1808 por Drikka Silva


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- Joana não me espere para o almoço. Vou dar uma volta para espairecer a cabeça.

- Tudo bem Dona Isabel. Vou deixar um prato pronto pra quando a senhora chegar.

- Obrigada Joana.

Isabel saiu pela plantação com o cavalo denominado Lua-cheia. Haviam cumprido um desejo de Ana Maria: Na fazenda sempre existiu um cavalo por nome de Lua-cheia. Isabel não sabia ao certo quem saberia daquele pedido, uma coisa era certa: Sua avó sabia. Ela também sabia da orientação de Sophie: A mais legitima de todas nós... Isabel andou por toda a plantação e saiu em uma pastagem beirando a fazenda. Um carvalho antigo ainda estava em pé na divisa. Ela ficou imaginando se fora ali que havia sido revelado o amor de Aninha e Zambine. Um pouco mais adiante ela encontra o pequeno rio. O calor do dia a fez descer do animal e pular na água mesmo com roupas. Deixou que a água lavasse todos os pensamentos ruins que a atribularam por muito tempo. Nada melhor do que água corrente para lavar as impurezas da alma. Ainda distraída nadando não ouviu o som de outro cavalo que chegava.

- Oi bel... – Natalia fala da beira da água.

- Oi Nat. Veio se refrescar também?

- É... Ta bem calor...

- Entra... Sua mãe falou que você tinha um assunto serio para falar com o Adenilson. Se entendeu com ele?

- Bel, não quero falar sobre isso. Vi como sua reação e não é um assunto apropriado para esta tarde linda.

- Nat eu fiquei surpresa... Eu jamais imaginaria isso...

- Você disse que entendeu o significado da palavra preconceito. Será mesmo?

- Te garanto que sim.

- Vamos ver.

Sem nenhum aviso prévio, Natalia abraça Isabel dentro da água com uma agilidade incrível dando-lhe um beijo de tirar o fôlego. Isabel perde, não só a reação como a pose também: Não soube fazer nem dizer nada. Não correspondeu com o mesmo ardor que Natalia, mas não recuou nem a esbofeteou, como seria a sua reação há uma semana atrás. Quando Natalia se afasta, Isabel sai da água ainda sem palavras deixando uma apreensiva garota no rio.

- Dona Isabel seu prato ta no microondas.

- Perdi a fome Joana. Vou para o meu quarto. Somente se a casa pegar fogo me chame.

Isabel se joga na cama ainda com as roupas molhadas. O que acabara de fazer? “Fui beijada por uma mulher”. Não sentiu nojo como sempre acreditara, não sentiu asco nem repulsa, apenas um sentimento vazio ecoou no seu peito, uma dor porque como o amor de Aninha, o amor de Natalia era impossível.

 

“... Papai disse-me que Joaquim chega na próxima semana para o casório. Nunca chorei tanto em minha vida. Não quero ser um objeto de troca como mamãe foi. Tenho minha própria vontade e ela clama por Zambine. Não quero outra pessoa ao meu lado por todos os dias de minha vida que não seja minha doce amada. Zambine anda mais carinhosa do que nunca. Contei a ela que Joaquim esta vindo: Ela não chorou na minha frente, deu ombros e saiu de meu quarto, mas quando ela regressou puder ver em seus olhos a vermelhidão das lagrimas, as mesmas lagrimas que derramo por não poder decidir por minha vida, mas de uma coisa tenho certeza: Não irei entregar-me a um homem que não amo mais...”

 

“... Zambine entrou em meu quarto Chorando. Não entendi suas lagrimas, mas corri da cama para consolá-la. Coloquei sua cabeça em meu colo e fiquei acariciando sua cabeça que ainda permanecia raspada. Ainda convulsionada pelos soluços de dor ela contou-me sobre sua dor.

- Terei um filho Aninha... – Senti o mundo caindo em meus ombros.

- Como podes dizer-me isto? – Perguntei levando a mão a cabeça.

- Sabes que fui obrigada a deitar-me com os capangas de teu pai. Esse fruto do meu ventre é uma maldição para mim.

- Não digas isso Zambine... É uma criança... – Falei com lagrimas nos olhos.

- É um demônio gerado pela dor.

- Não podes e nem vai. Teu pai fará com que aborte. É uma criança bastarda. Não sei nem quem é o pai...

- Poderemos criá-lo. Podemos dar um jeito.

- Não há jeito...

- Tens certeza que estás mesmo esperando um filho?

- Minhas regras não vem a dois meses e por diversas vezes tive vômitos, mas escondi de ti com medo que não me quisesses mais só que a Antonia disse que não posso mais esconder... Veja: Minha barriga já cresce. Tentei tirar, mas não consegui.

- Jamais faça isso novamente Zambine. Iras matar uma criança inocente...

- Não quero que meu filho seja um escravo...

- Então aceitas como teu filho?

- Não puder ter um filho em liberdade. Não quero ter um em cativeiro...

- Vamos conversar com mamãe... Ela podes nos ajudar...

- Não! Prometa-me que não ira falar a ninguém?

- Temos que contar para alguém que possa nos ajudar...

- Promete-me?

- Prometo, mas não compartilho de tua opinião.

- Se teu pai saber antes, mais cedo vou para a forca.

- Jamais te farão mal a tal ponto.

- Se não fosse por ti, já estarias morta. O que me mantém viva é o teu amor...

- Ouça: Joaquim chega daqui a cinco dias para nos casarmos. Tu iras comigo e terás teu filho.

- Não irei contigo Aninha. Jamais suportarei te ver nos braços de outra pessoa que não sejas eu...

- Não digas tolices...

- Não são tolices. A única coisa que disponho é meu orgulho. O resto foi arrancado de mim como a um animal. Tenho menos direito que o cão de caça de teu pai. Não me peças para ver tua felicidade junto a teu marido.

- Sem ti jamais serei feliz... “.

 

“... Zambine passou o dia sem me dirigir a palavra. Tentei em vão conversar, mas ela não me deu ouvidos. Parece que quando mais eu rezo mais nosso amor se torna impossível. Quando papai descobrir sua gravidez não haverá nada que eu possa fazer, mas antes que ele descubra terei meu momento de felicidade. Sai sorrateira durante o dia para ter com Zambine na senzala. A encontrei tratando de um outro escravo açoitado na lavoura. Os machucados do homem são horríveis.

- Esse é a única coisa que nos espera Aninha: O açoite dos servos do teu pai.

- Venha comigo. Antonia vira para cuidar dele.

- Aonde iremos?

- Ser felizes. Venha.

Puxo a mão de Zambine para fora da senzala e caminho em direção ao estábulo. Dois animais já estão selados esperando por nós.

- Aninha não. Seremos agredidas novamente.

- Joaquim chega daqui a três dias. Tenho que fazer uma coisa antes.

- Meu coração dói. Tenho medo.

- Não tenhas medo. Se não for para ser nessa vida será em outra, mas seremos felizes. Acompanhe-me

Saímos cavalgando pela plantação afora. O sol já baixo deixava o horizonte alaranjado e o sol parecia uma bola de fogo: Estavas lindo. Tenho certeza que foi a ultima vez que vi o sol tão lindo, foi a ultima vez que pude apreciar a beleza das arvores e a natureza que nosso pai celestial nos deu de presente. Nunca vou me esquecer da brisa suave que batia em nossos rostos e dos cavalos que relinchavam como pressentindo nosso destino. Chegamos perto do carvalho onde Zambine havia me preparado tão delicioso piquenique. Ainda sentia em minha boca o doce beijo daquele dia. Descemos do animal e da mesma moita tirei uma cesta. Não havia doces lá dentro. Peguei a toalha que estavas escondida e forrei no chão.

- Joaquim vira daqui há três dias como já disse, mas não quero entregar minha inocência a ele. Não vou deixar que tirem isso de você minha querida...

- Aninha... Eu...

- Não digas nada. Digas apenas que me ama e que pelo menos por hoje seremos as duas pessoas mais felizes do universo.

- Seremos meu amor... Seremos...

Afasto-me e desabotou-o o vestido que cai aos meus pés. Zambine me abraça me beijando com uma sofreguidão que somente nós duas entendemos. Deito-me encima da toalha e fecho meus olhos. Não quero gravar a paisagem ao redor. Quero deixar guardado em minha mente todas as sensações maravilhosas que Zambine desperta meu corpo. Sinto-me morrer e voltar à terra de emoção. Aperto Zambine contra meu corpo que pede mais daqueles momentos majestosos. Os sons desse dia ficarão guardados pra sempre não na minha mente, mas no coração, pois foram sons que saíram da alma. Tentei tocar Zambine, mas esta se mostrou receosa pelo bebê. Não sei quanto tempo passou, mas foram as únicas horas em que eu fui verdadeiramente feliz. Abracei Zambine que ofegava em meu ouvido e quando demos por nós já era noite.

- Aninha eu nunca fui tão feliz em minha vida.

- Nem eu minha querida, agora temos que nos apressar...

- A cólera de teu pai recairá sobre nós de qualquer maneira, mas hoje morrerei feliz por saber que fui a primeira a amar-te. Sabes o quanto isso significa não é?

- Sei sim e podes ter certeza que não seria de nenhuma outra pessoa...

- Não importa a dor que me será infligida, que seja até a morte, mas serei feliz.

- Não digas bobagens... – Mal sabia em minha inocência que aquelas palavras eram profecias.

Já vestida tomei Zambine em meus braços e a beijei como nunca. Não foi um beijo comum... Foi um beijo de despedida...

Ainda colada em Zambine fez se ouvir a voz de papai ecoando pela escuridão e um facho de luz vindo em nossa direção:

- Ana Maria! Estas a se divertir com esta crioula às escondidas?

Tremi de medo, mas tem um ponto na vida que não podemos recuar mais: esse era meu ponto.

- Não papai. Não estou a me divertir com Zambine...

- Por que então fazes esta pouca vergonha?

- Você não entenderia papai. Não sabes o que é o amor.

- Como ousas falar comigo deste modo? Perdeste a razão Ana Maria?

- Perdi o medo, papai. Podes fazer comigo o que quiseres, mas não iras arrancar de meu peito a felicidade que sinto por ter estado com Zambine.

- Deitaste com esta escrava? – Papai pergunta incrédulo.

- Amei-a de toda a minha alma... – Não terminei a frase porque o tapa de papai jogou-me no chão. Ouvi o grito de zambine ao meu lado que se ajoelhou para acudir-me.

- Zambine não importas o que nos aconteça... Nunca se esqueças do meu amor...

- Jamais me esquecerei...

 

Demos um ultimo beijo antes de papai arrancá-la de cima de mim. Vi quando Zambine foi amarrada em uma corda e pude ver papai me batendo com a espingarda. Não senti dor... Não sinto mais dor... Sinto apenas a escuridão que me faz perder os sentidos.

Nome: mtereza (Assinado) · Data: 14/04/2017 02:02 · Para: Capitulo 10 - O começo da dor

Nossa que triste



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