Amor e caos por Ana Little
Summary:

Açucena tem uma vida complicada, está presa a um relacionamento com uma mulher perigosa. Rafaela é uma menina rica, aventureira e inconsequente, acostumada a ter todas as mulheres que deseja. Um encontro casual, uma paixão sem limites, um romance proibido… E elas se veem tendo que enfrentar dificuldades inimagináveis para viver esse sentimento, e nem imaginam o quanto suas histórias de vida estão ligadas. Coincidências? Ou tudo faz parte dessa força estranha que move o mundo sem que notemos, que faz com que nossas vidas sejam transformadas e sigamos por caminhos não planejados?


Obs: Caso surja alguma dúvida, sou eu mesma, a dona da história. Apenas troquei de pseudônimo. Recebi alguns pedidos e decidi repostar o romance. 


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 14 Completa: Não Palavras: 49963 Leituras: 2745 Publicada: 15/04/2018 Atualizada: 20/05/2018
Notas:

Bom, meninas, é isso aí, algumas pessoas pediram e decidi postar a história novamente. Há algumas pequenas mudanças, inclusão de cenas inéditas e tal. E como eu disse na sinopse, pra não restar dúvidas, Sou eu, a mesma autora, só mudei o pseudônimo. 

Postarei aos poucos porque estou fazendo alguns ajustes, e por falta de tempo também rsrs

Quem ainda não leu, aí está. 

Sejam bem-vindas 

 

 

1. Prólogo por Ana Little

2. Açucena por Ana Little

3. Rafaela por Ana Little

4. Dione, Alice e Rafa por Ana Little

5. O encontro por Ana Little

6. Diana por Ana Little

7. Tentação perigosa por Ana Little

8. Garota proibida por Ana Little

9. Fascinação por Ana Little

10. Eu, você e a lua por Ana Little

11. Só por você por Ana Little

12. A qualquer preço por Ana Little

13. Consequências por Ana Little

14. Decisões difíceis por Ana Little

Prólogo por Ana Little

 

 

Amor e caos

"Então, que eu fique, e seja executado; Concordo, se é assim que você quer. Esse cinza não é o olhar da aurora, mas só o reflexo pálido da lua. Não ouvi cotovia, cujo canto reboa até a cúpula do céu. Que me importa partir? Quero ficar. Conversemos, amor; não é a aurora." William Shakespeare, Romeu e Julieta.

 

*  *  *

 

Prólogo

 

O Honda Civic preto avançava pela estrada estreita e vazia, de terra batida, entre a mata seca de juremas e marmeleiros sob os últimos resquícios do dia. Um rastro de poeira ia ficando para trás, naquele cenário desértico e silencioso do sertão, àquela hora doce da tarde, o horizonte banhado pela luminosidade fosca do crepúsculo.

Rafaela pisou no acelerador e alcançou a pista da rodovia. Imaginou a blogueira mais fofoqueira da cidade criando a manchete: "Rafaela Hoffmann é presa dirigindo um carro roubado a 200 km da cidade". Mas ignorou o pensamento. Não dava a mínima para isso agora.

Hoffmann...

Pela primeira vez na vida, Rafa não sentia orgulho de carregar aquele sobrenome. Todas as certezas que diziam respeito a ele e, consequentemente à sua vida de antes, tinham virado pó.

__Merda!__ ela xingou, olhando para o velocímetro.

Só uma coisa a importava naquele exato momento. Salvar a vida da bela garota ao lado, no banco do carona, que por acaso era o amor da sua vida.

__O que foi?__ Açucena indagou, os olhos cor de mel assustados e tensos, os cabelos loiros esvoaçando no vento.

Açucena...

Nunca tinha amado uma mulher assim antes. Tivera inúmeras garotas em sua cama e justo quando tinha decidido amar uma, seu pai queria matá-la.

__Precisamos abastecer__ Rafa avisou, depois de ter avistado um posto de gasolina em frente, na beira da estrada.

Açucena se sentiu desconfortável com a ideia.

__E se eles nos alcançarem?

__Aí pensamos em outra coisa__ Rafa olhou para uma mochila, sobre o painel, onde estava a 9mm que pegara daquele cara que tinha sido baleado no tiroteio.

Ela parou o carro.

Mas o lugar parecia tão deserto quanto a rodovia. Nem sinal de frentista e a lojinha de conveniência decrépita nos fundos parecia abandonada.

__Vou dar uma olhada lá__ Rafa disse ao sair, pisando firme com seu tênis da Adidas na terra seca. Sua calça jeans surrada e meio caída tinha manchas escuras, com um rasgo abaixo do cós da cueca preta da Cálvin Klein que ela usava.

Açucena se escorou no carro, vagando um olhar pela estrada vazia e o lugar silencioso. Sua roupa não estava em melhor estado. A blusa branca estilo bata exibia manchas de sangue e terra. Pensou com amargura na hora em que escolhera aquela roupa para sair com Rafaela. Elas teriam passado aquele dia todinho juntas, fazendo amor e se curtindo. Agora Açucena estava ali, olhando para si mesma, toda suja e fugindo da morte.

Rafa saiu da loja, com o frentista logo atrás. Ele pôs o combustível devagar. Ela ficou parada olhando para ele inquieta, as cores das tattos resplandecendo na pele clara, a flor de açucena vermelha que Rafa havia feito recentemente em homenagem a Açucena, e o desenho maori negro no ombro, além de pedaços de outros desenhos que se insinuavam para fora da camiseta e partes do dragão celta que quase lhe cobria as costas. O tecido claro evidenciava o contorno redondo e perfeito dos seios, embaixo de um sutiã preto, as alças escuras contrastando com as brancas, se sobressaindo na pele delicada.

Açucena podia ver a tensão estampada no rosto dela de um modo que nunca vira antes. Se fixou nas faces coradas de Rafaela, aquele focinho de patricinha lindamente esculpido que amava, que sempre parecera querer dizer "foda-se" para todo mundo. Mas que agora, estava concentrado em fazer algo para lhe proteger. Aquele focinho sempre a olhara com o amor mais puro e sincero do mundo e ela nunca conseguira acreditar. Agora tinha mais certeza. Rafa a amava, como nunca ninguém a amara.

Lá perto da bomba de gasolina, Rafa acompanhou com impaciência o rapaz pegar a maquininha de cartão. Os olhos cinzentos dela estavam fixos nele, a pressa gritava neles. Açucena não pôde evitar de reparar em como o cabelo dela estava bonito, os fios curtos bagunçados daquele jeito charmoso.

Com toda aquela confusão, elas nem puderam cumprir os planos românticos daquele dia. Que era para ser um dia especial das duas e acabara se tornando um pesadelo.

Mal Açucena havia acabado de concluir o pensamento, um carro suspeito despontou na curva da estrada. Mal as duas se entreolharam, se dando conta do perigo, avistaram três homens dentro, com armas na mão. Tiros começaram a soar. Elas entraram precipitadamente no Honda Civic. Rafa enterrou a chave na ignição, girou-a e arrancou com o carro, levantando poeira. Açucena se abaixou no banco, em pânico.

Olhou para trás de relance e viu o veículo seguindo-as em alta velocidade. Rafa pisava no acelerador, tentando ser mais rápida do que eles.

__Desgraçados!__ ela xingou, com as mãos no volante, olhando de relance para trás, depois para o velocímetro.

Açucena por um momento não conseguiu se mover, só ouvir o ribombar dos tiros, que estouravam a todo momento, vindo do veículo de trás, temendo a possibilidade aterradora de um deles atingi-las. Resgatando um mínimo de coragem, ela esticou a mão até o painel, abriu com dificuldade a mochila e pegou a arma.

__Não faz isso! A gente pode precisar dessas balas!

__Estamos precisando agora!__ Açucena direcionou o cano da pistola para fora e começou a tirar.

 

Açucena por Ana Little

 

 

Capítulo 1-- Açucena

 

As lembranças marcantes de sua infância eram de uma casinha no sertão, perto de um riacho, com galinhas andando pelo quintal feito com estacas de madeira, um fogão a lenha, bonecas costuradas à mão por sua mãe.

Sua mãe… Quando tinha 14 anos, Açucena ficara sabendo que era adotada, que em algum lugar do mundo havia uma mulher que era sua mãe biológica. Mas na época, o fato não significara nada. Gostava de amar a mãe que conhecia.

Porém, naquele mesmo ano a perdeu. Ficou sozinha no mundo. Nunca se esqueceria daquela tarde, depois da morte da mãe. Até o ar que respirava parecia carregado e opressor como nunca. Viera aquela mulher do orfanato. E uma Assistente Social, conversando com os vizinhos, com aqueles supostos papéis do Conselho Tutelar. E a levaram embora para Fortaleza. E lá Açucena descobriu que aquelas duas mulheres não eram quem diziam ser. Se viu sozinha numa cidade grande e desconhecida, nas mãos de pessoas que tinham más intenções com ela. Nunca havia conhecido o medo antes.

E assim aquela menina de 14 anos acabou caindo nas garras de uma organização criminosa conhecida pela polícia simplesmente como Organização, cujo comando estava nas mãos de Diana Dantas, uma mulher impiedosa, que se escondia sob a fachada de uma conhecida empresária.

 

                            Tempos atuais

Açucena estava estressada. Como sempre. E tentando esquecer que aquela noite era seu aniversário. 20 anos. O primeiro que ia passar trabalhando naquela boate deplorável.

Respirou fundo enquanto tentava conseguir um espaço no espelho sujo que dividia com as outras meninas, para dar os últimos retoques na maquiagem do show. Depois de todos aqueles meses não havia se acostumado com a confusão naquele lugar sombrio e tenso que era o camarim. As garotas andavam de um lado para o outro, esbarrando umas nas outras, trocando de roupa, procurando coisas. Os cheiros agridoces de vários perfumes misturados, envolvidos no odor de mofo do pequeno espaço embrulhavam seu estômago. Ao longo dos anos fora acostumada a ambientes luxuosos demais para se acostumar facilmente com aquilo.

Elas estavam sempre com pressa. Afinal, o tempo gasto ali era dinheiro perdido. Pareciam um bando de hienas famintas. E seriam capazes de devorar umas as outras conforme as circunstâncias. Era esse o clima naquele lugar. Elas sorriam entre si como amigas. Mas pareciam nutrir secretamente ódio uma pela outra.

__Vai ocupar espaço aí no espelho o resto da noite, princesinha?__ disse uma delas para Açucena.

Desde que ela começara a trabalhar naquela maldita boate de striper, o Clube Fantasy, vinha recebendo todas as noites uma avalanche de hostilidade por parte das outras dançarinas. Porque elas sabiam quem ela era. A protegida "do chefe". Aquelas garotas não sabiam sobre a existência de Diana. Elas achavam que a Organização era comandada no Brasil por um homem. E que Açucena era amante dele. Elas a chamavam ironicamente de "princesinha". E se perguntavam o que ela tinha de especial para ser tratada como se fosse superior a elas. De modo que o clima naquele lugar era horrível para Açucena. E a coisa vinha piorando a cada dia, com o crescente alvoroço dos clientes toda vez que Açucena aparecia no palco. Recentemente haviam rolado boatos de que alguns tinham oferecido fortunas para tê-la por uma noite. Enquanto aquelas garotas invejavam Açucena por isso, ela abominava essa ideia.

Felizmente, por ordem de Diana ela não devia atender os clientes como as outras, não fazia programas. Aliás, não podia sequer falar com eles. E no palco usava uma pequena máscara que lhe cobria parte do rosto, como as máscaras de carnaval. Talvez esse fosse um dos motivos para tal sucesso. Ela era a dançarina misteriosa. Angel. Era assim que se chamava agora. Um nome escolhido por Diana, é claro.

Ultimamente cada vez que Açucena se olhava naquele espelho sujo do camarim, via menos a si mesma, e mais aquela Angel.

De qualquer forma, ela não sabia mais o que restava da menininha que saíra do sertão, aos 14 anos. No início, ter caído nas mãos de Diana Dantas parecia um presente dos céus. A mulher havia ficado fascinada por ela desde que a vira. E a conquistara. Mas em todos aqueles anos, muitas coisas haviam mudado. Agora aquela obsessão de Diana por ela se assemelhava mais a uma maldição.

Açucena nunca esqueceria a cadeia de acontecimentos que a havia trazido até a situação atual.

 

Flashback 

A mãe adotiva de Açucena havia sido vítima de um câncer. E no leito de morte, entregou à garota uma medalhinha de ouro que fora deixada com ela ainda bebê, por sua mãe biológica. Uma mulher misteriosa que um dia viera até Rita com aquela linda criança e depois se fora para sempre. Apesar de achar a situação estranha, Rita criara a menina com muito amor, lhe dera um nome, um registro.

Açucena conservara a medalha como seu objeto precioso a vida toda. Mesmo sem nunca imaginar o que as iniciais A, J, A, J, significavam. Quando a mãe havia falecido, pedira a Açucena que ela nunca devia desistir de procurar sua família biológica.

__Quando eu não estiver mais aqui, minha filha__ dizia a figura pálida, deitada sob o lençol de croché, naquela cama sem cabeceira, o sol entrando pelas brechas e rachaduras da janela__ Essa é a única pista que pode levar você a sua outra família. Sua família de sangue.

Mas com o passar dos anos e o desenrolar das circunstâncias em sua vida, Açucena passou a acreditar que isso nunca aconteceria. Mesmo assim guardava a medalha como um amuleto.

E durante todos aqueles anos, só aquele pequeno objeto havia restado de suas verdadeiras origens. Ela se agarrou a isso para não se desesperar quando se viu sozinha, uma criança triste e confusa que confiou nas pessoas erradas e caiu numa armadilha.

A lembrança mais forte que Açucena tinha era do dia em que havia visto Diana pela primeira vez, em Fortaleza. Uma mulher alta e elegante, de cabelos lisos na altura dos ombros, de expressão severa e felina, vestida num terno preto. A chefe de uma organização criminosa especializada em contrabando de armas e tráfico de pessoas.

Era uma sala luxuosa. Mas Açucena estava assustada demais para admirar aquilo. Quando os dois olhos escuros e brilhantes da mulher pararam nela, não se desviaram mais. Pareciam definitivamente deslumbrados, hipnotizados. Com passos cautelosos, Diana se aproximou.

__Como você se chama, meu anjo?

Açucena mantinha os olhos baixos, odiando tudo o que estava acontecendo e, sobretudo, aquela mulher. Não imaginava que a partir daquele momento, pertenceria a ela de modo inescapável.

Tinham se passado seis anos.

Açucena tinha então dezessete anos, estava no apartamento de Diana no Leblon, no Rio de janeiro. E naquela noite estava acontecendo uma das "reuniões" de membros da Organização, na verdade uma das muitas festas que Diana havia passado a dar nos últimos tempos.

Açucena olhou-se no espelho do banheiro, arrumando a massa de cabelos loiros ondulados. Seus olhos cor de mel, com delineador preto, estavam turvos. Ela havia exagerado nos drinks, como sempre, misturado algumas coisas. Mas ainda equilibrava-se bem. Estava sóbrio o suficiente para manter a postura de princesa que Diana exigia.

Agora sempre havia motivo para festas. O apartamento cheio. Não que Açucena não gostasse de festas, mas algo naquelas "reuniões" a incomodava. Um clima pesado pairava naquelas recepções onde vinham pessoas que ela sabia, faziam parte da Organização. Executivos de grandes corporações, jogadores de futebol, políticos corruptos. Gente sórdida, do nível mais asqueroso de criaturas. E Diana fazia parte disso, estava no centro daquela teia obscura.

Açucena ficou quieta um instante, ouvindo o som que vinha lá de fora. Desejou que de repente se fizesse silêncio, como num passe de mágica. Só queria estar em sua cama agora. Queria apenas que as coisas voltassem a ser como antes. Elas duas juntas, viajando, numa lua de mel interminável. Diana cobrindo-a de mimos, dedicando-se cegamente a ela.

Porém, Diana não era mais a mesma daquela época em que a conhecera. Fora se tornando ausente, estressada demais com os negócios. O relacionamento delas havia se abalado. Naquele tempo e no decorrer da adolescência de Açucena, seus dias eram como uma eterna aventura. Viagens, roupas incríveis, joias. E Diana. Naquele tempo tinha Diana de verdade. Era apaixonada por ela. Era sua "princesinha". Agora havia perdido Diana definitivamente para aquele mundo sórdido. Ou então Diana havia enjoado dela. O fato é que não a reconhecia mais. E Açucena se sentia como um brinquedo que havia perdido a graça para ela. E assim, sua paixão por Diana se extinguiu, como se nunca tivesse existido.

Diana não era mais a mesma.

Antes ela evitava que Açucena participasse daquelas "reuniões", como uma forma de mantê-la longe daquilo. Agora não. E já começava a mencionar que Açucena teria que conhecer tudo sobre a Organização, pois um dia ocuparia um posto de comando, ao seu lado.

Nunca! Açucena nunca faria isso. Mesmo que ainda não tivesse dito isso para Diana.

Se pelo menos pudesse fugir...

Não queria o futuro que Diana planejava para ela. Não queria ser uma deles. Ela preferia morrer. Sempre soubera que o dinheiro que lhe proporcionava aquelas viagens, as roupas caras, perfumes, o mundo luxuoso no qual vivia, no qual havia crescido, vinha disso. Era um dinheiro maldito. Mas ela procurava não pensar. Tentava também não se lembrar que aquilo tudo não passava de uma prisão, que ela não era mais do que a namorada- troféu de uma chefona do crime.

Talvez um dia iria embora dali, escaparia das vistas de Diana para sempre. E tentaria achar sua mãe biológica. Iria até aquela região de onde viera, uma fazenda chamada Santa Clara, no sertão, aquele lugar que agora fazia parte de remotas lembranças da sua infância...

Que ilusão. Não é possível ir para um lugar onde Diana não me ache, pensava. É claro que não.

Ela sentiu uma lágrima escapar-lhe.

Com um movimento débil, esticou-se e subiu na pia de mármore, escorando-se na parede. Fechou os olhos.

__Um rosto lindo como esse não combina com lágrimas.

Açucena abriu os olhos quase num susto. Mas conhecia muito bem aquela voz, bem como o sotaque. A mulher elegante, vestida numa camisa branca, blazer cinza, os cabelos loiros na altura dos ombros, vinha se aproximando devagar, pisando levemente, com seus sapatos impecáveis, no azulejo branco. Adele Delage. Francesa. Estava há pouco tempo na Organização.

Há um mês, quando vira Açucena pela primeira vez numa das festas, parecera nitidamente encantada. Açucena pôde sentir isso desde o primeiro olhar que haviam trocado. Alguma coisa à primeira vista. Nela mesma também, mesmo que tenha lutado contra. Não foi possível negar a si mesma por muito tempo. Havia se sentido muito atraída por aquela mulher. Tentara fugir dos olhares dela, das tentativas discretas de aproximação. Mas em todas as festas, lá estava Adele, buscando seu olhar, oferecendo uma taça de champanhe, enchendo-a de elogios e frases sedutoras, sempre com aqueles belos olhos azuis fixos nela, como se quisessem prendê-la.

Diferente das outras vezes, naquela noite em que estava excessivamente deprimida e com sentimentos autodestrutivos, Açucena não conseguiu resistir à sedução da francesa.

Nas próximas semanas elas continuaram se encontrando. Açucena viajou com Diana para a Espanha e Adele deu um jeito de ir junto. Elas continuaram mantendo o caso, até aquela tarde, quando Açucena estava num hotel em Madrid.

Ela estava deitada na cama de bruços, os cotovelos apoiados no colchão, os pés levantados. Folheava uma revista de moda, mas sem conseguir prestar atenção em nada. A ansiedade a torturava. Suas mãos estavam frias. Naquela hora Diana estava provavelmente num voo com destino a Paris, rumo a um encontro com a filha, Melissa. Ou seja, longe o bastante para lhe proporcionar sem querer, um encontro perfeito com Adele.

Mesmo assim Açucena estava imersa num misto de medo e remorso. Como em todos os encontros anteriores. Mas Diana merecia! Por todas as vezes em que a deixara sozinha. Por humilhá-la, sempre mostrando que ela não passava de uma propriedade sua. Por tratá-la como uma bonequinha com a qual brincava só quando lhe dava vontade. Até por agir como se ela fosse indigna de conhecer sua filha. Açucena nunca havia visto a garota nem por foto. Por alguma razão Diana sempre mantivera a filha distante. Não costumava sequer se estender nos detalhes sobre ela. Açucena sabia apenas que a menina, que devia ter sua idade, era fruto de uma "produção independente" e que morava em Paris, onde a mãe a mantinha intacta, longe da vida que levava.

A campainha tocou. 

Açucena largou a revista e levantou-se para atender a porta.  Era muita ousadia se encontrarem ali no hotel, na suíte da própria Diana. Mas Adele insistira. O perigo a excitava. 

Açucena olhou através do olho mágico para se certificar de que era mesmo Adele. Então afastou mais o robe de seda que deixava entrever a lingerie de renda vermelha e a meia preta até o meio das coxas.

Abriu a porta

Adele estava parada, com aquela expressão de expectativa que tinha o poder de acendê-la de imediato. Os olhos azuis da mulher caíram sobre Açucena num deleite de prazer, antes de ela dizer com seu charmoso sotaque francês e a voz carregada de tesão:

__Ma chèrie (minha querida)...

Açucena se aproximou devolvendo o olhar de desejo, e sussurrou:

__Tout a vous (toda sua)-- e puxou-a para entrar logo. 

Açucena sorriu com malícia, excitada, a adrenalina esquentando seu sangue. Adele apossou-se dos lábios dela, arrancando suas roupas. Logo estavam nuas, os corpos grudados, deleitando-se num momento proibido de luxúria. Ali sobre a cama de Diana. 

A porta se abriu com um baque. 

Elas pararam e olharam naquela direção ao mesmo tempo, vendo com espanto a pessoa parada, olhando para ambas. 

Diana Dantas. 

Por um segundo Açucena pensou que aquela imagem não era real. Diana de pé, no limiar da porta, o olhar petrificado, encarando-a. Era mais do que choque e ciúme o que havia naquele olhar. Era algo primitivo, quase inumano. Adele ergueu-se num sobressalto. Açucena puxou os lençóis e sentiu as mãos dela a apertarem de modo protetor. Diana permaneceu imóvel, pelo que pareceu uma eternidade. Os olhos gélidos e mortiços vindo de Adele para Açucena. 

__Mas que surpresa...__Diana deu dois passos em frente. Um sorriso estranho se formou em seus lábios. 

Adele levantou-se, obstinada, como que preparada para qualquer consequência.

Açucena sentiu um arrepio percorrê-la quando Diana olhou nos olhos da outra. Mal viu a mão dela se movendo para dentro do blazer. Ágil e rápida. Diana tinha sacado a pistola. 

Adele arregalou os olhos, em pânico. Sua boca se entreabriu, como se ela fosse dizer algo. Mas Diana já estava apontando a arma, firme e triunfante.

Açucena sentiu o terror dominá-la, a certeza aterradora, a culpa...

Apesar disso ela não conseguiu se mexer. Não tinha forças. Estava paralisada pelo medo, pelo impacto da situação. Olhou para Adele sem saber o que fazer.

Diana apertou o gatilho sem hesitar. Um tiro certeiro na cabeça.

__Não...__ Açucena sussurrou, desesperada, ao ver o corpo de Adele ir desfalecendo. Fechou os olhos, apertando-os sob as pálpebras, tremendo de pavor e choque. Encolheu-se mais na cama.

Diana ficou assistindo friamente Adele tombar para trás, os olhos revirados na agonia da morte, o sangue jorrando de sua testa, escorrendo por sua pele branca, atingindo o lençol da cama, se alastrando pelo tapete felpudo. Morte instantânea. 

Só então os olhos de Diana voltaram a Açucena. 

__Vista-se!__ ela ordenou entre dentes, sua voz ríspida, quase um silvo.

Açucena se viu levantando-se, pegando o robe, evitando olhar para o corpo no chão. Um cadáver agora. Da mulher com quem fazia amor há minutos. Nunca esqueceria aquela cena. Teria pesadelos terríveis...

Perturbada, os sentidos confusos, as mãos trêmulas, Açucena se vestiu depressa.

Diana permaneceu onde estava, olhando para ela, seu rosto sem expressão. Fez sinal e dois homens, dos muitos que trabalhavam para ela, apareceram na porta.

__Livrem-se disso!__ela apontou para o corpo de Adele. Indiferente e impiedosa.

Naquele momento Açucena percebeu que era capaz de odiar Diana.

* * * 

Entraram num quarto. Outro hotel, do outro lado da cidade. Diana bateu a porta e arrastou Açucena pelo braço, atirando-a com violência sobre a cama.

Olhou-a com asco, como se estivesse tentando decidir o que fazer com ela.

Açucena manteve-se na mesma posição que havia caído, mergulhada em fúria contida. Evitava olhar para a mulher. As palavras de Adele ecoavam em sua memória: "Você é um animalzinho selvagem que precisa ser livre"

__Se quer agir como uma puta, então será uma__ a voz de Diana era sombria e severa. 

__O que quer dizer? 

Ela não respondeu. Foi até a janela, afastou as cortinas, pegou o celular e discou um número.

__Kennedy? Vocês já atenderam aquele cliente árabe, Hassan Kaddourah, acho que é esse o nome... Ok, ok. Mande trazer a garota de volta. Diga ao homem que tenho outra que ele... com certeza vai gostar mais...__Diana encarou Açucena com um prazer mórbido, porque sabia que ela havia entendido.

Perplexa, Açucena tentou achar no olhar dela um indício de que estava enganada.

__O quê? Não pode fazer isso comigo!

__Eu posso sim! Você quer ser uma puta?__ Diana foi até ela, segurou-a pelos cabelos e ergueu-a__ Você quer? 

__Não!__ Açucena protestou, chorando confusa, perdida.

Diana soltou-a com um safanão, jogando-a de volta na cama.

__Sua vagabunda ordinária!__disse entre dentes, virando as costas a ela, exaltada, nervosa e descontrolada.

__Eu odeio você! Por todas as vezes que fez eu me sentir um lixo, ou uma "coisa" que você usa pra satisfazer seus caprichos. Uma putinha particular. É isso o que sempre fui pra você! 

__Cala a boca!__a voz de Diana ecoou pelo quarto__ Eu salvei você quando ainda era uma criança! Você nunca chegou a ser de ninguém. Não se tornou prostituta como aquelas meninas que foram trazidas com você. Eu cuidei de você, sempre a mantive protegida. De tudo e de todos.

__Você quer dizer presa. Você sempre me manteve sob o seu comando, como um subordinado da Organização ou pior, como uma das vítimas. A diferença é que sempre fui a sua prostituta exclusiva. E agora as coisas não são mais como antes. Foi você quem fez isso comigo. Você me levou ao auge da solidão e do desespero. E ela foi o meu refúgio...

__Refúgio? Ah, safadeza tem outro nome agora? Eu flagrei minha mulher na cama com outra e agora sou a vilã da história?

__Eu não sou sua mulher, Diana. Nós nem somos casadas. Você nunca teria me dado seu nome, não é? 

__E se tivesse, teria sido um erro__ Diana atacou, cortante e feroz__ A única coisa que tenho pra você agora é o cliente árabe que está esperando numa suíte de luxo, a meia hora daqui. Por isso acho melhor se vestir da maneira mais sexy possível. Vista-se como a puta que vai ser de agora em diante! 

Apavorada, Açucena amparou-se na cabeceira da cama.

__Vai mesmo me obrigar a isso?

 __Vou.

 Diana olhou-a firme e severa. 

Algumas horas depois Açucena caminhava, resignada e apática, acompanhada de Carlão, o principal capanga de Diana e mais dois seguranças pelo hall do hotel onde o cliente estava hospedado.

Ainda não conseguia acreditar naquilo. Apesar do vestido justo e vulgar, as botas longas de salto fino, a maquiagem pesada. 

Quando se achou diante da porta, sentiu que sua vida acabaria ali. Tudo o que mais temera, desde sempre. Ver-se naquele mundo perturbador e degradante. Morreria. 

O homem era moreno jambo, de semblante pesado, olhar tão duro que era como se tivesse ódio do mundo.

Tentando se manter firme, Açucena ficou na frente dele, sentindo-se um pedaço de carne. O modo como ele a olhou continha um misto de desprezo e cobiça exacerbada. Fez um sinal que parecia ordenar que ela tirasse a roupa.  Mas antes que Açucena começasse a baixar a alça do vestido, a porta se abriu.

Diana surgiu com olhar desesperado, olhando-os, ofegante. Depois de analisar a situação, pareceu se recompor. Principalmente porque o cliente se manifestou de forma hostil, vociferando algo em seu idioma. Açucena olhou para Diana sem entender. A mulher lançou a ela o mesmo olhar hostil do momento em que discutiam, mas dirigiu-se ao homem. Dois outros sujeitos com turbantes na cabeça entraram no quarto.

Carlão e os outros aguardavam o desenrolar da conversa entre Diana e o árabe. No início ele pareceu mais enfurecido a cada palavra dela, mas logo foi esmorecendo.  Até que eles entraram num acordo, a julgar pelo aperto de mão conciliador, apesar do olhar de desagrado do cliente. Diana veio até Açucena, que ainda boiava na cena, e puxou-a consigo pela porta.

Já descendo os degraus para a calçada, continuou arrastando-a sem nenhuma explicação. Açucena limitou-se a se deixar puxar, apreensiva. Apesar de Diana tê-la acabado de tirar daquele quarto, tinha certeza de que a partir de agora não podia mais esperar nada de bom dela 

Com violência, a mulher praticamente a atirou no banco do carro, assim que Carlão abriu a porta. 

__O que está acontecendo?

Diana suspirou, como que contendo algum sentimento intenso que ameaçava explodir dentro de si. 

__Cala a boca. Não mandei você falar!__ do mesmo jeito rude, curvou-se sobre Açucena e agarrou seu rosto, beijando-a de modo selvagem.

Quando chegaram no hotel, Diana a atirou na cama com um olhar que lembrava o do cliente. Só que infinitamente mais intenso. A paixão faiscava nele. O ciúme...O ódio. 

__Você é minha! Minha!

 Ela arrancou a camisa social, quase arrebentando os botões.

Açucena ficou quieta, certa do que ela pretendia. E de que não estava nem um pouco a fim. Mas como em muitas outras vezes, não poderia dizer não. Olhou para Diana com ressentimento e repulsa. Mesmo que no fundo uma fagulha de desejo por ela ainda brilhasse dentro de si. Agora isso não era nada comparado ao desgosto que era saber quem Diana realmente era. E pela primeira vez Açucena transou com ela sem sentir o mínimo de prazer. 

 

Mais tarde... 

Diana estava deitada num divan vermelho de frente para a cama, fumando e olhando fixamente para Açucena, seu rosto tinha uma expressão indecifrável. Já estava assim a tanto tempo que fazia Açucena se perguntar o que resultaria daquele momento de silêncio e incertezas. Ela evitava pensar em Adele, e na cena horrível no quarto do outro hotel onde estiveram. Porque toda vez que surgia um breve lampejo daquele momento em sua mente, ela sentia mais nojo de Diana. Vontade de não vê-la nunca mais. E sabia que isso não era possível.

 __Por que não me deixa ir embora? Livre-se de mim. Se está com tanta raiva... Me deixa viver a minha vida...

 __Já percebeu que isso não vai acontecer, não é?

 __E o que pretende fazer?

Diana apagou o cigarro no cinzeiro de cristal sobre o móvel ao lado, como que fazendo um suspense.

__Talvez eu tenha dado privilégios demais a você, Açucena. Foi esse o meu erro. Você sempre teve tudo. Mais do que qualquer garota poderia querer. Talvez esteja na hora de você conhecer um pouco de realidade. 

__Eu nunca pedi nada disso. Eu só precisava de um pouco de atenção. Houve uma época em que... eu só queria você. Não me importava as joias, roupas... Nunca me importou. Só você. Mas agora eu consigo ver que era tudo ilusão. Essa vida estúpida que você me dava, era ilusão. Você era uma ilusão, Diana. Não é, nem nunca foi amor o que existe entre você e eu...

__Ah, é mesmo? E em que isso muda o fato de que você me pertence? Qual parte de "você é minha" não entendeu? 

Açucena gelou. Qualquer coisa que ainda tivesse a dizer perdeu o sentido. Ou talvez nunca tenha tido sentido nenhum.

__Eu nunca te disse isso, Açucena. Nunca achei necessário. Mas entenda de uma vez por todas. Você me conhece, sabe quem eu sou, sabe do meu poder. Você é minha e posso fazer o que eu quiser com você. Sempre foi assim. Eu tenho tratado você da melhor forma possível até hoje. Mas agora você me obrigou a te mostrar o meu pior lado. E é com ele que vai conviver agora. Mas antes que comece a me chamar de monstro, vou mostrar que ainda serei generosa com você. 

__Generosa? Será que sabe o que é isso?

 __Hum, vamos partir pra ironia? Vai ser mais interessante. Mas não se esqueça de quem é que manda. 

__Eu não me esqueci__Açucena disse, triturando as palavras. 

__Que bom.

__Então o que vai ser? Diz logo o que vai fazer comigo!

__Você vai voltar para o Brasil.

Açucena a encarou sem vontade, com medo de qualquer coisa que ela tivesse pra dizer. Mas ficou esperando como um réu resignado a aguardar a sentença.

__Mais precisamente para Fortaleza. Trabalhará para a Organização. Em uma boate chamada Clube Fantasy.

__O quê? Mas eu pensei que...__ Açucena interrompeu-se. Apesar de estar indignada, se arrependeu por ter se manifestado. O olhar sádico de Diana a fez se sentir pequena.

Diana deu um riso debochado. Para ela a crueldade era uma arte. E aquela menininha insolente tinha sorte de nunca ter sido de fato um alvo. Nem mesmo agora.

__Está com medo, minha princesa?

Açucena não respondeu a princípio. Aquela pergunta a atingiu fundo. Aquela expressão "minha princesa", que no passado a emocionava, a fazia se sentir segura e radiante. Agora, dita naquele tom lhe causou medo.

__Mas não se preocupe. O seu castigo pior ainda será apenas perder a vida de luxo que está levando. A partir de agora nada de viagens, verões em Saint Tropez, joias valiosas, vestidos de estilistas famosos, eventos glamourosos. Sei que gosta disso. Por mais que tenha dado esse ataque de humildade, você sabe apreciar o que é bom nessa vida, Açucena. Eu a ensinei. E a ensinei também sobre os perigos desse mundo, e que só há um lugar seguro. O dinheiro. Sei que quando se ver num mundo reles como o que te espera, ficará mal. E é esse o seu castigo. Você não passará de uma simples dançarina. Com sorte talvez consiga alugar uma quitinete num bairro da periferia que tenha poucos ratos.

__Qualquer coisa será melhor do que estar perto de você.

Açucena percebeu que estava sendo profundamente sincera.

Diana riu como se ela tivesse contado uma piada. Açucena se desviou, revoltada.

__Tem mesmo esperanças de que vai se ver livre de mim? Não banque a tola, Açucena. A sua sorte é que você não atenderá os clientes. Não será uma prostituta de verdade. Fará apenas um show. O melhor, espero. Quero que os clientes paguem só pelo prazer de vê-la dançar...

Açucena levantou outra vez o olhar para ela, agora confusa e sem disfarçar o alívio que sentiu ao ouvir isso.

__Mas não porque eu queira ser boa com você, porque não merece__ Diana prosseguiu-- É apenas porque, como você já está cansada de saber, você é, e sempre será, somente minha. Quem tocar em você, morrerá.

Açucena sabia que aquelas palavras ficariam cravadas na sua memória, como um sino que nunca para de badalar. E a fariam se lembrar da horrível morte de Adele.

Sentiu como se correntes a envolvessem quase a ponto de sufocá-la. Correntes que sempre haviam estado ali.

__Não se esqueça nunca. Eu sempre estarei por perto...

__Eu sei...__ Açucena sussurrou, resignada.

 

De volta a atualidade...

Agora a vida de Açucena se resumia a noites no Fantasy e dias na quitinete onde morava, na periferia da cidade.

A porta do camarim se abriu. O homem grandalhão e carrancudo surgiu no meio das garotas e se dirigiu a Açucena. O detestável Carlão.

__Você não vai se apresentar hoje. Vem comigo.

Ela já estava vestida na fantasia do show, corpete de couro, calcinha preta com cinta-liga, meias pretas e summer boots. Sem dizer nada, ela pegou o robe deixado em um canto, vestiu-o e seguiu o homem.

__Quando ela chegou?__perguntou, enquanto atravessavam corredores e escadas escuros. Sabia que se tratava de Diana.

__Ontem a noite.

Em todos aqueles meses havia sido assim. Diana retornava de alguma viagem, e mandava Carlão vir buscar Açucena e levá-la em sigilo, até o hotel onde ela estivesse hospedada. Em qualquer lugar havia um dos homens que trabalhavam para Diana a vigiando.

Quando Açucena entrou na suíte e viu Diana de pé em sua frente com aquele sorriso cínico, lembrou-se que aquela noite seria longa.

__Olá, minha princesa...Feliz aniversário, minha bonequinha. 20 anos, agora é uma mulher. Minha mulher!-- Diana veio até ela e beijou-a.

Açucena correspondeu maquinalmente.

Diana abriu seu robe, deixou-o deslizar para o chão e se afastou um pouco para olhá-la de cima a baixo.

__Já tinha me esquecido como você fica gostosa com essas fantasias.

Açucena ignorou isso também.

__E então? Já conseguiu se adaptar àquele lugar horroroso?__ Diana perguntou com um riso sádico, referindo-se ao bairro pobre onde ela morava__ Eu tenho uma boa notícia. Acho que já castiguei você o suficiente. Vou tirar você de lá__ ela foi até o barzinho num canto, despejou uma dose de uísque no copo e pôs um cubo de gelo__ Amanhã mesmo quero que arrume suas coisas e se mude para este flat.

__Eu quero morar lá__ Açucena pegou na bolsa um cigarro, acendeu e caminhou até a janela__Não me importo.

__É claro que se importa. Sei o quanto está sendo difícil pra você, viver naquele chiqueiro. Você sempre foi habituada a um mundo de luxo e sofisticação, e de repente se achar naquele universo de dificuldades chocou você. Sei disso. Não adianta tentar mentir para mim.

Em parte, Açucena tinha que admitir que ela tinha razão. Mas se pudesse escolher entre viver naquele inferno a ficar ao lado de Diana para sempre, ela preferiria a primeira opção.

__Vamos lá, confesse. Você parece meio deprimida ou é impressão minha?

__Como se você se importasse.

__Eu não deveria, depois do que você fez. Mas me importo. Por isso exijo que você se mude para cá imediatamente. Terá suas roupas de volta, seus perfumes, suas joias. Vai voltar para casa.

__Não é a pobreza que me incomoda. É você. A sua presença tóxica na minha vida. Por que você simplesmente não me deixa em paz, droga?__ ela atirou com toda força o cigarro pela janela__Você é doente, é nociva, Diana. Eu odeio você! Odeio você!

Apesar do tom de ódio e descontrole de Açucena, Diana não pareceu se abalar nem um pouco. Ela sorria, como se a cena estivesse sendo, acima de tudo, divertida.

__Hum, adoro você assim. Agressiva.

Ela se aproximou de Açucena, indiferente a sua indignação.

__Uma gata selvagem. Linda e selvagem__ envolveu o rosto de Açucena entre as mãos-- Sabe de uma coisa? Eu fiz muito bem em ter a ideia de transformar você em uma dançarina. Aqueles clientes nojentos estão ficando loucos por você. Estou ganhando uma fortuna. E não é pra menos, não é?

Açucena a encarava sem acreditar naquele discurso frio. Sentindo-se, como sempre, uma boneca de cordas, deixou-se beijar por ela. E ser guiada para a cama.

 

Rafaela por Ana Little
Notas do autor:

Nesse capítulo tem algumas cenas inéditas que eu tinha escrito, mas não postei da outra vez. Nada que mude o enredo, mas explica alguns acontecimentos futuros.

Bjs meninas

 

 

Capítulo 2-- Rafaela

Ano de 2004

 

American Idiot, do Green Day estourou no celular em cima do criado-mudo. O despertador.

__Ah não...__ houve um resmungo embaixo dos lençóis antes de uma cara sonolenta emergir.

Naquela época, quando Rafaela tinha 11 anos, o despertador só servia para ajudar em seu mau humor matinal. Ela apertou o botão quase quebrando e voltou a mergulhar no travesseiro, os cabelos castanhos emaranhados no tecido branco.

__Rafa, você vai se atrasar pra escola!

Era a voz da empregada.

Rafa levantou-se ainda grogue e caminhou descalça para o banheiro. Entrou embaixo do chuveiro.

De volta ao quarto, pegou depressa uma roupa qualquer no closet. Uma calça xadrez, uma camiseta preta. Olhou-se no espelho. O rosto de traços suaves e olhos cinzentos a olhava de volta. De cara feia. Passou uma escova nos fios castanho claros. Se fosse como aquelas patys do colégio, ia se atrasar ainda mais, desperdiçando meia hora para encher a cara de maquiagem.

Mas ela não se ligava nessas coisas.

Calçou o tênis, pegou o smartfone e jogou dentro da mochila. Apanhou o skate num canto e saiu.

Passou rápido pelo corredor, pela porta que sempre ficava trancada. Desde que sua mãe morrera há cinco anos. Seu pai mantinha aquele quarto intacto, como um santuário. Rafa sabia que ele ia lá à noite. Vira-o muitas vezes atravessa o corredor na madrugada e entrar no cômodo. Ele sentava-se na poltrona perto da cama, de frente para o imenso retrato que reinava na parede. Um retrato pintado por um artista amigo da família, onde sua mãe tinha uma expressão triste.

Antes Rafa não conseguia entrar naquele quarto. Começara a sofrer a falta da mãe muito antes de ela morrer. Júlia vivia ausente, dopada por todos aqueles remédios que tomava. Quando se fora, Rafa passara muito tempo sentindo como se fosse abrir aquela porta e ver a mãe deitada na cama, com uma expressão melancólica no olhar perdido e sem vida.

 

* * *

Todos estavam na mesa do café. Seu pai, seus avós e aqueles dois idiotas que por um acidente do destino, eram seus irmãos.

__Atrasada de novo, Rafaela? É a segunda vez essa semana...

Ela levantou o olhar para encontrar a expressão severa de Marco, seu pai. Os olhos cinzentos como os dela a inspecionaram. Ele usava o terno preto habitual e estava sentado na cabeceira da mesa, como de costume.

Ele não ia viajar para São Paulo naquela manhã? Estava sempre viajando a negócios, ou falando no celular sobre negócios.

__ Eu não pago uma fortuna no melhor colégio da cidade pra tolerar indisciplina sua.

__Foi mal, pai, eu...

__Foi mal?” Que modos são esses, menina? Esqueceu a palavra “desculpe?”

__Desculpe__ Rafa repetiu, reprimindo a irritação.

__Essa menina está cada vez pior! Fala e se veste como um moleque e não larga esse skate. Ela já tem onze anos, é uma mocinha. Tem que aprender a se comportar do jeito correto, como qualquer outra menina da sua idade__ Sua avó. A distinta Úrsula Castro Werneck. Quando não estava em Brasília cuidando da carreira política, estava enchendo o saco dos netos com aquela personalidade militar. Úrsula era sua avô materna, mãe de sua falecida mãe, Júlia. Portanto sogra de Marco. Como uma avó “dedicada” estava sempre ali, para se certificar de que seus netos seriam “bem-criados”.

__Tudo bem, pai__ disse seu irmão mais velho Caio, olhando por sobre os óculos. Seu cabelo era da mesma cor do de Rafa e era sempre arrumadinho com gel__ Eu já liguei pro pessoal do Grupo de Matemática, dizendo que vamos nos atrasar hoje.

Anos mais tarde, Caio morreria num acidente de carro, deixando Rafa profundamente abalada.

__E como vão os estudos?__essa figura, a melhor pessoa que Rafa conhecia, era seu avô Manfred__Estão se preparando direitinho para a competição regional desse ano?

Vou largar o grupo. Rafa pensou, mas jamais diria uma blasfêmia dessas em plena mesa do café. Não que não se sentisse empolgada com o Grupo. O problema era que ele tomava muito o seu tempo. Apesar de ter grande facilidade com os números, preferia andar de skate ou beber caipirinha escondida com sua amiga Érica no parque da cidade, ou ficar praticando desenho obsessivamente, depois das aulas de Arte. Será que sua avó não entendia que nunca seria a patricinha perfeita que ela desejava?

Rafa sentia-se seduzida por tudo o que estava fora dos domínios daquele mundo ao qual estava inserida, o estilo de vida burguês de sua família.

__Estamos sim, vovô__ ela respondeu, fingindo empolgação.

__Vamos arrasar, como no ano passado__ Caio completou.

Úrsula olhou de modo crítico para a neta:

__Bom, fico feliz porque pelo menos ela possui esse dom. Com certeza, se aprender a ter disciplina, terá um futuro brilhante, digna de uma Hoffmann.

__Minha filha terá um futuro brilhante, minha sogra__ Marco disse com convicção, sua voz grave ecoando pela sala__ Não tenha dúvidas disso. Não é, Rafaela?

__Sim, papai__ Rafa respondeu de modo polido e baixou a cabeça para seu suco de mamão.

__E você, Leonardo?

O garoto mais novo levou um susto, parecia querer dizer “porque vocês não continuam enchendo o saco dos meus irmãos e me deixam em paz?”

Léo não era bem uma ovelha negra da família. Apenas não era bom em matemática como Rafaela e Caio, mas tinha talentos: jogar vídeo-game e tocar guitarra. Em sua cadeira do outro lado da mesa, vestindo uma camiseta do Slayer, ele bocejou entediado. Tomou um pouco do seu suco e pôs os fones discretamente nos ouvidos.

__Leonardo, tire esses fones, agora!-- Marco ordenou, fuzilando o filho mais novo.

Depois do café, os três irmãos seguiram para fora, onde Raul, o motorista, já esperava para levá-los para o colégio.

__Bom dia, crianças.

Rafa limitou-se a olhá-lo de soslaio, irritada pelo “crianças”.

O Farias Lobo era uma instituição tradicional, frequentada por filhos das famílias mais importantes da cidade.

Assim que os três cruzaram o gramado em volta do prédio, Caio avistou o pessoal do Grupo de Matemática e acenou para eles.

Rafa jogou o skate no chão e o segurou com o pé, olhando a procura de Érica.

__Você não vem?__ ele perguntou__ Temos que marcar uma reunião hoje a tarde.

__Eu não vou.

__Está mesmo decidida a deixar o Grupo?

__Ainda não sei. Mais tarde vejo se apareço por lá.

Nessa hora Léo avistou os amigos dele, que viviam dizendo que iam montar uma banda. Na turma havia uma garota chamada Dione que todo mundo no colégio suspeitava que era lésbica. E Rafa sempre tivera uma estranha curiosidade a respeito dela, mas a considerava antipática demais.

Rafa pisou na prancha do skate e saiu deslizando pelo caminho que seguia até os degraus para entrar no colégio. Avistou Érica em frente. Mas de repente um esbarrão fatal em alguém, e espatifou-se no chão.

__Mas que droga!

__Desculpe__ a figura loira se abaixava preocupada.

__Você tá bem?

__Anh...

A menina tinha longos cabelos claros e lisos. Eles esvoaçavam com os movimentos dela, se misturando à leveza de um delicado vestido rosa.

Rafa não gostava dessa cor, porque lembrava qualquer coisa que sua avó associava ao “jeito ideal de uma menina ser e se comportar”. Rosa estava em tudo o que ela detestava. Mas naquela menina ficara perfeito. Sua pele era clara, os olhos de um castanho luminoso, e a boca...

Um tipo de boca bem desenhada, arredondada, rosada.

__Não, eu... tô bem.

__Você não se machucou? Ai meu Deus, como eu fui desastrada. Eu não olhei quando você tava passando. Eu.. estou meio perdida... Sou nova aqui.

__Percebi...__ Rafa já estava sorrindo. E alguma coisa doida, muito doida estava acontecendo dentro dela.

Olhando sem parar para a menina, ela a ajudou a pegar os livros do chão. Um em particular chamou sua atenção. “Indagações Aritméticas” de Carl Gauss.

__Você gosta de matemática?

__Eu participei do campeonato regional no ano passado.

__Eu faço parte de um Grupo de Matemática aqui no colégio. Você quer conhecer o pessoal?

__Adoraria.

Elas levantaram-se, ambas sorrindo.

__Muito prazer, Rafaela. Mas pode me chamar de Rafa.

A menina sorriu.

__O meu é Alice.

O sorriso da menina pareceu inundar o mundo de Rafa naquele instante. Ela apenas ainda não sabia porquê. Só sabia que agora queria se juntar imediatamente ao pessoal do Grupo de Matemática.

E foi assim, no dia 14 de novembro de 2004 que Rafa conheceu Alice Almeida Lins. A garota que um dia partiria seu coração pela primeira vez.

Rafa não foi a única garota do colégio a se encantar pela bela loirinha que acabara de chegar. Quando Alice passava com ela pelo pátio para ir encontrar o pessoal do Grupo de matemática, Dione estava escorada numa pilastra com os amigos da banda e parou o olhar na garota. Ela olhou para Alice por inteiro, sem se desviar, até ela desaparecer numa porta com Rafa. Dali a umas semanas, Alice e a tecladista tinham se tornado amigas próximas também.

A partir disso começava a inimizade entre Rafa e Dione. Karina, a guitarrista da banda, que nutria um amor secreto por Dione, também não gostou nada do interesse da tecladista pela patricinha loira.

Naquela época, a paixão platônica de Érica por Rafa também começara. Elas eram amigas no colégio muito antes de Alice chegar. E Érica ficou arrasada quando percebeu que Rafa estava se apaixonando pela nova aluna.

 

* * *

Rafa e Alice começaram a namorar naquele verão. Depois que saiu do colégio naquele dia, Rafa foi direto para a casa de Alice, já que ela não aparecera na aula e nem estava atendendo suas ligações.

A residência da família Almeida Lins, assim como a mansão dos Hoffmann, tinha um ar de casa de praia, com imensas paredes de vidro, escadas para todos os lados e varandas de madeira. Alice havia dito que os pais estavam viajando pela Europa. Ela estava sozinha com os empregados.

__A Alice tá aí?__ Rafa perguntou quando a empregada veio atender a porta.

A moça pareceu espantar-se com algo, e agia como se tivesse perdido a voz.

__Lili, o que aconteceu? Cadê a Alice?

Aquela era a babá de Alice, a pessoa que sabia de seus segredos mais do que sua própria mãe.

__Senhorita Rafa... Eu acho que você não...

Rafa não soube porquê, compreendeu que a moça estava tentando impedir que ela visse algo. Tomada por aquele pressentimento ruim, afastou a empregada de sua frente e foi entrando, subindo escadas, atravessando corredores. Até chegar no quarto de Alice.

Abriu a porta num rompante. E finalmente viu. O que mais tinha medo.

Na cama do quarto rosa de Alice, ela ergueu-se vestida numa lingerie branca, seguida por sua acompanhante que vestia uma camiseta preta de banda. Era Dione. As duas olharam com cara de espanto para Rafa, depois de interromper o que estavam fazendo. Por um momento Rafa ficou paralisada, na porta, olhando aquela cena. Seus medos, suas inseguranças, tudo se misturaram ao ciúme devastador que sentiu. Ninguém falou nada. Na cama, as duas ficaram olhando para ela. Desconcertadas, Alice começou a chorar, Dione baixou a cabeça.

Rafa não sentiu vontade de dizer nada. Só sentia nojo de Alice, das duas. Ela pegou o primeiro objeto que sua mão trêmula alcançou. Uma peça decorativa de vidro sobre um móvel ao lado da porta. Agarrou-a e atirou com toda força na direção do grande espelho que quase cobria a parede oposta a cama. O ruído alto ecoou pelas paredes de vidro, e os cacos do espelho se espalharam pelo chão.

Depois ela bateu a porta e saiu andando atropeladamente por onde viera, quase caindo quando alcançou o degrau da primeira escada para descer. A empregada a ajudou.

__Senhorita, o que aconteceu? Que barulho foi esse?

__Me deixa!

Rafa correu, passou pelos mesmos corredores e cômodos, alcançou a porta de saída e foi dar no hall. Ela teria ido embora, mas suas pernas estavam bambas e seu coração parecia querer sair pela boca, provocando-lhe uma dor cortante no peito. Desabou nos degraus de entrada da casa, sentando-se. Explodiu em lágrimas.

 

Enfim acabara. Acontecera o que ela tanto previa nos momentos em que tinha crises de ciúmes. Um ciúme bem infundado, agora sabia. Ha quanto tempo elas estavam ficando?

Mas isso agora não importava mais.

Levantou-se e começou a caminhar pelo jardim, para o portão de saída. Os seguranças abriram e ela desceu para a rua, andando depressa. Saiu do condomínio e andou até atingir a via onde conseguiu um táxi.

Nem sabia pra onde ia. Não conseguia nem pensar direito.

--Fica rodando por aí-- disse ao taxista.

Sua mente estava congelada naquela imagem horrível.

Ela foi para o Parque da Cidade, ficou andando de skate o resto da tarde. Até que caiu e se machucou feio. Érica viu tudo e a levou para o hospital.

* * *

Após descobrir a verdade sobre ser filha de um caso que o pai tivera fora do casamento, Rafa teve uma crise, já que isso culminou com a traição da namorada Alice. Rafa acabou entrando em uma fase problemática ao extremo. Ela tomava os valiums que encontrava no armário do banheiro da suíte de sua avó. Ninguém mais sabia. Até que seu pai descobriu. Ele a havia repreendeu, marcou uma consulta com uma amiga da família que era psicóloga. E depois voltou para sua vida de negócios e viagens com a consciência tranquila.

E Rafa continuou sozinha com sua incapacidade de lidar com os problemas.

Para ela, as semanas que sucederam aquela tarde da descoberta sobre a traição de Alice, e sobre sua verdadeira mãe, foram como mergulhar num túnel escuro onde não conseguia vislumbrar o fim.

Ela ficava deitada na cama durante horas, olhando para o teto fixamente.

__Ah, não! Não acredito que você está assim de novo__ Érica reclamou, após abrir a porta do quarto e vê-la deitada em plenas três da tarde, comendo snaks e chocolates, enquanto assistia episódios seguidos de Sobrenatural__ Cara, não que eu também não seja fã dessa série, mas o dia está incrível. Geral está na pool party da Bruna Marques…

Érica tinha se tornado uma grande amiga naqueles tempos difíceis.

__Ai, Érica, me deixa! Eu não tô a fim de sair. Que saco! Quer saber, se não suporta a minha companhia, cai fora, valeu?

Surpresa com a explosão dela, Érica a encarou, magoada.

__O quê?

Rafa suspirou, cobrindo o rosto com as mãos, e se recuperando do breve ataque de irritação. Imediatamente se arrependeu de cada palavra. Droga! Érica não tinha culpa da sua vida de merda! Muito pelo contrário, ela estava sendo uma amiga doce e compreensiva.

Arrasada, Érica pegou a bolsa. Não sabia por que perdia tempo, alimentando aquela paixão platônica por Rafa.

__Você tem razão. Acho que não tenho mais nada pra fazer aqui__ela dirigiu-se à porta.

__Não! Espera__ Rafa se pôs em sua frente, antes que ela girasse a maçaneta. Encararam-se de novo, Rafa percebendo que se a deixasse ir, perderia a única porção de paz que havia tido naqueles dias, a paz que só a companhia de Érica tinha sido capaz de lhe dar. Segurou com ternura na mão dela.

__Me desculpe. Retiro tudo o que eu disse. Eu sou uma idiota, me desculpe. Não quero que você vá...

__Me dê um bom motivo pra ficar.

Rafa puxou o rosto dela e beijou-a de repente.

Érica cedeu, mesmo ainda envolvida em mágoa e raiva. Os lábios de Rafa tiveram o poder de anestesiá-la. Enfiou as mãos nos cabelos castanhos dela e intensificou o beijo.

__Diga que você não vai...__Rafa insistiu, aflita.

Sucumbindo à fragilidade, diante daquela paixão implacável, Érica desistiu de ir. Envolveu-a num abraço apertado.

 

Uma semana depois…

 

Eram cinco da tarde. Os últimos raios de sol refletiam nas lentes dos óculos escuros que Érica usava, combinando com a blusa preta de paetês que ela vestia. Seus lábios ostentavam um batom vermelho que a deixava parecida com as garotas da faculdade. Rafa refletiu, pegando o celular e filmando-a enquanto ela dançava, contente pelo gramado do Clube Resende, onde estava acontecendo a festa de aniversário de uma das amigas skatistas de Rafa.

__Você está linda__ Rafa disse para Érica, antes de puxá-la para si e beijar seu pescoço.

Elas foram caminhando abraçadas e entraram no meio da bagunça. Encontraram a aniversariante, que estava rodeada de gente.

Agora Rafa estava conseguindo seguir com sua vida. Voltara a sair, andar de skate e ir nas aulas de arte.

Ela se encostou na grade, enquanto Érica havia saído para procurar uma amiga. Abriu uma lata de cerveja pra beber e olhou para a galera que se acabava ao som da batida eletrônica.

Até que avistou, entre a multidão, a última coisa que seus olhos desejavam ver. A primeira imagem impactante foi o brilho dos cabelos loiros e lisos. Depois o corpo inesquecível metido num vestido sexy de arrasar, dançando do jeito charmoso como só ela conseguia. Isso mesmo. Era Alice. Elas não se viam há quase dois meses, já que Alice havia mudado de colégio depois do que acontecera.

Ela parecia meio embriagada, e nem a viu.

Perto de Alice havia um grupo de pessoas que Rafa nunca havia visto antes. No meio da roda uma garota que parecia mais velha veio e enlaçou Alice pela cintura. Ela era mais alta e exibia um estilo masculino. Cabelo preto curto, bermuda larga e meio caída, presa por um cinto pesado, camiseta masculina e Converse de couro preto. Ela tinha uma imensa tatuagem no braço esquerdo e outra na perna direita. Segurava um cigarro. Tirou uma última tragada e jogou o resto fora. Alice e ela conversavam e riam, abraçadas. Apesar da tortura, Rafa as observava.

Por fim Alice olhou para a tal garota de modo diferente, pôs os braços em volta de seu pescoço e beijou-a, um beijo que logo se tornou intenso, seu corpo unido ao dela de modo sensual.

Aquela imagem, que dispensava palavras, desestabilizou Rafa de novo. E dessa vez de um jeito definitivo.

Ela jogou a lata de cerveja longe em direção ao gramado. Saiu dali imediatamente, nem falou com Érica, foi caminhando atropeladamente entre as pessoas, desesperadamente em direção à saída do clube.

Quando chegou em casa, aproveitou que não havia ninguém ali, nem seu pai, nem seus irmãos, nem os avós. Avisou aos empregados que não dissessem para Érica onde ela ia. Pegou a mochila com algumas coisas e foi para a Ilha.

* * *

Em todos aqueles dias de sumiço de Rafaela, Érica não entendeu o que estava acontecendo. Mas suspeitava. E por causa disso ficou ainda mais preocupada. Inúmeras vezes ela voltou na mansão dos Hoffmann para ver se a namorada havia aparecido.

__Glória, você sabe onde ela está, não é?__perguntava para a ex babá de Rafa. Mas era evidente que a fiel empregada não diria.

__Desculpe, Érica, ela pediu pra não dizer a ninguém.

Érica sentia-se rejeitada, deixada de lado. Mas preocupava-se, sabia que Rafa talvez estivesse mais deprimida do que antes. E não conseguia se manter indiferente a isso.

Naquela tarde, deitada na cama dela, tentava bolar um plano para achá-la, quando a porta do quarto se abriu num rompante.

__Rafa?

__Oi Érica. Eu não sabia que você estava aqui...__ ela disse com naturalidade, como se elas tivessem se visto há minutos. Tinha o cabelo preso num rabo de cavalo, usava boné da Vans e roupas que Érica nunca havia visto. Era uma calça jeans masculina e uma camiseta polo preta__ E aí?__entrou e jogou a mochila numa poltrona ao lado da cama. O cheiro de álcool inundou o quarto. Pelo visto ela havia bebido demais, o que era estranho porque nunca fizera isso. Sempre bebia moderadamente, sem nunca sair do controle.

Érica olhou o semblante tranquilo que jamais imaginou que veria quando a encontrasse de novo. E era mais que isso. O olhar de Rafa parecia estranhamente vago.

O que havia de errado com ela?

__Onde você estava? Como é que some assim sem falar nada comigo? Obrigada pela consideração.

__Desculpe, eu precisava de um tempo sozinha. Só isso__ de um jeito displicente, Rafa jogou-se na cama, pegou um cigarro do bolso, depois o isqueiro para acender.

__Desde quando está fumando?

Ela deu uma tragada e soprou a fumaça com prazer para cima.

__Qual é, Érica? Vou mesmo ter que explicar cada detalhe do que fiz durante a minha ausência? A gente não tem nada sério, que eu saiba. Não estamos casadas.

__Estávamos ficando. Depois disso não sei mais.

Rafa não respondeu. Parecia tranquila, com aquele ar vago e perdido. Indignada, Érica levantou-se da cama e foi até ela, analisando-a.

__O que aconteceu naquele dia da festa da Liliane?

__Nada__ Rafa respondeu e deu outra tragada no cigarro__ Eu só saí da cidade porque precisava dar um tempo, já disse. Aproveitei as férias pra ficar longe daqui. Só isso__ ela jogou o cigarro na lixeira e levantou-se__ Olha, você me desculpa, mas depois a gente conversa. Eu quero tomar um banho.

__Tudo bem...__ Érica respondeu, sentindo-se rejeitada e deslocada.

Rafa tirou a camiseta, ficando apenas com o sutiã preto e virou-se para entrar no closet.

Érica levou um susto. Nas costas dela havia uma imensa tatuagem escura, linhas e curvas pretas combinadas a outras mais claras. Era o desenho impecável de um dragão.

__Você fez uma tatuagem?__ indagou perplexa.

__É o que parece, não é?

__Por que está me tratando assim? O que foi que eu fiz? O que aconteceu com você?

__Você não fez nada. Não tem a ver com você.

__E tem a ver com o quê, Rafa?

__Comigo!... Eu só decidi que a minha vida está uma porcaria e alguma coisa precisa mudar.

__Mudar pra pior? Que tipo de mudança acha que vai conseguir desse jeito? Você surtou. Aliás, como conseguiu fazer essa tattoo? Você não tem nem 16 anos.

__Identidade falsificada.

__Você enlouqueceu, garota? O seu pai vai te matar.

__Isso é problema meu, Érica. Não vou deixar que ele veja. E quer saber, que se dane. O meu pai não tá nem aí pra mim. Ele tem uma vida complexa demais pra administrar. Graças a Deus! E eu tô cansada de tudo.

__Tudo o quê?

__Eu não sei.

Rafa definitivamente não era mais a mesma. E naquele instante Érica percebeu que ela parecia passar por um tipo de transformação drástica e sem volta. E isso não lhe favorecia. Porque Rafa estava agindo como se o tempo em que elas haviam ficado, não tivesse significado nada.

__Tudo bem, você que sabe. Eu vou indo.

__Tchal. Bate a porta quando sair, por favor.

Quando Érica se viu sozinha no corredor, parou um pouco porque os batimentos de seu coração quase a sufocavam. Ela se encostou na parede e explodiu em lágrimas.

No banheiro, Rafa se livrou do resto de suas roupas e deixou-as cair no chão, exibindo as formas do corpo gracioso, a pele clara com algumas sardas ao longo da curva da cintura, nas costas e no colo. Os cabelos castanhos estenderam-se sobre seus ombros nus. Antes de entrar na banheira cheia de espuma que a esperava, ela olhou as costas refletidas no espelho.

Ali estava ele... Parecia ter vida própria na claridade de sua pele, cada curva traçada com perfeição, os tons de preto se impondo, num degradê do escuro ao claro, cada nuance com seu poder. Um desenho fantástico. Um dragão celta, espirrando fogo, os olhos ferozes que encaravam a pessoa que o olhasse. Um símbolo de força e poder.

Sorriu para si mesma, ignorando a pontada de remorso que sentiu pelo jeito frio como havia tratado Érica...

Mas para quê continuar com isso? Era incapaz de correspondê-la na mesma medida. Estava desperdiçado seu tempo e o dela.

Na verdade não tinha a ver com Érica. Nem mesmo com Alice. Tinha a ver com ela mesma. Alguma coisa não se encaixava em sua vida. As coisas pareciam simples como uma equação de 1° grau. Era uma filha bastarda da família, a garota que amaria para sempre não passava de uma vadia traíra. Simples. Nada que não pudesse ser superado, não é? No entanto, era mais do que isso. Algo mais complexo, que tinha a ver com tudo e, ao mesmo tempo com nada. Algo que a fazia se sentir vazia. Era como se estivesse diante de um enorme ponto de interrogação. A pergunta não era “quem sou eu”, mas... “quem eu quero ser”

Entrou na banheira, fechou os olhos e mergulhou. Naquela época, ela começou a sair para as baladas e conheceu Bárbara, Toni e as outras.

 

Dois meses depois

Ela vinha descendo os degraus para entrar no primeiro piso da boate Acqua com algumas novas amigas. Cada uma portanto sua carteira de identidade com a data de nascimento adulterada, já que eram todas menores de idade.

Rafaela sorria, em êxtase, caminhando de modo altivo, usando uma roupa que Érica diria ser um claro sinal de que ela queria mesmo virar uma butch. Calça xadrez vermelha, um tênis de couro Carmen Sttefens, camiseta regata larga e boné da vans.

Assim que elas pisaram no último degrau, várias pessoas vieram falar com Rafa. Algumas acenavam, garotos arrumadinhos e estilosos, garotas lindas e bajuladoras que vinham abraçá-la como se fossem suas amigas de infância, a maioria com segundas intenções. Todos queriam ser amigos de Rafaela Hoffmann, ou todas queriam ficar com ela. Rafa havia se tornado a nova garota mais popular no meio LGBT da cidade. No auge dos seus 16 anos recém-completados, era como uma celebridade nas baladas do gênero, e o sonho de consumo de boa parte das garotas que a viam por ali. Ela não precisaria nem ser legal. Mesmo quando ganhou uma fama de conquistadora, as garotas a veneravam. O fato de ser rica, linda e carismática nas horas certas era o suficiente.

Com aquela identidade falsa e uma dose extra de inconsequência, ela mergulhou de cabeça naquelas noites loucas. E descobriu um remédio melhor do que os valiums da sua avó para esquecer Alice, as cobranças do pai, os preconceitos sofridos na escola, e principalmente aquelas angústias para as quais ela ainda não tinha um nome.

Aliás, não havia tempo para pensar em mais nada com todas aquelas garotas rondando-a e se insinuando para ela. Essa era a melhor parte. Já estava se acostumando a pegar várias mulheres numa noite. Elas choviam ao seu redor, gostosas e disponíveis. Pela primeira vez percebeu o quanto era bom fazer sexo sem nem saber o nome da garota. Enfim, não precisava mais de Alice. Seu mundo agora era sair todos os fins de semana, transar com quantas garotas quisesse, ficar doidona e se abandonar na pista, dançando enlouquecida até esquecer de todos os motivos que tinha para ficar triste.

O grupo foi até o balcão pedir drinks. Rafa se encostou ali, acendendo um cigarro e falando com o bartender.

Barbie e Flávia a observaram radiantes, cheias de orgulho por serem amigas da pessoa mais top da balada.

Uma garota se escorou ali, nitidamente curiosa, lançando olhares para elas.

__Bom gosto...__ ela elogiou, olhando para a garrafa na mão de Rafa. Pegou um cigarro e fez sinal para ela emprestar o isqueiro.

__Valeu__ Rafa pegou o pequeno isqueiro dourado no bolso e jogou para ela. A garota era negra, uma butch perfeita que parecia saber combinar peças perfeitamente, num estilo afro impecável. Cabelo com tranças nagô, acessórios criativos.

__Sou Val.

__Prazer, Rafa.

__Eu sei. Quem não conhece Rafaela Hoffmann por aqui?

Rafa sorriu para ela, pegando o isqueiro de volta.

 

Tempos atuais

Ela parou o Camaro conversível no estacionamento do prédio onde ficava o escritório sede do Grupo HWM, as empresas da família. Deu um beijo na crush no banco do carona, uma morena de corpo escultural e cabelos longos.

__Não demora, amor__pediu Raíssa, deslizando a mão pela sua nuca.

__Eu sei, já volto pra você, gata.

Umas no banco de trás e outras sentadas na capota, as amigas conversavam sem parar sobre alguma fofoca recente.

__Vai lá resolver a nossa vida, Rafa__ Bárbara disse assim que ela abriu a porta.

__Afinal, qual a graça de ter uma amiga milionária se não podemos aproveitar?__ completou Flávia, com uma risada.

Rafa deu um riso, meneando a cabeça.

__Vocês não prestam__ e saiu do carro, seguindo para o elevador.

* * *

__Quem é?__ perguntou a nova secretária Larissa, ao ver um retrato pintado a óleo, na recepção. Um senhor de olhos cinzentos e cabelos castanho-claros.

__É o pai do doutor Manfred. Um descendente de alemães chamado Zigmund Hoffmann, que apreciava viagens pelo litoral do Nordeste, e era apaixonado pela Costa do Sol Poente.

__Nossa, que interessante__ Larissa sorriu encantada.

Ela era uma loira platinada, usava um terninho com decote em "v" e esmalte vermelho nas unhas compridas.

O telefone tocou. Verônica deixou as fofocas de lado e atendeu seriamente. As outras moças também voltaram ao trabalho. E Larissa tentou fazer o mesmo.

Mas alguém acabava de sair do elevador e vinha vindo em direção a elas. Um rapaz lindo. Larissa o seguiu com o olhar, sem piscar, porque… Uau! Ele parecia um modelo. Desses de desfiles de grifes famosas. Um rosto inacreditável, a pele clara e limpa, olhos que pareciam dois diamantes, cinzentos e expressivos, cílios espessos, uma boca esculpida com perfeição. Os cabelos eram castanho-claros, num corte rente à nuca, com uma mecha meio bagunçada na frente, caída para o lado. Mas… havia algo errado. E Larissa mal conseguiu acreditar quando desceu os olhos pelas formas redondas dos seios que se insinuavam por debaixo da camisa social branca. E depois se deu conta de outros detalhes. Não era um rapaz. Era uma moça! Vestida numa roupa masculina. E Larissa ficou mais fascinada com a descoberta. Observou-a caminhar com passos firmes, as mãos nos bolsos da calça de corte masculino, um andar elegante. A roupa era social, apesar de ela possuir algumas tatuagens espalhadas em lugares visíveis e pedaços de outras escondidas embaixo da camisa com as mangas dobradas. O contraste das tatuagens com o ar elegante a fazia parecer exótica de um jeito exuberante. Era essa a palavra para ela. Exuberante.

A garota se aproximou da mesa com um ar confiante, o queixo erguido, um olhar presunçoso.

__Oi Verônica.

__Oi Rafa!

Larissa não conseguiu parar de olhar. Sentiu-se nervosa quando o lindo par de olhos claros parou um segundo nela. Foi só um segundo, mas teve certeza de que a moça reparou nela com um jeito… especial.

__O meu avô está aí?

__Sim, mas ele está em reunião__ respondeu Verônica, simpática, enquanto Larissa estava chocada com a descoberta que fizera. Já tinha ouvido falar na famosa neta de Manfred Hoffmann, mas não a imaginava assim.

__Tudo bem. Eu vou esperar na sala dele.

E a garota saiu, entrando pela porta ao lado.

Larissa conseguiu respirar direito e perguntou:

__Ela é a neta do doutor Manfred?

__É isso aí.

* * *

Rafa jogou-se na cadeira do avô, atrás da mesa, sorrindo sozinha ao pensar na loira gostosa que acabara de ver na recepção. Não adiantava, tinha um fraco por loiras. E não era porque sua crush atual estava lá fora a esperando no carro que ela não podia se distrair um pouco com aquela secretária novata tentadora. Que peitos eram aqueles? Não ia perder a oportunidade de botar as mãos neles.

Decidiu que estava com sede. Pegou o telefone.

__Verônica, pede pra me servirem uma água, por favor. E... pede pra nova secretária trazer.

* * *

Na recepção, Verônica desligou o telefone e olhou para Larissa com um sorriso malicioso.

__Ela quer... água.

A loira ficou se perguntando se sua colega de trabalho lia pensamentos.

__Não, querida, eu não leio pensamentos. Mas conheço essa menina muito bem. Por isso um conselho: Tome cuidado.

__Eu sei me cuidar.

* * *

Entrou na sala com a bandeja.

Rafaela estava sentada na cadeira da presidência. O olhar de diamante se fixou nela, um olhar que Larissa chamaria de “cinicamente sedutor”, como só uma menina rica e metida consegue.

Larissa sentiu-se sem ação ao mergulhar no cinza daqueles olhos de novo. Rafaela encerrava uma conversa no telefone.

__Essa festa vai acontecer sim. Me dá só um minuto.

Pôs o fone na base e levantou-se, o olhar fixo no de Larissa. O jeito como ela caminhou em sua direção foi instigante.

__Obrigada. Estou com muita sede__ Rafa pegou o copo de sua mão e pôs sobre a mesa__Mesmo que não seja exatamente de água.

__Perdão, eu não entendi__ Larissa tentou fingir que não queria entrar no jogo.

Mas a garota a puxou de repente, colando os lábios nos seus com firmeza, invadindo sua boca sem pedir licença, sugando sua língua com avidez.

Rafa segurou nos cabelos de Larissa com força, devorando sua boca de modo ousado.

__Ai, meu Deus, o que eu estou fazendo?__ Larissa tentou se afastar.

__Curtindo as boas oportunidades da vida?__ e Rafa a arrastou para a sala ao lado. Trancou a porta. Abriu os botões da blusa branca da secretária, descendo a boca para chupar os seios dela, depois a empurrou até o sofá, arrancando a calcinha por baixo da saia. Larissa arfou, jogando a cabeça para trás, extasiada.

__Tenta não gemer muito alto, gostosa__ Rafa sussurrou no ouvido da moça antes de virá-la de costas, no encosto do sofá e penetrar dois dedos ágeis dentro dela, comprimindo-a contra o estofado, enquanto apertava o seio esquerdo com a outra mão, sugando seu pescoço em beijos impetuosos, se deleitando naquele corpo cheio de curvas tentadoras.

Mas ruído soou na porta da sala ao lado. E a coisa toda teve que ser interrompida.

__Deve ser meu avô__ disse Rafa afastando-se da secretária. Mesmo ainda ofegante, ela se recompôs com tranquilidade, enquanto a outra se arrumava, nervosa__ Fica aqui. Depois você dá um jeito de sair.

__Que jeito?

Ignorando o nervosismo de Larissa, Rafa abriu a porta e foi encontrar com o avô na sala, ensaiando seu sorriso mais doce. Fechou a porta atrás de si.

__Oi vovô!

__Querida, que surpresa. O que faz aqui?

__Queria falar com você.

__Aconteceu alguma coisa?__ ele perguntou, atencioso, sentando-se em seu posto, na cadeira onde Rafa estivera. Ela se pôs de frente para ele.

__Não é nada demais. É que eu fiquei sabendo que os organizadores do evento que eu falei em Fortaleza, estão oferecendo uma oficina para principiantes. No final do evento, a obra que ganhar mais destaque, vai poder fazer parte da exposição em Londres. Artistas de alguns países e colecionadores importantes estarão lá. Eu gostaria muito de ir, mas...

__Já entendi. Você quer permissão para ficar na casa no Meireles__ ele resumiu, parecendo impassível. Mexeu em alguns papéis na mesa.

__Bom, seria perfeito. Posso chamar uns amigos pra trabalharmos juntos, trocar ideias...

Ele levantou o olhar para ela, os olhos da mesma cor dos seus. Eles demonstravam desconfiança. Mas ela sabia que a complacência dele era quase infinita quando se tratava dela. Não tinha culpa de ser sua favorita.

__Você sabe que o seu pai já deixou bem claro que não quer você lá.

__Eu sei, vovô. Mas não vou fazer nada demais. Eu só quero aproveitar o que resta das férias fazendo uma coisa que gosto.

__Sim, mas às vezes essa sua obsessão pelas artes me deixa muito preocupado, Rafa. Você tem um futuro traçado, minha querida. E não é ser uma simples artista plástica que viaja pelo mundo ocupando-se de atividades fúteis, batalhando pelo sucesso numa área que não tem a ver com a história da sua família. Você sabe disso.

__Eu sei... Mas o meu irmão faz o que ele quer e o papai nem liga pra isso. O Léo só fica pra cima e pra baixo com a banda dele. E o que o papai diz sobre isso? Nada. Ele só enxerga os meus “erros”. Eu que estou sempre na empresa e faço a faculdade que vocês queriam...

__Não é bem assim. Ele nunca aprovou essa história do Léo com essa banda. Mas você sabe, o Leonardo é mais novo, ainda está no colégio. E ele tem conseguido conciliar boas notas com seus outros compromissos. Mas acredito que essa benevolência do Marco não vai durar muito. Ele quer que o Léo faça Direito. Então o seu irmão vai precisar de tempo pra estudar. Além disso, você sendo mais velha sempre será o alvo principal para um dia assumir os negócios da família. É preciso que você entenda isso, filha. Todas as pressões e cobranças em cima de você têm um motivo.

__Eu tenho outra teoria sobre isso. Talvez ele nunca tenha desejado investir no Léo. Afinal, o Léo é filho legítimo da Júlia. Enquanto eu não. Estou isenta de toda aquela situação. Eu não sou filha da mulher que o traiu.

__Não pense assim.

__Desculpa, vô. Mas as coisas sempre foram assim. O Léo sempre foi deixado em segundo plano. As cobranças sempre foram em cima de mim. Mas os privilégios também.

__Então o seu irmão deve estar feliz por não ser importunado. Enquanto você, fique feliz por seu pai tê-la elegido como a princesa da família. Tente enxergar as vantagens nisso e não desperdice essa oportunidade.

Ela baixou os olhos para o chão, pensando como ao longo dos anos esse fardo fora cansativo a ponto de fazê-la procurar maneiras de escapar. Olhou para uma foto em cima da mesa onde ela aparecia, vestida no uniforme do colégio, aos 10 anos de idade, segurando uma medalha de vencedora de uma competição importante de matemática.

__Acho que tenho correspondido ás expectativas dele. Sempre. Apesar de que pro meu pai nada é suficiente. Nunca foi.

__Talvez se você começar a pegar leve com as farras...

__O senhor quer dizer, parar de viver, não é? Eu gostaria de curtir pelo menos esse último ano enquanto ainda não me formei. Antes de me enfiar nesse escritório e passar o resto dos meus dias. É muito cansativo corresponder às expectativas de alguém que nunca está satisfeito.

__Eu entendo...__ o telefone tocou, cortando a conversa__Um minuto, querida.

Manfred atendeu de imediato.

__Sim, Verônica. Não, eu não me esqueci. Avise que já estou a caminho__e ele levantou-se.

__Vovô, e então?

__Tudo bem__ele cedeu impaciente__ Pode ir. Mas vou ligar para saber como estão as coisas. Juízo hein!

__Obrigada, vovô!__ ela o beijou no rosto, antes de vê-lo sair apressado pela porta.

__Oficina de arte?__ era a voz da secretária loira, vindo da sala ao lado onde Rafa a havia deixado__Será que eu ouvi a palavra festa quando você estava no telefone? Você mentiu pro seu avô?

Rafa se virou para ela com indignação, a olhando com o desprezo que teria para um inseto indesejável.

__Você é muito intrometida pra uma simples secretária, sabia?

A cara de surpresa e decepção que Larissa fez foi ignorada. Rafa apenas se virou e saiu, deixando-a lá.

Larissa a viu sair da sala e ficou parada um instante, sem acreditar que havia sido tratada daquele jeito. Fechou os punhos com raiva. Mas como é que ia adivinhar que a neta linda e sedutora do doutor Manfred não passava de uma cretina?

Já do lado de fora do prédio, Rafa desceu os degraus e se aproximou do carro, onde as amigas a esperavam.

--Alguém aí ainda quer curtir o resto das férias em Fortaleza?__ ela disse com um olhar altivo, a sobrancelha direita levemente erguida, um sorriso de canto de lábios.

Uma explosão de comemoração soou no carro.

__Arrasou, amor__ Raíssa disse assim que ela entrou, agarrando o rosto dela para um beijo.

Bárbara, sentada junto com Flávia na capota, soltou um gritinho histérico, batendo palmas.

__Perfeito, amiga!__ seus olhos castanhos com lentes de contato azuis estavam escondidos num óculos de sol cat eye Dior.

__Ai, nem acredito que vou me livrar da encheção de saco dos meus pais por mais alguns dias__ Flávia vibrou, abraçando a outra. Seus cabelos loiros na altura dos ombros refletiam na fivela da bolsa Vuitton vermelha.

Toni deu um sorriso sem graça, reparando no escândalo das amigas e se perguntando o que as pessoas que passavam na calçada em frente ao prédio pensariam. Apesar da extravagância de seu cabelo side cut, ela não conseguia se livrar da timidez.

Bruna, sentada ao seu lado, parecia compartilhar da opinião dela. Era o oposto de Flávia e Bárbie. Discreta e pouco afeita a extravagâncias.

__Alguém sabe da Val?__ ela perguntou, antes de Raíssa dar partida e sair arrancando com o carro.

__Ela está recebendo o Sílvio Reis em casa, aquele cabeleireiro especialista em cabelo afro e tranças nagô__ Rafa respondeu num tom relaxado, jogando a cabeça para trás no banco do carona e fechando os olhos, deixando o sol atingi-lo em cheio.

Em meio a uma batida eletrônica no sistema de som do carro, elas chegaram no estacionamento do shopping.

Raíssa havia pegado a carteira de motorista há pouco tempo e possuía uma concentração duvidosa. Parou o carro de súbito, mas não viu a tempo que ultrapassara a linha da vaga, atingindo a lataria do carro de trás. Um baque e um pequeno ruído cortaram o clima de festa das outras no veículo. Ela fez uma cara de lamento, antes de olhar para Rafaela.

__Eu não acredito, Raíssa! É a última vez que você chega perto do meu carro!__Rafa esbravejou, irritada.

Um barulho de porta batendo com força soou atrás delas.

__Olha o que vocês fizeram, suas loucas?__um homem berrou, se aproximando delas, o rosto afogueado de fúria.

Rafa ergueu os óculos Ray Ban espelhados, levando uma mão a testa, sentindo a irritação aumentar.

O homem olhou-as com asco. Seu olhar raivoso veio parar em Raíssa, ao volante.

__Então foi você, sua retardada? Olha o que você fez com o meu carro?

__Espera aí, meu filho, você está muito exaltadinho__ a modelo abriu a porta e saiu__ Até parece que eu explodi o seu carro.

__Quase.

Rafa também abriu a porta direita e saiu.

__Mas não precisa falar assim com ela__ se pôs entre Raíssa e o homem com um olhar firme de afronta.

__Não precisa? Olha isso aqui, garota!

Ele se aproximou do Fiat cinza atrás do conversível de Rafaela, mostrando o local do choque entre os dois veículos.

Ela deu um riso que misturava aborrecimento e deboche.

__Não sei por que tanto escândalo. Foi só um arranhão.

__Arranhão? Escuta aqui, sua vagabunda, vocês estragaram a lataria do meu carro!

Rafa deu um passo para a frente, estreitando as sobrancelhas, olhando-o com desprezo.

__Escuta, querido, você tem ideia de com quem está falando?

Ele pareceu hesitar, encarando os olhos cinzentos flamejantes da garota. Mas ainda embalado pela fúria, tornou a insistir:

__O que eu quero saber é quem vai pagar a porra do meu prejuízo, sua burguesinha metida a besta!

Num impulso de raiva, Rafa pegou a carteira, de onde arrancou algumas notas.

__Seu problema é dinheiro, seu idiota?__ num gesto brusco, ela atirou as notas em cima do homem.

Ele pareceu atônito, olhando confuso para o dinheiro no ar. Mas não teve mais o que dizer.

Virando as costas a ele, Rafa baixou os óculos e saiu andando. As amigas rapidamente se moveram para segui-la.

 

 

Dione, Alice e Rafa por Ana Little

 

 

Capítulo 3-- Dione, Alice E Rafa

 

Flashback

Numa quinta-feira à noite, Alice e Dione haviam se esbarrado por acaso num luau na Praia Branca. Rolou um clima e as duas acabaram aos beijos no final.

Sentada junto com o resto do pessoal da banda, Karina observava a cena amargando um ciúme inquietante. Depois, quando Alice foi embora, Dione sentou-se ao seu lado. Mas parecia confusa e desanimada.

__Então reatou com ela?__ Karina perguntou a Dione, tentando fazer parecer apenas preocupação de amiga. Mas por dentro estava arrasada, já que havia visto naquele distanciamento de Alice, uma possibilidade de Dione esquecê-la, e então poder entrar em cena, declarar seu amor secreto a ela. Mas agora...

__Eu não sei__ Dione sorriu amargamente.

Karina podia sentir a dor dela, e isso a maltratava mais.

Aquele sentimento havia brotado no primeiro dia em que havia chegado no conservatório de Lagoa Grande. Entrou na sala de aula e viu aquela garota morena jambo, de cabelos curtos repicados e camiseta do Angra, e não conseguiu sair de perto dela nunca mais. A amizade rolou fácil, impulsionada pela paixão por música, além de outros gostos em comum. E as coisas foram acontecendo. Todo aquele drama de descoberta sobre sua própria homossexualidade, autoaceitação, Karina havia vivido quando surgiram os sinais de seus sentimentos por Dione. A primeira garota por quem havia se apaixonado, e com quem se descobrira. Dione era o amor de sua vida. E não ia desistir dela nunca, mesmo que desde sempre ela estivesse apaixonada por aquela patricinha.

 

* * *

No dia seguinte...

__Por que você não a deixa em paz?__ disse Karina para Alice, tomando as dores de Dione.

Elas estavam no jardim da casa dos Almeida Lins.

__Sabe o que eu acho? Isso não é da sua conta__Alice encarou-a com desprezo, sem tirar os óculos, sentada numa espreguiçadeira sob a sombra de um guarda-sol, usando um maiô Gucci dourado que combinava com seu cabelo.

__É sim, e eu não vou deixar que continue fazendo isso com ela!

__Acho que quem decide é ela.

__Ela está cega, porque você a manipula. Você não gosta dela. Você não gosta de ninguém além de você mesma, Alice. O que gosta é de vê-la se arrastando aos seus pés, enchendo a sua bola e te paparicando como se você fosse uma deusa.

__O que sabe sobre os meus sentimentos?

__Sentimentos? Você é uma vadia egoísta e fútil que não consegue enxergar um palmo diante do nariz. Não está nem aí pra ela. Fui eu quem a viu chorar todo esse tempo em que você ficou “confusa” entre ela e a Rafa, e resolveu se consolar beijando metade das garotas da cidade...

Alice olhou com indiferença para a garota ruiva, vestida de preto em sua frente. Quem poderia dizer que Karina não era bonita? Os cabelos de um vermelho vivo, longos, brilhando no sol, o corpete realçando sua cintura fina, a saia curta que revelava belas pernas.

Antes de falar, Alice riu debochada.

-- Como é que eu não tinha pensado nisso? Você está apaixonada por ela.

Pega de surpresa em seu ponto fraco, Karina ficou sem jeito.

__Que meigo...__ Alice continuou, divertindo-se__Apaixonada pela melhor amiga. Há quanto tempo, hein Karina?

__Não vou mais perder meu tempo com você. Mas só vou te dar um aviso, se você a magoar de novo, eu acabo contigo.

Alice revirou os olhos, dando de ombros enquanto a observava ir embora. Mas depois ficou séria. Havia parado na parte “ enquanto você estava confusa entre ela e a Rafa...”

Não estava confusa. Gostava das duas. Rafa e Dione. Será que não tinha esse direito? Pelo amor de Deus!

Seu celular tocou. Ela olhou no visor e sorriu, mordendo o lábio inferior.

__Oi Di.

__Queria ver você. Pensei de irmos no Acqua...

Alice não gostava de ir naquela boate, um dos lugares preferidos de Rafa e aqueles seus novos amigos. Não aguentava vê-la daquele jeito, sempre chapada e pegando um monte de mulheres. E ainda tinha aquela Dalila. Uma garota sem nada de especial. O que Rafa estava fazendo pra cima e pra baixo com ela? Rafa era sua! Sempre seria. Ela nunca ia lhe esquecer.

__Alice? Você está me ouvindo?

__Desculpe, estou. É que... Ai sei lá, me distraí, deve ser o calor. Eu vou tomar um banho e dormir um pouco. Mas acho que ir no Acqua é uma boa ideia, amor.

Era uma péssima ideia. Mas irresistível. Não adiantava, havia sido tolice tentar esquecer essas duas. Estava condenada a esse triângulo. Queria as duas.

 

* * *

Rafa estava debruçada sobre a murada da varanda do quarto de Dalila, uma garota que estava pegando naquele naquela semana. Fumava, pensando na última vez em que havia visto Alice. Numa balada. Ela estava usando um vestido dourado brilhante, os cabelos lisos que brilhavam quase na mesma proporção. Ela inteira parecia um facho luminoso que se destacava no meio da multidão dançante. Ela parecia se mover em câmera lenta... Droga! Sabia exatamente cada roupa que Alice usava em todas as vezes que a havia visto. E não importava quantas bocas beijasse, ou com quantas garotas transasse. Aquela saudade maldita nunca passava.

Braços morenos a enlaçaram por trás. Ela se virou e viu que Dalila estava pronta, num modelo preto sexy e sandálias de salto fino.

__E então? Vamos ou não?

__E pra onde você quer ir?

__Com você? Até pro inferno.

__Ah é? Mas eu prometo que só vou levar você pro céu, gata__Rafa disse, antes de envolver os lábios dela com os seus, borrando o gloss nude que ela havia posto.

 

* * *

Eram nove da noite.

Alice estava no quarto, vestida numa lingerie branca, com um robe de tecido leve e transparente, por cima. Mexendo em suas coisas no closet, procurava um acessório perfeito que combinasse com o vestido que escolhera para aquela noite. Mas sem querer, deixou cair uma caixinha de madeira, mimo que havia comprado numa viagem em Tóquio, certa vez. De dentro da caixa rolaram algumas joias e fotos. Ela nem se importou, Lili podia arrumar depois.

Mas seu olhar se fixou numa foto. Nela, Rafaela estava sozinha, no cenário ensolarado da praia da Ilha.

Nem se lembrava que ainda tinha aquela foto. A imagem sacudiu-lhe como uma ventania forte. O olhar risonho de Rafa, seu sorriso charmoso e sedutor, aquela carinha de moleca que parecia sempre cheia de travessuras com segundas intenções. A saudade veio como um golpe agudo e letal. Ela se lembrou de como aquele jeito imprevisível e arteiro de Rafa a acendia.

Alice desabou no divan, os olhos vidrados na foto, o coração apertado.

__Alice, querida!__ era a voz de Lili, seguida de batidas na porta do quarto__ A Dione está aqui.

Num sobressalto, Alice se levantou e guardou a foto de Rafa.

Quando saiu do closet, viu sua namorada parada perto da porta.

Dione estava tão ela mesma numa roupa típica daquele seu estilo old school. E nem havia entrado direto, ficara ali esperando Alice aparecer, cautelosa, quase tímida. Apesar disso a comparação veio automática.

Rafa e Dione eram lindas, cada uma a seu modo.

Dione era calada, na dela, misteriosa. Seu jeito de seduzir era sutil, mas não menos fatal.

Rafa era como um furacão. Ousada, impetuosa, arrebatadora. Uma menina cujas travessuras maliciosas, eram irresistíveis.

Alice suspirou antes de abrir um sorriso para a namorada. Amava, e precisava das duas.

Dione lançou a ela um olhar devorador. Alice se deu conta de que ainda estava apenas de lingerie.

__Nossa, está tentando me fazer desistir de sair?

Sorrindo, Alice aproximou-se dela.

__Não. E se você parar de me olhar assim, vai facilitar as coisas...

__Tarde demais__ Dione envolveu sua cintura e puxou-a, alcançando seus lábios.

Alice correspondeu, fechando os olhos extasiada com o perfume inconfundível dela.

Dione a empurrou de volta para o closet e elas fizeram amor sobre o divan, onde Alice havia ficado olhando a foto de Rafa e pensando nela.

 

               * * *

Nesse clima de casal perfeito, Alice e Dione chegaram no Acqua.

Érica estava sentada numa das banquetas do balcão do bar e observou-as com indiferença. Alice num dos looks de patricinha que as garotas ali invejavam. Dione com aquele jeitão reservado, usando uma calça preta skinny, uma camiseta de banda e tênis estilo vintage, os cabelos até a altura dos ombros, que pareciam sempre caídos sobre seus olhos. Pensou se Rafa estaria por ali e, como muita gente, confirmaria os boatos de que Alice e Dione haviam voltado a namorar.

Quando Érica se virou para pegar seu drink sobre o balcão, quase levou um susto. Rafa havia acabado de se escorar ao lado com Dalila para pedir uma bebida. Seu olhar parecia meio turvo. Ultimamente ela nunca estava sóbrio. Nem viu Érica. Com uma expressão de poucos amigos, falou com o bartender, enquanto tinha o braço em volta da cintura da ficante.

Sem conseguir evitar o ciúme, Érica teve um ímpeto de se desviar, tomar o último gole e sair dali. Mas preferiu esperar para ver que cara ela faria quando visse Alice e Dione juntas.

Não demorou muito para ter sua recompensa. Quando Rafa se virou, sua ex já estava na pista, beijando a roqueira num clima quente e sensual.

Rafa pareceu alguém que acabou de chupar um limão sem querer. Foi só um segundo, mas Érica pôde saborear o ciúme que viu faiscar nos olhos cinzentos.

Olhou na direção de Alice e viu que ela havia interrompido o beijo, e por cima do ombro de Dione, encarou Rafa de modo penetrante. Elas trocaram um olhar intenso, onde pareceu explodir mil declarações, acusações, emoções fortes...

Até Rafa se desviar.

Parecendo engolir o mal-estar, ela segurou na mão de Dalila e elas saíram, caminhando para se infiltrar no meio da multidão, indo para o lado oposto.

 

* * *

Mais tarde...

Numa mesa, enquanto Dione conversava com seus amigos sobre assuntos da banda, Alice olhava em volta, inquieta, tentando avistar Rafa no meio daquela multidão. Até que olhou na direção do corredor que levava ao banheiro e a viu atravessar a porta.

__Amor, eu acabei de ver uma amiga minha, vou falar com ela.

__Mas volta logo, tá?__ Dione pediu, distraída, e deu um beijo nos lábios dela.

Sentindo seu coração acelerar e as mãos ficarem frias, Alice se levantou e caminhou obstinada para o banheiro. Talvez encontraria Rafa cheirando dentro de uma das cabines, mas não importava. Essa era a sua oportunidade, já que aquela tal de Dalila não estava por perto.

Entrou.

Rafa acabava de sair da cabine, de cabeça baixa, séria, de mau humor. Nem a notou.

Antes que ela levantasse o olhar e a visse, Alice teve a ideia.

Fingiu que também não a havia notado e, forjando um mal-estar, escorou-se na pia, ao lado dela.

Rafa a viu finalmente, e olhou-a de soslaio, surpresa e indiferente a princípio, enquanto pegava toalha de papel. Nem mesmo disse “oi”.

Alice tentou ser mais convincente, deslizou na borda da pia e deixou-se cair no chão, fingindo desmaiar.

__Alice?

Com prazer, ela sentiu Rafa se inclinar sobre ela e agarrar seu rosto. E foi em frente no teatrinho, torcendo para tudo dar certo.

__Alice...

Assustada, Rafa levantou a cabeça dela, sacudindo-a.

__O que você tem? Droga, Alice! Fala comigo!

Alice mexeu-se, entreabrindo os olhos, forçou até uma tosse.

__O que aconteceu?--murmurou.

__Você desmaiou. O que andou tomando?

__Não sei bem...Tá tudo rodando. Acho que estou passando mal. Me tira daqui.

__Eu... __Rafa afastou-se dela relutante__ Vou chamar os seus amigos.

Alice juraria que viu um toque de amargura na expressão dela ao tentar disfarçar a preocupação evidente.

__Não, Rafa. Me tira daqui agora, não me deixa sozinha. Por favor__insistiu, tentando parecer angustiada.

E isso bastou.

Rafa encarou-a com uma preocupação indisfarçável. Naquele minuto que elas se olharam, Alice pôde ver que nada havia mudado, apesar de todo aquele tempo. Os sentimentos de Rafa estavam ali, intactos, brilhando nos olhos dela, com a mesma intensidade de antes, como se ela não tivesse ficado com um monte de garotas e virado a maior pegadora da cidade. Talvez ela estivesse fazendo isso apenas para lhe esquecer. Só que não havia conseguido. E se dependesse de Alice, não ia conseguir nunca!

Com cuidado e carinho, Rafa ajudou-a a se levantar. Estava se odiando por isso, mas o que fazer? Apesar de Alice merecer seu desprezo eterno, estava passando mal e... Mas que droga! A quem estava querendo enganar? Um pedido de Alice sempre fora “o canto da sereia”. Nunca havia conseguido negar nada a ela. Podia ir chamar os amigos dela sim. Porque desde aquela maldita tarde em que a flagrara na cama com Dione, havia prometido a si mesma nunca mais deixar ela se aproximar... Mas não conseguiu ir chamar os amigos dela.

__Eu vou te levar pra um hospital.

__Você está de carro?__Alice perguntou assim que elas saíram do banheiro__ Na verdade eu quero ir pra casa. Quando chegar lá, se eu não tiver melhorado, eu ligo pro médico da família.

__Avisou a sua namorada?__ Rafa perguntou em tom de censura, enquanto a levava em direção a porta.

Alice ficou emocionada ao sentir o ciúme expresso no olhar que ela abaixou para o chão.

__Depois eu ligo pra ela e aviso.

Quando chegaram no estacionamento, Alice viu que o carro que Rafa estava usando era o de Caio.

__O seu irmão está aqui?

__Não, estou com o carro dele. O Caio está viajando__Rafa respondeu, mas arrependeu-se em seguida. Não tinha que dar satisfações a ela. Já ia fazer muito, levando-a pra casa.

__Rafa! Você pegou o carro do seu irmão sem pedir, pra sair dirigindo sem carteira?

__Vai querer que eu te leve ou não?

__Nossa, não precisa ser grossa.

Rafa não respondeu. Séria, abriu a porta do carro e ajudou-a a se acomodar no banco do carona. Depois deu a volta e sentou-se ao volante.

__Você está tão diferente.

__Imagino que você ache que é pra pior. Ótimo. Mas guarde suas opiniões pra você mesma.

Alice baixou a cabeça, dando-se conta de que não era essa a linha de conversa que iria levá-las aonde ela queria.

__Ah, droga, está começando de novo.

__O quê?

__O meu coração, está acelerando demais__ num movimento rápido, Alice pegou a mão de Rafa e a pôs sobre o decote do seu vestido, bem em cima de seu seio esquerdo. De fato, seu coração estava acelerado, mas era por outro motivo.

Nesse instante, os olhares se encontraram numa sincronia inesperada.

Rafa tentou se convencer de que Alice estava dizendo a verdade, que ela não havia armado aquela situação. Mas se viu desejando que aquela porra de mal-estar fosse mesmo fingimento, porque queria agarrá-la e beijá-la agora mesmo.

Pra piorar, Alice aproximou o rosto do dela, os lábios entreabertos...

Rafa sentiu sua boca aguar, embriagada pelo desejo, pela saudade torturante. Mesmo se xingando mentalmente, ela se inclinou para Alice e grudou a boca na dela.

Beijou-a. Com a urgência de quem não podia pensar muito. Um beijo repleto de paixão, vontade reprimida e emoções conflitantes.

Alice correspondeu, puxando-a mais para cima de si, deleitando-se no beijo com entrega, como se o mundo fora do carro não existisse, e Dione não estivesse lá na boate, talvez procurando-a.

Rafa vagava em desespero com as mãos pelo corpo dela, inconsciente de tesão, embalada por aquele sentimento adormecido que agora ressurgia incontrolável.

 

* * *

Do lado de fora, num canto do estacionamento, Érica estava escondida. Havia visto quando as duas tinham deixado o banheiro e resolvera segui-las, esperando até que entrassem no carro para confirmar suas suspeitas. Havia tirado algumas fotos, mas talvez nem precisasse delas.

Voltou correndo para dentro da boate. Ia procurar a pessoa certa.

Dione estava ainda na mesma mesa, com o pessoal da banda. Olhava em volta, obviamente procurando a namorada. Imbecil pensou Érica.

Mas o olhar de Érica se fixou em Karina. A ruiva estava sentada à esquerda de Dione, segurando um drink. Não parecia muito animada. E, claro, Érica sabia porquê. Sabia da paixão de Karina por sua melhor amiga. Quem não sabia?

Aproximou-se da mesa e acenou para ela.

Karina pareceu não entender, a princípio, mas se levantou e veio até ela.

__Oi, Karina.

__E aí? Desculpa, eu estranhei você falando comigo, nós nunca tivemos muita intimidade...

__É, eu sei. Talvez tenha faltado oportunidade__Érica disse meio irônica, porque na verdade achava a guitarrista meio antipática. Talvez fosse impressão__ Mas eu estou aqui pelo que temos em comum.

__O quê? Não tô entendendo.

__Ambas detestamos a Alice Almeida Lins. Será que eu estou errada?

Karina empertigou-se, parecendo ter sido sacudida.

__Não. Mas e daí?

__E daí que eu quero que você veja uma coisa...

Érica levou-a até um canto e mostrou as fotos que tinha tirado de Alice e Rafa no estacionamento.

__Não acredito! Como aquela filha da puta teve coragem?

__Pois é. Bom, agora você decide o que fazer com isso. Pelo que eu sei, você tem um vasto interesse em que a Dione se decepcione com a Alice. Então...__ Érica sorriu vitoriosa, por saber que seu plano daria certo, só por ver a cara furiosa de Karina--Oportunidade perfeita!

__E você, Érica? O que você ganha com isso? Por causa da Rafa? Pensei que o lance de vocês tivesse terminado numa boa.

__Eu só estou tentando ser justa__ Érica finalizou, ainda com um sorriso no rosto.

 

* * *

No estacionamento, dentro do carro, Alice e Rafa viajavam nos delírios de prazer que compartilhavam, alheias ao que estava acontecendo na boate.

A consciência de Rafa, de que estava fazendo papel de idiota só durou até ela ter Alice quase nua em seus braços. Aí nada mais importava, apenas matar a saudade daquele corpo irresistível, e saciar a vontade reprimida que a havia quase enlouquecido todos aqueles meses. Enfim, depois de tantas bocas diferentes, tantos cheiros, corpos, garotas de todos os tipos... estava diante daquilo pelo que verdadeiramente ansiava. Não devia ter começado, agora era tarde. Queria Alice de qualquer jeito, mesmo passando por cima de seu orgulho e da raiva... Sugava com ardor os seios com cheiro do hidratante de amêndoas e mel da L'Occitane que ela usava.

Até que uma sonora batida no vidro fumê do carro fez as duas pararem de imediato. Entreolharam-se.

Rafa sentindo sua consciência lhe gritar: “O que estava fazendo?”

Alice olhando para fora e se desesperando ao ver o rosto de Dione.

__Ah, meu Deus, o que eu faço?

__Não sei, a namorada é sua__ Rafa começou a se vestir, sentindo até certo prazer naquilo-- Você armou isso, agora resolve.

__Como soube que armei?__ Alice perguntou, aflita, tentando abotoar metade do vestido.

__Como se eu não conhecesse você.

__Então por que...?

__Porque eu sou uma idiota.

__Eu só fiz isso porque senti sua falta.

__Aposto que sim__ Rafa ironizou, duvidando, e arrasada por ver o olhar preocupado com que Alice olhava para fora__Aposto que sentia minha falta também quando estava na cama com ela__destravou a porta e abriu-a num rompante.

Dione pareceu ficar em estado de choque. Não era pra menos. Flagrar a namorada naquela situação com a ex...

Rafa olhou de modo firme para ela, saboreando o sofrimento que via em seu olhar. Friamente, abriu a porta do motorista e saiu.

Alice saiu pela outra porta, bem em frente a Dione, mesmo que soubesse que nada do que dissesse ia amenizar aquele caos. Aquilo não podia ter acontecido. Como Dione ficara sabendo?

__Di...

__Nã-o fa-la comigo!__foi só o que Dione disse. Não, ela quase gritou. Depois se virou e saiu andando depressa.

Rafa ficou parada do outro lado observando tudo, se perguntando se Alice ia atrás de Dione ou ficaria. E desejando dolorosamente que ela ficasse.

Mas Alice apenas lançou-lhe um olhar confuso. E saiu correndo na direção de onde a namorada havia ido.

E Rafa teve sua resposta.

Ela se manteve um instante ali, estática, quase sem conseguir respirar direito. Por fim entrou no carro e desabou no banco, entregando-se ás lágrimas.

Queria voltar atrás. Não ceder. Não deixar Alice chegar perto de si e arrebatá-la de novo daquele jeito. Isso só havia servido para descobrir que ainda estava nas mãos dela. Aquela desgraçada! Depois de todos esses meses, ainda estava loucamente apaixonada por ela. E agora, depois do momento intenso que elas tinham acabado de viver, ela havia... simplesmente ido atrás de Dione!

 

* * *

Sexta-feira à noite...

Érica subiu os degraus do Clube Resende, passando por meia dúzia de fotógrafos e jornalistas que estavam ali para cobrir o evento, um desfile da nova coleção da estilista Valentina Lins.

Como uma futura estudante de moda apaixonada, ela olhou eufórica para a entrada, pegando na bolsa o convite que conseguira com muito sacrifício.

Quando entrou, a primeira cara que avistou foi de Alice Almeida Lins, sentada na fileira da frente. Não esperava vê-la. Sabia apenas que a Banda Íris ia tocar no desfile porque o produtor era amigo de Valentina e, com certeza havia descolado a apresentação. Mas Alice não estava ali por causa de Dione, já que as duas tinham terminado tudo depois daquela noite desastrosa no Acqua.

Até que Érica percebeu que Alice parecia conversar muito intimamente com uma moça ao lado, que reconheceu como sendo a fotógrafa de um conhecido blog de fofocas. A garota era loira platinada e tinha um estilo andrógino. Nossa, Alice não perdia tempo! Já havia arrumado um novo affair para se consolar.

Em um canto, Érica avistou o pessoal da banda, junto com o produtor, o empresário e outras figuras que ela não conhecia, posando para fotógrafos. Dione, que forçava sorrisos para as câmeras, ficava séria quando se via longe dos holofotes, e parecia evitar severamente, olhar na direção onde Alice estava. Karina se encontrava muito perto dela, abraçando-a, falando coisas em seu ouvido. Será que estavam ficando, finalmente? Será que Karina estava conseguindo consolar Dione como desejava?

Mas nesse instante uma figura inesperada veio toldar a paz daquele cenário.

Caminhando depressa e cambaleante, Rafa passou por onde Érica estava como um furacão, indo fixamente na direção de Alice. Seus olhos estavam turvos, revelando evidente embriaguez.

Érica chegou mais perto a fim de ver através de toda aquela gente que circulava.

Alice pareceu levar um susto quando Rafa parou em sua frente.

__Preciso falar com você. E tem que ser agora.

Sem graça, Alice olhou para sua acompanhante, sem saber o que dizer.

__Alice, o que está acontecendo?

__Isso não é da sua conta, sua fotografazinha de merda!__Rafa se dirigiu agressiva, para a moça.

__Rafa, o que você...

Chocada e receosa, Alice encarou a ex namorada. O brilho febril nos olhos de Rafa tinha tons de vingança.

__Vem comigo__ Rafa agarrou seu braço com força, fazendo-a se erguer da cadeira.

Para evitar um escândalo no meio daquele monte de câmeras, Alice foi se deixando levar, depois de lançar a fotógrafa um olhar de “sinto muito”.

Depois do que acontecera no estacionamento do Acqua, e de Dione ter terminado definitivamente com ela, Alice ainda havia procurado Rafa. Fora na casa dela, encontrando-a em seu quarto, meio chapada e dominada pela raiva e pelo orgulho. Rafa a havia expulsado, dizendo que nunca mais queria vê-la.

E agora, por que estava ali, e agindo daquele jeito, como se ela lhe devesse algo?

Quando chegaram do lado de fora e Rafa, depois de arrastá-la rudemente pelos degraus, jogou-a com toda força contra a lataria do carro, foi que percebeu a gravidade da situação. Rafa estava fora de si.

__O que você quer?

__Entra aí!

Alice, assustada e ofegante, olhou para o pequeno grupo de curiosos que começava a se formar nos degraus. Mal percebeu que começava a chover.

__Para de gritar, as pessoas estão olhando!__e, sem escolha, abriu a porta do carona e entrou.

Rafa entrou logo em seguida, travando as portas e pegando uma garrafa de uísque para beber no gargalo.

__Você está bêbada? Deixa eu dirigir__Alice fez menção de ir para o lugar dela, mas Rafa bateu na mão dela e jogou-a de volta em seu banco.

__Fica aonde você está!

 

* * *

Na porta do Clube, Érica apareceu a tempo de ver que o carro arrancou de repente, cantando pneus no asfalto já molhado com a chuva que aumentava.

Alguém apareceu ofegante do lado dela. E quando se virou, viu que era Caio.

__O que está acontecendo? Cadê a Alice?

__Ela entrou naquele carro com a Rafa. A sua irmã não estava nada bem, Caio. Ela parecia muito chapada, ela e a Alice pareciam discutir...

__Ah, meu Deus. O pior é que aquele carro é de um dos amigos dela. A Rafa está dirigindo sem carteira outra vez. E levando a Alice...__ descendo depressa os degraus, Caio dirigiu-se ao seu próprio carro e logo saiu em disparada também, seguindo as duas.

Érica ainda ficou ali, tentando imaginar o que aconteceria. Olhou em volta procurando Dione, mas ela não estava em lugar nenhum.

 

* * *

Na manhã seguinte Érica acordou com o ruído da voz de sua mãe e batidas na porta do quarto.

__Ai, mas que droga, mãe. Hoje é sábado, sabia? Eu já estou me matando demais por causa do vestibular, eu preciso dormir.

__Filha, não é o que está pensando. Abre a porta e liga a TV.

__Ligar a TV?__ Érica indagou, se levantando ainda sonolenta e puxando a maçaneta da porta sem vontade.

A mãe entrou no quarto nervosa e sentou-se na cama. Érica pegou o controle e ligou a TV. A voz no noticiário dizia:

“... E voltamos com mais detalhes sobre a morte de Caio Hoffmann, filho do conhecido empresário Marco Hoffmann, que aconteceu essa noite por volta das 11 horas, num acidente na avenida General Afonso...”

Érica desabou na cama, atingida pelo choque, cobrindo a boca com as mãos, vendo mentalmente imagens de uma batida feia de carros.

__Ah meu Deus!

__Eu também não estou conseguindo acreditar.

Em um segundo fashs do rosto de Caio passaram pela mente de Érica, o momento em que ele havia aparecido na porta do Clube Resende e falara com ela, e em todos os momentos em que já havia estado na presença do irmão de Rafa. Era um garoto legal. Ah, Deus! Como teria sido esse acidente?

Tentando ordenar os pensamentos, ela se perguntou como Rafa estaria, se estaria ferida, ou se nem vira o momento da batida...

Sem perceber, ela se viu chorando. Por pensar em Rafa, e em como era lamentável aquela confusão da noite anterior resultar naquela tragédia.

 

* * *

O velório estava sendo realizado longe da imprensa. Foi essa a impressão que Érica teve ao entrar na casa funerária reservada somente para a família e os amigos. Os Hoffmann já deviam estar exaustos das reportagens nos telejornais, especulações sobre a causa do acidente e tudo mais.

Érica esgueirava-se pelos cantos, em meio ao ambiente de gente vestida de preto e óculos escuros, depois de se afastar um instante de seus pais, tentando uma oportunidade para se aproximar do caixão. Sentia o coração apertado, os pensamentos sendo arrastados para questionamentos sobre a existência e as verdades cruéis e imutáveis da vida, como a morte.

Postou-se num canto perto de uma exuberante coroa de flores onde jazia um belo retrato de Caio e não pôde evitar que seu mal-estar piorasse. Ela queria mesmo era sair imediatamente dali, até que viu Rafa. E teve vontade de ir até ela e abraçá-la. Mas conteve-se.

Os amigos de Rafa a rodeavam. Uma das garotas, Bárbie, não se desgrudava dela um só minuto.

Olhando para Rafa, quieta e calada, achou-a parecida com uma boneca de cera. Uma boneca bem excêntrica, por sinal. Quando olhou para o pai dela, notou que ele parecia compartilhar do mesmo comportamento estático da filha.

Manfred Hoffmann amparava a sogra de seu filho, Úrsula Castro Werneck. Do outro lado dela, a avó de Dione, Arlete Queiroz, aproximava-se, oferecendo suas condolências. Marco cumprimentou-a e manteve-se empertigado, a emoção aparentemente contida por detrás dos óculos.

Ao lado, Léo encolhia-se entre seus amigos da banda. Dione e Karina estavam muito perto dele, todos envolvidos no clima pesado que só os velórios possuem.

Foi sem surpresa que Érica avistou em outro canto, a família Almeida Prado, Alice parada entre os pais. A patricinha estava elegante, como era de se esperar, num modelito preto de velório impecável.

Érica se perguntou se ela ia se aproximar de Rafa... E como as coisas ficariam de agora em diante.

Dione estava na varanda, olhando para o jardim, mesmo que não estivesse vendo nada. Sua mente estava paralisada num único pensamento. Alice ia embora da cidade. Para sempre. Ia morar em Amsterdã na Holanda, com a família. Havia ficado a par da notícia através de Léo.

Já fazia três semanas desde aquela noite que queria esquecer. A noite do acidente. A morte do irmão de Lé. Depois do velório, daquele depoimento exaustivo, e o assédio da imprensa, tudo estava se acalmando. Mas dentro dela a tempestade ainda soprava, destruidora e implacável.

Mesmo que estivesse tentando se convencer de que era melhor assim, que Alice sumisse para sempre, a vontade que tinha era de morrer. Mesmo que sua razão lhe impusesse a verdade que Alice nunca fora e nunca seria sua, não conseguia evitar a sensação de que, agora sim, ia perdê-la de verdade.

Batidas soaram na porta. Deduzindo ser sua avó, preocupada como estava com ela nos últimos dias, Dione se virou.

Mas deu de cara com os olhos castanhos de Alice. Seu coração quase congelou. Encarou-a, sem conseguir abrir a boca, a princípio.

O que ela estava fazendo ali? O que mais ela queria?

__Oi...__ Alice disse, caminhando até a porta da varanda, mas parando antes de se aproximar muito. Estava linda num hot paint preto, com um scarpin dourado e uma blusa de seda rosa bebê, os cabelos lisos caindo sobre os ombros. Teve a ousadia de largar a bolsa sobre uma poltrona, como se não precisasse de convite. Antes não precisava. Mas agora sim!

__Não acredito que você teve a cara de pau de vir aqui, Alice__ Dione não queria olhar para ela, a imagem que ficaria gravada em sua mente quando ela estivesse longe, por muito tempo, talvez para sempre__Eu achei que nunca mais ia ver você e, sinceramente, esse seria um grande favor que você me faria.

Que grande mentira. Dione sentiu-se desmoronar ao ver as lágrimas rolarem pelo rosto dela. Sentia raiva, vontade de expulsá-la dali. Mas ao mesmo tempo estava morbidamente feliz em vê-la.

__Eu vou fazer isso. Eu estou indo embora, Di.

__Não me chama assim!__ Dione exigiu, entre dentes__ Eu já estou sabendo. Aliás, pensei que já tivesse ido.

__A viagem está marcada para amanhã. Eu só... não queria ir sem me despedir de você.

Dione virou-se para o jardim. Não queria deixar ela ver sua expressão de desespero.

__Adeus, então.

__Eu nunca vou esquecer você. Espero que um dia me perdoe e possa lembrar com carinho de tudo o que nós vivemos.

Dione tentou respirar fundo, mas o ar lhe fugia. Apertou as mãos no parapeito, tentando se manter aparentemente indiferente, esperando que ela simplesmente se tocasse e fosse embora. Pôde ouvir a respiração aflita dela, o ruído dos metais da bolsa quando ela pegou sobre a poltrona, e seus passos indo em direção à porta.

Mas num impulso do qual ia se arrepender depois, Dione virou-se, sua mente bloqueada pelas emoções intensas, caminhou até ela e puxou-a pelo braço, fazendo com que ela parasse. Empurrou-a até a porta e colou os lábios nos dela.

A bolsa caiu, e Alice a enlaçou pela nuca, entregando-se aos apelos daquela boca ávida que se fundia à sua. As lágrimas não cessavam, o prazer do beijo se misturava à dor de saber que aquele seria o último.

Até que Dione se afastou, recuperando sua consciência, e a certeza de que precisava deixá-la ir, se libertar daquele sentimento destrutivo de uma vez.

Encarou-a firmemente, apesar das lágrimas.

__Espero que seja feliz.

Alice tremia, o gosto da boca de Dione na sua, agora trazendo de volta um punhado de esperanças.

__Na verdade eu vim aqui porque amo você. Porque apesar de todas as besteiras que eu fiz, por mais que eu tenha ficado com outras pessoas e... até cogitado a possibilidade de ficar com você e ela ao mesmo tempo, eu admito isso, foi uma estupidez, eu sei... Mas você é a única pessoa sem a qual eu não posso viver. E... se você me desse só mais uma chance, Di... Nós podíamos tentar. Eu podia pedir aos meus pais para ficar, ou...

Mas Alice foi obrigada a se interromper, porque o olhar de Dione irradiava uma mágoa irreversível. Não precisava nem ouvi-la falar. As acusações expressas naquele olhar, desarmaram-lhe definitivamente.

__Adeus, Alice.

Foi só o que Dione disse, tacitamente pondo ali um ponto final em tudo.

Baixando a cabeça, tentando se conformar, Alice inclinou-se para pegar a bolsa. Sem olhar novamente para ela, virou-se, abriu a porta e saiu.

Dione escorou-se na superfície da porta, suas pernas vacilando, fazendo-a descer lentamente até o chão, num transe de tristeza e lágrimas.

* * *

-Tempos atuais-

-Na estrada depois de um show da banda numa cidade vizinha-

Encostada no tronco de um angico, Dione bebeu água no gargalo da garrafa, impaciente. A estrada estava deserta, e a van parada no acostamento, enquanto Diego e Léo tentavam trocar o pneu.

Ficar no prego debaixo daquele sol já era ruim, imagine depois de encarar uma noite de festival no Crato, um after até o amanhecer e estar agora a poucos quilômetros do litoral. Haviam atravessado o estado. Agora era quase meio-dia e ela estava há mais de 24 horas sem dormir.

Pelo menos de uma coisa não podia reclamar. A banda estava ganhando a visibilidade que eles tanto sonhavam desde aquela época em que tocavam na escola, sendo obrigados a ouvir vaias daquelas patricinhas metidas do Farias Lobo. Agora eram outros tempos. A banda Íris finalmente havia se firmado como uma banda de verdade, depois de ganharem aquele concurso em Fortaleza. 

Mas tirando a parte gratificante, ela estava exausta. E naquele momento, só precisava estar em casa, no conforto de seus lençóis. Mas pelo visto isso ia demorar...

Pra piorar o estresse, ela e Karina haviam brigado feio na noite passada. O namoro com ela estava passando por uma crise crescente. Nem sabia dizer como começara. Apesar de todo aquele tempo juntas, a essa altura só conseguia se perguntar se algum dia amou Karina de verdade. Ou se só estava com ela por comodidade. Desde que Alice fora embora, há quatro anos, ficou com uma sensação de vazio infinito. As coisas foram acontecendo entre ela e Karina, e foi se deixando levar pela maré. E agora, já não sabia o que fazer. Ir em frente, mesmo cheia de dúvidas. Ou terminar tudo de vez.

* * * 

Karina estava sentada numa pedra, conversando com Alessandra, a vocal, e com Vanessa, que resolvera acompanhar Léo naquela viagem.

__Eu não sei, alguma coisa está errada__ Karina disse pensativa, falando baixo com as meninas, para Dione não escutar__ Ela tem se tornado distante demais nesses últimos meses. Está sempre cansada, sabe? Como se estivesse me evitando.

__Ai, Karina, para de nóia. Estamos na estrada direto ultimamente__ Alessandra a lembrou.

__É, amiga. Vocês estão juntas há tanto tempo...__ concordou Vanessa.

__E apesar disso, esse tempo todo, parece que a Dione esteve mais distante de mim do que antes, quando ainda éramos apenas amigas.

__Você acha que ela ainda pensa na Alice?

__Não sei. Aquela patricinha nojenta está longe, em Amsterdã. Por mim ela podia ter ido pra Marte. Ai, eu nem quero falar muito nela, senão atrai.

__Você tem razão. Aquela garota aprontou muito. Se a Dione ainda pensar nela, mesmo estando com você, é porque não te merece, amiga.

Karina suspirou nervosa e olhou na direção da namorada, que continuava lá escorada na árvore, olhando os garotos trocarem o pneu da van.

 

* * *

Um dia depois

 

 

Karina saiu do táxi em frente a casa dos Queiroz. Mas em seguida se arrependeu. Não devia estar ali, não com aquele motivo. Ter aquela conversa com Dione. Na melhor das hipóteses, elas iam brigar, e ela voltaria para casa com a típica sensação de frustração que a atormentava todas as vezes que aquilo acontecia.

Assim que começou a subir a escada, Karina prestou atenção no som de piano vindo do segundo andar. Clair de Lune.

Quando chegou no corredor, estava mais ansiosa e melancólica. Podia imaginar a namorada sentada tocando, concentrada, como se estivesse em outro mundo. Nesses momentos Dione parecia mais distante dela. Será que pensava em Alice? Ou em outra pessoa?

A luz da lua entrava pela janela e era a única claridade que pairava no quarto. Dione estava exatamente como Karina havia imaginado.

__Você não atendeu as minhas ligações hoje.

Dione parou de tocar, mas continuou de costas para ela.

__O que está acontecendo, Dione? Não conversamos mais. Só discutimos ou ficamos em silêncio.

__Porque você não para com essa paranoia de Alice. Ela não está mais aqui, Karina! Por que insiste em botar entre nós uma pessoa que está lá em Amsterdã? Pelo amor de Deus!

__Está aqui sim! Ela está em você.

__Fala baixo. A minha avó não precisa ouvir a nossa briga.

__Desculpe...__ Karina passou a mão pelos cabelos vermelhos, tentando se controlar.

__Olha, quer saber? Acho melhor pararmos por aqui-- Dione arriscou, impaciente.

__O que quer dizer com isso?

Elas se encararam, tensas, as emoções a flor da pele.

Karina sentiu as lágrimas encherem seus olhos.

__Que não quero continuar com isso. Quando éramos um casal, nos divertíamos juntas, isso me fazia bem. Mas agora, quando chego perto de você, eu...

__Ok, eu já entendi. É assim que você quer resolver as coisas, não é? Pondo um ponto final num namoro de três anos assim do nada...

__Eu só estou cansada disso. Queria que fôssemos como antes.

__Quando eu deixava você viver à sombra dela? Quem está cansada sou eu! Cansada das lembranças da Alice na nossa vida, dessa sua obsessão por ela que nunca acaba. Quer saber, eu vou sair dessa droga de banda também. Aproveitando que minha mãe vai viajar, eu vou com ela!

__Não... Você não pode fazer isso, Karina! Nós prometemos, fizemos um pacto de nunca misturar vida pessoal com a banda.

__E o que eu faço com a minha vontade de não ver você nunca mais?__ Karina disse, desfazendo-se em lágrimas.

Dione calou-se, ficou olhando nos olhos dela. Karina estava arrasada. Mas o que deixou Dione pior foi que não conseguia se sentir do mesmo jeito. Bem lá no fundo, era alívio o que ela sentia. E isso a deixava culpada. Porque amava Karina. Não do mesmo jeito que amava Alice. Mas como amaria a uma amiga. Era isso que Karina sempre havia sido, mesmo quando estavam namorando. Era de sua amiga que estava se despedindo. Porque para Dione, no fundo aquele namoro nunca fora de verdade.

__Não quero ter que ver você... Nos shows, nas viagens, gravações. Isso não faz sentido.

__E vai jogar seu sonho fora? Logo agora que a banda está começando a se destacar?

__Só sei que não quero mais ficar aqui.

Dione sentiu que não havia mesmo mais nada a dizer. O que poderia dizer? Que não queria que as coisas tivessem chegado a esse ponto? Que só queria ter de volta a Karina que era apenas sua amiga? Sim, admitia sua fraqueza de não ter conseguido fazer dar certo entre elas. Ela tinha razão. Seria péssimo continuar a rotina da banda com um clima assim.

__Eu vou embora.

Karina disse e esperou pela reação dela, que foi a pior. Dione ficou parada, como se esperasse apenas que aquilo acabasse logo, como se dali a uma semana nem se lembrasse mais dela. Como podia agir assim?

Por mais que a dor a paralisasse, Karina moveu-se e caminhou até a porta.

 

O encontro por Ana Little

 

Capítulo 4- O encontro

Fortaleza

            Três Semanas Depois

 

A rua era claramente restrita a um público seleto. Aquela rua era só mais um dos lugares loucos por onde ela e as amigas gostavam de se aventurar. Caminhando ao lado das amigas, Rafa sentia a adrenalina típica lhe esquentar o sangue. Um prazer mórbido a envolvia. A sensação de não fazer parte daquilo, de estar intacta, pairando intocável, no submundo proibido. Ao longo da rua, prostitutas fazendo ponto, fachadas luminosas de boates e motéis, carros de clientes circulando. Elas em frente a uma boate. O letreiro vermelho reluzente dizia: Clube Fantasy.

Entraram.

Uma infinidade de rostos se viraram na direção delas. Naqueles momentos Rafa bem que gostaria de camuflar os traços de burguesinha. Sua cara de boneca nunca passaria despercebida num lugar como aquele, cheio de tipos sórdidos procurando por garotas novas e bonitas.

Elas andaram entre as mesas e escolheram uma perto do palco. Garçonetes seminuas andavam de um lado para o outro sobre saltos imensos, servindo os clientes que esvaziavam garrafas de bebidas enquanto se deleitavam em ver as stripers fazendo coreografias nos queijos.

Distraída, Rafa nem percebeu quando no palco principal, as dançarinas pararam. A música parou. E uma concentração de olhares se formou naquela direção. Luzes vermelhas e vibrantes se acenderam. No entanto, a expectativa pairando no ambiente, finalmente atraiu sua atenção. Ela pousou seu drink na mesa. Acendeu um cigarro e se fixou no palco casualmente.

A tão esperada estrela surgiu. Era uma garota loira e exuberante. Numa chuva de luzes, ela vinha resplandecente, cercada por outras garotas menos notáveis.

De repente foi como se todo o lugar entrasse numa espécie de transe. Mas com Rafa foi mais do que isso. Ela sentiu o impacto. Algo que estava além da beleza vista pelos outros. O choque de fascinação fatal. A breve aspiração mística que faz com que uma pessoa pareça especial e estranhamente única. De repente aquela imagem correspondia a tudo o que ela nem sabia que desejava. E Alice, sua primeira paixão, e todas as outras garotas que já havia tido, eram apenas o esboço disso. Seu inconsciente escolhera, entre tantos perfis, aquele tipo perfeito, o ideal. O que seus olhos e seus sentidos buscariam a vida inteira. Agora aquela criatura estava desenhada na sua frente. Na forma daquela moça.

Rafa estava acostumada a não prestar atenção nas garotas que pegava. Eram tantas. Todas lindas e disponíveis, atraídas por sua beleza e seu dinheiro como um enxame de abelhas pelo mel. Não fazia diferença. Mas ela enxergou algo mais naquela figura no palco. Mesmo que não soubesse disso. Por mais que o desejo que estava brilhando em seus olhos a levasse na mesma direção que ela sempre ia diante de uma mulher bonita. A do sexo casual e da curtição. A garota era linda, mas e daí? Era só uma go-go girl qualquer.

Rafa não podia saber que aquele encontro era a continuação de algo que começara há muito tempo. Uma travessura do destino.

Lá em cima, a garota vinha desfilando pelo tablado entre os clientes ávidos, numa atmosfera irresistível de glamour e mistério. Seus longos cabelos loiros, sob a luz eram como fios de ouro, formando uma nuvem reluzente sobre os ombros, as ondas esvoaçando majestosamente enquanto ela dançava. A pele possuía um bronzeado natural que a tornava dourada, como as meninas do sertão. Metida num micro skirt com uma cinta liga e saltos finos, ela executava com maestria a coreografia erótica. Movia-se entre as outras com a graça de uma ninfa. Ora angelical, ora selvagem.

Mas seu rosto estava parcialmente coberto por uma máscara, como as de bailes estilo veneziano ou carnaval, preta e com detalhes em glitter. Isso não era frustrante, ao contrário, dava-lhe um ar de mistério fascinante.

Rafa estava paralisada. Mal conseguia piscar. Seus lábios se curvaram num sorriso de rendição ao deslumbramento.

__Eu sabia que você ia gostar da Angel__ observou Val, a butch que possuía um estilo afro impecável. Parecia estar se divertindo em ver a amiga babar pela dançarina.

As amigas de Rafa sabiam bem como as mulheres eram descartáveis na mão dela. Mas ninguém ali tinha ideia do que estava acontecendo de verdade.

__Angel?__ Rafa indagou num suspiro de êxtase, submersa em seu arrebatamento.

__É... Mas não perca seu tempo. A Angel é proibida__ Toni, a garota do cabelo side cut, advertiu, dando uma tragada em seu cigarro.

__Proibida por quê?__ Rafa se virou para Val. A garota sorriu. Sabia que para a amiga, o "proibido" não existia.

__Eu soube, através de um conhecido, digamos, bem informado... que essa garota é "propriedade exclusiva" do chefe.

__O chefe? Do quê? O dono desse lugar?

__Não. Acho que não. Deve ser chefe de alguma outra coisa que tem a ver com esse lugar, uma rede de prostituição, sei lá. Coisa grande, entende? A Angel não atende os clientes. Só faz esse show e sai fora__ Val deu uma tragada e soprou a fumaça no ar.

O que pairava no pensamento de Rafa não era decepção, mas uma curiosidade extasiante. Seu cérebro se fixara apenas num ponto. O desejo pela loira no palco. Os obstáculos não existiam.

__Então ela não faz programas?

__Não. Eu tentei na primeira vez que entrei aqui. Ofereci uma fortuna. Não rola. Se você reparar bem, os clientes nem podem tocá-la. E ela nunca tira essa máscara.

__O quê? Então ela não mostra o rosto?

__Não.

Rafa voltou a olhar para o palco intrigada. Agora ainda mais excitada.

No meio da coreografia erótica, a dançarina pareceu notá-la, olhando-a diretamente, como se dançasse para ela, fazendo assim Rafa ficar mais seduzida. Uns olhos castanho amarelados, ou da cor de um mel puro e límpido, se moviam entre as aberturas da máscara. Eles se fixaram nos seus. O coração de Rafa disparou em êxtase.

__Pois eu vou conhecê-la__ ela afirmou como um juramento irrevogável, um olhar obstinado, enquanto a dançarina encerrava o show__ Vou tirar essa máscara, e o resto também. Não só isso. Essa mulher vai ser minha!

Todas na mesa riram, mas já conheciam o jeito ousado dela.

__Ih, isso não vai prestar__ previu Bruna.

Rafa esperou uns minutos, olhou para cada canto daquele lugar, pensou um pouco e se levantou.

__Eu já volto.

Saiu caminhando devagar pelo ambiente sombrio, observando discretamente cada rosto em volta, tentando descobrir quem podia ser o "gerente" do inferninho.

Seu olhar parou numa mulher de terno preto e cabelo ruivo, perto da porta, que estava falando com dois homens cujas roupas refinadas, indicavam que eram clientes importantes. Esperou os dois se afastarem. Se aproximou da mulher.

__Olá!__ virou-se a ruiva, abrindo um sorriso e inspecionando Rafa-- Posso ajudá-la em alguma coisa?

__Talvez sim__Rafa respondeu sem retribuir o sorriso, se perguntando até que ponto uma criatura como aquela conseguia farejar o ouro na sola de seu sapato__ Eu preciso falar com uma garota... Angel.

Parecendo surpresa, a mulher fez uma cara de "sinto muito", antes de dizer:

__Me desculpe, mas isso não vai ser possível. Essa menina, em especial, não fala com os clientes. Mas... eu nunca vi você por aqui. Aposto que é a primeira vez que entra no Fantasy. Tenho certeza que quando conhecer outras meninas, mudará de ideia quanto a uma boa companhia...

__Eu não vou mudar de ideia__ Rafa insistiu, irritando-se__ Quero falar com ela. Apenas me diga qual o preço...

__Você não entendeu. É impossível atender o seu pedido. A Angel não está disponível, sinto muito.

Um homem apareceu nesse instante, falando qualquer coisa com a ruiva. Ela se virou para Rafa e apenas disse educadamente:

__Com licença.

Indignada, Rafa ficou parada um minuto remoendo as palavras definitivas da mulher. Mas pensou em outra coisa. Não estava acostumada a aceitar não como resposta.

Esgueirou-se pelos cantos, para longe das vistas da gerente e aproximou-se de uma das garotas que circulavam em lingeries sexys. Era morena, de cabelos encaracolados e usava um batom cor de vinho.

__Oi...

A menina se virou, passeando um olhar curioso e sorridente por Rafa.

__Oi! Parece que você está meio perdida...

__É, mas quem sabe você não pode me ajudar...

__Com todo prazer. Meu nome é Darlene. No que eu posso... ajudar você?-- Rafa teve vontade de rir com o olhar devorador que a garota estava lhe lançando.

__Muito simples. Preciso saber como chegar no camarim de vocês.

A menina estreitou os olhos, abismada. Depois caiu na gargalhada.

__Como é? Você está brincando comigo, garota? Bom, se você quer fazer parte da equipe, precisa falar primeiro com a Elisa. Ela vai adorar você, com esses olhos claros e essa pele incrível...

Depois de ficar ouvindo a garota impaciente, sem saber se ria ou se a mandava se foder, Rafa levou uma mão e coçou a nuca, tentando ser educada:

__Olha, não é nada disso. Eu preciso encontrar uma garota. A do show. Angel. Preciso saber onde ela está.

__Ah! Claro, então é isso. Bom... todos querem, meu bem. Sempre tem um cliente cheio de grana que vem e oferece uma fortuna por ela. E a gente que precisa de verdade...

__Ah é?__ Rafa pegou a carteira e sacou dali uma nota, mostrando a ela__Quantas dessa você precisa pra me dizer como chegar até ela?

A menina sorriu cética.

__Muitas, querida.

__Quantas? Me diz a porra do caminho e pode pedir quantas quiser.

__Você está louca? Não é permitido que os clientes atravessem aquele corredor.

Rafa olhou na direção do lugar, para onde a garota havia olhado.

__Escuta, eu não tenho tempo a perder. Vai aceitar minha proposta ou não?

__Quem é você?

Rafa guardou a nota e já ia saindo, quando a menina se pôs na frente dela, olhando para todos os lados antes de falar.

__Tudo bem. Hoje não está uma boa noite mesmo... Mas se der merda, eu vou te procurar, hein? Não vou me ferrar sozinha__suspirando nervosa, a menina a puxou consigo pelos cantos para não serem vistas.

Elas entraram por uma porta abaixo da escada. Para além dela havia um corredor sombrio, cheiro de portas.

__Você segue por aquele corredor. No final dele tem uma escada. Você sobe, tem outro corredor. A terceira porta é onde ela está__ a garota pôs na mão de Rafa uma chave.

Rafa deu três passos em frente. Quando olhou hesitante, para trás, a garota não estava mais ali. O lugar adiante parecia um cenário de O Massacre da Serra Elétrica. Ela pensou pela primeira vez: Estou ficando louca. Mas mesmo assim se dispôs a caminhar, o ruído de seus passos bloqueado pelo barulho lá fora. Quando percebeu que havia sido engolida pela escuridão e estava distante da porta por onde tinha entrado com a garota, começou a andar mais rápido. Subiu as tais escadas indicadas e avistou mais ou menos onde ficava a porta que lhe permitiria encontrar Angel. Finalmente...

Mas ouviu ruídos na escuridão...

Dobrou a esquina do corredor com vontade de voltar. E viu algo inesperado. Alguém estava se aproximando da tal porta. Um homem. Ele usava terno preto e tinha cabelos lisos.

Rafa diminuiu o passo e sentiu que não devia deixar que ele a visse. Esperou um minuto, observando escondida. Ele parecia tentar abrir a porta, ou algo assim. Lançou olhares rápidos para os lados, o que ela considerou estranho. Por fim ele abriu a porta num rompante, entrando no cômodo e deixando-a entreaberta.

Rafa precipitou-se até a porta. Mas a visão que teve a fez recuar, antes de pensar no que fazer. A dançarina loira mascarada estava lá dentro, em frente a um espelho sozinha. O homem se aproximou rápido, sem dar tempo de a garota reagir. Agarrou-a com força, amarrando em sua boca uma espécie de pano preto.

Sem saber o que fazer, Rafa olhou para a escuridão do corredor. Tinha que fazer alguma coisa e rápido!

Ela viu que ele vinha arrastando Angel para a porta. Afastou-se e se escondeu de novo. O homem, forçando a go-go girl a andar, veio puxando-a para o corredor.

Rafa tentou pensar, apavorada. Procurou por algo, qualquer coisa que pudesse... sabe-se lá, talvez bater nele e impedir o que estava fazendo.

O que ele ia fazer com a garota?

Rafa nem se permitiu pensar. Até que, olhando de volta para a porta, avistou um extintor de incêndio. Correu para pegá-lo, certa de que como o cara estava de costas na escuridão, não a veria de imediato.

Com o extintor em mãos, foi seguindo-o com cautela. Até perceber que ele pretendia virar a esquerda, no corredor.

Rafa respirou fundo, reuniu todas as suas forças, deu uns passos até alcançá-lo se esgueirando atrás para não ser vista. Golpeou-o na cabeça.

O ruído surdo foi abafado pelo barulho de música vindo lá de fora. E tudo aconteceu tão rápido e confuso que Rafa nem conseguiria explicar com precisão. O cara, surpreendido pelo golpe, se virou, soltando Angel automaticamente, e vindo na direção de Rafa. A essa altura, a go-go girl havia sumido. Não estava em lugar nenhum, fugira talvez.

Rafa se desesperou pelo que viria a seguir. Ela foi recuando, sendo seguida pelo estranho homem. Até que ouviu mais passos no corredor e sentiu um forte golpe na cabeça. Ela ficou tonta, enquanto ouvia vozes. Suas forças foram se esvaindo, num redemoinho de dor e medo. Ela sentiu-se desabar no chão. E tudo foi ficando mais escuro...

 

* * *

Açucena saiu correndo desabalada pelo corredor, confusa e em pânico. Quando se viu num local onde havia alguma iluminação, diminuiu o passo, mas sem deixar de olhar para trás.

Ainda não conseguia entender o que havia acontecido. Agora que estava a salvo, tinha a sensação de que acabara de acordar de um sonho ruim. Mas infelizmente, aquilo era bem real.

Quem era aquele homem estranho? Um cliente louco?

Não queria nem pensar nas possíveis pretensões do sujeito. Ela estava no camarim, como todas as vezes depois dos shows, esperando Carlão aparecer para levá-la para o flat de Diana. Sempre tivera medo daqueles corredores e escadas meio escuros, mas ela e as garotas circulavam por ali o tempo todo. Então soou um barulho na porta e ela mal havia tido tempo de verificar do que se tratava, aquele estranho já estava lá dentro e ela sentiu mãos pesadas agarrarem seu pescoço, tapando sua boca e a arrastando para fora.

Porém, mais do que o medo, havia aquele fato curioso na cena. O aparecimento daquela garota do nada, atacando o homem. Não havia visto o rosto dela direito. Mas pelo vulto, dava para concluir que não era nenhuma das meninas da boate.

Isso é loucura, mas é como se ela estivesse lá exatamente para me salvar.

Açucena parou de repente. Preciso voltar! Ou avisar alguém. Ela olhou para o corredor escuro atrás de si. Preciso voltar, preciso...

Passos de alguém se aproximando a fizeram gelar. Ela já ia se preparando para correr de novo, quando a voz soou baixa, no corredor.

__Açucena...__ era apenas Carlão__Você está bem?

 

* * *

Quando Rafa voltou a si, o cenário era outro. Não era mais o corredor, talvez nem mesmo a boate. Muitas horas deviam ter se passado, mas ela não tinha certeza. Estava sentada com as mãos presas para trás. Uma luz fosca atingia seu rosto. O resto do cômodo estava submerso na escuridão. Três figuras a rodeavam. Dois sujeitos mal encarados e uma mulher.

A mulher tinha cabelos escuros e brilhantes na altura dos ombros e olhos negros. Era de uma elegância inquestionável, num terno preto com gravata cinza. Parecia uma daquelas celebridades de Hollywood que gostam de causar nos eventos mais badalados do show business usando roupas masculinas. Apesar de que se aquela mulher fosse a personagem de um filme, seria uma gângster de algum film noir dos anos 1940. O jeito feroz como seus olhos se estreitavam para olhar Rafa pareciam mesmo ter a intenção de amedrontar. Isso parecia mais a cena de um filme.

O que é mesmo que estou fazendo aqui?

__Pra quem você trabalha?

__O quê?__Rafa indagou, confusa. Uma pergunta inesperada, sem dúvida.

__Você entendeu, garota. Agora fala, porque o meu tempo é precioso.

__Olha, desculpa, mas eu não sei do que você está falando...

__Por que entrou naquele corredor? Por que ia invadir o camarim das meninas? Quem é você? Quem te mandou?

__Calma aí, agora eu nem me lembro mais da primeira pergunta.

__Não banque a engraçadinha. Responda!

Quem ela pensa que é para me interrogar assim?

__Ninguém me mandou aqui__ Rafa respondeu com rispidez.

Entendendo isso como um insulto, a mulher sacou uma mini pistola que parecia de brinquedo. Mas Rafa sabia que não era. Já tinha visto uma daquelas quando resolvera entrar naquele curso de tiro sem sentido porque havia cismado que aprender a atirar devia ser legal. Olha a utilidade do curso aí. Aquela pequena pistola era uma 9mm que poderia estourar seus miolos.

__Talvez eu possa te ajudar a formular a resposta__ disse a mulher, destravando a arma, com um olhar malévolo.

Agora as coisas se complicavam de verdade.

Nessa hora soaram passos vindo de algum canto atrás de Rafa. Pareciam de um salto fino.

__Se ela tivesse más intenções quando entrou na boate, não teria salvado a minha vida__ a voz aveludada, num timbre notavelmente feminino e sensual encheu os ouvidos de Rafa, fazendo-a se virar como que atraída por um chamado.

É ela! A loira...Angel!

Rafa tentou disfarçar o abalo que sentiu ao ver a figura dourada surgir na luz. Angel ainda usava a máscara. Mas agora vestia um robe preto, aqueles cabelos incríveis reluzindo sobre o tecido escuro. Seus olhos fitaram os de Rafa por um segundo. Um segundo quase eterno. Tão profundo que Rafa se viu tentada a mergulhar neles...

Até que a garota se virou para a mulher com uma expressão hostil.

__O que pretende fazer com ela?

A mulher de terno e gravata se aproximou dela e segurou seu rosto entre as mãos como se ela fosse uma criança.

__Minha princesa...__disse num tom melífluo__ O que está fazendo aqui? Isso não é assunto seu. Volte para a sala e me espere lá.

__É assunto meu, sim-a dançarina afastou-se rudemente__Se não fosse por ela, nem sei o que aquele homem poderia me fazer.

A mulher a encarou de modo severo e disse entredentes:

__Volte para a sala. Agora!

__Não!__ Angel recusou-se terminantemente. Atrevida. Fascinante.

Mas de onde estava, em sua pose de toda poderosa, a mulher de terno apenas esticou a mão e desferiu um tapa frio e seco no mesmo rosto que há segundos acariciava.

__Saia!

A garota, cuja marca vermelha no rosto parecia não significar nada, voltou-se e enfrentou o olhar da mulher de novo. Mais agressiva e insolente.

Rafa odiou ter presenciado aquela cena. E ainda mais a dúvida que ficaria em seu pensamento. Por quê uma garota como aquela, de beleza extraordinária, talentosa e aparentemente destemida, se submeteria a uma situação assim?

De modo feroz, Angel encarou a mulher, deixando claro que não ia obedecê-la. Naquele olhar de cães raivosos que elas trocaram, Rafa pôde compreender que a relação delas estava longe de ser só profissional.

Ela é propriedade do chefe, ecoou em sua mente a voz de Val. Então o chefe é na verdade, uma mulher?

Como uma demonstração definitiva de poder, a mulher fez sinal para um canto escuro. De lá vieram mais dois sujeitos e agarraram nos braços de Angel, arrastando-a para a porta.

A mulher esperou os três saírem e virou-se para Rafa.

__Onde é que nós estávamos?__dessa vez ela precipitou-se mais para perto e encostou o cano da arma na testa de Rafa. Parecia impaciente e com mais raiva. Óbvio que o olhar fascinado de Rafa para Angel não havia fugido àquela percepção implacável-- Se bem que isso já perdeu a graça.

Ela afastou-se, perdendo o interesse. Mas antes que Rafa pudesse experimentar algum alívio, ela se dirigiu aos dois caras estranhos ao lado.

__Façam ela falar alguma coisa.

E se foi, caminhando para a porta.

__Você vai se arrepender__Rafa ameaçou, entrando em pânico por pensar nos recursos que aqueles brutamontes usariam para obedecer à ordem da mulher-- A minha família é muito poderosa. Você vai se dar mal...-- os caras começavam a desamarrá-la como se ela fosse um saco de batatas.

__Ah, não me diga. Eu adoraria saber quem é a sua família...

__Eu me chamo Rafaela Hoffmann!__ Rafa disse com firmeza.

A mulher parou de repente. Quando se virou e veio para a luz novamente, estava lívida, os olhos bem abertos e analisadores, percorrendo-a.

__Soltem ela!__ordenou subitamente, com toda a sua autoridade incontestável.

__O quê?__um deles perguntou sem entender.

__Eu disse pra soltá-la. Está havendo um engano...

Quando se viu livre dos dois, Rafa ajeitou as roupas e passou a mão pelos cabelos.

A mulher ficou de frente para ela. Parecia tensa. Rafa pegou a identidade e mostrou a ela.

__Para o caso de não acreditar.

__Não, de maneira nenhuma. Eu acredito__ a mulher disse, mas deu uma boa olhada no documento__Sou Diana Dantas. Peço desculpas pelo que aconteceu. Agradeça por ter esse sobrenome, menina. Conheço a sua família... Eu nunca poderia imaginar.... Infelizmente nós temos muitos inimigos e qualquer coisa suspeita deve ser imediatamente averiguada. Sinto muito. Eu faço qualquer coisa para me redimir.

__Tudo bem. Não tem necessidade__ Rafa foi se deixando conduzir por ela para fora dali. Era uma espécie de escritório, mas parecia um submundo perfeito para mafiosos. O que, na verdade, fazia sentido. Aquela mulher não era uma empresária comum.__ Acho que eu não deveria mesmo ter entrado assim.

__Assunto encerrado, ok?

Mesmo que ainda estivesse sentindo asco daquela mulher, Rafa forçou um sorriso para ela.

__Rafaela Hoffmann. Claro. Uma das famílias mais ricas e tradicionais do país. Sempre frequento o Paradise Clube quando tiro férias por aqui. Um lugar incrível. Empreendimento extraordinário.

Rafa apenas a ouviu, querendo saber se naquela noite ainda veria Angel.

__Talvez queira ir à festa que darei amanhã à noite. Será uma recepção para um amigo saudita que está de passagem pelo Brasil. Assim a Angel poderá lhe agradecer pelo que fez por ela. E nós podemos desfazer a impressão desse mal-entendido.

Um mau pressentimento assolou a mente confusa de Rafa. Mas junto com isso, a ideia de ver aquela loira misteriosa e espetacular de novo, e dessa vez sem a máscara, barrou qualquer fagulha de bom senso.

De repente Diana parou e olhou para ela. Seu semblante parecia velado por uma aura sombria.

__E quanto ao motivo de ter entrado naquele corredor restrito...

__Ah, foi... só curiosidade__ Rafa mentiu__ Eu só queria ver como ela era sem a máscara.

__Ela é minha mulher__ Diana enfatizou, a ferocidade em seu olhar quase palpável__ Sinta-se privilegiada. Não é qualquer cliente do Fantasy que tem permissão para chegar perto dela.

 

 

Diana por Ana Little

 

Capítulo 6- Diana

 

No carro, ela fumava, séria, entre pensamentos. Olhou de soslaio para Açucena. A garota estava meio encolhida na outra ponta do banco. Parecia uma bonequinha de porcelana, congelada em sua rispidez. Aquele rosto alegre cujos olhos antes brilhavam ao ver uma bela joia ou diante da promessa de uma viagem, agora não passava de uma constante careta de rancor e frieza.

Mas ainda sim era sua. Somente sua. Sempre seria sua bonequinha de luxo, tal como a construíra.

Entraram no apartamento. Açucena rumou para a escada. Diana foi seguindo-a, depois de mandar um sinal para Carlão esperar. Ele fechou a porta e ficou parado ali.

O ruído dos saltos de Açucena ecoaram nos degraus de madeira. Ela abriu a porta do quarto com um movimento brusco e jogou a bolsa sobre o divan vermelho ao lado direito do cômodo.

Diana ficou parada, analisando-a.

__Não precisa ficar desse jeito. Eu não matei a garota.

Açucena se virou de súbito, seus olhos arregalados como duas bolas de âmbar. Seu peito arfava sob o corpete preto e sexy. Por um momento não disse nada. Depois deu as costas a ela outra vez.

__Por que faria isso se a garota não fez nada de errado? Mas é claro, você já matou por muito menos.

__Não. O caso dela é diferente. Trata-se da filha de um conhecido.

Intrigada, Açucena deu dois passos em sua direção, erguendo uma sobrancelha.

__Um conhecido?

__Sim. Mas deixe isso pra lá. Foi apenas a atitude de uma cliente curiosa e persistente__ Diana tentou parecer o mais banal possível, mas é claro, havia conseguido ler nas entrelinhas a intenção de Rafaela__ Ela só queria ver você sem a máscara. Normal.

Observou bem a faísca de interesse no olhar de Açucena.

__Acho que, no mínimo ela merecia algum tipo de agradecimento por ter salvado a minha vida. Mas pensando bem, isso não é importante pra você, não é?

__Ah, minha princesa... Não fale assim__ Diana aproximou-se dela e alisou uma mecha dos cabelos dourados-- Eu sei que foi uma situação desagradável. E se eu pudesse, teria evitado. Infelizmente foi uma falha terrível da segurança. Mas isso já está sendo solucionado. Se serve de consolo, o cara está morto. Os motivos dele sim, tinham ficado bem claros, eram perversos. Nem hesitei em estourar os miolos do infeliz. Mas a garota... é inocente, até onde me consta. E agora que está tudo esclarecido, eu garanto que vou recompensá-la.

Açucena esquivou-se de seu toque. Diana sentiu seu sangue ferver de raiva. Teve ímpetos de atirá-la na cama agora mesmo e transar com ela do modo selvagem como gostava. Lembrá-la de que ela não tinha a opção de dizer "não".

__Aproveite para dormir bem hoje. Quero que esteja linda na festa de amanhã.

__Eu disse que não queria ir. E você tinha concordado.

__Mudei de ideia.

Diana Bateu a porta do quarto ao sair. Mas desceu a escada calmamente.

 

* * *

Na sala, Carlão segurava dois copos, de pé perto do barzinho. Entregou um a ela.

__É, eu fico besta com as surpresas dessa vida__ ela comentou, suspirando.

__É verdade. Então, essa menina poderia ser irmã da Açucena, não é?

__Verdade. Elas poderiam ser irmãs. Mas não são.

__Ainda bem porque a garota pareceu bem interessada na Açucena.

__Mas vamos falar baixo. Esse tipo de conversa sempre foi proibida perto da Açucena. E continua sendo... Pra você ver. Olha a coincidência. A Açucena acabou de conhecer uma Hoffmann, alguém da família a qual pertence. E nem suspeita disso. Mas por incrível que pareça, apesar de fazerem parte da mesma família, não existe nenhum parentesco entre elas. Enquanto a Açucena é filha da Júlia com o amante, Rafaela é fruto de um caso que o Marco teve com uma garota de programa. Ou seja, são filhas de pais diferentes. Louco, não?

__Parece novela mexicana.

Diana sorriu.

__Verdade.

__Nunca pensou em contar a verdade para a Açucena? Os segredos que envolvem seu nascimento?

__Claro que não. Na pior das hipóteses, o pai da Rafaela mataria a Açucena. A filha de sua esposa falecida com o amante! Com certeza mesmo depois de todos esses anos, o Marco ainda ia desejar ver a filha do Abelardo morta. Se ele ia matá-la ainda bebê, imagina agora.

__Então essa Rafaela também é uma bastarda?

__Sim. A mãe, uma garota de programa, morreu já faz alguns anos. A família abafou o caso, claro. Eu sabia que o Marco tinha essa filha, mas nunca a tinha visto. Tem 19 anos, quase a mesma idade da Açucena, o que indica que foi na mesma época em que Júlia engravidou do Abelardo.

__Então por que você resolveu convidar a menina para a festa de amanhã? Não seria mais prudente mantê-la longe da Açucena? Você sempre teve verdadeira obsessão por protegê-la de qualquer contato com os Hoffmann...

__Eu tenho tudo sob controle__ Diana afirmou convicta__Só quero me divertir um pouco. Mas vou segurar as rédeas da situação. Você me conhece, Carlão. E a Rafaela é só uma menina.

__Isso pode ficar perigoso, Diana. Parece que ela ficou muito encantada com a Açucena. E se ela resolver investigar?

__Aí eu corto as asinhas dela...__Diana sorriu como se fosse fazer isso com prazer.

A Açucena é uma Hoffmann sim, mas nunca saberá disso. Na melhor das hipóteses, a família a tirará de mim se souber da existência dela. E isso nunca! A Açucena é minha! Sempre será assim, não importa quantos homens e quantas mulheres, ou meninas atrevidas como Rafaela botem os olhos nela, pensou Diana com prazer. Se lembrava claramente a primeira vez que havia visto Açucena. E como exatamente ela havia chegado em suas mãos.

 

* * *

flasback

2010-- Fortaleza

 

Diana estava de pé, diante de sua mesa, no escritório. Os dedos de unhas curtas tamborilavam na mesa, impacientes. Há tempos estava investigando a vida de um dos chefes da Organização no país. Marco Hoffmann. Eles nunca haviam se bicado e agora que ela havia descoberto que ele era o assassino de seu amigo Abelardo, tinha mais motivos para querer destruí-lo. Apesar de que, desde que decidira isso, sabia que seria uma guerra árdua, pois o homem era demasiado forte. Um empresário famoso e conhecido no país inteiro, um nome na lista de milionários da Revista Forbes, pertencente a uma família tradicional de políticos influentes e bem-sucedidos, um homem acima de qualquer suspeita. O bom era que o desgraçado confiava nela. Confiava tanto que a havia incumbido de executar uma tarefa importante para ele. Encontrar a filha bastarda de sua falecida esposa com o amante. O que ele não imaginava era que Diana era amiga desse amante e, portanto, queria vingar a morte de Abelardo. Então, não tinha interesse em realizar missão de investigação nenhuma a favor de Marco. Principalmente depois que viu a menina, a bastarda.

Carlão surgiu na porta. Ela foi direto ao ponto.

__E então, Carlão? O que descobriu?

__Acho que o suficiente__ ele respondeu prontamente, entrando e deixando uma pasta em cima da mesa-- Eis mais um segredo do seu querido colega, Marco Hoffmann. Também é o responsável pela morte da esposa. Envenenamento.

__Imaginei. Quando descobriu a traição dela com meu amigo Abelardo, suponho.

__Exatamente.

__Júlia era uma mulher bonita. Lembro dela. Mas continue...

__Bem, numa tentativa de salvar a filha bastarda da fúria do marido, a Júlia entregou a menina a uma mulher no sertão. Forjou toda uma documentação de adoção. Com certeza tinha o intuito de recuperar a filha no futuro, eu não sei que tipo de acordo foi feito com a tal sertaneja. O que sei é que essa mulher deve ter recebido uma boa quantia para participar disso tudo. Júlia não tinha escolha. Tinha que proteger a filha. A essa altura ela já sabia que a morte do Abelardo não tinha sido um acidente. Foi planejada por seu marido e portanto, a vida da menina também estava em risco.

__Sei. Antes ter a filha longe do que morta.

__Pois é.

__Então temos as peças se encaixando agora. Marco descobriu a traição da esposa, matou o amante dela e teria matado o bebê que era fruto dessa traição se...

__Se Júlia não tivesse feito o que fez. Ela armou um esquema tão perfeito para forjar a morte do bebê que nem ele descobriu. Nem o resto da família Hoffmann. Mas depois disso, ela entrou numa depressão profunda e acabou enlouquecendo. Marco se aproveitou disso para ir envenenando a própria esposa com medicamentos dia após dia, como parte da doce vingança. Ela nunca mais viu a filha. E a família Hoffmann até hoje não sabe que possui mais uma herdeira.

__E o que aconteceu com a menina?

__A mulher, a tal sertaneja que a criou... Rita, se não me engano... morreu recentemente de um câncer. A garota ficou sozinha. Tem quatorze anos. A Carmem a encontrou, junto com outras meninas que já tinham destino certo: as obras daquela hidrelétrica. Você sabe, uma criança do sexo feminino sozinha e vulnerável, num cenário de pobreza como nessas regiões esquecidas do país... Que fim óbvio poderia ter senão a prostituição? Além disso, é uma menina linda, Diana. Você precisa ver.

__Chegou a se prostituir?

__Não. Ela acha que a Carmem é uma assistente social. A Carmem disse: "a virgindade dessa aí vai valer uma fortuna no leilão"... Foi uma sorte encontrarmos a menina antes.

__Traga ela até aqui__Diana ordenou.

Carlão saiu pela porta e voltou, segurando no braço de uma figura franzina, de feições angelicais, olhos cor de mel, cabelos loiros e pele queimada de sol.

O olhar de Diana parou na menina, deslumbrado, hipnotizado. Seus lábios se entreabriram, e seus olhos quase se arregalaram de choque. Um fascínio súbito a arrebatou. A criatura mais fascinante que ela já vira.

Com passos cautelosos, aproximou-se da pequena, cujo corpo já mostrava os primeiros sinais das formas de mulher. De cabeça baixa, a menina tinha os lábios crispados e os olhos vidrados para o chão, como um animalzinho acuado.

__Como você se chama?

A garota não respondeu. E quando levantou o olhar, havia nele uma ira incontida, uma ferocidade instintiva. Uns incríveis olhos de mel puro e profundo fitaram Diana repletos de raiva e desprezo.

Ainda mais envolvida em seu enlevo de encantamento, Diana sorriu, rendida ao poder daquela beleza genuína e ao olhar desafiador que a encarava.

__Se chama Açucena. Esse é o nome dela__ Carlão explicou__Nome estranho, por sinal.

Mas Diana não prestou atenção. Continuava a observar a menina com curiosidade e enlevo.

__Açucena... Um nome doce... Significa tristeza pela perda de um amor.

A menina a olhava como se ela falasse em uma língua desconhecida.

Mais tarde, Diana avisaria a Carlão:

__Diga para aquele desgraçado que a menina está morta. Não existe mais bastarda nenhuma. Acabou-se o assunto.

__O quê? Mas e se ele descobrir?

__Não vai. Porque teremos um esquema bem armado.

__Ás vezes acho que você vai acabar se dando mal, sabia?

__Isso é problema meu. Agora faça o que eu disse. Ele ia matá-la, Carlão. Foi para isso que mandou que a encontrássemos. Estamos há quase um ano buscando pistas dessa menina, uma investigação financiada por ele. Acha que ele vai fazer o quê com a garota? Levá-la para a mansão dos Hoffmann e dividir a herança dos filhos legítimos com ela? Claro que não. Ela é a filha de sua falecida esposa com o amante. Ele vai descarregar nessa pequena criatura todo o ódio que tinha por seus pais__ ela replicou, tensa. Depois riu quase descontrolada__É um desperdício muito grande dar fim a essa garota.

__Isso é verdade. A menina é de uma beleza extraordinária. Você vai ganhar muito dinheiro. Entendi o que você está pensando.

__Não entendeu nada, seu palerma. Eu quero a menina para mim. Ela não é como as outras. Não vou torná-la uma prostituta. Jamais. Eu a quero!

__Ah...

__Antes não me importava com isso, só ia fazer a minha parte. Mas agora vendo-a... De repente... Eu ainda posso manter o controle da situação. Não sou uma pau-mandado daquele crápula. Eu quero essa menina. Entendeu?

__Mas e se ele descobrir?

__Não vai. Nunca vai descobrir. Vou protegê-la. Ele nunca pode saber que essa menina está viva. Ela é minha agora. Vou tirá-la de Fortaleza, e muito em breve, do país.

Diana levou Açucena para o Rio de Janeiro naquele mesmo dia. Durante a viagem, a garota continuou esquiva e, por vezes agressiva, como um bichinho selvagem engaiolado.

Com as mãos cravadas no encosto da poltrona da aeronave, ela tinha a cabeça abaixada, os olhos quase escondidos sob a massa de cabelos loiros ondulados e desgrenhados. O vestido florido de tecido ruim parecia ser a única coisa que ela vestia há dias, visto que tinha até algumas manchas.

Sentada ao lado, Diana a observava, pensando ainda na dificuldade que teria de se aproximar da menina. Mas cuidaria dela. Tinha planos para aquela mocinha, que lhe despertara um inexplicável estima à primeira vista. Carlão havia tentado especular maliciosamente sobre isso. Mas Diana respondera:

__Eu agradeceria se não se metesse em meus assuntos.

Isso. Aquela menina agora era um de seus assuntos. Era sua. Não tinha mais nada a ver com a Organização. Claro que não ia lhe fazer nada de ruim, nada que ela não quisesse. Não, claro. Ia conquistá-la aos poucos. E ela era muito nova. Havia muito tempo para ter noção do que ela seria em sua vida.

__Ei, fique calma. Está tudo bem__ disse num tom suave, tocando com cuidado na mão dela.

Açucena não ergueu o olhar, mas pareceu ir relaxando mais, após uns minutos.

__Não vou lhe fazer mal, acredite.

Um dia aquela menina cresceria, e se tornaria uma mulher linda. Ia transformá-la numa princesa.

Quando chegaram ao apartamento no Leblon, a empregada ficou surpresa.

__Quem é a menina, Dona Diana?

__Sua mais nova patroa, Joana__ ela comunicou, já no andar de cima, entrando no corredor que levava aos quartos__ Preparou tudo o que pedi?

__Fiz o que pude. A senhora devia ter avisado com antecedência.

__Não houve tempo. Mas vou cuidar disso depois. Por enquanto, mostre o banheiro, o quarto onde vai ficar, lhe dê roupas limpas e algo para comer. Eu tenho que resolver umas coisas, mas volto logo.

De volta à sala, Diana viu Açucena ainda parada no meio do cômodo, onde a havia deixado. A menina observava o ambiente distraída. Parou o olhar curioso numa peça decorativa que jazia numa mesinha de bronze perto do sofá. Era uma bailarina de dança flamenca, um bibelô de gesso comprado em Madrid, numa loja centenária no centro da cidade.

Diana aproximou-se de Açucena e deu um sorriso.

__Você gostou?

A menina não disse nada, como sempre, mas seu olhar ávido ainda se voltou mais interessado para o objeto. Diana pegou-o e estendeu para ela.

__Fique com ela pra você.

Açucena pegou o bibelô entre as mãos como se segurasse algo muito precioso, os olhos cor de mel brilhando. E dessa vez levantou um olhar menos hostil para Diana.

__Escute, essa é a Joana. Qualquer coisa que precisar, você pode pedir a ela. Eu tenho que sair, mas volto logo, está bem?

 

Nova York- Três anos depois

 

Diana avançava pela Eighth Avenue, segurando na mão de Açucena. Usava um sobretudo preto e um grosso cachecol de cashmere xadrez que não era suficiente para confortar uma turista da Terra do Sol, em pleno inverno nova-iorquino.

Açucena tinha os cabelos soltos, as ondas loiras caindo sobre a roupa pesada e elegante. Ela andava de modo altivo, a postura ereta, o queixo erguido. Até o ruído de seus passos, dos saltos das botas Prada no chão, soava sensual.

A iluminação natalina resplandecia naquele mar de gente circulando. Em algum lugar, vozes suaves cantavam Jingle Bells.

Diana caminhava meio arrependida daquele passeio ousado ao ar livre, pela cidade gélida. Não gostava daqueles natais úmidos de Nova York, preferia mesmo os do Brasil.

Mas Açucena insistira. Ela amava Manhattan. Dizia que os natais ali eram mágicos. Diana não compartilhava dessa opinião. Mas não conseguia negar nada a ela.

Sua Açucena. Sentia tanto orgulho de sua princesinha. Agora com 16 anos, ela não era nem a sombra daquele "bichinho do mato" que Diana vira entrar em seu escritório em Fortaleza, trazida por Carlão. Tornara-se uma moça fina, culta, que sabia apreciar as maravilhas que o dinheiro podia comprar, que se habituara com facilidade ao famoso estilo king size de viver. O mundo do luxo e da sofisticação. E Diana sentia-se radiante por poder oferecer tudo isso a ela. As viagens por diversas cidades do planeta. Os lugares mais incríveis onde pudesse levá-la.

Já acomodadas em suntuosas cadeiras, envolvidas pela quietude aquecida de um restaurante, elas conversavam sobre trivialidades e riam, contagiadas pelo clima natalino que pairava pela cidade, a uma semana do natal.

Diana degustava uma taça de vinho e Açucena saboreava um petit gateau. As pessoas nas mesas pensariam que se tratava de mãe e filha, tamanha era a diferença de idade entre as duas. Ninguém imaginava que aquela mulher aparentando quase 35 anos e a adolescente em sua frente eram amantes.

 

Até que Diana sentiu seu celular vibrar. Olhou a tela. Era do Brasil. Açucena levantou o olhar para ela ficando subitamente séria, os luminosos olhos cor de mel se nublando de frustração. Diana ouviu a pessoa na linha. Houve um momento de tensão até que ela deu sua última palavra e desligou.

Açucena não disse nada. Baixou o olhar para a mesa. Sua expressão se fechara.

__Sinto muito, meu anjo. Acho que nem preciso explicar muito, não é? Infelizmente teremos que voltar para o Brasil antes do planejado.

__Eu devia ter imaginado. Era bom demais pra ser verdade que fôssemos ficar mais tempo__ Açucena questionou, a voz suave e fresca de menina, mas já adquirindo sensualidade de mulher.

__Meu amor, entenda__Diana já estava contagiada pelos problemas relatados no telefonema. Tentaria não ser grossa com ela__ Não posso me ausentar dos negócios por tanto tempo.

__Eu odeio voltar para o Brasil. Sabe disso. Lá não tenho liberdade. Me sinto uma prisioneira, sempre andando com seguranças, e com medo que a Polícia Federal saiba quem sou. Por que não me deixa então ficar aqui em Nova York?

__De jeito nenhum. Não vou deixá-la aqui sozinha.

__Mas que droga, Diana!

__Não levante o tom de voz! Estamos num restaurante!__ Diana exigiu, com toda a autoridade que sempre usava com todos da Organização. Sabia que às vezes agia como se Açucena fosse uma "coisa", uma propriedade sua. Mas era melhor assim. Gostava de manter o controle de tudo__ Vamos voltar para o hotel.

__Ainda não terminei__ Açucena afrontou-a de cabeça baixa, atrevida.

__Eu disse vamos!__Diana levantou-se, apertando discretamente o pulso da garota e forçando-a a se levantar.

No quarto do hotel, a discussão continuou.

__Você sempre põe esses malditos negócios acima de tudo. Até de nós. Odeio ficar no Brasil. Lá não tenho vida. Não posso sair...

__Você é minha namorada! Esse é o preço a pagar. Açucena... Tudo que faço, se tento mantê-la sob as minhas vistas o tempo todo é pro seu próprio bem. Existe gente que teria muito interesse em sequestrar a namorada de uma das chefes Organização. Existe gente que gostaria de ver você morta! Quantas vezes tenho que explicar isso, meu amor?

Açucena desabara na cama desolada.

__Onde eu vou ficar então? Fortaleza?

__Não. Vamos desembarcar em São Paulo. Tenho um encontro de negócios lá no dia 27. Depois levo você pro Rio. Que tal?

Açucena não respondeu.

__Eu vou para Fortaleza depois, mas prometo ficar na ponte aérea pra ver você, está bem?__ Diana agachou-se diante dela, acariciando os longos cabelos da menina__ Não fique assim. Prometo que vamos curtir juntas o próximo verão da Europa. Podemos ir para Saint Tropez. Que tal? Sei que você adora.

Açucena continuou séria, fazendo bico.

__Hum? Diga que sim__ Diana ergueu-se um pouco, o suficiente para aproximar os lábios dos dela.

Açucena não se desviou, mas também não correspondeu.

Diana suspirou. Afastou-se e se levantou, caminhando até o cubículo ao lado onde ficava o cofre. Pegou uma caixa de veludo.

__Eu estava esperando uma ocasião mais especial. Apesar de que...__ abaixou-se outra vez na frente da garota__ com você, qualquer momento é especial, minha princesa.

Abriu a caixa.

O brilho dos diamantes do colar refletiram nos olhos cor de mel de Açucena, que olhou espantada para a caixa.

__Ele pertenceu a uma princesa do Golfo Pérsico, membro da família AL Thani, que governa o Catar há muito tempo.

Diana viu na expressão de Açucena aquele mesmo deslumbramento que vira naquela manhã em que, em seu apartamento no Rio de Janeiro, havia lhe surpreendido a olhar aquela boneca espanhola num móvel na sala.

__Que lindo!__ a menina conseguiu dizer, a voz embargada pelo espanto.

Diana pegou o colar da caixa e levantou-se.

__Venha.

Conduziu-a até o espelho. Com uma mão, desabotoou o zíper de seu vestido, deixando-o cair. Açucena ficou apenas com a lingerie preta que usava, sua pele clara naturalmente bronzeada, se sobressaindo embaixo da renda escura.

Diana ficou atrás dela, afastou seus cabelos. Posicionou a joia em seu pescoço e prendeu o fecho. Afastou-se para admirar.

__Duas obras perfeitas da natureza...__ afirmou com paixão__ A princesa árabe que me desculpe. Mas esse colar foi feito pra você. Cada detalhe do desenho, o encaixe das peças... O disigh com certeza estava pensando num pescoço igualzinho ao seu.

Açucena riu, radiante a admirar a imagem de si mesma, as cascatas loiras lhe caindo pelos ombros e refletindo o fulgor das pedras.

__Eu amo você, Açucena. Tudo o que faço é pra te proporcionar momentos como esse.

O sorriso de Açucena foi se desfazendo não só pela emoção profunda de ouvir essa confissão. Mas porque tinha a leve impressão de que aquela joia era roubada.

Mas sua preocupação só durou um segundo. Ela aproximou-se de Diana, tocando-lhe o rosto com carinho.

__Eu também amo você.

Diana enlaçou-a pela cintura, capturando-lhe os lábios.

Açucena foi deixando-se conduzir ao centro da luxuosa cama do hotel, olhando-a nos olhos.

Diana sentia a excitação surgir fácil quando tinha aquele corpo pequeno e quente embaixo do seu, e aqueles lábios rosados e frescos a esperarem a sua boca.

Açucena levou uma das mãos à nuca dela, puxando-a para intensificar o beijo.

* * *

Tempos atuais.

Diana se aproximou da janela e contemplou a vista da orla lá embaixo, banhada pela iluminação noturna. Aquele tempo... Açucena com 16 anos, uma adolescente deslumbrada e fácil de seduzir, aquele foi um tempo perfeito. Mas agora a Açucena não é mais a mesma. E nem eu. 

 

 

 

Tentação perigosa por Ana Little

 

Capítulo 6- Tentação perigosa

 

__O quê? Você disse que essa tal Diana apontou uma arma pra sua cabeça, depois te convidou pra uma festa como se tivesse te ameaçando... E mesmo assim você quer ir?__perguntou Bárbie, de pé ao lado de Rafa, observando-a se vestir para sair.

__Quero ver a Angel. Eu disse que ia vê-la sem aquela máscara__Rafa deu de ombros e continuou a arrumar o cabelo em frente ao espelho.

__Ah, meu Deus! Você surtou de vez, Rafa. Será que não vê que isso é perigoso? Pelo que a Val falou, essa gente é perigosa.

__Dá pra parar com a histeria, Bárbie? É só uma festa. Se ela quisesse me matar, teria feito isso ontem quando teve a oportunidade perfeita.

__Eu não sei. Acho que está prestes a fazer a pior besteira que já fez na vida. E tudo porque não aceita perder. Rafa, você é cheia de mulheres. Pode ter quem quiser. Por que cismou com essa dançarina?

__Bárbie... Chega! Eu tenho que ir__ Rafa foi caminhando para a porta.

__Sua doida!__ a amiga foi seguindo-a pelo corredor e as escadas__ Escuta, e a Raíssa? Ela vai surtar quando souber desse seu interesse especial por essa garota.

__Ela não pode falar nada. Ela fica com outras pessoas também. O nosso lance é totalmente aberto.

__Não é isso que ela anda dizendo pra todo mundo.

__O que ela anda dizendo?__ Rafa parou quando já ia abrindo a porta de saída.

__Que vocês estão namorando. Estão até pensando em morar juntas.

__Quê?

Bárbie riu ruidosamente. Mas Rafa não achou graça nenhuma.

__Não é nada disso. A gente só estava ficando.

__Estava, Rafa?__ essa voz, que fez Rafa e Bárbie se virarem, era de Raíssa. Ela parou ao pé da escada, uma cara de indignação.

__Está dizendo que vai terminar comigo?

__Raíssa...__Rafa disse impaciente. Não queria ter aquela conversa agora.

__É por isso que vai deixar de ficar comigo hoje? Pra ir atrás de uma prostituta?

__Não fala assim. E isso não é da sua conta. Depois agente conversa__ Rafa abriu a porta, mesmo ouvindo a voz exaltada dela...

__Rafa!

Saiu para o hall, desceu os degraus e foi caminhando depressa para o carro.

Na sala, Raíssa ficou parada onde estava, sem acreditar no que acabara de acontecer. Seus olhos enchiam-se de lágrimas.

__A sua amiga é a maior cretina do mundo!

Bárbie olhou-a de modo impassível. Até mesmo crítico.

__Você sabia disso quando começou a ficar com ela. Não foi por falta de aviso, Raíssa. Você sabe muito bem como a Rafa é.

__Sei sim. E essa fulaninha por quem ela está interessada também vai saber-- furiosa, Raíssa deu meia volta e subiu os degraus quase correndo__ Eu vou embora daqui agora mesmo!

 

* * *

Rafa chegou na festa. Era a cobertura de um famoso hotel. Luxuosa e com vista para o mar. A decoração seguia o estilo de qualquer típica festa da alta-roda, como as da sua família.

Ela ajeitou a camisa social azul de algodão egípcio por baixo do smoking.

Eu devo estar mesmo louca…

Caminhou entre os convidados que circulavam conversando, segurando bebidas, embalados por uma música ambiente. Mulheres em belos vestidos esvoaçando ao vento. Homens em roupas frescas, mas sem perder a elegância. Em um canto, próximo à murada, três homens usavam turbantes na cabeça. Os traços de seus rostos denotavam a nacionalidade diferente. Entre eles, uma mulher de pele cor de jambo estava totalmente coberta, exceto pelo rosto. Tinha um véu de seda em volta da cabeça, como uma típica muçulmana.

Quando Rafa desviou o olhar do grupo, avistou Diana vindo em sua direção.

__Olá, seja bem-vinda.

Rafa não conseguiu se decidir se aquele tom era saudoso ou irônico.

Diana segurava uma taça de champanhe. Estava toda de preto, os cabelos impecavelmente lisos. Parecia um ser superior. Seus gestos, seu tom de voz, as roupas. Mas Rafa não gostava de olhar nos olhos daquela mulher. Eram como um abismo prestes a tragar qualquer coisa.

__Apesar de que eu não esperava que você aceitasse meu convite.

__Por quê?

__Quer motivo melhor do que eu ter apontado uma arma pra sua cabeça?__ Diana pareceu querer que soasse como brincadeira. Mas não soou. Rafa pôde sentir algo de sombrio naquele sorriso.

__Mas você não atirou__ Rafa rebateu.

__Bem, eu ter convidado você pra uma festa podia se tratar de uma armadilha.

__Você teve uma ótima oportunidade de me matar e não o fez.

Diana sorriu de novo, analisando-a com surpresa.

__Menina atrevida__ fez uma pausa e tomou um gole do espumante, seus olhos felinos sem deixar de encarar Rafa__ Estou impressionada. Atitude digna de uma Hoffmann.

Estar na presença daquela mulher e conversar com ela era como jogar. E naquele instante Rafa sentiu que estava recebendo suas cartas.

__Que tipo de relação você tem com a minha família? Eu nunca vi você em nenhuma das festas do meu pai.

__Não é bem uma relação. Sou uma admiradora do seu pai. O mundo dos negócios tem muitas faces, minha querida. Você, como filha de um empresário e neta de políticos, deve saber do que estou falando.

Rafa assentiu. Não que tivesse certeza sobre o que ela se referia. Não costumava perder tempo investigando de onde vinha o dinheiro que pagava seus cartões de crédito. Era mais fácil não questionar isso.

A verdade era que depois daquela briga que eles haviam tido, na época em que Rafa descobrira sobre sua mãe biológica, sobre ela ser filha dele com um caso que ele tivera fora do casamento, a distância entre eles havia se tornado rígida como uma pedra. Como se um muro intransponível tivesse se erguido entre eles. Seu pai era quase um estranho agora. O ausente homem de negócios. De modo que ela não participava profundamente da vida dele. Na verdade o via mais pelas colunas sociais ou revistas de fofoca, em festas ou viajando em férias pela Europa com alguma mulher exuberante, do que em casa. Quando ele lhe dirigia a palavra, eram sempre críticas. Ou cobranças. Rafa podia dizer que não sabia quase nada sobre seu próprio pai.

__Também gostei de você__ Diana continuou. Então ela olhou para Rafa daquele modo amedrontador e seus olhos de repente pareceram mais escuros do que antes__ É uma pena que esteja interessada na minha mulher__ despejou sem rodeios.

__Não, eu...__ Rafa quase perdeu o fôlego.

__Não se dê ao trabalho de negar__ Diana insistiu, mas num tom melífluo, como uma cobra a jogar o veneno__ Eu não sou cega. E compreendo. A Angel é mesmo muito bonita. Você não é a primeira, ou o primeiro que se encanta com ela. Mas lhe asseguro que uma coisa eles tinham em comum. Todos se arrependeram.

Rafa se sentiu como no momento em que estava amarrada naquela cadeira e a mulher tinha o cano da pistola apontado para sua cabeça.

__Devo entender isso como uma ameaça?

__De maneira nenhuma. Eu não me valeria de um recurso tão medíocre. Eu nunca ameaço, Rafa__ Diana fez uma pausa, e Rafa remoeu por um segundo aquela indireta, e a ousadia dela de chamá-la pelo apelido__ Mas é claro, você tem razão. Não há necessidade de continuar o rumo dessa conversa. Afinal, aposto que você veio aqui só pela curiosidade de ver minha mulher sem aquela máscara. Não é mesmo? Então tem minha permissão. Por falar nisso...

Ela ergueu o queixo e Rafa se virou, seguindo seu olhar.

Angel acabava de chegar na festa, emergindo nos degraus, como uma aparição divina e irreal. Uma entrada triunfal, cercada por olhares. Seu glamour foi imediatamente intensificado pelas luzes. Estava deslumbrante num vestido Dolce&Gabana preto tomara-que-caia com renda. Renda e transparência numa combinação matadora, aliada a sapatos brilhantes de salto fino. As ondas loiras exibiam um baby liss meio bagunçado, bem ao estilo femme fatale. Mas não vulgar. Ela se movia e caminhava com o porte de uma princesa. Pareceu surpresa ao ver Rafa.

Quando Rafa encarou os olhos cor de mel, perfeitamente maquiados, ela sentiu o ar sumir de seus pulmões. Foi só um breve olhar, mas a profundidade foi a mesma da outra vez. Aqueles olhos possuíam um ímã irresistível. Eram perturbadores. E, naquele momento, tiveram o inacreditável poder de lhe deixar sem jeito.

__Meu amor...__ Diana tomou a mão de Angel, assim que ela se aproximou, e envolveu sua cintura, trazendo-a para si. Deu um beijo em seus lábios__ Você está linda.

Aquilo parecia uma forma de enfatizar o quanto a garota linda que acabava de chegar era sua. No sentido mais amplo da palavra.

Rafa mordeu de leve o lábio inferior e baixou a cabeça um segundo. Quando levantou o olhar de novo, seus olhos deram com os de Angel outra vez. Mas a voz grave de Diana a fez se desviar.

__Amor, esta é Rafaela Hoffmann. A famosa garota que salvou você.

Rafa esticou a mão para a loira sentindo um calor inquietante lhe subir pelo corpo.

__Muito prazer__ e piorou quando sentiu a mão macia e quente de Angel envolver a sua.

__O prazer é meu__ disse Angel formalmente__ Obrigada pelo que fez por mim. Você foi corajosa e eu te devo a minha vida.

Rafa reparou em como, apesar da pouca idade, ela parecia conservar um ar taciturno.

__Imagina. Foi uma honra__ e não pôde deixar de reparar no jeito atento como os olhos dela a encaravam, sempre daquele modo penetrante. Olhar para eles era desconcertante. O que a máscara do show escondia, tratava-se do rosto mais incrível que já havia visto. Traços inesquecíveis realçados por uma maquiagem perfeita. Era o tipo de beleza marcante, capaz de enfeitiçar qualquer um.

__Bom... Querida, se importa de fazer companhia a ela?__ pediu Diana e olhou para Rafa com aquele ar de desafio__Devo dar a tenção aos meus amigos árabes. Tudo bem pra você, Rafa?

__S-sim. Sim, é claro.

Rafa esperou Diana se afastar para voltar a olhar para Angel. Agora finalmente olhar direito. Mergulhar sem medo no mar daqueles olhos castanho dourados. Aquela cor incrível de olhos, um castanho claro amarelado ou esverdeado talvez. Algumas pessoas chamavam de olhos cor mel, ou âmbar.

__Bela festa...__Que coisa idiota de se dizer! Cadê sua criatividade imbatível? Rafa censurou-se em pensamento, não entendendo porque estava tão sem jeito.

Pela primeira vez sem jeito na frente de uma garota. O que há de errado comigo?

__Você não parece o tipo que gosta de festas assim. Não sei se percebeu, mas só tem nós duas da mesma idade aqui.

__É verdade.

Na verdade, eu gostaria que só estivéssemos nós duas aqui. Se não fosse por você, essa festa seria mesmo uma droga, Rafa pensou, mas em vez de dizer isso, respondeu:

__Na verdade, se parece com as festas do meu pai__ ela sorriu de novo__A começar pela música. Me dá vontade de dar um soco no DJ, roubar o lugar dele e mandar uma batida eletrônica bem foda, sei lá.

Angel sorriu, surpreendendo Rafa e ofuscando ainda mais seu deslumbramento.

__Seria legal.

Ela olhou para o pulso de Rafa, onde havia uma tatuagem cujas cores fortes pareciam ter vida na pele clara dela. Mas só dava para ver as pontas do desenho, o resto estava escondido dentro da manga da roupa.

__Bela tattoo.

__Ah, obrigada__Rafa não perdeu a oportunidade de exibir seu sorriso mais carismático.

Percebendo a curiosidade da outra, afastou o tecido e mostrou o resto da tatuagem. Era o símbolo do infinito. Mas em volta das curvas do desenho, uma roseira vermelha se enroscava, se sobressaindo na pele clara. Os espinhos verdes e afiados das rosas causavam furos dentro dos dois círculos, de onde pigavam gotas de sangue.

__É linda. Pelo jeito você curte muito, não é?

Angel observou o outro desenho pequeno, no pescoço dela. Era uma boca feminina, um beijo de batom vermelho.

__Sim. Eu sou apaixonada por tatoos. Tenho várias...__Espero que eu possa lhe mostrar as mais escondidas também, Rafa pensou, ainda encarando-a.

Então a conversa foi fluindo entre encontros de olhares e sorrisos.

__Mas foi mesmo uma loucura você ter entrado lá naquele corredor, sabia? Podia ter acontecido algo de ruim com você. Não parou para pensar nisso?

__Não. Eu acho que fui mesmo vencida pela curiosidade. Queria ver o rosto da garota que havia arrasado no palco, que tinha tornado a minha noite inesquecível, com seu show incrível.

__Obrigada. Mas meu show é normal, como o das outras meninas.

__Você sabe que não. Aliás, aqueles caras ficam tão embasbacados que se você se virasse para eles, mostrasse o dedo do meio e os mandasse se foder, eles iam achar o máximo.

Angel deu uma risada. E Rafa teve vontade de soltar fogos. Era o riso mais charmoso que já vira.

__Bem que já tive vontade de fazer isso-- Angel completou, ainda risonha.

__Você pode fazer o que quiser. Tem muito talento.

E é linda demais...

__Imagina, eu sou apenas uma dançarina.

Nesse instante, uma mulher morena de cabelos encaracolados e sotaque espanhol apareceu perto das duas, interrompendo o pequeno diálogo. Ela olhou diretamente para Rafa, de um jeito encantado.

__Olá, você é Rafaela Hoffamnn, não?

Rafa sorriu sem vontade, irritada por seu momento a sós com Angel ter terminado.

__Sou Glenda Contreras. Já ouvi falar da sua família. Mas eu não imaginava que eles tinham uma filha tão bonita...__ o "bonita" foi acompanhado de um sedutor sorriso de canto de lábios.

__Obrigada-- Rafa respondeu séria e ainda mais irritada.

Angel olhava para o lado, ignorando a situação. Rafa teve a impressão de que ela também não tinha gostado da aproximação repentina da mulher.

__Angel, querida. O que houve? Você parece meio tristinha.

__Só um pouco entediada__ Angel lançou a Glenda um sutil olhar de desprezo.

__Como sempre, não é? Por falar nisso, será que você pode vir comigo um minutinho?

__Claro__ isso pareceu mais um "vai pro inferno". Mas Angel a acompanhou, depois de um educado e formal "com licença", para Rafa.

 

*  *  *

Quando já estavam distante de Rafaela e se aproximaram da murada com vista para o mar, Glenda parou.

__Não acredito que vai fazer isso de novo, Angel.

Açucena não respondeu a princípio. Pegou da pequena bolsa dourada um maço de Malboro e acendeu um.

__Fazer o quê?__ perguntou dando de ombros.

Glenda balançava a cabeça indignada.

__Então essa é a sua próxima vítima? Escolheu melhor ainda dessa vez. Ela é lindíssima. Ainda bem que, pelo menos tem a sua idade. E os ingredientes perfeitos: Rica, charmosa, cheia de atitude. Sim, porque é preciso ter muita atitude e cara de pau pra vir na festa de alguém como a Diana e ficar flertando com a mulher dela.

__Ela não estava...

__Sem falar nesse estilo bofinho que tanto te excita, não é? Perfeita para uma temporada de diversão proibida até tudo acabar como da outra vez....

__Do que está falando? Você está louca?

__Da Adele.

Açucena sentiu os músculos de seu corpo se enrijecerem por ouvir o nome. Porque pensar em Adele, além de resgatar a memória horrível do dia da morte dela, era também se lembrar do perigo que era tentar escapar de Diana.

__Eu não preciso que você fique me lembrando disso. Já pensou em cuidar da própria vida?-- ela já ia saindo, quando Glenda segurou em seu braço.

__Só vou te dar um conselho. Não faz isso. Dessa vez a coisa pode se complicar. Essa garota é filha de um homem muito poderoso e influente. Não é uma socialite solitária e entediada como a Adele.

__Eu não preciso dos seus conselhos, Glenda. Mas só pra constar, eu não tenho nenhuma intenção com essa garota. Ela apenas salvou a minha vida e estou sendo um pouco educada com ela. Não sei porque a Diana a convidou para vir nessa festa. Talvez depois de hoje eu nunca mais a veja.

__Eu não tenho tanta certeza__Glenda virou o olhar na direção de Rafaela, bem na hora em que a garota lançava um olhar interessado para Açucena__ Acho que essa menina não está aqui por acaso, Angel__ Glenda falou seriamente. Girou a mão dela e segurou firme. Observou a palma atentamente, estreitando os olhos.

Glenda a irritava. Mais ainda aquela mania de cigana que ela tinha, só porque era bisneta de ciganos e achava que tinha um dom especial.

Quando Glenda levantou os olhos para encará-la de novo, seu semblante trazia algo de enigmático e fatalista.

__Existe uma coisa entre vocês. Não sei bem o que é. Mas isso não acaba aqui, Angel. Você ainda vai ver essa garota em sua vida. Ela está em tudo, em todos os seus caminhos, é como se vocês estivessem ligadas por alguma coisa que não sei o que é...

__Ah, não. Vai mesmo perder seu tempo me dizendo essas baboseiras?

Glenda nem lhe deu atenção e continuou.

__O que não consigo ver é... se essa coisa é para o bem, ou para o mal. Então o melhor que tem a fazer é não dar corda pras investidas dessa garota imprudente.

__Que investidas?__ Açucena indagou, tentando não ficar perturbada__ Quer saber? Me deixa em paz__ largou Glenda lá com aquele olhar patético de quem detinha os segredos do universo. Saiu andando.

Mas quando avistou Rafaela lá parada de costas, tomando um drink, viu-se olhando para ela sem a mínima vontade de se desviar.

A garota se virou e encontrou o olhar de Açucena. A expressão nos olhos de Rafaela fez as batidas do coração de Açucena acelerarem e seu corpo foi envolvido por um êxtase inédito. Era um olhar invasivo, urgente. A beleza da garota a fazia se destacar de forma instigante entre os outros convidados. Os olhos cinzentos expressivos, aquele "estilo bofinho", como Glenda dissera. Ela parecia um belo rapaz de smoking. Que tentação. Uma garota que parecia não se importar com a opinião dos outros sobre si. Ela tinha um ar atrevido e insolente com o qual Açucena se identificou de imediato. Mas não só isso. Rafaela era excitante, no sentido mais amplo da palavra. E Açucena se desviou ao perceber que corava.

Como eu não ia reparar nela?

Na noite anterior na boate, após o show, entrara no camarim pensando na cena que vira quando estava no palco. Aquela figura de incríveis olhos claros, um rosto inesquecível, de braços tatuados, sentada numa mesa a observá-la de um jeito diferente do resto dos clientes. Um olhar profundo e marcante.

Não conseguira mais tirar aquela imagem da cabeça. E agora, quando entrara na festa... o momento em que Rafaela havia se virado para olhá-la estava cravado em sua mente de um jeito estranhamente fixo. Açucena tinha a impressão de que quando encarava aqueles olhos, alguma coisa dentro de si ficava paralisada.

Respirando fundo a brisa que vinha do mar, Açucena pegou uma taça da bandeja de um garçom que ia passando e se escorou na murada.

__Será que você gosta dela tanto quanto está gostando dessa festa?__ a voz charmosa soou ao lado. Açucena estremeceu. Preparou-se para encarar o belo rosto, enquanto remoía aquela indireta insolente.

Rafa encostou-se na murada também. Açucena suspirou inquieta, antes de dizer:

__Eu não entendo porque você veio até aqui. Ela apontou uma arma pra sua cabeça durante aquele interrogatório constrangedor. Você deveria, no mínimo estar pensando em processá-la.

__Acima disso tudo estava a minha vontade de ver você de novo. E sem aquela máscara.

Isso foi dito com um daqueles olhares paralisantes. Açucena sentiu as palavras formarem um bolo em sua garganta.

__Bom, você já viu__encarou-a com desdém, entendendo o que Glenda havia dito sobre as "investidas daquela garota imprudente".

__E quero ver de novo. O que me resta saber agora é quando...

__O... o quê?

Que atrevida! Como ela ousa....?

Droga, isso é excitante demais!

__Você é casada com ela? Ou amante? O que você é? Eu vi a maneira como ela te tratou. Ela bateu em você sem motivo...

Açucena sentiu a transformação drástica que seu semblante passou, de sereno a trágico. Mas não queria que ela percebesse. Quem aquela garota pensava que era?

__Isso não é da sua conta. Eu nem conheço você.

__Prometo que não vão faltar oportunidade.

__Não se eu não estiver interessada.

__Você está. No mínimo curiosa.

__Olha, eu agradeço muito o que fez por mim, mas o melhor que tem a fazer agora é ir embora__ Açucena virou-se e saiu depressa antes que ela dissesse mais alguma coisa.

 

*  *  *

Rafa ficou ali parada, ruminando o amargor do fora. Mas também pensando no próximo passo. Tomou um longo gole da sua bebida.

__Oi. E aí, está gostando da festa?

Era Glenda, se aproximando devagar, com um ar analisador.

__Sim__ Rafa mentiu para não ser desagradável.

Mas a mulher ficou séria de repente.

__E não acha que está na hora de sair enquanto é tempo?

__O quê? Não entendi.

Glenda se encostou na murada. Seu olhar lembrava o da cigana esquisita da noite em que Rafa caminhava por aquela rua antes de entrar no Fantasy.

__Essa não é uma das festinhas dos seus amigos, menina. E a Angel não é a nova garota da faculdade. Você não tem ideia de onde está se metendo.

__Talvez eu tenha.

__Não, você não tem. A não ser que seja uma suicida.

Glenda fez uma pausa e olhou fixamente para a frente. Rafa acompanhou seus olhos e foi dar em Diana, que parada numa roda de homens e mulheres, conversava, segurando uma taça.

__Sei que está encantada com a Angel. Mas eu já vi gente morrer por causa disso.

Rafa deu um riso cético, como se a mulher estivesse exagerando.

__Elas são casadas? Amantes?

__É mais do que isso. A Angel é uma espécie de prostituta exclusiva da Diana.

Rafa não pôde evitar de sentir o impacto intragável daquela afirmação. Olhou para Diana, que distraída lá com os amigos, nem a via. Sentiu-se mais indignada. E desafiada. Esperou Glenda continuar:

__A Angel é da Diana. No sentido de posse mesmo. Como um carro, ou um relógio Rolex, digamos assim. É uma "propriedade" particular. Entendeu?

__E eu sou Rafaela Hoffmann!__ Rafa disse, sua voz triturada.

__Você é só uma menina aventureira e inconsequente que acha que acabou de encontrar um alvo interessante. Mas eu sinto dizer, você está errada. E se insistir nisso, vai acabar se metendo na pior encrenca da sua vida.

Nesse instante, Diana acabava de se afastar dos árabes e vinha caminhando na direção delas com aquela postura altiva e aristocrática.

__Você não perde tempo, hein, Glenda?__ pôs a mão em volta do pescoço da amiga__ Rafa, cuidado para não cair nos encantos dessa morena aqui. As espanholas são quentes.

Glenda não sorriu. Continuou olhando seriamente para Rafa.

__Nossa, Diana, do jeito que você fala, até parece que eu sou uma devoradora de garotinhas.

Diana riu.

__Ora, não seja modesta, Glenda. Você é o sonho de muitas delas. É claro que esse não é o caso de minha convidada aqui. Aposto que ela prefere as loiras. Não é, Rafa?

Era uma indireta das boas, repleta de veneno e ameaça. Rafa teve que engolir esta. Porque nessa hora, a música mudou para uma canção árabe típica, e as luzes se modificaram, anunciando um momento especial da festa.

__Com licença, meninas__ Diana disse, antes de sair outra vez.

Ela se posicionou perto do DJ e fez um pequeno discurso em inglês.

__Será que agora entende o que estou tentando te alertar? Diana está jogando a isca. Não pegue.__ Glenda continuou, mas Rafa a ignorou dessa vez.

__Obrigada pelos conselhos__ e foi se afastando.

Uma salva de palmas, mais empolgada por parte dos árabes, coroou as palavras de Diana. Os convidados se viraram para assistir a dançarina de dança do ventre que vinha entrando.

Mas Rafa só assistiu o show por uns minutos. Seu olhar começou a vagar pelo espaço inteiro da cobertura, a procura de Angel. Era impossível olhar para a coreografia da dançarina. Seus olhos só buscavam Angel.

Avistou-a meio distante da roda de gente que se formara para ver a dança. Ela estava de pé perto de um objeto excêntrico que fazia parte da decoração árabe. Fumava, de braços cruzados, os longos cabelos estendidos sobre o colo nu que o vestido tomara-que-caia revelava, o corpo perfeito ereto, numa postura séria, apesar da roupa sexy de enlouquecer.

Deus, que mulher é essa?

Seus olhares se encontraram. E Rafa não dispensou a oportunidade de olhar bem dentro dos olhos cor de mel que ora a encaravam, ora se esquivavam

Mais tarde quando Rafa já estava indo embora, Diana veio se despedir. E trazia Angel, abraçando-a pela cintura. Fez um pedido que Rafa achou estranho. Mas também tentador.

__... É um evento beneficente no haras de um amigo meu no próximo fim de semana. Não posso ir. A Angel irá, mas gostaria que alguém a acompanhasse. Será que você poderia fazer esse favor para mim? Ela não tem muitas amigas aqui na cidade...

O bom senso, aliado aos conselhos de Glenda: "Diana está jogando a isca..." quase fizeram Rafa dizer não. Mas ao encarar o rosto de Angel outra vez, aqueles olhos fascinantes e enigmáticos ela conseguiu se decidir.

__Sim, claro.

O olhar de Angel pareceu se tornar tenso, quase angustiado.

__Então até depois de amanhã...__ Rafa disse para ela com um sorriso de "nova amiga".

__Até__ era evidente como ela não havia gostado da ideia. Normal, depois de cortar suas investidas a noite inteira.

Mas nada como um dia depois do outro.

__Bom, obrigada, Rafaela. E foi um prazer conhecê-la__aquele tom falso de Diana parecia estar ali para lhe lembrar da encrenca onde estava se metendo__ Meu empregado vai levar você até a portaria-- ela finalizou.

Rafa olhou para o homem de uniforme que havia se postado ao seu lado e acompanhou-o.

No táxi, já a caminho do Meireles, ela se perguntava:

Que merda eu estou fazendo?

Sabia que estava se atirando num caminho perigoso. Mas queria Angel. E ia jogar aquele jogo.

 

 

Garota proibida por Ana Little

 

Capítulo 7- Garota proibida

 

 

Eram duas da tarde quando Bárbara e as outras meninas chegaram da praia. Não vendo Rafaela em lugar nenhum, ela foi até a cozinha.

__A Rafa saiu, Míriam?__ perguntou à empregada.

__Não senhora. Faz um tempo ela pediu alguma coisa pra comer, mas continua no quarto.

Bárbie subiu a escada com passos rápidos. Bateu de leve na porta. E ouviu a voz baixa da amiga lá de dentro, pedindo para ela entrar.

Rafaela estava sentada num divã, com um bloco de desenho na mão, os olhos fixos no papel enquanto seus dedos trabalhavam.

__Eu não vi você chegar ontem à noite__Bárbie disse caminhando devagar e se sentando na cama.

Rafa parou o que fazia, dobrando e esticando os dedos, uma careta de dor, como se estivesse desenhando há muito tempo.

__Nem me lembro. Achei que vocês também iam sair ontem.

__As meninas foram pra aquela balada de forró que estávamos combinando, lembra?

__Sim.

__Mas eu estava cansada da pool party de sexta. Mas e então? Como foi a festa da tal Diana?

Pela primeira vez Rafa a encarou.

__Estranha. Ela é uma pessoa muito estranha, se quer saber. Mas__ o olhar de Rafa se iluminou__ O bom é que consegui ver a Angel. Vi o rosto dela direito, Bárbie!

Rafa esticou para a amiga o bloco de desenho.

__Uau!__ Bárbie disse ao pousar os olhos no papel. Ali estava um rosto angelical, com traços arredondados e suaves, lábios cheios, bochechas salientes e olhos que pareciam conter uma expressão curiosa, e ao mesmo tempo arredia. Enigmática__ Ela é mesmo bonita. Que rosto incrível!__ Bárbie não pôde deixar de refletir sobre o absurdo talento da amiga.

A paixão de Rafaela por desenhos havia sido descoberta por Glória, sua babá, quando ela tinha cinco anos. Devido a doença da mãe, a empregada era quem fazia tal papel, enquanto Júlia ficava o tempo todo trancada no quarto, consumida pela depressão. Glória na época havia sugerido que a garota tivesse o máximo de atividades para se distrair e evitar a presença da mãe, já que esta a rejeitava, em seus acessos de loucura.

Então vieram as aulas de arte.

Até que quando ela tinha sete anos, a professora procurou seu avô para falar de um desenho que a menina havia feito, dizendo ser do jardim da casa de praia da família. Mas era um emaranhado de plantas silvestres que formavam um ambiente inóspito e agressivo aos olhos. Em vez de cores vivas e alegres, havia a predominância perturbadora do negro naqueles rabiscos indefinidos, formando figuras raivosas e tristes.

Na manhã seguinte seu pai a levou pela primeira vez a um psicólogo.

Nas poucas lembranças concretas que Rafa tinha de sua infância com a mãe, só se lembrava de amá-la muito, e de fazer tudo para agradá-la. A loucura de Júlia, suas crises nervosas, depois melancolia, a rejeição por uma criança que parecia ter vindo para substituir a sua filha perdida... tudo isso ficaria refugado na mente da garotinha que não queria sair de perto da mãe nem mesmo sob as atitudes de rejeição. Rafa foi crescendo e isso foi sendo cada vez mais esquecido, até não sobrar mais nada. Aquelas memórias ruins ficaram guardadas em algum lugar dentro dela. E se evaporaram de sua consciência sob a força do tempo. Só que tirando aquelas recordações indesejáveis, tudo o que sobrava era o vazio. E nele havia a necessidade de pôr alguma coisa...

E assim viera sua adolescência onde os mimos do avô e a negligência de um pai ausente haviam causado um efeito negativo em sua personalidade.

A paixão por arte havia se sofisticado e chegado ao ponto de ela pensar em fazer faculdade de Artes Plásticas. Mas a família agia como se isso fosse uma espécie de desvio de conduta. E seu talento em matemática havia prevalecido, fazendo-a ingressar em Economia.

__O que foi?__ Bárbie perguntou__ Você não parece bem.

__Não consegui dormir direito.

__O que aconteceu na festa?

__Foi maravilhosa. Ela é linda. Irresistível e eu estou totalmente ferrada.

Bárbie riu.

__Eu avisei. Será que agora você pode voltar a agir normalmente e voltar pra sua vida comum?

__Não.

__Amiga... Para de ser teimosa. Tem tantas garotas nessa cidade pra você conhecer. Olha quer saber, maldito dia que a Val inventou de nos levar naquela boate.

__Relaxa, está tudo bem.

__Bem? Minha melhor amiga tentando se matar e está tudo bem?

Rafa riu, impaciente.

__Não fica preocupada porque a situação só tende a piorar.

__Mais?

__É. Eu cheguei a conclusão de que vai ser mais difícil do que eu imaginava. Mas quando eu a vi, Bárbie, tive a certeza. Eu quero aquela garota de qualquer jeito. Não importa como vou conseguir isso. Sabe... ela não é feliz com a namorada. Nem um pouco.

__Como você sabe?

__Eu pude sentir. A tal Diana a maltrata. A Angel é como uma propriedade dela. Isso me chocou. É uma garota linda e doce. Não entendo porque ela se mantêm numa situação dessas.

__Que estranho.

__Essa Diana é uma espécie de gângster, sei lá. A mulher pertence a alta-roda, deve ter aparecido em alguma revista, mas nunca prestei atenção. É empresária, tem amigos influentes.

__Imagino. Você disse que ela conhece seu pai.

__Sim. Embora eu nunca a tenha visto nas festas do meu pai, ou entre seus conhecidos.

__Verdade.

__Mas o mais esquisito é que me fez um convite.

__Outro? O que ela quer com você? Afinal, pelo que parece, ela percebeu que você ficou a fim da namorada dela.

__Eu não sei. Ela me convidou para acompanhar a Angel num evento beneficente de um amigo, no próximo sábado.

__O que acha que isso significa? Ih, amiga, acho melhor você não ir. Isso não parece bom.

__E perder a oportunidade de ver a Angel de novo? Eu não consegui resistir. Mas fica tranquila, eu já disse. Se essa mulher quisesse me matar, já teria feito. E pra todos os efeitos, eu quero apenas a amizade da Angel.

__Ah, meu Deus, só me faz o favor de ter cuidado, Rafa.

__Eu terei__ Rafa finalizou sorrindo, então escorou a cabeça no encosto do divã, suspirando__ Não consegui parar de pensar nela um minuto desde que nos despedimos na festa, sob a inspeção daquela Diana.

__Afinal, o que essa garota tem pra que você tenha ficado tão encantada? Afinal, você já pegou tantas mulheres lindas...

__Eu não sei. Decididamente não sei, amiga. Apenas não consigo parar de desejar vê-la de novo, e de novo. Quero conversar mais com ela, saber coisas sobre ela...

__Pois eu acho que você não está no seu juízo perfeito__Bárbie deu uma gargalhada.

__Talvez. Mas tenho a impressão de que esperei a minha vida inteira para conhecê-la. Agora vem, preciso ir ao shopping comprar alguma coisa pra vestir no sábado.

* * *

Açucena estava na jacuzzi, tentando relaxar dentro da água morna ao som de uma música em espanhol, que adorava, os olhos fechados, a cabeça apoiada na borda da hidro. Mas a verdade era que não conseguia mesmo relaxar, nem com uma música que adorava, estava inquieta. Só que era uma inquietação deliciosa. Precisava admitir que havia perdido sua paz (ou aquilo que chamava de o estado comum de sua vida) no momento em que encarara os olhos cinzentos daquela garota. Rafaela...

Não havia mais tranquilidade em seu estado de espírito desde o episódio do Fantasy, quando Rafaela havia cruzado seu caminho, primeiro como uma cliente aparentemente comum da boate, lá na plateia. Depois salvando sua vida naquele corredor quando estava prestes a ser sequestrada. Agora haviam também os acontecimentos da noite anterior na festa. Açucena conseguia se lembrar de cada detalhe da presença dela, cada conversa, cada sorriso, cada troca de olhares, desde o momento impactante quando havia entrado na festa e dado de cara com ela conversando com Diana. Vestida naquele smoking com a gravata charmosamente desarrumada por cima da camisa branca, dois botões abertos, mostrando parte do colo delicado. E aqueles olhos deslumbrados quando lhe viram. Era impossível esquecer.

__Eu adoraria saber o tema desses pensamentos...

Açucena abriu os olhos num susto para ver Diana, se sentando na borda da jacuzzi, segurando um copo com uma dose de uísque pela metade.

__ Apesar de que... talvez eu saiba, não é?__ Diana emendou.

Ela estava se referindo a Rafaela, é claro.

Com o coração acelerado, como se Diana tivesse ouvido cada pedaço de seus pensamentos, ela se ergueu com uma expressão de desdem. Levantou-se da água, sem querer, presenteando a outra com a visão magnífica de seu corpo nu.

Diana a contemplou, molhando os lábios. Depois levou o copo a boca e sorveu um gole, pensando que os olhares de desejo de Rafaela na noite anterior para Açucena a haviam feito parecer ainda mais sexy.

Depois de se secar com a toalha, Açucena vestiu o robe, pegou o controle remoto e desligou a música. Sem dizer nada ou olhar para ela, foi indo para o quarto. A magia do momento havia passado, quebrada pela presença de Diana.

__Não sei o que você pretende com isso.

__Com isso o quê? Que mal há em ter pedido para a garota acompanhar você no sábado? Bom, já que ela é filha de um amigo, um homem que admiro, não tem problema que seja sua amiga.

Açucena lançou a ela um olhar interrogativo. Amiga? Sua hipócrita. É lógico que você sabe. Acha que não sei que você sabe.

__E se eu me recusar a ir?

__Ora, meu amor, pare com isso. É só um evento inocente. E eu sei que você também quer ser amiga da garota. Sei que gostaria de ter uma amiga da sua idade, que não fosse aquelas meninas da boate. Aproveite. A Rafaela é uma boa menina.

__Pois me parece que você está tentando me jogar pra cima dela.

__É claro que não. Por que eu faria isso?__ Diana tinha um sorriso sarcástico.

__Porque você é sádica.

Açucena abriu a porta do closet, entrou e se trancou ali, deixando Diana no quarto sozinha.

__Escolha uma bela roupa. E não seja desagradável com a menina...__ a voz da mulher soou irônica, entre um riso, e seus passos foram se afastando.

Encostada na porta do closet, Açucena estreitou os olhos com raiva.

 

 

 

 

Fascinação por Ana Little

 

Rafa esperou Angel uns dez minutos no saguão do hotel. A garota saiu do elevador caminhando devagar, como quem não estava com a menor vontade de cumprir a ordem de Diana. Não estava sexy como das outras vezes. Seu look era algo meio romântico e boho. E ela parecia uma garota comum, exceto pela beleza extasiante, e porque era mais interessante do que qualquer outra que Rafa já vira. Usava um vestido curto e leve, de estampa floral, com um cinto marrom e uma bota de cano curto sem salto, os cabelos soltos.

Rafa sentiu, como das outras vezes, seu coração quase explodir em expectativa ao vê-la se aproximar.

__Oi__ o tom de Angel era daquele jeito irritantemente formal.

Por que ela faz isso? Rafa perguntou-se.

Quando olhava em seus olhos, a atração que pairava entre elas era como uma fagulha prestes a se converter em chamas.

__Oi__ encarando-a, Rafa pegou a mão direita dela e deu um beijo leve, quase um roçar de lábios na pele macia das costas da mão cujas unhas estavam pintadas com esmalte claro.

Açucena engoliu um suspiro, sentindo o calor daquele toque invadir seu corpo em segundos. E se esforçou para parecer indiferente.

__Espero que eu não tenha demorado__ tirou a mão mais rápido do que gostaria e foi caminhando para a porta giratória.

__Não__ Rafa sorriu, sem se abalar com o jeito frio dela, disposta a quebrar aquele gelo o quanto antes__ Tranquilo.

__Então vamos.

__Eu queria pedir desculpas por aquela noite da festa. Fui meio inconveniente. Não foi minha intenção...

__Tudo bem. Esquece__ Angel cortou, cobrindo os olhos com óculos escuros assim que entraram no carro.

Desejando que aquele dia terminasse logo, Açucena tentou olhar pouco para a garota ao seu lado. E ignorar o fato de que havia passado umas boas duas horas na varanda do flat na noite passada, fumando e pensando nela, em seus olhares insistentes, no rosto inesquecível. Que droga essa ideia de Diana pedir para ela lhe acompanhar naquele evento! Aquela desgraçada. Havia percebido seu interesse por Rafaela e queria torturá-la.

Isso tem que acabar logo, meu Deus! Não posso me interessar por ela, pensou Açucena, olhando de soslaio para a outra ao seu lado.

O evento era parecido com a festa no hotel. Gente desinteressante, cavalos, praticantes de hipismo, presidentes de ONGs, conversas chatas, situações nada divertidas. E principalmente, a maioria dos presentes parecia ter vinte anos a mais que elas. Para a sorte de Rafa, Angel estava tão entediada quanto ela. E no final, acabou se rendendo às suas piadas bobas...

Logo estavam conversando abertamente e rindo.

Rafa surpreendeu-se consigo mesma. Nunca havia se dedicado tanto a agradar uma garota. Nunca precisava. Elas sempre se jogavam para ela. Mas com Angel era diferente. Ela estava fora de seu alcance. E só o que podia ter dela por enquanto, era a simples companhia. E ainda sim desejava nem que fosse um minuto a mais perto dela. Mesmo que conversando sobre coisas que não tinham nada a ver com flerte. Nunca havia desejado tanto estar perto de alguém só para conversar. A presença de Angel coloriu aquele dia com um glamour singular, que inundou seu coração com algo novo.

__... e então eu acabei no curso de Economia, só pro meu pai parar de me encher o saco --dizia Rafa, tecendo detalhes sobre sua vida. Era quase o fim do evento. Elas estavam encostadas numa cerca, meio afastadas da festa.

__Sério? Não consigo imaginar você, com todas essas tatuagens, numa reunião de executivos__ Angel disse risonha, o vento brincando com algumas mechas do cabelo dourado, os olhos dela adquirindo aquela tonalidade de âmbar cristalino.

__Nem eu. Mas o sonho do meu avô é me ver um dia assumindo as empresas da família.

__Ah. Imagino. Mas do que você gosta de verdade?

__Quando eu era mais nova, queria fazer Artes Plásticas. Sempre fui apaixonada por essa área desde pequena e queria tornar isso parte da minha vida. Mas minha família vê esse meu lado como uma espécie de defeito.

__Então você é uma artista?

A pergunta pegou Rafa de surpresa. Apesar de sua vida sempre ter sido sombreada com esse hobby que era quase uma obsessão, ela nunca havia se autointitulado assim.

__Não, imagina__ela admitiu, rindo com modéstia__ Eu só rabisco algumas coisas...

Angel lançou a ela um olhar repleto de curiosidade.

__Pois do jeito como você fala, parece que isso significa muito pra você.

__Um pouco. É verdade. Faz parte de quem eu sou. Eu posso fazer o que for, seguir qualquer carreira, mas isso nunca vai morrer em mim, a verdade é essa. Sabe o que me dá vontade de fazer um dia desses? Botar uma mochila nas costas e sair por aí, viajando o mundo inteiro, retratando nos meus desenhos um infinito de pessoas, lugares e experiências diferentes...

Os olhos cor de mel de Angel se iluminaram.

__Jura? Você teria coragem de largar tudo? Quero dizer, a faculdade, parar a sua vida pra viajar por aí...?

__Acho que, pelo menos por um tempo, sim. Eu terminei o colégio e ingressei direto na faculdade. Teria sido bom ter dado uma parada, sabe? Seria uma loucura, minha família me mataria, meu pai até me deserdaria se eu saísse por aí sem data certa pra voltar.

__Pensando assim, isso parece ser apenas uma ilusão doce. Um sonho impossível.

__Pra mim nada é impossível, Angel.

A cada olhar, cada palavra, elas pareciam reconhecer-se mais uma na outra. Compartilhavam de sensações semelhantes, como o sonho de uma liberdade que para Angel era também apenas uma utopia.

__... porque pra mim a felicidade é fazer aquilo que nos faz sentir bem__ divagava Rafa, pensativa__Não se prender a nada. Ter as rédeas da própria vida.

__É verdade. Mas isso é tão difícil.

__Sim. Ter um domínio sobre a própria vida não é fácil. Mas a verdade, é que a vida é curta. E as oportunidades mais preciosas são poucas.

__Infelizmente sim__ Angel concordou seriamente, pensando com tristeza em como sua vida tinha sido desperdiçada todos aqueles anos.

__E pra você, o que é a felicidade?

__Não gosto de parar pra pensar nessas coisas. Eu nunca pude, na verdade. Tudo o que me resta é o que eu tenho. A minha vida já está traçada, é uma história com final definido. E não é nada cor-de-rosa.

__Que é isso? Não fala assim.Angel baixou a cabeça e Rafa não gostou do que viu em seu semblante. Então foi como se sentisse a angústia dela. Porque já tinha visto situações demais dela junto daquela Diana, para saber que Angel tinha razões para ser infeliz. Rafa quase entrou no assunto, fazendo a pergunta que gritava dentro de si: Por que você está com ela? Mas preferiu aproveitar aquela oportunidade para fazê-la se sentir bem.

__Desculpe. Eu não quis...

__Tudo bem. Eu só... não quero falar disso. Se não se importar, prefiro que continue falando de você.

__Ok. Mas não sei porque minha vida louca seria mais interessante do que a sua.

__Pode apostar que sim. As suas tatuagens, por exemplo, cada uma tem um significado?

__Mais ou menos. Falar de uma tatuagem é difícil. Ás vezes a gente não sabe exatamente porque a escolheu. Sei lá, alguma sensação inconsciente. Pelo menos no meu caso. Todas as que tenho vieram de inspirações da minha vida, sabe? Paixões. Nenhuma escolhida sem um significado real. A do pulso, por exemplo, é de uma ex namorada.

__Sério?

__É. Minha primeira namorada. O nome dela era Alice. Eu a amava. Mas flagrei ela na cama com outra.

__Uau! Sinto muito.

__Não. É passado. E o desenho não era assim, ele foi transformado depois que terminei com ela, então virou essa coisa confusa aqui.

__Mas acho que tem tudo a ver, essas gotas de sangue. É meio dramático.

__Sim.

Dessa vez Rafa usava uma camisa social de mangas curtas e uma bermuda preta de alfaiataria. Então era possível ver a maioria das tatuagens. Havia um ramo de flores coloridas subindo de sua panturrilha até chegar na coxa, sumindo dentro da bermuda.

O desenho maori negro em seu ombro direito, Açucena já havia visto parcialmente na primeira noite em que a vira, na plateia do Fantasy.

Rafa girou o braço esquerdo, exibindo o pincel no antebraço, em cores vivas.

__Esse você já pode imaginar o significado, né?

__Está vendo? Essa coisa da arte significa muito pra você.

Rafa sorriu com certo orgulho de si mesma.

__Sim.

Sem que Angel pedisse, ela levantou um pouco a camisa e mostrou o apanhador de sonhos na costela do lado esquerdo, com grandes penas azuis penduradas.

__Amei essa. É linda.

__Obrigada. Sou fascinada por essa lenda da cultura indígena norte-americana. O dreamcatcher.

__Eu sei. É interessante mesmo.__Eu tenho também um dragão celta...__ ela tentou discretamente mostrar parte do desenho a Açucena, mas ele tomava toda a extensão de suas costas, então era impossível mostrar todo. Não agora. Mas em breve, pensou, fantasiando loucamente um dia as unhas de Angel arranhando seu dragão__ Esse eu fiz depois de passar por um momento difícil. Foi a segunda, depois da do pulso. Eu ainda era menor de idade. Mas meu pai só viu depois de um bom tempo. Quase cortou meus cartões de crédito__ ela terminou de contar rindo.

__Imagino. Deve ter sido a mais dolorosa, não? É imensa.

__Na verdade todas foram__ Rafa admitiu__ Mas valeu a pena.

__Você é ousada.

Rafa riu de novo.

__Você acha? Acho que só um pouco. Quer dizer, só até meu pai ameaçar meus cartões.

__É, acho que todos temos nossas próprias correntes__Açucena olhou na direção do pôr do sol, pensativa__Eu também tenho as minhas, mas você parece ter coragem do que eu. Quando olho pra você, eu penso em liberdade. O seu jeito de ser, suas atitudes...

__Eu sei, você deve estar achando que eu sou doida.

__E acho isso incrível.

Açucena confessou com um sorriso radiante que inundou o coração de Rafaela.

__Bom, então eu fico feliz só por saber que fui útil pra você em alguma coisa__ num gesto instintivo, Rafa esticou a mão e tocou o rosto dela, um carinho suave e genuíno.

Os olhares se cruzaram de novo, dessa vez numa intensidade quase palpável. Rafa sentiu a força feroz do magnetismo que pairou entre elas. E pôde ver nos olhos cor de mel uma espécie de familiaridade nunca experimentada com mulher nenhuma.

Até que Angel se desviou, desconcertada.

__Acho que já está ficando tarde. É melhor irmos.

__É, você tem razão.

Chocada com as sensações inéditas, Rafa baixou a cabeça, se perguntando o que é que estava acontecendo?

Tinha sido um dia perfeito. Quando havia decidido conquistar a dançarina gostosa do Fantasy, não imaginara que seria assim. Agora, aquela Angel que estava ali, e a dançarina do palco pareciam duas pessoas completamente diferentes. A fantasia havia se desnudado numa garota doce e com sonhos parecidos com os seus. E de algum modo, fazia com que Rafa também se revelasse, com a tranquilidade que nunca tivera com ninguém.Era como se a Rafa cujo mundo era fazer compras e curtir baladas e mulheres diferentes a cada noite também fosse uma espécie de fantasia, uma personagem criada por ela mesma. Mas a real, a parte do seu "eu" mais profundo ela escondia, e com Angel, esse seu lado parecia querer se revelar. Como na música de Preta Gil "Eu tenho um lado doce que quase ninguém vê"

Rafa sentia-se como se naquele dia tivesse ficado suspensa num universo paralelo com o sabor de um sonho bom.

Antes que Angel saísse do carro, quando chegaram em frente ao hotel, pegou em sua mão e olhou-a nos olhos para pedir:

__Será que eu posso ver você de novo?

__Anh... Eu acho melhor não. E não preciso dizer porquê, não é?

__Mesmo assim eu quero ver você. Por favor...

__Eu não posso, Rafa. Adorei a sua companhia, mas...

__Se mudar de ideia... Eu vou esperar você amanhã na Ponte dos Ingleses ás cinco horas.

__Tchal__Angel disse cortando-a, lhe deixando a dúvida e adquirindo o jeito frio outra vez. Saiu do carro.

 

* * *

Açucena entrou no flat e só conseguiu respirar direito quando fechou a porta e viu que Diana não estava. Foi direto para o quarto e atirou-se na cama, embevecida com as lembranças do dia. A imagem de Rafaela estava viva em sua mente, como o eco de uma canção que havia penetrado fundo em sua alma. Aqueles lindos olhos cinzentos, seu sorriso, o jeito charmoso como estava vestida, aquelas tatoos cheias de personalidade. E tudo o que haviam conversado, as coisas que ela dissera. Como se identificara com ela. Suas ideias, seus sonhos...

Não. Não posso vê-la de novo.

"Eu vou esperar você amanhã na Ponte dos Ingleses ás cinco horas", dissera Rafa.

Diana vai para São Paulo amanhã, Açucena lembrou-se. Não ficará sabendo...

No entanto não podia! Era um erro. Ia acontecer o mesmo que acontecera com Adele.

"Mesmo assim eu quero ver você. Por favor...", o eco da voz de Rafa a perturbava mais.

Ah Deus! Como vou conseguir resistir? Ela é linda demais. Fascinante e irresistível demais! Dessa vez estou mesmo perdida.

 

 

Eu, você e a lua por Ana Little

 



Dia seguinte, muito tempo depois das cinco da tarde.


Rafa estava na Ponte. Escolhera aquele horário porque pelo menos podia se consolar assistindo o pôr do sol, caso ela não aparecesse. O que era quase óbvio.


Escorada na murada, fumava desanimada, olhando o horizonte. O sol já se fora, até mesmo aquele tom alaranjado fantástico que fica no céu, já estava sendo engolido pelos primeiros sinais da noite. Escurecia. E ela já estava cansada de trocar de lugar. Sentar num dos banquinhos de madeira no centro da ponte, se debruçar na murada...


Já chega. Ela não vem. A batalha de hoje, eu perdi.


Virou-se para voltar para a avenida e pegar um táxi. Mas quase levou um susto. Açucena vinha se aproximando devagar, como saída de um sonho. Os cabelos loiros e a blusa de um tecido leve, sendo sacudidos violentamente pelo vento. Ela usava um short jeans curto, de cintura alta e detonado, com uma blusa em estilo bata e um colar rústico de pedras. Sorriu.


Rafa teve a impressão de que o ar fugia de seus pulmões. Como das outras vezes.


Que droga de efeito é esse que ela me causa?


__Oi__ quando Angel falou, toda a sua fisionomia pareceu sorrir também. Ela tinha um ar leve e alegre, e o mel de seus olhos agora estava puro, amarelado naquela tênue luz do crepúsculo. Era a visão do paraíso.


__Oi__ Rafa retribuiu o sorriso, sem graça, porque era evidente que Angel havia percebido que já estava indo embora__ Eu... pensei que você não viria mais.


__Ah, é? E você ia desistir?


__Não. Apenas bolar a próxima tentativa.


Açucena sorriu, lisonjeada.


__Desculpe ter feito você esperar, é que...


Rafa aproximou-se e pegou nas mãos dela com firmeza.


__Eu seria capaz de esperar você pra sempre.


Angel riu, descrente, mas com certa emoção.


__Não diga bobagem__ fugiu do olhar dela__ Aonde vamos?


Rafa ergueu a mão direita dela e beijou suavemente.


__Você confia em mim?


Ela pareceu hesitar, mas Rafa viu em seus olhos um fulgor de excitação que clamava pelo gostinho de aventura.


__Sim__ Angel disse e apertou mais a mão de Rafa.


* * *


Elas seguiram de Uber para fora da cidade, até chegarem numa praia afastada. Alugaram um bugue e continuaram o percurso pela areia, até dar em uma pequena vila à beira mar. Rafa parou o bugue em frente a um bar rústico coberto por palha de carnaúba.


Açucena sentia-se radiante, olhando aquele ambiente inusitado, casais de pés descalços na areia dançando forró.


__Então... esse é o seu... lugarzinho secreto?


__É, mais ou menos... Eu já vim aqui com as minhas amigas algumas vezes. Nós costumamos frequentar lugares assim, diferentes. Acabei conhecendo a dona. Ela é uma pessoa bacana. E nem um pouco preconceituosa. E gosta muito de dinheiro.


Açucena riu.


__Imagino.


__E então, gostou? Acho que aqui é difícil que ela nos encontre.


__Sim__ Açucena ficou séria um instante, mas em seguida olhou em volta e depois encarou Rafa, sorrindo de novo__ Mas eu adorei.


__Que bom. Você sabe dançar forró?__ Rafa perguntou, mas antes que ela respondesse, agarrou sua cintura com aqueles braços tatuados e a puxou para si de um jeito dominante e sensual.


Açucena sentiu seu coração quase parar com isso. Mas recuperou-se e começou a segui-la nos passos. Ela deixou-se viajar na música e no olhar de Rafa. Sentiu-se nas nuvens, envolvida naquela atmosfera de sedução. Nunca havia sentido tanto prazer numa simples dança.


Era impossível ir contra aquela atração arrebatadora. O desejo expresso no olhar de Rafa a fazia estremecer. Açucena foi invadida por uma vontade insuportável de se entregar de vez aquele momento. Não podia fingir que aquele era só um encontro de amizade. Não queria apenas a companhia dela. Queria-a inteira, saborear aqueles lábios que agora lhe sorriam, deixar-se invadir por aquelas mãos firmes e ágeis.


Rafa a encarava daquele jeito paralisante, envolvendo-a mais e mais. O atrito de seus corpos na sensualidade da dança fazia Açucena se sentir embriagada. A vontade de beijar Rafa a torturava a cada segundo. Mas era uma expectativa deliciosa.


Aquela atração evidente, tacitamente declarada foi seguindo seu curso, até o inevitável. Elas foram parando de dançar, encarando-se num olhar aonde o desejo ardia, explícito. Rafa pôs as mãos em volta da cintura de Açucena, trazendo-a mais para perto. Aos poucos os lábios foram se aproximando, primeiro num atrito suave. Açucena enlaçou a nuca dela, estremecendo ao sentir o corpo tatuado se juntando ao seu. O beijo começou devagar e doce, as bocas se provando, se fundindo. Mas foi se tornando furioso e urgente, à medida que o desejo crescia e se tornava insuportável.


Rafa a puxou para um canto escuro, encostando-a na parede de palha, e retomou a intensidade do beijo, agora cercando-a de carícias, passeando com mãos ansiosas pelas curvas exuberantes. Desceu pela cintura, agarrando as coxas, apertando o bumbum discretamente... Lembrou-se que estavam no meio de um bar hétero...


__Ah, meu Deus, Rafa...__ Açucena gemeu, antes de tentar afastá-la, mesmo que sua vontade fosse de arrancar a roupa dela e transar ali mesmo-Para, eu não posso... Nós não...


Com muito esforço, Rafa afastou-se, ainda ofegante, o tesão confundindo seus sentidos. Respirou fundo, tentando se recobrar, e meio assustada com a força de seu próprio desejo.


__Ok... é claro, você tem razão. Desculpe, a culpa foi minha__ encarou-a perplexa, mas sem deixar ela perceber. Nunca sentira uma vontade tão forte de transar com alguém.


Açucena passou a mão pelos cabelos, arrumando-os, ajeitou as roupas. Mas quando levantou o olhar e se deparou com os olhos cinzentos ainda a devorá-la, cheios de cobiça... Não conseguiu resistir. Atirou-se nos braços de Rafa de novo, se rendendo a vontade de explorar aquela boca tentadora. Por que mentir pra si mesma? Se quisesse evitar aquilo, não teria cedido a tentação de vir encontrá-la.


Mas nesse instante soou uma voz vinda do meio das mesas que fez as duas pararem de imediato.


__Mas que indecência é essa? Esse bar agora virou lugar de sapatão?__ era um homem moreno, com a barba por fazer, uma camisa azul clara meio encardida. Estava sentado com uma mulher que lançou ás garotas um olhar alarmado.


__Para com isso, homem!__ ralhou ela, era a esposa talvez.


__Que é isso, rapaz?__ disse uma moça, sentada com duas amigas, na mesa ao lado dele__ Vamos ficar na paz, as garotas não estão fazendo nada demais.


__Mas que droga__ Rafa afastou-se de Açucena irritada__ Não acredito nisso.


Açucena olhou em volta, desconcertada e apreensiva.


__Eu tive a impressão que isso ia acontecer, pelos olhares que todos nos lançavam quando estávamos dançando.


__Não é nada disso. Eu já vim aqui outras vezes com as meninas. Esse pessoal é tranquilo. Mas sempre tem um babaca. Desculpe ter trazido você.


__Não, tudo bem.


O bar já estava em alvoroço. Vozes, cochichos. O homem se levantou, nervoso.


__Eu me recuso a aceitar isso!


__Para de ser besta, Edmundo!__ alguém do meio das mesas cheias opinou.


__É isso mesmo, cabra, fica no teu canto. Tá todo mundo na tranquilidade aqui__emendou um sujeito de chapéu de palha, sozinho numa mesa já quase fora do bar, perto de uma palmeira.


A essa altura, a banda havia parado de tocar.


__Eu não vou ficar aqui sentado, enquanto vejo duas mulheres se agarrando como se fosse a coisa mais natural do mundo.


__Está incomodado, meu querido? Sai fora, então!__Rafa gritou, se virando na direção do homem.


__Pare, não dê atenção a ele! É um idiota__ Açucena tentou impedi-la, preocupada__É melhor irmos embora.


__Não. Quem vai embora é ele__ e Rafa foi caminhando para a mesa do sujeito-- Escuta, qual é o seu problema cara? Por que não fica na sua?


No canto esquerdo do balcão, uma garota com uma headband de flores no cabelo, gritou:


__Deixa as meninas em paz, seu idiota! Gente, não liga não. Ele só quer se amostrar.


__Deixa disso, Edmundo!__aproximou-se outro homem que parecia amigo dele__ Não tá vendo que as duas são burguesinhas, lá da parte nobre da cidade? Melhor não bulir com essa gente.


__É melhor mesmo você calar essa boca, ou...__ Rafa disse, hesitante. Em outros momentos, por muito menos teria humilhado o sujeito até ele se sentir pior do que a escória que era. Agora se deu conta de que não queria que Angel a visse fazendo isso. Percebeu que era a primeira vez que se preocupava com a impressão que podia causar numa garota. Queria mostrar seu lado bom a ela. O lado de uma pessoa que, mesmo sendo xingada, não devolve na mesma moeda. Queria ser o melhor que pudesse para ela. Não sabia porquê, mas queria.


__Ou o quê? Você pode ser filhinha do papai, mas ele não tá aqui pra te defender agora.


__Mas eu sou a dona desse bar e não vou deixar você fazer nenhuma besteira, homem!__ Donana se aproximou por trás dele.


Uma garota em outra mesa com o namorado gritou:


__É isso aí, Donana!


__Esse mundo não tem mais jeito__ tornou o homem__ Não me peçam pra achar isso natural.


__O que não é natural é uma pessoa em pleno século 21 falando desse jeito__ Rafa tentou não elevar o tom de voz.


__Você já pagou sua cerveja, seu Edmundo?__ Donana cortou a discussão.


__Já. Porque eu sou homem de bem. E não devo nada a ninguém.


__Ótimo, então já pode ir embora.


__O quê? Você prefere me expulsar a essas duas, Donana?


__Não vou aturar cliente grosseiro e preconceituoso no meu estabelecimento.


__É claro. Dinheiro compra tudo nessa vida.


__Não é essa a questão. Mas eu não vou ficar discutindo isso com você. Preconceito hoje em dia pega mal, é coisa de gente abilolada. Entendeu, meu amigo? Então ponha-se daqui pra fora.


__É isso aí, vai-te embora seu mala!__ gritou outro rapaz com os amigos no balcão.


E em meio às vaias, Edmundo saiu segurando a esposa pelo braço.


__Pronto, minha gente. Podem voltar pras suas conversas__ Donana disse num tom tranquilo e se virou para a banda__ Dá pra vocês voltarem a tocar? Não aconteceu nada.


Em outra ocasião, Rafa teria agradecido aquelas pessoas, mas sem a intenção de "se misturar" com aquela "ralé". Agora sentiu vontade de fazer diferente.


__Valeu pela atitude de vocês, pessoal. Pra agradecer, vou pedir pra Donana servir uma rodada de cerveja pra todo mundo! É por minha conta!


O bar explodiu em palmas e assobios.


Terminada a confusão, a mulher se voltou para Rafa e Açucena.


__Vocês me desculpem, meninas__ ela veio conduzindo-as a um canto.


__Tudo bem, Donana.


Enfiando a mão no bolso, a mulher pegou uma chave.


__Pelo que percebi, vocês estão querendo ficar mais à vontade. Essa chave é do quarto no fim daquela escada. Eu alugo pra turistas que vêm visitar a vila. Podem ficar o tempo que quiserem. É por minha conta.


__Obrigada__ Açucena sorriu para ela com simpatia. Havia gostado da mulher, e daquela gente. A fazia se lembrar de sua infância no sertão.


 


Minutos depois...


As duas estavam terminando de subir a escada de madeira que havia do lado direito do bar, depois de uma pequena varanda decorada com plantas e cadeiras de bambu. Rafa abriu a porta e elas foram dar num quarto cuja decoração seguia o mesmo estilo rústico do ambiente de baixo.


Mal haviam entrado, Rafa a agarrou pela cintura com ansiedade e voltou aos seus lábios, continuando o beijo interrompido antes da confusão.


__Espera, não podemos fazer isso, Rafa__ Açucena afastou um pouco a boca da dela, mas seus rostos continuavam juntos, as respirações se chocando__ O maior problema da minha vida não é o preconceito.


__Eu sei. Mas estamos fora da cidade. E você disse que ela tinha um compromisso hoje.


__Você não a conhece. Se ela quiser, pode ter posto alguém pra me seguir. Ou pior.


Pode ter me seguido.


__Relaxa, não vai acontecer nada. A única coisa pior que pode acontecer comigo agora é ter que parar de te beijar.


__Você é maluca!__ Açucena afirmou rindo nervosa, ainda encostada na porta, relutante. Devolveu o olhar sedutor que ela estava lhe lançando e tomou a decisão__E eu sou mais ainda!__ a puxou pela gola da camisa, aproximando a boca da dela de novo e envolvendo os lábios macios nos seus.


Rafa correspondeu, deixando seu corpo pender de encontro ao dela na porta, invadindo a boca deliciosa com a língua, encontrando a dela, se enroscando e sugando com vontade, enquanto enterrava as mãos nas mechas loiras.


__Eu estou louca por você. Não sabe como tenho sonhado com o gosto da sua boca.


__Eu também__Açucena afastou-se só um segundo para olhar nos olhos dela-- Pensei em você a semana toda.


E colou de novo os lábios nos de Rafaela. Aquela boca macia como uma fruta madura, mas habilidosa, dominadora. Quando sentiu a língua quente e ágil se unindo na sua de novo, não pensou em mais nada.


Sem pedir licença, Rafa meteu as mãos por debaixo da blusa dela. Afastou o sutiã sem delicadeza e apertou os seios, massageando-os e soltando um gemido sussurrado no ouvido de Açucena. Um gemido que terminou num beijo provocante ao lado da orelha dela.


Açucena respirou ofegante, fechando os olhos, lânguida de tesão. Fantasiara a semana toda aquelas mãos em seus peitos, em seu corpo, dentro de si. Aquelas mãos atrevidas e decididas.


Rafa tateou as costas dela e desabotoou o sutiã. Levantou a blusa, mas teve que se deter por um segundo para olhar aqueles seios redondos e firmes.


__Você é linda! Perfeita!


Açucena pensou que ia enlouquecer quando a boca gulosa se apossou de seus seios. Rafa parou nos mamilos intumescidos e sugou-os com deleite, provocando uma leve dor. Açucena sussurrou um "ai" sensual que encheu a outra de excitação.


As mãos de Rafa voltaram a acariciá-la, cada toque numa urgência desmedida, como se fosse o último. Apertando, provando, sentindo... O desejo de Açucena crescia a cada movimento daquelas mãos. Sua pele parecia queimar.


A cama, logo ali, parecia desnecessária, ou longe demais. Rafa se esfregava no meio das pernas dela, chocando o sexo no seu, comprimindo-a na porta, como se ansiasse por se fundir a ela. Arrancou-lhe o short junto com a calcinha, depois abriu seu próprio zíper, em seguida tirou a camisa, deixando as peças caírem pelo chão.


Com os corpos nus grudados, os gemidos se intensificaram, as carícias, o tesão. Os beijos se tornaram mais intensos, no embalo apressado da excitação. Rafa virou Açucena de costas, afastando os cabelos dela e cobrindo-lhe o pescoço com beijos. Com as mãos na frente, voltou aos seios dela, apertando-os, insaciável. Desceu com a mão entre suas pernas, primeiro sentindo, conhecendo, se apossando da intimidade dela. Mas diante de um suspiro de súplica da loira, penetrou dois dedos no mar de desejo que a esperava. No início devagar, atiçando-a com movimentos provocadores. Depois mais depressa, forçando os dedos dentro do sexo molhado, metendo e tirando sem parar, num ritmo cada vez mais voraz.


Açucena gemeu mais, numa trilha sonora sensual que fazia aumentar o tesão da outra.


Rafa sentia doer a pulsação entre as pernas e comprimia o sexo no bumbum dela, aquele bumbum perfeito que rebolava sem parar, envolvendo-a em fantasias insanas. Em retribuição, metia os dedos com mais força, enterrando-os fundo e tirando depois, lambuzando-se na abertura deliciosa, devorando-a inteira, instigando-a e fazendo Açucena delirar num prazer desmedido.


O som das respirações ofegantes e dos gemidos de ambas se confundiam.


Rafaela a apertava contra a porta, fodendo-a pela frente e friccionando com força o sexo no bumbum dela, num vai vem ritmado e urgente. Quando Açucena gemeu mais forte, jogando a cabeça para trás em seu ombro, Rafa aumentou as estocadas, gozando só por ouvir os sons de prazer daquela mulher incrível, que também se consumia num orgasmo intenso, em sua mão.


Açucena virou-se de frente e a encarou. Os olhares embriagados um no outro, cheios de desejo ainda, turvos de êxtase.


Antes de recuperarem o fôlego, Rafa a puxou para a cama. Açucena a beijou de novo, insaciável, as mãos na nuca dela. As duas foram caindo sobre o colchão. Açucena relaxou o corpo e trouxe a boca dela até a sua para continuar os beijos ardentes. Soltou um suspiro ao senti-la se grudar, molhada, entre suas pernas.


Rafa começou a mexer os quadris para cima e para baixo entre as coxas dela, sua pele se chocando com a dela num ruído excitante. Com as duas mãos agarrou os seios, apertando-os mais rudemente dessa vez, submersa nos próprios ímpetos de desejo, se esfregando nela com ganância.


Açucena gemia dessa vez seguidamente, se abandonando por completo ao sabor da luxúria, arqueando a cabeça no travesseiro, e viajando em mais um orgasmo.


Rafa desceu até o meio das pernas dela, pegando-a de surpresa, segurando seus quadris e cobrindo o seu sexo com a boca, depois parando no centro do prazer, provocando, torturando, num jeito de chupar envolvente e instigante.


Açucena agarrou a cabeça dela, implorando, os lábios entreabertos, as pálpebras cerradas, numa entrega sem medida.


__Rafa...__ ela sussurrou, inebriada de êxtase.


Rafa a estimulava no lugar certo, sem escapatória, segurando seus quadris, sem deixá-la se esquivar, chupando-a inteira. Levou os dedos até lá de novo e meteu sem parar, enquanto com a ponta da língua dominava o clítoris, numa brincadeira torturante, até levar Açucena a um orgasmo ainda mais intenso.


* * *


Devia passar das duas da madrugada.


Angel estava deitada, numa posição atravessada na cama, vestida apenas na calcinha preta, os seios redondos e rosados expostos sem pudor. Fumava, os cabelos loiros espalhados pela colcha de renda branca. Seu olhar estava voltado para a janela, por onde a claridade da lua entrava.


__Digamos que um dia...__ela disse, num tom vago e sonhador__ pudéssemos fazer um mochilão, viajar pelo mundo inteiro, eu e você. Pra que lugar você iria primeiro?


Rafa estava encostada na cabeceira, com um joelho curvado e o outro esticado. Olhava para ela, incansavelmente.


__Não sei... Tantos lugares. Talvez Las Vegas. Podíamos nos casar lá.


Angel deu uma risada ruidosa.


Rafa a contemplava com prazer. A perfeição das curvas, o tom de pele dourado, que parecia incitar o desejo. Os cabelos ondulados, selvagens e provocantes, do tipo que dava vontade de puxar... Ah, droga! Que merda é essa que estou sentindo?


Desviou-se.


__O que foi?__Angel se virou para ela.


__Nada__Rafa pegou um cigarro também e acendeu, ainda pensando.


Era um sentimento violento, primitivo... Queria Angel loucamente! Um desejo selvagem, indomável...


__Eu iria até para o inferno com você__completou__ Pode me levar pra onde você quiser, e fazer o que quiser comigo.


__Nossa! O que eu quiser?__ Angel a olhou com um sorriso malicioso__Mas eu estou falando sério, Rafa.


__E você, pra onde queria ir primeiro?


__Para uma ilha. Bem distante no mar, onde eu pudesse me sentir livre. Com uma grande casa de praia. Podíamos caminhar descalças na areia... Depois fazer amor sob o pôr do sol no gramado da piscina. Uma casa numa ilha, só você e eu...


Rafa a encarou surpresa, quase sorrindo para si mesma. Sim, é claro. Vou realizar seu sonho. Quem sabe em breve. Vou levá-la para o meulugar precioso.


Ela pensou justamente na ilha particular de sua família, com uma casa de praia enorme com jardins, piscinas com cascatas e varandas com vista para o mar. A casa havia sido o lugar preferido de sua mãe, e Rafa tinha lembranças de infância lá. Seu lugar precioso de sempre. É claro que ia levar Angel lá.


Espera... Nunca levei nenhuma outra garota lá, exceto Alice...


Voltou a pousar os olhos em Angel, que estava deitada de modo displicente em sua frente. Parecia que a conhecia da vida inteira. Não era só sexo. Não. Era algo mais. Algo que tinha a ver com a estranha facilidade que tinha de falar sobre sua vida com ela, e a necessidade de ser sincera.


__Qual o seu nome?


Angel se desviou da janela, olhou para ela e sorriu, analisando sua expressão.


__O quê? Ahn... Angel, ora.


__Não. As garotas que trabalham na noite nunca usam o nome verdadeiro.


 


__Hum, então... __Angel fez uma pausa para soprar a fumaça no ar__Eu sou a exceção.


__Ah, qual é? Não vai me dizer?


A resposta foi apenas mais um sorriso de desafio.


__Ok... Eu vou descobrir sozinha__ Rafa garantiu, obstinada.


__Pra quê?


__Então admite que tem outro nome? Um verdadeiro...


Angel ficou séria. Levantou-se, jogou o que sobrara de seu cigarro numa lixeira e se escorou na janela, encarando-a hesitante.


__Açucena__ confessou.


Emocionada, Rafa deu um sorriso que saiu automático.


__Açucena... __repetiu devagar, saboreando o nome.


__Eu sei, não é o nome mais lindo do mundo.


__É lindo sim. Diferente.


__Você quer dizer esquisito.


__Eu quis dizer lindo e exótico. É uma flor, não é? Açucena... Que gracinha! Posso chamar você assim agora?


__Tudo bem, pode.


__É sério, eu gostei. Quer dizer, eu nunca conheci ninguém com esse nome, o que torna a coisa mais interessante. Torna você ainda mais única.


Açucena sorriu com satisfação, enfeitiçada pelo ar de sedução sempre presente nos olhos cinzentos.


__Eu sou única pra você?


__É__ Rafa afirmou, surpreendendo-se consigo mesma. Já havia dito isso para outras garotas antes, claro. Mas sentiu que era a primeira vez que não mentia. Ah, Deus! Não é mentira. Ela é, de fato, única pra mim. O pensamento a deixou preocupada. Porque a enchia de uma coragem assustadora para ir até onde fosse preciso para ter Açucena.


Açucena riu de novo, um riso que começou lento e se tornou uma gargalhada.


__Por que está rindo?


__Fala sério... Vai dizer que você não é cheia de mulheres?__ especulou.


__Por que acha isso?__ Rafa levantou-se também e se aproximou dela.


__Você tem o maior jeito de conquistadora__Açucena a provocou, ainda risonha__Conheço o seu tipo, sabia? E com essa pegada toda...


__Eu tenho pegada?__ Rafa indagou e devolveu o sorriso, envolvendo sua cintura.


__Ai, droga, por que fui falar isso? Agora você vai ficar se sentindo.


__Vou nada. Nunca ninguém me disse isso antes.


__Mentirosa...__ Açucena levou as mãos até a nuca dela, enfiando-as entre os cabelos castanhos. Aproximou a boca da dela e a beijou.


O beijo, como qualquer toque entre elas, foi ficando quente, Rafa acariciando as costas dela, depois descendo para apertar sua bunda.


Mas Açucena interrompeu o beijo e afastou-se.


__Não, não podemos recomeçar. Eu tenho que ir__ela começou a apanhar as roupas do chão. Encontrou o short e vestiu. Depois o sutiã.


__Quer que eu abotoe pra você? Apesar de que minha especialidade é tirar.


__Mas se você fizer isso agora, eu te bato. Eu preciso voltar pra casa.


Rafa riu.


__Calma, eu estou zoando.


Quando elas desceram a escada, já na varanda, Açucena parou de repente, ao vislumbrar um homem no bar. Ela puxou Rafa precipitadamente para voltar. Elas se esconderam atrás das plantas da varanda.


__Ah, droga, eu sabia. Ela mandou me seguir.


__Sério?__ Rafa indagou, temerosa, olhando para o cara que se aproximava da dona do bar.


Depois de falar com Donana, e receber apenas um balançar negativo de cabeça, ele se virou para os clientes nas mesas.


__Será que algum de vocês viu essa garota?__ na mão ele tinha uma foto de Açucena.


Em volta, as mesmas pessoas que bebiam a cerveja oferecida por Rafa, entreolharam-se e automaticamente negaram.


__Não, moço. Não vimos não__disse um dos garotos no balcão.


Ali na varanda atrás das plantas, Rafa deu um riso.


__Essas pessoas são mesmo legais.


Mas Açucena não estava rindo. Preocupada, ela observou o capanga de Diana desistir e ir saindo do bar.


 


 


Só por você por Ana Little

 

__E então, meu amor, como foi seu fim de semana?__ perguntou Diana ironicamente, na mesa do café, pousando a xícara com delicadeza de volta no pires. Usava um blazer preto, os cabelos presos e arrumados, os olhos com delineador escuro-- Fez algum programa exótico?

Açucena sentiu o coração saltar de nervosismo. O jeito investigativo da mulher pairava sobre ela como uma sombra. Carlão estava à mesa também, como fazia algumas vezes quando Diana o convidava. Mais uma presença desagradável para Açucena tentar digerir com aquele café da manhã.

Com os olhos fixos em sua taça de iogurte com morango, ela respondeu a pergunta de Diana sem olhá-la.

__Fui ao evento no haras. Sabe disso.

__Mais alguma coisa? Como um encontro numa vila afastada da cidade?

Açucena gelou. Mas quando levantou o rosto, tentou não demonstrar o medo. Diana dava um sorriso cáustico, o olhar obscuro fixo no seu. Açucena desviou-se para Carlão, que estava sentado em sua frente. Ele também sorriu debochado e explicou com prazer:

__Um homem chamado Edmundo. Foi fácil arrancar do sujeito.

O homofóbico! Açucena lembrou-se. Aquele homem desgraçado deve ter nos dedurado com prazer.

Diana a encarava como que contemplando sua reação onde o medo era indisfarçável.

__Então é isso. Uma noite com aquela garota bem debaixo do meu nariz... Você teve mesmo a ousadia de aceitar as investidas dela, não é? Eu não pensei que chegaria a tanto.

Explodindo em fúria, Açucena confessou:

__Você mesma armou situações pra me jogar pra cima dela. Se queria apenas me torturar, achando que eu não teria coragem, se enganou. É verdade. Eu estava com ela sim. Fomos pra cama. E foi melhor do que não tem sido há muito tempo com você...

As palavras de Açucena foram cortadas com um tapa. Ela quase tombou da cadeira, mas segurou-se na mesa.

__Vagabunda!

Com o rosto vermelho e a raiva turvando seus olhos, Açucena levantou-se de súbito. Mas Diana também se ergueu e antes que a garota cruzasse a porta, correu e segurou em seu braço com força, fazendo-a parar.

__Volta aqui, quem disse que você podia ir para o quarto?

Mas dessa vez, diferente das outras, Açucena sentiu crescer em si uma coragem inédita.

__Vai pro inferno!__ despejou, o ódio saltando com cada palavra.

Num segundo, ela forçou o braço e conseguiu se desvencilhar da mulher. Mas caiu de encontro a mesa.

Caminhando devagar, Diana veio se aproximando, seu rosto transfigurado em ira, mas certa de que a garota não escaparia.

Mas Açucena, levando a mão atrás de si, alcançou uma faca e quando Diana esticou as mãos firmes para agarrá-la de novo, Açucena ergueu a sua com a faca, atingindo em cheio a palma da mão esquerda da mulher.

Diana soltou um grunhido de dor, olhando para ela quase sem acreditar.

__Vadia!

Nervosa e assutada com o que havia feito, Açucena deixou a faca cair de sua mão. O sangue jorrou, vermelho e vivo do corte, tingindo os dedos de Diana.

Dominada pelo pânico, Açucena já ia se erguendo para fugir para o quarto, mas mal se moveu e Carlão estava sobre ela, agarrando-a pela garganta.

__Quieta!

Diana segurava a mão ferida, fazendo uma careta de dor. O homem olhou para ela como a perguntar o que fazer com Açucena, já preparado para castigá-la da pior forma.

__Solta ela!__ Diana ordenou ao capanga, que soltou Açucena, frustrado.

Livre, Açucena saiu correndo e subiu a escada depressa.

Carlão olhou para a patroa sem entender.

__Não fica aí parado, pega a caixa de primeiros socorros, seu idiota!

Ele correu para o banheiro e trouxe o que ela pedira.

__Ela feriu você. Não vai puni-la?

__Não adianta. A merda já está feita. As coisas estão diferentes dessa vez. Essa garota mexeu com ela de verdade. Ela nunca me enfrentou assim.

__Eu disse que isso não ia prestar. Você devia ter cortado isso no início. Resolveu brincar com fogo.

__Eu só queria dar uma lição naquela garota insolente. Quem ela pensa que é pra se envolver com a minha mulher? Ela é atrevida, eu só queria torturá-la, deixá-la se apaixonar pela Açucena e depois mostrar pra ela que a Açucena é minha!

__Então acho que chegou a hora de você pôr um fim nisso.

__Eu queria matá-la. Só isso seria o suficiente depois de ela ter...

Diana fechou os olhos um segundo, tentando conter a vontade de fazer uma besteira. Sim porque matar Rafaela era fazer uma grande besteira. Comprar briga com um dos homens mais poderosos da Organização.

 

* * *

Açucena trancou a porta do quarto e jogou-se na cama, apoiando-se no travesseiro. As lágrimas vertiam de seus olhos.

O que eu fiz?

Agora as coisas podiam se complicar.

Droga! E agora? Será que nunca mais vou ver a Rafa?

Alguns minutos se passaram.

__Açucena!__ a voz de Diana soou do lado de fora__ Abre. Quero falar com você.

__Me deixa em paz!

__Não vou sair daqui. E se não abrir, vou mandar quebrar a porta e vou entrar de qualquer jeito. Então acho melhor você abrir.

__O que vai fazer comigo?

__Eu não vou machucar você. Só quero conversar.

Ainda temerosa, Açucena abriu a porta e a encarou, com o mesmo ódio de há minutos. Agora a mão ferida de Diana estava enfaixada. Mas ela tinha aquele olhar de raiva contida ainda mais intimidante.

__Eu quero que pare de vê-la. Será que eu fui clara?

Açucena não respondeu. Já esperava que as coisas fossem chegar a esse ponto, só não imaginava que sentiria o que estava sentindo. Uma coragem assustadora.

Não ver Rafa nunca mais?

A essa altura, principalmente depois da noite inesquecível que tivera com ela, isso soava como algo impossível de acontecer. Se deu conta de que não conseguia se imaginar se afastando de Rafaela.

__Se insistir em vê-la de novo, vou levar você embora do país pra sempre. Nunca mais verá essa garota. Então é bom que se afaste dela sem precisar disso-- Diana bateu a porta com força.

Açucena ficou escutando, paralisada, os passos da mulher se afastando no corredor. Desabou na cama outra vez, chorando.

 

* * *

Quando Diana chegou na sala, Carlão finalizava um telefonema. Olhou para ela com seriedade.

__Ele quer ver você.

__Ah não!

__Com certeza, tem a ver com a filha. Ele já sabe que você submeteu Rafaela aquele interrogatório.

__Merda! Entende porque eu não posso fazer nada contra essa garota? Ela é a única que eu não posso atingir. É a filha dele. Que droga! Eu fui imprudente, confesso. Devia ter afastado a Açucena dela no início. A Açucena está se apaixonando por ela. Como pode ter avançado com aquela faca pra mim? Ela nunca fez isso. Eu vi algo nos olhos dela. Acho que a Açucena nunca tinha se apaixonado por alguém como por essa menina. Agora é diferente. A coisa está séria. Vou ter que levá- la embora. Ou isso ou vou perdê-la para essa menininha estúpida.

*  *  *

Açucena ouviu a porta da sala bater e percebeu que Diana havia saído. Abriu a porta do quarto e se esgueirou pelo corredor. Mas apenas para se certificar de que o capanga ainda estava na sala. Sentado no sofá, Carlão folheava uma revista sem atenção.

Aflita, Açucena voltou ao quarto. Agora tinha certeza que sua segurança ia estar reforçada, mais capangas vigiando seus passos.

Droga!

Atirou-se outra vez na cama. Seu celular vibrou. Seu coração se agitou mais quando viu o número surgir no visor. Era o de Rafa.

__Oi__ a voz inconfundível soou do outro lado__ Você pode falar agora?

__Sim. Mas Rafa...

__Nossa, já estou com saudades de você. Queria te ver logo. Quando poderemos nos encontrar de novo?

__Eu não sei__ a voz de Açucena estava embargada pelo nervosismo__ Rafa, seria melhor que não nos víssemos mais.

__O quê? Você está de brincadeira, né? Espera, aconteceu alguma coisa? Sua voz está estranha.

__Nós tivemos uma discussão. Eu feri a Diana, ela ficou furiosa.

__Você está bem? Ela fez alguma coisa com você?

__Não, eu estou bem. Mas não sei o que vai acontecer a partir de agora, Rafa. Ela mandou redobrar a quantidade de seguranças. Eu acho melhor...

__Nem pensar! Açucena escuta, eu não vou me afastar de você. Isso está fora de cogitação.

__Você não entende. É perigoso pra você. Volta pra sua vida e me esquece.

Como está tentando convencê-la de algo que nem você quer que aconteça?

__Não. Isso não vai acontecer, está entendendo? Eu não vou deixar você. Não me peça pra desistir de você agora. 

__Ela disse que se eu voltar a ver você, ela me levará embora do país pra sempre.

__Só precisamos ser mais cuidadosas. Eu vou pensar em algo. Só me diz que não vai desistir de nós. Me promete, Açucena.

Como eu posso dizer "não"?

Aquela confiança cega de Rafa não a fazia se sentir segura, mas era a única coisa que tinha para se agarrar. E o pior era que estava funcionando.

__Tudo bem. Mas temos que passar uns dias sem nos ver. Então talvez ela fique mais tranquila. Pensará que eu a estou obedecendo. Vou dar um jeito de nos vermos quando ela for no dia doze para o Rio de Janeiro.

__Dia doze?__ era dali a duas semanas. Rafa deu um suspiro de lamento__Tudo bem. Como eu disse, eu esperaria você pra sempre.

Açucena sentiu o coração se aquecer com a repetição daquela frase boba.

 

A qualquer preço por Ana Little

 

 

Diana abriu a porta sem pressa. O gabinete estava em silêncio. A poltrona bege estava virada para a parede, para a estante repleta de volumes grossos. Uma mão branca aparecia no encosto. Usava um anel pesado em um dos dedos.

O homem pareceu ouvir Diana na porta e seus passos depois, quando ela se aproximou da mesa, porém não se virou.

__Então andou se aproximando da minha filha...

__Eu não me aproximei dela. Será que seus informantes não fizeram o trabalho direito? Não é culpa minha se sua filhinha costuma se divertir em lugares como o Fantasy e gosta de se envolver com prostitutas. Ou será que ele não disse que ela se interessou por uma das minhas meninas?

__Isso eu sei. Vou averiguar esses detalhes. O comportamento da minha filha é assunto meu. Mas nada nesse mundo dá a você o direito de submetê-la a um interrogatório, como se ela fosse uma qualquer. Enlouqueceu, Diana?

Sentindo a raiva brotar dentro de si, Diana engoliu o que ia dizer. Marco a olhava impassível. Aquela cara de homem/rico/poderoso, intimidava mais do que uma expressão de ódio. Ele continuou:

__Se você se atrever a tocar num só fio de cabelo da Rafaela...

__Você vai fazer o quê? Se não quiser correr o risco de envolver sua filhinha na sua vida suja, é melhor mudarmos o tom dessa conversa.

__Está me ameaçando?

__Não. Na verdade não tenho intenção de fazer nada com a Rafaela. Só quero que ela se afaste da Angel. Só isso. A Angel é exclusivamente minha e não vou permitir que ninguém se envolva com ela.

__Oras, não sei que tipo de obsessão você tem por essa garota a ponto de mantê-la como se ela fosse um bibelô de porcelana. Mas de qualquer modo sei que minha filha só deseja se divertir um pouco. Ela gosta de mulheres, e eu nunca me importei com sua vida particular, ela não é mais criança. Mas a conheço. Com certeza não pretende grande coisa com essa moça. Seja o que for que aconteça, não toque na Rafaela. Ou terá problemas. Será que entendeu? Nós temos dívidas um com o outro, Diana. Não se esqueça disso. Não precisamos começar uma guerra por causa de duas meninas. Eu vou me certificar de que a Rafaela seja vigiada. Não quero nenhum dos seus meninos perto dela. Ouviu bem? Deixe-a se divertir um pouco com a garota. Daqui a pouco ela se cansa. Vou estar por perto para impedir que ela faça alguma besteira.

Maldito! Isso não vai ficar assim.

Fazendo questão de demonstrar o ódio no olhar que lançava a ele, Diana não se deixou abalar.

__Será que está tendo dificuldades para controlar os passos da sua filha de 19 anos, doutor Marco Hoffmann?

__Já disse que isso é problema meu.

Diana deu um riso repleto de desdem.

__Talvez eu não precise dizer nada a ela. Só o fato de estar envolvida com uma garota que faz parte da Organização já é motivo para ela estar bem próxima de descobrir a verdade sobre a vida dupla de seu papaizinho.

__Isso não vai acontecer. Se a Rafaela insistir em continuar se envolvendo com a menina, eu mesmo me encarregarei de afastá-la.

__Ok.

Isso não garante que eu vá te obedecer, seu verme! Quero ver aquela nojentinha da sua filha sofrer um bocado. Nada vai me tirar esse prazer. Nem você. Quem mandou ela se aproximar da minha mulher? Que se dane tudo.

 

* * *

Açucena havia ficado deitada um bom tempo, pensando e repensando sobre uma possível saída. Já correra muitos riscos e um a mais não faria diferença. Só havia uma pessoa que poderia ajudá-la.

Levantou-se, arrumou a roupa e saiu para a sala.

Ainda sentado no sofá, Carlão parecia entediado.

__Então ela te encarregou pessoalmente de ficar como meu cão de guarda por hoje?

__Só enquanto ela resolve uns assuntos.

Açucena sentou-se no sofá, pegando a revista e fingindo folhear, escolhendo a melhor maneira de entrar no assunto.

__Há quantos anos você trabalha pra ela? Desde que me entendo por gente, você está aqui. Você age como se ela fosse uma rainha, por quem você é capaz de dar a vida.

Ele olhou de soslaio para Açucena, desconfiado, uma expressão de poucos amigos.

__O que quer, garota?

__Você gosta dela, não é? Eu nunca entendi tanta lealdade. De um homem para uma mulher. Isso tem outro nome.

__Eu trabalho para ela. É só isso.

__E isso não impede que você a ame.

__O quê? Como se atreve, sua putinha? Preocupe-se com a sua vida, que já está bem difícil.

__Idiota! Seu miserável!

__Cala a boca!__ ele avançou sobre Açucena, mas ela recuou, assustada, se arrependendo da ideia.

__Vai se atrever a me machucar? Ela te mataria. Não deixou que você me castigasse nem mesmo quando eu enfiei aquela faca na mão dela. E você sabe por quê. Porque ela me ama. E você sente ciúmes disso, eu sei. Se você pudesse teria me castigado muito, até me torturado quando eu a feri. Mas não por lealdade a ela. Mas porque você me odeia. Você me odeia porque ela me ama. Você morre de ciúmes, não é?

__Você é uma coisinha atrevida, sabia? Reza pra que a Diana sempre esteja por perto pra te defender.

__E você é mesmo um idiota. Se fosse mais inteligente, saberia que se me ajudar a ficar com a Rafaela, logo se livrará de mim e poderá finalmente conquistar a sua amada chefinha.

__Não seja ridícula. O que pretende fazer? Tentar fugir com essa garota? Você não sabe o que está dizendo. Sabe que não pode fugir da Diana.

__E se eu conseguir? Talvez não sozinha, mas se eu tiver alguma ajuda... A única maneira de você se aproximar da Diana um dia é me tirando do caminho.

__Eu nunca a trairia.

__Está traindo a si mesmo.

Ele andou pela sala, parecendo perturbado. Mas pela expressão vacilante dele, Açucena constatou que havia mexido com as ideias do grandalhão. E ele estava a ponto de ceder.

__O que quer de mim?

Pronto...

Açucena o encarou titubeante, mas agora precisava ir até o fim.

__Que mantenha os homens longe de mim. Que faça com que eles pensem que você ficou exclusivamente encarregado de me vigiar. E que me deixe ir encontrar a Rafaela quando eu quiser.

Ele ficou olhando para Açucena pensativo, estreitando as sobrancelhas.

__Você é uma cobrinha, garota.

__Vai aceitar ou não?

__Tudo bem. Vou te ajudar a ficar com essa garota. Mas se isso for uma armação sua e você contar pra Diana sobre minha traição, eu te mato. Eu não terei mais nada a perder. Então é melhor que faça as coisas direito.

__Porque eu faria isso se sou a maior interessada?

__Ok. Eu vou tirar os homens do caminho. Vou dizer que Diana me mandou fazer sua segurança pessoalmente__ele disse com firmeza. Depois se dirigiu para a porta e se foi.

Açucena desabou no sofá, assustada com sua atitude desesperada. Mas havia funcionado. E a verdade era que agora era tarde para voltar atrás. Não podia perder Rafa. Valia tudo para tê-la em seus braços de novo.

 

* * *

Elas combinaram de se ver de novo no dia seguinte ao dia da viagem de Diana para o Rio de Janeiro. Açucena conseguiu driblar a segurança graças ao acordo com Carlão e saiu sem ser vista. Seu coração batia descompassado como o de um passarinho assustado quando ela entrou no táxi, na avenida Beira Mar.

A praia combinada era ainda mais paradisíaca.

Rafa estava esperando impaciente, encostada num bugue. Ficou a observando descer do táxi, na rodovia deserta, acima da areia. Achou-a deslumbrante, como sempre. Um facho de luz sob o sol, a pele levemente bronzeada, uma saída de praia amarela estampada e aqueles cabelos dourados sendo sacudidos pela ventania. Rafa sentiu vontade de levá-la para algum lugar onde não houvesse mais a ameaça iminente de perdê-la.

Caminharam depressa uma para a outra, unindo-se num abraço cheio de saudade. Trocaram um beijo quase interminável.

__Oi__ Açucena sorriu e aquele sorriso leve e alegre fez Rafa pensar que a melhor coisa que elas podiam fazer agora era aproveitar aquele dia lindo.

Acabaram por encontrar uma lagoa de água doce e ficaram ali quase toda a manhã, refrescando-se e namorando na água. Decidiram não falar do assunto ruim durante aquele encontro.

Rafa estava sentada meio fora da água, com as costas na areia e as pernas submersas. E Açucena deitada em cima dela de costas, fazendo carinhos em sua mão.

__O que é isso?__ Rafa perguntou, pegando entre os dedos a medalha que Açucena tinha no pulso, presa numa corrente dourada.

Açucena hesitou um segundo. Ficou séria, como se não gostasse de falar sobre aquilo.

__Tudo bem se você não quiser me dizer.

__Era da minha mãe. Quer dizer, minha mãe biológica.

__Então você não a conhece?

__Não. Fui adotada, quando era bebê. Minha mãe biológica me... me deu pra minha mãe adotiva. Eu sei que talvez você estranhe o termo. Mas é isso mesmo. Ela me entregou para minha mãe adotiva. Pelo menos essa é a história que conheço.

__Isso é sério? Nossa... Sinto muito, quer dizer...

__Essas iniciais A, J, A, J... Eu nunca soube o significado delas. Eu sempre ouvia as histórias que minha mãe contava sobre essa mulher. Ela veio, me entregou para ela e foi embora. Mas isso nunca mexeu de verdade comigo, sabe? Eu amava minha mãe adotiva e ponto.

__E onde sua mãe adotiva está?

__Ela morreu quando eu era criança. Foi mais ou menos nessa época que fui parar nas mãos da Organização e da Diana. Talvez se eu tivesse encontrado essa mulher, minha vida seria diferente. Ou não. Eu não sei. E a única pista que tenho dela é essa medalha e, na verdade, não é grande coisa. Mas eu sempre a usei...

__Isso é uma grande coincidência, sabia? Porque também não conheço minha mãe biológica.

Açucena a olhou intrigada e curiosa.

__Verdade? Você também? Nunca podia imaginar. Coincidência mesmo.

__Mas ela morreu antes de eu conhecê-la. Era um caso que meu pai teve fora do casamento. Eu sei pouco sobre ela. 

__Ah, sinto muito por você também. Mas pelo menos, você tem o seu pai. Eu... não tenho ninguém. Que doideira isso, não é? Na verdade eu só tenho a Diana.

Rafa sentiu um leve desconforto ao ouvir aquilo, mas prosseguiu o assunto.

__Mas você nunca pensou em procurar sua mãe, quero dizer essa mulher...?

__Tenho medo de me decepcionar, sabe? Talvez um dia eu faça isso. Mas por enquanto... Acho que essa medalha diz algo sobre mim que... ainda não estou pronta pra descobrir.

__Entendo__ Rafa ficou a olhando em silêncio um instante. Imaginou mil coisas a respeito daquela moça cuja beleza, o jeito doce e algum ingrediente a mais que ela não sabia o que era, a haviam conquistado como nunca nenhuma outra que passara por sua vida. Tocou numa mecha do cabelo loiro molhado, afastando para o lado. Os olhos cor de mel estavam mais claros, no tom amarelado que ficavam na claridade excessiva.

Será que um dia vou desvendar todos os mistérios que pairam sobre ela?

__Mas não quero ficar falando disso. Vem... __já sorridente como uma menina levada, Açucena a arrastou de volta para dentro da água. Mergulhou e começou a jogar água nela, enquanto ria.

Rafa entrou na brincadeira, agarrou sua cintura e a envolveu num beijo, fazendo-a parar. As bocas molhadas se grudaram num sintonia incomparável, a química fluindo sem fim em seus corpos.

__Te quero tanto...

__Eu também__ Açucena ficou séria, acariciando a face molhada dela, reparando em como Rafa estava ficando vermelha__Acho melhor irmos, não? Estou com fome e você precisa de mais protetor solar. Quem manda ter essa pele tão clara?

Rafa riu, lisonjeada por vê-la preocupada com sua saúde.

__Escuta... E queria levar você na minha casa, no Meireles, onde estou hospedada com as minhas amigas.

__Eu sei, mas é meio perigoso...

__Mas você disse que esse tal Carlão ia colaborar com você.

Açucena suspirou, ficando subitamente triste por se lembrar de sua realidade intragável. Encarou Rafa morrendo de vontade de ceder, mas com medo...

__Eu sei, mas... Na sua casa... É um pouco demais, não acha?

__A única coisa que eu sei é que essa Diana está no Rio de Janeiro e eu quero ver você amanhã de novo. Não quero desperdiçar essa oportunidade preciosa. Por favor! E eu gostaria que conhecesse minhas amigas... Ah, diga que sim!

Açucena a olhou hesitante, tentando ver as coisas pelo mesmo ângulo que ela.

__Tudo bem. Mas depois de amanhã, não sei quando vamos nos ver de novo...

__Ok...

Encerraram o assunto com um daqueles beijos longos e sem pressa. Até que Rafa sentiu algo sólido e frio tocar sua têmpora. Ela abriu os olhos num sobressalto, e Açucena fez o mesmo.

A sombra do capanga cobria as duas quase por completo. De olhos arregalados e entreolhando-se amedrontadas, elas viram as sombras aumentarem ao redor. Uma meia dúzia de homens armados as cercavam.

Ah não. Desgraçado! Açucena pensou, lembrando-se da conversa com Carlão. Eu sabia que não devia ter confiado nele. 

 

 

Consequências por Ana Little

 

 

O bugue seguia em alta velocidade pelas dunas, com Açucena e Rafaela sentadas no banco de trás, rodeadas pelos sujeitos mal encarados. O sol fervia acima de suas cabeças, enquanto o vento chicoteava seus rostos, e o silêncio petrificante pairava a bordo do veículo.

Apesar de estar quieta e aparentemente firme, Açucena tremia, de cabeça baixa, a mão direita apertando forte a de Rafa.

Durante toda a situação elas não haviam dito nada uma para a outra. Seus olhares se encontravam de relance, numa comunicação muda. Açucena conseguia ler na expressão amedrontada da outra os mesmos temores que a assolavam, e Rafa parecia tentar, da mesma forma que ela, parecer firme. Mas a cada minuto, a cada olhar que elas trocavam, crescia a consciência de que alguma coisa ruim estava para acontecer. E era tarde para evitar. Para fugir.

A cada minuto Açucena sentia mais ódio de Diana. E mais medo do que ela poderia fazer.

Como tinha sido tão ingênua em acreditar que Carlão ia trair aquela desgraçada? O maldito já trabalhava para ela há anos, lambendo seus pés como um cão fiel.

Apesar de que ele não estava entre aqueles capangas ali...

E se não tivesse sido Carlão? E se Diana estivesse arquitetando calmamente um plano para flagrá-las juntas, como havia feito com Adele? Ela gostava disso. Gostava de armar as coisas só para ter o prazer de presenciar uma cena perfeita para a vingança...

Pode ser isso... Açucena pensava, confusa, atordoada. Se fosse isso então ela ia mesmo matar Rafaela. Ou as duas. Principalmente a julgar pela expressão terrível dela naquele momento na mesa do café, quando a havia enfrentado.

Ela sabe. Sabe o que a Rafa significa pra mim.

O carro agora se aproximava de um coqueiral. Açucena olhou na direção para onde estavam seguindo e avistou um pedregulho ao lado de onde as ondas quebravam, perto de uma encosta de areia e mato crescido. As palmeiras ressoavam com a ventania e entre elas, quase escondida, uma cabana decrépita parecia um cenário de filme de terror, as varas se soltando de onde devia ser um alpendre, a palha seca. Depois dela haviam outras cabanas no mesmo estado. No passado devia ter existido ali alguma comunidade de pescadores pobres que agora não passava de ruínas, quase afundando na movimentação constante da areia.

Ela olhou para Rafa, quando o veículo deu um solavanco, na descida da duna. O rosto da garota estava mais vermelho do que antes, assim como seus ombros nus e as costas. Não houvera tempo para elas botarem as roupas. Açucena estava apenas de biquíni e Rafa usando um short jeans e o top preto de seu biquíni. Gotas de suor escorriam por sua face rubra, seus lábios estavam ressecados, e os cabelos em desalinho. Ela entreabriu a boca, quase como se fosse dizer algo urgente. Mas pareceu mudar de ideia porque nesse instante o veículo parou em frente a cabana e elas foram obrigadas a olhar para o outro bugue estacionado ali.

Diana... o pensamento instintivo brotou na mente de Açucena. E tudo ficou claro.

__Vombora, desce garota!__ o grandalhão que estava ao lado de Rafa a empurrou para fora do bugue, quase a fazendo cair de cara na areia.

__Deixa ela em paz!__ Açucena gritou, mas o outro agarrou seu braço e a jogou também para fora. Uma das características comuns a todos aqueles homens era que eles falavam pouco. Isso os tornava mais temíveis.

Antes de alcançarem a soleira da porta de madeira da cabana, Açucena conseguiu chegar perto de Rafa, só um instante, ela tinha uma infinidade de coisas pra dizer antes que aquilo ficasse pior e queria falar sobre um plano de salvação, porém não tinha nenhum. Então a única coisa que saiu foi:

__Desculpe.

Com um olhar de lamento, Rafa pareceu surpresa.

__Não. A culpa foi minha.

Mas não havia mais tempo para Açucena responder. Elas foram empurradas para dentro das quatro paredes de madeira seca e palha.

Diana estava ali. Sentada num banco de madeira, a camisa social azul com dois botões abertos, alguns fios do cabelo escuro, molhados de suor e grudados em seu rosto. Um ciúme violento estava impresso no olhar que ela direcionou a Açucena. Seu semblante estava carregado de uma raiva que já havia passado por vários estágios. Não havia mais nem lugar para ironia. Ela não disse nada, simplesmente ficou olhando de Açucena para Rafaela, uma chama ardente de cólera presa naqueles olhos negros.

Devagar, ela levantou-se. Devia estar ansiosa por aquele momento em que as teria assim indefesas, sob seu poder. Principalmente Rafa. Porque se dirigiu diretamente a ela, enquanto dois capangas afastavam Açucena.

As duas se encararam, Diana e Rafaela. Diana mais alta, uma mulher de quarenta e poucos anos, firme, de aspecto duro, os lábios crispados, o sadismo expresso em seu olhar. Rafaela, uma garota de dezenove, que apenas possuía uma ousadia sem limites, que não tinha noção clara do problema no qual estava metida, que oscilava entre o medo e a coragem cega.

Diana ficou parada um instante na frente dela. Sem dizer nada, e sem que Rafa esperasse, a mulher esticou a mão e desferiu um tapa com toda força no rosto vermelho dela.

__Não!__ Açucena gritou__ Deixa ela em paz! Diana, por favor...

Chocada com a frieza do gesto, e o peso daquela mão, Rafa se voltou para ela com uma expressão agressiva e insolente, porém estava ciente de que aquilo não era nem o começo. Estava a mercê da vingança de Diana. E não havia nada que pudesse fazer.

Outro tapa, com mais força deixou uma marca ainda mais visível no outro lado do rosto de Rafaela. Ela sentiu um intragável gosto de sangue e notou o pequeno corte dentro da boca. Sem pensar, Rafa avançou para ela.

Mas Diana, num gesto ágil, agarrou o antebraço dela, detendo-a e jogando-a para trás.

__Qual parte de ela é minha você não entendeu, garota?

Diana foi chegando perto outra vez, e a garota se viu esbarrando na parede.

O terceiro tapa fez com que Rafa caísse para o lado, de encontro a uns troncos de madeira no chão. Ela abriu os olhos e eles miraram o chão de areia, seu coração saltava em batidas cheias de pânico. Ela sentiu-se como se estivesse dentro de um daqueles filmes de terror que gostava, no estilo Presos no Gelo, exceto porque num desses filmes ela nunca seria a vítima, mas sim aquela garota que sempre se dá bem. Só que agora ela não estava se dando bem, e se sentia pequena, apenas uma garota indefesa vivendo uma situação real terrível. E isso era desesperador.

Com dificuldade, mais movida pela raiva do que por força, ela se levantou para... Droga! O que podia fazer contra aquela mulher que parecia ter passado a vida inteira lutando boxe ou treinando levantamento de peso? E ainda tinha todos aqueles caras...

Rafa respirava descompassadamente, seu peito arfava mais depressa do que ela gostaria. Por mais que não quisesse parecer só uma garotinha boba na frente daquela mulher, estava mesmo com medo. Mas o que Diana poderia fazer? Matar-lhe? E por que não fizera isso antes? Se houvesse alguma razão para não ter feito até agora, essa razão ainda existia. Então tentou manter a calma. Olhou para a arma que estava em cima da mesa onde Diana estava. Será que era capaz de usar uma arma? Diana manuseava uma como se fosse um brinquedo. Se rendendo à coragem cega outra vez, Rafa disse:

__Ela não é sua! Como pode tratá-la como se ela fosse uma coisa? Uma propriedade sua. Você é nojenta!

__Ah, não me diga! Eu sou uma pessoa nojenta? E você? Um anjo?__ Diana deu um riso sarcástico__Eu andei investigando sua vidinha em Lagoa Grande, Rafa. Você é bem popular por lá, não é? Sabe, se você realmente quer conhecer uma pessoa, pergunte a quem não gosta dela. E sabe o que eu soube? Que você não é a heroína perfeita que veio salvar a sua princesa amada das garras da vilã malvada, ha ha. Não. Admita. Você não passa de uma menininha arrogante, que pensa que pode ter quem e o que quiser. Sempre cheia de garotas, acostumada a tratá-las como se fossem reles instrumentos para a sua diversão. Contou isso pra Açucena?

Rafa encarou Açucena com um misto de lamento e medo da reação dela. Porque o que Diana dizia era um lado seu que ela nunca queria que Açucena conhecesse. Agora, ela se sentia uma tartaruga cujo casco foi removido de surpresa. Açucena a olhou interrogativa, mas não disse nada, provavelmente não estava acreditando, não queria acreditar. Menos mal e Rafa queria gritar para ela que, não importava quem era, quem já havia sido, as coisas que já fizera. Agora com ela tudo era diferente. Tudo.

__Pode dizer o que quiser de mim, ela sabe quem eu sou.

__Ela não sabe. Vocês se conhecem há pouco tempo.

__Eu gosto dela, Diana. Ouviu bem? Não adianta o que você tem pra dizer. Então é melhor poupar seu tempo. Se vai nos matar, faz logo. Porque nada vai mudar o que estamos sentindo uma pela outra.

Diana se virou para Açucena, mirando-a de cima a baixo com asco.

__Cala a boca! Você anda muito atrevida ultimamente. Aprendeu isso com ela?

__Eu falo quando eu quiser! Deixa ela em paz, você sabe que a culpa disso é minha. Fui eu que decidi ficar com ela. Fui eu que quis. Por isso é a mim que você deve atingir.

__Cala a boca, Açucena!

Voltando-se para Rafa, Diana subitamente fechou o punho e deu um soco no lado direito do rosto da garota, fazendo-a cair de novo, como uma resposta para o pedido de Açucena. E dessa vez Diana não parou. Rafa ainda tentou reagir, erguendo-se, reunindo alguma força para tentar enfrentá-la, mas Diana era mais alta e mais forte, e Rafa já estava meio debilitada pelo cansaço, pela sede, pelo sol, seu rosto doía e sua vista estava turva.

Aproveitando-se disso, Diana começou a chutá-la sem trégua, com seus sapatos de solado pesado, atingindo Rafa no rosto, no estômago, nas pernas e onde mais os chutes chegassem.

__Não! Para com isso, por favor!__Açucena repetia, se debatendo nas mãos firmes dos homens, agora entre lágrimas, sentindo como se cada golpe doesse em si mesma.

Sem opção, Rafa apenas se curvou, dobrando os braços numa tentativa vã de proteger o rosto, mas não disse nada, não abriria mão da dignidade, ela podia lhe bater o quanto quisesse, não choraria, nem pediria para ela parar. Na verdade não conseguia nem pensar direito, seu cérebro só registrava a dor, o ar querendo desaparecer dos seus pulmões, as pancadas incessantes... Mas aquela desgraçada não ia sentir o gostinho de vê-la implorando. Diana ia pagar caro quando a deixasse livre. Ah, se ia! Aquilo não ia ficar assim.

Até que Diana parou.

E Rafa sentia-se anestesiada, com dores lancinantes por todo o seu corpo. Mas ainda conseguia abrir os olhos para mostrar o ódio expresso neles.

__A Açucena é minha, sim__ tornou Diana__E você não pode fazer nada pra mudar isso__ ela se virou para os sujeitos que seguravam Açucena pelos braços-- Amarrem ela! E saiam!

Eles a obedeceram de imediato e deixaram a cabana.

Açucena olhou nos olhos de Diana e entendeu o que ela faria. Sim, ela era sádica o bastante. E sua atitude beirava a loucura. Não fazia sentido. Mas era o ela que faria.

Diana se aproximou dela, agarrou seu rosto firmemente com as duas mãos e colou os lábios nos dela, Açucena tentando se afastar, mas sem poder, suas mãos presas.

__Me solta!__ela disse quando um minuto conseguiu afastar a boca da de Diana.

E Rafa estava entendendo a ideia insana daquela mulher doentia.

__Solta ela, sua desgraçada! Deixa ela em paz!

__Ela é minha, sim. Não porque quer, Rafaela. Mas porque eu quero!

Rafa não podia acreditar no que estava vendo. Aquela atitude foi tão intragável a ponto de fazer aflorar nela uma força que ela não saberia explicar de onde tinha vindo.

De novo ela se fixou na arma, deixada sobre a mesa, a poucos centímetros de onde Diana estava.

__Eu poderia matá-la agora. E o que você poderia fazer para impedir? Nada. Sua menininha idiota! Veja isso, é assim que eu a tenho todas as noites. Gosta de ver isso?

Obstinada naquela brincadeira mórbida, Diana beijou Açucena de novo, enquanto a garota tentava rejeitar, mas não conseguia.

Diana estava certa de que Rafa estaria debilitada demais para se levantar e enfrentá-la. Mas consciente o bastante para ver aquilo. Ainda estava tentando se decidir se mataria Rafa, terminando assim toda aquela merda de uma vez, acabando com sua própria vida ao ficar na mira do pai dela. Ou podia matar Açucena e se odiar para o resto da vida. Ou podia apenas torturar as duas agora, e depois levar Açucena embora do país para sempre.

Enquanto Diana se deleitava em seu jogo sádico de vingança, concentrando-se em explorar o corpo de Açucena em carícias, como se estivesse gravando a cena de um filme erótico com uma plateia voyeur, Rafa conseguiu se arrastar até a mesa, pegou a arma e apontou atabalhoadamente na direção de Diana, sua mão machucada e tremendo, a arma pesando dolorosamente. Não tinha forças, não conseguiria... Mas disse:

__Larga ela agora!

Diana se virou, e automaticamente soltou um riso. Sua cara debochada e confiante quase fez Rafa soltar a arma. Mas ela criou coragem e segurou firme a pistola.

__Sai de perto dela ou eu...

Mas um braço pesado agarrou seu pescoço, quase asfixiando-a. No desespero, Rafa se viu atirando. Porém o tiro foi para o teto, atingindo o frágil telhado de palha, que desabou em algumas partes.

Quando Rafa conseguiu distinguir o ambiente de novo, avistou uma nuvem de poeira, Açucena ainda presa, o rosto molhado de lágrimas. E Diana pegava a arma que havia caído no chão.

Com um ar de impaciência, Diana veio caminhando para Rafa, apontando a arma bem para sua cabeça, um olhar feroz.

Mas num rompante, a porta da cabana se abriu e um homem alto, de terno preto e cabelos ruivos atravessou a soleira, seu olhar parecendo buscar algo, e se fixou em Diana.

__Eu sei que você não é estúpida o bastante pra apertar esse gatilho, Diana. Então é melhor largar essa arma.

Sob a adrenalina do momento, Diana o olhou e por um minuto pareceu não acreditar. Mas depois ficou imóvel. Fosse quem fosse aquele homem, tinha algum poder sobre ela.

E Rafa não achou que ele fosse o herói da história, mas ele havia interrompido a coisa toda, então, isso era menos mal. Porque Rafa sabia que mesmo que ele estivesse certo e Diana não fosse mesmo disparar aquela arma, ela pretendia lhe ferir. Isso sim. Queria machucá-la, estava escrito em seus olhos. Mas então o cara estava ali. E Diana estava parada, obedecendo-o. E isso aparentemente mudava tudo.

Aliviada, Rafa a viu baixar a arma.

Diana deixou a pistola de volta sobre a mesa e baixou a cabeça, engolindo o ódio que explodia dentro de si. A princípio sem dizer nada.

__Eu não acredito__ tornou o sujeito, sua voz segura e ameaçadora ecoando pelo local__ Diana Dantas capaz de um ato reles como esse, um crime passional. Faça-me o favor! Você perdeu o juízo. Sabe o que esses machucados nela podem te custar, não é?

Do que ele está falando? Rafa perguntou-se, mas o importante era que aquele sujeito havia interrompido as intenções de Diana. Não importava quais fossem elas, nem as razões dele...

__Eu sei__ Diana disse entre dentes__ Eu assumo a responsabilidade. E não tenho medo dele. Nunca tive.

Agora era que Rafa não estava mesmo entendendo.

Dirigindo-se a ela, o homem de terno fez uma careta de lamento.

__Pobre garota. Por que bater nesse rostinho tão lindo? Desperdício.

Isso claramente enfureceu mais Diana.

__Leve-a daqui então!-__ ela cuspiu as palavras.

Disso Rafa não gostou. E principalmente quando o cara se aproximou dela e começou a tentar erguê-la.

__Espera aí, quem é você? Pra onde vai me levar?

__Fica longe dela!__ Açucena gritou, de onde estava, porque não conhecia aquele homem, nunca o havia visto e isso não soava nada bom.

Ela trocou um olhar assustado com Rafa, ambas confusas e desesperadas, enquanto Rafa era conduzida a contragosto para fora da cabana.

__Não...__ a voz de Açucena estava rouca e embargada pelo choro.

Via o fim de tudo. Como havia acontecido com Adele. Rafa morta... Só que dessa vez sentia como se estivesse morrendo também.

__O que ele vai fazer com ela? Por favor, Diana, não faz isso. Eu me afasto dela, pode me levar embora, mas deixa ela em paz, por favor!

__Para!__ Diana gritou ferozmente. Depois, numa calma repleta de fúria, finalizou:__Ela está bem. Não vai acontecer nada com ela. 

 

 

Decisões difíceis por Ana Little

 

 

 

Rafa foi levada pelo homem de volta para a cidade, e durante todo o percurso ela tentou investigar quem o homem era e o que pretendia fazer com ela. Tentava especular sobre Açucena, se ela ia ficar bem, pedia para voltar e buscá-la, mas como resposta, só obtinha um silêncio. O sujeito estava tão calado quanto os outros que as haviam levado para aquela cabana.

Sem explicação nenhuma, ele a deixou em um hospital. Ela foi atendida, recebeu alguns curativos e quando saiu, o cara havia simplesmente sumido. E em frente ao hospital havia um Uber esperando para levá-la para casa.

Quando Rafa chegou em casa, as amigas ficaram apavoradas e depois que ela relatou o acontecido, todas concordaram que ela devia esquecer aquela garota de qualquer jeito, e talvez até voltar imediatamente para Lagoa Grande.

--Eu não vou fazer isso! Não vou deixá-la. Eu tenho que tirar ela daquela mulher, vocês não entendem. Eu sei que parece pouco o tempo que nos conhecemos, mas eu sinto como se já a conhecesse da vida inteira. Eu sei que ela não apareceu na minha vida por acaso. Gosto dela e não consigo mais imaginar minha vida sem ela. Eu preciso salvá-la.

--E como pretende fazer isso? Morrendo?-- perguntava Bárbie, indignada.

--É, a Bárbie tem razão, amiga-- disse Toni-- Pensa bem no que você está fazendo. Olha o seu estado, Rafa. Se a sua família souber disso...

--Está tudo bem. Eu vou ver isso depois. Primeiro vocês precisam entender que eu não vou desistir da Açucena. Ponto.

* * *

--Você ia matá-la, não é?-- Açucena tomou coragem para perguntar a Diana quando elas já estavam no carro, voltando para a cidade.

Depois que o homem havia saído da cabana levando Rafaela, e a cena havia se modificado, Diana não dissera mais nada. Havia se fechado em si mesma, calada e com um olhar inexpressivo. Ordenou a um dos homens para desamarrar Açucena e dar seu blazer para ela vesti-la, pelo menos se importando com o fato de que a garota ainda estava apenas de biquíni. O mínimo que podia fazer.

E não falou mais nada.

Agora, depois daquela pergunta, finalmente encarou Açucena, como se tivesse sido despertada de um transe. Seu rosto estava impassível.

--Sim. Eu ia matá-la.

A resposta franca deixou Açucena arrependida de ter perguntado. Mas a mulher acabou por completar:

--Mas esse momento passou.

--O que quer dizer com isso? Diana, quem era aquele homem que levou a Rafa?

--Isso não é problema seu. Agradeça a ele. Se não fosse a chegada dele, a sua queridinha estaria bem morta agora.

E Açucena não perguntou mais nada. Afastou os olhos para fora do veículo, contendo uma lágrima que ameaçava vir.

Dessa vez foi Diana quem se virou para ela, um súbito ar aflito vindo a tona em seu olhar e seus gestos. Com uma das mãos, veio tocando de leve os cabelos de Açucena, até chegar na face, com aquele jeito pegajoso que tinha toda vez que a maltratava com alguma atitude estúpida.

--Você gosta dela mesmo, não é?

Açucena ficou com medo de responder que sim.

--Eu vou fazer o que você pediu. Vou me afastar dela... Se você prometer que vai deixá-la em paz.

--Você não vai se afastar dela. Está louca por ela. Acha que sou idiota?

--Eu juro que farei isso. Mas por favor, Diana, deixa ela em paz!

Diana não deu a resposta pela qual Açucena ansiava. Não respondeu nada. Voltou a olhar para a frente, fechando-se naquele ar pesado outra vez. Nesse instante o carro parava em frente ao prédio.

Quando se deparou sozinha com Carlão, Açucena descarregou toda a raiva nas palavras que jogou para ele.

--Seu miserável! Você me enganou.

--De jeito nenhum. Eu não te dedurei, nós tínhamos um trato.

--Ah tá, acredito.

--É verdade. O que acontece é que o Jonas viu tudo, a hora em que você saiu. Ele deve ter entendido que eu não consegui ver você fugir. Por isso agiu por conta própria. Eu não te dedurei. O que eu mais quero é ver você longe daqui, fora do mapa. Por que acha que eu não colaboraria pra isso acontecer?

--Então você é um incompetente! Tem ideia do que aconteceu com ela, seu desgraçado? A Diana a machucou, quase a matou. E tudo por sua culpa!

--Ok, mas ela está viva, não é? Então vocês ainda têm uma chance. Só espera a poeira abaixar. O plano continua. Ou você quer desistir?

--Eu preciso saber se ela está bem, preciso vê-la--Açucena admitiu.

--Então é só planejar o dia e eu faço você chegar até ela.

--Não sei se posso mesmo confiar em você.

--Você não tem escolha.

Açucena ficou encarando-o, pensativa e perturbada. Mas precisava ver Rafaela... Mesmo que fosse uma última vez.

Sim. A última vez...

Açucena não conseguiu dormir direito naquela noite, preocupada com Rafaela, se ela estava bem, se estava em casa, em segurança. Mas precisava esperar Diana sair para tentar, pelo menos ligar para ela, mesmo sendo arriscado.

Essa oportunidade só surgiu na tarde seguinte. Diana saiu dizendo que ia para o escritório.

Depois de um longo tempo criando coragem, Açucena pegou o celular, pôs um chip novo para evitar investigações de Diana e ligou para Rafaela. A voz do outro lado reconheceu a sua de imediato, respondendo num tom tenso.

--Açucena? Onde você está? Está tudo bem?

--Sim. Eu estou bem.

--Fiquei tão preocupada.

--Não precisa, está tudo bem. Ela não fez nada comigo, fica tranquila. E você? Estava ferida quando saiu daquele lugar. Ah, Rafa, eu sinto muito.

--Não. Por favor, não se sinta culpada. Qualquer coisa que acontecer comigo, eu sou a principal responsável. Não se preocupe, as coisas não vão ficar assim. Eu vou tirar você daí.

--Rafa, escuta...

--O quê?-- a respiração dela estava apressada, revelando a tensão que a dominava.

Açucena estava decidida a fazer o que tinha que ser feito, mas antes precisava vê-la, ficar com ela uma última vez. E se fizesse ela saber de sua decisão, Rafa ficaria desesperada e tornaria o momento ruim. Então não disse nada. Apenas:

--Eu quero ver você. Dessa vez terei mais cuidado ao despistar os seguranças.

 

--Ótimo. Quando nos encontrarmos, pensaremos numa solução pra isso. O importante que quero que você saiba, é que não vou desistir de você.

Açucena fechou os olhos, lamentando o que teria que fazer.

* * *

Uma semana depois.

Residência dos Hoffmann, no Meireles...

 

Açucena decidiu ir na casa de Rafaela, ironicamente talvez estariam mais seguras lá.

Assim que transpôs os portões e passou pela segurança, avistou a garota numa escada que dava para a área dos jardins. Ela usava uma camiseta cinza estilo nadador e uma bermuda jeans até o joelho, tênis iate vermelho. Estava linda, o colorido das tatuagens quebrando a brancura de sua pele. Rafa abriu um sorriso ansioso.

Com passos rápidos, elas precipitaram-se nos braços uma da outra, trocando um beijo intenso.

--Fiquei com tanto medo naquele dia-- Açucena a apertou forte, fechando os olhos, abraçando com força as costas de Rafa.

--Mas está tudo bem agora-- Rafa se afastou uns centímetros para olhá-la, como que para se certificar de que ela estava mesmo ali.

--Você está bem?-- Açucena acariciou as faces dela com as duas mãos, olhando-a de cima a baixo.

Rafa sorriu.

--Agora estou-- e beijou-a de novo.

--Me perdoe por isso. Por tudo isso.

--Não, eu que quis. Eu sabia que era perigoso desde o início, e mesmo assim eu quis. Eu aceitei os riscos. Eu não pude evitar. E não sou de desistir fácil de algo, principalmente algo que quero tanto. Nós gostamos uma da outra, Açucena. Aconteceu. Agora não podemos voltar no tempo e mudar o que estamos sentindo. As coisas chegaram num ponto que eu morreria com a ideia de perder você.

Açucena estremeceu e sentiu vontade de chorar.

--Você não sabe o que está dizendo. Mesmo depois do que aconteceu, ainda consegue falar assim...

--Ela não me mataria, Açucena.

--Mataria sim. Não duvide. Ela está louca de ciúmes-- Açucena suspirou impaciente, mas não adiantava tentar convencê-la, Rafa estava cega, não conseguia enxergar as coisas como elas eram-- Você descobriu quem era aquele cara?

--Ele não disse nada. Não entendi, mas era como se estivesse me protegendo. Talvez isso seja coisa dela. Isso pra ela é como um jogo. Ela não vai me matar, tenho certeza. Açucena, o meu pai é um homem muito poderoso. E pelo que percebi, ela o conhece. Ela não vai me matar, é sério. Talvez, como você disse, vai tentar levar você pra longe de mim, pra provar que você pertence a ela, pra me torturar. Mas me matar, eu duvido.

--Você é bastante otimista. Mas não a conhece como eu conheço.

--O que eu sei é que nada vai me afastar de você.

--Ok, olha, eu não vim aqui pra ficarmos discutindo isso-- Açucena tentou tranquilizá-la. Só queria aproveitar aquele dia da melhor maneira que pudesse. Depois choraria, mas agora queria curtir Rafa pela última vez, tornar aquele dia inesquecível-- Podemos pensar nisso depois. Agora temos um dia inteiro juntas pra aproveitar.

 

--Tem certeza que está tudo certo? Ninguém viu você sair dessa vez?-- Rafa perguntou, pretendendo mais tarde falar com ela sobre um plano de fuga que estava arquitetando, uma loucura que ainda estava amadurecendo na mente, mas talvez desse certo.

--Dessa vez não. Ninguém me viu, tenho certeza.

De qualquer maneira, aquela seria a última vez, então o risco valia. Açucena pegou a mão dela e deu um beijo suave, olhando nos olhos cinzentos com ternura.

--Escuta-- Rafa parou de novo quando elas haviam subido alguns degraus para chegar a área da piscina-- Aquilo que ela falou sobre mim...

--Não importa-- Açucena encostou os lábios nos dela de novo, num beijo carinhoso, como se não quisesse perder tempo-- Eu não ligo pro seu passado. Só o que me importa é o que tem sido pra mim até agora.

Rafa sorriu aliviada e apertou-a de novo entre os braços, dando um beijo em seu pescoço, deslizando as mãos por suas costas, até chegar em sua nuca, provocando em Açucena um arrepio inebriante.

Elas sorriram e voltaram a colar os lábios de novo. Um raio brilhante do sol da manhã pairava sobre elas, jogando um feixe de luz sobre aquele instante que Açucena sabia que guardaria na memória para sempre.   

As amigas de Rafaela encontravam-se espalhadas ao redor da piscina, curtindo aquele sol das onze da manhã. Sons de conversas e música eletrônica enchiam o jardim.

Bárbara estava deitada numa espreguiçadeira, usando um maiô branco com um detalhe metálico no decote, a pele bronzeada combinando com seu cabelo com californiana que estava preso no alto da cabeça. Ela olhou para Açucena e seu semblante tornou-se tenso.

Valéria estava sentada com Flávia numa mesa, embaixo de um guarda-sol. Ela fumava, usando óculos de modelo masculino que combinavam com seu estilo afro. As duas se entreolharam surpresas.

Toni estava perto da churrasqueira, trocando a música no Ipod e aumentando o volume das caixinhas. Só viu Rafa chegando com Açucena quando Bruna, que vinha da geladeira com uma cerveja na mão a cutucou. Ela se virou sem conseguir evitar a surpresa.

--Uau!-- sussurrou para si mesma, parando.

Bruna se postou ao seu lado.

--Na verdade é uma cena comum. A Rafa chegando com uma nova ficante linda. Se não fosse o detalhe de que essa garota é a maior encrenca em que ela já se meteu na vida.

--É isso aí.

--Mas bem que ela falou que não ia desistir dessa garota. Cara, eu não acredito que ela conseguiu mesmo pegar a dançarina mascarada do Fantasy, dá pra acreditar?

--Eu nunca duvidei. A Rafa sempre consegue o que quer. Principalmente se tratando de mulher-- Toni refletiu, vendo as duas se aproximarem da espreguiçadeira onde Bárbie estava.

--A Rafa é maluca. Gosto muito da minha amiga, mas ás vezes acho que ela é ousada demais. Suicida.

--É mesmo. Bom, mas convenhamos. A garota está aqui. Com ela.

--Eu sei, Toni. Mas essa história não vai acabar bem. Você viu o jeito que ela chegou naquele dia.

--Verdade.

Rafa sentia-se tomada por uma sensação doce e inédita. Não era como qualquer uma das garotas que já havia apresentado ás amigas. Lançou a Açucena um olhar apaixonado e conduziu-a pelo deck.

--Vem, vou te mostrar as meninas.

Açucena olhou com curiosidade para o pequeno grupo espalhado pelo ambiente. Respirou fundo e tentou se concentrar naquela música contagiante, e no clima de festa daquelas garotas. Depois que havia decidido vir, resolveu deixar qualquer assunto ou pensamento ruim longe de si, só queria curtir aqueles últimos momentos com Rafaela. Antes de sumir da vida dela para sempre. Sim, precisava seguir firme naquela decisão. Mesmo depois de ver aquele sorriso lindo, de beijar aquela boca deliciosa de novo. Precisava fazer o que era certo. O pior era que tinha que sair da vida de Rafa sem dizer nada. Não podia. Rafa nunca ia entender que ia se afastar dela para seu próprio bem. Por isso Açucena estava decidida a simplesmente sumir. Era a única alternativa que tinha para proteger Rafa.

Havia escolhido para aquela manhã um vestido floral de estampa clara e leve para pôr por cima de um biquíni verde-claro. Óculos escuros no alto da cabeça, cabelos soltos e brincos grandes.

Na mesa, Valéria olhou fascinada para ela, aproveitando as lentes escuras de seus óculos para se fixar bem no rosto da loira. Aquele rosto que tanto tinha desejado ver, desde que a avistara no palco do Fantasy pela primeira vez.

--É mais gostosa pessoalmente...--murmurou, hipnotizada, pensando em como era irônico o fato de ter feito de tudo, até oferecido uma fortuna para tentar conseguir uma única noite com aquela garota. E agora Rafa estava ali com ela. Filha da puta!-- Que gata!Vale a pena qualquer risco.

--Você também? Acho que isso é loucura, mas tudo bem. Eu que não vou perder meu tempo tentando convencer a Rafa. Ela já está bem grandinha-- Flávia disse, olhando para Açucena dos pés a cabeça discretamente, tomando um gole do seu drink.

--Ela é linda demais, Flávia. Como é que dá pra resistir?

-- Tendo bom senso? Tá, eu seria louca se dissesse que a garota não é bonita. Mas ela tinha que vir com uma namorada psicótica de brinde?

Lá na espreguiçadeira, Bárbie tirou os óculos e se ergueu de um jeito elegante.

--Amiga!-- disse, enquanto olhava Rafa se aproximar, de mão dada com sua linda acompanhante. Bárbie estava preocupada com a amiga, mas tinha que respeitar as escolhas dela. Mesmo que ela estivesse tentando se ferrar, não é? O pior era que a tal Açucena era pura perdição. E quando Bárbie viu o brilho diferente nos olhos de Rafaela, concluiu que a coisa era mais perigosa do que imaginava.

Toni e Bruna vinham caminhando na direção delas.

--Oi meninas... Essa é a Açucena-Rafa disse, dirigindo-se a todas. Ela estava tensa, mas decidida a fazer aquele dia ser só mais um encontro perfeito com Açucena.

--Oi-- Bárbie sorriu simpática-- Eu só tinha visto você lá no Fantasy. É um prazer.

--O prazer é meu-- Açucena disse, apertando a mão dela. As outras meninas vinham se aproximando e acenando para ela, enquanto Rafa dizia seus nomes.

Val nem tirou os óculos ao cumprimentar Açucena. Não queria deixar ninguém, sobretudo Rafa, ver o deslumbramento que estava estampado em seu olhar.

* * *

Mais tarde, depois daquela pool party improvisada, Rafa ficou sozinha no jardim com Açucena.

De dentro da cozinha, Valéria as observava através da grande janela panorâmica.

As duas lá perto da piscina, dentro da jacuzzi, trocavam um beijo. Açucena encostada na borda da banheira, Rafa debruçada sobre ela, apoiando sua cabeça com as mãos, os cabelos de ambas molhados, enquanto as bocas se provavam sem pressa.

Olhando a cena com um misto de excitação e raiva, Val degustava um drink, sem vontade.

--Que é isso, Val? Dando uma de voyeur agora?-- era Flávia, se encostando no vidro e olhando de relance lá para fora-- Eu não sabia que você curtia essa coisa de ver os outros se beijarem.

Val fez uma careta de desdém para a outra.

--Só esperando a minha vez...

Flávia riu com ironia.

--Do que você tá falando? Dessa mania que você e a Rafa têm de dividir as mulheres? Ih, esquece, meu bem. Dessa vez não vai rolar. Será que você não percebeu que agora a coisa é totalmente diferente? Essa aí não é uma ficante qualquer da Rafa. Ela está se arriscando pela garota, percebe o que isso significa?

--Que a Rafa adora coisas difíceis e aventuras interessantes. Até parece que você não a conhece. Se lembra aquela vez que ela se envolveu com aquela mulher mais velha que era esposa de um político amigo dos avós. Ela gosta de aventuras, é só por isso que parece tão fascinada por essa garota.

--Para, Val! Não diz besteira. A Rafa está se arriscando de verdade nisso. Ela está mesmo a fim dessa garota.

--Tá, tudo bem, ela está a fim da garota. Mas só porque não pode tê-la, sabe, essa coisa do perigo, da impossibilidade. Foi isso o que a atraiu. Mas daqui a pouco ela vai enjoar. É só uma dançarina, Flávia. E o nosso esquema sempre foi esse. Quando a Rafa enjoa de uma mulher, passa pra mim. E eu faço o mesmo com ela. Já transamos várias vezes com a mesma mulher, ao mesmo tempo-- Val sorriu convicta e maliciosa-Ou você se esqueceu daquela ruiva da turma de psicologia do ano passado que foi transferida?

--Isso não tem nada a ver. Além disso você ia querer entrar nessa de se arriscar a enfrentar a namorada bandida dessa garota também?

--Eu já disse que por essa loira vale qualquer risco.

--Vocês são loucas. Mas se quer saber, você vai perder seu tempo desejando a Açucena. A Rafa já está apaixonada por ela, meu bem. Se conforma, você nunca vai pegar a linda dançarina mascarada do Fantasy ha ha ha. Perdeu, playboy.

Val lançou um olhar irritado a outra.

--Apaixonada... Você tá de brincadeira. Nada a ver, Flávia. Isso não vai durar. Pode apostar. A Rafa apaixonada? Fala sério.

No fundo Val sabia que sim. Rafa não tratava Açucena como costumava agir com a maioria das meninas com quem já havia ficado. Era como se Açucena significasse muito para ela.

Desde que Rafa havia terminado o namoro com Alice numa situação traumatizante, há quatro anos, ela havia mergulhado fundo nas baladas e no sexo casual. Havia virado o nome mais docemente saboreado na boca das garotas da cidade. E essa coisa de sentimento passara a fazer parte do passado em sua vida.

E agora, pela primeira vez em quatro anos ela agia diferente. O carinho, a delicadeza com que tratava Açucena. Era algo fora do normal... Nem parecia Rafa. É, ela está mesmo apaixonada, pensou Val, Mas isso não faz com que eu deseje menos a Açucena...

* * *

Durante o jantar, Açucena acabou conhecendo melhor as amigas de Rafa.

Bárbie era carismática, comunicativa e especialista em moda, uma verdadeira it girl.

Toni era interessante, com aquele modo exótico de se vestir, o cabelo sidecut. Nisso ela e Rafa eram parecidas. O gosto por um estilo excêntrico. Meio butch ás vezes, meio feminina. Mas Toni era tímida, ao contrário do jeito atrevido de Rafa.

Bruna era discreta. Arrumadinha, gosto refinado. Deu para perceber só pelos scarpins italianos que ostentava quando havia descido para o jantar.

Flávia não dispensava uma maquiagem. Faladeira, junto com Bárbie, tornaram o jantar um evento alucinante, com piadas e conversas instigantes.

Mas Val...

Essa era meio calada. Misteriosa. E a todo momento Açucena a surpreendia lançando-lhe olhares intensos. Negra, com um estilo afro requintado e modos afetados, parecia ser a que mais se igualava a Rafa no quesito grana. Era bonita, tinha um rosto marcante, mas possuía certo toque de arrogância.

Num desses momentos, em que já estavam na sala tomando um drink e jogando conversa fora, Açucena a surpreendeu olhando-a daquele jeito devorador e percebeu que começava a ficar incomodada. De um modo discreto, pediu a Rafa para elas subirem ao quarto.

--Você podia me mostrar os seus desenhos...

--Ok--Rafa disse, sem perceber nada, levantando-se do sofá--Galera, agente vai subir. Até a amanhã.

* * *

Entraram no quarto.

--Então elas estão todas hospedadas aqui?-- Açucena preferiu não mencionar nada a respeito dos olhares insinuantes de Val. Não queria criar nenhum tipo de problema.

--Sim. Nas férias agente sempre se reúne aqui. Eu e a Bruna participamos de uma exposição de arte aqui na cidade. Já ouviu falar da artista plástica Lara Bittencourt?

--Sim, gosto dos trabalhos dela. Já visitei uma exposição dela em Nova York.

Rafa sorriu com orgulho.

--Ela é uma conhecida-- na verdade havia sido um caso furtivo seu no passado, mas Açucena não precisava saber.

--Sério? Legal...

--Então, ela vai expor suas obras nesse evento. Os organizadores estavam oferecendo uma oficina pra principiantes. Eu e a Bruna resolvemos participar.

--Hum... e será que eu posso ver o quadro que você expôs?

--Eu adoraria mostrar, mas ele ainda está na galeria.

--Que pena.

--Mas... - sorridente, Rafa abriu a porta de uma saleta ao lado da suíte-- Posso te mostrar os outros...

Açucena a seguiu, vendo a bagunça ali dentro. Telas, variedades de tinta acrílica, pincéis e esboços de desenhos, rostos de pessoas. Eram muito bons, por sinal.

--Hum, Pintura Realista?

--É, eu também tenho uma queda pelo estilo. Foi o começo de tudo.

Num dos quadros havia uma moça de pele morena e longos cabelos negros, deitada seminua sobre lençóis vermelhos. Açucena olhou o retrato curiosa e um tanto enciumada. Mas tentou ignorar isso e observar a pintura de um ângulo formal.

--Quem é essa?-- perguntou tentando parecer casual--Um caso seu?

Rafa mordeu o lábio inferior. Deveria ter escondido aquele maldito retrato de Raíssa.

--Ah, essa... era uma ficante.

--Hum...

--Nós tivemos um lance. Mas já acabou-- Rafa enfatizou.

--Para. Não precisa explicar nada-- Açucena disse num tom sereno, mesmo que por dentro estivesse se remoendo num ciúme que parecia sem sentido.

Rafa ficou séria. Parada no meio do cômodo, pareceu desconcertada. Em seu olhar pairava um misto de surpresa e decepção. Mas logo o jeito confiante e sedutor voltou.

--Bom, o que você achou?

--Estou surpresa. Você tem talento. Os traços, a textura... --Açucena passeou os olhos pelas outras telas-- São ricos em detalhes...

--Tá, pode dizer, eu sei que não sou tão boa-Rafa sorriu sem graça, então voltou ao quarto.

Açucena permaneceu parada olhando os quadros com mais atenção.

--Está tentando me fazer encher você de elogios é?

--Estou-- soou a voz dela vindo lá do quarto.

Rafa voltou depois de uns minutos. Agora usava um robe azul-marinho. Ela pegou um controle remoto e apertou um botão. Uma música romântica pairou no ambiente. Abraçou Açucena por trás, beijando seu pescoço de um jeito que pedia para ela deixar a coisa das pinturas de lado.

--Hum, sua boba. Sabe que manda bem.

--Obrigada-- Rafa agradeceu, a voz rouca, enquanto escorregava os lábios pelo pescoço de Açucena em beijos e mordidas leves-- Além de linda, você também é gentil. Que sorte a minha-a virou de frente e apoderou-se de sua boca, num beijo afoito que exigia algo mais.

Açucena se viu esquecendo não só dos quadros, mas do resto do mundo.

Embriagando-se com as carícias de Rafaela, ela se deixou ser conduzida de volta ao quarto. Rafa a empurrou até a parede de vidro que dava para a varanda da suíte. A garota ergueu seus braços no alto da cabeça, comprimindo-a no vidro e voltando a sugar sua boca.

Quando soltou os braços de Açucena, Rafa deslizou as mãos para dentro de seu vestido de um jeito invasivo. Desceu a boca para seu pescoço, marcando-lhe a pele com sugadas atrevidas.

--Quero tanto você --Rafa murmurou, no ouvido de Açucena, passando a língua ousadamente perto de sua orelha, arrepiando-a de propósito, enquanto as mãos chegavam até seu bumbum. Com as duas mãos, Rafa apertou com vontade aquela bunda redonda e firme.

 

 

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