1808 por Drikka Silva


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“... Acordei com o balançar do cavalo. Estavas amarrada a garoupa de papai. Zambine vinha sendo arrastada por um dos capitães do mato. Seus trajes já manchados pelo sangue revelavam os nossos destino. Fechei os olhos e orei ao criador para que ele aliviasse nossa dor. Pude ouvir os gritos de mamãe no terreiro já iluminado com tochas e uma fogueira ao lado do tronco. Papai pulou do cavalo jogando-me no chão.

- Queres se comportar como uma escrava? Então terás um castigo de escravo.

- Meu senhor não faças isto! – Ouvi mamãe chorando aos pés de papai – Ela é tua filha! Teu próprio sangue!

- Duvido que este sangue ruim tenha sido gerado do meu. Podes ser filha de qualquer um já que tu também não sabes se portar como uma senhora casada! Amarras este ser desprezível no tronco!

Senti as mãos dos capitães que levantaram do chão. Meus olhos se encheram de medo por um momento, mas ao avistar Zambine, vi sua postura de desafio: Ela tinha certeza de qual seriam nossos destinos e não demonstrava medo. Procurei forças em teu olhar e também escondi meu temor.

- Podes fazer comigo o que quiseres papai. Jamais terei medo de ti novamente.

- Quero ver se continuaras a me desafiar debaixo de um chicote! Esta outra não precisas amarrá-la, já estas bastante machucada. Coloque-a na forca.

- Papai mate-me no lugar de Zambine. Não faças tal maldade a ela!

- Quer dizer que morrerias por ela? – Papai fala me batendo novamente – Esta crioula é mais importante a ti do que tua própria vida?

- O senhor nunca entenderia papai... – Falei não podendo evitar as lagrimas que saltavam aos meus olhos.

- Claro que jamais entenderia! Não penso como uma imunda!

Senti quando papai rasgou meu vestido. Ouvi os gritos de mamãe que era aparada por Antonia.

- Não chores mamãe. Nada do que me for infligido poderá apagar a alegria que senti neste dia. Fui feliz mamãe... Morrerei feliz, pois assim como a senhora encontrei o amor em minha vida...

Senti a primeira dor em minhas costas... O primeiro golpe fora desferido em meu corpo. O chicote ardia, mas não gritei. Mordi meus lábios para não dar este ultimo prazer a papai.Outras dores cortantes se seguiram: Senti o sangue quente que escorria por minha pele. Ouvi o choro de Zambine e deixei que nossas lagrimas se juntassem na terra vermelha aos meus pés. Ao longe conseguia avistar o doce cavalo Lua-cheia. Seus olhos brilhavam enquanto assistia a cena: Minhas pequenas luas... Montado no cavalo um homem negro levava a mão ao peito. O conforto que senti naquele momento me fez agüentar a tortura. Nunca vou saber quem era aquele homem, mas tenho certeza que era uma criatura divina... Cai de joelhos por não agüentar a dor lacerante. Meus pulsos estavam cortados pelas cordas que me prendiam. Papai deixou-me de lado e foi ter com Zambine.Desferindo um golpe fez com que caísse aos seus pés. Apertou a corda em seu pescoço, colocou-a novamente de pé.

- Aninha te espero em outra vida! – Ouvi-a gritar – Adeus minha querida...

- Irei ter contigo em breve, meu amor...

Não consegui pronunciar Adeus... Nossa historia não terminara ali.

Não sei de onde Zambu saiu, mas no mesmo momento em que papai empurrava o barril na qual ela estava em pé, ele tomou o facão de um dos capitães mais rápido que uma águia e desferiu um golpe fatal em papai. Gritava de desespero pelos dois corpos que caiam sem vida: Mamãe desmaiou nos braços de Antonia e eu com muita dor coloquei-me em pé. Zambu saiu correndo pela plantação com os capitães ao seu encalço. Ouvi o barulho das espingardas que eram disparadas. Não me atentei aos barulhos que me rodeavam, arrastei-me até Zambine que jazia pendurada na corda. Ajoelhei-me em seus pés e chorei por nossa infelicidade.

- Venha menina temos que limpar suas costas...

- Por favor Pedrina, ajude-me a tirá-la daqui.

- Vamos menina...

- Não! – Não percebi que havia gritado – Não podemos deixar meu amor aqui... Ajude-me... Ajude-me...

Cai aos prantos em seus pés. A dor de perder minha querida é tão forte que mal consigo respirar... Porque existem diferenças entre cor, raça ou religião? Não somos todos filhos de um mesmo criador? Porque não podemos ser felizes como queremos?

Mamãe se recupera do choque que levou e pede que Pedrina faça o que estou pedindo. Com a ajuda de outro escravo, ela coloca o corpo de Zambine no chão. A abraço sem acreditar que aquele corpo gelado havia me esquentado horas atrás.

- Zambine não tardará o dia em que estarei contigo no lado doce da vida. Te amo minha querida...

Mamãe me puxa de cima do corpo de zambine. Esperneio, mas sua força é maior. Os outros escravos levam o corpo de Zambine e os capitães levantam o de papai. Uma tragédia que manchou nossas almas...”

 

Isabel fechou o diário e desceu as escadas correndo em busca do quando de Ana Maria. A mesma foto que vira diversas vezes agora tinha outro significado: Entendia a dor estampada nos olhos daquela pequena criança. Deu uma volta pelo terreiro para arejar a cabeça e dando por si, já estava em frente ao estábulo. O cavalo que costumara a andar nele estava em pé na baia.

- Que mística envolve você? – Isabel pergunta alisando o cavalo. – Não é possível que vive até hoje. Nenhum cavalo teria uma vida tão longínqua... Que mistério existe em você?

Saindo do estábulo, Isabel foi ao encalço de Pedro. Encontrou-o no armazém.

- Pedro quando o Lua-cheia nasceu?

- Ah... Ele não nasceu na fazenda não, dona Isabel. Sua avó encontrou ele perto do carvalho na divisa das terras da fazenda do prefeito. Procuramos pelo dono, mas ele nunca apareceu..

- É impossível...

- É mesmo. Um cavalo bonito e manso desses não ter dono...

- Não é isso Pedro, deixa pra lá...

Impossível. Essa era a palavra que repercutia pela cabeça de Isabel enquanto voltava ao quarto.

 

“... Zambine teve um enterro descente como convém a qualquer ser humano. Por três dias pranteei em meu quarto sem ver a luz do dia. Ainda machucada pela surra de papai fui obrigada a ir receber Joaquim. O homem sorridente a minha frente estava feliz por me ver. Disse-me que quase morrera de saudades, mas que enfim poderíamos ficar juntos. Não soube responder a ele, apenas assenti com a cabeça. Não senti saudades dele. Não queria me casar com ele. A única pessoa digna de meu amor já não estava sobre a terra. Estavas me esperando no infinito.

Mamãe mandou-me chamar em teu quarto durante a noite. Seus olhos tristes, mas agora fortes me diziam que teria que cumprir com minha obrigação.

- Minha querida... Não sabes quanto lamento por sua felicidade...

- Não se lamente mamãe. Eu fui muito feliz... Agora só espero por minha morte.

- Não quero que fales deste modo... Aprenderás a amar Joaquim também.

- Jamais saberei amar outra pessoa.

- Sou uma mulher que nunca foi acostumada com a lida diária. Os capitães já estão querendo fazer motim e libertar os escravos. Temos que ter um pulso forte no comando da fazenda e Joaquim podes nos ajudar. Ditarei as regras e ele apenas passara aos outros homens, mas para isso terá que se casar com ele.

- Farei o que queres mamãe, mas jamais serei feliz com ele.

- Com o coração cheio de dor agradeço por sua decisão.

- Tem apenas uma coisa que exijo em meu sacrifício: Todos os escravos desta fazenda serão tratados como seres humanos dignos e não viverão mais naquela senzala imunda. Quero que destrua aquele lugar.

- Farei com que sua vontade seja cumprida.

- Obrigada mamãe.

 

Esta foi a ultima conversa que tive com mame com mais de dez palavras. Não sinto forças nem mesmo para escrever em ti querido amigo... Não brigues comigo se me ausentar por um tempo. Todos os meus momentos em vida serão dedicados a Zambine”.

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