Sobre a delicadeza do seu toque por Luah


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Notas da história:

História com cenas de violência física, psicológica e verbal. Traição. Palavreado de baixo escalão. Cenas de sexo. E bastante drama! Rsrs....

A ligação

 

Um som irritante soa incessantemente, despertando o meu sono. Meus olhos estão pesados demais para se abrirem por conta própria. Minha vontade é de fazer explodir o que causava aquele barulho incomodo. Cubro revoltada a minha cabeça com o cobertor. O som finalmente para. Dou um longo suspiro agradecida. Quando volto a relaxar...

-Liz... - Uma voz manhosa reclama. –Se você não dá um jeito nesse maldito celular. Eu juro que o jogo pela janela. - A mulher agarrada a minha cintura se aninha ainda mais em minhas costas. 

-Volte a dormir, Manu. – Digo me desvinculando com cuidado de seus braços possessivos. Ouço-a reclamar pela minha fuga.

Meus pés nus tocam o piso frio arrancando um gemido de minha garganta. Procuro o aparelho eletrônico entre o emaranhado de roupas espalhadas pelo chão do meu quarto de hotel. Dou um sorriso sínico ao me lembrar da noite agradável com a bela mulher nua em minha cama. Estou em Toulouse há pouco mais de um mês, essa é a primeira cidade Francesa que fico tanto tempo.

Tudo por causa dessa loira deslumbrante que conheci em uma cafeteria. Talvez eu fique um pouco mais, ou talvez simplesmente continue o meu tour pela Europa. Olho de relance para a mulher agarrada ao meu travesseiro. Bem que poderíamos recomeçar o que o cansaço nos limitou a prosseguir madrugada a dentro. Mas antes que a minha mente fértil volte a delirar com varias maneiras agradáveis e deliciosas de despertar a loira, o celular volta a grita desesperado. Olho-o sem muito interesse entre as minhas mãos. No visor aparecia a imagem de uma senhora sorridente de aproximadamente sessenta anos. Era uma senhora bela e de expressões gentis.

Um sorriso involuntário foge de meus lábios.

-Isso são horas de ligar?! – Digo calmamente para a pessoa do outro lado da linha. Abaixo-me para recolher um roupão jogado próximo a uma cadeira. Ela não estava ali na noite passado. Não antes que Manuelly a colocasse. Penso com um sorriso de lado ao me lembrar de como a usamos. Pego o roupão e cubro o meu corpo nu.

-Olhe como fala. - A voz calma e amorosa volta a chamar a minha atenção. –Esqueceu que tem família?! - Questiona-me a senhora em tom de repreensão.

-Jamais me esqueceria da senhora, Dona Catherine. - Digo abrindo com cuidado a porta que da passagem para a sacada. Não quero incomoda a mulher adormecida. Fico admirada com os primeiros raios de sol. É uma beleza tímida e excitante. –Também estou com saudade. - Minha voz sair em deboche. -Eu estou bem. E a senhora?  - Pergunto me encostando no parapeito da sacada. Ouço um suspiro incomodo do outro lado da linha, isso me deixa em alertar. -O que estar acontecendo vovó?

-Liz...

-Fale, a senhora sabe que odeio enrolação. - Me viro de costa para o rio Garonne. Estou hospedada em um hotel próximo as margem do Canal du Midi em Toulouse. Uma das principais cidades francesas.

-Você precisa voltar pra casa. - Ela diz receosa.

Aquela pequena frase fez meu coração disparar loucamente. Por um minuto eterno retenho o ar em meus pulmões. Não piso no Brasil há mais de dez anos. Desde o dia em que...

Um suspiro cansado foge irritado. Não tenho a menor intenção de voltar. Por mim nem mesmo teria lembranças. E me pedir isso era assustadoramente injusto.

-Eu sei que...

-Eu não vou voltar. - Minha voz sair irritada.

-Minha querida, apenas escute a que tenho a lhe dizer. - Vovó me pede angustiada.

-O que estar acontecendo? Por que essa insistência?! Já lhe disse milhares de vezes que não piso os meus pés nesse lugar.

-Lizandra! - Um suspiro cansado soa do outro lado da linha. –Agora é diferente.

-Diferente?! - Tento engolir minha frustração. Apesar de tudo, vovó não é a causadora de minha angustia. Pelo contrario. –Vovó, eu não quero falar sobre isso. - Comento tentando mudar o foco do assunto.

-Liz, é sobre o vovô. - Quando ela fala isso, sinto um aperto em meu coração.

-O que houve com ele? - Pergunto em um tom desesperado.

-Ele... Ele... - Dona Catherine enrola me deixando ainda mais aflita.

-Vamos vovó. Não é tão difícil. - Reclamo pelo silêncio do outro lado. –É só dizer.

-Ele sofreu um infarto. - Sinto o ar escasso em meus pulmões. É como se suprimissem a minha respiração. –Ele...- Vovó começa a chorar. –Ele não para de chamá-la. Então eu te liguei. Eu sei o quanto é difícil minha querida. Mas por favor, volte pra casa.

-Eu... Eu não posso vovó. - As lágrimas já se acumulavam em meus olhos azuis. Mas eu não podia deixa-las transbordar.

-Não seja egoísta! - A voz da senhora sai reprovadora. –Já está na hora de enfrentar o passado. E seu pai...

-Não tenho pai!

-Então faça isso pelo seu avô e por mim. - Então um silêncio constrangedor cair sobre nós duas. Ficamos caladas. Eu podia ouvir claramente sua respiração descompassada. Também sei, que ela podia ouvir a minha. –Liz, eu não te pediria isso se não fosse importante.

-Como ele estar? - Pergunto com medo de que algo ruim tivesse acontecido com o único homem que foi um exemplo de pai em minha medíocre vida.

-Ele apenas quer vê-la. Foi assustador. - Vovó suspira cansada. -Mas ele estar bem melhor agora.

-Quando isso aconteceu?

-Ontem à tarde. Tentei te ligar antes, mas não conseguir. - Então me lembro do passeio prolongado com Manu. Acabei esquecendo o aparelho celular no hotel. Por um momento me odiei por isso.

-Não se preocupe, vovó. Estarei aí o mais rápido que posso.

-Obrigado. - Sua voz sai emocionada. –Sinto muito por isso.

-Jamais se desculpe por algo do tipo. A senhora sabe o quanto é importante em minha vida. Assim como aquele velhote teimoso. - Digo em tom de brincadeira. Jamais gostei de vê-la triste.

-Olha só quem fala em teimosia. Você é tão ou mais que Bernardo. Vocês dois me deixam louca. - Ela sorrir animada. –Eu te amo. E estou morrendo de saudade.

-Também estou com saudade vovó. - Levo a minha mão livre sobre os meus olhos cansados. –Diga aquele velhote que o amo. E que ele se comporte até eu chegar.

-Direi. - Houve mais alguns segundos de silêncio. –Obrigado, eu...

-Não por isso, vovó.

-Liz...

-Pois não?!

-Você é uma mulher valente. - Mordo o meu lábio inferior ao ouvir isso. –Nunca se esqueça.

-Não esquecerei. - Falo emocionada sabendo o qual grande era o significado daquela pequena frase. –Até mais vovó.

-Até, minha querida.- E só o que escuto é o som da ligação encerrada. 

-Então é isso?! - Digo baixinho pra mim mesma.

Volto-me novamente para o rio Garonne. Estou há mais de dois anos viajando por vários lugares do mundo. Sempre registrando momentos e emoções. Não que eu não goste de fotografar. Para falar a verdade, foi esse pequeno sopro de vida que me salvou. Não escolheria outra profissão, não agora. Não com a certeza de que jamais poderei fazer o que tanto amo. Ou amei. Já não sei a resposta para esse desesperado questionamento. Afinal, mesmo se eu quisesse jamais poderei voltar a tocar, não como antes. Olho para a minha mão esquerda. Vejo algumas pequenas cicatrizes. Isso faz meu coração comprimir. Ela é incapaz de executar movimentos tão complexos e apaixonantes. Não depois que...

Nunca mais saberei o que é deslizar suavemente sobre as teclas de um piano. Mesmo depois de dezenas de cirurgias para recuperar os movimentos e sensações. Elas não foram capazes de trazer o meu eu completo. Foram longos anos de fisioterapias. Longos anos de dor. E a certeza de que nunca mais tocarei com a plenitude de antes. Fecho com força a minha mão. E sinto a mágoa de tantos anos acumulada.

Volto-me, e olho para dentro do quarto. E em passos lentos me aproximo da mulher adormecida em minha cama.

 

Afinal, a vida continua. 

Notas finais:

Olá! Este é o meu primeiro conto, então sejam gentis. Rsrsr

 

PS: Sinto muito por qualquer erro de ortografia. Bjs... 



Comentários


Nome: Naiara Gopin (Assinado) · Data: 20/02/2018 23:17 · Para: Capítulo 1 - A ligação

Aguardo ansiosamente a continuidade dessa história. Muito obrigada a autoria, essa história é brilhante! Que venha os próximos capítulos... :) 



Resposta do autor:

Pode ter certeza que virão muitos outros. Obrigado minha linda é sempre bom ouvir a opinião de todas vcs.

Beijos



Nome: pamg (Assinado) · Data: 15/02/2018 03:22 · Para: Capítulo 1 - A ligação

Comecei hoje e estou gostando demais. Parabéns, autora! :)



Resposta do autor:

Obrigado. E seja bem vinda. 

Bjus... 



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 04/01/2018 14:58 · Para: Capítulo 1 - A ligação

Parece muito bom. Vou continuar a leitura.



Nome: Jubh (Assinado) · Data: 03/01/2018 18:38 · Para: Capítulo 1 - A ligação

Tem certeza de que é seu primeiro conto? Então começou muitíssimo bem!!! Ansiosa já para o desenrolar dessa história tão rica em detalhes e que nos leva para dentro da cena. Parabéns e não desanime!



Resposta do autor:

Certeza absoluta. Rsrsrs...

 

Mas espero sinceramente que seja o primeiro de muitos. Obrigado pelo incentivo. Ele é sempre bem vindo. Espero que me acompanhe nesse desenrolar, nesse algo que acabo de descobrir que é deliciosamente viciante. E pode ter ser certeza que pretendo escrevê-lo até o fim.  



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