Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 11:

 

Dormi a tarde toda depois da carona e de tudo o que Scoutt me disse. Minha cabeça parecia estar sendo chacoalhada por um furacão, meus olhos não conseguiam parar de chorar. Minha mente não desligava, meu corpo parecia acelerado e querendo insistentemente ela, tocá-la e deixá-la me tocar como antigamente.

            Acordei com Tom me cutucando de leve no braço, sentado ao meu lado na minha antiga cama.

            “Gata, não vai comer nada? Nem te vi chegar do seu almoço solitário.”

            Abri um sorriso de canto para ele, tentando disfarçar o desânimo e me sentei, encostando na cabeceira da cama. Esfreguei os dedos nos olhos enquanto bocejava.

            “Almocei com a Scoutt.”

            “O que?! Qual o sentido disso, Mea?”

            “Eu não fiz de propósito, eu estava almoçando sozinha, ela apareceu e se sentou comigo.”

            “E como foi?”

            “Doloroso. O que ela quer agora e está se mostrando não dá... quando era para ser assim ela não foi.”

            “Ela quer você de volta mesmo?”

            “Quer. Disse que me ama, que é melhor por mim, que tem vontade de ser melhor, que não entende porque fui embora se eu a amava e isso me irrita, Tom. Como ela não pode entender o que ela fez? Eu entendo que ela tem problema, entendi por muito tempo, mas agora? Agora eu não quero mais aquele drama, preciso que ela mude para ter coragem de abandonar tudo por ela.”

            “Espera aí! Quer dizer que você pensa em deixar tudo por ela?”

            Dei de ombros e suspirei. Me arrastei pela cama até me levantar e fui até o banheiro.

            “Penso, se eu ver mudança, eu penso. Não consigo ficar longe dela, mas no momento Allegra é a melhor opção.”

            “Isso está errado, você sabe, não é? Você precisa rever algumas coisas se quer que ela mude.”

            “O que eu preciso rever? Eu não preciso mudar em nada.”

            Saí do banheiro com o cabelo preso em um rabo de cavalo alto, o rosto lavado e os dentes escovados.

            “Precisa sim, Mea. Você precisa entender e ter mais paciência com ela, não adianta querer muito dela enquanto ela não se abrir para você. E precisa muito pensar em ser honesta com a sua namorada e com você.”

            Respirei fundo e assenti com a cabeça. Peguei meu notebook da mala que estava aberta e cheia de roupas amassadas, peguei minha bolsa e saí do quarto, escutando Tom atrás de mim.

            “Vai onde agora?”

            “Para o café do campus, estou com saudade.”

            “E não vai trocar de roupa?”

            Dei risada e neguei com a cabeça. “Não estou suja e essa roupa está boa para um café.”

            “Acho que está fugindo de conversar comigo e procurando uma chance de ver Scoutt, você sabe que ela mora no campus ainda.”

            “Eu sei, mas não tem nada disso. O que mais podemos conversar? Eu já entendi que estou errada nisso também, eu tenho noção de que minha história com ela não terminou ainda, mas as vezes eu desejo que termine, é ela quem anda atrás de mim agora.”

            “E você deixa ela te levar no papo.”

            “Olha, é difícil, tudo bem? Eu não sei como agir com ela, o máximo que posso fazer é ser fria, e isso nem a intimida.”

            “Caso perdido vocês duas. Que ela te ama é nítido, vocês só precisam conversar.”

            “Conversar é difícil. Ficar perto dela é difícil. Me deixa sair agora, seu chato.”

            Ele deu risada enquanto me aproximei dele e beijei sua bochecha barbuda que me pinicou de volta.

            Já estava anoitecendo e o céu cinza e nublado se tornava azul escuro conforme escurecia devagar. Resolvi ir caminhando já que era perto, sentindo o vento gelado contra meu rosto. Não achei que fosse tão difícil estar em Seatte. Ver Tom era a melhor parte da viagem e o que fazia valer a pena. Me sentia nostálgica e com uma ansiedade dentro do peito que não passava.

            Cheguei no café já com os lábios azulados de frio e a pele pálida. O cheiro de café e o calor de dentro do local bateram contra meu rosto como um carinho gostoso. Suspirei e fui até uma mesa ao fundo. Enquanto meu notebook ligava eu olhava em volta e para o balcão, me lembrando de Alexia e do tempo bom que passei aqui. Desde a briga nunca mais a vi.

            Logo uma garçonete se aproximou para anotar meu pedido: um café bastante adocicado e croissant. Abri meu e-mail já conectada ao sinal de internet do lugar e baixei o arquivo do livro de Scoutt.

            Uma página branca com Sunshine escrito em letras garrafais negritadas surgiu na tela e meu coração palpitou em resposta. Rolei a tela até os agradecimentos onde haviam citações ao seu pai, ao seu psicólogo, aos amigos e a mim. Meu nome completo, escrito com todas as letras em minha frente. Tive vontade de rir, mas meus olhos se encheram de lágrimas. Era minha vida sendo exposta de forma romântica e bela, quando na verdade, me encontro dividida e perdida, com saudade e carregando muita culpa.

             

“O agradecimento principal devo a Mea, a inspiração desse livro e tão protagonista quanto eu. Agradeço a Mea Bradley pela experiência que vivemos, por ter mostrado com toda a sua paciência e dedicação a nós que eu tinha a capacidade de ser amada e que merecia isso. Por ter aberto portas e novos meios de pensar, por ter me dado a confiança que precisava para conseguir mudar, acreditar que posso mudar e me abrir para o mundo, por ter me estendido a mão quando sentia que não teria como sair do poço – que eu mesma criei – de dor e mágoa. Ela me mostrou que todo o abuso que sofri não me define, não me desmerece ou diminui. Sou eternamente grata pelo caminho que me ajudou a trilhar nessa busca por autoconhecimento, mas grata principalmente pelo amor que me deu, pelo carinho que me deixou sentir, por me entender tão melhor do que qualquer pessoa que já cruzou a minha vida. Meu sentimento por ela vai além de gratidão, mas isso é assunto para o decorrer do livro.”

           

            Ela citou o meu nome. Não haveria especulações como eu achei, todos saberiam de fato quem sou eu, com quem Scoutt se envolveu e depois deixou aos pedaços. Allegra não iria gostar nada dessa história.

            Meu café foi servido e enquanto o bebia, rolava as páginas. Decidi não ler nada sobre o que ela viveu em relação ao abuso, se eu fosse saber, que fosse por ela e não por esse livro. Parei quase ao final dele e li um parágrafo qualquer.

           

“Na maior parte do tempo me comportei – como descrevi inúmeras situações aqui – como uma completa idiota. Sempre achei que fosse a melhor opção, me fechar, impedir que as pessoas me vissem e tentassem se aproximar e me entender, nunca estive pronta para falar de verdade sobre o que eu passei com alguém, nunca estive pronta para receber o amor de alguém sem que o pânico me dominasse, sem que o medo esmagador de ser rejeitada me tomasse.”

 

            Uma lágrima escorreu e o café travou em minha garganta. Fiquei olhando para a página e mordendo o lábio, pensando em toda a dificuldade que Scoutt passou, na importância que eu tive na vida dela e em todo o reconhecimento que ela dava a isso. Se ela chegou até aqui foi por minha causa, por todos os momentos bons e os momentos ruins, pela luta que sempre achei que fosse vã por seu amadurecimento.

            Rolei mais algumas páginas e cheguei na última, já enxergando as letras embaçadas pelas lágrimas silenciosas que rolavam por meu rosto.

           

“É prazeroso escrever sobre minha história de vida, escrever sobre a dificuldade que agora vocês já conhecem, escrever sobre os momentos engraçados que vivi e claro, sobre os momentos de superação e amor que vivi com Mea. O nome do livro, Sunshine, é como me sinto agora, como me sinto em relação ao amor da minha vida. É como se um raio de sol me atingisse em cheio, como um raio quando cai sobre alguém. Esse raio de sol iluminou toda a minha vida, meu ser, minhas esperanças e forças, me renovou. Mea Bradley é meu raio de sol. Eu estraguei o que de melhor tinha, mas continuo lutando para ter isso de volta, para que meu futuro seja escrito junto desse raio de sol.”

 

            Não consegui ler mais nada, as lágrimas tomaram conta de meus olhos, fechei a tela do computador com força e levei as mãos ao rosto, tentando me acalmar. Como ela pôde? Como pôde ficar tanto tempo longe de mim e mudar tanto? Não conseguia entender, minha cabeça girava e não chegava a lugar algum. Ela estragou tudo, eu fui embora, e então, de repente, tudo se ilumina em sua cabeça, ela consegue se abrir, melhorar, amadurecer e mudar, consegue escrever um livro sobre sua vida e sobre minha vida, nossa vida, escrevendo declarações lindas, mas que apareceram na hora errada.

            Enquanto eu tentava esquecer e me esconder de meu passado com ela, ela expunha para o mundo todo seu amor por mim e sua garra em me ter de volta. O mundo todo vai saber disso, vai ouvir as suas declarações, quando eu devia ter escutado primeiro. Mas agora é tarde demais e esse livro é só mais um peso, uma dor para eu carregar. Essas palavras que parecem tão sinceras e cheias de sentimento são apenas mais uma tortura para o meu coração.

            Me distraindo de meu devaneio e me fazendo assustar, meu celular começou a vibrar em cima da mesa.

            Olhei para a tela e meu estômago embrulhou, como se eu fosse pega fazendo algo de errado.

            “Oi, Allegra.”

            “Oi amor, tudo bem?”

            “Tudo, e com você? Chegou agora do trabalho?”

            “Estou bem, e sim, saí mais cedo e resolvi ligar. Estou com saudade.”

            “Eu também estou.”

            “Onde você está?”

            “Em um café, estava trabalhando pelo computador.”

            Escutei sua risada calma do outro lado da linha, me fazendo sorrir. Sorrir de saudade, é claro que nesse tempo acabei nutrindo algum sentimento por ela, mas ao mesmo tempo meu sorriso escondia tudo o que eu tinha vontade de dizer.

            “Achei que fosse ficar em Seattle para descansar, bobinha.”

            “Eu estou, é só que precisei responder alguns e-mails.”

            “Quando você vai chegar aqui?”

            “Na quarta-feira a noite, eu vou embarcar a tarde. Tudo bem aí em casa?”

            “Sim, amor. Só está vazia sem você, estou com saudades demais.”

            Dei uma risada baixa. “Eu também. Amor, vou desligar porque o tempo está fechando e acho que vai chover, vou voltar para o apartamento antes que chova.”

            “Tudo bem, cuidado na rua. Eu amo você.”

            “Também.”

            Desliguei a chamada antes que ela reclamasse ou reivindicasse um “eu te amo” decente.

            Acenei para a menina que me atendeu e pedi que ela guardasse o croissant para eu levar embora. Terminei meu café e enquanto guardava o notebook na bolsa, meu celular tocou de novo e vi que dessa vez era Tina.

            “Oi, Tina.”

            “Oi, querida. Tudo bem?”

            “Sim, e com você? Como estão as coisas na empresa?”

            “Boas, só estou ligando porque surgiu um imprevisto.”

            “O que aconteceu?”

            “William quer que você vá até a Seattle Publisher para agradecer por terem nos escolhido e aproveite para discutir com eles sobre as propostas que já temos encaminhadas. Vou mandar todas em seu e-mail.”

            “O que? Sério? Mas não é melhor que seja tudo discutido em Chicago?”

            “É, mas como você está aí, o chefe quer que você vá até eles para dar um prestígio. Uma frescura, eu sei. A campanha para lançamento do livro da Joan está praticamente pronta, falta alguns detalhes com a campanha da Emma. Eu marquei a reunião para quarta-feira, cinco horas da tarde. Mudei seu voo para quinta-feira de manhã.”

            Bufei, mas não havia nada que podia ser feito. Teria que encarar Scoutt de novo, mais cedo do que parecia.

            “Tudo bem, Tina. Me mande o material no e-mail, os dados de mercado, os detalhes de capa, impressão, essas coisas.”

            “Pode deixar, vou mandar todos os detalhes e os orçamentos. Tenho certeza que o chefe de Emma vai adorar suas decisões e vamos lucrar bastante fechando o contrato com essa conta.”

            Antes de responder Tina a porta de entrada do café se abriu, tocando o sino irritante de aviso. Scoutt, vestindo a mesma roupa que usava em nosso almoço, entrou rindo e feliz acompanhada de Jeremy, Victor e Megan.

            “Ela não tinha que trabalhar? Hoje não é segunda-feira?”

            “Mea?”

            Escutei Tina chamando do outro lado da linha, mas me sentia completamente muda. A mesma cena, as coisas se repetindo. Minha cabeça confusa e ela se divertindo com os amigos, entrando de novo nesse mesmo lugar. Respirei fundo e engoli o choro, pressionando os lábios.

            “Preciso desligar, obrigada por enquanto.”      

            Joguei o celular dentro da bolsa, peguei o pacote com o croissant que já estava em cima da mesa, deixei dinheiro suficiente para pagar a conta em cima da mesma e me levantei, saindo dali.

            Passei perto deles enquanto entravam e eu saía. Scoutt parou de andar, ainda rindo e me encarou. Seus lábios murcharam e seus olhos se arregalaram.

 

            Sorri para Jeremy que gritava meu nome e sorri para Scoutt, de forma educada, sem mostrar os dentes. Saí de lá apressada, pronta para me enfiar no apartamento e só sair de lá na quarta-feira para a reunião, assim evitaria qualquer encontro infortúnio. 

Nome: liahbookbrasil25 (Assinado) · Data: 30/12/2015 18:29 · Para: Capitulo 11

Mea tome uma atitude de mulher a Alegra não merece você assim toda entregue pra Scoutt depois de tudo. Eu quero saber a história do abuso, ela pulou na leitura e foi direto pra parte melosa. Vamos agitar esse encontro na empresa, pra quem está tentando recuperar a Mea a Emma ts muito devagar.



Resposta do autor em 11/03/2016:

Está demorando para a história do abuso vir a tona, não? Allegra não merece tudo o que vem acontecendo, mas o problema é que a história de Mea e Scoutt está tão mal resolvida... como as duas não se entregariam?

Beijos, obrigada por ler!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 28/12/2015 23:37 · Para: Capitulo 11
Ai ai. Fantasmas. … o q ronda a mea. Difícil mea entender scout qdo ela nao sabe td q houve. Confiar vai demorar bastante. Se e q um dia ela conseguirá. Oh amor difícil. Foda. Feliz ano novo. Bjs


Nome: Leka (Assinado) · Data: 28/12/2015 20:11 · Para: Capitulo 11

Será que é só eu que acho que a Scoutt não faz bem pra Mea??!! A Mea fez e pode até fazer bem pra Scoutt, mas eu não consigo enxergar o contrário. É bem óbvio que as duas vão ficar juntas e etc...mas eu acho que nesse momento as coisas estão complicadas. A Scoutt precisa correr atrás do prejuízo e não ter a Mea tão facilmente, já que elas vão terminar juntas.



Resposta do autor em 11/03/2016:

Mea já sofreu na mão de Scoutt, como sofreu na mão da ex. namorada, e claro, Mea ajuda muito a Scoutt a se superar e esquecer o passado, ter força de vontade de ser uma pessoa melhor. Mas Scoutt também tem suas vantagens para Mea. Considerando o passado de Scoutt (que ainda virá a tona), seu comportamento é compreensível em certa medida, e Mea sabe isso.

Beijos, obrigada por ler!



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