Sunshine: esperança. por femarques


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CAPÍTULO 10:

 

SCOUTT

 

Meu corpo todo entrou em combustão quando o cardápio pesado caiu em cima da mesa, quando o barulho disso acontecendo me chamou a atenção e eu olhei, buscando algum desastre maior, mas tudo o que vi foi Mea, com a pele pálida, os lindos olhos azuis que antes eram cheios de vida e esperança arregalados e apagados, e os lábios entreabertos, sem resposta, sem esperança, sem nada. Estava começando a me acostumar com sua nova feição ao me ver.

            “Acho que encontrei uma mesa.” Olhei para o garçom que me importunava dizendo que “infelizmente, todas as mesas estavam ocupadas”, e apontei com o dedo para Mea, que arregalou ainda mais os olhos, se é que isso é possível. “Vou me sentar com a minha amiga.”

            Desviando do corpo magro demais do garçom, entrei no restaurante e caminhei a passos largos e apressados, cheios de vontade, até sua mesa, onde me sentei em sua frente.

            Mea se recostou na cadeira e deixou as mãos, com os dedos entrelaçados, em cima da mesma. Ela piscou algumas vezes e umedeceu os lábios com a ponta da língua.

            “O que você está fazendo aqui?”

            Abri um sorriso largo para ela e olhei para cima, para o garçom, que nos olhava com atenção, tentando esconder a curiosidade e o divertimento estampados em seus olhos castanhos tão jovens. Pedi a ele uma porção de peixe frito e esperei Mea pedir ostras, causando um reboliço em meu estômago.

            “Tudo bem, Mea? Que surpresa te encontrar aqui.”

            Me encostei na cadeira estofada como ela e fiquei a encarando, tentando encontrar no fundo daqueles olhos a alegria e o desejo que ela sentia, mas tudo o que eu via era medo.

            “Você não gosta de peixe.”

            “Frito eu gosto.” Dei de ombros e sorri. Só eu sorria, ela continuava pressionando os lábios.

            “Não tinha mesa vaga, Scoutt.”

            “Tinha a sua. Ei, não vou te morder, podemos ser amigas agora, tudo bem?”

            Mea olhou em volta como se estivesse se certificando que não tinha ninguém ali nos vendo para recriminá-la da besteira de aceitar almoçar comigo, a garota problema que destruiu seu pobre coração.

            “Tudo bem, Scoutt, tudo bem.” Ela suspirou derrotada e finalmente sorriu, mesmo que forçado.

            “E então, porque está em Seatle?”

            “Vim para a formatura do Tom.”

            “Logo eu volto para Chicago.”

            “Eu sei, Scoutt.”

            “Você está monossilábica demais.”

            Mea estreitou os olhos e me encarou. Ela me olhava desde que eu cheguei como se eu fosse uma estranha. Abri um sorriso largo para ela e cruzei os braços, encarando-a de volta.

            “Para de me olhar assim.” Mea reclamou quando fixei o olhar nela.

            “Se eu pudesse tirar meus olhos de você, eu pararia.”

            Ela riu, sem graça, e suas bochechas coraram.

            “Você disse que almoçaríamos como amigas.”

            “Qual é, Mea. Você está cansada de saber o quanto eu amo você.”

            Senti um aperto no peito no mesmo instante em que aquelas palavras saíram da minha boca, o medo de ser rejeitada de novo, de amar alguém, mas Mea precisa saber para voltar comigo, para me querer.

            “Por favor, não faz isso.” Ela implorou em um fio de voz enquanto abaixava a cabeça para encarar seus dedos magros e compridos.

            O garçom se aproximou com nossos pedidos e após pedir licença começou a nos servir, dispondo os pratos na mesa.

            “Salva pelo garçom.”

            Mea pegou uma ostra e a encostou em sua boca, deixando aquilo escorrer para dentro da mesma. Franzi o cenho e fiz um biquinho de nojo.

            “Isso é muito nojento.”

            Mea começou a rir de verdade pela primeira vez desde que nos encontramos.

            “Qual a graça? Estou suja?” Passei as costas da mão na boca, tentando limpar algo invisível e ela riu ainda mais.

            “Não, estou rindo de mim. Isso é tão engraçado...” Ela fez uma pausa para comer outra ostra e eu comecei a comer meu peixe, comida de verdade. “Eu estive aqui com a minha namorada há um tempo, e isso é tão diferente de você...você não é nada gentil, não experimenta para saber ou para me agradar, ao contrário dela. Você diz que é nojento e acabou, isso é tão...” Mea suspirou e negou com a cabeça. “É tão você.”

            “Calma. Você está me comparando com a sua namorada por causa de uma ostra? Ela comeu essa nojeira para te agradar? Que menina sem graça.”

            Mea voltou a rir e negou com a cabeça. “Isso é educação, Scoutt.”

            “Não, Mea. Isso é não ter personalidade, é ser babaca. Ela não é boa o suficiente para você se precisa ser como você espera. Eu sou assim, cheia de problemas e sem educação, que seja.” Dei de ombros antes de continuar. “Mas é assim que você gosta, eu sei. É dessa contradição que existe entre nós duas, do meu jeito sem educação que você gosta, é isso o que te pega.”

            Mea respirou fundo e me encarou, segurando uma ostra delicadamente. Ela pressionou os lábios e não tirou os olhos de mim enquanto comia. Passamos o restante do almoço quietas. Não nos provocamos e nem tivemos uma conversa normal, eu não perguntei sobre o emprego dela e nem ela sobre o meu, não falamos sobre a cidade, sobre o clima, sobre nada. Apenas a tensão de saber o quanto ainda nos amávamos ficou ali.

            Pagamos a conta, dividindo o valor e seguimos caminhando juntas para o estacionamento.

            “Está de carro?”

            Ela me olhou como se eu fosse estranha de novo e sorriu. “Não, esqueceu que meu carro está em Chicago? Estou de táxi.”

            “Te dou uma carona, quer?”

            Mea parou de andar e começou a mexer na pulseira que ela nunca tirou, desde que nos conhecemos.

            “É só uma carona, não vou te atacar dentro do carro.”

            Ela soltou um riso baixo e fraco, e eu apontei com a mão aberta em direção ao meu Mustang. “Vem.”

            Saí andando na frente e já abri a porta do passageiro, me debruçando nela enquanto esperava Mea se aproximar e entrar no carro. Fechei a porta e dei a volta, entrando em meu lugar.

            Liguei o carro e o rádio e a maldita música que ela me deixou no bilhete quando foi embora começou a tocar. Mea se encolheu como se ela pudesse se tornar parte da porta do carro e abaixou a cabeça, corando toda a pele do seu rosto. Balancei a cabeça em negativo e mudei de música, saindo com o carro pela rodovia.

            “Então, vai ficar até quando em Seattle?”

            “Até na quarta, depois vou embora.”

            “E como vai o Tom e a Adele?”

            “Vão bem, estão firmes. Até Janeiro eles vão para Chicago.”

            “Todos indo embora para Chicago e eu ficando aqui.”

            “Você pode ir também.”

            Olhei para ela de relance antes de voltar a atenção para a rua. “Só vou se for por você.”

            “Você tem que parar com isso, sério.”

            “Eu paro quando eu ver que você realmente me esqueceu. Tenho dó da sua namorada, Mea.”

            Falar o nome dela, assim tão perto, dentro do meu carro enquanto dirijo e posso espiá-la sem deixá-la perceber como antigamente faz meu coração palpitar e minha vontade de tocá-la aumenta dolorosamente.

            “Cala a boca, Scoutt. Não fale da minha namorada.”

            Soltei uma risada alta e comecei a tamborilar os dedos no volante, já me aproximando do prédio em que ela morava antes de eu estregar tudo e faze-la fugir.

            “Sua consciência já pesa demais, não é?”

            Mea bufou e permaneceu em silêncio até chegarmos e eu estacionar na frente da escadaria do prédio, onde já me vi algumas vezes.

            “Obrigada pela carona, nos vemos em reunião em Chicago.”

            Olhei para ela enquanto ela abria a porta e começava a sair do carro. Estava mais uma vez apressada para ficar longe de mim e eu, com tudo o que pensava em dizer e fazer para me aproximar dela, me via mais uma vez quieta. Segurei em seu braço, fazendo-a ficar e me encarar com uma expressão furiosa.

            “Mea, me escuta e depois você pode fugir de novo.”

            “Você tem cinco minutos.”

            “Você precisa sentir o mesmo que eu sinto, porque não é possível que você me esqueceu. Eu escuto um monte de gente falar que você não me quer mais, mas eu duvido que alguém te faz sentir o que eu faço. Tem um milhão de coisas que eu queria dizer a você, mas eu não sei como. Você é como uma salvadora para mim, você veio tirar os meus medos e me fazer sentir coisas boas, querer pela primeira vez me abrir para alguém. E eu não entendo, Mea. Se você dizia que me amava, porque me deixou? Eu preciso de ajuda e preciso que seja sua, preciso de você. Você conseguiu enxergar minha melhor parte, que nem eu ou qualquer outra pessoa se quer viu um dia. Eu desisto se você me disser que não me quer mais, mas se você disser que ainda me quer eu sou completamente sua, com meu melhor e pior jeito, porque desde o dia em que você caiu em cima de mim na faculdade eu sabia que você seria minha de alguma forma. Você consegue me mostrar que eu sou boa e que meu mundo é bom, por isso você é única e eu te amo. Eu nunca acreditei no amor ou que alguém poderia me amar, mas você me mostrou que é possível, me mostrou que minha mente pode ficar livre dos pesadelos e eu posso realizar meus sonhos com você.”

            Terminei de falar e respirei fundo, tomando fôlego. Encarei Mea com os olhos azuis brilhando banhados em lágrimas, que escorriam até parar em seus lábios entreabertos. Vez ou outra, alguma delas conseguia escorrer até o queixo e o pescoço, me fazendo-a invejar.

            “Eu amo você, Scoutt. Mas agora tudo está diferente, tudo bem? Por favor, entenda isso. Não pode vir aqui e me falar tudo isso assim, agora! Porque eu não posso largar tudo agora...”

            “Você pode largar sim, eu não vou desistir se você me ama.”

            Mea fungou e limpou as lágrimas com os dedos, esfregando as mãos na calça. Se aproximou de mim, apoiando-se na minha coxa e beijou minha bochecha de um jeito demorado. Ela respirava fundo e roçou a ponta do nariz em minha bochecha até meus lábios, mas logo se afastou e saiu do carro, sem dizer mais nada.

 

            Parei o carro no estacionamento do campus e enquanto caminhava em direção ao elevador velho para chegar em meu apartamento, pensava que precisava me mudar dali, já que não era estudante mais.

            Assim que abri a porta encontrei Jeremy sentado no sofá comendo biscoito e assistindo à televisão.

            “Cara, vou me mudar.”

            Ele olhou para mim e franziu o cenho. “E qual o motivo?”

            “Porque não posso mais morar aqui, mas você pode continuar, é só trocar a informação de colega de quarto lá na secretária.”

            “Posso ficar com seu apartamento?” Ele abriu um sorriso largo e todo idiota.

            “Sim, pode.”

            Me sentei ao lado dele e peguei um biscoito, enfiando-o inteiro na boca.

            “Almocei com a Mea hoje, encontrei com ela em um restaurante.”

            “E como foi, porca?”

            “Ela confessou que me ama ainda, ao contrário do que vocês idiotas me dizem sobre ela.”

            Jem me empurrou batendo o ombro no meu e deu risada. “Eu já pedi desculpa, não enche o saco. Mas e aí, como foi?”

            “Ela me ama, mas acha que ainda não pode ficar comigo, vai ser difícil.”

            “Boa sorte. E olha, sem querer cortar seu barato, a Megan não para de ligar, vai conversar com ela, por favor.”

            Bufei e revirei os olhos. “Se eu for ela para de ligar?”

            Levantei do sofá e andei até a porta batendo os pés.

            “Acredito que sim, resolva isso logo para depois você ficar na cama pensando na Mea.”

            Mostrei o dedo do meio a ele antes de bater a porta. Atravessei o estacionamento pela calçada até chegar no outro prédio e subir até o apartamento de Megan e Victor.

            Bati na porta três vezes até que Victor abriu, arregalando os olhos ao me ver. “Olhe só, Megan! Scoutt lembrou que existimos.”

            Empurrei ele e entrei. Megan surgiu do corredor estreito correndo e parou eufórica na sala quando me viu parada ali, emburrada o bastante para ela saber que não queria graça.

            Megan estava com o cabelo um pouco mais longo, ruivo queimado ainda, na altura dos ombros, liso e bagunçado ao mesmo tempo. Os olhos castanhos brilhavam e ela abriu um sorriso largo com os lábios finos. Correu em minha direção antes que eu pudesse me defender e se atirou em mim, envolvendo os braços em meus ombros, me abraçando.

            “Que saudade!”

            Permaneci calada e deixei que ela me abraçasse até me soltar. Ela me olhou, com os olhos marejados e respirou fundo.

            “Vamos conversar em particular, Megan.”

            Olhei para Victor, que olhava para nós duas cheio de curiosidade. Megan assentiu com a cabeça e segurou minha mão, me levando até o quarto, onde ela se sentou na cama e eu me sentei também, mas mantendo uma distância segura.

            “Faz um ano, estou morrendo de saudades.”

            “Eu sei, Megan. Senti falta da sua amizade também. Mas nós temos que conversar.”

            “Eu sei, olha, eu não tinha noção que você amava tanto essa menina. Você ficou um ano sem falar comigo pelo o que fiz a ela, então agora eu sei, me desculpa.”

            “Se hoje estou sem a Mea é porque eu errei em explodir, mas a culpa disso é sua também, se você não tivesse contado nada a ela...”

            “Ela merece saber, Scoutt.”

            “Sério, Megan? Do jeito que soube, tem certeza?”

            Ela abaixou a cabeça e suspirou, depois deu de ombros. “Não, eu sei que não. Mas agora já foi, me desculpa.”

            “Tudo bem, eu desculpo e nós podemos conversar, mas como amigas. Se você fizer graça eu paro de falar com você. Não quero ninguém além da Mea, entendeu?”

            “Sim, eu entendi. É melhor sua amizade do que nada.”

            Dei um sorriso e pisquei para ela. “Muito bom, está aprendendo.”

            “Eu tenho uma sessão de tatuagem agora, quer ir? Depois a gente pode tomar alguma coisa ou comer...”

            O assunto estava encerrado. Megan ter pedido desculpa já era suficiente e eu sabia que não conseguiria tirar mais nada dela, por enquanto era isso e por mim estava ótimo.

            “Claro, vamos. Posso chamar os meninos?”

            Vi o olhar cheio de esperança de Megan se entristecer e murchar, mas ela precisa entender que não teremos nada além de amizade. Por fim ela concordou e deu um sorriso sem graça.

 

            Jeremy logo apareceu no estacionamento e não precisamos esperar demais. Seguimos em meu carro até o estúdio e eu sabia que teria uma tarde tranquila e divertida, como nos velhos tempos, mas nada disso me faria esquecer ou amenizaria a angústia que sentia depois da conversa com Mea. Eu tinha a certeza que precisava para continuar, mas não sabia como agir, com fazê-la se convencer de que tudo daria certo entre nós agora.

Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 23/12/2015 21:23 · Para: Capitulo 10
E muito difícil mea confiar e se jogar novamente. Eu entendo. Mas ela precisa ficar só. Se continuar nesse casamento c a outra vai ta enganando as duas. Feliz natal.Bj


Nome: lih (Assinado) · Data: 23/12/2015 18:27 · Para: Capitulo 10

Eh, scoutt cada vez mais próxima de reconquistar a mea... 



Resposta do autor em 11/03/2016:

Uma hora a Scoutt consegue! hehehe

Beijo, obrigada por ler!



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