A ruína dos anjos por Drikka Silva
Summary:

A maior ambição de Andressa era uma vida tranquila. Ao lado da esposa e do filho felino Dexter. tinha a familia que sempre havia desejado. Todas as suas certezas caem por terra quando encontra a mulher dos seus sonhos. Seu anjo na terra. 






Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 15 Completa: Não Palavras: 28497 Leituras: 16723 Publicada: 04/03/2018 Atualizada: 30/07/2018
Notas:

Oi oi lindonas!!!

Chegamos em Março! Eu disse que não ia demorar hehehehehe

Vamos abrir os trabalhos desse ano com A ruina dos anjos, um  romance fantasia, um desafio bem bacana e que acho que funcionou heheheh Acho, vcs quem mandam rs

Postagens duas vezes por semana - toda quarta e domingo. 

Espero que gostem de Andressa e Cia! 

 

Bjokasssssssssss

 

Drikka

 

 

 

 

1. Capitulo 1 por Drikka Silva

2. Capitulo 2 por Drikka Silva

3. Capitulo 3 por Drikka Silva

4. Capitulo 4 por Drikka Silva

5. Capitulo 5 por Drikka Silva

6. Capitulo 6 por Drikka Silva

7. Capitulo 7 por Drikka Silva

8. Capitulo 8 por Drikka Silva

9. Capitulo 9 por Drikka Silva

10. Capitulo 10 por Drikka Silva

11. Capitulo 11 por Drikka Silva

12. Capitulo 12 por Drikka Silva

13. Capitulo 13 por Drikka Silva

14. Capitulo 14 por Drikka Silva

15. Capitulo 15 por Drikka Silva

Capitulo 1 por Drikka Silva
Notas do autor:

 

 

 

 

Londres 1666

 

         A mulher correu para fora do quarto, ao mesmo tempo em que fazia, repetidamente, o sinal da cruz. Em seus olhos, o brilho do insano de alguém que tinha visto um demônio pela primeira vez. Alcançou a soleira da porta e estancou, congelada. A criatura maligna, que vira segundos antes, ressurgia das sombras, bloqueando sua passagem. Ela pronunciava alguma coisa, mas o único som que se ouvia, eram dos seus próprios gritos de terror. O corpo todo tremia. A respiração já falhava e o cheiro da evacuação involuntária, tomou conta do casebre. Recuou um passo quando a criatura esticou a mão na sua direção: dedos longos, brancos, gélidos. Deu uma última e misericordiosa arfada em busca de ar, antes de sentir uma dor lancinante no peito e a escuridão a envolver em uma cela segura.

         A criatura se abaixou ao lado do corpo que jazia no chão. Tinha sentido seu espirito partir, levando consigo a esperança de que algo pudesse ser feito para ajudá-la. Já havia presenciado aquele mesmo processo milhares de vezes. No começo, conseguia enxergar a alma deixando o corpo terrestre, mas a credulidade da humanidade estava se extinguindo, engrossando o véu místico que separava o mundo em que fora lançada, do paraíso divino. Fechou os olhos da mulher, que ainda exibiam o terror que presenciara, e rezou por sua alma.

         No pequeno quarto, o homem jazia sobre a cama de palha. Feridas se espalhavam pelo seu corpo. As extremidades dos seus membros estavam pretas, indicando o avanço da enfermidade. O cheiro nauseoso não a incomodava. Olhou terna, antes de se aproximar e se sentar ao seu lado. Sabia que ele jamais teria medo da sua presença. Não importava sua aparência, que ia além da compreensão humana, tinha certeza que seus olhos sempre estariam voltados a ela, com a mesma ternura e brandura que a presenteava.

         Pegou sua mão e apoiou entre as suas em uma caricia leve. Tinha sido tão pouco tempo dessa vez! Cinco primaveras, fora o que tinha sido reservado pelo Criador. Levara dezessete anos o procurando e, quando finalmente o encontrara, a Grande praga o arrastava para longe. Se prostrou ao lado da cama e rezou baixo. Sentia sua aura desvanecer lentamente, deixando-a com o amargo tempo que ainda teria sobre a terra até encontra-lo novamente.

 

 

         Paris, 1984

 

         O choro de um bebê despertou a criatura do seu estado de transe. Abriu os olhos lentamente, enxergando a suntuosa sala do palacete. Tornou a fecha-los e se esforçou para escutar, mais uma vez, o choro da criança. Havia esperado por aquele sinal por trezentos e dezoito anos e, finalmente, o recebia. O véu místico estava cada vez mais denso: a última vez que recebera o sinal, conseguira visualizar uma parte da aldeia onde a criança havia nascido e seu rosto sereno. Era uma tortura silenciosa saber que ele estava encarnado, mas não ter ideia de onde procurar. Forçou mais uma vez, mas não conseguiu sentir nada, menos ainda, visualizar algo que pudesse usar como pista. Tinha uma longa jornada pela frente. Tinha que começar sua busca o quanto antes.

         A criatura se levantou do chão e esticou todos os membros. Já haviam se passado duzentos e setenta dias desde que sentira que estava próximo o sinal que havia recebido minutos atrás. Desde então, havia se isolado do mundo dentro daquela sala, esperando a confirmação dos seus sentidos. Se prostrou em oração, agradecendo a oportunidade de ter esperança novamente. Depois de muitos minutos, andou até um espelho, mas não conseguiu se enxergar. Voltou a se concentrar e projetou a imagem da mulher que sempre representara. Aos poucos, sentiu cada musculo encolher, para se esconder sob o frágil invólucro humano. Quando abriu os olhos novamente, enxergou a mulher de pele clara, contrastando com os cabelos negros que caiam em abundancia pelos ombros e costas. Se virou para enxergar a cicatriz que ia do ombro até a cintura. Era um lembrete de quem realmente era.

         A mulher destrancou a sala e saiu, nua, para outro cômodo. Subiu as escadas que levava ao piso superior e entrou no quarto, impecavelmente bem cuidado, e colocou a primeira roupa que encontrou. Estava terminando de calçar os sapatos quando a porta se abriu.

         — Est enim tempus? – perguntou o homem. Vestia uma túnica preta.

         — Etiam – respondeu somente.

         O homem balançou a cabeça em concordância e saiu silenciosamente. A mulher andou até o guarda roupas novamente e pegou a maleta que continha documentos. Olhou os passaportes um por um, ordenando as datas e países. Sua primeira parada seria na Mesopotâmia, atual Iraque. Fora as margens do rio Eufrates que o encontrara pela primeira vez. Talvez tivesse sorte. Era imprescindível, também, ter certeza de que ele não estava à mercê da sua própria sorte em uma das piores zonas de guerra da atualidade. Se fosse o caso, teria que tira-lo de lá de imediato.

         A mulher saiu da casa e parou na calçada. Seu servo terminava de guardar sua bagagem no porta-malas do taxi estacionado. Deu uma breve olhada ao redor para constatar que nada havia mudado nos dias em que ficara enclausurada. Já tinha visto o mundo se transformar muitas vezes ao longo dos séculos. Já presenciara quedas de reinos, governos, ditadores. Passava por esses eventos alheia: só havia uma coisa que a fazia se movimentar depois da ascensão cristã, e era essa busca que iniciaria. Diferente das outras eras, podia contar com o desenvolvimento desenfreado da humanidade. Tudo o que sempre achara de pior nos seres humanos era sua ganância por poder, sabedoria, sem se dar conta da destruição em massa que causavam, naquele momento poderia usar a seu favor. Não precisava se expor para cruzar fronteiras. Uma máquina humana projetada para voar, a ajudaria com quase a mesma eficiência.

         — Bonum trinus – desejou seu servo em uma revência.

 

— Dominus custodiat te. In nomine patris et fili et spiritus sancti.

         — Amen

         A mulher entrou no carro e fechou os olhos em oração. Sua busca anterior levara dezessete anos. Pedia ao criador que dessa vez levasse menos tempo.

 

São Paulo, 2017  

 

            Andressa estava tensa ao caminhar de volta para casa. Tinha saído, por poucos minutos, para comprar ração para o gato em um mercado próximo, porém, mais uma vez tinha a nítida sensação de estar sendo observada. Virou-se para trás duas vezes à procura de alguma pessoa suspeita, mas todos que via pareciam entretidos com suas próprias vidas. Alcançou a entrada do prédio com alivio. Inseriu a chave na fechadura e abriu o portão com pressa. Esquadrinhou a rua uma última vez sem enxergar nada meramente suspeito. “Estou trabalhando demais”, pensou. “Preciso urgente de férias”.

            Subiu as escadas até o terceiro andar e abriu a porta do apartamento. O gato siamês já estava rodando a mesa da sala em busca de comida.

            — Prontinho, já cheguei – falou Andressa com o tom de voz carinhoso. – Mamãe promete que não vai esquecer sua comida outra vez.

               Andou até a área de serviço e tirou a lata de comida, úmida para gatos, de dentro da sacola. O bichano logo começou a roçar suas pernas, emitindo altos miados em busca da refeição. Despejou uma porção no pote de ração e guardou o restante dentro do armário, embutido a parede. Se abaixou e acarinhou o companheiro de quatro patas antes de voltar para a sala em busca do computador.   

                  Pegou o notebook e acomodou no colo para depois acessar o Netflix. Clicou no episódio da série que estava maratonando naquela semana e se deitou no sofá com o computador no colo para se concentrar nas imagens na tela. Estava no meio do episódio quando sentiu, mais uma vez, a estranha sensação de estar sendo observada. Passou a mão no cabelo e depois se ajeitou no sofá. Dexter, o gato, estava inquieto, miando sem parar enquanto andava de um lado para o outro no batente da janela. Colocou o computador de lado e deu três passos cruzando a distância do sofá até a janela. Pegou o bichano o acarinhando para acalma-lo enquanto os olhos perscrutavam a rua e o prédio da frente. Por um momento teve a impressão de ver uma sombra negra no telhado da frente. Abriu o vidro para ter uma melhor visão, mas não conseguiu enxergar nada. Tomou um susto com o barulho da porta do apartamento, se abrindo.

                        — Oi linda – cumprimentou a loira que entrava na sala. – Está tudo bem?                        

— Sim – respondeu desistindo da janela. Soltou o gato no sofá antes de se adiantar e dar um beijo nos lábios da esposa. – Achei que ia chegar mais tarde hoje.                        

— O professor das duas últimas aulas não foi. Tivemos sorte!   

                       — Coisa boa! Nosso jantar está pronto. Vai tomar um banho enquanto esquento.        

                 — Vou. Comprou a ração do Dexter? – perguntou a loira já a caminho do quarto.         

                — Comprei. Fui lá quase agora – respondeu Andressa indo atrás da mulher. – Como foi seu dia?     

 

 

     No prédio da frente a mulher se agachou, apoiando um joelho no chão. Já fazia cinco anos que o havia encontrado. Sua busca a tinha levado aos confins da terra atrás do espirito reencarnado, desde as terras áridas do sul às geleiras do norte. Durante vinte e cinco anos tinha percorrido todo o velho mundo. Era a primeira vez que o espirito reencarnava na terra nova. Quando seguiu para as Américas, as esperanças de encontra-lo já estavam se esvaindo. Era muito provável que não o encontraria daquela vez. Em uma noite, estava aos pés do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, quando escutou o barulho de sua risada, trazendo um balsamo reconfortante para suas incertezas. O véu místico estava demasiadamente grosso. Se o espirito tivesse desencarnado longe, jamais saberia. Não conseguiria sentir sua aura se desvanecendo. Ao sentir sua presença tão próximo agradeceu ao Criador pela dádiva divina de vê-lo mais uma vez. Ainda tinha percorrido o estado do Rio de Janeiro e parte de São Paulo por nove meses antes de encontra-lo. Tinha se aproximado para ver o involucro e tivera a surpresa de ser em um corpo feminino. Ele só tinha vindo à terra naquela forma por seis vezes antes. O sexo terreno não era um problema. O que a fez manter-se afastada, foi sentir toda ternura que o espirito emanava para outro que não o seu. Não podia interferir no livre arbítrio, por isso se manteve longe observando-o por mil oitocentos e vinte e seis dias.            

 

            A criatura se levantou mais uma vez e olhou para o prédio da frente. As luzes já tinham se apagado. Andou até o parapeito do prédio e subiu para saltar no beco deserto e sumir na escuridão.

 

 

 

Notas finais:

E é isso! 

Me deixe saber a primeira impressão que tiveram, pfvr rs

 

Até quarta! 

 

bjokassssssssssss

 

 

Capitulo 2 por Drikka Silva
Notas do autor:

 

 

 

 

 

O frio era congelante. Uma forte nevasca caia fora da cabana coberta de fenos e barro. O fogo trepidava em uma lareira no canto, levantando pequenas labaredas e esquentando o pequeno espaço. Levantou os olhos quando a mulher entrou pela porta do pequeno casebre. Se adiantou para ajudá-la a carregar o pesado caldeirão, mas foi impedido pela morena que acenou para que voltasse para a cama. Obedeceu, fraco demais para discutir. Ela colocou o caldeirão no fogo e voltou para o seu lado. Passou a mão lentamente por seu rosto, encarando seus olhos. Sabia que não a veria mais por muito tempo, muito provável que não passasse daquela noite. Ela também sabia disso.

            — Se não fizer nada, vou te perder – pronunciou em voz alta.

            — Nos vemos no paraíso. Esperarei por ti pela eternidade.

            — Eu posso te curar, mas terás que confiar em mim.

            — Irás falar com o sacerdote?

            — Não. Posso fazer isso aqui mesmo. Agora. Promete-me uma coisa: fique de olhos fechados.

            — Não posso prometer isso. Eu sei que és uma criatura divina, enviada pelos deuses. Nenhum ser humano teria tanta bondade e serenidade. Como um último pedido, deixe-me ver quem realmente és?

            A mulher o olhou atentamente antes de se abaixar para depositar um beijo em seus lábios, sentindo o gosto salgado de uma lágrima. Afastou e se prostrou no chão da cabana, rezando em uma língua desconhecida. Aos poucos seu corpo foi crescendo, à medida que seus membros iam se esticando. O medo tomou conta do seu corpo quando a mulher que amava sumiu por completo, ficando apenas a criatura. Ela levantou a cabeça, ainda prostrada no mesmo lugar. Quando seus olhos se encontraram, enxergou todo o amor que ela lhe direcionava. Não importava quem era. Amava sua essência. Amava sua alma.

   *ترس نیست - 

           — Não compreendo o que me diz.

            A criatura se arrastou lentamente em sua direção, esticou a mão o envolvendo com seus dedos gélidos. Desmaiou com a dor que o afligiu.

 

            Andressa acordou assustada, respirando apressadamente e tremendo de frio. Passou a mão no rosto em um ato involuntário, para ter a noção de que estava realmente acordada. Vitória, sua esposa ao lado se mexeu, mas voltou a ficar imóvel, entregue a um sono profundo. Afastou as cobertas e foi até o banheiro. Fora tão real! Ainda conseguia visualizar com detalhes a cabana, o calor do fogo na lareira, a dor da ferida causada em campo de batalha. Principalmente, conseguia se lembrar de cada detalhe da mulher morena: sua pele alva, cabelos abundantes que caiam em uma cascata pelas costas. Lindos olhos negros e expressivos que enxergavam sua alma. Depois a criatura. Era para se assustar com sua aparência, mas por alguma razão, mesmo acordada, não sentia medo.

            Nunca fora de ter sonhos daquele tipo. Não se lembrava de ter tido pesadelos na adolescência e nem no começo da fase adulta. O primeiro que teve, foi no natal de 2011. Desde então, tinham se tornado frequentes. O cenário mudava, o tempo, as circunstâncias, mas a mulher era sempre a mesma. Jamais seria capaz de esquecer aquele rosto cheio de brandura.

            O relógio marcava quatro e quarenta da manhã. Saiu do quarto e foi até a cozinha preparar um chá. Dexter logo começou a rondar suas pernas, atrás da refeição matinal. Colocou a água no fogo e, em seguida, serviu a ração do gato. Voltou para o quarto e contemplou a esposa dormindo. Se ajeitou ao seu lado e deixou a mente vagar para o passado, no momento em que tinha se apaixonado pela mulher mais perfeita que já tinha visto na vida.

            Tinha conhecido Vitória na época da faculdade, com vinte anos. Ela tinha mudado de período por conta do trabalho e havia se colocado à disposição para situa-la em tudo o que estava sendo feito. Os encontros fora da faculdade começaram com a desculpa de estudo. Um mês depois já se encontravam sem precisarem de subterfúgios para viverem a paixão que havia nascido intensa e rapidamente. Vitória tinha sido sua segunda namorada e depois de três anos se tornara sua esposa. Tinham uma linda história de cumplicidade, amor, união. Não conseguia imaginar sua vida sem ela.

            O dia amanheceu sem que conseguisse pegar no sono novamente. Desligou o despertador e se virou para a esposa dando delicados beijos em seu rosto para acorda-la. Vitória era o ser humano mais difícil de acordar que existia na face da terra. Ela resmungou alguma coisa e se virou para o lado. Conhecia de cor aquele ritual.

             — Amor, não esquece que hoje tem a festa na casa da tia Heloisa – gritou Vitória da cozinha. – Passa em uma loja e compra algum presente pra ela. Pode ser uma bolsa ou um perfume ou maquiagem. Ela adora essas coisas.

              — Tinha me esquecido – respondeu Andressa. Cuspiu a espuma da pasta de dentes na pia antes de continuar. – Eu compro. Vai direto da faculdade pra lá?

            — Hoje é sexta-feira amor – respondeu Vitória aparecendo na porta do banheiro. – Não tenho aula presencial.

            — Esqueci – confirmou Andressa com uma careta. – Vai direto do trabalho então?

            — Sim. Vou ajudar ela preparar as coisas. Te encontro lá as sete da noite.

            — Estarei lá. Tenha um bom dia!

            — Você também. Te amo, linda. Até mais tarde.

            — Também te amo. Até mais tarde.

                A criatura observou enquanto as duas mulheres se despediam em um beijo demorado. A loira saiu do apartamento e em pouco tempo alcançou a rua e, depois, a esquina. Entrou em um carro e abraçou a mulher ruiva ao volante. Em seguida depositou um beijo demorado em seus lábios. Já faziam sete luas novas que elas se encontravam. Conseguia enxergar que a loira estava direcionando uma grande parte dos seus sentimentos a ela. Doía ver que seus espíritos estavam ligados, porém não conseguiam enxergar isso além da luxuria que havia se instaurado. Esperava, com fé e esperança, o dia em que elas enxergariam isso para que pudessem se conectar e assim, consequentemente, libertar o espirito por quem esperava

.             Voltou os olhos para o apartamento e enxergou Andressa fazendo carinho no felino antes de sair de casa. Esquadrinhou a rua e depois os telhados vizinhos procurando algo que pudesse ameaça-la. A morena saiu do prédio e caminhou para o ponto de ônibus, duas quadras a frente. A acompanhou, pulando os telhados. Preferia sempre observar do alto: não era de bom tom que muitos humanos a vissem. Quanto mais permanecessem na ignorância do plano celestial, melhor.

            Andressa parecia triste aquela manhã. A cabeça levemente abaixada e uma atmosfera pesada ao seu redor. Alguma preocupação parecia a afligir, mas não conseguia saber o que era. Não podia ver seus pensamentos, o que ia no seu coração. Daria tudo para arrancar a angustia que a afligia. O ônibus chegou e ela entrou. Observou enquanto ela ia para um assento ao fundo da condução. Assim que ela sentou, desviou os olhos do ônibus, visualizando o trajeto que ele faria. Não havia nenhum impedimento no caminho e nenhuma ameaça oculta para colocar sua vida em risco. Se prostrou em oração, pedindo aos céus proteção, em seguida se levantou e correu, saltando pelos prédios rapidamente de modo que nem mesmo o olhar mais atendo de um humano a veria.

 

                Andressa deu o dia por encerrado as dezoito horas. Trabalhava no administrativo de uma empresa que desenvolvia softwares para grandes corporações. Desligou o computador a frente, pegou a bolsa e seguiu para o elevador, se lembrando da recomendação de Vitória para comprar o presente da tia. Ali perto tinha um shopping grande: iria comprar uma bolsa e pegar o metrô. Seria bem mais rápido e não iria enfrentar o transito caótico de São Paulo às sete da noite.

            As dezoito e quarenta já estava a caminho do metrô. Parou no farol esperando que o sinal ficasse verde e aproveitou para mandar uma mensagem para Vitória, informando que já havia comprado o presente e que estava a caminho. Olhou de soslaio, quando a sinaleira mudou para verde e começou a travessia, distraída. Tudo aconteceu mais rápido do que pode visualizar: as pessoas gritando, o barulho de sirene de polícia e o carro na frente em alta velocidade. O corpo paralisou com a colisão iminente. Só conseguiu ficar travada olhando o fim que se aproximava a centésimos de segundos. Levantou os braços para o rosto em um gesto instintivo de sobrevivência, em uma vã tentativa de se proteger, antes de escutar o forte estrondo. Voltou a olhar, ainda em estado de choque, para a avenida a tempo de ver o carro capotando, indo bater no poste do outro lado da pista. A viatura de polícia freou a tempo, fazendo uma volta de cento e oitenta graus com os pneus travados pela frenagem. As pessoas começaram a se aglomerar, enquanto se recuperava do susto. Olhou ao redor, tentando assimilar a ação ocorrida segundos antes, e teve o vislumbre da sombra negra do outro lado da rua, subindo pela lateral de um prédio, antes de ter sua visão tampada pelos curiosos.

            — Moça, você está bem?

            — Que livramento!

            — Alguma coisa pegou em você?

            Andressa apenas balançou a cabeça em sentido negativo. Ainda estava dominada pelo susto e não tinha segurança na própria voz. Uma senhora a puxou de volta para a calçada. Falava com uma voz terna para que pudesse se acalmar. Desviou os olhos da mulher e voltou a olhar para a cena do acidente. O carro que estava em alta velocidade, a frente, tinha capotado de lado, impossível de acontecer naquelas circunstancias. Confirmou sua breve teoria ao escutar o homem que conversava, ao seu lado, com outro rapaz.             — ...Parece que o carro foi tirado da avenida!

            — Como se um guindaste tivesse batido na lateral. Não tem nada na pista que pudesse pegar na roda e fazer ele capotar.

            — Mesmo assim, velho, ele ainda seria levado pra frente desviando um pouco para a esquerda, não sairia de lado desse jeito. Será que alguém filmou? Alguma câmera de transito ou de segurança? Eu sou professor de física. Garanto que não tinha como aquele carro ter capotado daquele jeito sem nenhuma força externa.

            — Os freios da viatura travaram no asfalto! Nunca vi um carro frear desse jeito! O freio ABS reduz o impacto, mas não trava desse jeito!  Não arrastou pela pista!

            — Tem certeza? – Perguntou Andressa se intrometendo na conversa dos dois homens. Não sabia ao certo a quem a pergunta tinha sido direcionada.

            — Moça, você teve uma sorte e tanto! – Falou o professor de física. – Seu anjo da guarda deve ser dos bons!

            Andressa apenas anuiu e respirou fundo. Voltou a cabeça para enxergar a cena do acidente e um pouco a frente, o prédio onde tinha visto a sombra negra se movimentar. Devia ser apenas uma ilusão da sua cabeça por causa da adrenalina. Ainda ficou durante meia hora sendo segura pelas pessoas que insistiam que ela havia renascido de novo. Se o carro a tivesse atropelado, não estaria viva naquele momento. Só foi liberada para ir para casa depois que um paramédico confirmou que estava tudo bem, depois das oito horas da noite.

 

— Demorou para chegar amor! – reclamou Vitória assim que viu a esposa. – Aconteceu alguma coisa?

            — Quase sofri um acidente hoje. Um carro quase me atropelou na avenida perto do trabalho.

            — Nossa, linda, mas você está bem? Se machucou?

            — Eu estou bem – tranquilizou. – Ele capotou antes de me atingir.

            — Ainda bem que nada te aconteceu! Não saberia o que fazer! Vem, vamos beber alguma coisa para relaxar. Meu tio fez aquela caipirosca que você gosta.

            — Preciso – concordou Andressa ao segurar a mão da esposa. – Vamos entregar o presente da sua tia? Achei uma bolsa linda! Tomara que ela goste.

            Andressa se juntou aos familiares da esposa na comemoração do aniversário. Havia passado a impressão para a mulher de que o acidente não tinha sido grave para não preocupa-la, mas a todo momento visualizava a cena que tinha se desenrolado horas antes, se perguntando o que de fato havia acontecido.

 

Nota da autora - O texto em arabe é escrito da direita para a esquerda, porém nossa configuração não permite que ele se alinhe de forma correta. Se alguém manjar de arabe ai, vai ver esse erro. Sorry!

 

 

 

Notas finais:

 

Oi oi lindonas!!!

Obrigada pela acolhida no retorno! 

Mais um cap no nosso anjinho perdido nesse mundão de Deus!

Até domingo!

 

bjokasssssssssssssss

 

 

 

Capitulo 3 por Drikka Silva
Notas do autor:

 

 

 

 

 

 

A criatura se encostou no parapeito do prédio, e olhou para o apartamento onde o espirito habitava. A conversa das duas mulheres era corriqueira, como várias outras que tentava não ouvir ao longo dos meses. Naquela madrugada em especial, estava a atenta a cada palavra que Andressa dizia. Tinha que ter certeza que ela não tinha visto, nem sentido, sua presença no local do acidente.

            Desviou os olhos do prédio quando as conversas foram substituídos gemidos. Já bastava toda tortura dos milênios. Não precisava e nem podia presenciar a vida intima do casal. Pulou do prédio e começou a andar a esmo pela vizinhança, de onde podia sentir o espirito, caso alguma energia negativa se aproximasse. Deixou a mente vagar para os ecos do passado, para a primeira vez que o tinha encontrado, às margens do Eufrates praticamente morto.

 

Margens do Eufrates – 6147 A.C  

 

            Já faziam muitas luas desde que havia sido designada para a terra, orientada pelo Divino para proteger a humanidade. Vagava pelas regiões observando as civilizações que ali floresciam, sempre se mantendo afastada, sobrevoando esses povos a uma altura segura para que seus olhos não pudessem enxerga-la. A primeira vez que o encontrara foi entre um nascer e pôr do sol. Enxergou sua dificuldade em respirar depois de ser atacado por uma besta dentro do pântano onde trabalhava a agricultura. Nunca antes havia se mostrado a um humano, mas algo profundamente enraizado a fez querer cuidar daquele jovem rapaz. Pousou em uma distância curta para que ele pudesse vê-la antes de se aproximar. Não queria que ele se assustasse a ponto de pôr fim a sua vida terrestre. Assim que o enxergou tão de perto, viu seu espirito, ainda jovem, sua primeira vinda a terra, assustado com o processo de desencarnação. Se prostrou em oração, ao mesmo tempo em que sentia o espirito substituir medo por esperança. Voltou a olha-lo e se aproximou lentamente, encarando seus olhos por onde via sua alma. Linda, brilhante e pura. Se ajoelhou ao seu lado e abriu as asas o protegendo das bestas terrestres. O pegou em seus braços e voou até as montanhas ao norte, longe de qualquer humano.

            As luas passaram sem que as contasse. Cuidou das suas feridas e o alimentou. Não haviam trocado palavra alguma, se comunicavam através do olhar, em uma simbiose única. Quando o corpo em que o espirito habitava se tornou forte o suficiente, faziam longas caminhadas pelas montanhas e planícies ao redor do reduto que haviam construído. Tinha se desviado do plano do divino ao se refugiar naquelas terras, isolados do resto da humanidade.

            As migrações dos animais indicaram o frio que se aproximava. Foi nesse período que trocaram as primeiras palavras.

            — Temos que partir – anunciou a criatura enquanto olhava para a planície a distância.

            O homem a olhou espantado por saber falar sua língua, mas não colocou em palavras. Ao contrário, apenas perguntou.

            — E qual a razão de sairmos desse paraíso?

            — O frio se aproxima. Em três luas estará presente. Seu corpo vai sucumbir.

            — Podemos nos aquecer. Faremos fogo e usaremos nossos corpos.

            — A ira divina recairá sobre nós.

            — Um Deus tirano jamais criaria uma criatura tão bela.

            A criatura o olhou em silêncio. Já tinha visto a queda dos anjos. Conhecia a força Divina que a criara. Diante da sua taciturnidade, o homem continuou.

            — Como devo chama-la, ou chama-lo, agora que compreende o que digo.

            — Almozsaaladiel.

            — Me chamam de Hasmut. O que você é?

            — Uma criação divina.

            — A mais bela criação divina.

            — Me descreva – pediu a criatura se ajoelhando na frente do homem – não consigo me enxergar sobre as aguas.

            — Você tem uma tez de ternura e suavidade que jamais encontrei em nenhum ser humano. Olhos negros e sábios que enxergam minha alma. Cabelos tão negros e brilhantes como a noite. Pele branca como a neve, lábios grossos como a mais suculenta fruta – finalizou tocando sua boca.

            Almozsaaladiel fechou os olhos e baixou a cabeça por poucos segundos. Não lhe fora concedido o livre arbítrio, qualquer escolha diferente de retomar seu posto de protetora, lhe seria infligido a ira divina. Mas quando pensava nisso, não conseguia imaginar nada pior que se afastar daquela alma.

            — Fique aqui comigo? Não precisamos voltar aos povos – pediu o homem. – Já temos um ao outro.

            — אלו”ים יר—ם – disse a criatura em resposta.

            — Não compreendo essa língua.

            — Voltarei em breve, Hasmut – respondeu tocando seu rosto. – Logo o sol irá se por. Prometo que voltarei.

            A criatura saiu da caverna e alçou voo até o cume mais alto da mais alta montanha a leste, onde o sol nasce. Se colocou em oração por quatro luas, pedindo orientação do altíssimo. Diante do silêncio como resposta, voou novamente ao local onde o espirito estava. Não podia estender sua espera pela resposta divina: o tempo humano era totalmente contrário do que dispunha.

            — Você esperou – falou quando viu Hasmut repousado no monte de folhas.

            — Pela eternidade se preciso.

            — Que seja pelo tempo permitido pelo altíssimo.

            Aquela tinha sido sua escolha. Se rebelara contra forças superiores para se entregar ao pecado original. A união que se deu não foi carnal. Foi o encontro de dois espíritos unidos desde a criação. Arrebatador.

            Os dias frios foram substituídos pelas flores dos campos. Durante incontáveis luas cheias viveram esquecidos naqueles montes. As marcas do tempo começaram a aparecer no rosto do homem que passou a amar com toda intensidade. Em comparação ao tempo que ainda teria na terra, aquele breve período era semelhante à única hora de sol no mais longo tempo de frio entre cinco luas cheias.

            Almozsaaladiel sentia que a hora da separação se aproximava. Não apenas pelo tempo que já estava visível no corpo humano em que o espirito habitava, mas pelo sentimento de perda e dor que começava a dominar seu corpo metafisico. Todos os dias se prostrava em oração, ao nascer e pôr do sol. Pedia a misericórdia do altíssimo por ter se desviado da sua missão na terra, por ter se entregado ao pecado original. Porém, de toda a punição que pensara receber, jamais esperava algo tão cruel.

            O véu que separava o terreno Divino era fino o bastante para que mesmo humanos pudessem sentir a misericórdia divina apenas ao fechar os olhos e se prostrar em orações, grosso apenas para que seus olhos não contemplassem a glória celestial antes dos tempos que ainda seriam anunciados. Sentiu sua presença que descia das alturas, tão palpável como se pudesse vê-lo. Sua majestade fez uma vibração na terra, sentida através de um tremor aos humanos. Hasmut também sentiu indo ter com ela no lado de fora da caverna, passos vacilantes pelo corpo envelhecido.

            — És chegado o tempo – falou Almozsaaladiel ao avistar a caravana envolta em glória. Imperceptível aos olhos humanos, mas claro como o amanhecer aos seus. Resplandecente e límpida como a mais bela pedra preciosa.

            — Estás vendo algo?

            — Por todas as incontáveis luas que passamos abrigados nessas montanhas, longe dos olhos humanos, te agradeço pelo amor que me dispensastes. Independente dos caminhos do Criador, guardarei este breve espaço de tempo por toda a eternidade.

            — Vamos nos separar? – Hasmut perguntou ainda perdido em sua própria ignorância humana.

            Almozsaaladiel pegou suas mãos e depositou um beijo em resposta. Se afastou o suficiente para esticar as asas, emanando energia para que o arcanjo a localizasse. Não que aquele gesto fosse necessário, mas para mostrar que apesar do ato de rebelião, estaria sempre às ordens do Altíssimo. Fechou as asas e se prostrou aguardando a chegada da caravana.

            — O reino de glória já não te pertence, Almozsaaladiel. Contudo, a misericórdia do altíssimo recai sobre ti, não serás lançado as profundezas com os anjos caídos. A terra será sua moradia pela eternidade. Não serve mais aos propósitos Divinos, mas nenhuma espécie, homem ou animal, pode lhe fazer mal. Sua punição por seu ato de rebeldia serás buscar por quem entregou sua santidade até que os dias da terra se findem. Não terás mais a aparência concedida aos puros. Serás marcado pela impureza de seus atos para que nunca se esqueças dos teus pecados.

            Ainda de joelhos e sem ousar levantar os olhos ou lhe dirigir a palavra, Almozsaaladiel ouviu seu veredicto. O arcanjo partiu sem mais palavras, Não sentiu dor quando seus membros começaram a se esticar, alçou os olhos aos céus, enquanto sentia o corpo metafisico se contorcer. Que assim fosse.

            Voltou os olhos para a terra sem ousar encarar Hasmut naquele momento. Da mesma forma como tinha sido na primeira vez que o encontrara, agora também tinha que esperar que ele se acostumasse com a sua aparência.

            Hasmut se aproximou lentamente, colocou uma mão em sua cabeça e deixou ela escorregar pelo rosto o levantando lentamente. A criatura não tinha mais a beleza Divina que carregava durante todo o tempo que a conhecera, mas ao enxergar seus olhos, todo o amor que os uniu estava presente e foi esse amor que lhe deu o impulso de abraça-la.

            — Não importa sua aparência. Eu amo sua alma. Quem você é.

            — Estaremos juntos pela eternidade. Eu sempre vou te encontrar, não como uma punição, mas porque é minha metade. A parte que sempre vai me faltar.

            Hasmut desencarnou pela primeira vez depois de duas luas. Pela primeira vez sentiu a dor da perda, pranteou a partida de Hasmut e guardou luto por muitas luas até que, pode enfim, experimentar também o sentimento concedido somente aos humanos, a esperança que em breve ele estaria no plano físico novamente.

 

                 Almozsaaladiel parou de andar a esmo somente quando o relógio marcou sete horas da manhã. Em breve a mulher onde o espirito habitava acordaria. Como sempre acontecera, desde que a encontrara, queria sentir seu primeiro suspiro pela manhã e acompanhar desde os seus primeiros passos.

 

Nota autora - No trecho em hebraico (sim aquilo é hebraico, algum erro de código, eu acho), segue a regra do arabe do alinhamento a esquerda e não ao inverso como é o correto. Tradução - Deus tenha misericórdia. 

 

 

 

 

 

 

Notas finais:

 

Oi oi lindonas!!!

Amores, bora lá para algumas explicações. Primeiro de tudo, desculpas pela falta nas postagens esses dias, mas não rolou. 

Quem lembra do começo do ano, eu fiz um transplante de cornea no dia 22 de janeiro, mas tive reação inflamatória dos pontos, logo deu rejeição do transplante, ai no começo de março, dia 08 ficou marcado outro transplante, mas nem falei nada pq achei que ia voltar de boa, já que era o segundo. Pois bem, meu corpo ficou com putaria novamente de rejeitar a sutura. (sim, alergia a linha usada. muita fuleragem) e nessa resolvi me desligar quase em 100% de computadores e celular pra ver se melhorava, porém ganhei uma hernia de iris, ai lá vai eu pro centro cirurgico de novo, foi uma putaria sem sim.

Resumindo, meu olho esquerdo deu pt. Tem que recuperar ele (tecido pq visão mesmo já era), investigar o pq eu tenho tanta intolerancia a linha de costura, e, se eu estiver de bom humor, fazer um novo transplante no futuro. Com uma distância de pelo menos um ano. Oremos!

Oremos muito! Obrigada a todas que torceram, que me mandaram vibrações positivas, vcs, como sempre, foram fantasticas! 

Postagens agora voltam ao normal.  Segue o baile!

Bjokassssssssssssssssssssssssss

 

 

 

 

Capitulo 4 por Drikka Silva
Notas do autor:

 

 

 

 

 

Andressa parou na calçada enquanto olhava ao redor atentamente. As marcas do acidente, ocorrido na noite de sexta anterior, ainda eram visíveis no asfalto e no poste danificado do outro lado da rua. Calculou a rota do carro que a atingiria em cheio se ele não tivesse sido tirado da avenida. Sim, aceitara o fato surreal de que o carro tinha sido tirado do seu trajeto que, com toda a certeza, culminaria na sua morte. Que força tão poderosa teria feito aquilo? Se questionava.

            Desde pequena não se lembrava em nenhum momento da sua trajetória de ter tido fé em algo superior. Não havia frequentados igrejas, templos, centros de orações. Não fora educada dentro da doutrina cristã, judaica ou hinduísta. Não conhecia rituais das religiões africanas, indígenas ou protestantes. Não se considerava uma ateia, mas também não clamava pela misericórdia de um ser transcendente. Era apenas ela. Suas metas eram atingidas por suas ambições pessoais e seus fracassos atribuídos a algum descuido próprio.

               Era inegável, no entanto, que algo surreal tinha acontecido na noite anterior. Algo que ultrapassava sua existência de carbono. Algo que não vira com os seus próprios olhos, mas que sentira sua presença protetora, cuidando de forma eficaz para que pudesse ter a oportunidade de voltar ao local onde tudo ocorrera e ter aquela reflexão. Queria entender, queria ver o que tinha exatamente acontecido ali. Quem sabe uma câmera daria a imagem que seria perfeitamente explicado pela ciência.

              Passou nos prédios localizados naquela esquina, mas nenhum podia liberar as imagens das câmeras de segurança. Obviamente não podiam. Não era policial, juiz ou algum representante da lei para ter acesso aquilo. Era somente a pessoa que tivera sua vida poupada por algo que não sabia explicar.

            — Está tudo bem Andressa? – perguntou Cibele, uma colega do trabalho. – Você anda bem distraída ultimamente.

            — Está. Soube do acidente, na sexta, na avenida detrás? Ali, quase de frente o metrô?

            — Fiquei sabendo. O carro bateu no guarderreio e capotou. Travou todo o trânsito sentido zona sul.

            — Eu estava lá. O carro ia me atingir – explicou Andressa encarando a colega. – O carro não bateu no guarderreio. Passei lá agora. Não tem marcas de nada que fizesse ele capotar do jeito que capotou.

            — Sério?! – exclamou. – Caramba! Que sorte teve. Graças a Deus não te aconteceu nada.

            — Acredita nisso?

            — No que?

            — Que graças a Deus nada aconteceu?

            — Foi um livramento, não foi? Se não foi Deus quem te poupou, quem mais seria?

            — Não sei – respondeu somente. “Mas pretendo descobrir” completou em pensamento.

            Andressa começou uma busca desenfreada em procura de algo que pudesse fazer sentido. Leu matérias de física, deslocamento de objetos através da parapsicologia e poltergeist. Nada daquilo fazia a menor coerência. Primeiro física: precisava que algum objeto exercesse força na lateral do carro. Essa hipótese já era descartada pois nada batera no veículo. Segundo parapsicologia: não tinha desejado que aquele carro saísse do seu caminho. Não se lembrava de ter pensado em nada. Não sentira nem mesmo medo. Ficara completamente travada. Terceiro: poltergeist, que era a pior das hipóteses. Não queria acreditar que conseguia mover objetos alheios a sua vontade por ira ou qualquer sentimento espiritual negativo que carregasse. Era completamente arbitrário as suas ideologias. Se não acreditava que um Deus a tinha salvo, menos ainda que um demônio a tinha possuído.

            Voltara a estaca a zero. Se fixou nos segundos posteriores ao acidente. Exatamente na sombra se movendo em velocidade na lateral do prédio. Já tinha explicado aquela parte como fruto da imaginação causada pela adrenalina do momento. Tinha certeza absoluta que não era uma alucinação psicótica. Impossível também que tivesse tido um ataque de estresse pós traumático. Não tivera tempo para isso.

            Os dias a devolveram a sua rotina de trabalho casa, casa trabalho. A impressão de que estava sendo seguida apareceu por mais duas vezes, mas igual as outras, não tinha nada atrás dela. Talvez devesse levar em consideração procurar a ajuda de algum psicólogo: essa sensação de ser seguida e de ver vultos poderiam, muito bem, ser sintomas aparecendo lentamente de alguma enfermidade maior.

            Foi na sexta feira, oito dias depois do acidente, que teve a confirmação de que estava lidando com algo que não tinha explicação plausível.

            — Você viu o vídeo que está rolando? – perguntou Cibele se apoiando em sua mesa. – Lembrei de você na hora.

            — Que vídeo? – devolveu Andressa confusa.

            — Do acidente! Achei que já tinha visto – respondeu vitoriosa ao pegar o celular e esticar para a colega.

            Andressa pegou o aparelho estendido na sua direção e deu play no vídeo pausado. O vídeo era de uma câmera de segurança e mostrava o transito na avenida atrás do trabalho. Pode se reconhecer pelas roupas que vestia na ocasião: uma calça azul e uma blusinha branca. O sinal mudou e começou a atravessar a rua. Em segundos se viu levantando os braços e o carro tombando de lado. A imagem ficou preta para voltar em segundos no slow. Somente reduzindo a velocidade da imagem era possível ver a sombra negra que se aproximou e bateu no carro para sumir em seguida.

            — O que é isso? – perguntou com o coração levemente disparado.

            — Não fazem ideia. O texto que acompanha o vídeo diz que é um anjo.

            Andressa não pode deixar de rir. Um anjo!

            — Não acredita?

            - Acredito que um anjo tem coisas mais importantes para fazer do que ficar me protegendo. A guerra civil na Síria é um bom exemplo. Ele teria bem mais utilidade lá.

            - Talvez você seja especial – riu.

            - Sério, Cibele? – perguntou com uma careta. – Eu acho que essa sombra nada mais é que alguma pressão que escapou de algum lugar naquele momento. Só tive sorte.

            - Ok. Agradeça a Deus por essa pressão de ar ser tão precisa de escapar bem na hora que você ia ser atropelada por um carro com velocidade acima de cem quilômetros por hora.

            - Ninguém morre antes da hora. É regra da vida.

            - Tudo bem. Vamos acreditar nisso.

            - Vamos – concordou Andressa.

            Por mais que quisesse se convencer do que tinha dito a Cibele era verdade, visto sua incredulidade a algo sobrenatural, era inegável que sua teoria tinha muitos pontos falhos. Se baseando na física, uma explosão de ar muito forte teria que ter acontecido causar força o suficiente para fazer o carro tombar. Isso se ele estivesse parado. Em movimento – e em alta velocidade, atribuindo mais peso a matéria – a força incidiria sobre a lateral do veículo fazendo ele sair em um ângulo de, no máximo, sessenta graus. Não acontecera nenhuma explosão e o carro saíra em linha reta. Nada explicava o que tinha acontecido.

            Durante os dias seguintes, Andressa tentou não pensar no acidente. Se não havia uma explicação, o melhor era deixar pra lá. Tivera sorte. Só isso.

            Os dias se converteram em um mês. Outras preocupações tomaram conta da lembrança do acidente e raramente se lembrava do episódio. Quando isso acontecia, tratava de afastar com um suspiro.

            - Oi amor – Andressa cumprimentou Vitória pelo telefone. – Vai chegar mais cedo hoje?

            - Hoje não linda. Tenho aula até as dez da noite.

            - ok. Já comeu alguma coisa?

            - Já sim. Comprei um lanche agora a pouco. Não precisa se preocupar com o jantar.

            - Ok então. Vou comprar alguma coisa por aqui também. Não estou nem um pouco afim de ir para o fogão.

            - Não se preocupe – respondeu Vitória com o tom de voz afável. – aproveite para descansar.

            - Vou fazer isso. Quando chegar, se eu já estiver dormindo, tenta fazer pouco barulho. Estou com uma dor de cabeça daquelas.

            - Tá bom amor. Bom descanso.

            - Até mais tarde linda. Ou amanhã – completou com um risinho antes de desligar o telefone.

            Andressa olhou ao redor do apartamento procurando por Dexter. O encontrou rente a janela enquanto olhava fixamente para um ponto no escuro. Seus pelos arrepiados indicava que estava com medo de alguma coisa. Se aproximou da janela e esquadrinhou a vizinhança. Nada parecia fora do normal para causar tanto medo ao gato.

            - Você anda muito estranho Dexter – falou ao pega-lo no colo. – Preciso ir no mercado e o senhor vai ficar quietinho aqui dentro.

            Depois de fechar o apartamento, saiu para a rua. Várias pessoas transitavam por ali, mas passou alheia por todas. Já no mercado escolheu um pacote de pão e frios. Já estava no caminho de volta quando o celular tocou com uma mensagem. Pegou do bolso da calça e abriu para ver a mensagem de Vitória. Dizia que ia esticar um barzinho com o pessoal do curso. Estava respondendo que tudo bem, quando entrou na viela próxima para cortar caminho até o apartamento.

            - Passa o celular! Passa o celular!

            Andressa travou ao escutar voz nervosa. Levantou os olhos para ver os dois marginais que a abordava. Um deles portava uma arma apontada na sua direção. Segurou firme o aparelho e não soube o que falar ou fazer. Um dos rapazes repetiu a ordem ao pegar seu braço com violência. Deixou as sacolas caírem no chão quando foi empurrada contra o muro.

            - Deixa ela ir – ouviu a voz serene atrás dos rapazes.

            Andressa levantou os olhos para a voz e enxergou a bela mulher que povoava seus sonhos. Se antes estava estática por causa do assalto, agora exibia total incredulidade ao ver que a morena tomava dimensão real.

            - E você vai fazer o quê? – perguntou o rapaz virando a arma na sua direção.

            - Kyrie eleison – respondeu a mulher ao fechar os olhos. - Ab omni malo custodiat.

            Andressa ficou assistindo assustada enquanto a mulher desarmava o homem jogando-o contra uma parede e atingia o segundo com a perna, fazendo ele cair mais afastado. Os dois homens se arrastaram para longe delas, para tentarem se levantar já perto da avenida. Voltou os olhos assustada para a mulher a sua frente que a encarava com uma ternura ímpar. Ela tocou seu rosto lentamente transmitindo toda a paz que emanava. O toque suave fez seu medo sumir instantaneamente.

            - Eles iam te matar – falou a mulher. – Não podia permitir isso.

            - Como sabe disso?

            - Vá em paz. Nenhum mal lhe acontecerá – respondeu somente.

            - Qual o seu nome?  - perguntou Andressa quando ela fez menção de se afastar.

            A mulher parou e fechou os olhos. Não era o momento de ela saber, mas não podia mentir.

            - Saberá no momento consagrado pelo Altíssimo.

            Andressa acompanhou os passos da mulher até o final da viela. Assim que a figura em trajes preto sumiu, se permitiu ter alguma ação. Recolheu as sacolas do chão e seguiu o caminho contrário. O coração estava disparado no peito, mas não era por causa da tentativa de assalto. Ela era real. A mulher que povoada suas noites, era real. Não podia deixar ela ir daquela forma.

            Voltou correndo para a viela e atravessou rápida para a rua. Parou no meio do asfalto olhando ao redor. Passou a mão no cabelo em uma demonstração de desalento: a encontraria novamente. Tinha essa certeza dentro de si, tão clara como a agua. Ela a encontraria.

 

 

 

 

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!!!

Nossa anjinha é boazinha neh?! hehehheee

 

Ate domingo!!!

 

Bjokassssssssssss

 

Ps **

 

O grupo TamoJuntas nasce por conta da campanha #MaisAmorEntreNos com o intuito de atender mulheres vitimas de violência de forma gratuita, a partir da advocacia probono prevista no Estatuto da OAB.

 

 

 

Capitulo 5 por Drikka Silva
Notas do autor:

 

 

 

 

 

               A criatura observou a mulher no meio da rua a procurando. O primeiro chamado de sua alma acontecera. Sentia isso nitidamente na distância curta que as separavam. Ainda abaixada no telhado de uma casa próxima, viu o espirito adquirir uma aura brilhante, como não tinha visto nela antes. A mulher voltou para a viela andando devagar com a cabeça levemente baixada, mas sabia que não era de tristeza: ela também fora renovada com esperança. Mesmo que não se conhecessem no plano terrestre, se conheciam no espiritual e lá sempre estariam ligadas.

            Almozsaaladiel acompanhou a mulher até em casa, pulando pelos telhados. Assim que ela entrou no apartamento, se encostou no parapeito do prédio que havia se tornado seu reduto. Observou enquanto a morena deixava as sacolas sobre a mesa antes de ir se sentar no sofá ao lado do felino.

            - Quem será ela? – a ouviu conversar com o animal. – Como ela pode sair dos meus sonhos e se materializar na minha frente? Como ela é linda... Tem uma paz tão grande! Como é possível isso?

            Durante um longo tempo, a mulher permaneceu encostada no sofá olhando para o nada, com o pensamento distante. Com uma paz reconfortante, sentia sua energia chegando em ondas. Podia não saber exatamente o que ela estava pensando, mas tinha certeza que era nela. A morena se levantou do sofá por duas vezes e caminhou até a janela. Na segunda vez, ela mirou o céu e depois o local onde estava. Era nítido a sensação de que ela estava a enxergando, mas tinha a segurança que nenhum olho humano podia vê-la ali, ao contrário do felino que a enxergava exatamente como era, todas as vezes que se aproximava da janela.

            Duas horas depois sentiu a presença da outra mulher que ocupava o apartamento. Olhou para a esquina e enxergou o carro onde ela sempre chegava desde que tinha começado a se envolver com a mulher ruiva. Pulou do prédio e andou até o local para sentir sua aura mais próxima. Ela estava carregada, emanava uma forte onda de energia negativa ao mesmo tempo que se entregava ao prazer fugaz dentro do veículo. Fechou os olhos em uma prece ao Altíssimo para que nenhum sentimento ruim a afligisse. Por mais que tinha consciência do ato errôneo do espirito jovem, não podia julgá-la e nem lhe desejar mal. Os seus erros determinariam o seu crescimento.

            A loira desceu do carro depois de quarenta minutos. Ela caminhava distraída para o apartamento e não percebeu a mulher que vinha na sua direção.

            - Me desculpe! – pediu Vitória depois de colidir com a mulher morena.

            - Fique em paz – respondeu a criatura colocando a mão no seu braço. Por poucos segundos a encarou para desviar em seguida.

            Vitória ficou olhando a mulher se afastar. Se virou para a entrada do prédio e abriu o portão. Antes de entrar no hall esquadrinhou a rua mais uma vez sem enxerga-la mais. “Que figura estranha” pensou. Não era todo dia que encontrava uma pessoa trajando um sobretudo no calor de vinte e cinco graus em São Paulo. “Talvez ela esteja doente”. Era isso. Deixou a estranha pra lá e voltou a pensar no problema que queria resolver aquela noite. Estranhamente, a coragem que tinha reunido durante todo o dia para terminar com Andressa se esvaiu. Provavelmente a esposa não estava bem ainda. Quando tinha dores fortes de cabeça, só ficava bem no dia seguinte. Era isso. Iriam conversar no dia seguinte.

            Almozsaaladiel voltou para o parapeito do prédio, de onde tinha saído hora antes. O espirito continuava no mesmo lugar, ainda perdida em pensamentos. O barulho da porta desviou sua atenção para a esposa que chegava.

            - Oi amor! – cumprimentou Vitória. – Achei que te encontraria na cama já.

            - Aconteceu uma coisa estranha hoje – respondeu Andressa ainda sentada no mesmo lugar. – Sofri uma tentativa de assalto.

            - Caramba! Mas você está bem? Te fizeram alguma coisa?

            - Não. Uma mulher apareceu e evitou que algo pior acontecesse.

            - Que sorte! Foi na hora que foi ao mercado?

            - Sim. Dois caras me abordaram pedindo o celular.

            - Tá com o corpo aberto hein?! Primeiro o quase acidente, agora o quase assalto. Vamos tomar um banho de sal grosso?

            - Boba – riu Andressa. – Que perfume é esse?

            - Uma colega da faculdade resolveu tomar um banho de perfume e passar pra todo mundo – respondeu Vitória com naturalidade. – Comeu alguma coisa? E a dor de cabeça?

            - Perdi a fome depois do que aconteceu. A dor de cabeça passou. Acho que devido ao susto.

            - Provavelmente. Vamos para o quarto então. Mas falando sério, você tem que tomar cuidado. Foram dois eventos muito próximos.

            - Eu vou me cuidar mais. Pode deixar.

            Andressa seguiu a esposa, mas suas palavras ficaram martelando na sua cabeça. Dois eventos muito próximos. Dois eventos que colocaram sua vida em risco sendo evitados por algo estranho. Primeiro o carro saindo da pista, segundo a mulher dos seus sonhos surgindo do nada para defende-la. Seria apenas coincidência?

              Almozsaaladiel pulou do prédio e caminhou para a casa que tinha alugado duas quadras atrás do prédio onde o espirito habitava. Abriu o portão e entrou na garagem para depois alcançar a sala. Absalom, seu servo, já abria a porta para que pudesse passar.

            - Gratissimum – cumprimentou o senhor com um aceno.

            - Deus pacis erit vobiscum

            - Amen. Algum problema para voltar sem ele? – perguntou, preocupado, se referindo ao espirito.

            - Ela está ligada a outro espirito. Não posso interferir – explicou ao entrar na sala. Desde que alugara ali, tinha voltado poucas vezes durante os anos. – Tudo em paz por aqui?

            - O Senhor tem nos guardado.

            - Ficarei em oração. Preciso renovar minha energia.

            - Guardarei a casa.

            A criatura concordou com um aceno de cabeça e subiu para o quarto. Olhou ao redor analisando as paredes cobertas de runas, que remontavam a um tempo antigo, mesmo antes da grande inundação. Tirou as roupas lentamente olhando para os símbolos que cobriam as paredes. Se ajoelhou e clamou ao Altíssimo usando a língua reservada aos celestiais. Lentamente sentiu o corpo se expandir dentro do invólucro humano. A carne se rompeu para libertar o corpo original. Esticou as asas emanando toda a energia negativa que havia absorvido para ficar livre de qualquer sentimento ruim que viesse se alojar.

            Liberta completamente do corpo humano, se abaixou sobre o chão, encostando a testa no piso para se conectar com o Divino. As horas se passaram como se fossem segundos. Era pouco o tempo que dispunha, uma vez que estava condicionada ao tempo da mulher que o espirito habitava. Sentia falta dos anos que passava conectada com o mundo espiritual, mas sempre que o espirito estivesse encarnado, seu tempo seria dedicado a ele. Sabia que a espera até outra vinda seria longa. Não podia perder seu breve momento na terra.

            Devagar se levantou esticando todos os membros do corpo. Abriu ao máximo a envergadura das asas para tornar a junta-las. Andou até o espelho no canto e concentrou sua energia, criando um novo invólucro. A mulher novamente ressurgiu no reflexo, a casca que habitava.

            No quarto ao lado, se vestiu, olhando para as roupas que possuía no armário. Tinha que fazer algumas compras para se misturar a multidão. Percebia, quando se permitia ser vista por um humano, o estranhamento com suas vestimentas. Colocou as primeiras peças que encontrou na sua frente e desceu as escadas para encontrar Absalom sentado em uma cadeira com as escrituras na mão.

            - Actutum advenias – anunciou.

            - Ut custodiat te.

            Almozsaaladiel saiu da casa e esquadrinhou a rua, para se certificar de que nenhum humano estava por perto, antes de pular para o telhado vizinho. Em segundos chegou ao prédio onde havia passado grande parte dos últimos anos. Faltava cinco minutos para que a mulher acordasse para iniciar sua rotina matinal.

                        Andressa esticou a mão para desligar o celular antes que ele tocasse. Tinha passado a maior parte do tempo acordada, pensando no que tinha acontecido na noite anterior. O que faria para encontrar a mulher novamente? Ela devia ser da redondeza; poucas pessoas passavam pela viela onde havia sido abordada. Somente os moradores da região conheciam aquele trajeto.

            Afastou as cobertas e seguiu para a cozinha e depois banheiro. Durante todo o tempo, não conseguiu desviar seus pensamentos da mulher morena. Quando chegasse do trabalho, ia começar sua procura.

            Pontualmente as seis da tarde, descia do ônibus no ponto próximo de casa. Sua primeira parada foi na padaria que havia próximo a viela. Perguntou para os funcionários sobre a mulher, dando riquezas de detalhes sobre sua aparência, mas ninguém a conhecia. O mesmo aconteceu no mercado e na farmácia. Quando voltou para casa, já passava das sete e meia da noite e nenhuma informação, que despertasse uma vaga esperança vã, havia sido encontrada.

             Na manhã de sábado, descobriu que Dexter havia fugido. Vitória tinha saído cedo para fazer um trabalho da faculdade e só voltaria depois do almoço. Provavelmente ela nem tinha visto a hora que o gato fugiu. Saiu preocupada a sua procura. Dexter era um gato que sempre fora criado dentro do apartamento, não saberia se cuidar, solto na cidade. Andou toda a quadra procurando pelo bichano e não o encontrou. Expandiu a procura para a rua de cima, mas nada. Subiu mais uma quadra olhando para todos os lados, procurando por alguém que o tivesse visto. Estava a ponto de encerrar sua procura quando o avistou dentro de uma garagem, brincando com uma bolinha.

            - Dexter! – chamou brava. – Vem aqui seu fujão!

            O gato a olhou despreocupado, voltando a brincar com a bolinha. Chamou mais duas vezes sem sucesso. O jeito era tocar a campainha. Esperou exatamente dois minutos até enxergar o senhor que abria a porta da frente.

            - Sanctus Dei. Quid hic agis? – exclamou o homem assustado ao enxerga-la.    - Me desculpe. Não compreendo sua língua. Sabe falar o português? Esse gato é meu. Ele fugiu de manhã.

            - Non potes hic – tornou a falar na língua desconhecida enquanto saia completamente para a garagem – isso interfere na ordem!

            - Eu não sei do que está falando – respondeu Andressa com uma careta. Só quero meu gato.

            Andressa observou receosa enquanto o homem se aproximava do portão. Ele usava uma túnica azul, provavelmente alguma vestimenta do Oriente. Não conhecia aquele tipo de traje. Assim que se aproximou do portão, ele olhou atentamente para o alto, muito além dela. Quando voltou a encara-la, abriu um sorriso.

            - Me desculpe o mau jeito – falou em um tom afável. – Não costumo receber visitas. Então este gato é seu? Ele apareceu hoje de manhãzinha.

            - Sim. Acho que a porta ficou aberta e ele escapuliu. Posso pega-lo?

            - É claro. É seu, não é?

            - Sim – respondeu Andressa entrando na garagem. – Qual língua falava? Não parece estranha, mas não conheço.

            - Latim. Pouco usada no mundo contemporâneo.

            - Raramente usada – concordou Andressa. – A não ser em algumas missas.

            - É a língua oficial do Vaticano.

            - E já esteve lá?

            - Sim. Por diversas vezes. Vaticanum, Viterbo, palácio de Latrão. Memórias de um tempo longínquo.

            - Esteve em algum conclave?

            - Já vi muitas coisas nessa vida. Não pode imaginar o tanto. Inclusive conclaves. Palavra recente no vocabulário.

            - Como assim? Ela não é recente. Papas existem desde o início da Era Cristã.

            - Somente aquela que buscas lhe dará as respostas. Sugiro que não pense nisso. Pegue seu felino e siga na paz do Criador.

            Andressa o olhou atentamente antes de se abaixar e pegar o gato. Agradeceu e saiu pelo portão. “Um neurótico religioso” pensou. “Só isso”.

 

 

 

 

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!

Mais um cap! espero que tenham curtido!

 

Bjokasssssssssssss

 

 

 

Capitulo 6 por Drikka Silva

Andressa entrou em casa e se certificou que Dexter não teria como fugir mais. Pensou, por um longo tempo, no homem que havia encontrado. Aparentava seus sessenta anos, ou um pouco mais, estranho, mas ao mesmo tempo passava confiança, uma mistura estranha de sensações. Sem contar no conhecimento que aparentava ter: desde pequena gostava de ouvir pessoas mais velhas conversando, transmitindo uma carga de conhecimento e experiência que nunca teria na vida, dado a passagem geracional. Havia ficado, de fato, curiosa com ele.
            Durante todo o final de semana se desligou do mundo fora do apartamento para dar atenção à casa e a Vitória. Durante toda a noite de sábado, assistiram séries, filmes, se amaram e voltaram ao reduto particular que cultivavam. Aquele era um dos momentos que mais apreciava no casamento: a tranquilidade da vida a dois.
 
Cairo – 1190


            O choro da criança despertou a criatura do seu estado de transe. Fechou os olhos e se concentrou para enxergar o lugar de onde havia vindo o fôlego de vida. A colina verdejante era clara de ser vista, assim como a tranquilidade rural e o rosto da mulher que trouxera à luz um dos espíritos mais antigos a vagar pelo mundo. A criança, uma menina de bochechas rosadas, chorava copiosamente nos braços da parteira. A criatura sentiu seu corpo metafisico se encher de paz ao ver quão forte a criança aparentava ser. O que fez sua paz de espirito ir embora, foram os cavaleiros que enxergou em seguida: Vários, trajando túnicas brancas com uma cruz estampada do peito. Abriu os olhos e olhou tensa ao redor. O sol se punha no delta do Nilo, tingindo o céu de matizes alaranjados. À sua frente, as pirâmides rainhas adornavam o horizonte. Olhou para a tenda mais abaixo onde seu servo a aguardava e se levantou para chegar até ele com um pulo.
            - És chegado o tempo, todavia temos que partir de imediato – anunciou ao entrar na tenda.
            - Algo de errado?
            - A criança está na França, porém perto dos soldados de cristo.
            - Está no meio da guerra santa? – perguntou Absalom preocupado.
            - Não consigo afirmar. Partirei de imediato.
            - Seguirei em breve – anunciou o servo. – No mais tardar, ao cair da noite.
            -Et costudiat te.
            - Amen.
            Absalom ficou olhando ao longe, enquanto a criatura sumia de suas vistas rapidamente nas alturas. Se colocou em oração e pediu proteção aos céus. Levantou-se e começou a desfazer a tenda. Seguiria Almozsaaladiel até o fim de seus dias, quando sua missão fosse cumprida na terra. Devia-lhe não só a vida longínqua da qual desfrutava, mas também a limpidez de pensamentos. Pensamentos esses antes que eram cheios de trevas, mas que o anjo havia havia clareado com sua bondade e devoção ao espirito de Hasmut.
 
            Vale de Sidim – Amorah 3123 A.C 
 
            Almozsaaladiel olhou, consternada, as cidades que compunham o Vale de Sidim. As maldades da humanidade haviam chegado a tal ponto que não era possível colocar em palavras. Se tratavam como animais, perdidos na própria ignorância, negando a existência do Criador e cultivando deuses pagãos que serviam apenas para os seus próprios propósitos. Por diversas vezes, interferiu no caminho de forasteiros para que se desviassem daquela região. Se pudessem ficar o mais longe possível das iniquidades daqueles povos, mais tempo teriam de vida sobre a terra.
            Havia chegado a Sodom depois de sentir que o espirito de Hasmut estava prestes a reencarnar novamente, já concebido. Desde a primeira vez que o tinha encontrado, às margens do Eufrates, haviam se passado quase três milênios. Sua vinda a terra acontecera por nove vezes nesse período e encontrara um padrão de reencarnação: sempre acontecia com o intervalo de trezentos a quatrocentos anos. Enquanto o espirito não estava preso em um corpo humano, cuidava para que a própria humanidade não fosse dizimada pelos próprios pecados. Não podia interferir no livre arbítrio, mas podia dar opção de caminhos e deixar à escolha, porém era incontestável o instinto natural da humanidade para a própria destruição, por isso havia decidido se afastar, observava tudo do alto, das montanhas. Quando o espirito reencarnasse, o tiraria dali para viver em paz em outro canto da terra.
            Seus planos mudaram drasticamente quando sentiu os anjos que desciam dos céus. Não tinham vindo encontra-la e nenhum outro celestial, visto que seguiam um caminho especifico. Enxergou claramente o trajeto que faziam até Sodom. Um celestial enviado à terra para falar com um humano, demarcava um evento importante, e se tratando de Sodoma e Gomorra, não poderia ser bom.
            Almozsaaladiel saiu de sua inercia e entrou na cidade. Se desviou das pessoas e se aproximou o suficiente para saber o que aconteceria. Uma revolta popular se iniciava na frente de uma casa onde os anjos haviam se refugiado. Entre eles, o homem escolhido pelo divino para que fosse progenitor do espirito. Não poderia esperar pelo nascimento. Não sabia os planos do criador, mas tinha certeza de uma coisa: aquele vale pagaria pelos seus pecados.
            - Temos que partir – falou ao tocar o braço de Absalom.
            - Tire suas mãos de mim sua...
            Absalom parou de falar ao enxergar a mulher que o abordara. A paz que ela transmitia em seu rosto, fez com que se afastasse do grupo.
            - Quem é você? Por que temos que partir? Tem a ver com os forasteiros?
            - Pegue sua mulher e sua criação. Partiremos em breve.
            Absalom obedeceu, sem questionar. Seguiu direto para o casebre e pediu que a mulher reunisse os alimentos para o sustento para uma jornada. Almozsaaladiel apenas observou enquanto se arrumavam para partir. Dentro de Absalom uma batalha se iniciava: ao mesmo tempo que seguia as ordens da estranha mulher, sua mente se rebelava para matá-la, como faziam com grande parte das pessoas que se perdiam naquelas paragens, contudo, sempre que avançava sobre ela, bastava uma palavra de conforto para que voltasse a seguir seus ordenamentos.
            Almozsaaladiel deixou o vale ao lado de Absalom e sua esposa e seguiram por uma longa caminhada pelo deserto. Não viu o que se passou no Vale de Sidim, mas escutou e sentiu a dor de um povo sendo cobrado de sua crueldade. Absalom ao seu lado também sentiu e antes que pudesse falar qualquer coisa, ele se pronunciou.
            - Salvou nossas vidas. Quem és tu?
            - Uma vagante na terra – respondeu Almozsaaladiel sem entregar maiores detalhes.
            - És divina, enviada pelos deuses.
            - Posso lhe mostrar e ensinar muita coisa, mas desejo que sua lealdade seja de igual tamanho a sua sede de conhecimento.
            - Será. Lhe asseguro.
            - O tempo nos dirá.
            E o tempo disse. Mostrou a ambos que não fora apenas vidas que haviam sido salvas. Um homem, bondoso, porém perdido no mundo das trevas, havia sido resgatado.
            Durante as luas seguintes, Absalom e Almozsaaladiel se uniram em harmonia e paz. Seguiram pelas margens do Jordão onde Anshira veio ao mundo. Era a primeira vez que o espirito vinha em um corpo feminino, foi a primeira vez que viu seu nascimento e foi, também, a primeira vez que teve um período de paz absoluta ao lado da mulher que amava. Corpo e alma.
            A esposa de Absalom desencarnou primeiro. Quando sentiu a chegada da partida do homem a quem tinha profundo amor fraternal, alçou voo até o monte e permaneceu em oração por muitas luas, derrotada por sua incapacidade de ajuda-lo. Pela primeira vez derramou lágrimas que não eram destinadas ao espirito, pedindo misericórdia ao Altissimo que, independente dos seus anos na terra, pudesse ter um pouco mais da presença de Absalom: abriria mão de metade de sua existência em busca do espirito, se pudesse dividir esse tempo com aquele homem que tanto lhe aprazia. 
            De volta aos seus, Almozsaaladiel permaneceu com Anshira durante incontáveis luas até que viu a mulher que amava, desde do nascimento, partir para o plano divino. Absalom ficou ao seu lado, transmitindo conforto sem dizer uma única palavra. Era uma simbiose única. Era aquele elo que os manteriam unidos enquanto fosse permitido pelo criador.
            Durante os milênios seguintes, viviam em perfeita comunhão. Havia ensinado a ele coisas que nenhum humano jamais tivera conhecimento, e da mesma forma, aprendera com ele sentimentos que nenhum celestial jamais provaria.
 
 
            França – 1212
 
            Almozsaaladiel observava a menina que corria para fora do casebre com um sorriso no rosto, Emlié era uma menina cheia de vontades, rebelde e brincalhona. Mesmo em tempos difíceis como aqueles, ela sempre encontrava uma razão para sorrir.
            - Saladiel! – gritou ao vê-la. – O que trouxe de bom para mim?
            - Trouxe para você e seus irmãos. É importante que saiba dividir.
            - Não vou mais precisar passar por isso. Vou defender a terra santa.
            - Quando a decisão foi tomada? – perguntou preocupada.
            - Ontem papai recebeu a ordem do regente. Somente os inocentes podem abrir o Santo Sepulcro. Só assim tiraremos os impuros de Jerusalém.
            Almozsaaladiel olhou a menina mais uma vez antes de entrar no casebre para ter com seus pais.
            - Não podem manda-la para a terra santa. Ela irá morrer – falou ao avistar os pais de Emilié.
            - Não é nossa decisão. O regente mandou suas ordens.
            - Tirarei vocês daqui, darei uma boa vida a todos, mas não a mande para os soldados – implorou.
            - Eu quero ir Saladiel – falou a pequena Emilié ao pegar sua mão. – Farei história, serei uma brava guerreira em nome de Cristo. Estevão de Cloye estará a nossa frente.
            Almozsaaladiel fechou os olhos ante sua resposta: Livre arbítrio. Não podia interferir.
            - Cuidarei de ti – respondeu ao se virar para a criança. – Nenhum mal lhe acontecerá.
            Almozsaaladiel saiu do casebre e seguiu para a casa que possuía com Absalom. Prostrou em oração, pedindo por misericórdia: sabia que iria interferir no seu destino, fazendo com que o anjo da morte viesse busca-la.
            Na manhã seguinte, uma orla de crianças saíram em peregrinação. Acompanhou de longe, pronta para agir caso algo atentasse contra a vida da pequena Emilié. Durante dias acompanhou a procissão e depois o embarque nos navios rumo a Jerusalém. Era nítido o anjo da morte entre eles. Quando desembarcaram em Alexandria, os sobreviventes já debilitados foram vendidos como escravos aos árabes. Antes que Emilié pudesse ser negociada, entrou no decadente antro onde era mantida prisioneira e saiu com a menina em seus braços, alçando voo para as montanhas. A revelação de sua origem não causou espanto a pequena Emilié, que apenas sorriu na sua direção.
            - Eu sempre soube que você é um anjo, Saladiel. Meu anjo.
            Durante os anos, Almozsaaladiel cuidou do seu crescimento, das suas necessidades até que se tornasse a mulher pela qual havia esperado. Por outros tantos anos viveram unidas, longe dos olhos humanos. Os pais nunca souberam o paradeiro da pequena Emilié. Absalom sabia o que tinha acontecido: Almozsaaladiel estava tendo seu breve momento de felicidade na terra.
 
            Tempos atuais
 
            Andressa terminou de se vestir e olhou para o relógio na mesa de cabeceira: sete da manhã. Pegou a bolsa e deu um beijo rápido em Dexter antes de sair do apartamento em direção ao ponto de ônibus. Parou de andar ao ver Vitória entrando em um carro à frente: a esposa nunca antes havia dito que tinha carona para o trabalho. Ficou olhando atentamente para o veículo, mas quando fez menção de se aproximar, foi interceptada por uma voz feminina.
            - Bom dia, Andressa.
            Andressa parou de andar e mirou a mulher a sua frente: ficou sem saber o que falar ou como agir ao ver a mulher dos seus sonhos mais uma vez na sua frente.

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!!

 

Amores, me perdoem a ausencia nas respostas dos comentários, Vou tentar coloca-los em ordem essa noite. 

Obrigada por cada feedback, li cada um e agradeço imensamente o carinho!

Até domingo!!!

Bjokasssss

Capitulo 7 por Drikka Silva

Andressa olhou para a mulher, ainda boquiaberta, sem acreditar que ela estava mesmo ali. Analisou suas feições lentamente, seus longos cabelos negros, olhos cinzentos em um tom bem claro, a pele com uma palidez de quem não via o sol durante alguns anos.

            - Você... Quem é você? – perguntou se esquecendo completamente do trajeto que estava fazendo.

            - Moro perto do seu prédio, já te vi muitas vezes.

            - Qual seu nome?

            - Fiquei preocupada com você esses dias. Parecia mais abatida.

            - Você é uma stalker?

            - Perdão, o que quer dizer isso?

            - Está me seguindo?

            - Pela eternidade – respondeu Almozsaaladiel com sinceridade.

            Andressa sorriu para a estranha, perante sua resposta. Em qualquer situação, ficaria absolutamente apavorada de ter uma maluca a seguindo, mas por alguma razão, aquela informação a deixou mais confortável.

            - Qual seu nome?

            - Saladiel.

            - Um anjo?

            - Enxerga algo? – perguntou Almozsaaladiel preocupada.

            - O final. Nomes que terminam com El significa que são de Deus. Enviado por Deus. Anjos – respondeu Andressa com um sorriso. – Cultura inútil da internet.

             - Nem tudo é inútil. Vou deixa-la seguir seu caminho. Vá em paz...

            - Não – cortou Andressa ansiosa. – Eu... Eu fiquei te procurando, depois daquele dia do assalto, quis te agradecer, mas não soube onde te encontrar. Tem um numero de celular que eu consiga falar contigo?

            - Não.

            - Aceita tomar um café comigo? Uma forma de agradecimento.

            - Depende do quanto deseja isso. Eu posso esperar.

            - Você fala umas coisas que não entendo – riu Andressa. – Eu tenho que ir trabalhar, mas quero te encontrar novamente. Não quero que se esconda de mim. E sim, eu quero muito te encontrar novamente.

            - Iremos. É nossa sina. A minha condenação.

            - Ok... Ah.... Estranho.

            - Não ligue para minhas palavras, talvez nunca entenda nesta vida.

            Andressa encarou a mulher a sua frente por um longo tempo. Que espécie de maluca era ela? O impulso natural da auto preservação sinalizava para se afastar e ficar atenta, pois claramente se tratava de uma stalker, mas algo profundamente enraizado fazia seu coração encher de paz e alegria ao contempla-la.

            - Eu vou te esperar aqui, oito horas da noite, ok?

            - Estarei lhe esperando – respondeu Almozsaaladiel ao erguer uma mão para acariciar seu rosto.

            Andressa inclinou a cabeça para receber mais do carinho, como Dexter fazia com ela. Se afastou relutante, com um sorriso preso nos lábios. Atravessou a rua até o ponto de ônibus e se virou para enxergar a morena ainda parada no mesmo lugar, observando-a. Parecia uma estátua, perfeitamente moldada pelas mãos hábeis de um competente escultor. Acenou em despedida e virou para enxergar  ônibus já parando no ponto. A cena de Vitória entrando no carro foi esquecida, e Saladiel tomou conta dos seus pensamentos o dia inteiro.

                        Almozsaaladiel fechou os olhos, agradecida ao Criador pela chance de ter o espirito ao seu lado mais uma vez. De poder conversar e toca-la. Durante os milênios, por três vezes, o espirito havia desencarnado sem que pudesse encontra-lo, mas desta vez, havia tido o privilégio de conversar com ela. Olhou ao redor e foi para um local mais afastado para que nenhum humano pudesse vê-la e saltou para alcançar um telhado.

                        Andressa passou o dia inteiro pensando em Saladiel. Era um nome bem diferente para uma mulher muito diferente do que já havia encontrado na vida. Não sabia explicar exatamente o que sentira ao vê-la, mas era algo que nunca antes havia sentido, algo sublime, intocável.

            Às seis da tarde saiu do trabalho e correu para casa. Vitória mandou mensagem informando que ia direto para a faculdade, respondeu com um simples “ok” e deixou o aparelho de lado. Tomou um banho rápido e alimentou Dexter antes de sair do apartamento. Na esquina, aonde havia encontrado Saladiel pela manhã, já avistou a morena encostada contra a parede de um comercio. O sorriso brotou de forma automática ao vê-la.

            - Você veio...

            - Eu havia concordado de manhã – respondeu Almozsaaladiel ao se afastar da parede.

            Andressa se adiantou e tocou seu braço para dar um beijo em seu rosto. Almozsaaladiel fechou os olhos, apreciando o toque suave. Uma mão passou para sua cintura, puxando-a para o abraço que por tanto tempo havia guardado. Andressa se deixou levar, retribuindo o abraço apertado, como se tivessem ficado anos sem se ver e finalmente haviam se reencontrado. Se afastou para fitar os olhos cinzentos e enxergou um carinho e uma paz que nunca antes havia sentido. Tudo o que provava com Saladiel era algo que nunca havia sentido. Voltou a dar outro beijo demorado em seu rosto, acariciando sua nuca.

            - Parece que senti sua falta – externou seu pensamento.

            - Eu sei como se sente.

              - Como isso é possível?

            - Vamos deixar os questionamentos para depois – pediu Almozsaaladiel ao depositar um beijo no seu rosto. – Tudo será esclarecido no seu devido tempo.

            - Ok. Bom, vamos ao nosso suco, porque não vai querer café, não é?

            - Não.

            Andressa se afastou da morena, relutante. Passou as mãos no cabelo, antes de se virar para encara-la. Algo poderoso a impelia a ela, como um imã.

            - Você acredita se eu disser que já sonhei com você, várias vezes? Eu acho que já te vi antes. Dizem que quando sonhamos com um rosto, é porque já vimos e gravamos a imagem no subconsciente.

            - Acreditaria se eu te disser que não são sonhos? – devolveu Almozsaaladiel andando calmamente ao seu lado. – Ou que isso é um desejo do seu coração?

            - Quer dizer que eu desejava você? – riu Andressa. – Uma pessoa que vive me seguindo?

            - Não posso me afastar, mas se esse for o desejo do seu coração eu o farei.

            - Não! Não... Foi... Uma observação, não leve minhas palavras à risca. Me parece que não conhece bem o humor.

            Almozsaaladiel se calou para observa-la. Andressa estava nervosa com sua presença e isso estava claro na sua postura.

            - De onde você é? – tornou a perguntar Andressa ao encara-la, para puxar assunto.

            - Do velho mundo.

            Andressa parou de andar e se colocou na frente da morena.

            - Se quiser ser menos assustadora tem que melhorar suas respostas. Em qualquer momento já teria ficado assustada o suficiente para não olhar mais para o seu rosto, mas algo ainda me mantém aqui, e desejando te conhecer mais que tudo.

            - Mesopotâmia.

            - É uma cidade? Fica em qual estado?

            - Atual Iraque.

            Andressa se virou, sem conseguir conter um riso.

            - Você é Iraquiana? Não tem sotaque nenhum, nenhuma característica daquela região.

            - Não fui criada lá. Me revelei lá.

            - Existe algo que você possa me contar que seja normal? Tipo, nasci no Paraná, mas fui criada em São Paulo, tenho trinta anos e trabalho com paisagismo?

            - Seria uma mentira. Não posso mentir, menos ainda a você.

            - Qual sua idade?

            - Acredite em mim: nunca lhe faria mal.

            - Qual sua idade?

            - Semelhante aos grãos de areia, esses são meus dias desde a criação até o findar dos dias.

            - Ok. Eu vou para casa. Eu, realmente, senti algo diferente quando te vi, algo que não sei explicar e que não vai entender, mas não posso continuar essa conversa sem pé nem cabeça.

            - Eu não quero te assustar. Sei que sua crença é limitada ao que seus olhos podem ver, mas existem mais coisas sob o firmamento que vocês jamais verão.             - Fadas? – desdenhou Andressa.

            - Explicação de pagãos aos que seus olhos viam. Tempos antigos. A lenda foi passada de geração em geração.

            - Anjos?

            - Criações de Deus.

            - Isso é absurdo, você sabe, não é?

            - Você tem que ter fé para acreditar. Não se convence ninguém a andar se a própria pessoa não acredita que consegue. Vocês são livres para verem aquilo que escolhem ver. Não podemos forçar nada. O livre arbítrio é poderoso.

            - Meu livre arbítrio está me dizendo que você é perigosa. Eu lembro como desarmou aqueles caras na viela.

            - Jamais lhe faria mal algum. Já lhe falei isso.

            - E eu sinto a verdade em suas palavras, mas eu não sei o que falar com você e que possa me responder sem metáforas.

            - Podemos fazer um acordo? Uma pergunta e respondo claramente. Somente uma por agora. Depois vamos ao nosso suco.

            Andressa fitou os olhos acinzentados e deu um longo suspiro. Onde estava se metendo? O que estava fazendo?

            - Tudo bem. Há quanto tempo está me seguindo?

            - Mil oitocentos e quarenta e dois dias.

            Andressa abriu a boca em espanto. Ela estava brincando. Era brincadeira, só podia ser isso.

            - Está brincando, não é?

            - Não. E não estou te seguindo sem um propósito.

            - Qual o propósito?

            - Vamos ao nosso suco?

            - Não posso. Você me parece absolutamente perturbada, quero dizer, que pessoa se dedica a seguir outra durante tanto tempo? Cinco anos ou mais. É... Assustador.

            - Já lhe disse, eu posso ir embora se esse for o desejo do seu coração.

            - É o meu desejo, meu pedido. Se eu te encontrar novamente eu chamo a polícia.

            Almozsaaladiel abaixou a cabeça com um aceno de concordância. Ficou observando Andressa se afastar por vários metros. O coração estava em paz, mesmo ao vê-la partir.

            Andressa atravessou a rua de volta ao prédio, mas se virou para enxergar Saladiel ainda parada no mesmo lugar a observando. Um Dejà vu da manhã. Se virou completamente, absolutamente perdida. Como não conseguia se afastar de alguém que parecia uma sociopata?

            Os pés ganharam vida própria ao voltar para Saladiel. Voltou a parar na sua frente e a abraçou apertado, enquanto o coração batia descompassado. Era como se houvesse uma ligação poderosa que não se romperia tão fácil.

            - Vamos ao suco. Eu tenho que voltar cedo para casa. Já deve saber que sou casada.

            - Sim e por isso nunca me revelei antes.

            - Por que se revelou hoje?

            - Não queria te ver sofrer. Ainda chegará o momento, mas quando ele chegar, eu quero estar ao seu lado para conforta-la.

            - Isso é loucura. Ok, vamos falar de outra coisa, antes que o bom senso me atinja novamente.

            - Me fale sobre o seu trabalho. Quero te ouvir – pediu Almozsaaladiel com um sorriso.

            Andressa sorriu e pegou a mão da morena puxando-a para a lanchonete, três quadras distante da sua casa. Durante todo o tempo, a atenção de Saladiel ficou completamente concentrada e seu rosto, ouvindo-a em cada palavra dita. Quando o relógio marcou dez da noite, se levantou para irem embora. Se despediu da morena na frente do seu prédio e observou ela se afastar até sumir de vista. Assim que entrou no apartamento, Dexter correu dela como se tivesse visto um bicho. Foi atrás do gato intrigada com sua atitude e o encontrou na varanda, encolhido de medo. Pegou o animal no colo e fez carinho até que ele se acalmasse. Do prédio da frente, Almozsaaladiel a observava com alegria.

            Duas quadras atrás, Absalom sentiu uma dor intensa no peito.            

Capitulo 8 por Drikka Silva

Egito 1157 A.C              

A fome assolava os povos que habitavam as margens do Nilo. Entre as poucas pessoas que possuíam algum estoque de alimentos, também existia a temeridade de saqueadores do deserto, homens de mau caráter que viajam como nômades, dedicados a roubarem tudo que encontravam e qualquer pessoa, independentemente que fossem apenas insignificantes aldeões ou notórios membros das forças do faraó. Entre eles, Kanope, líder de um dos principais grupos de ataque.

            Almozsaaladiel havia o encontrado já com seus dezesseis anos, quando, junto a seu pai, já efetuava ataques desmedidos, oprimindo aldeias, saqueando viajantes e espalhando o mal sobre a terra. Seu coração doía ao ver que não conseguira interferir em sua vida antes que se tornasse uma das pessoas mais temidas daquela terra. Conhecia que o bem ainda habitava seu espirito, mas de maneira igual, o mal também havia sido revelado. O livre arbítrio de suas ações impedia qualquer tipo de ação que pudesse ter, mas sabia que em algum momento, encontraria espaço para salva-lo de sua própria imundice.

            O dia tanto esperado foi acompanhado de uma tempestade de areia. Almozsaaladiel pressentiu o evento, mesmo antes de ele ter começado. Em uma extremidade, o grupo de Kanope esperava o avanço da caravana que partia rumo ao faraó, em sua ultima esperança de encontrar algum refúgio. Quando os grupos ficaram próximos um do outro, a tempestade surgiu no horizonte, avançando rapidamente.

            Kanope viu a tempestade aparecer ao mesmo tempo em que se preparava para o ataque. Já acostumado com o evento climático, calculou seu tempo para chegar até eles, quando suas visões seriam escurecidas e somente os instintos de batalha os guiariam para uma vitória. Não que aquilo fosse um problema: certamente os viajantes estavam fracos e famintos, assim como suas crias. Seria muito fácil os derrubar e saquear sem que precisasse de grandes estratégias.

            Almozsaaladiel acompanhou a movimentação do grupo, até avistar o anjo da morte pairando sobre eles. A interferência que esperava não iria acontecer como havia previsto, em um momento de calmaria. Se permitisse o ataque, além do grupo que seria dizimado, também perderia Kanope, que seria morto por um traidor que visava seu posto. A tempestade de areia já estava prestes a os alcançarem quando o grupo partiu para o ataque. Almozsaaladiel saiu de sua inércia e pousou no meio do ataque, esticando as asas para que ao animais, que se aproximavam em alta velocidade, parassem. O olhar amedrontado de Kanope foi a ultima coisa que viu, antes que a tempestade os engolissem.

            Almozsaaladiel estava em um canto da caverna quando Kanope deu sinais de acordar. Permaneceu imóvel, o observando enquanto seus olhos se abriam lentamente. O homem primeiro fitou o teto, depois virou a cabeça devagar, fazendo todo o reconhecimento do espaço. Seus olhos pararam de se mover quando a viu.  

           - Quem és?

            Almozsaaladiel não respondeu, apenas foi ter com ele se aproximando devagar.

            - Se afaste de mim, feiticeira! – vociferou quando percebeu sua atitude.

            - Não irei lhe fazer mal.

            - De certo não irá!

            Almozsaaladiel se aproximou mais um passo, para ficar de frente ao assustado homem. Quando estava o suficientemente próxima, Kanope a golpeou com uma adaga, diretamente no coração. Deu um passo para trás, o observando, antes de tirar levar a mão ao local e retirar a adaga ainda cravada em seu corpo. Kanope passou a rezar a deuses pagãos enquanto a olhava ainda mais amedrontado que a primeira vez.  Almozsaaladiel entendeu a sua vontade, o livre arbítrio ao qual era seu direito. Antes de partir, fez a única coisa que lhe restava. Se afastou o suficiente de Kanope e se ajoelhou, fechando os olhos. O corpo humano se rompeu para que a criatura fosse liberta.

            - A besta de meus sonhos... – murmurou espantando.

            Almozsaaladiel levantou a cabeça para fita-lo. Pela primeira vez seus olhos se cruzaram desnudos, sem nenhuma sombra. Sentiu-se encher de alegria enquanto via o ódio presente em Kanope se transformar em admiração.

                                    Tempos atuais    

           Andressa passou a noite inteira acordada, pensando no incomum encontro que tivera com Saladiel. Nunca antes tinha conversado com alguém tão estranho e ao mesmo tempo tão envolvente. Seria capaz de ficar horas apenas admirando-a, decorando cada detalhe de sua beleza tão exótica. Ao contrário das características de uma iraniana, ela parecia mais mordica, clássica, não humana.

            Dexter correu para longe quando foi se despedir para sair para o trabalho. Algo estava assustando o gato e não sabia o que era, se ele continuasse com aquele comportamento estranho, teria que leva-lo até o veterinário para uma consulta.

            Na frente do prédio, uma agradável surpresa a aguardava. Saladiel estava parada ao lado do portão, esperando-a.

            - Saladiel... Bom dia – cumprimentou ao se adiantar para dar um beijo em seu rosto.

            Almozsaaladiel deu um beijo demorado em seu rosto, antes de afastar para enxerga-la. Acariciou seu rosto lentamente, antes de pegar sua mão e depositar um beijo nela.

            - Esses gestos são tão antigos – riu Andressa ao fitar a mulher. – Você parece ser antiga, de outra era.

            - Me desculpe se parecer um avanço.  

           - Não, não é. Isso é quase fraternal hoje em dia – respondeu Andressa, ajeitando a alça da bolsa no ombro. – Estava me esperando?  

           - Sim.  

           - Eu não consigo deixar de pensar em como isso é assustador. Você conhece até meus horários.   

          - Conheço. Você possui uma rotina sem grandes alterações.

            - Em outras palavras, eu sou previsível.  

           - Nessa vida sim.

            - E em outras eu fui mais aventureira? – perguntou Andressa levando a informação na brincadeira.  

           - Sim. Depende da época e lugar. O mundo mudou muito.

            - Hoje eu estou sem tempo de ficar ouvindo suas maluquices – riu. – Tenho que ir trabalhar.     

        - Me permite que eu lhe acompanhe?  

           Andressa encarou a mulher a sua frente, deliberando sobre o seu pedido. Não conseguia deixar de pensar que era uma grande loucura que Saladiel fosse tão estranha e ainda desse atenção a ela. Pior, que ficasse feliz por vê-la como estava naquele momento.

            - Você não tem que ir trabalhar? Fazer alguma outra coisa?

            - Não trabalho.

            - E você vive do que?  

           - O senhor proverá.   

          - Isso é loucura demais. Eu não sei se chamo uma ambulância pra você ou duas, uma pra mim e outra pra você. Talvez seja eu que esteja ficando maluca ao lhe dar ouvidos.

            - Já lhe disse...  

           - Sei... Sei... Pode ir embora se for o desejo do meu coração – cortou Andressa. – Sabe qual o desejo do meu coração? Não perder a hora do trabalho. Vamos. Espero que seja uma melhor companhia do que a senhora que vai dormindo no meu braço toda a manhã.  

           - Impossível dormir ao seu lado.

            Andressa riu e se virou para o lado do ponto de ônibus e começou a caminhar levemente apressada. Almozsaaladiel a acompanhava em silêncio, como se estivesse sem um assunto.   

          - Me conta alguma coisa, algo que não faça eu sair correndo de você.  

           - Por que não fala alguma coisa? – sugeriu Almozsaaladiel. – Ainda tenho que aprender muita coisa com você.

            - Já falei bastante a respeito de mim ontem. Quero te ouvir também. Por exemplo, por que está com essa roupa que parece saída de um guarda roupas dos anos oitenta?             - Porque foi comprada nos anos oitenta. Não sei exatamente a data, Absalom que cuidou de tudo enquanto estava recolhida.  

           - Quer dizer que já tinha idade adulta nos anos oitenta? Pela sua aparência sou capaz de jurar que possui minha idade, aproximadamente.  

           - De certa forma.

            - Acho melhor eu falar alguma coisa – riu Andressa. – Pelo visto não vou conseguir nada coerente de você mesmo.

            - Eu quero muito te falar sobre tudo, esse dia ainda chegará. Tenha paciência.

            - Talvez seja por isso que ainda estou aqui, pela paciência.  

           Almozsaaladiel sorriu ao encarar Andressa. Era um exercício de paciência para ambas. A diferença era que a sua, era bem maior do que qualquer podia julgar na terra.

            O ônibus chegou e entraram, indo para o fundo, assento que sempre fora escolhido por Andressa. Sentaram-se enquanto a morena contava sua infância, os momentos que havia passado junto aos pais. Eles moravam no interior e pouco tinha contato, não por falta de afinidades, muito pelo contrário, sabia que se precisasse deles, os encontrariam de braços abertos. A criação que eles lhe deram foi intencionalmente desapegada. Haviam criado Andressa para o mundo, para que não tivesse medo de assumir responsabilidades, e plena confiança em suas decisões.  

           O caminho até o trabalho não durou mais que meia hora que para Andressa passou como um piscar de olhos. Assim que desceram na frente da empresa, se virou para Saladiel, que a encarava com uma ternura ímpar.   

          - Te vejo mais hoje? – perguntou Andressa esperançosa.   

          - Se quiser.     

        - Eu quero. Me surpreenda.   

         - Venho te encontrar no horário em que sair.    

         Andressa concordou com um aceno e a abraçou apertando antes de se afastar e depositar um beijo demorado em seu rosto. Mesmo depois de passar pela portaria, se virou para fora para enxergar Saladiel mais uma vez. Estava feliz e com uma paz de espirito que não se lembrava de já ter sentido antes.

         Na hora do almoço, saiu com uma colega para almoçar em um restaurante na rua detrás do trabalho. Estavam na fila do caixa quando uma movimentação anormal na rua chamou a atenção de todos dentro do estabelecimento. Saiu para a calçada para ver o que era, quando o som de tiros começou a ecoar. Um assalto acontecia na agencia lotérica e o segurança do local havia reagido. Fez a menção de voltar para o restaurante, assustada, mas o aglomerado de pessoas impedia que fizesse isso rapidamente. Se virou quando outro estampido foi ouvido, mas o que a deixou imóvel foi enxergar Saladiel sendo atingida por uma bala, quando fez a sua proteção, tampando-a com seu corpo.

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!

Amores, seguinte, na próxima semana estarei viajando, não sei como ficará a postagem, pq não sei exatamente como é o lugar para onde vou (termos de acesso a net). Se tiver uma conexão legal, farei a postagem de boa, caso contrário, voltaremos a nos ver dia 22. 

 

Bjokassssssssssssssss

Capitulo 9 por Drikka Silva

Andressa viu levou a mão ao rosto assustada quando viu Saladiel entrar em na sua frente, ao mesmo tempo em que o som de um estampido de tiro ecoava pelo ar. O passo seguinte foi ver, quase de forma impercevtivel, ela sentir o impacto da bala e ser jogada, levemente para a frente.

            - Saladiel! – exclamou enquanto a amparava.

            Almozsaaladiel fechou os olhos, condenando sua atitude, mas não podia permitir que nenhum mal lhe acontecesse.

            - Você foi atingida! Temos que te levar para um hospital!

            - Eu estou bem – respondeu ao tocar seu rosto. – Não se precoupe comigo.

            - Como não me preocupar? – perguntou Andressa sentindo uma calma incomum. – Você foi atingida por um tiro!

            - Ninguém poderá fazer nada contra nós. É nosso destino.

            - Agora não é hora dessas loucuras – Andressa balançou a cabeça para se livrar do efeito de topor. – Temos que entrar!

            - Não posso. Vão querer me levar para um hospital, mas não posso. Entre com eles. Eu estou lhe protegendo.

            Andressa tentou contestar, mas Saladiel não parou para escutar seus argumentos. Apenas recebeu um beijo na testa, antes de ver a estranha mulher sair rápida do seu ponto de vista. Muito mais rápido do que alguém seria capaz naquelas circunstancias.

            O pandemonio não durou muito: em pouco tempo o local estava cheio de viaturas policias. Os bandidos foram presos no cerco e ninguém saira ferido. Andressa sabia que aquilo não era verdade, Saladiel havia sido atingida por um tiro, mas estranhamente ninguém notara sua presença. Falou a duas pessoas sobre a morena com quem havia conversado, mas ambos haviam negado ter visto alguém diferente por ali. Saladiel, naquele momento, parecia apenas um fruto da sua imaginação.

            Andressa voltou para o trabalho, depois que foi liberada, quinze minutos depois. Se sentou à mesa de trabalho, mas não enxergou o computador a sua frente. A unica coisa que via era Saladiel e seus olhos cinzentos fixos em seu rosto, enquanto era alvejada pela bala. Aquilo, de fato, tinha acontecido, não era um fruto da sua imaginação. Atribuia o fato de tudo ter acontecido rápido demais para que outra pessoa pudesse delegar atenção a ela. Era isso. Ninguém havia prestado atenção suficiente na morena durante o assalto.

 

              Almozsaaladiel se encostou no portão, enquanto esperava que Absalom aparecesse. Quando seu servo surgiu na porta, enxergou sua preocupação em seus olhos, enquanto a fitava com absoluta incredulidade. Depois que entrou na garagem, foi amparada por ele, quando suas pernas fraquejaram.

            - O que está acontecendo? – perguntou preocupado. – Você não pode se ferir. É imortal.

            - Não sei. Os designios do Altissimo são insondáveis – respondeu enquanto era levada para dentro. – Me leve para o quarto de oração, preciso me livrar desse invólucro.

            Absalom não contestou. Conduziu-a até o andar superior da casa e entrou no quarto colocando-a no centro. Se afastou para porta e se ajoelhou, vendo a carne humana se romper para que a criatura fosse liberta. Com alivio, viu a criatura se esticar totalmente, revelando que seu corpo não fora atingido. Devagar saiu do quarto, enquanto via a criatura se abaixar para grudar a cabeça no chão para se conectar com o divino.

                        Andressa saiu do trabalho e observou tudo ao redor procurando por Saladiel. Não sabia se esperava por ela ali ou se ia embora para casa. Talvez ela a estivesse observando sem querer se aproximar, talvez o tiro a tinha ferido gravemente. Não sabia o que pensar pois, Saladiel parecia ser a mulher menos humana que conhecera até então. Depois de quinze minutos de espera decidiu ir embora. Por mais que não soubesse o que estava acontecendo, tinha certeza de uma coisa: estava ficando completamente pirada por uma mulher que era completamente maluca.

            No ponto de ônibus, esperou a condução por cinco minutos. Estava prestes a entrar no veiculo quando sentiu uma mão em seu braço.

            - Me desculpe o atraso – falou Alozsaaladiel com um sorriso.

            Andressa levou um minuto inteiro olhando para a mulher antes de retribuir o sorriso e abraça-la com força.

            - Você está bem! Fiquei tão preocupada! – exclamou ao mesmo tempo em que fazia carinho em sua nuca.

            - Sim. Não se preocupe comigo.

            - É claro que vou me preocupar! Você levou um tiro!

            - Não pegou no meu corpo, de fato.

            - Como não pegou? Eu vi você sendo lançada a frente com o impacto!

            - Confia em mim. Não foi nada.

            - É impossivel... – gaguejou Andressa se afastando. – O que você fez, a forma como se afastou... As outras pessoas não te viram!

            - Estava com bastante bagunça naquele momento, todos bem ansiosos. É normal que não me vissem.

            - Eu te vi e eu sei o que vi.

            - Você vai perder o onibus – sinalizou Almozsaaladiel para a condução, ainda com a porta aberta.

            - Eu quero respostas – pediu Andressa enquanto acenava para o ônibus partir. – O que você é?

            - Ainda não é chegado o tempo. Não posso te revelar coisas para o qual sua mente não está preparada.

            - A escolha é minha, não é? O livre arbitrio?

            - Nem sempre nossas escolhas nos levam para um bom caminho.

            - Foi você? O acidente com o carro? Foi você quem fez aquele carro capotar e não me atingir?

            - Você acredita que isso seja possivel?

            - Eu te fiz uma pergunta, Saladiel. Me responda sem rodeios.

            - Sim. Fui eu.

            - Como?

            Almozsaaladiel abaixou a cabeça, enquanto ponderava no que aconteceria a Andressa se se relavesse naquele momento. Quanto mais raciocinava sobre o efeito sobre a mulher a sua frente, mais chegada a conclusão de que aquele não era o momento certo.

            - Não posso.

            - Ok. Vamos ver como isso funciona na prática – respondeu Andressa irritada.

            Sem se dar conta da gravidade do que estava fazendo, Andressa tomou a direção da avenida e entrou entre os carros. A mente se apagou com a adrenalina do momento, enquanto ouvia os sons de gritos, buzinas e freiadas. Um caminhão que vinha em alta velocidade não diminuiu e, somente quando estava prestes a colidir, é que sentiu um braço em sua cintura. O segundo seguinte foi rápido demais para que pudesse descrever: somente se deu conta do que tinha acontecido quando sentiu suas costas se encostar com a parede do outro lado da avenida.

            - Nunca mais faça isso! – exclamou Almozsaaladiel. – Se cometer suicidio, seu espirito estará condenado a perdição!

            - O que é você? – perguntou Andressa sem ouvir as palavras ditas. – Que tipo de criatura é você?!

            Almozsaaladiel olhou ao redor, para as pessoas que olhavam, espantadas, para as duas e puxou Andressa, se desviando dos olhares. Assim que alcançou uma rua com menos movimento parou mirou a mulher que a olhava, completamente abismada.

            - Você vai ter que me explicar isso...

            - Só tenha ciencia de uma coisa: quando a verdade for revelada, sua vida não será a mesma.

            - Eu quero saber! Eu preciso saber!

            - Se a informação for forte demais para esse corpo, você não retornará para os seus, visto que sua mente ficará comprometida. Eu cuidarei de você, como já fiz antes.

            - Para de me enrolar, Saladiel! Me conta! Quem é você? O que é você?!

            - Que assim seja – concordou Almozsaaladiel ao passar uma mão pelo seu rosto. – Meu nome é Almozsaaladiel. Fui criada para ser uma protetora na terra, cuidando das primeiras criações divinas, desde queda do Éden.

            - Você é um anjo? – perguntou Andressa com uma careta. – No estilo Cidade dos anjos?* (ver notas)

            - Confia em mim?

            - Não, mas eu não tenho escolha.

            - Você tem escolha. Eu te deixo ir e cuido dos seus caminhos, uma vez que interferi no seu destino.

            - Como?

            - Me abraça e fecha os olhos – pediu ao pegar sua mão. – Eu te prometo que nada de mal vai lhe acontecer.

            Andressa concordou com a cabeça antes de abraçar Almozsaaladiel e encaixar seus rosto no seu pescoço. O coração batia descompassado quando sentiu a mulher flexionar nas pernas. Simplesmente parou de bater quando se sentiu sendo alçada ao ar. O piso voltou aos seus pés em questão de segundos, abriu os olhos e enxergou o telhado do prédio e Saladiel que se afastava para se ajoelhar a uma segura distância. A respiração começou a falhar e a unica coisa que enxergou, antes de perder os sentidos, foi o olhar cinzento, preocupado na sua direção.

 

* Cidade dos anjos - Filme de 1998 com direção de Brad Silberling. No elenco, Meg Ryan e Nicholas Cage  

Seth tem o que qualquer ser humano deseja: pode voar e está mais perto de Deus. Seth é um anjo, mas quer se sentir como um mortal. Quando conhece Maggie, Seth terá que decidir entre o amor terreno e a paz eterna.

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!

Amores, eu vou responder os comentários até o final de semana! 

 

Bjokasssssssssssss

Capitulo 10 por Drikka Silva

Halicarnasso – Anatólia 355 A.C.

 

            Almozsaaladiel abriu um sorriso para a mulher que se aproximava da reserva de água. Desde que havia encontrado o espirito reencarnado, tinha acompanhado seu crescimento, até a tenra juventude que agora desfrutava. A jovem sorriu em sua direção: não estava surpresa por encontra-la ali, certamente estava contando com aquele encontro. Já fazia dois períodos de frio que se encontravam, conversavam sobre as coisas sobre o mundo, agricultura e ciência. Os gregos sempre fora o maior fascínio de Amtulah, que sempre ouvia quieta tudo o que falava sobre os povos que haviam se desenvolvido mais que qualquer outro. Almozsaaladiel tinha uma opinião diferente, mas guardava para si. O que realmente importava era que a jovem ficasse satisfeita com os encontros e retornasse, como naquele momento.

            - Saladiel – cumprimentou Amtulah ao colocar o balde de madeira de lado. – Que bom te encontrar aqui novamente.

            - Sempre estarei aqui te esperando – respondeu com absoluta sinceridade.

            - Perfeito. Preciso lhe contar algo. Meu pretendente foi escolhido.

            - Vais se casar? É de sua vontade?

            - É o que me foi escolhido. Não posso ir contra minha família.

            - E você quer se casar?

            - Não é o que quero, mas hei de juntar em matrimônio com esse rapaz. Não o conheço, virá no dia do casamento – suspirou Amtulah sentando-se em uma pedra ao lado da reserva de agua. Arrumou a simples vestimenta antes de olhar para Almozsaaladiel novamente. – Há tanta coisa que gostaria de conhecer e saber antes de me dedicar a criar filhos e ter uma família.

            - Você está na idade de ter sua própria família – ponderou Almozsaaladiel. – Já tem algum tempo que suas regras vieram, não?

            - Há duas colheitas. Mamãe descobriu há algumas luas, pois escondi dela. Agora não posso mais.

            - Você está infeliz. Me diga o porquê e farei de tudo para que seu sua alegria retorne.

            - Não quero me casar porque quando penso em ficar junto a alguém, você é a única pessoa que aparece na minha mente – falou Amtulah a encarando. – Eu tentei sufocar isso, mas como essa será a última vez que a verei, não poderia morrer com isso.

            - Algumas mulheres que vem aqui, pensam que sou sua mãe. Tenho tempo de vida o suficiente para isso.

            - Mas não é. Eu queria ter falado de maneira diferente, mas dado a liberdade que compartilhamos, não via necessidade de lhe poupar de alguma maneira. Talvez até facilite, já que agora sabe que eu tenho sentimentos por você.

            Almozsaaladiel abriu um sorriso ao se abaixar na frente da jovem que estava completamente encabulada.

            - Meus sentimentos por você são maiores do que pode imaginar. Não estás sentindo isso sozinha.

            - Então porque me repele?

            - Eu tenho todo o tempo do mundo para esperar por suas escolhas. Eu sei que um dia ela virá, talvez não nessa vida, mas te espero o tempo que for preciso.

            - Se tens o mesmo sentimento por mim, porque esperar? Podemos ter nossa própria base de sustento em alguma floresta, distante da Cária.

            - Se for comigo, retornar se tornará um grande problema. Será apontada como uma pária.

            - Esteja comigo e nada disso importa – pediu Amtulah tocando o rosto de Almozsaaladiel lentamente. – Eu não sei se seremos punidas pelos deuses, mas qualquer punição não será superior a uma vida ao seu lado.

            - Tão jovem e tão consciente.

            - Você me ensinou isso por todas luas que temos nos encontrado.

            Almozsaaladiel levou a mão a seu rosto, retribuindo o carinho. Se aproximou para beija-la, mas o som de patas de algum animal fez com que se afastasse. Se virou para enxergar o agricultor que se aproximava com sua criação e se levantou da frente de Amtulah para depois puxa-la pelas mãos para um lugar deserto, dentro do pequeno matagal que circulava a reserva.

            - Há algo que queira pegar com os seus?

            - Quero passar uma ultima noite com minha mãe. Depois podemos partir.

]            - Que assim seja.

            Almozsaaladiel abraçou Amtulah, sentindo seu coração bater de encontro a seu corpo, acelerado, ansioso. Puxou seu rosto para encara-la e deixou que seus lábios se encontrassem lentamente. O invólucro humano reagiu ao sentir a boca da jovem junto a sua, um encontro por tanto tempo aguardado, por tanto tempo ansiado. Todas as provações que havia passado por entre as eras, era compensado naquele momento onde a entrega acontecia de forma tão suave e delicada. Amtulah se agarrava ao seu corpo, sedenta pela novidade que provava, pela intensidade que fora impelida em um ato que mudaria sua vida. O beijo de Saladiel a transportava para outro momento, outro instante na vida e qualquer outra coisa era completamente esquecida.

            Amtulah se afastou encarando Saladiel, seus olhos claros, típico das terras no norte, a encaravam com um desejo que nunca vira antes. Deu um passo para trás e tirou o tecido que cobria sua cabeça deixando cair ao lado de ambas. Almozsaaladiel se aproximou e tirou o manto que repousava sobre os seus ombros. A abraçou novamente e lentamente caíram nos ralos tufos das plantas rasteiras entre as arvores. Tirou o próprio manto usando-o como proteção para que Amtulah não se machucasse. A deitou delicadamente, enquanto voltava a beija-la. Cada parte do seu corpo que tocava, trazia uma sensação impossível de ser colocada em palavras, como se alcançasse, novamente, o paraíso. O toque delicado de suas mãos ao tirar sua túnica, as palavras de incentivo, para que consumasse o ato. Livres de qualquer tecido, os corpos se encontraram em total entrega, era naquele momento em que Almozsaaladiel pecava mais uma vez contra a criação: não entendia como um ato tão sublime pudesse ser pecado. O corpo da jovem que se movimentava junto com o seu não dava espaço para culpas: era perfeito demais para que houvesse algum arrependimento. Juntas, embaladas pelo prazer, se entregaram de corpo e alma para o momento de prazer, selando o sentimento que havia nascido às margens do Eufrates.

            Naquela noite, Amtulah voltou para casa e, como havia dito, se despediu silenciosamente da família. Estava indo viver o amor que havia sido revelado. Almozsaaladiel esperou por seu retorno na manhã seguinte e seguiram, primeiro para Éfeso e depois Delfos. A divindade de Almozsaaladiel foi revelada quando Amtulah, já com idade avançada, questionou sua permanente juventude. Depois de poucas luas ela partiu e, mais uma vez, Almozsaaladiel pranteou sua perda, mas com o coração reconfortado pela longa e primorosa vida que haviam compartilhado.

 

  Dias atuais

 

            Andressa acordou lentamente, olhando ao redor, tentando se situar. Enxergou Saladiel sentada em uma poltrona ao lado da cama, enquanto a encarava com uma ternura ímpar.

            - Onde estou? – perguntou ao sentar-se.

            - Na minha casa.

            - Quanto tempo fiquei desacordada? – perguntou assustada.

            - Seis minutos.

            Andressa a olhou espantada, mas segurou o impulso de fazer qualquer pergunta. Sabia que estava a um passo da loucura e não estava disposta a passar o resto da vida dentro de um hospital psiquiátrico. Afastou o lençol que a cobria e saiu da cama, passando a mão nos cabelos sob o olhar atento da mulher na poltrona.

            - Onde você mora?

            Antes que Almozsaaladiel pudesse responder, a porta do quarto se abriu e Absalom entrou com uma pequena bacia de água.  

           - Gratias ago Deo! – exclamou o servo ao vê-la em pé.

            - Você mora três quadras atrás da minha casa... – sussurrou Andressa, balançando a cabeça em sentido negativo. – Qual a probabilidade de chegar aqui em menos de dez minutos? Que merda é essa?!

            - A verdade que tanto pediu – respondeu Almozsaaladiel. – Eu queria ter lhe poupado de tudo isso.

            - Tenha calma - pediu Absalom depositando a bacia em uma cômoda. – Você está muito agitada!

            - O que você é?... Você é... Normal?

            - A normalidade depende do que acredita – respondeu o homem com um sorriso. – Sente-se, será bem cuidada.

            - Eu quero ir pra casa! – gritou. – Eu não sei o que...

            Almozsaaladiel levantou do lugar onde estava, percebendo a agitação intensa da morena.

            - Eu jamais faria algo para lhe machucar, mas como já disse antes, qualquer coisa que quiser, em plena consciência, será feita.

            Andressa encarou a mulher a sua frente, sentindo o corpo relaxar aos poucos. Por mais assustador que parecia ser tudo, Saladiel tinha o incrível poder de lhe passar confiança e segurança.

            - O que eu sou? – perguntou, por fim, sentando-se na beirada da cama.             - Um espirito antigo.

            - Antigo quanto?

            - Sua primeira vinda à terra foi há muito tempo, antes mesmo do diluvio, por todos os milênios...

            - Espera... O dilúvio bíblico?

            - Sim.

            - Noé existiu de fato?

            - Não exatamente como leu.

            - Eu não li. Não acredito na bíblia, não acredito em Deus, anjos ou demônios. Eu não acredito nem que essa conversa seja real!

            - Vamos encerrar essa conversa por hoje, já teve o bastante. Quando se sentir preparada, podemos retomar quando quiser.

            - Que horas é agora? – perguntou se lembrando do celular e de Vitória.             - Oito horas da noite.

            - Vitória só chega da faculdade às onze. Temos duas horas e quarenta minutos para me contar tudo o que quero saber.

            Almozsaaladiel trocou um olhar com Absalom que apenas assentiu em concordância e saiu do quarto. Passou a mão no cabelo antes de tirar o casaco e se sentar ao lado de Andressa.

            - Teve algumas vezes que isso foi mais fácil – sorriu. – Você ficou sabendo apenas no final.

            - Que final?   

          - Antes de desencarnar.

            Andressa olhou chocada para Almozsaaladiel, sentindo a própria voz falhar.

            - Eu já morri?

            - Algumas vezes.

            - Ok, eu quero ir embora. Isso aqui é assustador demais. Só me deixa ir embora.

            - Como quiser.

            Almozsaaladiel se levantou e puxou Andressa para que ela se levantasse também. Juntas ganharam o corredor e depois as escadas que levava ao piso inferior. Absalom estava na sala e olhou com alegria para as duas mulheres que passavam em direção a garagem. Assim que chegaram no portão, Almozsaaladiel o abriu para que ela pudesse passar.

            Andressa atravessou e começou a caminhar em direção do próprio apartamento, mas não conseguiu segurar a vontade de olhar para trás. Se virou e enxergou Saladiel parada no mesmo lugar. O coração batia descompassado, como se estivesse deixando algo importante para trás. Estava enlouquecendo, isso era um fato, mas porque aquela loucura era tão boa. Não conseguiu segurar uma lágrima que brotou em seus olhos, com vontade absoluta de voltar para ela. Enquanto estava parada no meio da rua, uma batalha começou em sua cabeça: ir para casa e esquecer tudo o que tinha acontecido, se um dia conseguisse ou voltar para a linda mulher que a encarava tão terna? A resposta veio pelas pernas, que criaram vida, voltando para o lugar onde Almozsaaladiel estava. A abraçou apertado e se afastou para encarar seus olhos, tão cheio de carinho. Em um impulso buscou seus lábios em um beijo, sentindo o corpo todo estremecer. As bocas se encontraram rápidas, sedentas. Mais uma vez a sensação de que tinha esperado por aquilo a vida inteira se apoderou da sua mente. Talvez Saladiel fosse de fato um anjo, pois nunca antes havia provado um beijo tão perfeito como o que acontecia, um que mexia com todo o seu emocional, que deixava suas pernas bambas e um contentamento nunca antes sentido. Não era um beijo qualquer, era quase divino.

            Andressa se afastou e fez um carinho delicado no rosto de Saladiel antes de voltar a encara-la.  

           - Amanhã eu venho te ver.

            - Estarei te esperando, como sempre.

            Andressa deu um ultimo beijo em seus lábios e se afastou para ir para casa. Assim que entrou no apartamento, Dexter novamente se escondeu com medo. Pegou o gato no colo e seguiu para a janela da sala. O felino voltou a se ouriçar e naquele momento compreendeu o comportamento do bicho. Olhou para o prédio a frente procurando por algo na escuridão do teto.   

          - Me deixa te ver – pediu em um sussurro.

            Abriu um sorriso quando enxergou um brilho no telhado do prédio a frente. Saladiel se mostrou em meio a luz e uma lágrima escorreu pelo seu rosto, mas não era de tristeza ou medo: era de alegria, uma alegria que jamais saberia explicar.

Capitulo 11 por Drikka Silva

Andressa ainda estava comtemplando Almozsaaladiel no telhado a frente da sua janela, quando o barulho da porta do apartamento a assustou. Se virou rápida para enxergar Vitória entrando na sala, carregando, além da mochila, uma caixa de pizza.  Se virou para olhar para o prédio novamente, mas Almozsaaladiel já havia sumido na escuridão.
            - Está tudo bem, amor?
            Andressa pensou, por um momento, na ironia da pergunta. Está tudo bem? Havia descoberto que tinha mais de milênios nascendo e morrendo, estava ligada a um anjo num corpo de mulher e havia pulado um prédio de vinte andares, além de ter chegado no bairro em menos de seis minutos, numa viagem que demoraria aproximadamente uma hora, dado o transito. Nada estava bem.
            - Sim – respondeu por fim. – Chegou mais cedo da faculdade...
            - Eu mandei mensagem no celular. Achei que já tinha visto – se adiantou Vitória para dar um beijo em seus lábios. – Você está pálida. Tem certeza que está tudo bem?
            - Tenho sim. Um cansaço bobo.
            - Não fez a janta, não é?
            - Não. Eu estou sem fome e achei que iria para a faculdade.
            - Hoje não. Não tinha nenhuma aula importante, achei que era uma boa oportunidade de passarmos a noite comendo besteiras enquanto assistimo séries. O que acha?
            - Uma grande surpresa – Andressa forçou um sorriso. – Vai tomar um banho, daqui a pouco vou tomar um também...
            - Vem comigo? – cortou Vitória ao convida-la com a mão estendida na sua direção.
            Andressa olhou para a esposa por um longo minuto antes de coçar a testa e pegar sua mão para depositar um beijo nela.
            - Hoje não. Vou arrumar as coisas para te esperar.
            - Tem certeza que está tudo bem?
            - Sim.
            Vitória concordou com um aceno e saiu em direção ao quarto. Andressa olhou para o pequeno corredor, agora vazio, e deu um suspiro profundo. Se jogou no sofá e pegou Dexter, o acarinhando lentamente, ao passo que a mente voltava para Saladiel. Sabia que não existia nenhuma explicação plausivel para nada do que tinha acontecido, desde o acidente, quando o carro fora desviado de acerta-la mês antes, nem para a sensação de ser seguida, seus sonhos continuos com a mulher que agora tinha se tornado real. A unica explicação que existia era a de que tudo não passava de peças que sua mente estava criando, mas de forma igual, sabia que não tinha imaginado nada do que tinha vivido. Não estava ficando louca. Tudo acontecera realmente, provando que suas ideologias não tinham base alguma. Existia mais coisas no mundo que não havia explicação e ter essa consciencia traza um misto de curiosidade e medo.
            Vitória saiu do banho e ainda encontrou Andressa santada no sofá com a mente perdida em pensamentos. O olhar fixo na parede vazia a frente lhe dizia isso. Por um momento, o medo de que ela soubesse de seu caso extraconjugal a deixou apreensiva, mas conhecia bem a mulher que tinha. Se Andressa soubesse que saia com outra mulher, não seria tão passional a ponto de esconde mascarar suas emoções e não falar nada. Ela sempre fora impetuosa e jamais ficaria em silêncio.
            - Amor, está acontecendo alguma coisa? – tornou a perguntar ao se sentar ao seu lado.
            - Nada que eu possa lhe explicar e que vá acreditar. Eu... Eu vou tomar um banho. Nem percebi que já tinha saido – desconversou ao dar um sorriso forçado. – Pode ir comendo, já vou deitar em seguida.
            - Não quer que eu te espere?
            - Não precisa.
            - Se tiver algo que eu possa fazer, me diga, ok?
            - O que vai fazer amanhã?
            - Depois do trabalho? Vir pra casa. Quer sair para algum lugar?
            - Não. Talvez eu chegue um pouco mais tarde. Qualquer coisa eu mando mensagem.
            - Vai sair com alguém?
            - Não sei.
            - Andressa, vamos conversar. O que está acontecendo?
            - Tudo no tempo certo – respondeu com um discreto sorriso ao se recordar das palavras que Saladiel havia lhe falado. – Não se preocupe, ok?
            - Se prefere assim – respondeu Vitória contráriada.
            Andressa apenas concordou com a cabeça e tomou o rumo do quarto. Era melhor que fosse daquela forma. Ninguém acreditaria se contasse mesmo e o melhor era evitar uma visita na psiquiatria pelo tempo que conseguisse.
            Depois de um banho demorado, Andressa se deitou e tentou pegar no sono, mas foi um esforço em vão. A imagem de Saladiel não saiu da sua cabeça, nem mesmo quando a esposa se deitou ao seu lado e passou o braço por sua cintura, abraçando-a. O relógio já marcava quatro da manhã quando saiu da cama e caminhou até a sala para parar de frente a janela. Esquadrinhou o prédio a frente, mas nada além da habitual escuridão era visto. Dexter dormia tranquilamente no sofá, indicando que a mulher que esperava ver, não estava por ali.
            Na manhã seguinte, trocou poucas palavras com Vitória antes de sair de casa, primeiro que a mulher. Assim que colocou os pés na calçada, olhou de um lado para outro, procurando por Saladiel, mas não a enxergou em nenhum lugar. Andou vagarosamente até o ponto de ônibus, esperando que ela aparecesse, mas foi uma espera em vão. Assim que o ônibus, que a levaria ao trabalho, parou no ponto, as pernas travaram para subir. Ficpou olhando a condução se afastar com o coração acelerado, antes de tomar o caminho que a levaria para a casa de Saladiel. Assim que alcançou a rua, já enxergou a morena parada na frente da casa, olhando em sua direção. Se aproximou sem conseguir conter um sorriso nos lábios.
            - Estava me esperando? – perguntou ao abraça-la.
            - Sim. Vi que estava em duvida de seguir para o seu trabalho.
            - Estava me observando?
            - Sim.
            - Por que não apareceu?
            - Porque Vitória também estava te observando. Não quero te causar um problema.
            - Ela deve achar que tenho outra. Agi de maneira estranha com ela ontem.
            - No tempo certo tudo será revelado.
            - Não torne isso estranho – pediu Andressa com um sorriso. – Eu não vou te atrapalhar se ficar um pouco aqui? Eu sei que é cedo, mas nem sei se você dorme.
            - E é algo que quer saber?
            - Não. No momento não. Você toma café?
            - Posso te acompanhar em um.
            Andressa sorriu para a mulher à sua frente e indicou, com a cabeça, o sentido de uma padaria que tinha do lado contrário de onde morava. Andou alguns passos em silêncio, antes de voltar a falar.
            - O homem da sua casa, quem é?
            - Absalom, seu nome. Está comigo desde a antiguidade me auxiliando quando necessário.
            - Qual a idade dele?
            - O senhor tem sido generoso em sua bondade.
            - E em quantos anos, exatamente, o senhor tem sido generoso com a vida de Absalom?
            - Quatro mil novecentos e dezenove anos.
            Andressa parou de andar e fitou Almozsaaladel por um longo minuto, antes de dar um suspiro profundo.
            - Qual a sua idade?
            - Não tenho idade. Não nasci como está acostumada com a criação.
            - Você não teve mãe, pai, familia?
            - Tenho o mesmo pai que você, embora não o aceite como criador.
            - Não... Não é minha praia religião, crenças e afins – respondeu Andressa. – Supondo que tudo isso seja verdade, eu prefiro encarar apenas como um delirio seu, há quanto tempo está na terra?
            - Quase seis mil anos.
            - Nunca havia ficado com alguém tão mais velha – riu Andressa. – Isso é loucura demais! Será que eu perdi o juizo também?
            - Lhe asseguro que não.
            - Eu vou parar de repetir isso, prometo. É que é tudo tão surreal que... Enfim, você aparece na história?
            - Não. Minha divindade foi negada no momento em que me entreguei ao pecado original.
            - Nem depois?
            - Não.
            - Há mais de você por aqui? Digo, convivendo entre nós?
            - Já teve. Depois da ascensão cristã, a unica coisa que me tira dos momentos em que estou conectada ao divino, é sua vinda a terra. Procuro me manter afastada de tudo.
            - Por que?
            - A crença da humanidade está se extinguindo. Prefiro me manter longe e não perder o que tenho com você.
            - E o que tem comigo? – perguntou Andressa com um riso.
            - Momentos como esse, ouvir seu riso vale mais que a eternidade.
            Andressa se virou para Saladiel com o sorriso permanente nos lábios. Se adiantou para pegar sua mão e puxa-la para a padaria já proxima. Se sentaram em banquetas, rente ao balcão e pediram café da manhã, antes de voltar a puxar assunto.
            - Como foi nosso primeiro encontro? – perguntou Andressa, assim que a atendente se afastou.
            - Seu nome era Hasmut, um jovem agricultor. Tinha sido atacado por animais selvagens. Quando te vi, foi como se minha existencia tivesse tomado um signficado além do que tinha imaginado.
            - Eu era um homem?
            - Sim.
            - Por quanto tempo ficamos juntos?
            - O tempo não era contado como hoje. Ainda não existia calendário, não sei te dizer exatamente em anos, mas foram várias primaveras. Mais de quarenta. Quando partiu, já tinha idade avançada.
            - E você?
            - Fui condenada a te esperar.
            - Não deve ser muito bom esse tipo de castigo. Quer dizer, me ver nascer e morrer sempre.
            - Os momentos em vida valem mais que qualquer pranto.
            - Como era nossa vida?
            - Você está tranquila demais. Está bem?
            - Não me soa como verdade, talvez isso mantenha minha sanidade.
            - Nossa vida era tranquila. Perfeita. Não havia ninguém por perto, moravamos em uma caverna, um reduto.
            - O que a gente fazia tanto? Não havia nada com a qual nos distrair.
            - Havia muita coisa. Nunca fiquei entediada ao seu lado, da mesma forma que nunca ficou comigo.
            - Não era pra você ter uma aparência mais angelical? Asas, auréola, tunica branca?
            - Não posso revelar minha aparencia metafisica. Seria muito para os humanos.
            - Me deixa ver?
            - Ainda não é chegado o tempo. Você pode se assustar a ponto de seu corpo não resistir.
            - Por que? Anjos não são divinos? As mais belas criações de Deus?
            - Carrego o pecado cometido em minha aparência.
            - Isso parece história de criança. Sabe aquelas histórias bobas para colocar uma criança para dormir?
            - É bom que encare dessa forma, por enquanto. Tente não buscar explicações, será melhor. Essa reencarnação é a primeira depois da grande evolução da humanidade. Vocês passaram a crer em si mesmos do que em um Ser divino. Se tornaram mais questionadores, buscando explicações para tudo, sendo que nem tudo é para ser explicado. Você nunca foi tão incrédula como é agora.
            - Entenda que é complicado de acreditar em algo assim, que somos marionetes agindo de acordo com a vontade de algum ser superior.
            - Se agissem de acordo com a vontade do Divino, nunca teriam saido do Edén. O que trouxe a humanidade a esse ponto é justamente a liberdade que tem para guiar a própria vida.
            - Não está escrito que não cai uma folha de uma arvore se não for permitido por Deus?
            - Assim como é permitido que tenham suas próprias escolhas. Não vamos entrar nesse campo. Ainda teremos tempo para se aprofundar nessas questões, se for de sua vontade.
            - Ok. Me fala, o que faz hoje além de me seguir?
            - Apenas te sigo. Antes de nascer, estava em Paris. É a primeira vez que nasce aqui.
            - Em São Paulo?
            - No novo mundo. As américas, no geral.
            - Onde eu nasci mais?
            - No Egito.
            Andressa balançou a cabeça em sentido negativo enquanto a atendente colocava o café que haviam pedido na sua frente. Se não conseguia fugir daquela loucura, o melhor era se entregar a ela e ver até onde ia dar.

Notas finais:

Oi oi lindonas!

Amores, desculpem a falha nessa semana da postagem, mas um cavalo de troia resolveu lascar com o meu computador :( 

Sorry!

 

Bjokasssssssssss

Capitulo 12 por Drikka Silva

Andressa saiu da padaria ao lado de Saladiel e seguiram em passos calmos até a casa onde a estranha figura habitava. O silêncio reinava entre as duas, mas não era um silêncio vazio: era preenchido por pensamentos e ondas de carinho que não sabia como explicar, apenas sentir. De frente ao portão, deliberou por poucos segundos se devia entrar ou não. Saladiel poderia ser uma psicopata assassina, mas, por outro lado, ela já havia tido chance antes de mata-la, se fosse o caso. Apenas sorriu para a mulher a sua frente, antes de cruzar o portão de ferro, em direção à porta da frente.
            - Bom dia, Andressa – cumprimentou Absalom ao abrir a porta. – Seja bem-vinda, mais uma vez.
            - Você também tem algum poder especial? – perguntou, curiosa. – Digo, pode voar, ouvir coisas inaudíveis...
            - Não. E não é poder como super heróis. São dons divinos.
            - Prefiro acreditar que sou a Lois Lane*. Me soa menos estranho nesse mundo de fantasia. (ver notas)
            Almozsaaladiel sorriu para Absalom e gesticulou com a cabeça para que ele não insistisse em nada naquele momento. Já era um avanço que Andressa estivesse, ao seu modo, aceitando um pouco do mistério que a envolvia. O homem concordou com outro aceno e deu passagem para que as duas pudessem alcançar o interior da casa.
            Andressa deixou a bolsa em uma poltrona e olhou ao redor, conhecendo o local. Por fora parecia uma casa absolutamente normal, mas por dentro já dava para perceber que nada ali era comum. Alguns móveis antigos, provavelmente comprado há uns vinte anos, estavam distribuídos pelo local e adornado por várias louças que seria incapaz de determinar ano. Se aproximou de um vazo de barro e o contemplou por um longo tempo, tentando entender suas inscrições.
            - De que ano é esse vaso? – perguntou ao se virar para Saladiel, parada um pouco mais atrás.
            - Esse é de mil e trezentos. O adquiri depois que desencarnou, em Constantinopla – respondeu Absalom.
            - Eu morei em Constantinopla?
            - Não. Depois que partiu, migramos para lá – respondeu Almozsaaladiel. – Temos que nos mudar de tempos em tempos para não chamar a atenção.
            - Quanto tempo ficam em um mesmo lugar?
            - Entre quinze e vinte anos. Em outras eras não havia essa necessidade, uma vez que nos mantínhamos nos campos, longe das pessoas.
            - Do que vocês sobrevivem? Tudo custa dinheiro hoje.
            - Absalom vende antiguidades. Uma única moeda romana nos garante por bastante tempo.
            - E vocês também nem gastam com roupas – riu Andressa, observando a túnica do senhor de idade.
            - Verdade – concordou Amozsaaladiel acompanhando o riso.
            Andressa voltou a olhar ao redor, analisando os tecidos, os quadros. Tinha a nítida sensação de entrar em uma capsula do tempo.
            - Eu vou deixa-las sozinhas – anunciou Absalom. – Tenho que resolver um problema na rua, volto na parte da tarde.
            - Que tipo de problema, uma pessoa como você tem para resolver? – tornou a perguntar Andressa sem conter sua curiosidade.
            - Tenho que ir pagar as contas de água e luz. Depois passar na imobiliária para entregar o contrato de renovação da locação do imóvel e pagar o aluguel.
            Andressa não conteve o riso, ao olhar para o homem a sua frente. Absalom olhou para Almozsaaladiel, sem entender o motivo do riso da mulher à sua frente.
            - Desculpa – pediu Andressa tentando se controlar. – É bizarro que ela me diga que o senhor tenha mais de quatro mil anos e sai do antigo Egito para enfrentar uma fila da lotérica nos dias atuais.
            - Aqui tivemos que nos adaptar – respondeu Almozsaaladiel. – Em outros lugares, onde temos residência, nada disso é preciso.
            - Onde? – perguntou Andressa, divertida, ao se sentar na poltrona, ao lado da bolsa.
            - Cairo, Jerusalém, Paris – respondeu Almozsaaladiel enxergando a incredulidade tomar conta da morena a sua frente, mais uma vez. – Em outros lugares também. Não precisa acreditar em nada disso agora...
            - Quantas línguas você fala?
            Absalom, que até então havia se calado, resolveu se manifestar mais uma vez.
            - Eu estou indo. Manere in pace creator.
            - Amen.
            Andressa assistiu o homem se afastar e pegar uma espécie de bolsa, antes de sair pela porta.
            - Não quis ser indelicada. Eu...
            - Está tudo bem. Ele saiu para nos dar privacidade também – respondeu se abaixando na sua frente. – Ainda quer a resposta da sua pergunta.
            - Quero.
            - Falo todas as línguas.
            - Me fala alguma coisa em romeno.
            - Și înțelegi limba română?
            Andressa sorriu para Almozsaaladiel e se adiantou para fazer carinho em seu rosto.
            - Espero que não tenha me xingado.
            - Perguntei se entende romeno.
            - Já tem sua resposta – sorriu. – Como você pode ser tão estranha e tão encantadora? Como não consigo me afastar?
            - Nós temos uma ligação além do que pode imaginar. Fomos condenadas pelo divino a sempre nos encontrar.
            - Já me disse isso... É... Eu...
            - Não fala nada. Pra mim já é uma grande alegria poder te ver novamente. Mesmo que não tenha memórias de suas vidas passadas.
            - Já disse que sonho com você, não disse? – perguntou Andressa, deslizando da poltrona para o chão, para se sentar próxima a Saladiel. – Uma vez eu sonhei que estava em uma floresta, parecia que estava cortando madeira, e você aparecia. As pessoas te chamavam de bruxa, tentavam te queimar em uma fogueira...
            - E você apareceu entre eles, se opôs a minha execução. Irritou todos os moradores da aldeia e tive que sair com você de lá, revelando minha divindade, para que não lhe fizessem mal também.
            - Foi real?
            - Foi em mil seiscentos e sessenta e um. Você era apenas um jovem do campo. Falavam que eu era bruxa porque não me encaixava com o padrão étnico da Andaluzia e por morar na floresta, mas você não acreditava nisso. Você desmaiou quando te acertaram com uma pedra, não viu o que se passou depois. Te levei para a França, mas a Grande praga o atingiu. Não pude salva-lo.
            - Parece uma boa história – falou Andressa tocando seu braço, fazendo carinho lentamente. – É errado isso que eu estou sentindo. Eu sou uma mulher casada e estou completamente atraída por você, mesmo com suas maluquices.
            - Já passamos por isso antes. Não é a primeira vez.
            - O que fiz nas outras vezes?
            - Não temos como fugir do que sentimos.
            - Eu não posso magoar Vitória, da mesma forma que não posso ignorar o que estou sentindo.
            - Eu tenho todo o tempo para te esperar. Não posso interferir nas suas decisões, mas posso esperar pelo tempo que for preciso.
            - Eu... Eu não sei... Não sei o que pensar, de verdade.
            - Quer que eu me afaste?
            - Não. Não quero. Seria o certo, mas não. Eu...
            Andressa se calou sem conseguir encontrar palavras. Olhou para os olhos cinzentos tão próximos do seu rosto, tão carinhosos e apaixonados. Sem conseguir se conter, se ajoelhou e buscou sua boca em um beijo delicado. Os braços de Almozsaaladiel a envolveram, puxando para o seu colo. Devidamente encaixada em seu corpo, as bocas voltaram a se explorar com mais intensidade, mais ansiosas para se provarem. Mais uma vez, Andressa provava o melhor beijo que já havia recebido, um beijo com paixão, desejo. Como havia acontecido no dia anterior, era como se estivesse esperado por aquele beijo sua vida inteira.
            A mão se tornou mais ousada ao descer pelas costas de Saladiel e voltar por dentro do casaco. Fez a peça de roupa deslizar pelos seus braços, sem desgrudar de sua boca, revelando a camisa por baixo. A mão da morena entrou por baixo da sua própria blusa, tocando sua pele, fazendo com que seu corpo se contraísse a cada toque, totalmente sensível e completamente consciente da palma da mão que deslizava pela sua cintura e costas. Desabotoou sua camisa, revelando seu tronco, parcialmente desnudo. Se afastou o suficiente para que pudesse admira-la por poucos segundos, antes de tirar a camisa por completo.
            - Anjos não deviam fazer essas coisas... – sussurrou enquanto ajudava Saladiel a tirar sua própria blusa.
            - Não, não deviam. Por isso que carrego a marca de meu pecado...
            - Schiii... Apenas sinta tudo.
            Almozsaaladiel concordou com um aceno e se levantou com Andressa encaixada em seu corpo. Voltou a beija-la enquanto ia para a escada que levaria ao piso superior. Andressa percebeu que ela não fazia nenhum esforço para carrega-la, ao segura-la apenas com uma mão enquanto a outra a acariciava seu corpo. Entraram em um quarto e lentamente foi baixada sobre a cama. Estranharia a decoração e principalmente o dossel que a envolvia, caso sua atenção não estivesse totalmente concentrada na morena que acariciava seu corpo de forma tão terna, enquanto a beijava completamente. As mãos de Saladiel desceram para abrir o fecho da calça e em poucos segundos a dispensou ao lado da cama, junto com sua calcinha. Olhou para a mulher com a respiração entrecortada que a admirava, com um sorriso instalado nos lábios. A boca subiu por suas pernas e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás, saboreando todas as sensações únicas que sentia pela primeira vez. Era único, inenarrável. Tinha a plena sensação de planar em outra dimensão, outro espaço temporal onde só existia ela e a mulher que agora a guiava para um prazer nunca sentido. Se existia, de fato, o paraíso, poderia considerar que havia sido levado a ele.
            O tempo parou para Andressa enquanto fazia amor com Almozsaaladiel. Não soube precisar quantas vezes chegou ao prazer absoluto, quantas vezes se sentiu sendo arrebatada pela precisão com que era tocada. Não conseguiu enxergar todas as vezes que Almozsaaladiel se controlou para que não a machucasse, nem quando a criatura lutou para sair do invólucro. A única coisa que conseguia enxergar era a bela mulher que lhe apresentava um prazer, único, arriscaria até inumano.
            A manhã chegou ao fim com Andressa completamente esgotada nos lençóis. Se acomodou contra o corpo de Saladiel e ficou em silencio por um longo tempo pensando no que tinha vivido, algo que narraria como inacreditável, caso não tivesse vivido por ela mesma. Não precisava de palavras, de água ou de qualquer outra coisa que quebrasse aqueles momentos de paz absoluta. Seu completo êxtase.
           
            Absalom estava caminhando pela rua que o levaria até a casa quando a dor no peito novamente o atingiu. Mais forte que da primeira vez. Sem conseguir falar ou respirar direito, levou a mão ao peito, ao mesmo tempo em que tombava no meio do asfalto. A ultima coisa que viu, antes de perder os sentidos, foi o céu azul e a certeza de que seus dias na terra estavam se esgotando.

Notas finais:

E lá se foi embora a santidade hehhehehee

Oi oi lindonas!!!

Cap de quarta na quinta... Tres horas de atraso, to perdoada??? hehehehe

 

bjokasssssssss

Capitulo 13 por Drikka Silva

Andressa abriu os olhos, tentando se localizar de onde estava. Passou a mão no rosto e se mexeu para se virar, encontrando o corpo quente ao seu lado. Automaticamente sentiu a mão carinhosa de Almozsaaladiel na sua pele. Abriu um sorriso antes de conseguir focalizar Saladiel.
            - Dormi – sussurrou ao passar um braço por sua cintura.
            - Estava linda dormindo – respondeu a morena, se adiantando para dar um beijo em seus lábios.
            - Suponho que não durma – falou ao acariciar seu rosto.
            - Não.
            Andressa sorriu contra a pele de Saladiel: ela podia até ser maluca, mas era a maluca mais gostosa que já avia ficado até então. Ao lembrar do que haviam vivido, horas antes, o corpo voltou a se acender, pedindo mais da enigmática mulher.
            O relógio já marcava sete da noite, quando saiu da caa de Saladiel e caminhou para o próprio apartamento. Assim que entrou, encontrou Vitória andando de um lado para o outro, com o celular na mão.
            - Andressa! Pelo amor de Deus, Andressa! Onde estava?!
            - O que aconteceu?
            - Eu que te perguntou, não é? Sua chefe entrou em contato com meu numero para saber se estava tudo bem com você porque não apareceu no trabalho. Seu celular já dá caixa postal automáticamente, não está recebendo mensagem nenhuma! O que aconteceu?
            - Eu faltei ao trabalho – respondeu, distraida, indo para o sofá. Os olhos correram para a janela e o telhado do prédio à frente.
            - Isso é meio obvio. Aconteceu alguma coisa?
            Andressa olhou para a esposa demoradamente. Não precisava levar um tempo de deliberação para saber qual era o certo a se fazer, mas como poderia falar que estava completamente apaixonada por outra pessoa, sem machuca-la?
            - Eu... Eu estava com outra pessoa.
            - O quê?! Como assim, Andressa?
            - Eu não vou te explicar o que aconteceu, nem como aconteceu, mas posso te afirmar que jamais tive a intenção de te magoar ou te enganar. Aconteceu, não pude controlar.
            Vitória olhou para a esposa com um sorriso incrédulo no rosto. Sempre havia pensado que partiria dela aquelas palavras, dado o fato que mantinha um relacionamento paralelo ao casamento há meses. Sentou-se na mesinha de centro e passou as mãos no cabelo, antes de voltar a encarar Andressa.
            - Quem é ela?
            - Nada disso importa agora. Eu não queria te magoar, não era minha intenção que isso acontecesse, mas eu não vou te enganar, é contra minha índole.
            - Não quer me enganar e nem me magoar, mas fala na minha cara que passou o dia com outra mulher! O que você acha que está fazendo?!
            - Eu sei que não é certo o que fiz, mas acredito que a melhor coisa que estou fazendo agora é ser honesta com você. Eu poderia mentir, manter um relacionamento paralelo, mas a verdade, por mais doída que seja, é sempre a melhor saída.
            Vitória se levantou e andou pela sala completamente perdida. A carapuça havia servido. Claro que Andressa não desconfiava daquilo, mas suas palavras haviam como uma luva, visto que era exatamente aquilo que fazia.
            - Foram anos, Andressa, não dias. É assim que termina um casamento?
            - Me desculpe. Eu... Eu não sabia como te contar. Não acredito que também exista uma maneira fácil de contar. Me desculpe.
            Vitória balançou a cabeça em sentido negativo e saiu da sala. Por mais que estivesse aliviada, não podia deixar de se sentir traída, porém não iria ser hipocrita com acusações. Estava extremamente confusa e magoada com a revelação da esposa. Foi até o quarto e pegou a bolsa, voltando para a sala em seguida.
            - Eu... Eu vou esfriar a cabeça. Não quero conversar agora. Acho que nem temos o que conversar agora.
            Andressa ficou em silêncio e apenas concordou com a cabeça. Não podia pedir nada diferente a Vitória, diante da própria confusão que estava sentindo. Só tinha certeza de uma coisa: não conseguiria ficar longe de Saladiel, era provável que se arrependeria no futuro, mas o melhor para ambas, naquele momento.
            No telhado do prédio à frente, a escuridão predominava. Sabia que Saladiel estava ali. Conseguia sentir sua presença e seus olhos a encarando através das sombras.
            - Está ai? – perguntou em voz alta para ter a confirmação do que já sentia.
            A escuridão à frente foi dissipada levemente com a claridade que invadiu o espaço. Enxergou a silhueta de Saladiel e abriu um sorriso, jogando um beijo na sua direção. Saiu da frente da janela para conferir a água e a comida de Dexter, antes de sair do apartamento.
            Na frente do prédio, já encontrou a morena esperando-a, encostada contra a grade da portaria. Se adiantou para abraça-la.
            - Acho que viu que contei à Vitória, não é?
            - Vi. Ela vai ficar bem. Pode, enfim, viver aquilo a qual foi predestinada.
            - Não entendi.
            - Não se preocupe com a compreensão de minhas palavras. Vamos lá para casa? Ou prefere ir para outro lugar?
            - Vamos – concordou Andressa caminhando ao seu lado. – Não achou precipitado que eu tenha contado a ela?
            - Era o certo a se fazer. Se continuasse, iria engana-la.
            - Eu poderia parar de te ver. Seria uma segunda opção.
            - Não podemos simplesmente parar. Há outras coisas envolvidas.
            - Já me disse. Destino, uma condenação dada por Deus, blá blá blá.
            - Não posso te obrigar a acreditar. Fico contente que esteja, ao menos aqui.
            - Nós sempre ficamos juntas?
            - Não. Houve vezes em que seu tempo passou sem que tivesse a oportunidade de ficarmos juntas.
            - Me conta uma dessas vezes.
            Almozsaaladiel sorriu para a mulher ao seu lado. A mente voou para o passado, um momento perdido no tempo.
 
            Sussã  2445 A.C  
           
            Almozsaaladiel olhou para a planície, enxergando a migração animal, orientada pelo divino. Sentia que a humanidade seria castigada mais uma vez. Vira os sinais, sentia as vibrações sobre a terra. O véu que escondia o divino estava tênue demais, aguardando uma grande movimentação terrena. Não iria voar até onde a grande embarcação estava sendo construída. Por mais que todos os seres celestiais estivessem reunidos para aquele momento, em torno da humanidade, sua atenção estava voltada apenas para uma vila, para um homem que cultivava a agricultura, completamente alheio ao que lhe acontecia ao redor, pouco dotado do conhecimento que já crescia na região oposta.
            Tinha encontrado o espirito quando ele já estava algumas primaveras, mas não havia se aproximado. Observava-o de longe, mantendo-se atenta apenas a ameaças à sua vida, única forma de intervenção que teria até que alcançasse idade para ser tirado dos seus. Já estava próximo. O jovem espirito agora já contava com várias primaveras. A movimentação das forças divinas estava fazendo-a repensar sobre a decisão que tinha tido, quando vira seu nascimento. Em Sidim não tivera tempo, mas, desta vez, conseguia pensar em algo que não fosse uma retirada imediata. Não sabia também quais eram os desígnios do divino. Esperava, como sempre fizera. Apenas esperava.
            - Junte comida – alertou a Absalom. – Algo irá acontecer.
            Seu servo não questionou. Concordou com a cabeça e saiu para fazer o ordenado. Se levantou do lugar onde estava e saiu em direção ao jovem, que estava repousando perto de um rio. Caminhou lentamente até que ele a visse, enrolada em um manto.
            - Quem és? – ele perguntou, assim que a viu.
            - Uma viajante. Temo que algo grandioso irá acontecer. Peço que venha comigo.
            - Não irei sair daqui.
            - Por favor – se adiantou Almozsaaladiel para toca-lo. – Não sei de 5quanto tempo dispomos.
            - Não encoste! Deveria saber se recolher!
            Almozsaaladiel fez o pedido e se afastou. Ainda tentou argumentar com o jovem rapaz, mas ele estava irredutivel. Com o prazo de uma lua, a chuva começou, aumentando os niveis dos rios. Aguas caiam dos céus e brotavam da terra, tornando a agricultura impossivel de ser feita.
            - A chuva não cessa – falou Absalom parando ao seu lado.
            - Temo que o divino está agindo. Temos que nos refugiar em lugares altos, longe desses vales.
            - E aquele que espera?
            - Não posso leva-lo contra sua vontade. Te colocarei em segurança, depois retornarei.
            Absalom concordou com um aceno e aprontou as coisas para a partida. Almozsaaladiel o deixou em uma montanha ao norte, antes de voltar para o vale. O espirito estava abrigado em uma caverna, já sendo inundada pela agua.
            - Voltaste! O que queres?
            - Salvar tua vida. Me deixe ajuda-lo!
            - Vá embora! Não quero sua compaixão.
            Almozsaaladiel soube que não conseguiria demovê-lo de sua decisão. Não podia força-lo, nem arrasta-lo contra sua vontade. Observou-o por duas noites antes que a agua tomasse todo o lugar onde se escondera. Antes de partir, deixou que seu corpo metafisico se revelasse, abreviando a vida do jovem espirito. Não teve tempo para prantear sua perda, pois tinha que ir de encontro a Absalom e durante muitas luas sobrevoaram sobre as aguas que haviam invadido a terra a mando do divino.
 
            Dias atuais.
 
            - Uau! – exclamou Andressa com um sorriso. – Preferi morrer do que te acompanhar.
            - Não foi a unica vez. Entenda que já veio várias vezes a terra. No começo, Era um espirito jovem, depois passou a ter mais maturidade para escutar sua voz interior – falou Almozsaaladiel ao enrar na rua onde havia alugado a casa.
            - Acho que vou ter que realmente ir para um hospital psiquiatrico – riu Andressa. – Estou começando a acreditar nessas baboseiras.
            - Não creio que seja necessário. Você irá acreditar com o tempo.
            - Eu quero te ver. Quero ver como realmente é. Seu corpo metafisico, como diz.
            - Não posso me revelar a você. Ainda não é chegado o tempo. Não quero comprometer sua razão ou seu corpo.
            - É uma decisão que me cabe, não é? Minhas escolhas.
            - Há de se ter prudência com nossas escolhas.
            - Eu quero te ver. Se você não é realmente você, se é imortal, assim como Absalom, quero ver como vocês são de verdade.
            - Conversaremos sobre isso em um momento oportuno. Eu preciso...
            Almozsaaladiel não terminou a frase. O mal estar tomou conta do seu corpo ao se aproximar da casa. De imediato soube que seu servo não estava ali. Concentrou sua energia, procurando-o pela região, mas não conseguiu nenhuma vibração sua.
            - Algum problema? – perguntou Andressa ao ver a mulher se emudecer ao seu lado.
            - Absalom. Algo está errado.
            - Ele deve estar em casa...
            - Não. Algo aconteceu.
            Andressa ficou tensa ao ver Almozsaaladiel entrar rapidamente na casa. Assim que cruzou o portão a morena sumiu dentro da residência para voltar a aparecer em segundos.
            - Eu preciso encontra-lo. Me desculpe por deixa-la assim, mas eu preciso saber o que está acontecendo com meu amigo.
            - Chama um táxi, é mais rápido...
            - Eu vou mais rápido. Por favor, fique à vontade.
            Andressa não teve tempo de resposta ao ver a mulher ir para o meio da rua. Ela parou por um segundo e voltou para dar um beijo em seus lábios antes de voltar para o asfalto. Ficou observando enquanto ela olhava de um lado para outro e em seguida saltou para o telhado. Não conseguiu conter a incredulidade no rosto ao ver a mulher sumir em segundos. Não sabia o que mais a tinha chocado: o tamanho do salto, impossível para um humano ou a velocidade com a qual ela havia sumido nas sombras da noite.

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!

Primeiro de tudo, me perdoem pelo tempo sem postagem,  a vida deu uma viradinha no avesso hehehe (mas é por coisas boas)

 

Segundo, e mais uma novidade! Araguaia sai em livro no começo de Julho! Aeeeeee

Faremos o lançamento em Brasilia, dia 06/07 no Carpe Diem Asa Sul a partir das 18 hrs.

Teremos tbm Paula Curi, Karina Dias e Edleuza Tavares!

Esperamos vcs por lá!

 

Bjokasssssssssss

Capitulo 14 por Drikka Silva

Almozsaaladiel percorreu pelos três hospitais mais próximos até sentir a presença de Absalom em um deles. Escolheu uma lateral deserta e saltou para o chão, indo até a recepção falar com o recepcionista. Deu a descrição do seu amigo a ele, que lhe informou que o senhor havia dado entrada naquela tarde, perto das quatorze horas. A mulher pediu para vê-lo, e logo foi encaminhada para a unidade intensiva, onde ele estava internado.
            Almozsaaladiel percorreu os corredores, vendo o anjo da morte caminhar por eles. A sensação nauseabunda a atingiu, devido às grandes energias negativas que aquele lugar possuía. O quarto onde Absalom estava, tinha outra mulher idosa internada, com sua acompanhante.
            - Beati eritis – falou assim que o viu olhando para ela. – Quid agis?
            - Proximus dies veniunt
            Almozsaaladiel balançou a cabeça sem entender suas palavras. Seus dias estavam no fim. Sentia também que a vida de seu servo se esvaia lentamente, mas não compreendia o fato daquilo acontecer. Absalom havia se tornado um imortal: quando fizera seu pedido ao criador, e que fora atendida, dividira com ele seus dias na terra. Ela era imortal, ele também deveria ser.
            - Não é possível. O criador lhe deu uma vida infinita.
            - Jamais tive um problema como esse – falou Absalom com firmeza. – Um infarto. Meu coração não resistirá por muito tempo.
            - Isso não está certo!
            - Você conhece o criador, conhece seus caminhos mais do que eu. Talvez estamos no caminho de nos livrarmos desse ciclo sem fim.
            Almozsaaladiel andou de um lado para o outro, confusa, pela primeira vez em séculos. Sempre tivera certeza de todas as coisas, mas naquele momento provou um sentimento novo, o medo da perda de alguém querido, que não fosse o espirito pelo qual sempre aguardava. Se, de fato, o ciclo estava chegando ao fim, significava que aquela era a ultima vez que estaria com o espirito. Desde Hasmut até Andressa, através dos milênios, nunca antes havia cogitado aquele fim.
            Pegou a mão de Absalom com ternura e se abaixou ao lado da cama em oração, pedindo ao criador algum direcionamento. Não podia perder seu amigo, a única pessoa que de fato, a conhecia realmente. Conhecia todas as marcas que carregava desde a queda até aquele momento. Sabia que Absalom não teria outra reencarnação, seu espirito já estava evoluído, o suficiente para que não regressasse aquele plano novamente. O espiritual já havia fechado as portas à ela a beira do Eufrates. Quando ele partisse, jamais o encontraria novamente.
            - Eu preciso ir para o quarto de oração – falou ao levantar a cabeça. – Não ficarei muito tempo longe, prometo que logo retornarei.
            - Já esteve muito tempo comigo, retorne para a mulher por quem esperava, seja feliz, aproveite cada segundo. Não conhecemos os desígnios do Altíssimo.  
            - Teremos tempo depois. O mais importante é você agora.
            Absalom concordou com um aceno e assistiu Almozsaaladiel sair do quarto. Fitou o teto por um longo tempo antes de fechar os olhos, em comunhão com o Criador. Era uma sensação que havia esquecido como era, a incerteza de um novo amanhã, mas qualquer que fosse a vontade do Divino, estava pronto para cumprir.
           
            Almozsaaladiel chegou na casa e não encontrou Andressa no andar inferior. Sentia sua presença na casa e tomou o rumo das escadas, indo para o quarto. Encontrou-a dentro do quarto de oração, olhando para as ruinas no tempo.
            - Me desculpe por deixa-la – pediu, chamando sua atenção. – Encontrei Absalom.
            Andressa se virou para a mulher e ficou observando-a por um longo tempo. Quem era ela? O que era ela?
            - Você saltou uns dez metros do chão – falou sem se aproximar. – Tudo o que me disse, é verdade mesmo? Que energia estranha tem nesse quarto?
            - Eu preciso me conectar com o Divino. Eu preciso entender o que está acontecendo.
            - Eu também. O que tem Absalom? Ele é imortal, não é? Segundo suas loucuras, ele tem mais de quatro mil anos.
            - Ele teve um infarto. Alguma coisa mudou, mas não sei o que é. Eu sinto muito por não responder suas perguntas agora, mas farei isso, assim que entender o que está acontecendo.
            - Ele está em que hospital?
            - No Mario Freitas.
            - E você foi até lá, visitou ele e voltou em quarenta minutos? Isso sem nem saber onde ele estava?
            - Sim.
            - E esse quarto? O que são essas coisas nas paredes? Runas?
            - Sim. E preciso ficar sozinha agora. Me perdoe por isso, por favor, mas preciso que saia. Eu lhe garanto que explicarei tudo depois.
            Andressa concordou com um aceno de cabeça e saiu do quarto. Andou até a ponta das escadas, escutando a porta do aposento fechar atrás de si. Não conteve a curiosidade de voltar para a frente do local e ficar parada rente a madeira, com vontade absoluta de entrar. Sentou no outro lado do corredor enquanto sentia uma paz, nunca antes provada, invadir seu corpo e sua mente. Fechou os olhos e ficou em silêncio, enquanto escutava a voz de Saladiel, em uma língua que ela desconhecia. Quando voltou a abri-los, enxergou a forte luz brilhante que saia das frestas. A curiosidade de se levantar e abrir a porta era imensa, mas seu respeito pelo momento de privacidade, pedido por Saladiel, era maior. Se limitou a abraçar as pernas, enquanto curtia a sensação de paz que a invadiu por completo.
            Almozsaaladiel se levantou, sem se dar conta de quanto tempo havia passado em oração. Esticou todo o corpo metafisico antes de criar um novo invólucro. Colocou as roupas, deixadas em um canto, e abriu a porta para enxergar Andressa sentada no corredor.
            - Quanto tempo ficou me esperando? – perguntou ao se abaixar na sua frente.
            - Dez horas. Agora são oito horas da manhã.
            - Passou a noite ai?
            - Eu dormi. Encontrou a resposta que queria?
            - Os caminhos do Altissimo são desconhecidos ainda.
            - Eu quero te ver. Uma pequena parte, não me deixe pensar que estou ficando maluca, vendo portas brilharem, um humano saltar em alturas impossíveis, velocidade maior que qualquer carro... Eu não estou te pedidno muito! Eu só preciso saber que não estou ficando maluca a ponto de passar uma noite inteira deitada em um corredor esperando por uma resposta. Por favor!
            Almozsaaladiel fechou os olhos, suspirando fundo. Era um pedido justo. A amava com todo o seu ser, desde os primórdios. Não podia deixar de atender a um pedido seu.
            - Apenas uma pequena parte. Não quero que se assuste a ponto de colocar sua vida em risco, ou sua sanidade.
            - É só o que estou te pedindo.
            A morena concordou com a cabeça e se afastou o suficiente para tirar o casaco que usava. Em seguida tirou a camisa, e se afastou até a outra ponta do corredor. Se abaixou lentamente, encostando a testa no chão, pedindo misericórdia ao criador pela vida de Andressa. Devagar deixou o invólucro humano liberar suas asas.
            Andressa abriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som. A visão que tinha na sua frente era surreal, saída de algum filme. Grandes asas, cobertas com uma reluzente plumagem negra. Ainda sem conseguir pronunciar palavra alguma, engatinhou lentamente a ela, tocando sua cabeça, fazendo com que Almozsaaladiel levantasse seus olhos para enxerga-la.
            - É real... Tudo isso... Tudo... é real...
            - Não se assuste! Essa aparência é o estigma que carrego pelo meu pecado de te amar.
            - São lindas! – exclamou Andressa extasiada. – São incrivelmente lindas!
            Almozsaaladiel ficou sem entender o encantamento de Andressa por segundo, até puxar uma asa para que entrasse no seu campo de visão.
            - Reconstruídas – balbuciou ao tocar a plumagem. – Eu... Sua última reencarnação...
            - Não entendo...
            - “Sua punição por seu ato de rebeldia serás buscar por quem entregou sua santidade até que os dias da terra se findem” essas foram as palavras do arcanjo. Tão claro como a água, seus dias são finitos, não os meus... Absalom é finito.         
            - Não nos encontraremos mais?
            - Somente o Criador possui essa resposta. A única certeza que possuo é que o fim se aproxima.
            - Absalom...
            - Meus dias foram dividos com ele...
            - O que vai acontecer com você?
            - Eu não sei. A única certeza que disponho no momento é que temos que viver o hoje. O amanhã é obscuro.
            - Posso toca-las?
            Almozsaaladiel assentiu com a cabeça e Andressa se ajoelhou, esticando a mão para tocar a macia plumagem. Jamais havia imaginado que aquilo pudesse existir, jamais poderia supor que todas as suas convicções seriam derrubadas por terra diante daquela magnifica visão. Não se conteve em abraça-la apertado.
            - Pelo tempo que nos for concedido.
            - Pelo tempo que nos for concedido – concordou Almozsaaladiel.
            - Vamos ver Absalom. Depois que tudo isso passar, me promete que se mostrará inteira a mim?
            - Prometo.
            Andressa buscou sua boca em um beijo demorado, antes de se levantarem do chão. Almozsaaladiel voltou a reconstruir a parte do invólucro nas costas e novamente se vestiu. Se fosse a vontade do divino, que o ciclo sem fim, já falado por Absalom, estava chegando ao fim, o que viria à frente era desconhecido, mas estava preparada para acatar a vontade divina.

Notas finais:

Oi oi lindonas!!!

Chegando para dar continuidade e finalizar este conto. Me desculpem pela falha nas postagens, mas assim como o destino de Almozsaaladiel, tudo estava bem obscuro nesses ultimos dois meses hehehhe (mentira tava atulhada de trabalho mesmo) Sorry!

 

A quem tiver paciencia de ainda acompanhar, obrigada pela cia! 

 

Bjokasssssssss

Capitulo 15 por Drikka Silva

Andressa saiu para a calçada da casa, com um novo sentimento, como se um peso tivesse sido retirado das suas costas. Não estava ficando maluca, como havia pensado tantas vezes, nem perdendo a razão ao gostar de alguém sem o mínimo de coerência, como Saladiel havia se mostrado. Tudo, absolutamente tudo, era real.
            - Como isso funciona? Você vai me levar no colo até onde está Absalom?
            - É o jeito mais rápido de chegarmos lá. Se segure em mim e mantenha os olhos fechados para que nada os machuque.
            - Tudo bem – concordou Andressa, ao enlaçar a mão no seu pescoço. – Não me deixe cair!
            - Jamais!
            Almozsaaladiel olhou ao redor para se certificar de que ninguém as estava vendo, mas esperou por um minuto até que um carro se afastasse pela rua. Assim que ele sumiu, saltou para o telhado da casa próxima. Parou para observar Andressa que a segurava firmemente.
            - Tudo bem?
            - Obvio que não – riu Andressa ao abrir os olhos e ver que estava em cima da casa. – Vai ficar repetitivo se disser que isso é inacreditável?
            Almozsaaladiel deu um sorriso, seguido de um beijo em seus lábios.
            - Se segure forte.
            Andressa concordou e enfiou a cabeça no pescoço de Saladiel, fechando os olhos. Sentiu quando foi tirada do chão e o vento forte em seu corpo, enquanto sentia como se estivesse voando. Resistiu a tentação de abrir os olhos por três minutos, até ser colocada no chão.      
            - Chegamos.
            As pernas de Andressa estavam bambas, tanto pela velocidade que, pela primeira vez havia quebrado, quanto pelo fato, ainda surreal, de tudo o que estava acontecendo.
            - Só um minuto – pediu, trêmula. – É só o tempo de me recuperar.
            - Tudo bem. Não se preocupe.
            A morena respirou fundo, sem tentar assimilar o que tinha acontecido minutos antes. Ainda tinha muita coisa para entender. Não que estivesse cética, mas suas convicções de uma vida inteira haviam sido jogadas por terra e teria que ter tempo para assimilar tudo.
            Cinco minutos depois, entraram no hospital. Apresentou sua identidade, para que fosse liberada para a visita, e Saladiel apenas tocou o braço da recepcionista para convence-la a entregar um crachá a ela. Abriu um sorriso incrédulo, antes de se afastarem pelo corredor.
            - Sempre consegue as coisas assim?
            - Transmito confiança. Quando se passa confiança em algum ato, é normal que as pessoas se sintam seguras e confortáveis em ajudar.
            - Você não me tocou em nenhum momento, quero dizer, em dois momentos, bem críticos, mas não da mesma forma.
            - Não poderia ser diferente. Tinha que deixar que você mesma sentisse a necessidade de estar comigo.
            Andressa deu um meio sorriso, sem esboçar nenhuma resposta. Pararam de frente a porta do quarto e entraram para enxergar Absalom repousado contra o travesseiro, com os olhos fechados.
            - Está dormindo – falou Andressa baixinho.
            - Está em comunhão, apenas isso – respondeu Almozsaaladiel se aproximando da cama. – Como está meu amigo?
            - Bene... Andressa!
            - Gosta de dar sustos nos outros, não é? Como você está?
            - Conforme a vontade do criador. Algo mudou entre vocês... O que foi?
            - A verdade foi revelada – respondeu Almozsaaladiel ao se abaixar ao lado da cama. – A confusão ainda permanece, mas não existe mais nada oculto.
            - Entendo. Que a paz permaneça entre vocês. Esperava por esse dia, ansiosamente.
            - O que nos liga ao passado? – perguntou Andressa ao tocar sua mão.
            - Fui seu progenitor em tempos antigos. Foi assim que Almozsaaladiel me encontrou.
            - Devo chama-lo de pai?
            - Um amigo, torcendo ansiosamente por sua felicidade.
            - Me conte, quero saber tudo.
            Absalom trocou um olhar com Almozsaaladiel antes de voltar o olhar afetuoso para Andressa. Passou a narrar tudo o que havia acontecido, desde suas memórias mais antigas, no vale do Sidim. Andressa o escutou, interrompendo apenas ao fazer perguntas para entender melhor quem havia sido. Era uma boa história. Sua história.
            Saíram do hospital quando já era tarde. Andressa informou que precisava passar no apartamento para dar comida para Dexter e tomar um banho. Almozsaaladiel concordou: a deixaria na frente do prédio e depois iria para casa, ficaria no quarto de oração até que ela retornasse.
           
            Absalom ficou observando as duas mulheres que saiam do quarto. Relaxou contra o travesseiro e fechou os olhos, entrando em oração. Voltou a abri-los quando sentiu o corpo todo se arrepiar e um vento forte passar pelo quarto, que era mantido com as janelas fechadas. Logo uma luz brilhante invadiu o aposento. Notou que somente ele estava vendo e sentindo tudo aquilo, diferente de sua acompanhante de leito, que estava dormindo. As lágrimas rolaram pela face quando enxergou o anjo que viera busca-lo.
            Andressa chegou em casa e procurou Dexter, acalmando o gato por longos minutos, até que ele se acostumasse com sua presença. Deu comida e agua a ele, antes de ir tomar um banho. Tirou a blusinha e estava desabotoando a calça quando escutou um toque na porta.
            - Temos que voltar para o hospital – falou Saladiel ao enxerga-la.
            - O que aconteceu?
            - Absalom. Algo aconteceu.
            - Mas te ligaram de lá? Acabamos de sair e... Deixa. Não tenho como saber mesmo como sabe essas coisas. Vamos.
            Andressa saiu e fechou a porta do apartamento. Novamente se deixou ser guiada por Saladiel até o hospital. Diferente da primeira vez, horas mais cedo, não sentiu necessidade de esperar se recuperar.
            Na recepção do hospital, Saladiel usou de persuasão para que pudesse ter acesso ao quarto de seu servo. Assim que entrou no corredor que o levaria até ele, enxergou o anjo que estava parado na porta. O tempo real parou enquanto se via transportada para o plano metafisico.
            - Muitas luas, Almozsaaladiel.
            - Muitas além do que consigo contar – concordou. – És chegado o tempo?
            - Sim.
            - Posso me despedir?
            - Não há mais tempo. Os desígnios do altíssimo já foram ditados. Em breve estarão juntos, novamente.
            - Qual a vontade do Criador?
            - No tempo certo será tão claro como a água. Aproveite o tempo que lhe resta – orientou, antes de se virar para Andressa que estava paralisada ao seu lado. – É uma alma pura. Não deixe que nada a macule.
            - Que assim seja – concordou ao se abaixar.
            - Esteja atenta ao chamar do Criador.
            Almozsaaladiel se levantou, no mesmo momento em que o plano terrestre voltava para sua visão. Continuou parada ao ver Andressa terminar o trajeto até o quarto.
            - Ele não está aqui – falou a mulher com o coração disparado. – O que aconteceu com ele?! Saladiel, o que está acontecendo com você?
            - A vontade do Criador foi cumprida. Absalom está aonde esperou ir por tantas eras. Finalmente ele descansa.
            - Ele... Ele morreu?
            - Foi para as moradas celestes. Vamos embora, não há mais nada a ser feito aqui.
            - Mas ele... – Andressa não conseguiu segurar as lágrimas diante da constatação de que Absalom havia falecido. – Eu sinto muito... Ele... Que droga! Nem tivemos tempo!
            - Tiveram bastante, tenha certeza de que ele gravou cada momento que tiveram nesta terra. Ele descansa agora. Era o que mais queria.
            - Eu vou vê-lo novamente?
            - Se o Altíssimo nos permitir. Vem, vamos falar com o médico.
            - O que será feito de agora em diante?
            - Vamos esperar a liberação do corpo, fazer a cremação e levar suas cinzas para seu lugar de origem.
            - Vale de Sidim... Você... Você vai embora?
            - Se quiser, gostaria que fosse comigo para a Jordânia.
            - Eu tenho trabalho, ou tinha até dois dias atrás, quando sumi. Eu...
            - Pense, não é uma decisão rápida. Se disser que vai comigo, espero o tempo que quiser. Se decidir não ir, eu irei, retorno em dois dias, mas me preocupa que fique sozinha.
            - Eu vou pensar, prometo. Você... Você não chora a perda de Absalom.
            - Não há motivos para a tristeza, somente a paz reina em minha mente. Ele está aonde sempre quis ir, se livrou do castigo ao o trouxe. Ele está bem, somente isso importa.
            - O que aconteceu?
            - Eu vi o anjo que veio busca-lo, um ser de luz. Não se preocupe, ele está bem.
            Andressa concordou com um aceno antes de abraçar Almozsaaladiel. O conforto que esperava sentir, a atingiu de imediato. Depois de respirar fundo, saíram atrás do médico para que saber os procedimentos que deveriam tomar.
            Já era final da tarde quando Almozsaaladiel saltou no beco próximo ao apartamento. Seguiram em passos lentos até a frente do prédio de Andressa e se despediram com um beijo demorado. Não iriam ficar muito tempo longe: o suficiente para que pudesse tomar um banho e ajeitar algumas coisas no apartamento, antes de retornar a ela.
            - Quer dizer que já estão até se despedindo aos beijos na frente do apartamento?! – perguntou Vitória irritada ao ver a ex-mulher entrar.
            - Não achei que estaria em casa. Me desculpe pela falta de tato.
            - E porque não estaria? Aqui é minha casa ainda!
            - Não quero brigar Vitória, não hoje. Um amigo faleceu essa tarde e, por mais que... me digam que foi o melhor, ainda é doloroso.
            - Quem morreu?
            - Você não conhece. Eu vou tomar um banho e vou descansar um pouco.
            - Nós temos que decidir nossa vida, Andressa.
            - Nós vamos. Agora vou tomar um banho.
            Andressa saiu da sala e seguiu para o quarto e, depois, banheiro, finalmente se jogando em um banho quente. Precisava, de fato, decidir o que faria da sua vida. Já havia passado do limite onde podia ignorar tudo.

Notas finais:

Oi oi lindonas!

Demorou, mas saiu hehehee

bjokassssssssss

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