parei para pensar em relacionamentos, nunca parei para me sentir atraída por alguém ou me permitir sentir coisas que fossem diferente das que sinto todos os dias. O assunto que surgiu naquele restaurante me fez pensar que não me lembro de como foi o beijo com o namorado que tive quando mais jovem e que não me lembro, ou não sei, como é sentir esse tipo de coisa.

            Amber estava enganada. Pensar em Giuliana como mulher estava fora de cogitação. Fiquei realmente curiosa e nada além disso, afinal, ela mesma disse em nosso primeiro encontro que não conseguia falar comigo. Eu sei que não sou a melhor pessoa do mundo em situações sociais, então, é natural que eu entenda que seu interesse em mim é outro, não é?

            Olho para a tela do computador, repetindo a pergunte em minha cabeça, mas não encontro uma resposta. Aperto o botão de iniciar e começo a assistir ao filme.

            Sinto meu rosto queimar na primeira cena em que as personagens ficam juntas e minhas mãos ficarem suadas. Continuo assistindo até que começa uma cena de sexo. Meus olhos saltam em direção a tela e quando percebo, meu corpo está quente. Sinto um formigamento estranho entre minhas pernas e instantaneamente abaixo a tela do notebook, interrompendo o filme.

            Me viro na cama em direção ao criado mudo e pego algumas balas do pacote. Esse tipo de sensação era desconhecida, coisas que só havia lido nos livros em meu trabalho, e agora me sentia uma personagem de um romance erótico. Não era algo com que eu pudesse lidar, principalmente por ocupar parte demais da minha cabeça, estaria me colocando em risco em me distrair a tal ponto.

            O assunto estava encerrado, não deixaria que uma ideia sem cabimento me ocupasse dessa forma. E assim, me forcei a dormir até conseguir.

 

            A semana passou como qualquer outra. Amber foi a escola, fui ao trabalho, mantive minha rotina sagrada. Falei com Giuliana por mensagem todos os dias, e algumas vezes recebia ligações dela para saber como estavam as coisas em minha casa e acabávamos batendo papo sobre nosso dia-a-dia. Nossa amizade crescia e conforme o tempo passava eu via que sua amizade não me ameaçava, era algo com o que eu estava começando a me acostumar.

            Almoçamos juntas em um dia durante a semana e nos vimos no final de semana, indo nós três, eu, Giuliana e Amber, ao cinema. Minha irmã se divertia muito com ela e estava empolgada com a promessa de tirar fotos para alguma campanha pequena.

            Após o final de semana, os dias ficaram corridos com algumas mudanças nas prateleiras, me deixando exausta, e perdi algumas mensagens de Giuliana, o que nos manteve um pouco afastadas durante a outra semana que se iniciava. Estava trabalhando na sexta-feira, olhando para o relógio a todo momento para ir logo para a casa quando consigo um tempo para me sentar.

            Judith, a menina do caixa precisava de um tempo para ir ao banheiro e me pediu que ficasse em seu lugar. Me sento em sua cadeira e começo a mexer na internet.

            Fazia alguns dias que não falava com Giuliana e sentia falta de conversar com ela e contar sobre os livros que chegaram e sobre os mais vendidos do dia. Abro o navegador de internet e digito seu nome numa página de pesquisa.

            Giuliana Cardinale.

            Várias fotos maravilhosamente tiradas e, provavelmente editadas, aparecem em minha frente. Giuliana de todos os ângulos sorriem para mim. Dou risada quando a vejo ali e sinto algo estranho no peito. Um aperto.

            Procuro por mais fotos até que vejo uma dela abraçada com uma garota ao lado, ambas usando lindos vestidos de festa. A garota não me é estranha e está sorrindo na foto como se adorasse estar ali.

            Não encontro o nome da menina na descrição da fotografia e a fecho rapidamente, poderia ser uma namorada, alguém que ela goste, e não era da minha conta.

            Volto a olhar suas fotos em que está sozinha e fico concentrada nelas, até que escuto uma voz familiar.

            “Inglesas mal humoradas riem de que nos computadores?”

            Olho para frente e levo um susto em ver Giuliana parada ali. Ela está com um sorriso divertido no rosto. O cachecol branco enrolado em seu pescoço destacava seus olhos, a pele clara e o cabelo tão escuro.

            “Beatrice?”

            Ela me chama e eu preciso balançar a cabeça algumas vezes para desviar a minha atenção. Olho em seus olhos e dou um sorriso sem graça.

            “Oi. Oi, Giu.”

            “Parece que viu um fantasma.”

            Solto uma risada alta, estranha e aguda demais. Olho para a tela do computador e movo o mouse para fechar a aba do que estava pesquisando. Vejo de relance sua foto com a garota linda do lado e pressiono os lábios.

            Balanço a cabeça novamente e pisco algumas vezes enquanto respirava devagar e fundo.

            “Então, você está bem?” Giuliana me pergunta, deitando a cabeça um pouco para o lado e estreitando um pouco os olhos.

            “Estou, claro.” Dou um sorriso largo demais e a faço continuar me olhando estranho. Meu coração está batendo rápido demais e eu não sei o porquê perdi o controle dessa forma.

            “Andou ocupada essa semana?” Ela pergunta, apoiando-se com o cotovelo na mesa.

            “Tivemos umas mudanças aqui, foi corrido demais.”

            “É, para mim também. Começaram a chegar os móveis novos para o Senses e aquilo ficou uma loucura.”

            “Ah! Chegaram?” Pergunto empolgada, me lembrando de quando ela me contou que estava fazendo a compra dos móveis.

            “Sim, ficaram ótimos. Mas então, vim convidar a você e a mini modelo para almoçarem na casa dos meus pais no domingo, o que você acha?”

            Aprendi com minha mãe que não se deve recusar convites desse tipo, ainda mais feitos pessoalmente. Minha cabeça girava em torno da distração enorme em que caí, e como isso não era correto para mim, mas ao mesmo tempo, queria ir a esse almoço. Amber estaria comigo, não faria mal.

            “Claro, nós vamos. Obrigada pelo convite.”

            Giuliana dá um tapinha leve na mesa e pisca para mim, sorrindo. “Nos vemos no domingo.”  E começa a se afastar. Aponta o dedo indicador para o computador antes de sair da livraria e diz: “Continue procurando piadas.”

            Franzo o cenho ao mesmo tempo em que rio estranhamente de novo. Aceno tchau com a cabeça e logo que ela sai, me sento de qualquer jeito na cadeira e deito a testa na mesa.

            Amber ficaria feliz quando soubesse do convite, e eu, bom, me sentia feliz por tê-la visto, mas não conseguia entender o que se passava em minha cabeça, qual o tipo de felicidade que eu estava sentindo. Talvez por Giuliana ser minha única amiga, sinto falta de me divertir com ela, talvez seja carência. Seria bom conhecer sua família e continuar...me divertindo.

            Balanço a cabeça afirmativamente e respiro fundo. É. É só isso e nada mais.

 

            Volto para o trabalho, agora olhando para o relógio para que o momento de contar o novo convite a Amber chegue logo.

Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 30/09/2016 18:15 · Para: Capítulo 11
Amo romances assim divagar. Dar mais profundidade e realidade a estória. Bea tá começando a mudar, a despertar para um sentimento mais forte. Muito legal. Bjs

Resposta do autor:

Oi, Patty! 

Que bom saber que agrado na forma de narrar os acontecimentos. 

Espero que continue por aqui!

Beijo!



Nome: Ada M Melo (Assinado) · Data: 29/09/2016 19:42 · Para: Capítulo 11

acho que a ficha de alguem ja esta caindo...rsrsrs falta só a da Giu e eu continuo curiosa...



Resposta do autor:

Oi, tudo bem?

kkkkk Acho que ta, einh? A passos de tartaruga, mas ta. Daqui a pouco Giu se toca (ou não kkk)

 

Beijos,



Nome: Rita (Assinado) · Data: 29/09/2016 17:32 · Para: Capítulo 11

Eu fico fascinada com o mistério que ronda Beatrice :) acho que a Giuliana também fica haha 



Resposta do autor:

oi,

Até eu fico...kkkk

Quem sabe Giu não descobre, não é?

Beijos, 

 



Nome: Teresa (Assinado) · Data: 29/09/2016 17:28 · Para: Capítulo 11

Eita almoçar com os pais dela :O

Tá sério =)



Resposta do autor:

oi, Tudo bem?

Almoço com os pais é sempre sério, né? kkkkk

Veremos como isso vai desenrolar...

Beijos, 



Nome: sonhadora (Assinado) · Data: 29/09/2016 17:03 · Para: Capítulo 11

Puxa, Beatrice é mesmo muito complicada!!! E esse mistério todo, o que aconteceu com ela? Por que tem que ficar se policiando a todo momento? Estou muito curiosa pelo desenrolar desse trama!!! Parabéns Fe, você continua ótima na sua escrita, gosto muito do jeito que escreve suas histórias!!!

Beijos de Luz!!!



Resposta do autor:

Oi, moça

Então, algo ronda nossa Beatrice, mas vocês vão começar a entender aos poucos. Aguardo mais "chutes", quem sabe não acertam. kkk

Muito obrigada pelos elogios. é sempre bom ver que estou agradando vocês. 

Beijão



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