Dois corações por IolandaStrambek
Summary:

Amor ô/ substantivo masculino


1. forte afeição por outra pessoa, nascida de laços de consanguinidade ou de relações sociais.


2. atração baseada no desejo sexual.


Segundo o dicionário o amor é isso. Mas como justificar o sentimento entre duas pessoas tão opostas, e que não teriam motivo nenhum para se gostarem? E sem nenhuma relação social para justificar à proximidade? Sendo assim, as vezes temos que criar nossos próprios significados.


 


 


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 3 Completa: Não Palavras: 6609 Leituras: 823 Publicada: 14/04/2018 Atualizada: 20/04/2018
Notas:

 

Primeiramente não briguem com essa simples “rascunheira” aqui pela demora para postar uma nova história.

Eu tinha esperança que terminaria essa história e depois a postaria. Porém, a algumas semanas a venho escrevendo cheguei a um ponto da história que preciso saber como estou me saindo porque é uma história que sinceramente eu estou AMANDO escrever e preciso saber a opniões de vocês.

 

O nome da história é da música: Dois Corações – Melim

 

1. Capitulo 1 - O diário idiota de Luísa por IolandaStrambek

2. Capitulo 2 - Olhe para cima por IolandaStrambek

3. Capitulo 3 - Tia? por IolandaStrambek

Capitulo 1 - O diário idiota de Luísa por IolandaStrambek
Notas do autor:

Leia com atenção as notas.

 

08 abril de 2018

Primeiramente nunca tive intenção de escrever um diário, a ideia toda foi da minha psicóloga Vitória. Não que a considere minha psicóloga de verdade, já que nossos encontros eu nunca falei uma única palavra. Ela apenas acha que preciso expressar meus sentimentos, e talvez um diário seria de grande utilidade. Assim, talvez eu conseguisse jogar tudo para fora, como se estivesse drenando meus sentimentos para fora. Não acho isso interessante, porque todo medico que utiliza o procedimento de drenagem em um paciente, o mesmo acaba sofrendo ainda mais.

 

Mas deixando bem claro, não pretendo escrever aqui todos dias. Comecei hoje pelo simples fato do diário estar em cima do meu criado mudo, me atrapalhando de pegar um livro legal que havia começado a ler três noites atrás. O caderno estava em branco, e como obra do destino ficamos em uma situação de impasse. Não quero, e quero escrever.

 

Esqueci de dizer que nesse mesmo dia que a Dra. Vitoria me receito o diário, ela própria havia sugerido para minha mãe um antidepressivo contraproposta ao diário. Está aí, uma coisa que abomino. Tenho a Síndrome de Asperger, não sou depressiva, apenas tenho meu próprio mundo. Não preciso de antidepressivo para poder fugir dele. Não preciso de uma válvula de escape. Não quero fugir de nada. Preciso apenas ficar no meu mundo, com meus livros, meus desenhos e as minhas músicas. Não que necessariamente as músicas sejam minhas, mas eu adoro ficar ouvindo música, praticamente em todas as vinte quatro horas do meu dia, e isso de certo modo me faz ter alguma ligação com elas.

 

Não queria ninguém interferindo na minha vida, ainda mais uma doutora que acha que sabe de tudo. A ironia de tudo isso é tinha certeza que na próxima vez que fosse lá, ela instruiria a minha mãe a fazer dormir oito horas por noite, além de fazer ter uma alimentação mais saudável. Afinal, qual o problema em comer lanche e batata frita três vezes na semana? É, não tem nenhum problema.

 

Às vezes me sentia estranha por minha mãe nunca reclamar de nada, e me agradar das melhores maneiras possíveis. Mas talvez ela não percebesse isso. Talvez ela só quisesse suprir a necessidade de pagar seus pecados comigo. Nunca disse isso para ela, mas ela não tem culpa de nada. Meu pai abandonou nossa família porque era um covarde. Mas já fazia tanto anos, talvez ela não tivesse superado.

 

Não queria estar fazendo isso despejando minha vida em caderno em branco, para talvez um dia ser analisado por alguém. Talvez depois desse primeiro dia, o melhor lugar para esconde-lo fossem no fundo na minha gaveta de calcinhas. Aliás, meu quarto não tem chave. Então minha mãe, ou minha irmã pode simplesmente entrar a hora que desejar. Não sei por que concordei com esse desastre que é falar sobre minha vida. Acho que apenas quero ser uma paciente boa e normal, que se adequa as regras impostas por seu psicólogo. E depois da nossa sessão ela parecia visivelmente satisfeita.

 

Nunca lhe havia dirigido uma palavra, não tinha nada para falar, e havia aquele impasse no meu interior de não conseguir falar com desconhecidos e nem com pessoas que não confiava. Por isso minha roda social era apenas eu, minha irmã, minha mãe e as vezes a minha tia, Nadir. Acho que por isso ao me entregar o diário ela parecia ansiosa, como se minha sanidade mental dependesse daquele momento de um diário idiota. Minha cabeça estava baixa e eu olhava para meus all star. Por isso apenas assenti com a cabeça, como se estivesse confirmando que entendia tudo que ela havia dito aquele dia.

 

Agora estou aqui, divagando com esse diário idiota. Os músculos da minha mandíbula estavam tensos, o sol lá fora começa a descer no horizonte e amanhã era segunda, consequentemente teria aula. Como eu odiava a escola, queria morar fora do Brasil. Em um desses países em que alunos poderia ter aula em casa. Mas aí teria outro problema, minha mãe nunca teria dinheiro para bancar isso com seu salário de representante de roupas. Pensar nessas coisas me faz lembrar se talvez um dia eu teria uma vida normal. Nunca. Não conseguia ter uma vida normal, eu simplesmente odeio as pessoas. E é tão mais fácil viver sem seu próprio mundo cheio de incerteza e certeza que torna tudo tão especial. Normal, nunca vai ser uma palavra para me definir. Não me sentia horrível por minha condição. Apenas me incomodava aqueles olhares. O mundo tinha seu jeito próprio de achar que pessoas como eu, eram apenas retardadas ou deficiente mentais sem sentimentos. Como eu odeio as pessoas!

 

Deficiente mental? Não acho que seja uma. Na prova do Enem que fiz no ano passado quando ainda estava no segundo ano do Ensino Médio, tirei 800 pontos na redação. O que era bom, mais ninguém nunca prestou atenção na redação, porque eu havia tirado 935 pontos em matemática, física e química. Minha mãe achou surpreendente minha nota. Mas isso não mudou nada minha vida, contas e equações não me ajudariam a passar por toda essa experiencia insana que é a adolescência. Como se prepara para a vida de adulta, fumando maconha atrás da quadra, ficando com metade dos garotos da escola ou praticando maldades com pessoas como eu? Eu sofria bullying na escola, mas nesses momentos meus fones de ouvido estavam no último volume. Deixando minha mente alienada em qual quer outra coisa do que no momento da ofensa.

 

Que idiota, estou aqui escrevendo em um diário que não queria escrever e pensando em equações. Percebo a ironia da minha vida e percebo que existe uma equação para justificar minha vida. Tem meus pais, sendo minha mãe + 1 e meu pai + 1, minha irmã sendo +1 e eu como -1. Talvez seria melhor que eu não tivesse nascido. Aí meu pai foi embora, quando descobriu que tinha essa síndrome, o que acrescenta -1 nessa conta. Se tentar resolver, vai ver ficou apenas 1 nessa conta insana. Acrescenta uma letra, a conta insana vai se torna uma equação cheia de incógnita escondidas. E esse 1, é apenas a coisa que importa. Seria variável mover, tentar isolar, subtrair, para descobrir o sentindo dessa equação. Como se tivesse A, B e C eu tentaria resolver. E descobriria que tudo deu errado.  E que eu era apenas o C isolado, sem número nenhum, e ainda negativo.

 

Eu geralmente gostava de ficar isolada na solidão do meu quarto. O mundo é cruel e barulhento, e as vezes a única coisa que desejava era que todo mundo ficasse quieto. Não compreendiam o meu silencio, e o meu jeito de ver o mundo. Ou talvez as pessoas só não quisessem compreender, isso tornava o fato de viver mais fácil. Afinal, eu era apenas considerada uma retardada qualquer. Mesmo não sendo, era apenas diferente. Pelo menos eu achava isso. Minha síndrome não tinha cura, mas se me esforçasse conversando com psicólogos, fazendo terapia, além de tomar uma cesta de remédio diariamente para irritação, hiperatividade além de antipsicóticos forte que deixariam meu cérebro dormente e mais propensa a dormir em cada lugar que encosto. Minha mãe nunca permitiu isso, sempre disse que esperaria eu ter idade para decidir o que era melhor para mim. Essa idade chegou, e decidi por não tomar remédio algum. Único luxo que me dava era frequentar a Dra. Vitoria uma vez na semana. Grande ironia esse luxo! Deveria para com isso, sobraria mais dinheiro para minha mãe fechar o mês sem precisar se matar de trabalhar. Já que ela era a única de trabalhava em casa.

 

Estou escutando minha mãe assistindo TV no quarto, e minha irmã foi ao parque, provavelmente, com os amigos. E eu escrevendo nesse diário idiota. O fato de escrever está cansando minha mão e pesando os meus dedos. Eu riscaria tudo isso, e começaria novamente. Mas talvez não esteja com a mínima vontade de começar. E ficaria para outro dia que nunca chegaria.

 

Aliás acho que não me apresentei ainda. Me chamo, Luísa Sanches. Talvez agora eu possa fechar esse caderno e voltar para minha vida real.

 

Notas finais:

Boa noite meninas.

Só para constar essa não vai ser uma história escrita como diário, serão apenas capítulos isolados para mostrar como Luísa se sente em determinadas situações. A narrativa será em terceira pessoa.

Por favor, se puderem cometar e dizer o que acharam..., se odiaram, para dar opiniões e sugestões, me xingar, ou elogiar. Isso incentiva demais a escrever cada vez mais. Obrigada a todas vocês.

Talvez amanhã poste mais um capitulo, mas pretendo postar os capitulos aos finais de semana.

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O que é Síndrome de Asperger?

O Asperger é uma condição de base genética que afeta de 3 a 7 a cada 1000 crianças, não tem cura e depende de tratamento contínuo com psicólogos. O transtorno possui diversas semelhanças em relação ao autismo, contudo, os portadores de Asperger não sofrem, de forma grave, com comprometimento cognitivo e atrasos no desenvolvimento da fala. Enquanto o autismo é um transtorno de desenvolvimento que compromete a interação social do indivíduo ao ter comportamentos viciados, repetitivos e extremamente restritos. Mesmo que o portador de Asperger também possa apresentar essas características, a intensidade e gravidade dos sintomas são menores. O Asperger costuma ser diagnosticado mais tardiamente do que o autismo, que é percebido de forma precoce entre um até os 3 anos de idade.

A Síndrome de Asperger não tem cura, mas pode ser controlada a partir de medicamentos de uso contínuo e terapia. Os sintomas podem aumentar e diminuir ao longo do tempo, por isso quanto mais precoce ocorrer o diagnóstico e o início do tratamento, melhor pode ser a adaptação do paciente ao ambiente e ao convívio social.

Os tratamentos diferem pois os padrões de comportamento e problemas mudam a cada pessoa, assim é necessário que o médico especialista teste procedimentos para encontrar o ideal ao paciente.

 

Características da condição pode-se citar:

 

- Peculiaridades do discurso e da linguagem;

Em alguns casos, o indivíduo demonstra um alto nível de habilidades verbais, fazendo o uso de um vocabulário rebuscado e considerado muito formal para sua faixa etária. Por causa disso, muitas crianças preferem conversar com adultos do que com outros de sua idade.

 

- Dificuldade na comunicação verbal e não-verbal;

Dificuldades em se comunicar e manter diálogos, interagir com outras pessoas, decifrar linguagem corporal e em compartilhar seus pensamentos, emoções e interesses com outras pessoas. Além disso, não sabem como usar movimentos corporais e gestos na comunicação não-verbal. Para crianças com Asperger, trabalhos em grupo podem ser desafiadores, pois há possibilidade de demonstrarem impaciência, dificuldade em lidar com conflitos e críticas ou aborrecimento ao não aceitar outros pontos de vista. Esses fatores podem resultar em isolamento.

 

- Interpretação literal da linguagem;

Incapacidade de entender sarcasmo, ironia, duplo sentido e outros artifícios utilizados no tom de voz para caracterizar a diferença entre a brincadeira e a seriedade. A pessoa também pode ter dificuldade em compreender mensagens passados pelos olhos ou por gestos, com tendência a serem consideradas desrespeitosas ou rudes.

 

- Dificuldade na empatia;

Aparente falta de empatia com os sentimentos, desejos e necessidades de terceiros. As crianças e adultos com esse transtorno não vêem o interesse ou necessidade em se relacionar com outras pessoas.

 

- Linguagem corporal incomum;

Posturas estranhas e expressões faciais incomuns, como evitar todo tipo de contato visual ou olhar excessivamente para outra pessoa.

 

- Fixação por uma única atividade;

Se concentram em poucos interesses ou apenas um, realizando comportamentos repetitivos e excessivos ao brincar ou falar sobre a mesma coisa durante horas. Os interesses são específicos e limitados, o que pode resultar em estudos profundos sobre determinadas áreas. Normalmente, são muito verbais e atenciosos a detalhes, com tendência a fazerem descrições aprofundadas de assuntos que despertam sua atenção. Habilidades incomuns, como memorização de números e mapas, são comuns em pessoas com essa síndrome.

 

- Hipersensibilidade aos estímulos sensoriais;

Maior sensibilidade a ruídos altos, texturas e luzes brilhantes, o que pode irritar ou animar a pessoa de forma exagerada.

 

- Nenhum atraso no desenvolvimento;

Portadores de Asperger possuem a inteligência normal ou Q.I considerado acima da média. O desenvolvimento costuma ser normal, assim como o período que aprendem a falar, andar ou pensar.

 

Se você chegou até o final dessa nota gigante, saiba que vou tentar colocar essas caracteristicas na minha historia. Porque Luísa é uma personagem incrivel.

Obrigada mesmo a todas que leram e chegaram até aqui.

Um beijo a todas

Capitulo 2 - Olhe para cima por IolandaStrambek

 

O céu estava coberto por algumas nuvens pesadas. Beatriz olhando para os lados considerou a ideia de fugir, talvez fosse melhor voltar para casa, seu pai não se importaria. Ela estava indo a pé para escola, a lata velha que considerava como carro estava no conserto pela segunda vezes em menos de um mês e o clima do dia não parecia ajudar no seu humor. Sua vida, desde que viera morar naquele buraco, tinha se tornado uma piada mortal. Há apenas três meses sua mãe tinha sido enterrada a mais de seiscentos quilômetros dali, colocando fim na sua adolescência feliz. Desde então, seu pai decidiu que Curitiba não era mais lugar para eles, e se mudaram definitivamente para interior de São Paulo. Fazendo Beatriz abandonar toda uma vida na cidade grande para se tornar uma garota do interior.

Na cidade em que seu pai havia nascido, conhecida como Vila Nova, tudo era diferente. Não havia nada de interessante em um raio de duzentos quilômetros. Ela estudava na único colégio público do município, que tinha uma pintura amarela desgastada e um cheiro de monumento antigo, que particularmente a deixava enjoada. Sempre teve preferência pelo novo e atual, lugares alegres que mostram o futuro. Além disso, o colégio tinha uma manada de alunos insuportáveis idiotas que achavam populares americanos. Diziam que a escola tinha duzentos anos, Beatriz não tinha visto nenhum documento que provasse isso. Para ela a escola podia ter duzentos anos. Ou talvez trezentos. Pouco importava. Queria passar logo por essa experiencia que era adolescência e fugir daquele cidade para sempre. Por isso, não fazia questão nenhuma de criar laços.

O primeiro professor do dia era professor Roberto Salles, e ele era obcecado por horário. Além disso, não suportava os alunos que sentavam no fundão que basicamente ficavam conversando entre si a aula toda. Ironicamente, Beatriz não era pontual, e adorava sentar no fundo. Mas ela não conversar muito com os outros alunos, e não considerando suficiente algumas semanas para se criar vínculos. Do mesmo modo, os alunos já haviam estudado juntos desde do ensino fundamental e cada grupinho tinham seus membros completos. Sobrando para Beatriz a sensação que era uma estranha no ninho.

Aquela aula era sobre o programa de orientação para os alunos do último ano, que deveria consistir em uma apresentação das profissões disponíveis no mercado. E o professor Roberto era justamente o insuportável professor que dava essa orientação, que constituía em dinâmicas sobre profissões, e a participação ativa dos alunos em descobrir suas habilidades escondidas. O que tornava aquela aula imbecil, desagradável e totalmente desnecessária.

Beatriz conseguiu chegar antes do sinal. Sentou-se no último lugar na fileira da parede, percebeu de canto de olhos a aluna mais quieta da sala na carteira oposta à sua encostada na parede com janelas. Nunca tinha ouvido sua voz, e parecia que o resto dos alunos da sala também não. Consequentemente toda a sala a chamava de retardada e deficiente mental. Essas palavras incomodavam Beatriz. Já tinha sofrido bullying em algumas escolas anteriormente por ser homossexual. Esse tipo de comportamento das pessoas só a fazia detestar ainda mais aquela cidade ignorante.

O professor Roberto apareceu depois de alguns segundos com um olhar inquisidor. Aparentemente todos os alunos da sala tinha chegado no horário certo.

- Bom dia, pessoal!

Alguns alunos grunhiram um “bom dia”. Então o professor fez aquilo que Beatriz mais odiava nos adultos.

- Acho que vocês estão mais animados do que isso. Vamos de novo: Bom dia, pessoal! – gritou, e alguns alunos gritaram “Bom dia” o mais alto que podiam em resposta. Não por estarem empolgados, mas para simplesmente calar a boca do professor.

Situações forçadas, faziam Beatriz desejar vomitar.

Logo em seguida o professor pediu para que eles se dividissem em grupos de quatro pessoas. Beatriz não fez nenhum movimento, os grupos foram se formando. O que sobrou apenas Beatriz, a garota estranha do outro canto, e mais duas alunas que pareciam gêmeas.

- Agora quero que vocês deem as mãos formando uma roda, memorizem seus colegas e a profissão que eles terão escrito em seus braços – exclamou o professor.

O suposto grupo em que Beatriz estava não fez movimento nenhum. Cada um ficou em sua carteira, esperando uma ordem mais explicita.

- Em seguida soltem as mãos, e andem aleatoriamente pela sala.

Um dos alunos ergueu a mão e perguntou: - Por que então segurar as mãos, se vamos soltar em seguida?

Houve um burburinho geral, e Beatriz deu um sorriso de canto considerando toda a situação idiota.

- É uma forma de unir os membros do grupo.

Houve mais um burburinho, e o professor perdeu a paciência. E pediu silencio a todos.

As duas garotas que pareciam gêmeas se aproximaram da garota da janela, e Beatriz calmamente pegou sua mochila e se sentou ao lado dela. Observou as duas garotas na sua frente, e percebeu que elas realmente eram gêmeas. Vestidas de preto da cabeça aos pés, as duas tinha um aparecia desleixada e estavam um pouco acima do peso, mas isso de longe não tirava a beleza que tinham, as tornavam excepcionalmente diferentes. As duas tinham um sorriso sincero, e se apresentaram como Ana Maria e Ana Carolina. Consequentemente, Beatriz as classificou como Maria sendo a irmã de cabelos tingidos de ruivo e com maquiagem de gótica. E Carolina como a irmã divertida, que usava um corte de cabelo estilo chanel, despontados por ser um corte antigo.

No mesmo instante, Beatriz percebeu que os alunos começavam a se unirem da maneira que professor explicou. As três pegaram nas mãos e Beatriz estendeu a mão para a garota. Não houve nenhum movimento.  Olhando de canto, Beatriz percebeu a garota apertar o maxilar. E algumas pessoas de grupos opostos começaram a dar risada pela situação. Conheciam a garota a muito tempo para saber que ela não gostava de contato físico.

Sentindo sua mão grande demais perto da garota, Beatriz puxou a mão para si e escondeu de baixo da carteira. Aquela situação toda não dava confiança nenhuma a garota. Seu rosto sem maquiagem, parecia pálido pela situação. Os fones de ouvidos estavam altos. Seus longos cabelos castanhos escondiam metade de seu rosto, e Beatriz desejou acertar aquelas madeixas atrás de sua orelha para poder ver a cor daqueles olhos por trás dos óculos grandes.

O professor se aproximou do grupo percebendo que havia algo estranho. Automaticamente Beatriz soltou a mão de Maria.

- Professor Roberto? – chamei.

Ele olhou para Beatriz com seu sorriso irônico e um olhar um pouco mais atreito do que o normal.

- Você é aquela aluna nova? Beatriz Antunes?

- Sim. Se o senhor não se importa não quero fazer essa atividade, e acho que minhas colegas aqui também não gostariam de faze-la.

Um dos olhos do professor começou a tremer.

- Como? – perguntou, como se estivesse escutado errado.

- Não estou a fim de fazer essa atividade. E acredito que isso não seja obrigatório – disse Beatriz mantendo sua expressão neutra frente a situação.

As duas garotas gêmeas se olharam, e sem precisar falar nada entenderam do porquê da atitude extrema de Beatriz.

- Bem, não, não é obrigatório que realize essa atividade. Mas como você é nova na esc...

- Então não vamos participar – falou firme Beatriz, olhando em seguida para garota a sua direita. Ela apenas manteve o olhar baixo, mas parecia aliviada por não precisa encostar a mão em ninguém – Se o senhor não importa vamos para biblioteca fazer alguns trabalhos atrasados.

O professor ficou catatônico, nenhum aluno antes o havia confrontado de maneira tão retórica. A partir daquele momento, decidiu que tornaria a vida de Beatriz naquela escola uma estadia insuportável.

Beatriz se levantou jogando a mochila nas costas, e as duas gêmeas também se levantaram. Em seguida a outra garota se levantou, as seguindo em silencio para fora da sala.

Assim, que estavam longe o suficiente, Beatriz sorriu por sua ousadia.

- Nossa isso foi incrível! – Exclamou Carolina. – Sou sua fã agora.

- Uau, você salvou nossas vidas de uma atividade extremamente chata. Obrigada, Beatriz – agradeceu Maria.

- Aquele professor precisava se posto no seu lugar – disse Beatriz, olhando para trás e percebendo que a garota estava seguindo para banheiro ao invés de segui-la para a biblioteca. Fechou os olhos por alguns instantes, e viu de relance o professor Roberto as observando pela porta. A expressão em seu olhar deixava claro, que agora Beatriz tinha um inimigo na escola.

- O que foi, Beatriz?

- Nada.

- Acho que agora oficialmente somos um grupo. As excluídas do Colégio Lupion! – exclamou Carolina entrando na frente das duas, e estendendo as mãos como se estivesse com um cartaz em mãos.

Sem perceber, elas mudaram de direção da biblioteca para o refeitório. Sentando-se em uma mesa afastada, Beatriz escutou seu estomago reclamando por comida. Precisava acordar alguns minutos mais cedo se quisesse tomar café junto com seu pai antes que ele fosse para trabalho. Memorizou isso para mais tarde.

- Fiquei sabendo que você era de Curitiba.

- Sim. Eu nasci lá, mas meu pai é daqui – disse Beatriz olhando para a direção do banheiro. Queria ir até a garota e se apresentar. Ela realmente parecia assustada por sua mão ter chegado tão perto.

- Nossa que legal.

- Como que é o nome daquela garota que estavam no nosso grupo? - Beatriz se sentiu constrangida por perguntar, e suas bochechas coraram imediatamente.

- Ela se chama Luísa Sanches. Eu sinceramente achei que ela surtar quando você estendeu a mão para ela – disse Maria seria.

- Por que?

- Segundo ouvimos falar por um professor, ela tem Síndrome de Asperger.  O que torna ela meio estranha, nunca a ouvimos falar nenhum suspiro desde que viemos estudar aqui o ano passado.

- Os outros alunos a chamam de retardada...

- Ela não é retardada, Carolina – ralhou Maria sua irmã - O ano passado ela deu um show no Enem. Os professores ficaram de boca aberta, a maior pontuação da história. – disse, diminuindo o tom da sua voz como se fosse um segredo. - Por isso ficamos sabendo que ela tem essa síndrome, depois da prova ela teve um surto. E ficou uma semana sem vir na aula.

- Entendi... – resmungo Beatriz olhando para Luísa no momento que ela saia do banheiro.

Ela não fazia seu tipo, mesmo Beatriz não tendo um tipo definido. Gostava de garotas divertidas isso era certo. Mas aquela garota silenciosa, era sem dúvida muito bonita. Mesmo tentando de todas maneiras parecer neutra. Havia algo de diferente em seu jeito, mas não havia nada a ver com a síndrome. Seus cabelos castanhos eram ondulados, e pareciam cair como uma cascata pelos seus ombros. Ela usava uma calça jeans meio larga e camiseta branca com o símbolo da escola. Seus óculos eram grandes demais para seu rosto fino, o olhar estava baixo como se quisesse esconder algo ou evitar qual quer contato mais íntimo com alguém. Sua pele tinha uma tonalidade de pêssego que Beatriz nunca tinha visto antes.

A definição de não criar laços, é a mesma coisa de não se interessar por ninguém, Beatriz ralhando internamente consigo mesma.

Beatriz apertou as mãos na frente, e as duas garotas na sua frente seguiram seu olhar.

- Agora eu que entendi tudo – disse Carolina em sorriso. – Você se interessou por ela.

- O que? – perguntou Beatriz abismada enquanto mudava olhar para o rosto divertido de Carolina.

- Não é Maria, que eu estava certa. Meu radar apitou desde que a vi pela primeira vez! – exclamou, cutucando a irmã.

- Não sei sobre o que vocês estão falando...

- Não precisa fingir, Bia. Está mais do que na cara, que você gosta de meninas. Aliás, o seu jeito não é muito de menininha.

- Qual é o problema das minhas roupas? – perguntou, olhando para baixo e vendo seus coturnos velhos nos pés, sua camisa xadrez vermelha, e calça jeans rasgadas. Realmente não se considerava muito feminina, mas nunca foi subjugada tão rapidamente.

- Não se preocupe, nos também gostamos de garotas. E a minha irmãzinha aqui tem uma namorada online, a pouco mais de um ano.

- Carolina! – ralhou Maria. – Mania que você tem de falar da minha vida.

- Somos irmãs, nossas vidas são um livro aberto uma para outra.

Beatriz sorriu. Tinha feito duas amigas de uma forma inusitada.

- Acho que você deveria ir até lá conversar com ela – incentivou Maria, percebendo que garota estava sentada em um dos bancos mais distantes do pátio com livro aberto em seu colo.

- Não quero ser estraga prazeres, mas acho que se ela fosse lá a garota não falaria nada, e ela ganharia um grande vácuo.

- Pare de ser tão cética, Maria. – Carolina a repreendeu. - A Bia a ajudou hoje, talvez ela apenas agradeça.

- Bia?

- Acho que tomamos a liberdade de te dar um apelido.

As duas sorriram animadas.

- Sendo assim, terei que as chama-las de Maiara e Maraisa – zoou Beatriz.

As duas param de rir, e fizeram uma careta. Automaticamente, Beatriz informou que era brincadeira. Não era do tipo que coloca apelidos em alguém. Apenas queria sorrir um pouco. Não sabia porque queria conversar com a garota. Talvez fosse interesse, mas ela desconfiava que era outra coisa.

Ainda não que estava no clima de conhecer alguém e se apaixonar, ainda estava se acostumando com a ideia que não tinha mais uma mãe para conversar sobre qual quer coisa, e acrescentar mais alguém nessa lista invisível de pessoas a sua volta que se importava só iria atrapalhar tudo. Ou talvez fosse porque alguém solitário soubesse detectar outro. E Beatriz tivesse sido atraída pelo fato que aparentemente, assim como ela, Luísa queria ficar sozinha.

- E aí, decidiu se vai lá? – resmungou Maria.

- Talvez – respondeu Beatriz, não tirando os olhos da menina em nenhum momento.

- Melhor decidir logo, daqui a pouco bate o sinal para recreio e aqueles idiotas da nossa sala saem para infernizar a vida garota.  E ela some para algum canto distante – informou Maria.

- Talvez seja melhor você conhecer um pouco dessa síndrome que ela tem, antes de ir até lá – falou Carolina por entre os dentes.

- Não preciso pesquisar no google sobre os problemas de alguém, se os vejo estampados em seu rosto.

Carolina se encolheu em seu lugar. Tinha achado que era brincadeira de Beatriz o interesse de se aproximar de Luísa, mas agora naquele momento parecia visível que não era uma brincadeira, e que ela tentaria fazer contato. Se odiou internamente por não ter sido mais rápida e mostrado que sentia algo por Beatriz, desde que a viu pela primeira vez na sala de aula. Odiou sua irmã, por ficar a incentivando. Odiou o mundo por nunca ser a vez da sua vida.

Beatriz se levantou, e em menos de meio minuto já estava quase chegando perto da garota. Não tinha muita convicção do seu contato. Talvez por isso, única coisa que fez ao se aproximar, tenha sido se sentar ao seu lado no banco. Tomando cuidado para não toca-la. Luísa continuou lendo seu livro, sem fazer nenhum movimento, mesmo depois de perceber que era Beatriz que havia sentado ao seu lado.

- Oi – sussurra Beatriz tão baixo que nem o barulho dos fones de ouvido da garota teriam permitido ela escutar. Dirigindo um olhar silencioso, para as meninas que a observam de longe, Beatriz tentou um novo contato. – Meu nome é Beatriz. E vim aqui achando que talvez... você quisesse ser minha amiga. – A garota continuo lendo, virando uma página de cada vez do seu livro, sem se importar realmente se alguém estava ao seu lado. Beatriz não era do tipo que desistia rápido, então continuou: - Você deve se chamar Luísa... acredito que realmente que talvez podemos ter algum laço de amizade... – disse Beatriz por fim. De uma forma arrastada, e abrindo um sorriso de canto pela sua incapacidade de falar algo inteligente.

Considerou ficar quieta, e foi justamente isso que fez. Encostou as costas no banco e ficou ali parada ao lado da garota. Dando uma espiada na capa do livro, percebeu que ela lia Stephen King. Era um livro enorme, Beatriz desconfiou que ela não conseguiria carregar esse livro até em casa. Afinal, It era uma enciclopédia de mais de mil páginas. E a garota parecia tão miúda, tão encolhida em seu mundo.

Talvez fosse melhor apenas fica ali, parada, olhando para nada. Fazendo uma companhia silenciosa a uma garota que queria apenas existir.

Luísa não queria ninguém sentada ao seu lado. Muito menos falando com ela. Claro, se sentia agradecida pela garota ter tirado ela de uma situação ruim mais cedo, mas isso não justificava um contato. Beatriz deveria ser igual a todos naquela escola, e não se importar com ela. Não falar com ela. Ignora-la ou fingir que ela nem existia. Mas Beatriz era diferente, tinha algo no seu jeito de falar. Parecia receosa e confiante em cada palavra que lhe dirigiu. E quando ela disse seu nome entre os dentes perfeitos, em um sussurro grave parecia que ela tinha saído de um filme. Ninguém, além de sua mãe, sua irmã e psicóloga lhe dirigia uma palavra. Ninguém, além de ninguém tinha falado com ela de maneira sussurrada e rouca, como se estivesse a seduzindo. Não, talvez tive entendido tudo errado. Afinal, não sabia ler muito bem as pessoas. Ela só veio até para caçoar de seu jeito. Como todos faziam.

Ela só queria que o chão se abrisse, e ela pudesse sumir. Mas parou de pensar em sumir quando simplesmente Beatriz lhe estendeu um post-it por cima das páginas do livro.

Olhe para cima.

Era apenas uma frase. Mesmo assim, Luísa se sentiu espantada, imaginando que talvez agora ela seria vítima do mesmo incidente que aquela garota do livro do Stephen King passou, Carrie, A Estranha. O sangue escorrendo pelo seu rosto. E tudo acontecendo em rapidez de fatos. O problema seria sua falta de poderes telecinéticos. Olhando levemente para o lado, Luísa percebeu que Beatriz sorria. Não queria olhar para ela, e sentir culpa por não estar sendo legal. Mas é que sua condição muitas vezes a impedia de falar qual quer coisa, mesmo quando precisa ou queria.  Voltou a olhar para seu livro, lendo novamente o bilhete, e dirigindo lentamente o olhar para cima.

Não havia nenhum balde com sangue, muito menos algum balde de tinta. Era apenas as folhas do antigo carvalho caindo com estação. Mas em algum lá em cima, um barulho agudo cortava a manhã, era um ninho de um passarinho. Beatriz queria lhe mostrar isso.

Beatriz tinha certeza que não falaria mais nada. Mas assim que ouviu aquele barulho na arvore, soube o que deveria fazer. Tirando um post-it e uma caneta da mochila, escreveu uma pequena frase que provavelmente chamaria atenção da menina. E isso realmente aconteceu, ela demorou um pouco realizar o que estava sendo pedido no papel. Porém, assim que olhou para alto, e viu uma mãe passarinho alimentava seus filhotes barulhentos, a garota sorriu. Não um sorriso escancarado. Um sorriso de lábios. Simples e sincero. Beatriz nunca tinha visto algo tão bonito. Estava sendo boba, mas decidiu naquele momento que faria de tudo para vê-la sorrir novamente.

- Você tem um sorriso lindo – sussurra Beatriz, de maneira pausada. No mesmo segundo em que disse a frase, se repreendeu internamente por ter dito aquilo em voz alta. A garota arregalou os olhos, corando. Mesmo não encostando nela, Beatriz pode sentir seu corpo tenso e um tremor em suas mãos.

Sua boca se contraiu, e pequenas marcadas de expressões surgiram no canto, como se ela tivesse se sentindo desconfortável, ou talvez fosse surtar. Nesse momento os olhos de Luísa esbararam nos olhos castanhos de Beatriz. E ela percebeu seus olhos tinham uma dor silenciosa. Luísa ficou espantada com seu atrevimento. Odiava olhar as pessoas nos olhos, mas quando viu aqueles olhos com aquela tonalidade tão diferente e o semblante arrisco, não conseguiu se controlar, e estendeu o contato por alguns segundo, antes de baixar o olhar novamente para o livro.

Parecia estranho aquele contato de olhos, porem Beatriz notou que Luísa tinha olhos cor de caju, com uma intensidade que ela não conseguia explicar. Consequentemente, considerou Luísa muito mais bonita do que havia reparado todas aquelas semanas, desde que se mudou para Vila Nova. Colocando as mãos nos bolsos, lutou contra o desejo de tocar em seu queixo e levantar seu rosto. Uma garota tão bonita não poderia passar o resto da sua vida olhando para chão, era até pecado fazer isso.

Ao seu lado, Luísa se sentia desconfortável. Beatriz a encarava, e cada segundo a mais que ficava sobre a mira daqueles olhos, sentia seu coração ter um ataque cardíaco. Ninguém nunca a tinha olhado por tanto tempo. Aquele olhar parecia dois ferros em brasa a queimando silenciosamente com a intensidade de um vulcão em erupção.

Levantando o olhar por um segundo, Luísa percebeu que Beatriz estava com a boca curvada em um sorriso. Parecia feliz em deixa-la desconfortável. A garota voltou a encarar as páginas do livro, fingindo que estava lendo. Nesse mesmo segundo, escutou passos se aproximando, precisa fugir. O sinal do recreio já havia batido e logo o pátio todo estaria cheio de alunos. Seus músculos se enrijeceram, e Luísa se levantou colocando o livro dentro de sua bolsa.

Em menos de um segundo já havia fugido para seu mundo novamente.

A barulho dos alunos no pátio realmente começava a ficar alto, e Beatriz decidiu por não seguir a garota, ficando ali. Para um primeiro contato já bastava ter tido a idiota ideia de ter falado que o sorriso dela era lindo. A garota quase tinha se contraído para dentro de si mesma. E Beatriz desejou sumir, por ser tão besta.

Algumas garotas a chamaram de retardada quando Luísa passou e Beatriz quase se levantou para dizer algumas coisas em sua defesa. Mas ficou quieta, ao perceber que Luísa ignorou. Tinha certeza que a partir de agora, iria observar Luísa de perto. E ninguém iria ofende-la.

 

Notas finais:

Obrigada a todas que leram o primeiro capitulo.

E espero sinceramente que tenham gostado desse, deixem seus comentarios isso é muito importante para mim saber se estou tomando o caminho certo.

Um beijo a todas.

Capitulo 3 - Tia? por IolandaStrambek

Assim, que Luísa desapareceu, as gêmeas se aproximaram para se sentar uma de cada lado de Beatriz. Pela fisionomia de ambas, a curiosidade de saber como tinha sido o contato, era maior que passar o resto da aula se corroendo por não saber.

- E aí, como foi? – perguntou Maria sem enrolação.

- Achei que ela fosse surtar quando eu disse que seu sorriso era lindo. Sou muito idiota mesmo.

As duas arregalaram os olhos. Não acreditando no que estavam ouvindo.

- Você já chegou cantando a garota?! – exclamou Carolina incrédula.

- Não. Claro, que não. A frase saiu da minha boca, antes que impedisse quando ela me deu um leve sorriso ao ver aquele ninho – disse Beatriz apontando para o alto. As duas olharam para o que ela apontou, e rapidamente voltaram o olhar para Beatriz.

- Bia, não acredito?! Ela nunca tinha nem levantado o semblante para alguém aqui na escola antes.

- Você deu sorte – completou Carolina a frase da irmã, mantendo uma expressão neutra.

- Talvez nunca alguém tivesse ido conversar com ela antes – disse Beatriz, dando um suspiro. – Mas foi isso, quase a fiz surtar na primeira conversa. Isso é um sinal para eu manter distância, e observa-la de longe.

- Isso é tudo esquisito. Por que está tentando se aproximar dela? – perguntou Carolina, de maneira inquisidora.

- Eu não sei. – disse Beatriz balançando a cabeça. - Quando acordei essa manhã só queria fugir dessa porcaria de cidade. Mas durante a aula do professor Roberto, ver ela tensa por apenas por me ver estendendo a mão, me sensibilizou.

Carolina revirou os olhos.

- Então você está se aproximando dela, por que acha que ela é uma coitadinha retardada.

- Carolina! – a repreendeu Maria, dando um tapa no ombro dela. – Olha como fala dos outros.

- Não acho que ela seja “coitadinha” – disse Beatriz, fazendo umas aspas com a mão. – Muito menos retardada. Na verdade, a retardada aqui sou, não fiz nada que valesse a pena a minha vida toda.

- Você está no colegial, não tem nada para fazer.

- Ou talvez, tenha.

As duas se olharam em silencio, e Beatriz permaneceu com olhar distante.

- Para mim isso parece pena – disse Maria, por fim.

Beatriz a ignorou. Não sabia porque estava conversando com aquelas duas garotas até então estranhas. Não havia percebido que estava mal, tinha alguma coisa em seu peito a sufocando. Beatriz simplesmente não entendia o que era. Talvez fosse apenas a falta da mãe. As vezes a noite ainda chorava no silencio de seu quarto. Não era sempre, mas as vezes precisava se soltar. Ou morreria sufocada.

- Talvez você devesse ir com a gente em uma festa amanhã – convidou Carolina.

- Festa? Que tipo de festa? – Beatriz perguntou.

- Tipo festa! Bebida, comida, música, dança. Essas coisas que se tem em uma festa – resmungo Carolina dando os ombros, chateada por Beatriz não prestar atenção nela. – Acho que você iria gostar...

Beatriz conferiu o relógio no pulso.

- Vou ver, qual quer coisa aviso vocês – disse, por fim. Ela não estava com cabeça para pensar em festa. Queria apenas voltar para sala, e observar com um pouco mais de atenção aquela garota chamada Luísa. – Vou comer alguma coisa, depois a gente se vê.

- Mas...

- Beleza – concordou Maria, cutucando a irmã para ela ficar quieta. Nesse momento Beatriz se levantou e seguiu em direção ao ponto de vendas da cantina.

- Ei, por que me cutucou? – perguntou, depois que Beatriz estava longe o suficiente.

- Você é uma besta mesmo. Acha que agindo assim vai conquistar ela.

- Agindo como? – Carolina franziu o cenho.

- Como um idiota. Fica babando tanto nela, que até um cego veria.

- Aí, não precisa falar assim – resmungou Carolina emburrada. Maria era uma pessoa quieta, e isso a tornava muito mais perspectiva ao observar os outros.

- Vamos para sala.

Carolina seguiu a irmã, sem falar mais nada. Ela tinha razão. Sempre tinha razão. Porém, Carolina as vezes agiu igual uma idiota porque simples não sabia como agir. Por isso estava com o coração calejado.

 

***

Beatriz comprou um cachorro-quente na cantina, e voltou para sala. No caminho de volta encontrou com algumas garotas, que cochicharam quando ela passou. Beatriz sabia que estavam falando algo sobre ela. E se odiou internamente por ser uma aluna nova. Não gostava da maneira como as coisas estavam caminhando, muito menos como estavam se ajeitando.

- Beatriz? – chamou a professora com um sorriso que provavelmente iluminaria o dia de qual quer um – Com licença, meninas.

Seguindo seu caminho com um pouco mais de rapidez, Beatriz parou quando foi chamada pela professora que conversava no correr com um grupo de alunas.

- Olá, senhorita Nadir – cumprimentou sem saber como reagir.

- Não precisa de toda essa formalidade. Pode me chamar de Nadir.

- Desculpa, Nadir – disse Beatriz, acentuando o nome Nadir.

Nadir era a professora favorita de Beatriz até o momento. Tinha um sorriso lindo e entusiasmado. E ainda era professora da matéria que ela mais gostava, português. Nadir era uma mulher baixa, e tinha um corpo um pouco volumoso para seu tamanho. Contudo de forma nenhuma isso tirava seu encanto. E a felicidade da praticar à docência em seus olhos castanhos. Talvez seja por isso que Beatriz tenha gostado tanto dela. Nadir simplesmente sorria com olhos.

- Vamos seguindo, eu te acompanho até a sala – disse, apontando o caminho com uma das mãos.

- Em que posso ser útil, professora?

- Eu a vi conversando com a Luísa. Bem, não sei o que os alunos falaram para você sobre ela, mas gostaria de salientar que ela é uma garota especial. E simplesmente não gostaria de ver você se aproximando dela, para praticar qual quer tipo de maldade – disse Nadir devagar, e Beatriz sentiu seu estomago contrair. Perdeu a fome no mesmo segundo que ouviu aquela frase. – Eu li a sua ficha com o histórico de outras escolas. E você já quase foi expulsa por brigas em um dos seus colégios anteriores e...

- Professora, desculpa interrompe-la. Mas talvez esteja me julgando errado. Sei que tenho um temperamento explosivo, e não levo desaforo para casa. Mas aqui estou tentando passar como uma aluna invisível e não tive intenção nenhuma de fazer mal a Luísa.

- Entendo. Desculpa meu julgamento precipitado, mas tenho receios como professora e como tia. Talvez não saiba, mas Luísa é minha sobrinha – declarou, e Beatriz abriu a boca em surpresa. – Espero que não entenda por mal a minha interferência. E que apenas achei estranho quando o professor Roberto chego na sala dos professores furioso porque aparentemente você e mais três alunas, entre elas minha sobrinha, saíram da sala se recusando a fazer a atividade que ele havia passado.

- Talvez o professor Roberto tenha sido um pouco exagerado. A sala toda esta de prova que ele falou que atividade não era obrigatória. Mas sim, eu me recusei. Luísa não iria conseguir fazer aquela atividade, e eu precisei agir – disse Beatriz sentindo o olhar da professora sobre si, já que haviam parado a alguns metros antes de chegar na sala.

- Então devo agradecer por se importar com Luísa. É a primeira vez que alguém faz desse tipo por ela. E acredite, ela pode ser diferente, mas tem um grande coração.

- Ela é especial, professora. Não especial de diferente, especial porque é única. E acredite nunca faria nenhum mal a ela – Beatriz se sentiu desconfortável de falar aqui em voz alta, e para disfarçar se virou jogando o resto de cachorro-quente no lixo.

- Agora eu sei, eu as vi conversando. E ela conversou com você, por mais que não tenha dito palavra nenhuma.

Beatriz arregalou os olhos. Talvez não conhece Luísa o bastante, mas teve certeza que ela não gostou da sua interferência.

- Não me olhei assim, como se eu estivesse louca. Luísa gostou da sua companhia.

- Eu... – começou Beatriz, alongando as palavras envergonhada – eu só queria ajuda-la.

- Você é uma garota especial, Beatriz. Fico muito feliz por você não ser tudo aquilo que está escrito no relatório de suas antigas escolas. Mas agora tenho que voltar para sala, o dever me chama. Venha qualquer hora conversar comigo, estarei esperando sua visita – disse Nadir, segurando a mão de Beatriz por um segundo e apertando, em cumprimento gentil.

- Obrigada.

Nadir apenas sorriu, e se virou para ir embora.

Agora, Beatriz podia ver como Nadir e Luísa eram parecidas. O mesmo sorriso. O mesmo jeito gentil. Os mesmos olhos castanhos intensos. Beatriz não queria estar pensando em tudo isso, porque isso só lhe dava maiores motivos para se aproximar de Luísa.

Entrando na sala, percebeu a garota no seu canto contra a parede. Estava com o rosto todo voltado para baixo e com os fones no ouvido. Tentando passar reto sobre aquela situação, foi para se lugar e baixou o olhar para o tampão da carteira. Seria as duas aulas mais longas da sua vida.

Notas finais:

Boa noite meninas

Como prometido um capitulo em homenagem as meninas do grupo do Whats, em especial para a Will e a Lalu.. garotas incriveis!!

Espero que gostem, e deixem seus comentarios. 

Beijos a todas.

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