Por acaso | a história de duas mulheres e seus acasos por Poracaso
Summary:

Elas encontraram-se, por acaso, no aeroporto, num daqueles momentos corriqueiros que a princípio não parecem significar muita coisa – mas que mudam nossas vidas para sempre. E então, o que acontece depois? Quais as decisões e eventos que fazem de um instante simples algo realmente transformador? Ainda estamos descobrindo.


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Luísa


Luísa Medeiros de Mendonça, 34 anos, é advogada especialista em direito empresarial, sócia de um grande escritório de advocacia. Lu, como é chamada pelos mais próximos, é reservada e muito desconfiada. Não se entrega com facilidade.


Lu chama atenção mesmo fazendo de tudo para passar despercebida. Seus cabelos muito negros e muito lisos estão sempre prontos para esconder-lhe o rosto, principalmente seus grandes olhos pretos, que parecem sempre pedir colo.


Seu jeito desconfiado muitas vezes faz com que ela pareça distante, mas dentro dela um turbilhão de sentimentos se misturam. Essa virginiana, que faz juz ao signo em todas as suas características, luta contra si mesma para ser feliz.


Carol


Maria Carolina Cavalcanti Ferraz, 42 anos, é professora titular do Departamento de Antropologia, Dra. em Antropologia do Comportamento. Carol, como é conhecida, é uma mulher forte e decidida, costuma ter sempre uma resposta pra tudo.


Carol chama atenção pela sua inteligência e senso de humor ácido. Seus cabelos cor de mel emolduram seu rosto com cachos desgrenhados, seus olhos verdes escuros estão sempre acompanhados dos óculos quadrados que fazem com que ela tenha um ar superior.


Seu jeito prático pode ser confundido com falta de sensibilidade e até arrogância, mas nada mais é do que sua personalidade forte, que faz com que essa taurina viva sempre intensamente.


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 68 Completa: Não Palavras: 56446 Leituras: 111951 Publicada: 08/11/2017 Atualizada: 25/09/2018
Notas:

Meninas, todo final de semana postarei um novo capítulo aqui!

Não se esqueçam de me contar o que vocês estão achando.

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1. Capitulo 1 - O encontro por Poracaso

2. Capitulo 2 - O outro dia por Poracaso

3. Capitulo 3 - Na fila do chá por Poracaso

4. Capitulo 4 - O acaso por Poracaso

5. Capitulo 5 - Destino por Poracaso

6. Capitulo 6 - O encontro (parte 2) por Poracaso

7. Capitulo 7 - Toc toc toc. Será o acaso? por Poracaso

8. Capitulo 8 - Apertem os cintos por Poracaso

9. Capitulo 9 - Se acaso me quiseres... por Poracaso

10. Capitulo 10 - O perdão do poeta por Poracaso

11. Capitulo 11 - Porque a vida só se dá pra quem se deu por Poracaso

12. Capitulo 12 - Vem cá, Luisa por Poracaso

13. Capitulo 13 - consta nos astros, nos signos, nos búzios por Poracaso

14. Capitulo 14 - Paraíso se mudou para lá por Poracaso

15. Capitulo 15 - Roda moinho roda gigante por Poracaso

16. Capitulo 16 - É cedo ou tarde demais pra dizer adeus por Poracaso

17. Capitulo 17 - Apesar de você amanhã há de ser outro dia por Poracaso

18. Capitulo 18 - só me resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza por Poracaso

19. Capitulo 19 - Você que ontem me sufocou de amor e de felicidade, hoje me sufoca de saudade por Poracaso

20. Capitulo 20 - Uma mulher de moral não fica no chão por Poracaso

21. Capitulo 21 - embaixo dessa neve mora um coração por Poracaso

22. Capitulo 22 - Onde estou eu, onde está você? Estamos cá dentro de nós, sós por Poracaso

23. EPÍLOGO (Luisa) por Poracaso

24. Capitulo 23 - O Encontro por Poracaso

25. Capitulo 24 - O outro dia por Poracaso

26. Capitulo 25 - Na fila do chá por Poracaso

27. Capitulo 26 - O acaso por Poracaso

28. Capitulo 27 - O destino por Poracaso

29. Capitulo 28 - O encontro (parte II) por Poracaso

30. Capitulo 29 - Toc, toc, toc. Será o acaso? por Poracaso

31. Capitulo 30 - Apertem os cintos por Poracaso

32. Capitulo 31 - Se acaso me quiseres... por Poracaso

33. Capitulo 32 - O perdão do poeta por Poracaso

34. Capitulo 33 - Porque a vida só se dá pra quem se deu por Poracaso

35. Capitulo 34 - Vem cá, Luisa por Poracaso

36. Capitulo 35 - Consta nos astros, nos signos, nos búzios por Poracaso

37. Capitulo 36 - Paraíso se mudou para lá por Poracaso

38. Capitulo 37 - Roda moinho, roda gigante por Poracaso

39. Capitulo 38 - é cedo ou tarde demais pra dizer adeus por Poracaso

40. Capitulo 39 - Apesar de você, amanhã há de ser outro dia por Poracaso

41. Capitulo 40 - Só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza por Poracaso

42. Capitulo 41 - Você que ontem me sufocou de amor e de felicidade, hoje me sufoca de saudade por Poracaso

43. Capitulo 42 - Uma mulher de moral não fica no chão por Poracaso

44. Capitulo 43 - Debaixo dessa neve mora um coração por Poracaso

45. Capitulo 44 - Onde estou eu, onde está você? Estamos cá dentro de nós, sós por Poracaso

46. Capitulo 45 - EPÍLOGO (Carol) por Poracaso

47. Capitulo 1 - De que serve a terra à vista se o barco está parado (parte III) por Poracaso

48. Capítulo 02 - Um extravio morno da minha consciência e depois eu sumo por Poracaso

49. Capitulo 3 - Como essa noite findará e o sol então rebrilhará por Poracaso

50. Capitulo 4 - Então tá combinado, é quase nada, é tudo somente sexo e amizade por Poracaso

51. Capitulo 5 - Eu não te peço muita coisa, só uma chance (me liga) por Poracaso

52. Capitulo 6 - Veja bem, meu bem, sinto te informar que arranjei alguém pra me confortar por Poracaso

53. Capitulo 7 - O ciúme lançou sua flecha preta e se viu ferido justo na garganta por Poracaso

54. Capitulo 8 - Diga que já não me quer, negue que me pertenceu por Poracaso

55. Capitulo 9 - Preciso descobrir, no último momento, um tempo que refaz o que desfez por Poracaso

56. Capitulo 10 - Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, tempo tempo tempo tempo, quando o tempo for propício por Poracaso

57. Capitulo 11 - Pra que mentir, fingir que perdoou, tentar ficar amigos sem rancor por Poracaso

58. Capitulo 12 - Não me deixe só, eu tenho medo do escuro por Poracaso

59. Capitulo 13 - solidão é lava, que cobre tudo por Poracaso

60. Capitulo 14 - É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã, é um belo horizonte, é uma febre terçã por Poracaso

61. Capitulo 15 - Minha garganta arranha a tinta e os azulejos do teu quarto, da cozinha, da sala de estar por Poracaso

62. Capitulo 16 - A tristeza tem sempre uma esperança, de um dia não ser mais triste não por Poracaso

63. Capitulo 17 - Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está por Poracaso

64. Capitulo 18 - Me liga. Me manda um telegrama. Uma carta de amor. Que eu vou até lá. por Poracaso

65. Capitulo 19 - Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual por Poracaso

66. Capitulo 20 - Amanhã ódios aplicados, temores abrandados, será pleno. por Poracaso

67. Capitulo 21 - Mesmo querendo, eu não vou me enganar, eu conheço seus passos, eu vejo seus erros. por Poracaso

68. Capitulo 22 - Porém não tive coragem de abrir a mensagem. Porque na incerteza eu meditava e dizia: será de alegria? Será de tristeza? por Poracaso

Capitulo 1 - O encontro por Poracaso
Notas do autor:


Para ler o prólogo de Luisa: https://projetoporacaso.wordpress.com/capitulos

Eu conheci Carol no aeroporto de São Paulo. Estava voltando de uma reunião de trabalho. Meu voo já estava atrasado em uma hora, quando resolvi comer algo.

Aguardava pacientemente na fila, até que, ao chegar a minha vez, fui interrompida abruptamente por uma mulher que se dirigiu à balconista, mesmo sem estar na fila, desprovida de qualquer cerimônia e pôs-se a fazer seu pedido:

– Você poderia me ver uma coca e um pão de queijo para viagem, que eu já estou atrasada, por favor?

Diante da situação, a atendente me olhou de forma interrogativa, como se dependesse da minha autorização a realização do pedido da moça. Eu então me dirigi àquele projeto de tempestade:

– Com licença, é que eu estou na vez.

Ela então, como se fosse a primeira vez na vida que tinha contato com um ser humano, encarou-me e disse:

– A prioridade é de quem está atrasada para o voo.

– Não. A prioridade é guardada somente aos portadores de necessidades especiais, gestantes, idosos e pessoas com criança de colo. E, que me conste, você não se enquadra em nenhum desses casos.

Enquanto isso, a atendente nos olhava com cara de quem precisava receber alguma ordem.

– Veja só, você devia ser mais bem humorada. Não tem ninguém na fila além de você e não custa nada deixar que eu seja atendida rapidamente já que meu voo está na última chamada e preciso comer antes de tomar um remédio, por favor.

– Bom saber que você é capaz de tratar bem as pessoas. Sendo assim, a vez é sua.

– Obrigada – respondeu.

Não pude deixar de pensar o que tem mulher bonita para ser petulante! Mas, bom, diante do consenso, a balconista atendeu ao pedido e ela se foi. Mas antes de ir, enquanto esperava a comida, rabiscou algo em um guardanapo e me entregou antes de atravessar correndo o portão que dava acesso ao finger.

Sem que eu tivesse tempo de olhar o que havia escrito, a atendente prontamente quis saber, mais uma vez, minhas ordens. Pedi um chá de limão, como sempre, e um pão de queijo.

Atendida, fui sentar-me, no chão, onde era possível, já que inferno era pouco para definir a situação daquele aeroporto. No meu tablet me entreti respondendo emails de trabalho e 40 minutos depois os passageiros do meu vôo foram finalmente convidados a embarcar. Ufa!

Só depois de me acomodar, dei-me conta de que tinha esquecido o papel que havia recebido da garota do café em meu bolso. Prontamente pus a mão lá dentro para ver se ainda estava no mesmo lugar. O papel estava todo amassado, mas perfeitamente legível.

 

carol_ferraz@email.com
81 555454545
Para o caso de precisar furar uma fila

Ri alto, pensando na cena que tinha dado origem ao bilhete. Além de bonita, era espirituosa!

Adoro gente interessante. Era capaz de me interessar por uma pessoa apenas por achá-la interessante. Minhas amigas me perguntavam o que fazia uma pessoa digna de tal qualificação. Bom, é um conjunto de coisas, eu respondia. A conversa, os movimentos, o cheiro e, enfim, a plástica. Talvez por isso eu não tivesse até hoje um padrão de mulher. Não gostava de mulheres negras, ruivas, loiras, brancas, gostava apenas de mulheres interessantes.

E a tal da Carol, de fato, vinha se constituindo em uma mulher interessante. Na verdade, desde o primeiro momento, mesmo conturbado, ela já demonstrava força e leveza ao mesmo tempo. Mas, e agora? Nunca acreditei em relações iniciadas de forma intempestiva. Nunca fui assim, tomada por rompantes juvenis. Dessa forma, olhei o papel mais uma vez e o enfiei de volta no bolso.

Não preguei o olho o voo todo, como sempre, e cheguei como se um trator tivesse passado por cima de mim, como sempre. Peguei um táxi e fui direto para casa. Já era madrugada quando abri a porta e arrastei a minha mala de mão até o quarto. Tirei tudo, que era muito pouco, na verdade, da mala e coloquei na máquina de lavar, inclusive as roupas que eu estava vestindo depois de esperar quase 8 horas no aeroporto. Enquanto aguardava o serviço ficar pronto, aproveitei para tomar uma ducha.

Cochilei sentada no box e só acordei porque o celular tocou, às 3h20 da manhã. Só podia ser uma pessoa, minha mãe. Queria confirmar que eu tinha sobrevivido a mais esse embate aéreo, que me obrigava a estar em SP pelo menos uma vez por semana nos últimos três meses.

Imediatamente, lembrei-me das roupas que havia colocado para lavar, desliguei o chuveiro, pus-me de pé, coloquei o pijama e me arrastei até a área de serviço. Abri a máquina e me esforcei para pendurar as peças, sentindo aquele cheiro de lavanda que vinha do amaciante de roupas. Já estava quase acabando, quando puxei uma calça da maquina e ao pendurá-la pela perna, vi um papel se esgarçando no bolso esquerdo, um pedaço já havia caído no chão. Abaixei-me para pegar e quando abri lembrei-me do bilhete que havia recebido no aeroporto. Ri de novo e me apressei para pegar a parte que tinha ficado no bolso. Mesmo borrado, ainda era possível ver as informações.

O cochilo no box não havia saciado meu cansaço e o sono voltava a incomodar. Caminhei até o quarto, o que me pareceu uma distância maratonesca para quem morava em um estúdio de 30m². Pus o bilhete molhado sobre a mesa de cabeceira e adormeci.

Capitulo 2 - O outro dia por Poracaso

Acordei tarde, ou melhor, abri os olhos. Ainda me sentia cansada do mau jeito do dia anterior. Precisava acordar de uma vez por todas. Levantei, coloquei uma roupa de ginástica, comi o meu cereal com iogurte, como sempre, enfiei o pé no tênis, ainda sem muita certeza da decisão que estava tomando, mas, antes que perdesse a pouca convicção, empurrei-me para fora do apartamento.

 

Corri como se não houvesse uma linha de chegada. E, de fato, não havia. Sentir meu corpo se mover e o suor escorrer, trouxe-me de volta à vida real. Voltei para casa mais disposta, querendo interagir com alguém, com saudade de falar, de ouvir.

 

Tomei banho e liguei para Marcos e Marina, meus fiéis escudeiros. Mais que isso, minha base, meu porto seguro, meu alicerce. Combinamos de almoçar para colocar a conversa em dia.

 

Sentamos numa mesa no canto do bar. Não por opção, mas por falta dela. Foi aí que recobrei a memória. Era sábado. Crianças gritavam de alegria e corriam entre as mesas, casais riam alto, a televisão mostrava algum show de pagode e Marina tinha acabado de assoviar para o garçom, pedindo uma cerveja. Lembrei porque eu não gostava de sair.

 

Enquanto esperávamos Marcos, conversamos sobre séries do Netflix.

 

Marcos chegou e fui obrigada, como sempre, a contar todos os mínimos detalhes da viagem, da reunião, do atraso do voo. E foi aí que contei a estória de Carol.

 

A estória de Carol virou então uma saga.

 

Marina disse:

 

– Meu irmão, velho, acho que é isso mesmo.

 

E eu, como sempre, pensava: isso mesmo o quê? Entender Marina era de fato uma tarefa linguisticamente difícil, mas emocionalmente muito fácil.

 

Marcos só ria. Até que disse:

 

– Por que você não liga?

 

– Eu? De jeito nenhum – Me defendi

 

– Então passa um email, de repende ela pode ser a mulher da tua vida – sugeriu.

 

– Desde quando você encontra a mulher da sua vida no aeroporto? – perguntei.

 

– Desde que ela seja a mulher da sua vida e esteja no aeroporto – respondeu.

 

– Vocês acham que ela quer alguma coisa comigo? Acho que quer é se vingar da lição de moral que dei a ela. Isso sim.

 

– Aiiiii! Que pessoa desconfiada que você é. Ela não te chamou de mal humorada? Mostre a ela que você não é – resumiu Marina, como sempre.

 

– Olha, você está sem ninguém há quanto tempo? 1, 2 anos? – perguntou Marcos

 

– Um ano e oito meses – Respondi sem esforço

 

– Pois pronto, quem sabe não está na hora de voltar à velha forma – disse ele.

 

– Mas não sei se quero me apegar, namorar, ou pior, não quero me machucar – ponderei.

 

– E quem aqui tá falando em namorar? Que mania essa sua de ter que casar. Veja só eu. Não namoro faz, pelo menos, uns 7 anos, mas não fico só – argumentou Marina.

 

– Mas não sou assim. Gosto de ficar junto, de dividir, de agarrar, de dormir no ombro, de ter outra escova de dentes no banheiro, enfim – ponderei.

 

– Mas nem sempre isso é possível, portanto, abra-se para outras possibilidades, quem sabe você não gosta – sugeriu Marina.

 

– Eeeeeu acho que vale a pena tentar – opinou Marcos.

Notas finais:

O encontro deixou um desejo de reencontro. Mas o que Luisa fará? Será que ela está preparada para os acasos da vida?

Capitulo 3 - Na fila do chá por Poracaso

Eu sempre pensei que ia encontrar o amor da minha vida na fila do chá, no supermercado. Ficava imaginando diálogos de primeiro encontro:

 

– Você gosta desse chá?
– Sim, gosto muito.
– E vem sempre aqui?
– Sim, sempre
– E compra sempre chá?
– Sim, compro sempre
– E quer tomar chá comigo?
– Sim, eu quero
– E quer casar comigo?
– Sim, eu quero

 

E aí, íamos tomar chá e casávamos. No outro dia, tínhamos filhos e vivíamos felizes, viajando pelo mundo.

 

Mas a realidade tem sido um pouco diferente. Tenho tido relacionamentos duradouros, é fato, no entanto eles acabam. Queria algo eterno. Embora eu não seja uma pessoa romântica, propriamente dita, conservo essa visão cor-de-rosa das relações.

 

Tive dois relacionamentos longos nos últimos tempos, um de 7 e outro de 4 anos. Felizes, na medida do possível, mas que acabaram de maneira muito desgastante, com mágoas e cicatrizes que duram até hoje e que fazem com que eu me defenda do mundo como se houvesse uma teoria da conspiração em torno da minha felicidade. Eu estava vivendo assim, há exatos um ano e oito meses. Protegida do mundo.

 

Talvez precisasse ir mais ao supermercado e ficar horas em frente à prateleira do chá, esperando o acaso. Mas, e se o acaso chegasse, eu estaria preparada? E se o acaso não acontecesse na fila do chá e sim no aeroporto? E se o acaso também fosse capaz de machucar?

 

Às vezes, antes de dormir, pensava que o melhor seria esperar pelo acaso na igreja, onde provavelmente encontraria pessoas de bem, será? Não sei, mas as baladas facilitam tropeços maiores, embora lá o acaso esteja favorecido pela situação. Já não sei. E, justamente por não saber, resolvi esperar pelo acaso em minha casa. Quem sabe um dia alguém erra de apartamento e toca a minha campainha? Eu estaria aqui, pronta. Por isso saio tão pouco; acaso é acaso, tenho que estar à disposição.

Capitulo 4 - O acaso por Poracaso

Como o ser humano pode sobreviver trabalhando tanto. Tinha a nítida sensação que a minha existência se resumia exclusivamente ao trabalho. No meu caso, a frase “vivo para trabalhar” vinha bem a calhar.

Na minha hora do almoço – comendo uma salada em frente ao computador na minha sala do escritório –, parei para atender ao telefone. Do outro lado da linha, Marina praguejava sobre meu excesso de trabalho e minha mania de eficiência.

Eu concordava, sem a esperança de solucionar o problema, mas certa de que ela tinha razão. Ela fazia referência ao regime de castas, citava Marx, falava da necessidade de ascensão da classe média e todas as frases acabavam, invariavelmente, com “tá ligado véi”. Eu a ouvia, invejando aquela forma leve de levar a vida e, ao mesmo tempo, sem conseguir me imaginar dentro daquele estilo.

Ela acabou o telefonema lembrando um e-mail que eu havia ficado de enviar. Sim, claro, o e-mail que concordei em enviar para Carol. Respondi que ainda não tinha tido tempo para fazê-lo e ela me interpelou dizendo que a dinâmica capitalista tinha dessas coisas, colocava as pessoas dentro de uma roda viva, onde o dinheiro passava a gerir o tempo e o tempo passava a ser dinheiro. Segundo ela, as pessoas então não paravam para contemplar os pequenos instantes da vida e tudo se tornava efêmero.

“Meu senhor!” – pensei, mas o que falei foi:

– Acho que, de fato, essa fuga pela satisfação por meio do consumo torna o sujeito pós-moderno, um indivíduo fragmentado, alheio ao mundo real – teorizei.

– Pois é, e é isso que você está fazendo, rejeitando as relações sociais – diagnosticou.

– Por causa do e-mail? – perguntei

– Também. O e-mail é apenas mais uma reação sua às relações. Vejo que você julga tudo como relações líquidas, com as quais você nada pode aprender. Mas reflita, entenda que cada relação contribui para a sua transformação como ser humano – explicou.

– Sem dúvida. Prometo que vou mandar o e-mail e transgredir minhas concepções amargas de mundo – encerrei.

– Aguardo notícias – determinou.

– Pode deixar – afirmei.

Desliguei o telefone e lembrei porque eu era amiga de Marina: porque ela era única. Só ela conseguia simplificar o que havia de mais complexo no mundo e tornar complexo o que havia de mais simples no mundo.

Além disso, ela ainda era loira – embora eu não gostasse de loiras -, tinha olhos verdes, era linda e conseguia tomar chope e fumar sem que eu a odiasse.

Acabei de comer minha salada, pensando em largar tudo e ser hippie para vender minha arte na praia. Quem sabe o acaso não me reservava algo potencialmente interessante numa comunidade alternativa.

Embora fosse verdadeiramente apaixonada pelo meu trabalho, estava cansada emocional e fisicamente. Há 15 anos, vinha construindo uma carreira de sucesso dentro do Direito Privado, especificamente no que se refere ao Direito Empresarial, passando por inúmeros escritórios de advocacia. Agora, depois de muita luta, finalmente havia chegado ao topo, tinha me tornado sócia de um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, com filial nas principais praças do país – isso explica minha peregrinação pelos aeroportos da nação – e contas de grandes empresas nacionais e internacionais.

Vivia em tribunais defendendo clientes, em sua grande maioria indefensáveis, perdendo e ganhando, sempre aos olhos cansados e, muitas vezes, dissimulados da justiça.  Sem saber o que, ao certo, era justo. Mas, bem, deixemos ao acaso.

Capitulo 5 - Destino por Poracaso

Dirigia para uma audiência, como sempre, quando escutei uma notícia no rádio. Não sei por que aquilo me chocou. Um homem, de 42 anos, que passava na calçada da Avenida Paulista, foi atingido na cabeça, por um jarro de cerâmica, com crisântemos plantados.

Na mesma hora, comecei a pensar acerca do acaso. Seria aquilo acaso ou destino?

Bom, sempre achei que o destino estivesse relacionado a um fatalismo inexplicável, concebido como uma sucessão inevitável de acontecimentos ligados a uma possível ordem cósmica. Nesse caso, a vida das pessoas seria conduzida a partir de uma ordem natural, da qual nada que existe pode escapar. Ou seja, destino para mim é algo quase mitológico.

Já o acaso seria algo que acontece a esmo, sem motivo ou explicação aparente. O que me confunde no acaso é imaginar suas diferentes aplicações, pois em algum sentido o acaso parece ser algo que acontece sem finalidade; mas em outro sentido pode ser algo que não é, por si só, consequência, ou seja, não tem em si uma determinação precedente; e ainda pode não guardar relação com coisa alguma, opondo-se completamente ao determinismo.

Dessa forma, acho que o nosso homem foi vítima de um acaso programado pelo destino. Mas, e eu? Estou há anos esperando o acaso acontecer e tudo me parece predestinado, inexplicável, traçado, fatalista. Na verdade, já estou achando tudo muito previsível na minha vida, tanto que qualquer dia recebo um WhatsApp do destino, mandando um resumo consolidado da minha vida, de tão desinteressante que ela é. Eu era um caso de destino mal traçado, sem participação do acaso. Bom, pelo menos, eu nunca levei um jarro na cabeça por obra do acaso.

Naquele dia, vez por outra, era tomada pela lembrança do nosso jovem homem, vítima de um destino inexorável e de um acaso bem planejado. E ainda dizem que o acaso acontece a esmo. Imagine o trabalho que dá você colocar o homem, o jarro e a morte juntos, ao mesmo tempo, em um dado lugar no universo. Se aquele senhor tivesse andado um pouco mais rápido, espirrado, ou qualquer coisa do tipo, teria mudado seu destino.

Seria possível mudar o destino ou forjar o acaso?

Aí outras coisas me vieram à lembrança. E aqueles acasos onde o avião cai e depois sempre aparece alguém que deixou de embarcar na última hora? Teria esse indivíduo burlado o destino? Ganhado mais uma chance, talvez?

O que eu sei é que estava aqui, à espera de um sinal do destino que me guiasse para o sentido da vida, que me desse uma chance de mostrar o meu potencial para viver. E nada. Nem um tropeção que me fizesse cair nos braços de alguém, ninguém na fila do chá.

E eis que, em meio a todas essas elucubrações, o telefone da minha sala toca e do outro lado, Michele, minha secretária, decreta:

– Sua passagem está marcada para às 6h30 da manhã. A reunião é às 10h, no escritório da Paulista. Só consegui passagem de volta para às 00h40, mas como depois de amanhã você não tem nada na agenda, acho que não vai ter problema. Tudo certo?

– OK. Fazer o quê? Meu destino está selado – respondi.

Notas finais:

Um reencontro se aproxima!!! Será que vai rolar algo com Luisa e Carol?

Capitulo 6 - O encontro (parte 2) por Poracaso

Aquelas idas e vindas acabavam comigo. Meu sono ficava desregulado, não conseguia me sentir confortável, além disso, a tensão das reuniões sempre recheadas de embates não ajudavam.

E lá estava eu em mais uma saga, na ponte aérea São Paulo-Recife. No aeroporto desde às 20h, só me restava esperar. Enquanto isso, resolvi abrir meu computador para adiantar o trabalho do dia seguinte. Comprei uma fatia de pizza de peperone e um copo de chá. Dois pequenos prazeres no meio daquele dia louco. Enquanto terminava um relatório, deliciava-me e agradecia por existir a Pizza Hut.

No entanto, esse momento mágico foi interrompido por alguém que chegou por trás de mim e tapou os meus olhos. Fui tomada por uma sensação terrível de pânico. Tudo apagado. Escuridão total. Detestava perder o controle, ser surpreendida. Odiava o acaso.

Tentei me desvencilhar, mas não consegui. Estava numa posição de inferioridade, meu coração batia acelerado e eu não conseguia ter outro pensamento a não ser o de medo. Aquela sensação de quando você recebe uma notícia ruim, em que o sangue se esvai do corpo e o deixa gélido, à beira de um ataque.

Enfim, meu algoz desiste, se dá por vencido e me liberta. De volta à claridade, continuo cega, de costas para a pessoa que me interpela quanto à sua identidade.

– Já vi que não se lembra de mim! – disse a voz.

Aquela voz, eu me lembrava dela de algum lugar. Ela não me trazia medo, mas uma lembrança do…

…Acaso.

Não precisei me virar, a voz tomou corpo, alma.

– Só presta atenção em mim quando furo fila, é? – perguntou.

– Não. Lembro-me das pessoas quando as conheço. E, você há de convir, que nós não fomos lá apresentadas da melhor forma – retruquei.

– Ai, você continua de mau humor ou será que você é assim mesmo? – questionou ela.

– Carol, não é? – quis confirmar

– Oh! Lembrou meu nome?

– Não me esqueci de você. Só não estou acostumada a ser surpreendida, sobretudo em locais públicos – esclareci.

– Não dou uma dentro, não é? Desculpe. Vamos então fazer do jeito que você está acostumada: Boa noite, meu nome é Carol – disse ela.

– Prazer, Carol – retruquei.

– Posso saber seu nome, ou vamos precisar nos encontrar mais algumas vezes aqui no aeroporto para que eu conquiste esse direito?

– Nunca digo meu nome no primeiro encontro – disse.

– Aí é que você se engana, esse não é nosso primeiro encontro, mas sim o segundo – corrigiu.

– Então, nunca digo meu nome no segundo encontro – respondi.

– Olha, qual é o seu problema hein?! – questionou

– E o seu, qual é? – Devolvi.

– Só quero saber seu nome, mas já vi que será uma luta inglória. Então, me responde só uma coisa: sei que você não trabalha aqui no aeroporto, pois está sempre com uma mala, tá indo para onde? – quis saber.

– Recife – respondi.

– Coincidência! – observou.

– Coincidência não. Moro lá – eu disse.

– A coincidência não é você estar voltando para casa e sim estarmos indo para o mesmo lugar e, pelo que eu estou vendo, no mesmo voo.

– Como você sabe? Estamos no maior aeroporto do Brasil. São dezenas de vôos para os mesmos lugares saindo daqui a toda hora – expliquei.

– Ôooo…sabe tudo, se você quer ser misteriosa devia tomar mais cuidado com seu bilhete de embarque – falou apontando para a mesa, a passagem ao lado do meu computador – sabia seu nome esse tempo todo – riu.

– Bom, então não falta mais nada não é? Foi um prazer – conclui.

– Ok. Até logo – disse.

Caía uma chuva terrível em São Paulo, quando o sistema de som do aeroporto anunciou que o espaço aéreo seria fechado para pousos e decolagens. Pronto. Era só o que faltava. Fui até o guichê da companhia e recebi a informação de que o voo seria remarcado para o outro dia.

O que me restava era procurar um paliativo. Mas disso a companhia aérea se encarregou. Fomos todos colocados em um hotel demasiado confortável para os padrões, onde ficaríamos, literalmente, ao sabor do vento.

Em meio ao caos que havia se instalado na recepção do hotel, encontrei Carol sentada num dos sofás do imenso saguão. Jogava candy crush no tablet e tinha as pernas esticadas sobre a mesa de centro. Sentei ao seu lado e disse:

– Oi. Parece que vamos passar a noite por aqui não é?

– Você fala com estranhos? – ironizou.

– Não. Já fomos apresentadas – rebati – Posso até te dizer meu nome, agora que estamos em nosso terceiro encontro – brinquei.

– Não precisa, eu descobri sozinha. E agora não seria mesmo uma boa hora, pois estou ocupada – disparou.

– Está ocupada jogando candy crush? – cutuquei.

– Isso. Cada um com suas ocupações – rebateu.

– Atrapalho sua concentração se ficar aqui do seu lado? – amenizei.

– À vontade – respondeu.

Sentei lá, mas ela não me deu conversa. Então, fiquei quieta para não atrapalhar a jogadora profissional.

Até que, quase que simultaneamente, a recepcionista chamou nossos nomes. Nos dirigimos a ela, que deu, a cada uma, uma chave com o número de um quarto. Já mal me aguentava em pé, quando entramos no elevador. Nossos dedos se encontraram quando nos apressamos para apertar o quarto andar. A porta abriu e saímos lado a lado. 407 e 409. Um quarto nos separava. Antes de entrar ela disse:

– Boa noite. Espero que descanse – desejou.

– Obrigada, você também – retribui.

E ela bateu a porta.

Tirei a roupa e me joguei na cama, cansada do dia.

Capitulo 7 - Toc toc toc. Será o acaso? por Poracaso

Cochilei e acordei com alguém que batia em minha porta. Apressei-me imaginando que poderia ser alguém avisando que o avião partiria. Não lembrei que havia tirado a roupa e abri a porta do jeito que estava, tropeçando por causa do sono.

– Gente, você costuma receber as visitas assim? Pelo seu mau humor, imaginava outra coisa, mas, não posso negar que, apesar de surpresa, estou satisfeita.

– Ai, meu Deus! Desculpe. O que você quer? – me apressei em me enrolar no lençol da cama.

– A minha TV não pega, queria saber se a sua está funcionando – explicou.

– Não sei, ainda não liguei – justifiquei.

– Posso ver? É que não consigo dormir se a TV não estiver ligada – disse ela, entrando no quanto e pegando o controle remoto.

– Bom, vou tomar um banho – anunciei.

– A sua TV está funcionando! – comemorou.

– Aproveite aí, então – avisei.

Quando saí do banheiro, encontrei Carol sentada no chão, comendo um chocolate. Não consegui segurar o riso.

– Você já viu esse programa? – perguntou ela, sem tirar os olhos da TV.

– Não – respondi, olhando para a tela e me deparando com leões correndo nas savanas africanas, convivendo em harmonia com habitantes locais.

– É muito bom. Vem ver – convidou.

Coloquei o roupão e sentei ao lado dela no chão.

O programa acabou e, quando me dei conta, estávamos conversando sobre o trabalho dela. Ela falava com paixão sobre antropologia, pesquisa, sociedade e cultura. Jamais poderia imaginar que aquela mulher podia ficar mais interessante do que já me parecia. Estava diante de uma pesquisadora do comportamento humano, que me conheceu se comportando da pior forma possível.

O tempo foi passando e o cansaço tomava conta de nós, mas a conversa era irresistível. A essa altura, devo dizer, que não só a conversa, mas quase tudo era irresistível. Eu, que até aquele momento, tinha me defendido de todas as formas, começava a perder as forças, invadida por uma vontade enorme de acreditar que o acaso era possível e que, enfim, ele havia batido em minha porta.

O sono quase me vencia, quando ela concluía um pensamento sobre a formação do povo brasileiro, citando Darcy Ribeiro. Não resisti, encostei a cabeça na cabeceira da cama e estendi a mão para afastar o cabelo dela, que caía nos olhos.

Encaixei a mecha de cabelo cor de mel atrás da orelha, esperando ela encerrar a frase. Ela então me encarou e disse:

– Estou falando demais não é? E você aí, morrendo de sono! – concluiu.

– Estou adorando a conversa, mas realmente o sono está prestes a me vencer – disse.

– Você fica bem melhor simpática, sabia? – perguntou.

– Hum, vou encarar como um elogio – disse.

– É um elogio. Mas bom, vou indo para deixar você dormir – sentenciou.

– Boa noite – me despedi.

Ela então me deu um beijo no rosto.

Fechei a porta e me joguei de costas na cama. Fiquei olhando para o teto e pensando como era bom sentir aquele frio na barriga, aquela sensação de novidade, aquele frescor adolescente. Abri o roupão e pude sentir a excitação do meu corpo. Enfim, depois de tanto tempo, sentia que ele estava vivo de novo.

Entrei embaixo do edredom e me encolhi, enquanto minha cabeça construía narrativas, tendo eu e Carol como personagens. Cochilei, tentando me desvencilhar das expectativas, tentando agir de forma racional, tentando recompor meu escudo, lembrar-me do passado para me proteger do presente e evitar um futuro desastroso.

Capitulo 8 - Apertem os cintos por Poracaso

Acordei às 5h da manhã com o telefone tocando. Era a recepcionista, avisando que o ônibus da companhia aérea passaria no hotel às 8h para levarmo-nos para o aeroporto e que todos deveriam aguardar no saguão, após o café da manhã.

Olhei o relógio e pensei que poderia dormir mais meia hora. Lembrei-me da noite anterior e minha cabeça quis começar a construir estórias novamente.

Afastei o edredom e os pensamentos. Me enfiei embaixo do chuveiro, me vesti e deitei mais um pouco, depois de conferir que ainda estava cedo para descer. Liguei a TV e cochilei com o controle remoto na mão. Voltei a acordar com batidas na porta do quarto. Por um momento, pensei que fosse minha mente tentando retomar os movimentos do dia anterior. Esperei um pouco e as batidas insistiram. Então, levantei e abri a porta.

Do outro lado, Carol segurava uma lata de chá de limão com um canudo enfiado. Quando me viu, estendeu a lata de chá para mim e disse:

– Bom dia! Dormiu bem?

– Pouco, mas bem. E você? – retribui

– Ai, desculpa, fiquei conversando e não deixei você dormir – disse, baixando os olhos como se tivesse feito uma travessura.

– Não foi você, a conversa estava ótima – eu disse, tomando um gole de chá.

– Vim buscar você para tomar café – convidou.

– Tá. Deixa só eu pegar minha mala

Enquanto entrei no quarto para buscar a bagagem, ela se apoiou no portal e começou:

– Estava pensando…o que eu já posso saber no quinto encontro?

Estiquei a cabeça de um jeito de pudesse vê-la e provoquei:

– Pode perguntar se eu gosto que chá

– Aí não vale. Tudo que eu sei, descobri sozinha, com meu próprio esforço – reclamou – Me diz uma coisa, isso tudo é desconfiança? Você acha que sou uma serial killer ou uma louca obcecada que persegue as pessoas no aeroporto? – perguntou.

A esta altura, eu já tinha voltado com a mala e estava parada na frente dela.

– Digamos que eu seja uma pessoa precavida – respondi.

– Não sei nem como você aceitou o chá. Trouxe, mas tinha certeza que você ia jogar fora, achando que eu queria te envenenar – disparou.

– Também não é assim, vai. E vamos embora, senão vamos acabar nos atrasando – apressei.

Atrasado, como sempre, estava o avião. Depois de esperar mais de 12h no aeroporto, de responder uma centena de emails e de trocar duas dezenas de telefonemas com o escritório, embarcamos às 21h.

Entramos no avião e logo verificamos que estávamos afastadas por umas dez filas. Alojei-me em meu assento e Carol caminhou para o seu. Tentava sintonizar o rádio quando vi que alguém se dirigia à minha vizinha, dizendo:

– Senhora, se não se importar, poderia trocar de lugar comigo? Estou a dez filas daqui, também no corredor. É que minha prima, que está ao seu lado, tem uma estranha síndrome que a acomete de desmaios súbitos, precisando de cuidados especiais. Seria possível realizar a troca? – relatou a pessoa.

Eu olhava a cena, atônita, até que a mulher prontamente respondeu já de pé:

– Sim, claro.

– Muita gentileza da sua parte, senhora – respondeu aquela que se dizia responsável por mim.

Esperei a minha vizinha ir embora e soltei:

– Carol, que loucura é essa?

– Não vai desmaiar agora, priminha! – disse ela.

– Tá doida, Carol? – perguntei.

– Não quer minha companhia não? Fiz isso por você – disse.

– Quero, sim, mas não precisava disso, não é? – reclamei.

– Bom, livrei você de passar três horas na companhia de uma estranha – declarou.

– Obrigada. Seria, de fato, uma tarefa difícil exercitar um diálogo – agradeci.

O avião decolou e ela disse:

– Bom, agora temos três horas para conversar – ofereceu.

– Estou à sua disposição – aceitei.

– Na verdade, acho que você podia aproveitar esse tempo para dormir. Está cansada e eu culpada por ter te alugado a noite passada – sugeriu.

– Nunca consigo dormir direito em avião. É desconfortável e frio – reclamei.

– Deixa eu ver o que podemos fazer para aliviar seu sofrimento – falou.

Ela chamou a aeromoça, solicitou um cobertor e um travesseiro e foi prontamente atendida. Então, levantou o braço da cadeira, que separava a dela da minha, sentou de costas para o corredor e apoiou o travesseiro em suas coxas. Fez sinal para que eu deitasse e me cobriu com a manta trazida pela aeromoça. Embora o espaço fosse pequeno e minhas pernas tivessem que ficar para fora da cadeira, era irresistível.

Eu deitei e ela começou a passar os dedos em meus cabelos, como se os penteasse. Meu cabelo muito negro destoava das suas mãos, muito brancas. Tentei dormir, mas não consegui. Estava enjoada e minha rinite alérgica não me deixava parar de espirrar. Resisti até onde pude, ouvindo Carol contar sobre a palestra intitulada “a origem do jeitinho brasileiro”, que tinha ido dar numa universidade em São Paulo. Como ela era inteligente, o que a tornava cada vez mais interessante.

O enjoo estava deixando meu estômago completamente embrulhado e os espirros me tiravam o humor. Olhei para o relógio, tínhamos uma hora de voo  pela frente. Decidi então tomar um remédio, ou melhor, dois, já que, definitivamente vomitar e espirrar não eram das coisas mais sexy para se fazer na frente de alguém a quem se almeja. Sabia que aquilo era uma combinação explosiva, remédio para enjoo e anti-histamínico para alergia. Um sossega leão dos melhores. Mas, entre o vexame e o sono, fiquei com o sono.

Carol pediu água à aeromoça e eu engoli os dois comprimidos. Quando começaram a fazer efeito, o comandante já havia dado o aviso de pouso.

 

Capitulo 9 - Se acaso me quiseres... por Poracaso

Estava completamente bêbada de sono quando senti o avião tocar o solo. Mal conseguia ficar de pé. Passamos direto pelo saguão, já que ambas só tinham mala de mão. Carol se apressou em ir procurar um táxi, até que lembrei vagamente que havia deixado meu carro no estacionamento do aeroporto, já que, de início, pensava que iria voltar no mesmo dia para casa.

Consegui, sem muita convicção, dizer que meu carro estava lá, mas ela não me levou a sério, pois eu sequer articulava as palavras de maneira correta. Abri a bolsa e mostrei a chave e o cartão do estacionamento. Enquanto Carol pagava, eu sentei no meio fio, deitei a cabeça nos meus joelhos e dormi. Fui acordada por ela, dizendo que precisava saber onde meu carro estava.

Dei instruções vagas sobre a localização, modelo e cor, que ela cruzou com a da placa que estava no cartão. Dez minutos depois, ela tentava me convencer que eu não tinha nenhuma condição de andar, quanto mais de dirigir. Cedi o lugar do motorista a ela, abaixei o banco do carona e dormi.

Vinte minutos depois estava dentro de um elevador desconhecido. Lembro-me de entrar em um lugar onde havia figuras que pareciam de origem africana, acho que também havia índios.

Acordei gritando, no meio de mais um pesadelo. Olhei ao redor, tentando reconhecer o lugar, quando Carol entrou correndo e perguntando o que tinha acontecido. O sono e o cansaço eram maiores do que a minha vontade de dar explicações. Eu estava confusa e acho que isso ficou claro.

– Ei, está tudo bem. Você estava com muito sono e, como, não sabia onde você morava, trouxe você para minha casa – explicou ela.

Eu, então, de olhos fechados passei a mão pela gola da camisa.

– Não quis mexer na sua mala, então tirei sua roupa, mas não toquei nas peças íntimas – frisou ela – e coloquei uma blusa minha para ficar mais confortável.

Não esperei ela acabar de falar e dormi de novo.

Outro pesadelo e novamente despertei com um grito.

Carol apareceu com um copo d’água na mão. Sentou ao meu lado e eu prontamente a abracei, tão forte, como se ela pudesse me proteger dos meus pensamentos.

– Foi só um sonho ruim. Está tudo bem. Estou dormindo na sala, qualquer coisa é só chamar – acalmou ela.

– Fica aqui comigo, por favor?! – eu disse, assustada.

– Tá bom – atendeu ela, deitando ao meu lado.

Em seguida, sentei na cama ainda cochilando e disse:

– Tenho que ir. Tenho uma reunião.

– Meu bem, você está morrendo de sono. Não tem reunião nenhuma, são 3h20 da manhã e é sábado. Eu estou aqui com você. Vem dormir – disse ela.

Desabei na cama e só senti o peso do edredom que ela colocou sobre mim para me proteger do ar-condicionado.

Acordei às 10h da manhã, ainda sonolenta. Abri os olhos e não tinha ninguém. Fui retomando a consciência aos poucos e pude observar fotografias de negros, que pareciam africanos, e índios, emolduradas e penduradas nas paredes.

Casa de antropóloga – pensei.

As fotografias eram belíssimas e retratavam tão somente pessoas, nenhuma cena ou coisa parecida, apenas gente.

Fiquei na cama com os olhos abertos, esperando que alguém pudesse vir me descobrir.

Já estava quase me rendendo ao sono novamente, quando Carol entrou no quarto empunhando uma bandeja.

– Vim pronta para acordá-la, mas já vi que fez isso sozinha! – confessou.

Encolhi-me embaixo do edredom e virei o rosto para o lado como quem quer voltar a dormir.

Ela sentou na cama e colocou a bandeja ao meu lado dizendo:

– Se você comer, prometo que te deixo dormir – sentenciou ela.

Sentei e comecei pela salada de frutas. Depois comi uma torrada com requeijão e tomei um suco de laranja.

Ela olhou para mim e perguntou:

– Quer mais alguma coisa?

– Quero fazer xixi – supliquei.

Carol apontou para a porta do banheiro e eu levantei esticando a camisa. Quando fechei a porta, escutei ela gritar:

– Essa escova de dentes azul aí em cima é sua!

Respondi também gritando:

– Obrigada!

Voltei para a cama e me enfiei novamente embaixo do cobertor.

Ela disse que estaria na sala, caso eu precisasse de alguma coisa.

Chamei-a e disse:

– Você devia aproveitar e dormir um pouco. Sei que atrapalhei seu sono durante a madrugada. Olha, queria te dizer que não sou sempre assim, mas acho que os acontecimentos me deixaram tensa.

– Meu bem, não estou nem um pouco preocupada com isso. Se você for assim, por mim não tem problema, vou estar aqui do seu lado. E se não for, também estarei igualmente aqui – declarou ela.

Baixei os olhos e agradeci.

– Obrigada

Ela piscou o olho e disse:

– Agora dorme, que você ainda tem tempo.

Não sei quanto tempo mais dormi, mas quando acordei, Carol estava deitada do meu lado como prometido. Ela me olhava com a bochecha apoiada na mão direita. Sorri quando abri os olhos.

– Você deve estar aí pensando: que mulher folgada essa que tá alugando minha cama há horas – disse.

– Pode ficar o quanto quiser. Só estava olhando você dormir – falou. Tá com fome? – perguntou? Tá quase na hora do jantar – disse, olhando o relógio.

– Jantar? – pulei da cama assustada.

– Umhum – confirmou.

– Meus Deus! Tenho que ir – me apressei. – Posso tomar um banho? – perguntei.

– Claro. Já separei uma toalha para você. Está pendurada na porta do box – disse.

Tomei um banho rápido, mas fiz questão de molhar a cabeça para acordar de uma vez por todas. Depois de me enxugar, percebi que não tinha levado roupa para o banheiro. Sai enrolada na toalha. Fui andando e encontrei Carol na varanda. Quando me viu, riu e perguntou:

– Tá precisando de alguma coisa?

– Essa situação é um pouco constrangedora, mas gostaria de saber onde estão minhas roupas – perguntei.

– Vamos lá achar as roupas da bela adormecida – brincou ela, me deixando ainda mais sem graça.

Arrastou uma das portas de correr do guarda-roupa e logo vi minhas roupas penduradas.

– Ei-las! – disse ela, apontando para uma calça jeans e uma blusa de tecido.

– Obrigada! –disse.

– Espero que você tenha a consciência que eu podia ter confiscado suas roupas – ameaçou.

– Sim, eu tenho. E agradeço desde já por não tê-lo feito, pois causaria um grande prejuízo à minha reputação – brinquei.

– Estou à sua disposição – disse ela.

Enquanto tentava desembaraçar os cabelos com os dedos, ela voltou com um pente e enquanto eu dobrava a camisa com a qual tinha dormido e forrava a cama, ela penteava meus cabelos. Quando acabou, eu virei de frente para ela e respirei fundo, dizendo:

– Não sei nem como agradecer – disse.

– Não agradeça. Vou descer com você para te mostrar onde está o seu carro – disse ela.

Descemos juntas no elevador, rindo do meu cabelo, que ela tinha repartido de lado, dizendo que assim eu ficava com cara de menina comportada.

Quando chegamos em frente ao meu carro, ela me olhou e disse:

– Você é uma mulher encantadora. Não esconda isso. Nem todo mundo quer te machucar. E se for o caso, lembre-se de Vinícius de Moraes: “Porque a vida só se dá. Pra quem se deu. Pra quem amou, pra quem chorou. Pra quem sofreu” – disse cantarolando.

– Prometo que vou lembrar – disse, abraçando ela com força.

Entrei no carro e saí da garagem.

Acionei o pendrive no som do carro e escolhi a música 11.

 

Quem já passou

Por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá

Pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou

Pra quem sofreu, ai

 

Quem nunca curtiu uma paixão

Nunca vai ter nada, não

 

Não há mal pior

Do que a descrença

Mesmo o amor que não compensa

É melhor que a solidão

 

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair

Pra que somar se a gente pode dividir?

Eu francamente já não quero nem saber

De quem não vai porque tem medo de sofrer

 

Ai de quem não rasga o coração

Esse não vai ter perdão

 

Capitulo 10 - O perdão do poeta por Poracaso

Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz depois de desfazer minha grande mala foi retornar as 850 ligações da minha mãe que, desta vez, devo admitir, estava em cólicas, com razão, pela minha falta de notícias. Ela quase sempre exagerava nos pedidos de satisfação, mas eu já estava há quase 24 horas sem me pronunciar.

Quando me atendeu, tive que ouvir que ela já tinha tomado 2 comprimidos de rivotril, além de ter passado a noite em claro, chorando, e estar coberta de urticária de preocupação. Menti, dizendo que meu telefone não conseguia completar as ligações, mas que havia chegado bem.

Já passava das 21h quando recorri à LAE – Liga dos Assessores Emocionais. Às 21h30, eu, Marcos e Marina já estávamos sentados em nossa sede, o bar na esquina da minha casa. Depois de narrar todos os acontecimentos das últimas 48 horas, nos mínimos detalhes, a decisão foi unânime: não havia dúvida, o acaso havia me surpreendido, me tomado de assalto.

Apressei-me em esclarecer que eu não havia sido tomada, que continuava reticente e desconfiada e, sendo assim, preferia manter distância.

Marina me olhou, enquanto tragava um cigarro e resumiu:

– Desconfiada pode ser, mas também apaixonada, encantada.

Marcos limitou-se a completar dizendo:

– Ai, amiga, acho que você devia dar uma chance a ela. Sei lá, ela parece tão fofa.

E eu:

– Ai, gente, não sei. No começo todo mundo é fofo. Depois, acaba todo mundo machucado.

– Bom, você quem sabe, mas acho que já faz tempo demais que a senhorita está sozinha e já está correndo o risco de ficar amarga – fulminou Marina.

– Também acho. Se joga, amiga, e vê no que dá. Qualquer coisa a gente está aqui para te levantar – aconselhou Marcos.

– Vou pensar. O pior é que saí da casa dela sem nem deixar meu telefone – disse.

– Não tem desculpa, não. Ela lhe deu o telefone dela e você sabe onde ela mora. Vá lá e surpreenda essa mulher – arrematou Marina.

– Ir lá? Não sei. Acho que é muito oferecimento – ponderei.

– Você dormiu na cama dela! – atirou Marina

– Eu estava praticamente inconsciente. E, você disse muito bem, DOR-MI – esclareci.

– Pois pronto. Vá lá e fique acordada – riu ela.

– Também acho – concordou Marcos.

– Se eu for ouvir vocês, é capaz de virar uma desfrutável – brinquei.

– Na-nã-não. Se você ouvir a gente é capaz de ser feliz – disse Marina, tomando um gole de cerveja.

Voltei para casa pensando que de repente eles estariam certos e que, de fato, aquilo podia ser uma oportunidade. Um convite do acaso ou uma peça do destino.

Demorei a dormir e acabei aproveitando para trabalhar um pouco. Meu celular emitiu um sinal de mensagem e, quando fui pegá-lo na cabeceira, ao lado na cama, vi um guardanapo dobrado embaixo da luminária. Lembrei imediatamente do bilhete de Carol em nosso primeiro encontro.

Embora em péssimas condições, depois de submetido à máquina de lavar, ainda era possível ver as informações: o número de um telefone celular e um endereço de email. Segurei o papel e pensei em mandar um email, mas desisti, pois achei que a ansiedade da espera pela resposta poderia causar muitas expectativas em mim.

Ao mesmo tempo, ponderei se ligar não pareceria íntimo demais. Afinal, já passava das 23h e ela podia estar dormindo ou na companhia de alguém.

Pensei em ligar para Marcos e Marina para pedir a opinião deles, mas achei que seria uma atitude muito adolescente.

Então, resolvi mandar um WhatsApp:

Oi, tomara que não esteja atrapalhando. Queria poder agradecer pela noite de ontem.

Um minuto se passou após o envio da mensagem e o celular continuava mudo. Verifiquei se o tráfego de dados estava ativado e se a internet estava funcionando normalmente. Tudo certo, com exceção do silêncio.

Depois me dei conta que mandar WhatsApp e email dava exatamente no mesmo. Continuei trabalhando, mas não consegui mais me concentrar. Olhava para a tela do computador e para a tela do celular, em busca de alguma informação que me distraísse da ideia fixa.

Fui até a cozinha, fingindo estar com sede. Levei o celular e resolvi esquecê-lo propositalmente lá, para romper o vínculo.

De repente, um som. Sinal de mensagem.

Corri.

Estava lá a resposta:

Já disse que não precisa agradecer. Foi um prazer. Posso considerar que tenho seu telefone agora?

Ri sozinha e respondi:

Pode sim.

Tive vontade de escrever mais, mas fiquei com receio de acabar falando demais.

Não tive como pensar muito, já que o telefone tocou logo em seguida.

Era Carol.

– Oi – eu disse, tentando parecer o mais descontraída possível.

– E aí? – ela perguntou

– Aqui – respondi, sem saber o que dizer.

– Está fazendo o que? – perguntou com mais objetividade.

– Estava escrevendo uma petição, mas agora vou ver um seriado, já que esgotei todo o meu sono ao longo do dia – expliquei.

– Pois é, eu também acabei pegando carona no seu sono e agora estou super acordada. Vai assistir o que? – quis saber.

– The Good Wife – disse.

– Sério?! Estou na quinta temporada e você?

– Na terceira ainda. Mas quem diria, temos uma antropóloga viciada em séries de TV americanas!

– Todo mundo tem seu ponto fraco – justificou.

– Bom, se você não se incomodar de rever, está convidada para assistir, comentar aos olhos dos estudos sociais e comer um carpaccio – convidei de olhos fechado, como uma criança que tem medo de ouvir a reposta.

– Só vou se puder não tecer quaisquer comentários teóricos, apenas passionais, mas o carpaccio, esse eu prometo comer com prazer – aceitou.

– Então venha, que a sessão vai começar – avisei.

– Você vai me dar o endereço ou vou ter que usar tudo que aprendi nas séries outra vez para descobrir onde você mora? – desafiou.

– Ah! Então quer dizer que foi The Good Wife que ensinou você a descobrir identidades? – quis saber.

– Descubro utilidade em tudo – explicou.

– Eu moro a 5 minutos da sua casa. Anote aí – disse.

– Dá para ir a pé. Só não vou por causa da hora – falou.

– Espero você então! – disse.

Apressei-me, tomei banho, coloquei perfume, dei uma olhada rápida na casa para ver se estava tudo em ordem e sentei para esperar. Vinte minutos depois, o interfone do meu apartamento tocou. Ela havia chegado. Corri no banheiro, coloquei mais desodorante e abanei as axilas para não parecer que havia feito aquilo. Ai, que vergonha!

Sentei no sofá, tentando parecer natural e esperei a campainha tocar.

Abri a porta e nos cumprimentamos com dois cordiais beijinhos no rosto.

Levei-a até o sofá e ofereci uma taça de vinho. Ela aceitou prontamente. Coloquei um pouco para mim também, mas logo substituí o líquido por chá. Vinho deixava minha gastrite crônica, aguda, e meu comportamento, crônico. Fui até a cozinha, onde podia continuar dialogando com ela, já que morava num loft com cozinha americana. Ela elogiou o vinho, parecendo conhecedora do assunto, mas deixando claro que era leiga, apesar de gostar da bebida.

Voltei, pondo o carpaccio em cima da mesa e coloquei um episódio de The Good Wife. Assistimos e comentamos animadamente três episódios. Carol bebeu toda a garrafa de vinho e não tinha qualquer condição de sair dali dirigindo, embora não perecesse embriagada à primeira vista.

Convenci-a de que deveria dormir em minha casa, pois já estava tarde demais para voltar. Subimos as escadas para onde ficava meu quarto e providenciei uma escova de dentes para ela e uma camiseta. Ela escovou os dentes, mas se recusou terminantemente a colocar a camiseta. Coloquei meu pijama e deitei, cobrindo nós duas com o edredom. Dez minutos depois, ela sentou na cama puxando o jeans como se estivesse incomodada com o tecido e o tirou sem cerimônia.

Ela estava ali seminua, tão vulnerável. No entanto, preferi não me precipitar em nenhuma investida, por achar que o sexo deveria ser uma decisão mais sóbria.

Passamos a noite juntas, mas apenas dormimos. Aquilo parecia até estar virando rotina. Acordei às 5 da manhã, quando Carol levantou para ir ao banheiro. Esperei ela voltar e perguntei se estava tudo bem. Ela sentou na cama e disse:

– Desculpa, eu não tenho sou de ter esse tipo de comportamento alcoólico. Eu só estava sem saber como me comportar, como agir, ainda estou, eu acho.

– Não estou preocupada com isso. Quero só saber se você está bem – tranquilizei-a e abracei-a.

Nossas bocas se cruzaram e se tocaram. Beijamos-nos longamente. Enquanto nossas mãos ainda experimentavam nossos corpos timidamente.

Até que, como se tivéssemos entrado em sintonia, todas as barreiras pareceram derreter-se. Ela enfiou a mão por dentro da minha blusa e apalpou os meus seios com veemência, como se quisesse fazê-los caber em suas mãos. Depois, desceu a mão direita por dentro do meu short e sentiu o que eu já sabia desde o início do beijo.

A umidade já tomava conta de todo o meu sexo, quando ela com o dedo indicador percorreu todo o meu clitóris com tanta delicadeza, que parecia mais fazer carinho do que sexo, isso tornava o ato ainda mais íntimo e gostoso. Ela mordia o bico do meu peito como se fosse arrancá-lo e meu corpo tremia de desejo. Penetrou-me com força e me fez gozar tantas vezes antes de me virar de costas, me segurar pelos cabelos me penetrar, ao mesmo tempo, pela frente e por trás. Meu corpo já não respondia mais a mim, tinha movimentos próprios, involuntários. Eu mexia os quadris como em uma dança ritmada. Quanto mais mexia, mais ela me penetrava. Eu estava completamente entregue a ela. Gozei até cansar e senti-a gozar no meu corpo com o roçar dos meus movimentos no corpo dela. Falávamos palavras do mais baixo calão, que só nos permitiríamos em um contexto daqueles.

Mal havia saído do último gozo, quando busquei o sexo dela. Meu corpo foi invadido por uma onda de satisfação quando senti que ela também estava excitada. Era minha vez de retribuir tamanho prazer. Comecei mordendo suavemente seu pescoço, chupei seu peito devagar e percorri todo o seu abdômen com a língua até chegar à fenda de onde brotava aquela lava quente. Percorri com suavidade todo o clitóris, grandes e pequenos lábios, até que a penetrei com a língua e a senti gozar em minha boca. Usando a mão, puxei suavemente o seu clitóris e ela gemeu baixinho; apertei os grandes lábios, como se quisesse fechar sua vagina e então comecei a estimular o seu clitóris e ela gritou de prazer. Virei-a de costas e deitei sobre seu corpo. Mexi meus quadris, roçando meu sexo na sua nádega e gozamos juntas uma, duas, três vezes, até sermos vencidas pelo cansaço.

Dormimos na posição em que nos amamos pela primeira vez. Acordei uma hora depois e levantei com cuidado para não acordá-la. Ri sozinha em ver uma mulher dormindo nua em minha cama depois de tanto tempo. Agora, parecia-me que a espera tinha valido a pena.

Vesti meu pijama novamente e desci as escadas. Sentei no sofá e liguei o computador para acabar a petição que havia iniciado no dia anterior. Uma hora depois, alguém me abraçava por trás e beijava meu pescoço com carinho, dizendo:

– Bom dia.

Puxei-a para o sofá por cima do encosto e ela caiu sentada do meu lado. Aninhei-me no seu ombro, beijei sua boca e respondi:

– Bom dia.

Depois, continuei digitando, enquanto ela me observava.

– Será que depois dessa noite de vexame e de um início de manhã avassalador, eu posso saber quem você é? – perguntou ela.

– Avassalador? – quis saber.

– Completamente avassalador – confirmou.

– Se é assim – Estiquei o braço até a minha bolsa, peguei um cartão de visita e a entreguei dizendo:

– Ao seu dispor.

– Uau! Luísa Medeiros de Mendonça, advogada especialista em Direito de Empresas. Mendonça e Carreiro Advogados Associados. Isso é aquele escritório enorme que fica na avenida? – perguntou.

– Uhum – respondi.

– Gente! Que mulher poderosa eu fui arrumar! – brincou.

– E você? – perguntei.

– Bom, fiquei até envergonhada agora, mas vamos lá – disse ela indo até sua bolsa e me entregando um cartão de visita.

– Maria Carolina Cavalcanti Ferraz, professora Dra. em Antropologia do Comportamento, Professora Titular do Departamento de Antropologia. Doutora? – perguntei.

– Sei que não é lá grande coisa, mas a tese é razoável, se quiser ler depois… – disse rindo alto.

– Claro que quero ler! – falei, animada.

O telefone dela tocou e ela o procurou dentro da bolsa rapidamente. Afastou-se um pouco de mim para atender.

– Alô?

– xxxxxx

– Olha, hoje eu não posso. Não vou estar em casa.

– xxxxx

– Mas se for só para isso, a chave está no lugar de sempre, você pode passar lá e pegar.

– xxxxxx

– Ok. Então a gente se fala amanhã.

– xxxxx

– Outro para você.

Mil coisas passaram pela minha cabeça enquanto a conversa se dava e uma insegurança tomou conta do meu corpo. Tive vontade de perguntar quem era, mas senti vergonha da minha reação e também não me sentia à vontade ou digna de tamanha intimidade. Quando ela desligou, colocou o fone em cima da mesa e veio em minha direção dizendo:

– O que você pretende fazer hoje? – perguntou como se fosse me fazer uma proposta.

– Nada – disse, sem conseguir disfarçar minha insegurança e desconfiança por causa da ligação.

Ela percebeu claramente o que estava acontecendo, o que fez minha vergonha aumentar ainda mais. Então ela sentou-se ao meu lado, na beira do sofá e disse:

– Eu desconfio o que tenha feito você ficar assim, mas não tenho certeza. Quem acabou de ligar para mim foi minha ex. Tive um relacionamento que durou quatro anos e acabou há um ano. Tínhamos um gato, ou melhor, quando a conheci ela já tinha o Bob…

– Olha, não precisa me dar satisfação da sua vida, dos seus relacionamentos – disse eu arredia.

– Eu sei que não preciso, mas eu quero – me respondeu firmemente. – Sendo assim – continuou ela – quando nos separamos, Bob ficou comigo até que ela encontrasse um local para ficar. Agora, ela encontrou e levou o Bob semana passada, mas algumas coisas dele ainda estão lá em casa e ela precisa pegar. Só isso – concluiu.

– Ok – respondi incrédula.

– Bom, quero deixar claro que não quero te machucar e que, embora não saiba o que aconteceu com você antes, as pessoas são diferentes, os comportamentos não são padronizados. E, independente do que acontecer com a gente daqui pra frente, eu gosto de você, não quero te fazer mal. Entendo a sua desconfiança, mas precisa me conhecer para confiar em mim.

– Ok – respondi, sem querer me deixar levar, mas me sentindo mais segura.

Ela subiu e entrou no banho. Desceu 15 minutos depois, pronta. Pegou a bolsa, sentou-se ao meu lado e veio beijar minha boca. Eu virei o rosto. Ela então disse:

– Olha, eu vou estar em casa o dia todo esperando você ligar. Podemos jantar, assistir filme ou fazer qualquer coisa que você queira – ela disse.

– Tá bom – respondi olhando nos olhos dela.

Ela levantou e se foi.

Quando ouvi a porta bater eu chorei, sem saber se aquela era mais uma das obras do destino para mim. Fiz então uma conferência telefônica com Marcos e Marina e o resultado foi:

– Lu, não entre nessa de achar que todo mundo é igual – disse Marina.

– Também acho, Lu. Entendo seus medos, mas se tá bom, então deixa rolar – falou Marcos.

– Ok – disse eu.

 

Capitulo 11 - Porque a vida só se dá pra quem se deu por Poracaso

Liguei.

– Meu bem, como está você? – quis saber ela.

– Tudo bem. Olha, queria te pedir desculpa por hoje – disse.

– Não tem por que se desculpar. Só quero que saiba que se quiser conversar, estou aqui – se dispôs.

– Tá, obrigada. Vai fazer o que hoje à noite? – desconversei.

– Estava esperando você ligar para saber – disse ela.

– Estou cansada, não sei se quero fazer nada – eu disse.

– Quer vir assistir alguma coisa aqui em casa?- convidou.

– Pode ser. Eu levo o jantar, ok? – sugeri.

– Combinado. Até mais tarde.

Às 20h chequei ao prédio dela. O porteiro me anunciou e subi.

– Boa noite, senhorita – disse ela, ao abrir a porta.

– Boa noite. Vim trazer seu jantar – brinquei.

– Por que eu não pedi comida neste restaurante antes? Se a comida for do nível da entregadora… – respondeu.

Ri e entreguei a embalagem de alumínio a ela.

– Trouxe gnocchi, espero que goste – disse.

– Adoro, mas prefiro você – disse, me puxando pela cintura e beijando a minha boca.

Jantamos agradavelmente e depois fomos para o sofá assistir Grey´s Anatomy, escolha minha.

O sofá da casa de Carol se abria, formando um confortável apoio para as pernas.

Ela então se sentou e eu sentei entre as pernas dela, apoiando minhas costas em seu peito. Não sei ao certo quantos episódios vimos, pois cochilamos. Acordei com Carol beijando meu rosto e me chamando para irmos para o quarto ou ficaríamos doloridas no dia seguinte.

– Vou para casa – disse eu.

– Por quê? Já está tarde e eu queria que você ficasse – pediu ela.

– Amanhã eu trabalho – respondi

Ela começou a tirar minha blusa e, claro, não fiz esforço nenhum para destruir aquele momento. Transamos no chão da sala, contrariando todas as regras de conforto. Quando acabamos, eu disse:

– Você foi convincente nos argumentos usados para eu não ir embora – disse, séria.

– Fui, é? Posso continuar tentando se você quiser… – falou.

– Queria ficar, mas trabalho amanhã – expliquei.

– Que horas você trabalha? – perguntou

– Tenho uma audiência às 14h, mas preciso passar no escritório para colocar as coisas em ordem antes – disse.

– Acordamos cedo, você passa em casa e depois vai para o escritório. Dá tempo – planejou.

– Então, coloque o despertador para não perdermos a hora. Não posso me atrasar – pedi.

– Pronto – disse, levantando do chão e estendendo a mão para me ajudar a levantar.

Deitamos aninhadas na cama, com ela envolvendo o meu corpo numa concha perfeita.

O despertador tocou às 8h no dia seguinte e acordamos preguiçosamente. Ficamos na cama um pouco até que não fosse mais possível esticar o momento.

Cumpri minha agenda do dia, mas ao fim da audiência ainda sentia disposição para mais alguma coisa. Troquei de roupa e fui correr no parque.

Estava no segundo quilômetro quando meu celular tocou. Era Carol.

– Oi – atendi ofegante.

– Tá cansada? Atrapalhei alguma coisa? – perguntou reticente.

– Não. Eu tô correndo no parque – expliquei.

– Ah! Então eu ligo depois – disse.

– Não, pode falar – insisti.

– Liguei só para saber como foi a audiência – quis saber.

– Tudo dentro do esperado – disse.

– Vocês advogados são sempre assim evasivos? Isso quer dizer o que exatamente? Boa ou ruim? – riu ela.

– Conseguimos suspender a junção das duas concorrentes – tentei explicar.

– Só piora, vou tentar outra coisa: você ficou satisfeita com o resultado? – perguntou.

– Muito satisfeita – disse.

– Pronto, era isso que queria saber. Na verdade, não só isso…vai fazer o que hoje? – perguntou.

– Vou ter que trabalhar num relatório complicado que tenho que entregar amanhã sem falta – disse.

– Bom, então só me resta dormir – lamentou.

– Desculpe! – falei.

– Tudo bem, vou me entregar aos seriados – concluiu.

Notas finais:

Será que esse casal vai vingar?

Capitulo 12 - Vem cá, Luisa por Poracaso

Cheguei em casa e me debrucei no computador. Estava fechando a máquina quando a campainha tocou. Abri a porta.

– Oi! Trouxe alguma coisa para você comer – disse Carol.

– Como você subiu sem ser anunciada pelo porteiro? – perguntei, me sentindo invadida.

– Desculpe. Posso ir embora – falou, voltando para a porta, sem graça.

– Não. Só achei estranho – conclui – Entra – liberei.

– Você parece incomodada. Posso ir embora, sem problema, se você preferir – disse.

– Não. Desculpa, de verdade. Só sou meio desconfiada mesmo – esclareci.

– Eu disse ao porteiro que era uma surpresa e como ele já me conhecia da outra noite…me deixou subir – explicou.

– Tudo bem. O que vamos comer? – descontrai.

– Sushi! – anunciou.

– Você adivinha pensamento, é? – perguntei.

– Me esforço – respondeu.

Comemos, conversamos sobre trabalho, mas nos despedimos antes da meia noite e cada uma foi para sua cama.

E assim foi a semana. Cada uma para o seu lado. Nos falamos todos os dias, mas não nos vimos.

Essa distância, embora não tenha sido proposital, foi boa, parece que nos aproximou mais. A saudade virou uma constante. O desejo, uma sensação, e a vontade de estar junto, uma necessidade.

Até que, no sábado, resolvi surpreender. Fui até a casa dela levando pipoca de microondas e alguns DVDs. Repeti a ideia dela e pedi para não ser anunciada pelo porteiro. Toquei a campainha.

Para minha surpresa ou decepção, não sei dizer ao certo, quem abriu a porta foi outra mulher. Fiquei tão desconcertada, sentindo-me ridícula segurando aqueles pacotes de pipoca, sem saber o que falar. Então, a minha anfitriã, percebendo o meu desconforto, encarregou-se de fazê-lo:

– Oi, acho que você está procurando por Carol, né? – disse ela, com uma desenvoltura de quem se sentia em casa.

QEntão, chamou:

– Carol, acho que é pra você! – anunciou.

Tive vontade de correr dali e sumir, mas ela permaneceu me olhando até Carol chegar.

Nesse meio tempo, eu percebi que a mulher, apesar de não ser bonita, era muito vistosa, mais velha, com os cabelos loiros cacheados que pareciam propositalmente cortados de forma assimétrica. Carol apareceu correndo por trás da minha recepcionista.

– Oi, Lu, que surpresa boa! Entra – disse me puxando pela mão.

– Ah! Então você é a famosa Luisa? – perguntou a outra mulher.

– Sou Luisa, mas não acho que seja famosa – disse, sem muita simpatia.

– Pois saiba que seu nome é o mais pronunciado dentro dessa casa – disse ela.

Sorri, sem esconder o orgulho diante daquela informação.

Carol passou o braço pelo meu ombro e beijou meu rosto.

A mulher então disse:

– Carol não fez as honras da casa, mas eu sou Beatriz, muito prazer – apresentou-se estendendo a mão.

Apertei a mão da mulher e respondi:

– O prazer é meu.

– Bom, estou indo embora – disse Beatriz pegando a bolsa em cima do sofá e uma sacola com um pacote de ração para gatos e uma cama destinada a felinos. – aproveitem a pipoca – disse ela apontando para o saco que eu ainda trazia nas mãos.

Ela então olhou para Carol e disse:

– Você continua com bom gosto! – disse, dessa vez apontando pra mim.

– E você continua igual, Bia! Dá um beijo no Bob – disse Carol abraçando a mulher, que agora se revelava completamente para mim: era a ex.

Quando a mulher bateu a porta, eu joguei os pacotes de pipoca na mesa e disse:

– Acho que não devia ter vindo, vou embora – falei caminhando na direção da porta.

– Ei, ei, ei! – disse ela me detendo com a mão em meu punho.

– Me solte! – falei baixo, mas com firmeza, olhando para a mão dela na minha.

– Meu beeeem, não faça assim não. Você veio porque queria me ver. Bia veio pegar as coisas de Bob, sobre as quais já tínhamos conversado – explicou.

– Não entendi que isso significava que encontraria sua ex abrindo a porta da sua casa com tamanha desenvoltura – reclamei.

– Meu bem, eu estava no banheiro quando a campainha tocou – disse ela, soltando minha mão.

– OK – eu disse rodando a maçaneta da porta, louca para ser persuadida a ficar com um argumento mais eficiente.

– Olha, estou te dizendo que a minha história de amor com Bia acabou, continuamos amigas, mas a mulher que eu quero é você – declarou ela.

– Você tem razão. Eu sou a mulher que você quer, mas não a que você ama – analisei.

– Meu amor, não faça assim – pediu ela.

– E ela continua abrindo a porta da sua casa? daqui a um mês, quando eu chegar aqui, ela vai abrir a porta de calcinha? – provoquei.

– Não, Lu. Eu espero que daqui a um mês quem abra essa porta de calcinha pra mim seja você – disse me puxando pelo braço e batendo a porta atrás de mim. – Vem cá, Luisa, você quer namorar comigo? Estamos há um mês nesse chove não molha, gostosíssimo, diga-se de passagem, mas acho que toda essa insegurança é fruto da falta de um compromisso, que embora exista silenciosamente, não é oficial nem público – pressionou ela.

– Quero – respondi – E você quer mesmo namorar essa mulher insuportável, que sou eu? – perguntei.

– Você não é insuportável, só está insegura. Mas, agora sou sua namorada, devo satisfação a você e vou ter toda a paciência para conquistar a sua confiança – analisou.

Abracei-a com tanta força, que acho que foi até desconfortável para ela. Mas ela não reclamou. Permaneceu dentro dos meus braços até eu querer soltá-la.

Com os braços livres, ela colocou as mãos em minha nuca, por baixo dos meus cabelos, olhou nos meus olhos e disse:

– Eu estou completamente apaixonada por você. Não quero te machucar – disse ela, beijando a minha boca.

Um beijo rápido, mas cheio de carinho e cuidado. Então, olhou pra mim e disse:

– O que vamos ver? – perguntou apontando para os DVDs.

– Filmes açucarados – eu disse, mostrando os títulos.

– A pipoca pode deixar que eu faço – disse ela, pegando o pacote na mesa.

– É de microondas! – eu disse.

– Quero dizer que sua namorada é a melhor fazedora de pipoca de microondas em linha reta do mundo – se gabou ela.

Rimos muito com meus filmes açucarados e comemos pipoca. Quando o filme acabou, ela me puxou para a cama e perguntou baixinho, mordendo minha orelha:

– Vamos fazer amor pela primeira vez como namoradas?

Ao invés de responder, tirei a camiseta e coloquei a mão dela no meu peito.

Fizemos amor sem pressa, como se a vida estivesse só começando.

Capitulo 13 - consta nos astros, nos signos, nos búzios por Poracaso

Química, para mim, remetia à tabela periódica, que remetia a dificuldade e desinteresse. Mas descobri que química, na verdade, é uma ciência oculta. Nos últimos meses, eu mais parecia uma lésbica astrológica, como dizia Carol. Procurava respostas para ter encontrado uma pessoa que fosse capaz de me completar daquela forma.

Enquanto Carol teorizava, dizendo que o ser humano procura seu semelhante, eu gostava de colocar a culpa no destino, no acaso, como sempre.

Passavam os meses e a nossa intimidade só aumentava, numa sintonia que mais parecia coisa dos astros. As pessoas perguntavam “vocês se conheceram onde?”, nós contávamos e elas diziam “que estória de cinema”, “foi o destino” ou ainda “estava escrito nas estrelas”. Algumas iam mais longe e se atreviam a analisar “qual o signo de vocês?” e nós respondíamos “virgem e touro” e elas seguiam dizendo “combinação astrológica perfeita”. Nós ríamos e nos divertíamos com a necessidade das pessoas de explicarem a nossa felicidade.

Tão simples, nos amávamos e tínhamos aprendido a conviver e confiar uma na outra. Não foi fácil, mas uma mistura de paixão e admiração fez com que ficássemos confortáveis em nosso papeis.

Até acertarmos, sofremos um bocado, mas tudo nos deu maturidade para chegar ao equilíbrio. Eu consegui controlar meu ciúme e a insegurança com muita conversa, e Carol entendeu minha forma de funcionar. Adaptamo-nos perfeitamente. Estávamos juntas há quase um ano e ainda comemorávamos cada mês de namoro. Resistimos à tentação de nos juntarmos prematuramente e nos mantínhamos cada uma em sua casa, embora dormíssemos juntas pelo menos três vezes na semana.

Dez meses depois da oficialização do nosso namoro, parecia que ainda estávamos na primeira semana. Mantínhamos-nos apaixonadas, desejando ardentemente o corpo uma da outra.

Fazíamos planos de adotar crianças, de comprar uma casa que pudéssemos decorar juntas, que tivesse as nossas caras. Queríamos construir uma família. Convivíamos bem com as nossas próprias famílias. Eu, sobretudo, tinha conseguido construir uma relação bastante sólida com a mãe, irmã, tias e primos de Carol. Ela era menos preocupada em construir relações amistosas, mas também havia avançado nesse sentido.

Nosso aniversário de um ano de namoro foi uma prova dessa integração. As duas famílias compareceram em peso, a convite de Carol, à comemoração organizada por ela.

Fizemos um jantar para amigos e família para celebrar a data.  Tudo correu perfeitamente, discursos foram feitos, homenagens prestadas por ambas as partes. Mas, a maior surpresa, sem dúvida nenhuma, veio depois que todos saíram.

Após fechar a porta para o último convidado, ficamos apenas eu e Carol em meu apartamento. Ela colocou uma música, tirou-me para dançar e assim que a música acabou abriu uma champanhe, colocou em nossas taças e disse, segurando a minha mão e olhando nos meus olhos:

– Luísa Medeiros de Mendonça, você aceita casar comigo?

Foram cerca de 10 longos segundos, onde quase tudo passou pela minha cabeça. As experiências anteriores, a rotina, meu guarda-roupas abarrotado de coisas que não eram minhas, os espaços divididos, a falta de privacidade.

Naquele momento, só me vinham pensamentos negativos. Esforçava-me para pensar no início da construção de uma família, em acordar com a pessoa amada do lado, em conversar sobre o dia com alguém, de sempre ter com quem contar. Mas todo o resto me parecia mais forte. Então, só pude responder de uma forma:

– Assim, tão rápido?!

– Você acha um ano rápido? – perguntou ela, visivelmente decepcionada.

– Não, é que não sei se estou pronta para um passo tão grande. Eu amo você, mas não sei se, de repente, isso não estragaria tudo – expliquei.

– Você está com medo de casar comigo ou você está com medo do casamento? O que quero saber é se o que te deixa em dúvida sou eu ou o casamento em si – perguntou.

– Eu amo você, o casamento é que me deixa aflita – esclareci.

– Então tenho uma proposta para te fazer. Podíamos procurar uma casa que tivesse a nossa cara e que a pensássemos juntas, de modo a manter a individualidade e os espaços de cada uma, e só oficializar o casamento quando estivesse tudo pronto. Funcionaria como uma fase de transição. O que você acha? – propôs.

– Eu aceito! – eu disse.

– Então vou perguntar outra vez. Luisa Medeiros de Mendonça, você aceita casar-se comigo? – repetiu ela.

– Aceito! – respondi animada.

Então, ela tirou duas alianças do bolso da calça, tomou minha mão e pôs a joia de ouro dourado, sem qualquer detalhe aparente, em meu dedo anelar da mão direita e depois disso colocou a dela no próprio dedo da mesma mão e encerrou beijando a minha mão e dizendo:

– Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos. Profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Se dane o evangelho e todos os orixás. Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz.

Dormimos noivas.

Notas finais:

As coisas estão ficando cada vez mais sérias, cheias de amor e de confiança. Mas não esqueçam, a vida é feita de acasos e quando menos se espera, eles aparecem. O que vocês acham que vai acontecer com essas duas, meninas? 

Capitulo 14 - Paraíso se mudou para lá por Poracaso

Foram quase sete meses de busca até encontrar a “nossa” casa. Um sobrado antigo num condomínio, num bairro residencial vizinho ao bairro em que morávamos. Uma casa do jeito que havíamos imaginado. Da compra até o início da reforma foram mais de dois meses. Até a pintura da última parede, foram outros seis meses.

Nesse período, estivemos muito envolvidas em todos os processos da construção deste sonho. Acompanhamos cada etapa e criamos laços ainda mais fortes. Pensamos cada detalhe, cada cor, cada cheiro, cada canto. Não descuidamos de nada.

A casa foi planejada pensando minha insegurança. Eram seis cômodos, que foram divididos assim: uma suíte para o casal, um escritório para mim, um escritório para Carol, um home vídeo e dois quartos foram deixados vazios para o caso da família aumentar. Isso além da cozinha, da sala, da varanda e do jardim.

Carol foi responsável por fazer uma transição leve. Passava grande parte do tempo na minha casa, embora mantivesse a dela. Bancava os custos do apartamento dela, mesmo vazio, só para não me assustar e oficializar que estávamos casadas. Deixava-me inteiramente à vontade e, pouco a pouco, foi trazendo algumas coisas e ocupando espaços que eram possíveis, com extremo cuidado para não me incomodar.

Ao final do processo, já estávamos praticamente morando juntas e eu aceitando a situação tranquilamente. Já eram dois anos e três meses de relacionamento, poucas brigas e muita paciência, sobretudo de Carol comigo. Embora a diferença de idade entre nós fosse de apenas oito anos, sendo Carol mais velha, eu parecia muito mais nova. Carol era mais experiente e tinha passado por relacionamentos mais consistentes e tranquilos que os meus. O que dava a ela um know-how de comportamento.

Decidimos que alugaríamos apenas o apartamento de Carol. Que o meu só decidiríamos o que fazer depois de seis meses. Ela dizia que era melhor esperarmos para ver se saberíamos lidar com inquilinos e que era melhor desfazer um negócio do que dois. Mas eu sabia que não era isso. Sabia que ela estava tentando me deixar mais segura para ter para onde correr quando eu precisasse.

Mas, àquela altura, já me sentia mais segura com a ideia de casar e animada com a casa nova. No mudamos em meio a muita festa e um pouco de improviso. O primeiro mês na casa nova foi marcado por noites dormidas em um colchão inflável, pois nossa cama não havia chegado. Mas até isso serviu para descontrair. Curtimos cada arrumação, cada vaso que era colocado no lugar, cada quadro.

Tudo aquilo parecia a culminância de uma grande história de amor, escrita com uma cumplicidade jamais vivenciada por mim.

As coisas pouco a pouco pareciam encontrar os seus lugares dentro dos ambientes e dentro de nós mesmas. Até as diferenças pareciam diminuir. Eu, que relutava em sair ou experimentar qualquer convivência social que não incluísse Marcos e Marina, passei a ser mais tolerante e, embora ainda relutasse em sair, tornei-me uma exímia anfitriã. Nossa casa passou a ser um ponto de encontro, sempre com a presença de amigos. Os espaços eram convidativos e nos cercamos de companhias agradáveis que passei a gerir com mais inteligência emocional.

Capitulo 15 - Roda moinho roda gigante por Poracaso

Estávamos morando em nossa casa há cerca de oito meses e eu ainda não tinha perdido o encantamento por ver a casa pronta. Todo dia que chegava em casa do trabalho, encantava-me de novo.


Cheguei em casa e encontrei Carol sentada no sofá. Atirei-me ao lado dela, cansada, e me pus a falar sobre o quão vitoriosa tinha sido a minha argumentação na audiência daquele dia. Ela sempre vibrava com as minhas conquistas, mas neste dia foi diferente.


Enquanto eu falava, ela parecia distante. Até que ela apertou o meu braço e disse:


– Precisamos conversar.


O tom grave fez-me gelar. Senti o sangue desaparecer do meu corpo. Calei-me e passei a palavra para ela imediatamente.


– Luisa, antes de nós nos conhecermos, eu havia solicitado uma bolsa de estudos para realizar o meu pós-doutorado na Inglaterra. Mas me disseram que eu deveria cumprir meus cinco anos de estágio probatório antes de obter essa concessão. Já tinha me esquecido disso, mas hoje a autorização chegou e eu consegui a bolsa – explicou ela.


– Parabéns, meu amor! – eu disse, controlando todo o meu pavor.


Ela me abraçou forte e disse:


– Você entende no que isso implica? Temos dois meses para nos mudar.


Não, eu não entendia.


Para mim, que tinha passado quase um ano fazendo um estágio para me acostumar com a ideia de casamento, mudar de país em dois meses era completamente fora de uma realidade possível.


– Carol, eu tenho meu emprego, nossa casa, meus amigos. Tudo construído aqui. Não posso simplesmente largar tudo o que conquistei, da noite para o dia – expliquei.


– Eu também tenho tudo isso Luisa, mas é uma oportunidade única na minha carreira – argumentou.


– Quanto tempo? – perguntei.


– Um ano – disse.


– Você quer que eu largue tudo durante um ano? – gritei.


– Não. Eu quero que você não me largue – devolveu ela.


– Você é quem está me deixando. Você não podia ter planejado tudo isso sem me consultar – disse.


– Nós não nos conhecíamos, eu já disse. Nem lembrava mais disso – explicou. E não quero te deixar, quero te levar comigo – falou.


– E em que momento você perguntou o que eu quero? Em que momento você me levou em consideração nisso tudo? Você acha que eu sou uma peça de roupa que você carrega para onde quiser? – perguntei.


– Não. Eu penso que você é minha mulher e que um ano passa rápido – respondeu.


– Pois, para mim, um ano é muita coisa e, embora eu, de fato seja sua mulher, não sou sua propriedade – descontei.


– Nunca lhe tratei como propriedade Luisa. Só estou te pedindo bom-senso – falou ela, diminuindo o tom de voz.


– Bom senso pra você é eu largar tudo pra viver a sua vida? – perguntei ainda gritando.


– Não. Bom senso é não jogar um casamento para cima – disse ela.


– Como você está fazendo? Finalizei.


– Lu –começou ela.


– Não me chama de Lu. Não me trate como se eu estivesse tendo um chilique adolescente, porque estamos falando da minha vida – falei descontrolada.


– Luisa, a vida é nossa, não sua. E o que eu quero é apenas chegar a um ponto de equilíbrio, onde possamos fazer o que for melhor para nós duas – amenizou.


– Para nós duas? Pela sua proposta, só quem teria que ceder seria eu. Só vejo seus interesses nessa história toda – falei.


– Luisa, nesse tempo todo em que estamos juntas procurei entender todas as suas dificuldades, respeitá-las e ajudar no que fosse possível. Gostaria que pensasse nisso agora – falou.


– Ah! Eu sabia que um dia ia levar isso na cara! Como eu posso ter sido tão burra de acreditar que com você seria diferente? – falei, chorando.


Ela se aproximou, envolvendo o meu corpo com seus braços e, por mais que eu sentisse vontade de me acomodar no seu ombro, a empurrei e subi as escadas correndo.


Ela subiu depois de algum tempo e eu estava deitada na cama, chorando compulsivamente. Ela sentou-se ao meu lado e disse:


– Lu, vamos tomar um banho, comer alguma coisa, esfriar a cabeça e amanhã conversamos, que tal? – disse passando a mão nos meus cabelos.


Atirei-me nos braços dela e disse:


– Eu não quero te perder. Eu amo você.


– Você não vai me perder, eu também te amo.


Dormi no ombro dela, cansada de tanto chorar.


No outro dia, acordei com muita dor de cabeça, vômito e dores no corpo.


Carol ligou para o escritório, avisando que eu não iria trabalhar e ligou para a Universidade também informando que não daria aula naquele dia.


Depois de uma conversa mais civilizada, acordamos que Carol iria e eu continuaria aqui, mas que nos encontraríamos a cada dois meses. Eu continuaria na casa e nos falaríamos todos os dias. Caso eu mudasse de ideia e quisesse ir morar lá com ela, poderia fazê-lo a qualquer momento.


Entendemos que não era o ideal, mas que era o melhor a fazer naquele momento.

Capitulo 16 - É cedo ou tarde demais pra dizer adeus por Poracaso

Foram dois meses de muita correria, muita briga, mas de muita aproximação também. Não nos desgrudamos, como se quiséssemos compensar o tempo que passaríamos separadas.

Foram inúmeras despedidas com os amigos, mas reservamos a última noite para nós. Jantamos no restaurante que tinha a nossa cara, onde comemoramos todas as nossas grandes conquistas. Escolhemos nossos pratos preferidos e tomamos vinho.

Fizemos amor em nossa cama como se fosse a primeira vez, há quase três anos. Começamos nos tocando suavemente, com toda a delicadeza das primeiras vezes. Parecia que Carol queria sentir cada parte do meu corpo para não esquecer. Percorreu-me como se eu fosse um mapa e nele procurasse alguma cidade a ser conquistada. Mas tudo já era dela. Meu corpo já era dela. Eu era dela.

E como se, de repente, tivesse se dado conta da urgência do momento, penetrou-me com tanta força que não pude conter um grito de prazer.

Ela estava com tanta vontade de mim que não me deu espaço para entrar no seu corpo. O corpo dela estava grudado ao meu pelo suor e pelos nossos líquidos, minha mão sentia seu sexo e seu prazer, enquanto a mão dela se movia dentro de mim.

Ela dormiu dentro de mim, tal qual um exilado que procura abrigo em local seguro. Acordamos abraçadas como se fôssemos capazes de resistir a tudo, inclusive à distância.

Fomos só nós para o aeroporto. A espera pelo embarque foi ansiosa. A despedida foi com lágrimas contidas de ambas as partes. Ela apertou meu corpo contra o dela e disse no meu ouvido, já sem conseguir segurar os soluços:

– Não quero perder você.

– Não vai perder – eu disse.

Voltei para casa pensando sobre como os papéis podem se inverter. Eu, que sempre tive tanto medo de ser deixada, estava agora vivendo outra personagem. Eu, com todas as minha inseguranças, tentava manter alguém segura acerca dos meus sentimentos.

Capitulo 17 - Apesar de você amanhã há de ser outro dia por Poracaso

Dormi pelo cansaço que o choro provocou em mim. Não sei dizer se naquele momento já sentia saudade ou era medo. Na verdade, talvez não fosse nem um nem outro, acho que sofria com a falta dela. Meu pé procurou o dela durante toda a noite e a cama parecia pender para o meu lado, sentindo a falta do peso dela.

Noite difícil.

Acordei com a campainha tocando. Atordoada, meu coração ainda bateu como se existisse a chance de eu ser surpreendida por ela a minha porta. De volta.

Mas sabia que aquilo não era possível.

Abri a porta e fui surpreendida, mas por um entregador, carregando uma cesta de café da manhã e um buquê de gérberas laranja, as minhas preferidas.

O cartão dizia:

Meu amor, a noite não foi fácil para nenhuma de nós, mas lembre-se que nada como um dia após o outro. Estarei sempre com você, onde quer que eu esteja.

Te amo,

Carol.

Deixei meu corpo cair pesadamente no sofá, enquanto mordia uma maçã da cesta.

O telefone tocou logo depois, era Carol.

– Amor, acabei de chegar. Vou pegar o metrô para ir até o apartamento e de lá eu ligo. Como você passou a noite?

– Sentindo a sua falta – a essa altura, as lágrimas já escorriam pelo meu rosto e minha voz já queria embargar.

– Eu também estou sentindo muito a sua falta – disse ela, com a voz fraca.

– Ah! Tô comendo a melhor maçã da minha vida – falei para descontrair.

– Fornecedor novo? Perguntou ela, rindo.

– Obrigada, meu amor! – falei.

– É para você saber que vou estar sempre por perto – afirmou.

Uma hora depois, o telefone voltou a tocar.

– Amor, cheguei no apartamento. Não é muito grande, mas dá para nós duas, além de ser aconchegante. Sabe o que eu estou fazendo?

– Que bom amor, não vejo a hora de te encontrar. O que?

– Comendo o melhor bolo de goma da minha vida! – ela disse.

Eu havia colocado um saco de bolo de goma dentro da mala dela com um cartão que dizia:

Meu amor, a vida, vez por outra, nos oferece caminhos amargos, mas, sem dúvida, necessários para a construção de um futuro doce. Estarei sempre com você, seja qual for o caminho.

Te amo,

Lu.

– Como você está? – perguntei.

– Cansada. Não dormi nada no vôo, pensando em você, em nós – disse.

– Aproveite para descansar. E lembre que, em breve, estarei ai com você – acalmei.

– Te amo – disse ela.

– Eu também – confirmei.

Desliguei o telefone e deitei no sofá me sentindo uma adolescente apaixonada.

Ao mesmo tempo em que sofria com a distância, parecia que aquele furor juvenil tinha despertado novamente em nós.

Foram dois meses de muitas ligações, emails e até cartas românticas, mas, sobretudo, de celibato.

Desde o fim do meu relacionamento anterior e do início da relação com Carol, não passava tanto tempo reclusa.

Como estava meio de “bobeira”, foquei no trabalho e consegui render bastante, o que me possibilitou mais dias de folga. Viajei para passar 20 dias com Carol.

A sensação era a do primeiro encontro. Estava ansiosa. Ela foi me esperar no aeroporto e foi bom ter sido recebida com um abraço tão forte quanto o último.

Era um dia de final de inverno e Carol estava corada pelo frio. Mesmo com o excesso de roupas consegui  sentir o calor do corpo dela. Que saudade!

Chegamos em casa e mal a porta bateu, Carol começou a tirar minha roupa. Nos amamos ali mesmo no chão. Perdi a conta de quantas vezes gozamos juntas. O chão duro e o frio não atrapalharam nossa performance, talvez até tenham sido ingredientes de uma experiência.

Eram quase 9 da noite e o céu ainda estava claro. Isso fez com que perdêssemos um pouco da noção de quanto tempo havíamos passado ali.

Com exceção dos dois dias que passamos em Bruges, na Bélgica, e dos quatro dias em que estivemos em Paris, quase não saímos de casa, ou melhor, quase não saímos da cama. Mas posso garantir que foi a viagem mais proveitosa dos últimos tempos.

Carol fez questão de me levar até a Universidade e de me apresentar a seus amigos, que faziam questão de dizer que já me conheciam de nome. Foi importante para nós duas reafirmar nossos espaços.

No último dia da minha estada em Londres fomos a um pub e Carol encheu a cara de cerveja. Voltei para casa com ela completamente embriagada.

Estava trocando a roupa dela, o que me fez lembrar a nossa primeira noite, quando ela olhou pra mim e disse:

– Você foi a única mulher que eu amei de verdade.

– Meu amor, você bebeu demais, vamos tirar essa roupa – eu disse.

– Eu tiro, mas quero que você saiba que aconteça o que acontecer vou continuar amando você. Que você é a mulher da minha vida e que eu quero ter filhos com você – declarou e correu para o banheiro, onde vomitou em seguida.

Dei um banho quente nela e a coloquei na cama.

Capitulo 18 - só me resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza por Poracaso

Voltei para o Brasil com vontade de ficar, mas com a certeza de que era preciso seguir.

Contava os dias para os próximos dois meses passarem, mas agora com mais tranquilidade. Marcos e Marina tiveram participação fundamental nesses 60 dias. Procuravam se manter sempreIy  por perto, monitorando minha solidão.

O telefone também continuou colaborando. Mas é verdade que algumas coisas mudaram. Depois que voltei, o primeiro mês correu dentro da normalidade dos meses anteriores. No entanto, no quinto mês desde a partida de Carol, o destino começou a mostrar suas armadilhas.

Liguei para Carol durante todo o dia e ela não atendeu. Tentei o celular, a casa e nada… mandei mensagem e continuei sem resposta.

Tentei controlar meus pensamentos, mas confesso que foi difícil. A noite foi cheia de pesadelos e o dia parecia que não ia chegar.

Esperei uma hora apropriada e tornei a ligar. Ela atendeu na segunda tentativa com voz de sono.

– Tentei falar com você o dia todo ontem – eu disse.

– Oi. É que passei o dia inteiro na Universidade e às vezes o celular não pega lá, sabe como é… – explicou.

– Sei. Bom, como você está? – perguntei.

– Tudo bem. E você?

– Tudo ótimo. Daqui a 15 dias nos encontraremos. Não vejo a hora – comemorei.

– Ah! Queria até falar com você sobre isso. Acho melhor você adiar um pouco a passagem, porque estou cheia de trabalhos para fazer e não vou conseguir te dar atenção – falou.

– Não tem problema, de repente eu posso te ajudar – tentei.

– Pois é, mas são muitos seminários para apresentar e artigos para escrever e acho que vai ficar complicado. Queria que viesse quando eu tivesse mais tempo – insistiu.

– Tá bom, então vou remarcar para daqui a 30 dias, pode ser? – consultei.

– Pode sim – disse.

Desliguei o telefone com o peito apertado. Liguei para Marcos imediatamente e convoquei uma reunião extraordinária com a LAE – Liga dos Assessores Emocionais. Ele e Marina apareceram à noite lá em casa. Conversamos enquanto jantávamos no jardim.

- Lu, eu acho que você não devia se precipitar. Dá um voto de confiança pra ela e monitora para ver qual é – disse Marcos.

– Minha irmã, seguinte. O que os olhos não veem, o coração não sente. Então, relaxa. Vai que não é nada. A mulher não foi pra lá pra estudar? Então…vai ver que é isso mesmo que ela está fazendo, amiga. Vocês estão casadas há quase cinco anos! – concluiu Marina.

– Bom, tomara que isso signifique alguma coisa pra ela. Já remarquei a passagem. Agora, é esperar – eu disse.

Os dias que se seguiram foram de poucas palavras. Não quis atrapalhar os estudos dela nem pressionar com cobranças.

Até que, em uma determinada sexta-feira à noite, dia em que eu deveria estar lá, liguei para casa dela e uma outra mulher atendeu.

– Alô, ou melhor, Hello! – disse a voz.

– Carol? – perguntei.

– Olha, ela tá dormindo, você quer deixar recado? – perguntou a mulher.

– Não obrigada – desliguei com um sentimento que não sei nem se tem nome.

Não quis dividir o ocorrido com ninguém naquele momento, de modo a não ser passional.

Pensei em ligar outra vez e pedir para acordá-la, em tentar o celular, mas tentei, uma vez na vida, não ser infantil e agir de forma adulta.

Amanheci sem ter pregado olho.

O telefone de casa tocou às 7h. Atendi no primeiro toque, era ela.

– Lu? – perguntou.

– Oi – respondi.

– Tudo bem? – perguntou.

– Tudo, e você? – perguntei, sentindo-me adulta.

– Olha, você me ligou ontem? – mais uma pergunta.

– Liguei, me disseram que você estava dormindo – alfinetei.

– Foi uma colega minha da faculdade que veio me ajudar num trabalho – tentou.

– Que bom que conseguiu alguém para ajudá-la – espetei outra vez.

– Passamos o dia todo estudando e eu acabei pegando no sono – explicou.

– Imagino – respondi.

– Olha, Lu, você deve estar pensando um monte de coisa, mas acho que precisamos conversar – disparou.

– Estou à sua disposição – disse.

– Você sabe que quando se está longe tudo fica mais difícil – começou.

– Carolina, deixa eu facilitar a sua vida: quem é ela? – perguntei de forma objetiva.

– Lu, não é assim que as coisa se resolvem – se esquivou.

– Quem é E-LA? – insisti.

– Amiga de uma colega da faculdade – respondeu.

– Há quanto tempo?

– Lu, eu tinha bebido demais e acabou acontecendo – se explicou.

– Responde o que eu perguntei – disse aumentando o tom de voz.

– Três semanas mais ou menos – respondeu.

– Foi ela quem atendeu ao telefone ontem?

– Sim, mas eu posso explicar – se adiantou.

– Foi por isso que você pediu para que eu não fosse? – interroguei.

– Não, Lu, é que eu realmente estou cheia de trabalho e…- explicou.

– Olha, Carolina, eu só quero saber como vamos resolver as coisas práticas daqui para frente – disse.

– Lu, não faz assim. Me perdoa. Foi só uma aventura boba de quem está carente, longe – disse.

– Carolina, responde o que eu estou te perguntando, por favor – pedi.

– Lu, você que não quis vir comigo e me deixou sozinha aqui – culpou.

– Olha, eu não vou deixar você fazer isso comigo. Ainda bem que eu não fui, teria largado tudo e não conseguiria impedir você de viver essa aventura. Eu só quero resolver o que vai ser daqui pra frente, aí você segue a sua vida, o que parece que já está fazendo, e me deixa seguir a minha – disse eu, resoluta.

– Lu, em poucos dias você estará aqui e ai teremos a oportunidade de conversar, por favor – implorou chorando.

– Carolina, seria um gasto de dinheiro e de energia completamente inútil. Pense no que você quer fazer com a casa e as coisas em geral e me avise – disse.

– Não desliga, Lu – pediu.

Já era tarde, desliguei.

Contrariando todas as expectativas, não gritei, não me debati, apenas chorei sozinha.

Arrumei minhas coisas – que se resumiam a roupas, livros, CDs e alguns objetos de decoração – e voltei para o meu apartamento. Eu não cabia mais naquela casa, na nossa casa.

De volta ao lar, liguei para Marcos e Marina e comuniquei de forma muito equilibrada o acontecido. Julgo ter sido muito pouco passional, posso até dizer que fui equilibrada demais.

Faltava-me fúria. Sobrava-me tristeza e decepção. Não quis ver ninguém, não quis conversar, só quis chorar.

Notas finais:

E agora?

Capitulo 19 - Você que ontem me sufocou de amor e de felicidade, hoje me sufoca de saudade por Poracaso

Acordei com a sensação de que algo me fora arrancado pela boca, sem anestesia. Não quis sair da cama, mas também não me obriguei a fazê-lo. Desmarquei meus compromissos e decidi ficar em casa.

No celular, havia 37 ligações do número de Carol e outras tantas de um telefone internacional que também devia ser dela. Joguei o aparelho para o lado e não me animei em retornar as ligações.

O telefone de casa começou a tocar nesse exato momento. Não me mexi. Quem quiser que fosse, não valia o esforço. A secretária eletrônica atendeu:

– Lu, pelo amor de Deus, sei que você está ai. Já liguei para o escritório, para nossa casa e para o seu celular. Você é a mulher da minha vida. Eu amo você. Me perdoa. Deixa eu pelo menos explicar o que aconteceu.

Ouvi tudo sem mexer um músculo. Só não pude impedir as lembranças de virem. Lembrei-me do dia em Londres em que ela disse que eu era a mulher da vida dela.

Como eu quis ser a mulher da vida de alguém. E depois como eu quis ser a mulher da vida dela. Só dela.

Levantei com a certeza de que naquele momento eu não era a mulher da vida de ninguém, talvez nem mesmo da minha.

O celular tocou, eu estava em frente ao espelho, sem me reconhecer.

– Alô – disse

– Lu, o que aconteceu? Carol acabou de me ligar aos prantos, dizendo que já te procurou em todos os lugares – era Marcos.

– Só não quis atender – respondi.

– Ai, Lu, será que não é melhor vocês conversarem? – disse ele.

– Marcos, talvez seja, mas agora não tenho condições – eu disse.

– Bom, você quem sabe. Qualquer coisa eu estou por aqui – falou.

Continuei na cama. Levantei apenas para almoçar e voltei para a cama.

Tinha convicção do que eu não queria, mas não sabia ainda o que eu faria dali em diante. Nem fiz questão de sabê-lo naquele momento.

Não saí da cama. A campainha tocou às 10h da noite. Eu saí da cama, pronta para abrir a porta e dizer que era engano. Pensei em deixar tocar também, mas já era tarde e queria paz, preferi despachar logo o intruso.

Quando abri a porta, dei de cara com Carol.

Ela estava bastante abatida, com uma mala na mão, como se tivesse acabado de chegar de viagem. Ela me olhou e disse:

– Posso conversar com você, por favor? – pediu ela.

– Entra – eu disse.

Ela passou da porta arrastando a mala e ficou de pé como se nunca estivesse estado ali. Convidei-a para sentar e ela começou a chorar descontroladamente no meu sofá.

Fui até a cozinha e peguei um copo de água e lhe ofereci. Ela teve dificuldade para segurar o copo com as mãos trêmulas.

Sentei perto dela e pedi que se acalmasse.

Ela só pedia desculpa e dizia que tinha sido uma irresponsável.

Concordava, mas sabia que aquela não era a melhor hora para um massacre. Então disse que cada coisa tem seu tempo de maturação e que essa história toda ainda estava doendo muito em mim e que preferia não fazer nada de cabeça quente. Perguntei desde quando ela estava no Brasil e ela disse que tinha acabado de chegar – o que explicava a mala. Quando perguntei até quando ela ficaria, respondeu que voltaria às 4h da manhã do dia seguinte.

– 8h apenas no Brasil? – perguntei.

– Vim só para conversar com você – soluçou ela.

– Você não devia ter vindo. Se desgastado. Esse vai e vem todo é muito desgastante – eu disse.

– Você não me atendia, foi a minha única opção – justificou.

Esperei ela se acalmar e disse:

– Você quer que eu chame um táxi para você? – ofereci.

Ela fez que sim com a cabeça enxugando as lágrimas que caíam.

Quando o táxi chegou levei ela até a porta. Ela me abraçou forte e disse:

– Por favor, volta pra mim?

– Carol, vamos dar tempo ao tempo – respondi.

Ela sumiu no elevador.

Fechei a porta e desabei no chão, lutando contra meu corpo que queria abrir aquela porta e sair correndo atrás dela.

Abracei meu próprio corpo enquanto sufocava o grito de dor dentro do meu peito.

Um medo enorme de ter minha vida roubada outra vez, de começar de novo ou de perder completamente a vontade de recomeçar.

O dia amanheceu e eu continuava ali sentada, de costas para a porta, abraçando minhas pernas, como quem quer entrar em si mesma.

Não podia continuar assim. Eu tinha colocado ela para fora. Tinha resistido. Tinha feito o que era certo.

Será?

Levantei antes de pensar em uma resposta confortável para dar a mim mesma. Tomei banho, troquei de roupa e quando me olhei no espelho me vi magra, sem formas.

Resolvi que era preciso retomar a vida, nem que fosse a profissional. Fui trabalhar. Produzi pouco, quase nada, mas consegui me mover.

E assim foram os dias.

Um por vez.

Mas sempre saudosos de um passado próximo, ainda tão presente.

Notas finais:

Carol está mesmo disposta a fazer tudo pra ter Luisa de volta. Será que ela vai conseguir? Ou será que acabou pra sempre? 

Talvez seja melhor fazer o que Luisa disse, dar tempo ao tempo, e a vida se revelará.

Capitulo 20 - Uma mulher de moral não fica no chão por Poracaso

Até que, em uma determinada noite, Marcos e Marina conseguiram me tirar de casa para comer um crepe, sem compromisso. Fui.

Estávamos no restaurante há cerca de uma hora, quando uma mulher linda, cabelos grisalhos, se aproximou da nossa mesa e cumprimentou Marcos. Olhou para nós e perguntou se podia sentar-se. Diante da assertiva, puxou a cadeira e sentou-se ao meu lado, apresentando-se.

– Boa noite, gente, meu nome é Solange.

A mulher, que era extremamente atraente, fazia parte do círculo de amizades do trabalho de Marcos e me fez rir bastante naquela noite.

No final da noite, ela me olhou e disse:

– Você não devia cultivar essa tristeza. É uma mulher linda, inteligente e simpática. O mundo perde muito sem o seu sorriso – disse ela.

Eu baixei os olhos, envergonhada, e deixei uma mecha do meu cabelo cobrir um dos meus olhos e respondi:

– Tudo tem seu tempo.

– Tomara que seja breve, então – disse ela.

Enquanto eu tentava reaver meus pedaços, Carol continuava me mandando mensagens com pedidos enfáticos de desculpas. Em 10 dias, foram mais de 20 mensagens e 5 ligações. Atendi todas, mas o conteúdo era sempre o mesmo, arrependimento e declarações que, achava eu, talvez fossem todos verdade, só não tinha mais coragem de sofrer, pelo menos não naquele momento.

Dois dias depois recebi uma ligação.

– Liguei para saber se você já voltou a sorrir – disse minha interlocutora.

Solange, pensei. Não pude segurar e acabei rindo.

– Bem melhor – disse ela.

– Melhorando – completei.

– Precisamos comemorar este avanço – disse.

– Não é pra tanto – recuei.

– Todo avanço, mesmo que pequeno, merece ser comemorado. Sendo assim, estou convidando você para comer o melhor peixe na telha da sua vida. Não tem desculpa, já que seu melhor amigo já confirmou presença – intimou.

– Bom, adoro peixe, mas não vou prometer nada – disse.

– Já estou contando com você. Anota aí meu endereço – falou.

– Pronto, anotado – disse.

– Não vejo a hora de te ver sorrindo – falou.

– Nem eu – respondi rindo.

Desliguei o telefone, achando que aquela conversa já tinha extrapolado meu limite de sociabilidade pelos próximos seis meses.

O telefone voltou a tocar em seguida, só que dessa vez era Carol, dizendo que tinha decidido largar tudo e voltar para o Brasil.

Eu me encarreguei de dizer que essa era uma decisão errada, que só atrapalharia a vida dela e provocaria mais angústia. Dentro de um mês ela defenderia o projeto e poderia voltar ou poderia ficar, já que, pelo visto, havia construído laços lá.

Acabamos discutindo. E o resto da semana foi de silêncio.

O final de semana chegou e com ele a insistência de Marcos em me tirar de casa para comer o tal peixe. Eu estava firme na minha decisão de não ir. Mas acabei cedendo.

Fui no meu carro para não depender de ninguém para voltar. Depois de 2 horas de interação, comecei a me mobilizar para bater em retirada. Não consegui.

Fui sendo envolvida pela conversa e acabei me despedindo de Marcos, o último a sair. Engatei uma conversa com Solange sobre felicidade, Epicuro e Nietzsche.

Quando me dei conta, já era 1h da manhã.

Levantei apressada e disse:

– Solange, a noite foi ótima, a comida estava uma delícia, mas preciso ir embora – decretei.

– Precisa? – perguntou ela.

– Já está tarde e… – comecei.

– Você quer ir embora? – perguntou.

– Não sei te responder ao certo, mas acho que eu devo ir – arrisquei.

– Já disse a você que o que você deve é voltar a sorrir – disse ela se aproximando de mim e segurando meu queixo com o indicado e o polegar.

Quis baixar a cabeça, mas fui impedida por ela, que me beijou. No início, resisti, mas depois tentei me entregar ao beijo, experimentar, testar até.

O clima foi esquentando e a mão dela foi criando vida dentro da minha blusa. A princípio não senti qualquer incômodo, pois parecia mais me alisar do que me bulinar.

Ela assumiu o comando e foi me empurrando até a cama sem interromper o beijo.

Ela me deitou devagar na cama e tirou minha blusa. Sentia meu corpo responder aos estímulos de alguma forma. Senti meu rosto esquentar. Tirou minha saia e logo acessou o meu sexo, que estava úmido.

Meu corpo queria levar aquilo à diante, mas minha cabeça não parava de me avisar que aquela não era Carol, o que fez com que meu corpo pouco a pouco identificasse o engano e revisse suas decisões.

Uma angústia tomou conta de mim, até que disse:

– Eu não posso!

Ela parou na hora. Deitou ao meu lado, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Ela puxou o lençol para cobrir o meu corpo seminu, enquanto eu pedia desculpas.

Me abraçou por trás e disse:

– Tá tudo bem, meu bem. Não vamos fazer absolutamente nada que você não queira.

– Minha cabeça não deixa meu corpo em paz! – disse eu soluçando.

– Não tem problema. Vamos dar o tempo que sua cabeça precisar – consolou, enquanto alisava minhas costas.

– Quero vestir minhas roupas – eu disse decidida.

– Fica quietinha, não vou te tocar sem que você queira. Não farei nada que você não queira – tranquilizou.

– Tenho que ir para casa – eu disse.

– Não vou deixar você sair daqui assim. Você está nervosa. Você dorme aqui e amanhã a hora que você quiser, vai para casa, ok? – sugeriu.

Balancei a cabeça concordando com ela.

Acordei no meio da madrugada e quando olhei para o lado ela não estava na cama. Levantei um pouco confusa e fui achá-la no sofá. Fiquei pensando como eu podia ser tão folgada. Acabei com todas as más intenções dela e ainda fiquei com a cama. Que vergonha!

Para me redimir da culpa, preparei o café da manhã antes mesmo dela acordar.

Quando ela levantou apressou-se em me perguntar:

– Como passou a noite?

– Bem. Mas, ai que vergonha!, acho que você já não pode dizer a mesma coisa. Dormiu toda encolhida ai nesse sofá! – falei quase me desculpando.

– Foi por uma boa causa, não queria que você se sentisse desconfortável e não quis ir para o quarto de hospedes, pois queria ter certeza que a senhorita não ia sair por essa porta sem avisar – confessou ela apontando para a porta de saída.

– Não faria isso – garanti.

– Mas por esse café da manhã você está perdoada! – disse ela pegando uma torrada com geleia que eu tinha acabado de preparar.

– Bom, eu acho que já te aluguei demais né? – perguntei.

– Claro que não! O que você vai fazer hoje? – perguntou ela.

– Vou para casa trabalhar um pouco e, provavelmente, sofrer outro pouco – disse rindo de mim mesma.

– Quer ir andar na praia comigo? – convidou.

– Ai, não sei. Não sou muito fã de sol – confidenciei.

– Dá pra perceber, mas vamos?! Vai ser bom para você espairecer.

– Tá bom, então, mas preciso passar em casa para trocar de roupa, você se importa? – perguntei.

– Claro que não. Posso ir com você? – perguntou.

– Pode. Depois da praia te deixo aqui, ok? – propus.

– Perfeito! – disse ela.

Fazia um sol lindo e a praia estava cheia. Caminhamos por cerca de 1 hora, mas o calor nos fez sentar em frente ao mar para tomar uma água de coco. Ficamos ali conversando por quase 2 horas, depois fui deixar Solange em casa e ela me disse:

– Meu bem, obrigada pela companhia, você iluminou meu dia – disse me beijando no rosto.

– Era o mínimo, depois do que fiz com a sua noite – falei sem graça.

– Já disse a você que estou à sua disposição – ofereceu.

Capitulo 21 - embaixo dessa neve mora um coração por Poracaso

Durante os quinze dias que se seguiram, eu e Solange nos tornamos companheiras inseparáveis de caminhadas e cada dia eu me sentia mais à vontade com ela.

Um dia, enquanto conversávamos na areia da praia, meu telefone tocou. Era Carol. Percebi que ela havia lido o nome no visor do telefone e na mesma hora levantou-se e fez sinal avisando que ia pegar mais uma água de coco.

Atendi. E ela me disse que estava voltando para o Brasil em uma semana. Limitei-me a perguntar se ela estava bem e se tinha defendido o projeto. Ela confirmou a defesa e disse que a dedicatória do trabalho foi para mim.

Agradeci e quis terminar a conversa. Mas ela insistiu e perguntou se podíamos conversar logo que voltasse.

Disse que não tínhamos o que conversar e que a chave da “nossa casa” estava na casa da mãe dela. Ela desligou, chorando.

Solange voltou e perguntou se estava tudo bem. Contei o que tinha acontecido e então ela disse:

– Lu, essa estória é de vocês e não sua. Ela tem o direito de ser ouvida.

– Ah! Agora você vai me dizer que ela é uma vítima? – perguntei.

– Meu bem, não acho que exista uma vítima neste caso. Acho que vocês duas estão sofrendo e que esse jogo de gato e rato só agrava a situação – opinou.

– Você não sabe de nada – disse eu me levantando e caminhando em direção ao carro.

– Luisa, deixe de ser infantil. Volta aqui! – gritou ela.

Não voltei e ela correu em minha direção até me alcançar, me segurar pelo braço e me fazer sentar na areia outra vez.

– Lu, você acha que assim você resolve sua vida? Presta atenção no que você está fazendo. Se você não quer mais ela, deixe isso claro, mas se ainda a quiser, dê uma chance – despejou.

– Eu já disse mil vezes que não quero mais ela – falei.

– Luisa, até onde eu sei, Carol é uma mulher inteligente e deve conhecer você muito bem. Dependendo de como você disse que não quer mais, ela pode achar que ainda há alguma esperança – analisou ela.

– Agora você vai querer conhecer meu relacionamento melhor do que eu? – perguntei.

– Não, Lu. Acontece que tenho mais anos de estrada do que você e conheço relacionamentos. Eles se repetem. Não ache que seu sofrimento é único. Todos os dias milhares de relacionamentos terminam e outros tantos começam e a vida segue – disse.

– Você ia se dar bem com ela. Mania de analisar o comportamento humano – alfinetei.

– Olha, Lu, vou fingir que nem ouvi sua provocação. Até porque você sabe que se eu quisesse me dar bem com alguém aqui, não ia ser com ela, não é? – perguntou me roubando um beijo.

Empurrei-a devagar e ela me olhou rindo, dizendo:

– Eita, sina que eu tenho de gostar de mulher complicada – falou ela levantando e me puxando pela mão.

– Mas sério, Lu, eu quero te ver feliz – completou.

– E você acha que para eu ser feliz eu tenho que perdoar Carol? – perguntei em tom de ironia.

– Talvez. O perdão é necessário para que você siga com sua vida sem ela ou até para que vocês se acertem de vez – falou.

– Vou pensar nisso – prometi.

Ela piscou pra mim como se tivesse cumprido seu dever.

– Ela disse que volta em uma semana – soltei.

– Olha ai! Quem sabe vocês não conversam – ponderou.

– Quem sabe – eu disse.

Ela me prendeu pelo pescoço e beijou minha cabeça.

Capitulo 22 - Onde estou eu, onde está você? Estamos cá dentro de nós, sós por Poracaso

Uma semana depois, Marcos me ligou dizendo que Carol havia chegado ao Brasil e que tinha ligado para ele para se aconselhar. Segundo ele, ela continuava se sentindo muito culpada e se mantinha firme no propósito de me reconquistar.

 

Ouvi tudo o que ele tinha a dizer, mas preferi não me pronunciar. Apenas falei:

– Deixemos ao acaso.

E parece que o acaso mais uma vez me ouviu. Estava com Solange na praia, sentada após uma de nossas caminhadas, quando senti uma pessoa se aproximar e parar diante de nós. Era Carol.

 

– Bom dia – disse ela, tirando os óculos escuros e se dirigindo a Solange. – Você é? – perguntou.

– Muito prazer, Solange. E você? – perguntou Solange, no mesmo tom.

– Carolina – respondeu – Posso sentar com vocês? – perguntou.

– Na verdade, já estávamos de saída – respondi, fazendo menção de me levantar.

– Acho que podemos ficar mais um pouco, Lu – disse Solange.

– Lu? – repetiu Carol, em tom de deboche – Engraçado, não me lembro de você ser amiga de Luisa – completou.

– Talvez não enquanto você estivesse com ela – revidou Solange.

– Olha, Solange, eu tô indo embora, se você quiser ficar aí, ok, mas eu estou indo – eu disse, sem paciência.

– Carolina, foi um prazer conhecê-la – concluiu Solange.

– O prazer foi todo meu – retribuiu Carol.

– Tchau – eu disse levantando.

Carol acenou com a mão, enquanto colocava os óculos de volta no rosto.

Fui levar Solange em casa e passei todo o caminho xingando Carol. Por fim, Solange disse:

– Lu, ela está no papel dela. Qualquer uma faria igual.

EPÍLOGO (Luisa) por Poracaso
Notas do autor:

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A campainha da casa de Solange tocou. Era Carol.

– Estava esperando você – disse Solange.

– Me esperando? – perguntou Carol.

– Exatamente! – respondeu Solange.

– Isso é algum tipo de ironia? – se defendeu Carol.

– Carolina, sei que você é uma mulher inteligente, que está louca para ter sua mulher de volta e eu sou uma mulher experiente que sabe exatamente o que está passando pela sua cabeça. Sendo assim, não podia esperar que você ficasse sentada na areia da praia, olhando sua mulher cair nos braços de outra pessoa – disse.

– Que bom que você entende, então! – disse Carol.

– Senta. Aceita um suco, uma água? – ofereceu Solange.

– Aceito uma água, obrigada – agradeceu Carol.

– Mas diga lá, em que posso ajudá-la – dispôs-se Solange.

– Vou direto ao assunto, pois não pretendo tomar muito seu tempo. Eu sou completamente apaixonada pela Luisa, sou louca por essa mulher e quero saber qual a sua relação com ela – questionou.

– Carolina, gostaria de deixar claro, antes de qualquer coisa, que tanto eu como a Luisa somos pessoas livres, desimpedidas, adultas, capazes de tomar decisões e que não precisamos dar satisfação das nossas vidas a absolutamente ninguém. Vou responder à sua pergunta, não porque te deva satisfação, mas porque quero ver Luisa feliz. Mas, se eu fosse você, seria um pouco menos arrogante, já que sua situação não é das melhores – despejou Solange.

– Desculpe. Então, vamos fazer isso pela Luisa – disse Carol com tom ameno.

– Isso, porque se temos algo em comum, é ela – concluiu Solange, continuando. – Bom, Carolina, a Luisa é uma mulher forte, mas que tem acumulado fracassos na vida pessoal, o que faz com que ela se proteja demais, inclusive das ousadias. Acho que ela é apaixonada por você, que te ama de maneira pura e incondicional. No entanto, você há de convir, que pisou muito feio na bola e que, para ela, isso foi fatal. Ela acreditou em você, assumiu você por achar que era diferente das outras, mas você rompeu o contrato. Eu até entendo que a carne é fraca, que muitas vezes a gente mete mesmo os pés pelas mãos por um rabo de saia, mas a Luisa é uma menina dentro de uma mulher. Uma menina medrosa, que treme só de pensar que vai ter que sair por aí juntando seus próprios cacos. Quanto a nós, eu e ela, fique tranquila, somos apenas amigas e garanto a você que não foi por falta de tentativas minhas – riu Solange.

– Você está me dizendo que está dando em cima da minha mulher, assim, com essa cara? – perguntou Carol, rindo.

– Carolina, minha querida, ela não é mais sua mulher e você, mais do que eu, inclusive, sabe quem é Luisa e como ela é encantadora – respondeu Solange.

– Você tem toda razão. Eu tenho bom gosto. Seria até estranho se você não tivesse se sentido atraída por ela – concordou.

– Pois então! – confirmou Solange.

– Solange, você acha que eu tenho alguma chance de consertar essa burrada? – perguntou Carol.

– Primeiro me responda o que você fez com a mulher com quem você a traiu – questionou Solange.

– Foi realmente uma aventura, nada além de sexo. E se resumiu a quatro noites regadas a muito vinho. Mas não havia nenhuma ligação mais estreita. Era apenas sexo para ambas e, quando a Lu descobriu, perdi totalmente o tesão – respondeu Carol.

– Bom, como eu já disse, acho que ela é louca por você. Mas você vai precisar ter muita paciência para fazer um trabalho de formiguinha, de conquistar a confiança dela diariamente. Esteja preparada para ouvir infinitas vezes que você a traiu. Assuma suas culpas sempre que for acusada disso. Não a pressione, dê espaço a ela. Ela acha que não ser infantil é provar que é capaz de resistir a você. Fique atenta ao tempo dela. Não queira apressar as coisas, nem tente recuperar o tempo perdido. Vá com calma. E não deixe essa mulher fugir, porque ela vale a pena – falou Solange.

– Nem sei como lhe agradecer, Solange. Obrigada mesmo – disse Carol, abraçando Solange.

– Não precisa agradecer. Só me faça um favor: não magoe esta menina, senão, dessa vez, eu não vou te perdoar. Juízo, dona Carolina – decretou Solange.

– Pode deixar! – disse Carol dirigindo-se à porta.

– Ah! Carol, se eu fosse você, voltava na praia agora e ia ver um pouco o mar – falou Solange.

– Entendi. Obrigada! – disse Carol.

Assim que chegou à praia, Carol viu Luisa sentada de frente para o mar. Foi caminhando em sua direção sem que ela pudesse vê-la. Sentou ao seu lado, calada. Até que Luisa se virou e cruzou seu olhar com o dela.

– Carol, eu não vou conversar, não quero falar com você – disse Luisa.

– Tudo bem. Não vim aqui para te forçar a nada, só vim ver o mar – explicou Carol.

– Justamente aqui, nesse lugar? – agrediu Luisa.

– O mar, perto de quem se ama, assume contornos diferentes. Diminui sua inconstância e até o horizonte parece nos revelar novas possibilidades – respondeu ela.

– Será? – perguntou Luisa.

– Não sei, só saberemos se tentarmos.

Notas finais:

Meninas, espero que vocês estejam gostando!

Hoje vamos nos despedir de Luisa como nossa narradora. Precisamos ouvir essa história por outro ponto de vista. No próximo capítulo, vamos ouvir o que Carol tem a nós contar e ver aonde isso vai findar!

Estão prontas? 

Capitulo 23 - O Encontro por Poracaso
Notas do autor:

Agora é a hora de Carol contar o que aconteceu

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PARTE 2
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Para ler o prólogo de Carol: https://projetoporacaso.wordpress.com/prologo-carol

 

Tinha ido a São Paulo dar um módulo no doutorado de Antropologia como professora convidada. Nunca gostei muito desse vai e vem. Mas, como estava na corrida para uma bolsa de pós-doutorado fora do país, tudo que viesse somar ao meu currículo era válido naquele momento.

Distrai-me ouvindo música e, quando me dei conta, meu voo estava na última chamada. Corri para comprar alguma coisa para comer antes de embarcar. Não reparei que havia uma fila na cafeteria e me joguei no balcão, passando na frente das pessoas. A partir daí, me vi envolvida em uma disputa jurídica com uma garota lindamente mal humorada que queria lutar pelos seus direitos civis e me destituir do meu imperativo de estar atrasada.

Depois de passar pelo tribunal e vencer, saí de lá com minha coca e um pão de queijo – longe de ser uma vitória bem remunerada. Mas o melhor foi que, enquanto minha algoz se ocupava em apresentar-me ao código de processo civil brasileiro, eu me ocupava em deixar-lhe o meu contato para uma necessidade posterior. Afinal, advogado todo mundo tem um na família, mas antropólogos são para poucos.

Peguei um guardanapo e rabisquei rapidamente:

 

Carol_ferraz@gmail.com

81 96324484

 

Para o caso de precisar furar uma fila

Do jeito que ela pareceu presunçosa, dificilmente entraria em contato, mas já tinha sido julgada, o máximo que podia acontecer era nada.

Passei o voo todo trabalhando em um artigo sobre a construção da raça brasileira e a influência disso no comportamento do homem cordial de Gilberto Freire.

Estava exausta quando desembarquei. Cheguei em casa no final da noite e quando abri a porta me vi só, completamente só. Ninguém se esfregando nas minhas pernas.

Eu tinha um gato, Bob, herança de um antigo relacionamento. No entanto, após a separação, depois de uma temporada comigo, foi levado de comum acordo. Mas fazia falta, muita falta, era minha companhia de todas as horas.

Algumas marcas de Bob ainda estavam lá: os potes de água e comida, os pêlos no sofá, mas sua presença física, dessa eu não desfrutava mais.

Melhor assim, relacionamento acabado.

Notas finais:

Vamos ouvir Carol e conhecer um pouco mais dela.

Capitulo 24 - O outro dia por Poracaso

Comecei o dia com uma xícara de café forte, esperando que aquilo fosse suficiente para me manter de olhos abertos. O objetivo era enfrentar a correção dos trabalhos dos alunos, que me esperavam empilhados em cima da mesa da sala, o que fazia parecer que meu apartamento, um simpático estúdio de 30 metros quadrados, era ainda menor.

 

Passei o dia inteiro absorvida pelo trabalho e à base de café, interrompida apenas, vez por outra, pela sensação de Bob se esfregando em minhas pernas. Meu telefone tocou já no final da tarde. Era Beatriz, minha ex e mãe de Bob, convidando-me para tomar um café. Convite o qual neguei pelos motivos óbvios. Sugeri prontamente a substituição da bebida por uma cerveja.

 

Bia não era uma ex típica. Tivemos um casamento de cinco anos que se desfez pelo simples desgaste da relação e a transformação do amor em outro tipo de sentimento. Sem briga, decidimos pelo fim da relação e assim foi feito. Sem qualquer dificuldade.

 

Quando cheguei, Bia já estava sentada com um copo na mão. Quando me viu, ela bateu no relógio e disse:

– Qual o seu problema com horários?

– Estava trabalhando, meu bem! – respondi, enquanto puxava uma cadeira para sentar.

Ela começou logo perguntando sobre a viagem e dizendo que Bob estava sentindo a minha falta. Contei as minhas impressões sobre o curso, reclamei mais uma vez dos aeroportos e fechei esse item da pauta falando da menina que tinha conhecido no aeroporto. Bia olhou para mim e disse:

– Você não toma jeito, né, Carol? Custava nada ficar na fila?

– Mas eu estava atrasada – justifiquei.

– Você não devia fazer isso, a primeira impressão é a que fica, sabia? E se essa for a mulher da sua vida?  – pontuou.

– Se for, ela vai mandar um email para mim – ri.

– Você ligaria para uma mulher que queria tomar o seu lugar na fila e que ainda te deixou um recado num guardanapo, sua cara de pau? – perguntou.

– Biaaaaaa, como foi que você me conheceu? Até parece que foi na missa – lembrei.

– Mandando recado num guardanapo em um bar – riu ela.

– Pois pronto. O amor não tem lugar, não tem hora – disse.

– Presta atenção, Carol! – repreendeu ela.

– Achei a menina interessante e vou dizer uma coisa a você: até topava um relacionamento com ela – confessei.

– Relacionamento? – surpreendeu-se.

– Por que a surpresa? Você sabe que não sou mulher de aventuras – falei.

– Sei sim, só não imaginei que essa garota tinha mexido tanto com você – disse.

– Acho que estou há muito tempo só e isso faz com que eu fique mais suscetível – expliquei.

– Concordo. Desde que terminamos você não engatou em mais nenhum relacionamento, quem sabe não está na hora? – falou.

– Quem sabe?!

Capitulo 25 - Na fila do chá por Poracaso

Fiquei pensando na conversa que tive com Bia e não consegui tirar a imagem daquela garota da cabeça. Ela não era só linda. Tinha o rosto forte e ao mesmo tempo parecia querer colo. Fazia tempo que alguém não chamava a minha atenção. Mas talvez Bia tivesse razão, ela parecia uma pessoa séria e eu ter furado a fila podia ter comprometido efetivamente a construção da minha imagem. Estava cansada de ser só, embora feliz. Sempre fui duas e começava a achar que esse momento celibatário já estava na hora de acabar.

Abri o e-mail com a esperança de encontrar uma mensagem dela, mas nada além de trabalho. Só mensagens de alunos querendo informações sobre notas, trabalhos e leituras. Desse jeito eu ia acabar namorando com uma aluna. Esse questionamento ético já tinha me passado pela cabeça algumas vezes, mas nunca alguém suficientemente interessante nessa condição havia cruzado o meu caminho acadêmico. Não vou negar que muitas meninas eram inspiradoras, mas não sei se passaria mais que uma noite com alguma delas. E como não sou dada a coisas fugazes, acabava sempre descartando a possibilidade.

O certo é que andava tão reclusa que já ventilava as mais infinitas possibilidades de encontros. E não vou negar que achava engraçada a forma como as estudantes me tratavam, dentro daquela perspectiva de um ser etéreo, objeto de desejo.

– Professora, o que você acha desse texto de Lévi-Strauss?

– Acho uma leitura fundamental, mas existem outras que podem te ajudar também, além de sair do básico.

– Hum. Você teria algo para me indicar?

– Tenho muita coisa interessante na minha biblioteca, posso ver algo para você.

– Claro! Posso passar na sua casa para pegar, se preferir.

E isso se repetia a cada semestre. Eu pensava que enquanto houvesse relações de poder, eu não corria o risco de ficar só.

Quando estava casada com Bia, ela brincava dizendo que havia sempre uma aluna suspirando por mim nos corredores da universidade. No princípio, isso me incomodava, sentia-me invadida, mas agora consigo achar graça na ingenuidade adolescente.

As abordagens mudavam, mas o que movia aquelas meninas recém-saídas da infância continuava sendo o mesmo impulso de sempre: a cobiça, o desejo pelo difícil, o desafio.

Gostaria de saber se elas chegavam a se imaginar casadas comigo, com filhos, num projeto mais duradouro ou se eu também não passaria de uma conquista, de uma paixonite, uma inflamação.

Talvez fosse mesmo patológico. Uma síndrome qualquer que afetasse essas meninas no período de transição para a vida adulta. Como eu estava ali perto e a relação professor-aluno historicamente já exercia um certo fascínio, a situação se tornava ainda um pouco mais intensa.

Eram convites e ofertas as mais diversas. Muitos chegavam a ser patéticos, constrangedores. Chegavam até a e-mails falsos que procuravam estabelecer uma relação mais próxima, embora unilateral e anônima.

Algumas eram sedutoras e até sexualmente instigantes, mas insistiam naquela versão ninfeta pegadora que fazia qualquer pessoa minimamente esclarecida correr da parada.

Sendo assim, preferia manter minha reputação de professora misteriosa e, por vezes, até estranha, para não me arriscar a liberdades indesejadas, mais do que aquelas que já estavam postas.

No final do semestre, aquelas relações já estavam desgastadas como se tivessem sido concretizadas. 

Capitulo 26 - O acaso por Poracaso

Eu mal conseguia enxergar o outro lado da minha mesa, de tanta prova que eu tinha para corrigir. Antes mesmo de começar minha empreitada, sabia exatamente o que estaria por vir: 60% de promiscuidades, 30% de amenidades e 10% de profundidade.

Se eu fosse pegar essa estatística e transformar no que os alunos pensam de mim, ficaria assim: 60% me consideravam uma perfeita idiota, 30% me achavam superficial e 10% acreditavam no meu potencial.

Eram esses 10% que faziam valer o meu trabalho e me davam vontade de seguir em frente. Mas confesso que depois de 15 anos fazendo isso, era impossível não se sentir enganada e até não duvidar de sua própria capacidade de discernimento.

Quando eu já questionava minha integridade psíquica, meu telefone tocou e me trouxe de volta à realidade, que apontava para minha sanidade. Era Lucas no telefone:

– Diva de todas as divas?

Respondi rindo:

– Oi, meu querido!

– Gostaria de saber como pude ser alijado de uma história tão curiosa como a sua com a moça do aeroporto? – reclamou ele.

Lucas era um amigo meu e de Bia, o fiel da balança.

– Você não foi privado, acontece que simplesmente não existe uma história – retruquei.

– Não existe porque você não quis! – sentenciou ele.

– Como assim? Claro que quis. Deixei meu e-mail, telefone e tudo! – esclareci.

– Depois de ter furado a fila, darling? – condenou.

– Vocês querem me deixar culpada por causa de uma atitude inconsequente, como se isso tivesse afastado todas as minhas chances de ser feliz – reclamei.

– Não, minha diva, é que soube que a garota era mega interessante, super seu número – falou.

– De fato era, mas parece que eu não era o tamanho dela, porque até hoje nenhum contato foi feito – lamentei.

– E você continua sonhando com o corpo dela? – perguntou ele.

– Quem te disse que eu estava sonhando com o corpo dela? – Respondi.

– Então você não estava? – duvidou ele.

– Vez por outra penso nela, mas não no corpo especificamente – expliquei.

– Sempre esqueço que você é uma intelectual que não liga para os prazeres da carne, somente para aquilo que é consistente, sólido e não derrete! – brincou.

– Ela me pareceu muito interessante, aquele tipo de mulher que não se esgota no primeiro encontro, sabe? – observei.

– Não sei, meu amor, mas imagino. Bem o seu tamanho – disse ele.

– Já nem sei mais qual é o meu tamanho. Faz tanto tempo que não compro roupas – brinquei.

– Engraçadinha! Tá na hora de sair às compras! Mas vê se na hora de pagar não fura a fila! – alfinetou.

– Engraçadinho! – concluí.

Notas finais:

Meninas, agora irei postar um novo capítulo aqui todos os domingos, ok?! Espero que estejam gostando.

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Capitulo 27 - O destino por Poracaso

Escutava rádio enquanto dirigia para a universidade, como fazia todas as manhãs, quando uma notícia me chamou atenção. Um homem, de 42 anos, que passava na calçada da Avenida Paulista, foi atingido na cabeça, por um jarro.

Pensei em quantas pessoas morriam sem qualquer cerimônia. Existem tantas outras formas mais efusivas de fazer a transição. Morrer na contramão atrapalhando o tráfego, se acabar no chão como um pacote flácido, qualquer coisa é mais digna.

Mas o que me fez refletir mesmo foi a crise de agendamento do jornalismo. Não era possível que não houvesse outra notícia para ser dada em lugar daquela.

Comungava da dor da família daquele cidadão, mas, gente, a dor é de cada um. Não tinha uma notícia de interesse comum para ser tratada naquele espaço? Cadê o jornalismo de interesse geral? Era preciso resgatar a democracia do que pautava os meios de comunicação. Não que em algum momento da nossa história essa agenda já tivesse sido democrática, mas, pelo menos, fingia-se melhor.

Morte como aquela sempre teve lugar, mas este lugar limitava-se aos anúncios fúnebres. Os espaços das notícias eram apenas das grandes mortes, aquelas buarqueanas. As mortes pequenas, eram mortinhas, morteúnculas (licença poética).

Morreu, morreu. Não há mais nada a fazer. Você só noticia uma morte quando ela pode transformar seu morto em mártir. Um ciclista que é morto por um motorista irresponsável, que dirigia bêbado e invadiu a ciclofaixa. Uma morte em nome de uma causa. Essa morte, sim, justifica uma notícia.

Pelo sim, pelo não, eu gostaria de permanecer mesmo era viva. Assim como eu estava, ou melhor, como eu estava não, mas viva. Talvez a reflexão do homem com o jarro na cabeça fosse esta. Não a morte em si, mas a vida.

Mudar o jeito que eu levo a vida, talvez fosse fundamental nesse momento.

Por onde eu devia começar?

Abri a porta do carro e saí pensando em como eu podia transformar minha vida em notícia. Não em notícia de jornal, mas em algo que eu mesma quisesse propagar, não pra ninguém, mas que me orgulhasse dela. Sabe aquele pessoal que fica feliz e diz que queria gritar pra todo mundo ouvir? Particularmente, acho super démodé, mas a ideia de felicidade passava por aí e, não posso negar, não sou nenhuma exceção à humanidade.

Dei três passos e uma aluna me interpelou:

– Professora, bom dia. É amanhã que não teremos aula, não é?

Foi quando pensei: de volta à realidade. Nem lembrava mais, mas era verdade.

– É sim. Viajo hoje e só volto amanhã à noite.

– OK. Boa viagem professora!

Capitulo 28 - O encontro (parte II) por Poracaso

Gostava de São Paulo, mas ficava um pouco cansada dos excessos da cidade. Tudo era muito, inclusive o trabalho, 8h de aulas seguidas, uma verdadeira odisseia. Estava louca para voltar para casa, morta de fome, parecia uma retirante fracassada na busca da terra prometida. Fui comprar uma coca-cola e… não é que a noite fez-se dia?


Não podia ser. Era ela. De novo. Pensei em surpreendê-la de forma positiva, dessa vez, romântica, quem sabe. Fui lá e tapei seus olhos, questionando-a quanto à minha identidade. Em vão. Ela não se lembrava de mim e ainda fez questão de reiterar seu mau humor do encontro anterior. Mas nada tiraria a magia daquele reencontro.


Eis, que de repente, ela lembrou meu nome. Citou-me nominalmente e ainda deu início a um diálogo não propriamente amistoso, mas, ao menos, com algumas informações relevantes.


Agora já sabia que o nosso destino era o mesmo. Quero dizer o destino geográfico e não o destino astrológico. Ambas íamos para Recife e, ao que parecia, no mesmo voo. Ainda descobri, meio a contra gosto, o nome dela. Luísa, como a música de Tom Jobim.


Para completar o cenário, chovia copiosamente em São Paulo e não demorou para o espaço aéreo local ser fechado para pousos e decolagens. No check-in da companhia, fui informada que seríamos levados para um hotel em um ônibus e o voo remarcado para o dia seguinte.


O que não tem remédio, remediado está. Procurei Luisa dentro do ônibus, mas não a encontrei. Para a minha surpresa, fui encontrada por ela logo depois, no saguão do hotel.


Ela tentou puxar conversa, mas resolvi dar um gelo nela, enquanto jogava candy crush:  


– Está ocupada jogando candy crush? – cutucou ela.


– Isso. Cada um com suas ocupações – rebati.


– Atrapalho sua concentração se ficar aqui do seu lado? – amenizou.


– À vontade – respondi.


Ela sentou quieta, como uma menina mimada que acaba de ser contrariada.


A recepcionista do hotel nos chamou na mesma hora. Recebemos chaves de quartos praticamente vizinhos. Nesse momento, já comecei a articular alguma forma de diminuir essa distância ainda mais. Subimos juntas no elevador, mas a mulher era dura na queda, nem me deu trela. Bom, pelo menos me desejou boa noite. Já era uma vitória a ser celebrada naquele dia. 

Capitulo 29 - Toc, toc, toc. Será o acaso? por Poracaso

Depois de bolar planos mirabolantes onde eu simulava um incêndio, crise de asma, ataque cardíaco, emergência terrorista, resolvi simplesmente bater. Isso, bater na porta do quarto dela.

E olha, nunca fui tão bem recebida em toda a minha vida num primeiro encontro.

– Gente, você costuma receber as visitas assim? Pelo seu mau humor, imaginava outra coisa, mas, não posso negar que, apesar de surpresa, estou satisfeita – eu disse, olhando para ela só de calcinha e sutian.

– Ai, meu Deus! Desculpe. O que você quer? – falou ela, se enrolando apressada no lençol da cama.

Sem conseguir conter o riso, eu disse:

– A minha TV não pega, queria saber se a sua está funcionando – expliquei, tentando parecer minimamente convincente.

– Não sei, ainda não liguei – justificou ela, sem me chamar para entrar.

Tive que pensar rápido para não perder a viagem, então disse:

– Posso ver? É que não consigo dormir se a TV não estiver ligada.

Ela olhava para mim visivelmente descrente, mas eu definitivamente não podia perder aquela oportunidade. Então, enquanto ela pensava em um fora para me dar, eu fui logo entrando e me pus em frente à TV.

– Bom, vou tomar um banho – anunciou ela, sem saída.

– A sua TV está funcionando! – comemorei me esforçando para parecer surpresa, já que a minha também estava, mas ela não precisava saber.

– Aproveite aí então – avisou ela.

Atendendo a pedidos, sentei no chão e abri um chocolate que encontrei em cima do frigobar.

Quando ela saiu do banho, me pegou assistindo Discovery. Adoro programas de animais. Não pude deixar de perceber que ela estava só de toalha. Assim, não tem programa de natureza que contenha minha natureza selvagem. Ela voltou ao banheiro e reapareceu de roupão.

Sentou ao meu lado e assistiu ao programa comigo até o final.

Depois, emendamos uma conversa sobre o meu trabalho e valores, assim pude mostrar para ela um pouco do que eu fazia e tirar a má impressão da primeira vez.

Não queria me deixar vencer, mas o cansaço parecia querer me pregar uma peça. Ela parecia estar perdendo as restrições em relação a mim. Não todas, mas algumas. Era visível que ela estava baixando a guarda e começava, enfim, a olhar pra mim como uma possibilidade.

Eu estava concluindo um pensamento sobre a formação do povo brasileiro, citando Darcy Ribeiro, quando ela estendeu a mão para afastar o meu cabelo, que caía nos olhos.

Fiquei tão surpresa que não soube o que fazer, então encarei ela e disse:

– Estou falando demais não é? E você aí, morrendo de sono! – conclui.

– Estou adorando a conversa, mas realmente o sono está prestes a me vencer – disse ela.

– Você fica bem melhor simpática, sabia? – perguntei.

– Hum, vou encarar como um elogio – disse ela.

– É um elogio. Mas bom, vou indo para deixar você dormir – sentenciei, sem saber direito se isso era a melhor coisa a fazer.

– Boa noite – despediu-se ela me dando um beijo no rosto.

Quando ela fechou a porta atrás de mim, quis bater lá novamente e beijá-la ardentemente. Mas não queria estragar tudo, então fui para o quarto e me joguei na cama. Ai, como era bom aquele frisson, aquele clima de conquista. Tirei a roupa e me toquei pensando nela. Pude sentir meu corpo reagir de novo a alguém. Estava de volta ao mundo dos amantes.  

Liguei a televisão, que, para o caso de eu ser inquerida, diria que voltara a funcionar de repente, mas não prestei atenção a nada, só pensei que aquela mulher era diferente. Não diferente como a gente acha que todas são e como realmente são, mas diferente na forma como deve ser tratada. Ela era misteriosa, parecia que trazia em si uma profundidade desafiadora.

Capitulo 30 - Apertem os cintos por Poracaso

Acordei às 4h55 da manhã com o telefone tocando. Era a recepcionista, avisando que o ônibus da companhia aérea passaria no hotel às 8h para levarmo-nos para o aeroporto e que todos deveriam aguardar no saguão após o café da manhã. Olhei o relógio e maldisse a moça do telefone antes de programar o celular para mais 30 minutos de sono. Mas os pensamentos da noite anterior não me deixavam dormir mais nem um minuto, nem eu queria que deixassem.

Resolvi agir. Tomei banho, me vesti e fui até o saguão do hotel. Briguei com a máquina de refrigerante e consegui fazer com que ela cuspisse uma lata de chá gelado de limão para mim.

Fui até o quarto dela e bati na porta. Quando ela abriu, entreguei-lhe o chá e disse:

– Bom dia! Dormiu bem?

– Pouco, mas bem. E você? – retribuiu

– Ai, desculpa, fiquei conversando e não deixei você dormir – me desculpei, estendendo-lhe a lata de chá.

– Não foi você, a conversa estava ótima – disse ela, tomando um gole de chá.

– Vim buscar você para tomar café – convidei.

– Tá. Deixa só eu pegar minha mala.

Enquanto ela entrou no quarto, aproveitei para puxar assunto:

– Estava pensando…o que eu já posso saber no quinto encontro?

– Pode perguntar se eu gosto que chá – autorizou ela.

– Aí não vale. Tudo que eu sei, descobri sozinha, com meu próprio esforço – reclamei – Me diz uma coisa, isso tudo é desconfiança? Você acha que sou uma serial killer ou uma louca obcecada que persegue as pessoas no aeroporto? – perguntei.

Ela parou na minha frente e respondeu:

– Digamos que eu seja uma pessoa precavida.

E difícil, pensei comigo mesma.

– Não sei nem como você aceitou o chá. Trouxe, mas tinha certeza que você ia jogar fora, achando que eu queria te envenenar – disparei.

– Também não é assim, vai. E vamos embora senão vamos acabar nos atrasando – apressou.

Atraso era uma palavra que não constava no vocabulário da nossa companhia aérea. Passamos mais 12h no aeroporto, tempo suficiente para eu escrever um artigo quase todo e passar por umas 10 fases de Candy Crush, até decidirem que embarcaríamos.

Quando entrei no avião, percebi que estávamos afastadas por umas dez filas. Não podia passar 3h no mesmo lugar que Luísa sem estar junto dela. Fui até o assento dela e me dirigi à sua vizinha:

– Senhora, se não se importar poderia trocar de lugar comigo? Estou a dez filas daqui, também no corredor. É que minha prima, que está ao seu lado, tem uma estranha síndrome que a acomete de desmaios súbitos, precisando de cuidados especiais. Seria possível realizar a troca? – relatei.

A mulher comovida ou amedrontada, não sei, prontamente respondeu, já de pé:

– Sim, claro.

– Muita gentileza da sua parte, senhora – respondi gentilmente.

Acomodei-me no meu novo assento sob o olhar de Luísa, que não sabia se ria ou se me repreendia. Assim que decolamos, ouvi:

– Bom, agora temos três horas para conversar – ofereceu.

– Estou à sua disposição – aceitei. Ao mesmo tempo que cuidei:

– Na verdade, acho que você podia aproveitar esse tempo para dormir. Está cansada e eu culpada por ter te alugado a noite passada – sugeri.

– Nunca consigo dormir direito em avião. É desconfortável e frio – reclamou.

– Deixa eu ver o que podemos fazer para aliviar seu sofrimento – falei.

Levantei o braço da cadeira que separava o meu assento do dela e providenciei um cobertor e um travesseiro. Apoiei o travesseiro em minhas pernas e convidei ela para que deitasse em meu colo. Ela deitou, obediente, e, pela primeira vez, não reclamou de absolutamente nada.

Comecei a alisar os cabelos muito pretos dela. Eram tão lisos e macios que escorregavam entre meus dedos. A tocava enquanto contava sobre a palestra intitulada “A origem do jeitinho brasileiro” que tinha ido dar numa Universidade em São Paulo há uns anos.

Ela disse que estava enjoada e espirrava sem parar. A solução foi então a combinação de um remédio para enjoo e um antiestamínico para alergia o que, claro, teve como resultado, sono. Pelo menos, foi no meu colo.

Notas finais:

Perdão pelo atraso desse capítulo, meninas. 

Mas aproveitando: Feliz Ano novo pra!!! Que bom entrar em mais um ano aqui com vocês. Um 2018 com muito amor!

Capitulo 31 - Se acaso me quiseres... por Poracaso

Aquela combinação de medicamentos a deixou completamente entregue. Era a minha chance de mostrar que meu caráter, definitivamente, não estava atrelado a uma simples furadora de filas. Fui procurar um táxi, até que Luisa disse que havia deixado seu carro no estacionamento do aeroporto.

Duvidei um pouco, não sabia se devia levá-la em consideração naquele estado de torpor. Só me convenci quando ela me mostrou a chave do carro e o cartão do estacionamento. Fui pagar o estacionamento e, quando voltei, Luisa estava sentada no meio fio, dormindo com a cabeça entre os joelhos. Acordei ela para que me dissesse onde havia estacionado carro. A partir das informações inconsistentes, consegui achar o veículo e convencê-la a deixar-me dirigir. Ela passou para o banco do carona e nem esperou que eu ligasse o carro, dormiu imediatamente.

Como não sabia onde ela morava e àquela altura achava que não valia a pena acordá-la, decidi que o melhor era levá-la para minha casa. Sem parecer muito consciente de suas ações, ela caminhou até o elevador e deitou em minha cama onde tornou a dormir profundamente. Tirei a roupa dela de modo a deixá-la mais confortável, mas não toquei nas peças íntimas. Coloquei uma camiseta minha para que não ficasse com frio nem com vergonha quando acordasse.

Preferi me acomodar no sofá da sala para não correr qualquer risco de ser acusada de assédio ou ter, de alguma forma, meu caráter questionado mais uma vez. Acabei cochilando também.

Acordei com Luisa gritando no quarto. Sai correndo e quando cheguei lá, ela me olhava assustada. Sentei na cama, envolvendo-a nos meus braços.

– Ei, está tudo bem. Você estava com muito sono e como não sabia onde você morava, te trouxe para minha casa – expliquei.

Ela então, de olhos fechados, passou a mão pela gola da camisa.

– Não quis mexer na sua mala, então tirei sua roupa, mas não toquei nas roupas íntimas – frisei – e coloquei uma blusa minha para ficar mais confortável.

Antes mesmo que eu pudesse acabar de falar, ela dormiu de novo.

Voltei para o sofá e liguei a televisão. Mais um pouco e outro grito. Peguei um copo d’água e corri para o quarto novamente. Sentei ao lado dela e ela me abraçou muito forte.

– Foi só um sonho ruim. Está tudo bem. Estou dormindo na sala, qualquer coisa é só chamar – acalmei.

– Fica aqui comigo, por favor?! – ela disse assustada.

– Tá bom – atendi, deitando meio sem jeito ao lado dela.

Assim que deitei, ela sentou na cama e resmungou:

– Tenho que ir. Tenho uma reunião.

Eu estava caindo de sono, mas lembrei que tinha que ser paciente:

– Meu bem, você está morrendo de sono. Não tem reunião nenhuma, são 3h20 da manhã e é sábado. Eu estou aqui com você. Vem dormir – chamei, segurando ela pelos ombros, cobrindo-a com o edredom.

Dormi mal, preocupada com ela ao meu lado. Com medo de tocá-la e ser mal interpretada, sei lá. Acordei às 8h e sai devagarzinho da cama. Preparei o café da manhã, mas fiquei esperando mais um pouco para acordá-la. Ela tinha tido uma noite particularmente difícil e achei que merecia descansar um pouco mais.

Às 10h, fui até o quarto com uma bandeja com um café da manhã variado, a alternativa que encontrei por não saber do que ela gostava, além de chá e pizza.

Ao me ver, ela virou para o lado e fez que ia dormir novamente:

– Se você comer, prometo que te deixo dormir – sentenciei.

Como se tivesse acabado de voltar da mais insólita localidade deste planeta, ela devorou todos os víveres e quando perguntei se queria mais alguma coisa, ela respondeu:

– Quero fazer xixi.

Parecia uma menina travessa, suplicando por mais 5 minutos de brincadeira. Apontei para o banheiro e avisei que havia separado uma escova de dentes para ela.

Quando ela voltou do banheiro, enfiou-se novamente embaixo do cobertor. Eu então achei melhor deixá-la sozinha para que pudesse voltar a dormir conforme combinado. Ela então disse:

– Você devia aproveitar e dormir um pouco. Sei que atrapalhei seu sono durante a madrugada. Olha, queria te dizer que não sou sempre assim, mas acho que os acontecimentos me deixaram tensa.

– Meu bem, não estou nem um pouco preocupada com isso. Se você for assim, por mim não tem problema, vou estar aqui do seu lado. E se não for, também estarei igualmente aqui – declarei tranquilizadora.

Ela agradeceu, envergonhada.

Pisquei o olho e disse:

– Agora dorme, que você ainda tem tempo.

Fui para sala e deixei-a dormir. Entrei no quarto algumas vezes para checar se estava tudo bem, mas ela parecia tranquila. Peguei o telefone e liguei para Bia. Quando ela atendeu fui logo dizendo:

– Bia, ela está na minha cama, alguma recomendação especial?

– Quem está na sua cama sua doida? Isso é jeito de ligar para alguém? – reclamou ela.

– Luisa. Desculpa. É que é uma emergência – expliquei.

– Quem diabos é Luisa, Carol? – perguntou ela.

– A garota da fila, no aeroporto, lembra? – perguntei.

– Gente, e eu pensando que você tava em São Paulo, dando aula! – brincou.

– Eu estava, mas encontrei com ela no aeroporto de novo – falei. – Bia, me ajuda! – pedi.

– Você me pedindo conselho sobre o que fazer na cama com alguém? Você sabe muito bem o que fazer Carol, até melhor do que eu – disse ela. – Ah, outra coisa, o ideal é que você não fure a fila – riu ela.

– Ai, Bia, fala sério! Ela só dormiu aqui. Não aconteceu nada – disse.

– Carol, não precisa mentir pra mim. Esqueceu que fomos casadas. Eu te conheço! – falou.

– Não estou mentindo, é verdade – tentei.

– E por que ela foi dormir na sua casa? Não tem hotel nessa cidade não? – disse.

– É uma longa história Bia, depois te explico. Me diz só se você tem alguma recomendação – consultei.

– Vai com calma, que pelo seu interesse, parece que essa garota pegou você de jeito. Vê se não estraga tudo e boa sorte aí! – desejou ela.

Fui ao quarto ver como ela estava. Ela estava tão linda dormindo que deitei ao lado dela e, não sei por quanto tempo, fiquei observando-a dormir. Quando ela acordou, sorriu ao me ver olhando para ela.

– Você deve estar aí pensando: que mulher folgada essa que tá alugando minha cama há horas – disse ela.

– Pode ficar o quanto quiser. Só estava olhando você dormir – falei. Tá com fome? Tá quase na hora do jantar – disse, olhando o relógio.

– Meus Deus! Tenho que ir – apressou-se. – Posso tomar um banho? – perguntou.

– Claro. Já separei uma toalha para você. Está pendurada na porta do box – disse.

Enquanto ela estava no banho, fui até a varanda respirar um pouco. Meu celular tocou, era Bia perguntando como eu tinha me saído.

– Não me sai desse jeito que você está pensando. Mas acho que estou no caminho certo – falei.

– Então continue assim. Não se atropele e nem atropele ela – aconselhou.

Tinha acabado de desligar o telefone quando Luisa apareceu enrolada na toalha:

– Tá precisando de alguma coisa?

– Essa situação é um pouco constrangedora, mas gostaria de saber onde estão minhas roupas – perguntou.

– Vamos lá achar as roupas da Bela Adormecida – brinquei.

Abri meu guarda-roupa e apontei para as roupas dela penduradas.

– Obrigada! –disse.

– Espero que você tenha a consciência que eu podia ter confiscado suas roupas – ameacei.

– Sim, eu tenho. E agradeço desde já por não tê-lo feito, pois causaria um grande prejuízo à minha reputação – brincou ela.

– Estou à sua disposição – disse.

Ela passou as mãos nos cabelos para desembaraçá-los. Fui pegar um pente para ajudá-la. Quando voltei, ela estava forrando a cama. Aproveitei então para pentear os cabelos dela. Quando acabei, ela olhou para mim e disse:

– Não sei nem como agradecer.

– Não agradeça. Vou descer com você para te mostrar onde está o seu carro – disse.

Enquanto descíamos no elevador, rimos da forma como eu tinha penteado o cabelo dela.

– Tá linda, com cara de menina comportada! – eu disse.

Quando chegamos a frente ao carro dela, eu disse:

– Você é uma mulher encantadora. Não esconda isso. Nem todo mundo quer te machucar. E se for o caso, lembre-se de Vinícius de Moraes: “Porque a vida só se dá. Pra quem se deu. Pra quem amou, pra quem chorou. Pra quem sofreu” – disse.

– Prometo que vou lembrar – disse ela, me abraçando com força, assim como fez na noite anterior.

Por um momento, senti medo de nunca mais tê-la assim tão perto.


Capitulo 32 - O perdão do poeta por Poracaso

Subi de volta para o meu apartamento e liguei para Bia. Precisava de uma opinião abalizada e distante da situação. Depois de contar em detalhes tudo que havia acontecido nas últimas 24 horas, ela saiu com a seguinte pérola:

– Meu bem, você sabe que quero muito ver você feliz. Acho que você está encantada com essa moça. Só não sei se o que te encanta é o mistério, a dificuldade ou se é tudo.

– Você acha que tudo isso vai acabar quando formos para cama? – perguntei a ela.

– Talvez. É uma possibilidade. Mas pode ser que não – disse.

– Ai, Bia, não sei, mas me vejo em outra fase. Estou  cansada de estar só, pulando de galho em galho. Desde que acabamos nunca mais me prendi a ninguém. – resumi.

– Eu entendo. Também acho que hoje você está mais madura. Talvez essa garota venha para colocar sua vida nos eixos novamente – sentenciou. – Mas isso só o tempo vai dizer.

– É que ela é tão especial, encantadora, diferente sabe? – eu disse.

– Sei – disse ela.

– Parece uma menina que precisa de colo, que precisa ser cuidada – expliquei.

– Carol, sabe o que eu acho? Que você está apaixonada por essa garota – disse ela.

– Será? – perguntei.

– Humhum – riu ela.

– Não sei se é paixão, mas que faz bastante tempo que não sinto essa sensação, faz – ponderei.

– Então, não deixa ela escapar – falou.

– O pior é que nem tenho o telefone dela – lamentei.

– Meu bem, ela sabe onde você mora. Se tiver que ser, vocês vão se encontrar mais cedo ou mais tarde – tentou me acalmar.

– Ela não me parece o tipo de mulher que bateria em minha porta – diagnostiquei.

– Se ela quiser você, tenha certeza que vai encontrar um jeito – falou.

Quando desliguei o telefone, deitei no sofá e fiquei imaginando como seria nosso próximo encontro. Até o momento, eles tinham sido completamente casuais, quase novelescos. Me incomodava ter que contar com o destino, algo tão fora do controle. Tudo bem que eu gostava de ser surpreendida, de quebrar regras, mas esta ansiedade não me deixava confortável.

Meu estômago roncou como se quisesse me avisar que paixonites não sustentam o corpo de pé. Então, levantei e fui cozinhar uma massinha para jantar.

Enquanto esperava a massa cozinhar, abri um vinho e coloquei uma música.

O sinal de mensagem do meu celular me trouxe de volta à realidade:

“Oi, tomara que não esteja atrapalhando. Queria poder agradecer pela noite de ontem”.

Quis responder no mesmo instante, mas não sabia direito o quê. Demorei pensando:

“Já disse que não precisa agradecer. Foi um prazer. Posso considerar que tenho seu telefone agora?”

Ao contrário de mim, a resposta foi imediata:

Pode sim.

Diante de tamanha agilidade, tratei de discar o número dela.

– Oi – atendeu ela, parecendo descontraída.

– E ai? – perguntei, sem saber direito o caminho que devia dar àquela conversa.

– Aqui – respondeu ela, como se também não soubesse para onde ir.

– Está fazendo o que? – perguntei, tentando ser mais objetiva e acabar com aquele impasse.

– Estava escrevendo um relatório, mas agora vou ver um seriado, já que esgotei todo o meu sono ao longo do dia – explicou.

– Pois é, eu também acabei pegando carona no seu sono e agora estou super acordada. Vai assistir o quê? – quis saber.

– The Good Wife – disse.

– Sério?! Estou na quinta temporada e você?

– Na terceira ainda. Mas quem diria, temos uma antropóloga viciada em séries de TV americanas!

– Todo mundo tem seu ponto fraco – justifiquei.

– Bom, se você não se incomodar de rever, está convidada para assistir, comentar aos olhos dos estudos sociais e comer um carpaccio – convidou.

– Só vou se puder não tecer quaisquer comentários teóricos, apenas passionais, mas o carpaccio, esse eu prometo comer com prazer – aceitei, enquanto ajeitava meu cabelo com as mãos de modo sensual, como se ela pudesse me ver.

– Então venha, que a sessão vai começar – avisou.

– Você vai me dar o endereço ou vou ter que usar tudo que aprendi na série outra vez para descobrir onde você mora? – desafiei.

– Ah! Então quer dizer que foi The Good Wife que ensinou você a descobrir identidades? – quis saber.

– Descubro utilidade em tudo – expliquei.

– Eu moro a 5 minutos da sua casa. Anote ai – disse.

– Dá para ir a pé. Só não vou por causa da hora – falei.

– Espero você então! – disse.

Desliguei o fogo e fiquei andando em círculos pela cozinha, sem saber para onde ir no meu apartamento de 30 metros quadrados. Corri para o banheiro, tomei um banho e saí.

Quando cheguei ao apartamento dela, fui anunciada pelo porteiro e conduzida até o elevador social. Subi me olhando no espelho para ver se estava tudo em ordem. Toquei a campainha. Ela abriu a porta e me cumprimentou com dois beijinhos no rosto.

Ela me acomodou no sofá e me ofereceu uma taça de vinho, que eu aceitei. Colocou um pouco para ela também, mas logo abandonou o álcool e o trocou por chá. Ela morava num loft de muitíssimo bom gosto, extremamente bem decorado, ao melhor estilo minimalista.

Ela foi até a cozinha e voltou pondo o carpaccio em cima da mesa e um episódio de The Good Wife. Vimos cinco episódios seguidos e eu bebi toda a garrafa de vinho. Não levantei com medo da gravidade me jogar de volta pro chão. Embora não parecesse embriagada, sentia meu corpo querer levitar e a última coisa que eu queria era sair dali voando.

Foi ficando tarde e ela me convenceu a dormir na casa dela. Na verdade, não foi um trabalho de persuasão dos mais complicados, tendo em vista as circunstâncias. O quarto dela ficava na parte de cima do apartamento, um mezanino moderno, que se revelou um desafio para mim depois de uma garrafa de vinho. Ela me entregou uma camisa e uma escova de dente.            Lembro vagamente de ter escovado os dentes, mas daí pra frente minha memória me traiu.

Só me recordo do que aconteceu a partir das 5 da manhã, quando levantei para ir ao banheiro. Olhei no espelho e me dei conta que estava seminua, apenas de calcinha e com uma camisa. Será que tinha acontecido alguma coisa e eu não lembrava? Que vexame! Uma fura fila bêbada. Acabara de jogar minhas chances pela janela. Quando voltei para cama, ela perguntou:

– Está tudo bem?

– Desculpa, eu não sou de ter esse tipo de comportamento. Eu só estava sem saber como agir, ainda estou, eu acho.

– Meu bem, não estou preocupada com isso. Quero só saber se você está bem – tranquilizou ela, me abraçando.

Pude sentir o cheiro dos lábios dela. E se já era impossível resistir a eles, àquela distância a dificuldade aumentava consideravelmente. Beijamos-nos. As mãos dela percorriam minha nuca e minhas costas. Eu segurava sua cintura em busca de uma resposta sobre até onde podia ir.

O desejo me respondeu, eu enfiei a mão por dentro da blusa dela e toquei seus seios. Eles estavam rígidos. O bico do peito dela parecia querer romper a barreira da blusa. Apertei-os entre meu indicador e o polegar e ela gemeu. Desci a mão direita por dentro do short dela e senti o seu sexo molhado. Deixei meu indicador escorregar por todo o seu clitóris por várias vezes, enquanto mordia o bico do peito dela com força. Senti o corpo dela tremer. Então, penetrei a vagina dela com toda a minha mão, sentindo-a gozar. Virei ela de costas, segurando-a pelos cabelos e a penetrei. O corpo dela estava mole, entregue, e ela gemia alto, mexendo os quadris da forma mais excitante que já vi. Aquele balanço fazia com que minha mão entrasse mais no corpo dela. Deitei por cima do seu corpo e gozei com o movimento dos quadris dela, fazendo com que meu líquido escorresse pelas minhas pernas, se misturando ao dela. O estado de êxtase aumentava com as palavras que ela me dizia. Ouvi o que jamais imaginei ouvir daquela boca.

O corpo dela sossegou na cama e ela pôs a mão para trás, em busca do meu sexo. Virou-se de frente para mim e mordeu meu pescoço, desceu lambendo meu colo até chegar em meu peito, chupando-o devagar. Continuou o percurso atingindo meu sexo, percorrendo todo o meu clitóris, até me penetrar. Gozei na boca dela. Ela levantou a cabeça com o meu gozo escorrendo pelos lábios, os lambeu e beijou minha boca. Aquela cena me fez gozar outra vez. Usou as mãos para puxar meu clitóris, me fazendo gritar. Virou-me de costas e deitou sobre mim, roçando seu sexo na minha bunda e mexendo os quadris até gozarmos juntas. Não sei ao certo quanto tempo durou, mas ao final parecíamos ter saído vitoriosas de uma guerra particular, onde lutávamos de um mesmo lado. Dormimos coladas pelo suor, pelos nossos líquidos e pela vontade.

Quando acordei, procurei-a na cama, mas ela não estava. Apesar disso, pude sentir seu cheiro e o cheiro do nosso sexo por toda a parte. Confirmei que aquilo não era um sonho. Senti um frio na barriga que há anos não sentia. Ri sozinha de felicidade.

Vesti a camisa que ela tinha me emprestado e desci as escadas à procura dela. Estava sentada no sofá da sala, debruçada no computador. Abracei-a por trás e beijei-lhe o pescoço, dizendo:

– Bom dia.

Ela me puxou para perto dela no sofá e encostou a cabeça no meu ombro como um gato. Beijou minha boca e respondeu:

– Bom dia.

Enquanto ela digitava, perguntei em tom de brincadeira:

– Será que depois dessa noite de vexame e de um início de manhã avassalador, eu posso saber quem você é?

– Avassalador? – quis confirmar ela.

– Completamente avassalador – confirmei, roubando-lhe um beijo.

Ela então esticou o braço até a bolsa, pegou um cartão de visita e me entregou.

No cartão, eu li:

“Luísa Medeiros de Mendonça, advogada especialista em Direito de Empresas. Mendonça e Carreiro – Advogados Associados”

– Isso é aquele escritório enorme que fica na avenida? – perguntei.

– Umhum – respondeu.

– Gente! Que mulher poderosa eu fui arrumar! – Brinquei.

– E você? – quis saber ela.

Fiz a mesma coisa. Peguei um cartão de visita e entreguei-lhe.

– Maria Carolina Cavalcanti Ferraz, professora Dra. Em Antropologia do Comportamento, Professora Titular do Departamento de Antropologia. Doutora? – perguntou.

– Sei que não é lá grande coisa, mas a tese é razoável, se quiser ler depois… – disse rindo alto.

– Claro que quero ler! – disse animada.

Afastei-me para atender meu telefone. Era Bia, que queria passar lá em casa para pegar algumas coisas de Bob, nosso gato, que ainda estavam por lá. Então, eu disse que não estava em casa, mas que ela podia pegar a chave no lugar de sempre e levar o que quisesse.

Percebi claramente que Luisa havia ficado desconfiada com o telefonema. Então eu quis puxar assunto.

– O que você pretende fazer hoje? – perguntei.

– Nada – disse, tentando, sem sucesso, disfarçar o aborrecimento por causa da ligação.

Não queria que absolutamente nada estragasse aquele início de história. Então me sentei ao lado dela, na beira do sofá e disse:

– Eu desconfio o que tenha feito você ficar assim, mas não tenho certeza. Quem acabou de ligar para mim foi minha ex. Tive um relacionamento que durou quatro anos e acabou há um ano. Tínhamos um gato, ou melhor, quando a conheci ela já tinha o Bob…

– Olha, não precisa me dar satisfação da sua vida, dos seus relacionamentos – disse ela numa mistura de embaraço e raiva.

– Eu sei que não preciso, mas eu quero – respondi pacientemente. Sendo assim – continuei – quando nos separamos, Bob ficou comigo até que ela encontrasse um local para ficar. Agora ela encontrou e levou o Bob semana passada, mas algumas coisas dele ainda estão lá em casa e ela precisa pegar. Só isso – concluí.

– OK – respondeu ainda mal humorada.

– Bom, quero deixar claro que não quero machucar você e que, embora não saiba o que aconteceu com você antes, as pessoas são diferentes, os comportamentos não são padronizados. E independente do que acontecer com a gente daqui pra frente, eu gosto de você, não quero te fazer mal. Entendo a sua desconfiança, mas precisa me conhecer para confiar em mim e se não me deixar entrar na sua vida, não vai poder me conhecer.

– OK – respondeu com desdém.

Sem saber direito como agir, percebi que era melhor deixar ela sozinha para pensar. Então subi, tomei um banho e quando voltei fui beijar-lhe a boca e ela virou o rosto. Então eu disse:

– Olha, eu vou estar em casa o dia todo esperando você ligar. Podemos jantar, assistir filme ou fazer qualquer coisa que você queira – eu disse sem saber se aquilo era atitude de uma menina mimada ou de uma mulher machucada.

– Tá bom – respondeu ela olhando nos meus olhos.

Fui embora insegura. Logo eu, sempre tão dona de mim, me vi numa situação especialmente particular. Estava nas mãos dela, completamente ao seu dispor.

Notas finais:

Um capítulo cheio de informações, mas a história dessas duas ainda não acabou. Espero que estejam gostando, meninas! 

Beijos!

Capitulo 33 - Porque a vida só se dá pra quem se deu por Poracaso

Já era noite quando meu telefone tocou. Atendi com saudades.

– Meu bem, como está você? – quis saber.

Sempre achei essa conversa de dia seguinte a mais difícil de todas. Só perdia para a de fim de relacionamento.

– Tudo bem. Olha, queria te pedir desculpa por hoje – disse ela.

– Não tem porque se desculpar. Só quero que saiba que se quiser conversar, estou aqui – me coloquei à disposição.

– Tá, obrigada. Vai fazer o que hoje à noite? – desconversou.

– Estava esperando você ligar para saber – eu disse.

– Estou cansada, não sei se quero fazer nada – disse ela, arredia.

– Quer vir assistir seriado aqui em casa?- convidei.

– Pode ser. Eu levo o jantar, ok? – sugeriu.

– Combinado. Até mais tarde – disse.

Às 20h, ela chegou.

– Boa noite, senhorita – disse, ao abrir a porta.

– Boa noite. Vim trazer seu jantar – brincou ela.

– Por que eu não pedi comida neste restaurante antes? Se a comida for do nível da entregadora… – respondi, em tom de brincadeira.

Ela riu me entregando a embalagem de alumínio que tinha nas mãos.

– Trouxe gnocchi, espero que goste – disse ela.

– Adoro, mas prefiro você – disse, puxando ela pela cintura e beijando-lhe a boca.

A partir daí, nós duas relaxamos. O jantar foi super agradável e depois fomos para o sofá assistir Grey’s Anatomy, por escolha dela.

Abri o sofá para ficarmos mais confortáveis. Ela então, confirmando sua vocação para gato, sentou entre as minhas pernas, apoiando as costas em meu peito.

Estávamos tão cansadas da madrugada movimentada que cochilamos assistindo à tevê. Acordei algum tempo depois sem conseguir me mexer, com o corpo todo doído por causa da posição. Luísa dormia em meu peito, o que me impedia de fazer qualquer movimento. Tive que acordá-la para irmos para o quarto.

– Vou para casa – disse ela.

– Por quê? Já está tarde e eu queria que você ficasse – pedi.

– Amanhã eu trabalho – respondeu.

Vendo que ela não estava convicta do que dizia, puxei a blusa dela e rolamos pelo chão da sala. Transamos ali mesmo, sem fazer questão de qualquer conforto. Quando acabamos, ela disse:

– Você foi convincente nos argumentos usados para eu não ir embora – disse, muito séria.

– Fui, é? Posso continuar tentando se você quiser… – falei.

– Queria ficar, mas trabalho amanhã – explicou ela.

– Que horas você trabalha? – perguntei.

– Tenho uma audiência às 15h, mas preciso passar no escritório para colocar as coisas em ordem antes e ainda tenho que ir em casa para trocar de roupa – disse ela.

– Acordamos cedo e você passa em casa e depois vai para o escritório. Dá tempo – planejei.

– Então coloque o despertador para não perdermos a hora. Não posso me atrasar – pediu.

Levantei rápido e fiz o que ela pediu.

Fomos de mãos dadas até a minha cama e deitamos de conchinha.

O despertador tocou às 8h no dia seguinte e acordei rapidamente, com medo que ela perdesse a hora. Mas ficamos na cama até que não fosse mais possível.

Quando ela foi embora, voltei para cama e dormi mais um pouco para recuperar as energias. Acordei no final da manhã e saí para comer alguma coisa.

No final da tarde, liguei para Luisa. Ela atendeu ofegante:

– Tá cansada? Atrapalhei alguma coisa? – perguntei, desconfiada.

– Não. Eu tô correndo no parque – explicou.

– Ah! Então eu ligo depois – sugeri.

– Não, pode falar – insistiu.

Perguntei sobre a audiência e sobre o dia dela. Ela me deu algumas explicações técnicas como resposta, as quais, obviamente, não entendi. Então, me limitei a perguntar:

– Você ficou satisfeita com o resultado?

– Muito satisfeita – disse ela.

– Pronto, era isso que queria saber. Na verdade, não só isso…vai fazer o que hoje? – perguntei.

– Vou ter que trabalhar numa petição complicada que tenho que entregar amanhã sem falta – disse ela.

– Bom, então só me resta dormir – lamentei.

– Desculpe, meu bem! – falou.

– Tudo bem, vou me entregar aos seriados – concluí.

Capitulo 34 - Vem cá, Luisa por Poracaso

Tentei ficar em casa quieta, mas minha cabeça estava com Luisa. Então…

Ela abriu a porta logo depois que toquei a campainha.

– Oi! Trouxe alguma coisa para você comer – disse, com a marmita na mão.

– Como você subiu sem ser anunciada pelo porteiro? – perguntou ela, parecendo contrariada.

– Desculpe. Posso ir embora – falei envergonhada.

– Não. Só achei estranho – disse ela me convidando para entrar.

– Você pareceu incomodada com a minha presença. Posso ir embora, sem problema, se você preferir – disse eu, sem saber direito o que fazer.

– Não, meu bem. Desculpa, de verdade. Só sou meio desconfiada mesmo – esclareceu.

– Eu disse ao porteiro que era uma surpresa e como ele já me conhece…me deixou subir – expliquei.

– Tudo bem. O que vamos comer? – descontraiu.

– Sushi! – anunciei animada.

– Você adivinha pensamento, é? – perguntou ela, parecendo uma criança trelosa.

– Me esforço – respondi vaidosa.

Comemos, conversamos, mas fui botada para fora antes da meia noite, como se o encanto fosse acabar. Depois desse dia, nos falamos durante a semana, mas não nos vimos. Eu preferi não surpreender outra vez para não parecer invasiva. Me contive, mas confesso que quase morri de saudades.

Não sei se ia aguentar esse jogo duro por muito tempo. Desejava o corpo dela todas as noites e a presença dela o tempo todo. Sentia saudade até de ouvir a voz dela.

Até que no sábado eu fui surpreendida. Estava com Bia em meu apartamento quando a campainha tocou. Eu estava no banheiro e Bia encarregou-se de abrir a porta. Como o porteiro não havia anunciado a chegada de ninguém, não dei muita atenção ao visitante por achar que fosse algum dos empregados do prédio.

Até que fui chamada por Bia

– Carol, acho que é pra você! – anunciou.

Quando vi Luisa na porta, puxei-a imediatamente para dentro. Ela tinha um pacote de pipoca de microondas e uma caixa de DVD nas mãos e olhava para Bia desconfiada, quando esta falou:

– Ah! Então você é a famosa Luisa?

– Sou Luisa, mas não acho que seja famosa – disse sem muita simpatia.

– Pois saiba que seu nome é o mais pronunciado dentro dessa casa – disse Bia com muita simpatia.

Ela sorriu satisfeita, mas ainda parecia incomodada com a situação. Passei o braço pelo ombro dela, com a intenção e deixá-la mais segura e beijei seu rosto.

Bia, que também pareceu perceber o incômodo de Luisa diante de sua presença, disse:

– Carol não fez as honras da casa, mas eu sou Beatriz, muito prazer – apresentou-se estendendo a mão.

Ela apertou-lhe a mão e então Bia despediu-se, dizendo:

– Você continua com bom gosto! – apontando para Luisa.

Me despedi de Bia, que havia ido pegar um pacote de ração e a cama de Bob.

Assim que Bia deu as costas, Luisa explodiu jogando o pacote de pipoca na mesa:

– Acho que não devia ter vindo, vou embora – falou, indo em direção à porta.

Tentei detê-la segurando-a pelo punho.

– Me solte! – falou ela, olhando para a minha mão que segurava seu braço.

Eu não podia perder a calma, que isso visivelmente a deixava acuada e insegura. Também não tinha a intenção de deixá-la com medo:

– Meu beeeem, não faça assim não. Você veio porque queria me ver. Bia veio pegar as coisas de Bob, sobre as quais já tínhamos conversado – expliquei.

– Não entendi que isso significava que encontraria sua ex abrindo a porta da sua casa com tamanha desenvoltura – retrucou.

– Meu bem, eu estava no banheiro quando a campainha tocou – disse, soltando a mão dela.

Parecia, no entanto, que as minhas explicações não estavam sendo convincentes, pois ela continuou caminhando firme em direção à porta de saída. Então resolvi ser mais objetiva:

– Olha, estou te dizendo que a minha história de amor com Bia acabou, continuamos amigas, mas a mulher que eu quero é você – declarei olhando nos olhos dela.

– E ela continua abrindo a porta da sua casa? Daqui a um mês, quando eu chegar aqui, ela vai abrir a porta de calcinha? – provocou.

Mesmo aborrecida, ela ficava linda. Parecia até mais atraente, embora adorasse o sorriso dela.

– Não, Lu. Eu espero que daqui a um mês quem abra essa porta de calcinha seja você – eu disse, puxando ela pelo braço e empurrando a porta que ela havia aberto.

Aproveitei a deixa e fui em frente:

– Vem cá, Luisa, você quer namorar comigo? Estamos há um mês nesse chove não molha, gostosíssimo, diga-se de passagem, mas acho que toda essa insegurança é fruto da falta de um compromisso, que embora exista individual e silenciosamente, não é oficial nem público. – falei, enquanto abraçava ela pela cintura.

– Quero – respondeu ela, para a minha grata surpresa. E você? quer mesmo namorar essa mulher insuportável, que sou eu? – perguntou ela mal humorada.

– Você não é insuportável, só está insegura. Mas, agora sou sua namorada, devo satisfação a você e vou ter toda a paciência para conquistar a sua confiança – falei, tirando o cabelo dela dos olhos.

Ela me abraçou com tanta força que, confesso, se tivesse sido uma estranha teria sido bastante desconfortável. Mas, nesse caso, foi o melhor abraço dos últimos tempos.

Quando ela me soltou, foi a minha vez de pegá-la pela nuca, com as mãos por entre seus cabelos e dizer-lhe:

– Eu estou completamente apaixonada por você. Não quero te machucar.

Sentia a necessidade de dizer a ela e talvez a mim mesma o quanto era bom tê-la comigo. Queria dividir aquela sensação com ela.

– O que vamos ver? – perguntei apontando para os DVDs.

– Filmes açucarados – disse ela, mostrando os títulos.

– A pipoca pode deixar que eu faço – me ofereci, pegando o pacote na mesa.

– É de microondas! – ela disse.

– Quero dizer que sua namorada é a melhor fazedora de pipoca de microondas em linha reta do mundo – eu disse vaidosa.

Fazia tempo que não me divertia tanto com um programa daqueles. Rimos bastante, vendo as comédias românticas que ela trouxe. Todas pareciam tê-la como personagem principal e ela achava graça de me ouvir repetindo que ela era muuuuito ‘mulherzinha’.

Esperei o último filme acabar, puxei-a para minha cama e perguntei baixinho:

– Vamos fazer amor pela primeira vez como namoradas?

De novo, para minha surpresa, ela não respondeu. Apenas tirou a camiseta azul que usava e colocou a minha mão no peito dela.

Era apenas o começo de uma noite que entrou pela madrugada, intercalando cochilos e toques cheios de paixão.

Capitulo 35 - Consta nos astros, nos signos, nos búzios por Poracaso

O tempo foi passando e a nossa relação foi se consolidando. A insegurança de Luísa diminuiu o suficiente para torná-la uma mulher confiante e tranquila. Ainda não tolerava Bia com tanta desenvoltura, mas já era capaz de conviver com ela em harmonia.

Eu achava que tinha encontrado a pessoa com quem queria passar o resto dos meus longos dias. Ela colocava a culpa do nosso encontro no destino. Fosse lá como fosse, adorava me sentir plena, completa, cheia.

Ela gostava de contar nossa história para as pessoas e ouvi-las dizer que mais parecia “coisa de cinema” ou que a nossa química se devia a uma “combinação astrológica perfeita”. Eu achava divertido a necessidade que os outros tinham de explicar o que era apenas o que era: amor, paixão, desejo.

Tínhamos aprendido que o ser humano tem limites. Talvez ela tenha me ensinado mais. Aprendi a ser paciente, não que eu não o fosse, mas com Luísa entendi que a paciência tem nuances. Aprendi o que era uma personalidade feminina de verdade. Entendi o que era ser mulher, no sentido pleno da intensidade e não do gênero.

Sofri um bocado até me adaptar àquele novo tipo de ser humano, desconhecido para mim até então, pois embora só tivesse me relacionado com mulheres até aquele momento, nunca com uma mulher com toda essa densidade e complexidade.

Depois de quase um ano, enfim o equilíbrio, a maturidade. Conseguimos manter o furor adolescente dos primeiros dias, resistimos à tentação lésbica de nos juntarmos prematuramente e a paixão continuava intocada. Desejava aquela mulher como no primeiro dia.

Tínhamos planos de uma vida a duas, ou melhor, de uma vida em família. Luísa tinha uma intimidade com minha mãe e irmã que nem eu mesma fazia questão de manter, mas queríamos mais: planejávamos uma família só nossa, crianças, uma casa.

Para celebrar nossa felicidade, organizei uma festa de um ano de namoro. Só eu sei o sofrimento! Eu, que nunca organizei nem minha gaveta de calcinhas, me vi às voltas com doces, buffet e cerimonial. Mas a surpresa de verdade deixei para o final. Esperei todos saírem, coloquei The Way You Look Tonight e tirei Lu para dançar. Assim que a música acabou, abri um espumante, servi nossas taças e disse, segurando a mão dela:

– Luísa Medeiros de Mendonça, você aceita casar-se comigo?

Ela parecia feliz, mas assustada. Demorou para responder e quando a resposta veio, foi na forma de pergunta:

– Assim, tão rápido?!

– Você acha um ano rápido? – perguntei, decepcionada.

– Não, é que não sei se estou pronta para um passo tão grande. Eu amo você, mas não sei se de repente isso não estragaria tudo – argumentou.

Queria entender se ela estava insegura ou se realmente casar não fazia parte dos planos dela. Então, perguntei:

– Você está com medo de casar comigo ou você está com medo do casamento? O que quero saber é se o que te deixa em dúvida sou eu ou o casamento em si.

– Eu amo você, o casamento é que me deixa aflita – esclareceu, parecendo realmente angustiada.

Vi que ela estava incomodada com a situação. Ao que parecia, ela queria aceitar, mas estava com tanto medo que não conseguia decidir. Então, fiz a seguinte proposta:

– Podíamos procurar uma casa que tivesse a nossa cara e que a pensássemos juntas, de modo a manter a individualidade e os espaços de cada uma e só oficializar o casamento quando estivesse tudo pronto. Funcionaria como uma fase de transição. O que você acha?

– Eu aceito! – ela disse, animada, como se eu tivesse tirado um peso enorme das costas dela.

Então, perguntei outra vez:

– Luisa Medeiros de Mendonça, você aceita casar-se comigo?

– Aceito! – respondeu, pulando no meu pescoço.

Diante da resposta positiva, finalmente pude tirar as duas alianças que havia comprado do bolso da calça. Coloquei uma delas na mão direita de Luísa e depois fiz o mesmo na minha. Beijei-lhe a mão e disse:

– Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos. Profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Se dane o evangelho e todos os orixás. Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz.

Enfim, noivas.

Capitulo 36 - Paraíso se mudou para lá por Poracaso

Do dia em que ficamos noivas até encontrarmos uma casa que achássemos a nossa cara, foram quase sete meses. Decidimos por um sobrado antigo, que mais parecia ter sido feito sob encomenda para nós. Nesse meio tempo, visitamos todos os imóveis disponíveis na cidade. Procurar um teto virou nosso programa de final de semana. Nem sei com quantos corretores conversei, quantas portas abri e quantos “não” disse e ouvi. Parecia uma busca sem fim. Mas valeu a pena esperar. A casa era linda e depois de seis meses de reforma ficou perfeita.

A casa foi toda planejada por nós duas. Eu fiquei com a parte mais pesada da obra e Luísa com os detalhes de acabamento e decoração, que tomavam mais tempo e exigiam mais atenção.

Ao final, ficamos com seis cômodos: uma suíte para o casal, um escritório para mim, um escritório para Lu, um home vídeo e dois quartos foram deixados vazios, pensando na hipótese da família aumentar. Sem falar da cozinha, da sala, da varanda e do jardim.

O fim da reforma, no entanto, não foi sinônimo de mudança imediata. Eu vinha de uma construção paciente para tentar minimizar as inseguranças de Lu. Parecia uma posseira que aos poucos vai fazendo uso capião dos espaços que encontra. Desde que ficamos noivas, eu passava a maior parte do tempo no apartamento de Luísa, mas mantinha o meu flat ativo. Vez por outra dormia lá, apenas para dar a Lu a sensação de que aquilo ainda não era um casamento. Embora aquilo pudesse parecer bobo e infantil, além de caro, era de extrema importância para o processo de transição que havia combinado com ela.

Mesmo que para o mundo todo aquilo parecesse um casamento, era fundamental que ela soubesse que tinha o espaço dela. Um espaço que, para ela, era muito mais que físico, geográfico, era psicológico. Já estávamos juntas há dois anos e três meses. Embora tivesse amadurecido demais nesse tempo todo, a decepção dos relacionamentos anteriores e as marcas profundas deixadas, pareciam impedir Luísa de avançar mais. Isso fazia com que nossos 4 anos de diferença de idade me fizessem parecer ainda mais velha.

Como sabia que uma mudança brusca de ambiente a tiraria do eixo, propus que alugássemos apenas o meu apartamento. Queria que ela soubesse que teria para onde correr em caso de emergência.

No início, o improviso, típico das mudanças, agitou nosso dia-a-dia. Dormimos em colchão inflável, vimos tevê na casa da vizinha e todo dia descobríamos uma caixa nova para desarrumar.

Para mim, aquilo era mais que uma mudança de casa, era uma mudança de paradigma. Era a certeza de que a vida nos reserva sempre algo novo, surpreendente; uma história de amor, por exemplo.

Nossa casa passou a ser a casa de todos. Lu, que nunca foi da rua, tornou-se cada vez mais de casa. Mas os amigos, que eram da rua, cederam à nossa casa. O lugar era convidativo e Luísa parecia mais à vontade em seu ambiente.

Capitulo 37 - Roda moinho, roda gigante por Poracaso

Quando dizem que a vida é cheia de altos e baixos, de fato isso não é figura de linguagem. Estávamos felizes, casadas da forma mais tradicional possível para o nosso caso. Mas nesse dia, eu comecei a acreditar nas peças que o destino nos prega.

Fui trabalhar como se aquele fosse mais um dia do resto de nossas vidas. Quando cheguei à universidade, no entanto, aquele dia era “o dia”, e não mais um dia. Nunca gostei de rotina, isso era para Luísa, mas estava curtindo minha vida nos eixos, como costumava dizer. Nesse dia, minha vida parecia um trem descarrilado.

Havia uma carta dentro do meu escaninho. Era um documento de aceite de uma universidade em Londres, concedendo-me uma bolsa de pós-doutorado com duração de um ano.

Voltei para casa e sentei no sofá, tentando encontrar uma solução para aquele impasse. Sabia que propor uma ida para onde quer que fosse, para Luisa, seria colocar a vida dela de pernas para o ar, tirar-lhe o chão. Não podia fazer isso com ela. Ao mesmo tempo, desistir disso seria estagnar minha carreira.

Fiquei ali por horas, até que ela chegou e começou a falar sem parar. Não sei qual era o assunto, mas não pretendia adiar nem mais por um minuto aquela conversa:

– Precisamos conversar – disse, segurando o braço dela com firmeza, como para interromper sua fala.

Ela se calou imediatamente e eu comecei:

– Luísa, antes de nós nos conhecermos eu havia solicitado uma bolsa de estudos para realizar o meu pós-doutorado na Inglaterra. Mas me disseram que eu deveria cumprir meus cinco anos de estágio probatório antes de obter essa concessão. Já tinha me esquecido disso, mas hoje a autorização chegou e eu consegui a bolsa – expliquei.

– Parabéns, meu amor! – disse ela, como se não soubesse direito o significado daquilo. No entanto, ela mais parecia em pânico do que contente.

Prevendo o que podia acontecer dali para a frente, abracei ela forte e disse:

– Você entende no que isso implica? Temos dois meses para nos mudar.

Senti o corpo dela esfriar de repente e sua pele empalidecer. O rosto dela se encheu de pavor, como o de uma criança que recebe uma notícia ruim.

A partir daí, tudo correu conforme o esperado:

– Carol, eu tenho meu emprego, nossa casa, meus amigos. Tudo construído aqui. Não posso simplesmente largar tudo que construí, da noite para o dia – explicou.

– Eu também tenho tudo isso, Luísa, mas é uma oportunidade única na minha carreira – argumentei.

– Quanto tempo? – perguntou.

– Um ano – disse.

– Você quer que eu largue tudo durante um ano? – gritou.

– Não. Eu quero que você não me largue – devolvi.

– Você é quem está me deixando. Você não podia ter planejado tudo isso sem me consultar – disse ela.

– Nós não nos conhecíamos, eu já disse. Nem lembrava mais disso – expliquei. E não quero te deixar, quero te levar comigo – falei.

– E em que momento você perguntou o que eu quero? Em que momento você me levou em consideração nisso tudo? Você acha que eu sou uma peça de roupa que você carrega para onde quiser? – perguntou.

– Não. Eu penso que você é minha mulher e que um ano passa rápido – respondi.

– Pois, para mim, um ano é muita coisa e, embora eu, de fato, seja sua mulher, não sou sua propriedade – descontou.

– Nunca lhe tratei como propriedade, Luísa. Só estou te pedindo bom-senso – falei, diminuindo o tom de voz.

– Bom senso pra você é eu largar tudo pra viver a sua vida? – perguntou ainda gritando.

– Não. Bom senso é não jogar um casamento para cima – disse.

– Como você está fazendo? – Finalizou.

Sabia o quanto aquilo era difícil para ela. Era para mim também, mas, sem dúvida alguma, Luísa tinha milhares de particularidades, de apegos, de medos, de restrições, de raízes, que faziam qualquer mudança para ela representar uma perda de estabilidade maior que para qualquer outra pessoa. E eu sabia disso. Sabia que naquela hora precisava de mais paciência do que já havia tido até ali.

– Lu – recomecei.

– Não me chama de Lu. Não me trate como se eu estivesse tendo um chilique adolescente, porque estamos falando da minha vida – falou descontrolada.

– Luísa, a vida é nossa, não sua. E o que eu quero é apenas chegar a um ponto de equilíbrio, onde possamos fazer o que for melhor para nós duas – amenizei.

– Para nós duas? Pela sua proposta, só quem teria que ceder seria eu. Só vejo seus interesses nessa história toda – falou.

– Luísa, nesse tempo todo em que estamos juntas procurei entender todas as suas dificuldades, respeitá-las e ajudar no que fosse possível. Gostaria que pensasse nisso agora – falei.

– Ah! Eu sabia que um dia ia levar isso na cara! Como eu posso ter sido tão burra de acreditar que com você seria diferente? – falou, chorando.

Era clara para mim a dor que ela estava sentindo. O corpo dela se contorcia em movimentos involuntários. Embora gritasse, ela estava sentada encolhida no canto da sala, como um animal arisco, acuado.

Aproximei-me dela, envolvendo o seu corpo com meus braços, mas ela me empurrou e subiu correndo as escadas.

Esperei um tempo e subi também. Encontrei-a deitada na cama, soluçando. Sentei ao lado dela e comecei a alisar seus cabelos, enquanto propunha uma trégua:

– Lu, vamos tomar um banho, comer alguma coisa, esfriar a cabeça e amanhã conversamos, que tal?

Ela atirou-se nos meus braços e apertou meu corpo como se nunca mais fosse me deixar sair dali.

– Eu não quero te perder. Eu amo você.

– Você não vai me perder, eu também te amo.

Coloquei-a em meu colo e balancei meu corpo como para niná-la. Ela dormiu no meu ombro e mesmo depois de dormir continuava a soluçar. Chorei sozinha enquanto ela dormia. Chorei por mim, por ela, por nós.

Cochilei por algum tempo e acordei com Luisa vomitando em cima de mim. Liguei para o escritório avisando que ela não iria trabalhar e liguei para a Universidade também informando que não daria aula naquele dia.

Depois de dar banho nela e tomar banho, conseguimos ter uma conversa mais amena, embora durante nosso diálogo ela tenha vomitado mais outras três vezes – sendo uma no chão do quarto e outras duas no banheiro. Decidimos que eu iria e ela continuaria aqui, mas que nos encontraríamos a cada dois meses. Ela continuaria na casa e nos falaríamos todos os dias. Caso ela mudasse de ideia e quisesse ir morar lá comigo, poderia fazê-lo a qualquer momento.

Concordamos que, mesmo não sendo o ideal, era o melhor a fazer naquele momento.

 

Capitulo 38 - é cedo ou tarde demais pra dizer adeus por Poracaso

Os dois meses que se seguiram foram intensos. Despedidas e mais despedidas foram feitas, mas reservamos a última noite para nós. Lu reservou o restaurante onde comemoramos todas as nossas grandes conquistas. Bebemos vinho e comemos nossos pratos preferidos. Luísa parecia apreensiva, mas demonstrava tranquilidade.

Naquela noite, eu queria tocá-la com calma, sentir seu corpo em cada parte como da primeira vez em que nos amamos. Queria ficar com aquele toque em mim, preso, tatuado pelos próximos dois meses até poder tocá-la mais uma vez.

Penetrei seu sexo como se fosse a última vez que iria tocá-lo. Ela gritou de prazer e me fez lembrar como eu adorava fazê-la gemer na minha mão. Senti saudade do que ainda tinha, somente de lembrar que, em breve, já não mais teria. Comi cada parte do seu corpo, cada fenda. Numa atitude egoísta, eu queria entrar no corpo dela e fazer de nós uma só.

Dormi dentro dela e acordamos abraçadas, mas ainda éramos duas.

Fomos para o aeroporto sozinhas. Despedimo-nos com lágrimas contidas, como se disséssemos para nós mesmas, e uma para a outra, que seríamos fortes, que resistiríamos. Eu apertei o corpo dela contra o meu e disse no seu ouvido, já sem conseguir segurar a fragilidade, que veio em forma de soluços:

– Não quero perder você.

– Não vai perder – ela disse.

Entendi como ela se sentiu esse tempo todo. Era minha vez agora de não saber o que o futuro reservava para mim. Na verdade, mal sabia onde estava o presente.

Capitulo 39 - Apesar de você, amanhã há de ser outro dia por Poracaso

Sentei no avião e lembrei do nosso encontro. Como a vida era engraçada. Estávamos sempre, de alguma forma, numa relação muito próxima com aeroportos, aviões. Ri sozinha por estar pensando como Luísa.

Olhei para o relógio e vi que àquela altura ela já devia ter recebido a cesta de café da manhã e o buquê de gérberas laranja, as preferidas dela, que eu havia mandado.

Com o cartão que dizia:

 

Meu amor, a noite não foi fácil para nenhuma de nós, mas lembre-se que nada como um dia após o outro. Estarei sempre com você, onde quer que eu esteja.

Te amo,

Carol.

 

Cheguei ao aeroporto e liguei imediatamente para Luísa.

– Amor, acabei de chegar. Vou pegar o metrô para ir até o apartamento e de lá eu ligo. Como você passou a noite?

– Sentindo a sua falta – respondeu ela já ficando fanhosa pelo choro.

– Eu também estou sentindo muito a sua falta – eu disse com a voz embargada.

– Ah! Tô comendo a melhor maçã da minha vida – falou ela.

– Fornecedor novo? – Perguntei rindo.

– Obrigada meu amor! – falou.

– É para você saber que vou estar sempre com você – reafirmei.

Depois de uma hora, um metrô e uma caminhada de aproximadamente 1 Km num frio de 5 graus, chequei ao que seria minha casa nos próximos 365 dias. Estava longe de parecer um lar, mas era simpático. Liguei para Luisa para falar das minhas primeiras impressões:

– Amor, cheguei ao AP. Não é muito grande, mas dá para nós duas, além de ser aconchegante. Sabe o que eu estou fazendo?

– Que bom amor, não vejo a hora de te encontrar. O quê?

– Comendo o melhor bolo de goma da minha vida! – eu disse.

Ao abrir a mala, encontrei um saco de bolo de goma, que eu amava, com um cartão que dizia:

 

Meu amor, a vida vez por outra nos oferece caminhos mais amargos, mas, sem dúvida, necessários para a construção de um futuro doce. Estarei sempre com você, seja qual for o caminho.

Te amo,

Lu.

 

– Como você está? – perguntou.

– Cansada. Não dormi nada no voo, pensando em você, em nós – disse.

– Aproveite para descansar. E lembre que em breve estarei aí com você – falou ela.

– Te amo – disse.

– Eu também – confirmou.

Quando desliguei o telefone, chorei como se fosse uma criança que perdeu o brinquedo. Sentia mais a falta dela que medo do que a distância pudesse fazer conosco. Ao mesmo tempo, me sentia como saída de um primeiro encontro, num processo de conquista.

Foram dois meses de muitas sensações. Falávamos-nos pelo telefone todos os dias. Aprendemos a diminuir a distância através das ligações, até sexo aprendemos a fazer pelo telefone. Longe de ser o ideal, mas serviu para alimentarmos a paixão e o desejo.

Neste início, tentei me manter o mais ocupada possível. Assisti a aulas, dei palestras e, sobretudo, frequentei muitos grupos de pesquisa e me encarreguei de desbravar a cidade. Conheci muita gente e até já tinha um círculo de amizades bem definido. Tinham os amigos e os amigos dos amigos.

Eram muitos estrangeiros e a colônia brasileira era bem grande, o que facilitava as coisas e ainda ajudava a matar um pouco a saudade do Brasil. Além disso, os brasileiros faziam festas quase toda semana, o que acabava por estreitar os laços. Foi assim que conheci Augusto, Laura, Marcos, Chico e Mariana, todos doutorandos em Antropologia, com exceção de Mariana, que era amiga de Chico e mestranda em Letras. Fiquei bastante próxima dela, que, embora jovem, parecia-me extremamente interessante. Tudo isso fez o tempo passar um pouco mais rápido, até que chegou. Ela chegou.

Quando a vi, meu coração quase saltou pela boca. O sorriso dela parecia ter iluminado aquela cidade cinza. Abracei-a tão forte, de modo a sentir todo o seu corpo. Que saudade!

Não via a hora de chegar em casa e poder tocá-la. Joguei as malas no chão e tirei a roupa dela no meio da sala. Deitamos-nos no chão e nos amamos ali mesmo. Fazia frio e sentia o corpo dela arrepiado, numa mistura de baixa temperatura e prazer. Gozamos repetidas vezes até escurecer e, famintas, sermos obrigadas a deixar o nosso ninho improvisado.

Foram quase 20 dias na cama de um apartamento de 40 metros quadrados que só cheirava a sexo. Na verdade, devem ter sido uns 10 dias na cama e outros de experiências diversas.

Das poucas vezes que saímos de casa, levei Lu à universidade para que ela conhecesse o campus e os meus colegas de estudo, que ficavam repetindo que eu “só falava nela”. Ela fazia cara de boba, mas eu sabia que isso a trazia para perto de mim e a fazia se sentir mais segura também.

Na véspera da volta de Luísa, eu já estava com muita saudade dela. Fomos a um pub tipicamente inglês e acabei exagerando na cerveja, uma atitude também tipicamente inglesa, diga-se de passagem. Voltei para casa completamente embriagada. Vomitei e acabei passando nossa última noite quase como a primeira, bêbada e dormindo. Mas como dizem, a vida é cíclica.

Capitulo 40 - Só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza por Poracaso

Quando Lu voltou para o Brasil, deixou um vazio enorme dentro de mim, na casa, nos dias e, principalmente, na cama.

Me senti pior do que quando saí do Brasil. Meu desejo aumentava, minhas necessidades. Não sei, mas talvez porque já estivesse há muito tempo lá e sabia que muito ainda faltava para voltar. A cidade já começava a ficar desinteressante, nada era mais tão novo para mim e a quantidade de coisas para fazer diminuía gradativamente. Continuava falando com Luísa todos os dias, mas aquilo não me parecia mais suficiente. O que me restava era tentar me apoiar nas pessoas que estavam lá, na mesma situação que eu.

Foi num desses dias, que pareciam não acabar, que Chico me chamou para ir a uma festa em sua casa. Bebi demais e não tinha condição de voltar para o meu apartamento, àquela altura acho que nem sabia qual era o meu endereço.

Mariana acabou se oferecendo para me deixar em casa e eu aceitei. Quando chegamos ao meu apartamento, bebemos mais algumas garrafas de cerveja e transamos. Estávamos completamente embriagadas e, não vou negar, me sentia atraída por ela. Não era paixão, nem nada parecido. Era carne, era corpo mesmo, no melhor modelo cafajeste que uma relação pode ser.

Acordei no outro dia com o meu telefone tocando. Olhei e vi o número de Luísa. Olhei para o lado e me deparei com um cenário de guerra: roupas jogadas, garrafas pelo chão e uma mulher ao meu lado. Uma outra mulher, diferente daquela que me acostumei a chamar de minha nos últimos cinco anos e meio. Era uma mulher, mas não era a minha mulher.

A minha mulher, ao contrário, esperava que eu a atendesse no telefone. E foi o que fiz:

– Tentei falar com você o dia todo ontem – disse ela, impaciente.

– Oi. É que passei o dia inteiro na Universidade e, às vezes, o celular não pega lá, sabe como é… – expliquei sem muita segurança.

– Sei. Bom, como você está? – perguntou.

– Tudo bem. E você? – respondi sem querer prolongar muito aquela conversa.

– Tudo ótimo. Daqui a 15 dias nos encontraremos. Não vejo a hora – comemorou.

– Ah! Queria até falar com você sobre isso. Acho melhor você adiar um pouco a passagem porque estou cheia de trabalhos para fazer e não vou conseguir te dar atenção – falei, sem saber direito o que estava dizendo, mas certa de que precisaria de um tempo para resolver aquela situação.

– Não tem problema, de repente eu posso te ajudar – ofereceu-se.

– Pois é, mas são muitos seminários e artigos para escrever e acho que vai ficar complicado. Queria que viesse quando eu tivesse mais tempo – insisti.

– Tá bom, então vou remarcar para daqui a 30 dias, pode ser? – consultou.

– Pode sim – disse.

Desliguei o telefone e respirei fundo. Era inegável que a noite havia sido ótima. Meu corpo não reagia assim desde que Luísa tinha voltado para o Brasil e eu tinha minhas necessidades. Para completar, Mariana era linda, madura e inteligente. Segura de si, bem resolvida e estava ali me dando mole há meses.

Tinha certeza de que eu amava Luísa, mas começava a achar aquele movimento todo meio egoísta da parte dela. Eu estava num país estranho, privada de quase tudo e ainda me obrigar a manter meu corpo celibatário. Era muito difícil.

Ao mesmo tempo me sentia culpada, pois sabia que Luísa não só era fiel, mas também era leal a mim.

As noitadas se tornaram quase uma rotina para mim e a minha relação com Mariana começava a ser comentada por alguns colegas, já que, depois das primeiras doses, nós já não conseguíamos mais controlar nossos corpos, como duas adolescentes. Nos dias que se seguiram preferi falar pouco durante os telefonemas com Luísa, ela também não insistiu muito.

Mariana dormia na minha casa quase todas as noites e as bebedeiras eram quase que diárias. Muitas vezes queria me controlar, negar, mas a ideia de ficar só naquele apartamento não era atraente e ela sempre sugeria alguma coisa mais quente e eu acabava cedendo.

Embora ela soubesse da minha relação com Luísa e até as tivesse apresentado quando Lu esteve aqui, não encarava aquilo como um problema, parecia até gostar de ser a outra. Aquela situação parecia mexer com ela.

Uma sexta-feira à noite, bebemos tanto que acabei cochilando. No outro dia, quando acordei, Mariana me disse que alguém havia me ligado e que ela tinha atendido ao telefone. Ela não disse quem era, mas senti o meu corpo gelar, meu sangue sumir. Fui invadida por um desespero. Quis colocar aquela menina para fora da minha casa, apagar aquela história da minha. Ao contrário, me tranquei no banheiro com o telefone e liguei para ela. Deviam ser perto das 7h da manhã no Brasil.

Ela atendeu no primeiro toque.

– Lu? – perguntei.

– Oi – respondeu, sonolenta.

– Tudo bem? – perguntei sem saber o que dizer.

– Tudo e você? – perguntou ela, estranha.

– Olha, você me ligou ontem? – disse, sem saber por onde começar.

– Liguei, me disseram que você estava dormindo – falou irônica, mas parecendo tranquila.

– Foi uma colega minha da faculdade que veio me ajudar num trabalho – tentei.

– Que bom que conseguiu alguém para ajudá-la – ironizou outra vez.

– Passamos o dia todo estudando e eu acabei pegando no sono – expliquei.

– Imagino – respondeu.

Eu preferia que ela tivesse gritado comigo. Daquele jeito começava a trabalhar com o imprevisível. Não sabia o que estava se passando na cabeça dela, então tentei:

– Olha, Lu, você deve estar pensando um monte de coisa, mas acho que precisamos conversar – disse, por achar que era a única coisa que podia dizer.

– Estou à sua disposição – disse ela, calmamente.

– Você sabe que quando se está longe tudo fica mais difícil – começou ela.

– Carolina, deixa eu facilitar a sua vida: quem é ela? – perguntou de forma surpreendentemente objetiva.

– Lu, não é assim que as coisa se resolvem – tentei argumentar.

– Quem é E-LA? – insistiu.

– Amiga de um colega da faculdade – respondi.

– Há quanto tempo? –quis saber.

– Lu, eu tinha bebido demais e acabou acontecendo – tentei me justificar.

– Responde o que eu perguntei – disse aumentando o tom de voz.

– Três semanas, mais ou menos – respondi.

– Foi ela quem atendeu ao telefone ontem?

– Sim, mas eu posso explicar – me adiantei.

– Foi por isso que você pediu para que eu não fosse? – interrogou.

– Não, Lu, é que eu realmente estou cheia de trabalho e…- tentei dizer sem nenhuma firmeza.

– Olha, Carolina, eu só quero saber como vamos resolver as coisas práticas daqui para frente – disse ela.

– Lu, não faz assim. Me perdoa. Foi só uma aventura boba de quem está carente, longe – disse eu.

– Carolina, responde o que eu estou te perguntando, por favor – pediu.

– Lu, você que não quis vir comigo e me deixou sozinha aqui – culpei.

– Olha, Carolina, eu não vou deixar você fazer isso comigo. Ainda bem que eu não fui, teria largado tudo e não conseguiria impedir você de viver essa aventura. Eu só quero resolver o que vai ser daqui pra frente, aí você segue a sua vida, o que parece que já está fazendo, e me deixa seguir a minha – disse ela, resolutiva.

– Lu, eu vou encontrar você aí e a gente conversa, por favor – implorei chorando.

– Carolina, seria um gasto de dinheiro e de energia completamente inútil. Pense no que você quer fazer com a casa e as coisas em geral e me avise – parecia decidida.

– Não desliga Lu – pedi.

Ela desligou e eu me desesperei. Saí do banheiro e coloquei Mariana educadamente para fora da minha casa. Não queria mais olhar para a cara dela, queria sumi-la de mim. Na verdade, queria sumir eu mesma de mim.

Ficava imaginando como Luísa devia estar, mas toda aquela frieza que ela havia demonstrado me deixava assustada.

Notas finais:

Esse capítulo foi difícil, mas tem mais coisas vindo por aí. O que vocês acharam, meninas?

Capitulo 41 - Você que ontem me sufocou de amor e de felicidade, hoje me sufoca de saudade por Poracaso

Não acordei porque eu não dormi. Bem que gostaria de acordar de repente e achar que tudo aquilo era um pesadelo. Mas não era, ou era, mas eu não estava dormindo. Não fui para a aula, sequer me olhei no espelho com medo de me encarar.

Liguei tantas vezes para Luísa. Liguei do meu telefone, liguei do orelhão da esquina, liguei do telefone do vizinho, mas ela não atendeu. Tentei o celular, o telefone da nossa casa. Até que resolvi tentar o telefone da casa dela. A secretária eletrônica atendeu:

– Lu, pelo amor de Deus, sei que você está ai. Já liguei para o escritório, para nossa casa e para o seu celular. Você é a mulher da minha vida. Eu amo você. Me perdoa. Deixa eu pelo menos explicar o que aconteceu – tentei.

A cada tentativa, imaginava ela olhando as minhas ligações e se negando a atendê-las. Como aquilo doía. Parecia uma chaga.

Pensava na dor que ela deveria estar sentindo. Se furar fila já depunha tão mal sobre mim, traí-la, sem dúvida, seria bem pior. Mas pior era ter feito mal a ela. Tê-la machucado. Ela era a mulher da minha vida, era perfeita pra mim. Ela era minha, nós éramos uma da outra e eu a perdi.

A única pessoa a quem eu podia recorrer naquele momento era a Marcos. Ele era o melhor amigo de Luísa. Companheiro de todas as horas e era para ele que ela corria quando a vida aprontava.

Liguei para Marcos em desespero, sem saber mais o que fazer:

– Marcos, é Carol

– O que aconteceu Carol? – perguntou ele.

– Eu fiz uma besteira – confessei.

– Ai, meu Deus, Carol. Já até imagino o que aconteceu – disse ele.

– Eu traí a Luísa – disse aos prantos.

– Ai, Carol, você podia ter feito tudo, menos isso. Você contou? – quis saber ele.

– Ela descobriu. Ligou para mim e a menina atendeu – expliquei.

– Puta que pariu, Carol – disse ele indignado.

– Foi só uma aventura. Juro que não significou nada, foi atração e só – justifiquei.

– Carol, não vou te julgar, pode até ter sido, mas é difícil de acreditar, de entender, de perdoar – não me poupou.

– Me ajuda – pedi desesperada.

– Infelizmente, não tenho como, Carol. Sempre torci por vocês, mas torço pela felicidade da Luísa acima de tudo. Às vezes, acho que torço pela dela até mais do que torço pela minha – cortou ele.

– Marcos, fala com ela, por favor. Pede pelo menos para ela me atender, preciso conversar com ela, só quero isso – pedi.

– Olha, Carol, eu vou ligar para ela porque sei como ela é, sei que ela está precisando, mas não vou insistir, não espere nada – disse ele.

– Obrigada, Marcos – agradeci.

– Fica bem e qualquer coisa pode ligar – ofereceu ele.

– Obrigada mesmo – agradeci outra vez.

Liguei de volta para ele 10 minutos depois.

– Falou com ela? – perguntei.

– Ela não vai te atender. Acho melhor não insistir por enquanto – sugeriu.

– Como é que ela está? – quis saber.

– Decepcionada – resumiu.

– Marcos, eu preciso falar com ela – disse.

– Eu sei, Carol, mas espere a poeira baixar. Vocês estão de cabeça quente e tudo que for feito neste momento pode ser mais um complicador – sugeriu.

– Já comprei a passagem. Embarco em algum tempo – revelei.

– Carol, não seria melhor esperar? – perguntou.

– Não vou esperar, Marcos. Ela é a mulher da minha vida – declarei.

– Você devia ter pensado nisso antes de meter os pés pelas mãos – alfinetou.

– Estou sofrendo as consequências de não tê-lo feito – assumi.

– Luísa sabe que você está vindo? – quis saber.

– Não. E você vai me prometer que não vai contar – pedi.

– Não vou me meter, mas tome cuidado com ela – pediu.

– Pode deixar – prometi.

Toquei a campainha da casa de Luísa um pouco depois das 22h. Não sabia o que iria encontrar e aquilo me deixava apreensiva. Aquela viagem era o meu “tudo ou nada”.

Ela demorou para abrir a porta, mas, quando abriu, não a fechou em minha cara:

– Posso conversar com você, por favor? – pedi, ao vê-la.

– Entra – ela disse.

Quando a vi meus olhos se encheram de lágrimas imediatamente e não pude contê-las, pois eram, sem dúvida, mais fortes que qualquer tentativa minha. Arrastei minha mala até o meio da sala e fiquei lá, parada, sem ação, sem ímpeto. Meu corpo estava cansado, minha mente sem argumento e meu coração sufocado. Ela não parecia sensibilizada, nem esperava que estivesse. Convidou-me para sentar e a partir daí já não respondia mais pelos meus atos. Pus-me a chorar copiosamente.

Ela me trouxe água, mas o que eu queria eram seus braços. Ela limitou-se a sentar ao meu lado e me pedir calma. Eu não merecia mais que isso. Pedi desculpas tantas vezes que perdi a conta. Era só isso que tinha para ser feito.

Luísa demonstrava um equilíbrio que não era compatível com a imaturidade própria dela até então. Na verdade, ela perecia muito mais controlada do que propriamente madura. Não sei se o equilíbrio dela me tranquilizava ou se me deixava ainda mais insegura. Eu me acusava e ela dizia que cada coisa tem seu tempo de maturação, que essa história toda ainda estava doendo muito nela e que preferia não fazer nada de cabeça quente.

Perguntou desde quando eu estava no Brasil e eu respondi que tinha acabado de chegar, e que voltaria às 4h da manhã do dia seguinte.

– 8h apenas no Brasil? – perguntou.

– Vim só para conversar com você – solucei.

– Você não devia ter vindo. Se desgastado. Esse vai e vem todo é muito cansativo – ela disse.

– Você não me atendia, foi a minha única opção – justifiquei.

Ela não parecia querer avançar com aquela conversa:

– Você quer que eu chame um táxi para você? – ofereceu.

Lembrei-me de Marcos me aconselhando a não fazer nada de cabeça quente e a não insistir. Então, somente aceitei a oferta. Quando o táxi chegou, ela me levou até a porta e eu soube que era minha última oportunidade. Eu a abracei forte e disse:

– Por favor, volta pra mim?

– Carol, vamos dar tempo ao tempo – respondeu impassível.

Entrei no elevador.

Chorei durante as 8 horas de vôo. Sentia-me fraca. A vontade de chorar continuava, mas as lágrimas não caiam mais.

Eu havia secado.

Capitulo 42 - Uma mulher de moral não fica no chão por Poracaso

Contava os dias para voltar de vez para o Brasil. Minha vida parecia suspensa, envolta numa neblina que não me permitia ver adiante.

Estava me esforçando ao máximo para respeitar as barreiras colocadas por Luísa, até que não suportei mais. Liguei para ela e disse que largaria tudo e voltaria para o Brasil.

Ela apressou-se em dizer que aquela não era a melhor decisão e que fazer isso só me atrapalharia. Que eu fosse forte e aguentasse mais um mês – tempo que faltava para eu defender meu projeto. Concluiu dizendo que após a defesa poderia decidir se queria voltar ou permanecer por aqui, aproveitando para alfinetar dizendo que, pelo visto, eu já havia construído laços por aqui.

Perdi a cabeça, gritei e acabamos discutindo. Retrocedemos e voltamos ao silêncio. Tive medo que ela estivesse com alguém, medo de perdê-la pra sempre.

Capitulo 43 - Debaixo dessa neve mora um coração por Poracaso

Durante um mês, poucos foram os meus contatos com Luísa. Evitei as ligações para ela não se sentir sufocada e optei pelos SMS, que julguei menos invasivos. Sofri com a demora dela em respondê-los e, muitas vezes, com as não respostas ou evasivas.

Um dia, não resisti e liguei. Achei oportuno dizer que dentro de uma semana estaria definitivamente de volta. Ela, no entanto, limitou-se a perguntar como eu estava e se eu havia defendido o projeto. Insisti numa aproximação, dizendo que a dedicatória do trabalho tinha apenas um nome, o dela. Mais uma vez, ela limitou-se a agradecer. Então, tentei marcar uma conversa para assim que eu voltasse. Novamente, ela encerrou a conversa dizendo que não havia o que conversar e que a chave da nossa casa estava na casa da minha mãe.

Como se eu quisesse voltar a viver no que era nosso, sozinha.

Desliguei chorando.

Fiquei reclusa até a minha volta ao Brasil. Voltei com medo do que ia encontrar. Não anunciei o dia da minha chegada com receio de decepcionar-me com a recepção. Recepção que não houve.

Peguei um táxi para a nossa casa e a chave reserva com o caseiro. Quando entrei, percorri todos os cômodos. Um vazio enorme tinha tomado conta daqueles espaços e um maior ainda de mim. Não queria ficar lá, mas não tinha para onde ir. Quando nos mudamos, decidimos preservar o apartamento de Luísa, para que ela se sentisse mais segura, e alugamos o meu. Agora, eu que sentia vontade de correr dali, eu que estava insegura e não tinha para onde ir. Afogada em lembranças, como os melhores personagens de romances baratos.

Capitulo 44 - Onde estou eu, onde está você? Estamos cá dentro de nós, sós por Poracaso

Passei a noite abraçada ao pijama dela, que havia esquecido embaixo do travesseiro. A única peça de roupa que ainda estava lá.

 

Pela manhã, liguei para Marcos avisando que tinha chegado ao Brasil. Conversamos por horas e eu tentei de todas as formas saber detalhes da vida de Luísa, mas ele foi evasivo quando o assunto era esse.

 

Desliguei desconfiada e com o coração apertado. Marcos era o melhor amigo de Luísa, era fiel a ela, protetor. Mas era transparente e ele me pareceu saber de algo que não queria me contar.

 

Fui caminhar na praia para pensar em uma forma menos invasiva de chegar até Luísa, de modo a não cometer os mesmos erros de antes.

 

Fazia um sol lindo e o mar estava calmo, eu caminhava na faixa de areia, feliz por poder sentir a água do mar novamente em meus pés, depois de tanto tempo.

 

Olhei para frente e entendi o que Luísa chamava de destino. Ela estava lá, na minha frente. Por um momento, achei que estava tão tomada pela emoção que estava tendo uma visão, mas logo percebi que a minha visão se mexia e tinha companhia. Uma mulher ao melhor estilo Luísa, ou seja, mais velha, não tinha uma beleza comum, mas fazia bem o tipo dela.

 

Respirei fundo e fui até lá. Parei na frente delas:

 

– Bom dia – disse, me dirigindo à mulher – Você é? – perguntei.

 

– Muito prazer, Solange. E você? – perguntou ela, sem se intimidar.

 

– Carolina – respondi. – posso sentar com vocês? – perguntei.

 

– Na verdade, já estávamos de saída – respondeu Luísa.

 

– Acho que podemos ficar mais um pouco, Lu – disse Solange.

 

– Lu? – repeti, em tom de deboche – Engraçado, não me lembro de você ser amiga de Luísa – completei com ironia.

 

– Talvez não enquanto você estivesse com ela – revidou.

 

– Olha, Solange, eu tô indo embora, se você quiser ficar aí, ok, mas eu estou indo – disse Luísa, sem paciência.

 

– Carolina, foi um prazer conhecê-la – concluiu Solange.

 

– O prazer foi todo meu – retribuí.

 

– Tchau – disse Luísa contrariada.

 

Acenei para elas, mas por dentro meu coração doía. Elas se distanciavam conversando com intimidade e Solange até passou a mão pela cintura de Luísa.

 

Vê-la tocar na minha mulher, naquele corpo que eu conhecia como alguém que demarca fronteiras, doía a dor de quem é invadido, tem sua porta arrombada.

Notas finais:

Peço desculpa pelo atraso, queridas leitoras! 

Capitulo 45 - EPÍLOGO (Carol) por Poracaso
Notas do autor:

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Carol esperou as duas se despedirem no calçadão e seguiu Solange até em casa. Era uma aposta alta, ela sabia. Aquela atitude poderia ser encarada de diversas formas, inclusive, como uma espécie de invasão de privacidade. Ela mesma tinha a sensação de que o que estava fazendo era errado. Mas não desistiu, era mais forte que ela.
A vontade de tirar aquela história a limpo só não era maior do que a dor de ver Luísa escorregando cada vez mais da sua vida.
A caminhada foi de cerca de 10 minutos, até Solange entrar num prédio de 8 andares, vintage, sem porteiro, que ficava a 150 metros da praia. Pouco depois de ver Solange fechar o portão do prédio, Carol aproveitou a entrada de uma outra moradora e disse que estava indo para a casa de uma amiga, mas que não tinha como interfonar porque tinha esquecido o número do apartamento da moça. Gentilmente, a moradora perguntou de quem se tratava e, diante da resposta, além de deixar-lhe entrar, ainda lhe disse o andar.
A campainha da casa de Solange tocou.
– Estava esperando você – disse Solange.
– Me esperando? – perguntou Carol.
– Exatamente! – respondeu Solange.
– Isso é algum tipo de ironia? – se defendeu Carol.
– Carolina, sei que você é uma mulher inteligente, que está louca para ter sua mulher de volta e eu sou uma mulher experiente que sabe exatamente o que está passando pela sua cabeça. Sendo assim, não podia esperar que você ficasse sentada na areia da praia, olhando sua mulher cair nos braços de outra pessoa – disse.
– Que bom que você entende, então! – disse Carol.
– Senta. Aceita um suco, uma água? – ofereceu Solange.
– Aceito uma água, obrigada – agradeceu Carol.
– Mas diga lá, em que posso ajudá-la – dispôs-se Solange.
– Vou direto ao assunto, pois não pretendo tomar muito seu tempo. Eu sou completamente apaixonada pela Luísa, sou louca por essa mulher. Quero saber qual a sua relação com ela – questionou.
– Carolina, gostaria de deixar claro, antes de qualquer coisa, que tanto eu como a Luísa somos pessoas livres, desimpedidas, adultas, capazes de tomar decisões e que não precisamos dar satisfação das nossas vidas a absolutamente ninguém. Vou responder a sua pergunta, não porque te deva satisfação, mas porque quero ver a Luísa feliz. Mas, se eu fosse você, seria um pouco menos arrogante, já que sua situação não é das melhores – despejou Solange.
– Desculpe. Então vamos fazer isso pela Luísa – disse Carol com tom ameno.
– Isso, porque se temos algo em comum, é ela –concluiu Solange, continuando. – Bom, Carolina, a Luísa é uma mulher forte, mas que tem acumulado fracassos na vida pessoal, o que faz com que ela se proteja demais, inclusive das ousadias. Acho que ela é apaixonada por você, que te ama de maneira pura e incondicional. No entanto, você há de convir, que pisou muito feio na bola e que, para ela, isso foi fatal. Ela acreditou em você, assumiu você por achar que era diferente das outras, mas você rompeu o contrato. Eu até entendo que a carne é fraca, que muitas vezes a gente mete mesmo os pés pelas mãos por um rabo de saia, mas a Luísa é uma menina dentro de uma mulher. Uma menina medrosa, que treme só de pensar que vai ter que sair por ai juntando seus próprios cacos. Quanto a nós – eu e ela – fique tranquila, somos apenas amigas e garanto a você que não foi por falta de tentativas minhas – riu Solange.
– Você está me dizendo que está dando em cima da minha mulher assim, com essa cara? – perguntou Carol rindo.
– Carolina, minha querida, ela não é mais sua mulher e você, mais do que eu, inclusive, sabe quem é Luísa e como ela é encantadora – respondeu Solange.
– Você tem toda razão. Eu tenho bom gosto e seria até estranho se você não tivesse se sentido atraída por ela – concordou.
– Pois então! – confirmou Solange.
 – Solange, você acha que eu tenho alguma chance de concertar essa burrada? – perguntou Carol.
– Primeiro me responda: o que você fez com a mulher com quem você a traiu – questionou Solange.
– Foi realmente uma aventura, nada além de sexo que se resumiu a algumas noites regadas a muito vinho, mas não havia nenhuma ligação mais estreita. Era apenas sexo para ambas – respondeu Carol.
– Bom, como eu já disse, acho que ela é louca por você, mas que você vai ter que ter muita paciência para fazer um trabalho de formiguinha, de conquistar a confiança dela diariamente. Esteja preparada para você ouvir infinitas vezes que você a traiu. Assuma suas culpas sempre que for acusada disso. Não a pressione, dê espaço a ela. Ela acha que não ser infantil é provar que é capaz de resistir a você. Fique atenta ao tempo dela. Não queira apressar as coisas, nem tente recuperar o tempo perdido. Vá com calma. E não deixe essa mulher fugir, porque ela vale a pena – falou Solange.
– Nem sei como lhe agradecer, Solange. Obrigada mesmo. Farei tudo o que for possível para reconquistá-la – disse Carol, abraçando Solange.
– Não precisa agradecer. Só me faça um favor, não magoe esta menina, senão, dessa vez, eu não vou te perdoar. Juízo, D. Carolina – decretou Solange.
– Pode deixar! – disse Carol dirigindo-se à porta.
– Ah! Carol, se eu fosse você, voltava na praia agora e ia ver um pouco o mar – falou Solange.
– Entendi. Obrigada! – disse Carol.
Assim que chegou à praia, Carol viu Luísa sentada de frente para o mar. Foi caminhando em sua direção sem que ela pudesse vê-la. Sentou ao seu lado, calada. Até que Luísa se virou e cruzou seu olhar com o dela.
– Carol, eu não vou conversar, não quero falar com você! – disse Luisa.
– Tudo bem. Não vim aqui para te forçar a nada, só vim ver o mar – explicou Carol.
– Justamente aqui, nesse lugar? – agrediu Luísa.
– O mar perto de quem se ama assume contornos diferentes, diminui sua inconstância e até o horizonte parece nos revelar novas possibilidades – respondeu ela.
– Será? – perguntou Luísa.
– Não sei, só saberemos se tentarmos.

Capitulo 1 - De que serve a terra à vista se o barco está parado (parte III) por Poracaso
Notas do autor:

Agora vamos passar para a segunda temporada dessa história. <3


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PARTE 3

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Leia o prólogo (Luisa e Carol): https://projetoporacaso.wordpress.com/prologo-luisa-e-carol/

Ficamos olhando o mar por mais de uma hora, em silêncio, como se as ondas fossem trazer de volta a nossa vida. Não trouxe.

Carol quebrou o silêncio:

- Lu, acho que você me deve uma conversa.

Então ela achava que eu devia alguma coisa a ela? Era só o que me faltava. Ai, que raiva!

- Eu não devo nada a você, absolutamente nada, entendeu? - disse, me levantando.

Ela olhou pra mim, assustada, como se não estivesse entendendo a minha reação. E levantou correndo atrás de mim:

- Lu, peraí, o que foi que eu disse? - perguntou ela, aflita - Luisa, por favor, não faz isso não. Vamos conversar - pediu, segurando meu braço.

- Como é que você tem coragem de me dizer que eu devo alguma coisa a você? Você não tem vergonha, não? - disse, fechando a porta do carro e partindo dali.

Olhei pelo retrovisor e vi Carol desabar no meio fio, colocando as mãos na testa como se tivéssemos chegado ao fim da linha.

Fui dirigindo sem rumo, analisando se a minha reação tinha sido exagerada. Cheguei à conclusão que o exagero é relativo e que, numa situação daquelas, qualquer palavra mal dita podia causar danos irreversíveis.

Parei no acostamento, ainda pela praia e chorei sozinha. Lutava para não ter mais aquela mulher, por uma questão de honra. No entanto, não tê-la me deixava incompleta, triste.

Já estava escuro quando decidi que não podia ficar ali. Precisava de um banho e de uma refeição, mas não queria ir para um lugar onde eu pudesse ser encontrada.

Liguei para Solange e perguntei se podia ir para a casa dela.

Quando cheguei lá, já passava das 7 da noite. Ela abriu a porta e me encontrou como havia me deixado horas antes, de biquíni, só que agora eu tinha os olhos inchados de chorar.

Ela olhou pra mim e, sem que eu precisasse abrir a boca:

- O que ela fez com você? - perguntou me puxando pra dentro.

- Acho que não foi ela, fui eu. - expliquei.

- O que aconteceu? - questionou me conduzindo para o sofá.

Contei o que havia se passado e Solange segurou minha mão entre as dela e disse:

- Lu, você não acha que talvez ela só quisesse conversar?

- Acho, mas ela não devia me cobrar essa conversa como se fosse uma obrigação minha, porque não é!

- Concordo, mas acho que ela só se expressou mal - amenizou - olha... - continuou - ela me procurou.

- Como é? Ela teve coragem de vir tomar satisfação com você? - falei, levantando do sofá num pulo.

- Calma, Lu. Senta aqui. Sinceramente, acho que, se você fosse minha mulher, eu faria o mesmo! - disse ela.

- Mas eu não sou mulher dela! - rebati.

- Lu, seja razoável. Você entendeu. Ela está lutando pelo que ela quer. - disparou.

- E eu? Alguém perguntou o que eu quero? Ninguém tá nem ai para o que eu sinto! E agora você se junta com ela contra mim - falei, já a caminho da porta.

- Lu, volta, eu estou conversando com você e você está agindo como uma criança mimada - falou firme.

Eu dei a volta e sentei novamente no sofá na frente dela, de cabeça baixa.

- Lu, presta atenção. Eu adoro você, quero te ver bem e feliz, seja com quem for. Estou do seu lado e, embora concorde que você não deva nada a ela, acho que vocês precisam sim conversar. Talvez, agora não seja a melhor hora, como já percebemos, mas você sabe que essa conversa precisa acontecer. Até porque vocês têm coisas práticas para tratar - disse me olhando paciente.

- Pode ser, mas agora não vou conversar com ela. E peço que você faça o mesmo - pedi já sentindo as lágrimas escorrerem.

- Tudo bem, só quis ajudar - confessou.

- Obrigada, mas não preciso da ajuda de ninguém - disse, contrariada.

- Tá bom então - falou ela, levantando as mãos espalmadas, como se declarando inocente.

- Vou embora - anunciei

- Lu, você está nervosa. Toma um banho, janta e depois você vai. Não vou deixar você sair daqui assim - sugeriu.

- Você pode me emprestar uma toalha e uma camiseta? - perguntei, aceitando o convite.

- Claro, empresto o que você quiser! - disse ela me empurrando pelos ombros até o banheiro.

Entrei embaixo do chuveiro como se não houvesse amanhã. E como amanhã era domingo, pude me dar ao luxo de fingir que não havia dia seguinte.

Fiquei tanto tempo sentada no box com a água escorrendo no meu corpo, que só me dei conta que havia vida lá fora quando Solange bateu na porta perguntando se estava tudo bem.

Aquilo me trouxe de volta à realidade. Me fez lembrar o episódio com Carol na praia e me fez sentir raiva novamente.

Levantei resmungando e continuei o banho propriamente dito.

A sensação de estar limpa já me deixou um pouco mais animada. Saí do banheiro perfumada e penteada, o que me rendeu elogios.

- Gente! A espera valeu a pena! - riu Solange.

- É. Só que sem roupa não dá, né? - reclamei, enrolada na toalha.

- Até dá, viu? Mas, OK, vou providenciar uma camiseta e um short para a senhorita - disse ela abrindo o guarda roupa.

Ela riu quando eu apareci na sala. O short de maneira alguma fazia meu estilo. Na verdade, acho que não era um problema de estilo e sim de tamanho. Solange era mais alta do que eu e mais larga também. O que me fez ficar sobrando nas peças.

Acabei rindo também, o que contribuiu para descontrair o ambiente.

Comemos uma massa deliciosa e tomamos chá.

Depois do jantar sentamos no sofá para assistir TV e acabei cochilando. Acordei com Solange me chamando.

- Lu, já são quase meia noite - disse ela

- Ai, desculpa, cochilei sem querer!

- Não precisa pedir desculpas. Você está cansada. - me confortou ela.

- Tá bom! Mas tá na hora. - disse, levantando, ainda meio cambaleante.

Ela me olhou com desconfiança enquanto eu me apoiava na parede para não cair.

- Você só sai daqui para ir pra aquela cama, ali no quarto! - decretou ela.

- Vou para casa agora! - eu disse esfregando os olhos e abrindo a boca.

- Lu, deixa de ser teimosa, mulher! Você está morta de sono, tá até caindo! - falou apontando pra mim apoiada na parede.

Desabei no sofá com preguiça novamente, convencida que era melhor ceder e ficar por ali mesmo.

 

Notas finais:

Meninas, estamos entrando pra terceira parte dessa história. Preparadas?

 

 

Capítulo 02 - Um extravio morno da minha consciência e depois eu sumo por Poracaso

Insisti para ficar no sofá, mas ela disse que eu ficaria mais confortável na cama. Como já tinha argumentado demais naquele dia, resolvi ceder logo de uma vez.

Dormi imediatamente - na verdade, acho que já estava dormindo mesmo antes de deitar. Acordei às quatro da manhã com muita sede, resultado do molho apimentado do macarrão.

Assim que abri a geladeira, ouvi:

- Onde você vai? - disse Solange, sentando no sofá.

- Beber água. Tá me vigiando, é? - perguntei.

- Não. Tô cuidando de você. Tá sem sono? - perguntou.

- Acho que esgotei todo ele - falei, me jogando ao lado dela no sofá - E você?

- Tenho sono leve, ouvi você levantar e acordei - explicou.

- Bom, então vou deixar você dormir. Quer trocar de lugar? Vai pra cama que eu fico aqui - propus.

- Não precisa. Estou bem aqui. Adoro esse sofá - disse ela, batendo com a mão no estofado.

Levantei para voltar para a cama, mas fui impedida por ela, que segurou minha mão e disse:

- Lu, como você está?

Respirei fundo, tomei um gole de água como para preparar o caminho para as palavras e disse:

- Me refazendo - respondi.

Ela me puxou pra junto dela, de modo que meus joelhos encostassem nos joelhos dela. Ela olhou pra mim e me puxou um pouco mais forte, forçando-me a abrir as pernas, sentando no colo dela. Ficamos frente a frente e ela colocou o meu cabelo para trás da orelha, enquanto me olhava e dizia:

- Lembra quando nos encontramos pela primeira vez? E eu disse que queria ver você voltar a sorrir? - perguntou ela.

- Lembro - respondi.

- Será que vou ter que dizer de novo? - indagou.

- Não é fácil, sabia? - disse eu.

- Eu sei, mas promete que vai se esforçar?

- Prometo - eu disse, erguendo a coluna e colocando a mão no peito em sinal de compromisso.

Ela passou a mão pela minha cintura e foi subindo pelas minhas costas até chegar a minha nuca. Meu corpo ficou arrepiado, não sei se por desejo ou pela sensação há tempos não sentida.

Ela aproximou meu rosto do dela de forma que nossas bocas ficassem separadas por alguns poucos centímetros, o suficiente para permitir que ela dissesse:

- Deixa eu te ajudar? - sussurrou.

Nossos rostos estavam tão perto que eu podia sentir a respiração dela esquentando o meu nariz. As mãos dela passeavam nas minhas costas, o que foi me deixando entorpecida.

O medo de me arrepender como na primeira vez em que isso aconteceu fez com que meu corpo se enrijecesse e fiz menção de recuar, mas fui impedida pela mão dela que a esta altura havia estacionado no meu pescoço.

Embora minha mente fizesse meu corpo vacilar, ele queria seguir adiante e eu já sentia o meu short emprestado ser tomado por um líquido viscoso.

Talvez fosse a hora de tirar a prova dos nove, resolvi me dar uma chance.

Encostei meus lábios nos dela e fui beijada com vontade. No entanto, minha resposta foi tímida, meio desconfiada.

Ela parou, segurou meu rosto e perguntou:

- Você tá bem?

Aquele cuidado me deixou mais à vontade. Naquele momento era só o que eu precisava, de alguém que me quisesse de verdade.

 

Notas finais:

Alguém tava precisando de colo e outras "cositas más"... O que vocês acham de Solange fazer Luisa se sebtirviva novamente?!

Capitulo 3 - Como essa noite findará e o sol então rebrilhará por Poracaso

Quando amanheceu, nós estávamos no chão da sala. Acordei incomodada pelo sol que entrava pela fresta da cortina e se acomodava justamente em meu rosto.

Olhei para o lado e Solange dormia, acomodada em uma almofada. Olhei pra ela e agradeci em silêncio pela paciência que fez com que aquela noite acontecesse.

Antes de tomar uma atitude em prol do nosso conforto, me certifiquei de que meu cérebro estava devidamente acordado e resolvi tentar entender se havia em mim alguma ponta de arrependimento.

Não. Não havia arrependimento, mas uma insegurança de quem tinha acabado de romper uma fronteira e pisar em terras desconhecidas. Isso me deixava inquieta e ansiosa. Fazendo um balanço do que havia acontecido, a conclusão era de que a noite tinha sido ótima. Solange parecia ter lido o meu manual de instrução. Ao mesmo tempo em que tudo correu de forma muito natural, parecia que cada movimento havia sido ensaiado para não dar errado, para não me tirar do eixo.

E funcionou.

Funcionamos.

Acho que foi bom para nós duas. Eu estava precisando desencantar e Solange era a pessoa certa para isso.

O que eu tinha agora era uma sensação egoísta de dia seguinte, completamente atípica em relação a mim. Não sei definir, mas parecia descompromisso.

Na verdade, eu nunca em minha vida havia passado uma noite com alguém com a qual não tivesse certeza do que queria. E agora eu estava justamente na situação oposta. Não sabia o que era aquilo e a sensação de ter sido uma transa me deixava incomodada, mas, ao mesmo tempo, não queria entrar numa relação agora.

Estava incomodada por mim e por ela, embora também não soubesse o que aquilo significava para ela.

Pela primeira vez na vida, talvez tivesse sido somente sexo e mais nada.

Quanto mais eu pensava, mais sentia minha cabeça esquentar. Pela situação em si e pelo sol que batia cada vez mais forte no meu rosto.

O desconforto àquela altura já era interno e externo. Olhei para Solange e pensei em acordá-la para irmos para a cama, no entanto não sabia se queria enfrentar o dia seguinte tão cedo, às 7h da manhã.

A coisa certa a fazer venceu mais uma vez, até porque, independente do que fosse daqui para frente, a noite tinha sido ótima e até então ela era a pessoa mais correta que havia aparecido na minha vida nos últimos sete anos. Passei a mão pelos cabelos dela e ela se mexeu, mas não abriu os olhos. Então, aproximei-me mais um pouco e beijei-lhe o ombro e depois o pescoço.

Ela abriu os olhos e a primeira coisa que disse foi:

- Está tudo bem com você?

- Está, sim - Disse sorrindo, enquanto procurava uma posição mais confortável no chão duro.

- Que bom acordar com você rindo! - Ela disse, erguendo a cabeça e apoiando-a sobre a mão.

- Te acordei para irmos para a cama porque esse sol tá me incomodando! - reclamei.

- Seu desejo é uma ordem. Ainda está cedo e hoje é domingo, dia de ficar na cama até mais tarde. Vamos!

Ela levantou e me deu as mãos para me ajudar a sair da horizontal. Me ergui, catando as roupas jogadas no chão. Ela olhou pra mim e disse:

- Prefiro você sem - falou apontando para as roupas em minhas mãos.

- Ainda bem, porque não pretendo colocá-las agora - disse, abraçando ela.

Ela estava de camiseta e calcinha, mas mesmo assim pude sentir os seios dela tocando os meus. Durante o abraço, ela alisou minhas costas, afagou meu cabelo e fomos andando abraçadas para a cama. Ela ligou o ar-condicionado e nos enfiamos embaixo do edredom. Deitei de bruços e ela passou a mão nas minhas costas, como se estivesse fazendo um desenho. Adormeci rápido, vencida pelo carinho.

Acordei de novo às 11h da manhã e, quando procurei Solange ao meu lado, ela não estava mais. Levantei, arrastando o edredom como se fosse um vestido e segui o barulho que vinha da cozinha.

Achei ela montando um prato que parecia saído de um programa de receitas da GNT. Quando ela me viu, tirou os olhos do alface que segurava e disse:

- Bonito vestido, vai sair?

- Engraçadinha. Que cheiro bom! O que é isso? - perguntei, roubando uma azeitona.

Ela bateu na minha mão, em sinal de repreensão.

- Nosso almoço. Salada e salmão grelhado. O que você acha? - perguntou.

- Eu acho fantástico, até porque estou morrendo de fome - respondi pegando uma folha de alface.

- Então senta aí, que o almoço já vai sair - avisou ela.

 

Notas finais:

Nada como um dia após o outro, não é meninas!?

Capitulo 4 - Então tá combinado, é quase nada, é tudo somente sexo e amizade por Poracaso

Nosso almoço foi regado a uma conversa completamente descomprometida sobre literatura e cinema. Fizemos listas de filmes e livros imperdíveis e dividimos sinopses.

Findado o almoço, fui lavar a louça e, só aí, me dei conta de que continuava vestindo o edredom. Mas a essa altura já me sentia absolutamente confortável naquela situação, a não ser pela incerteza da definição do que era aquilo.

Como se soubesse por onde caminhavam meus pensamentos, ela me fez sentar à mesa novamente, me ofereceu um chá e falou:

- Lu, qual o motivo da sua aflição?

- Eu não estou aflita - tentei esconder.

- Tem certeza? - quis confirmar.

- Olha, Solange... - disse, baixando a cabeça e rodando a xícara com os dedos. - Eu não sou desse tipo de mulher que passa uma noite e pronto, sabe? - me expliquei.

Ela riu, condescendente.

- E se fosse? Lu, nós somos adultas e, nesse caso, sabemos exatamente onde estamos nos metendo. Estou aqui porque eu quero e espero que você também! - falou, aguardando uma resposta.

- Claro! Mas fico preocupada porque...- quis continuar, mas fui interrompida.

- Psiu, psiu, psiu. Lu, para. Sei que você está confusa e não estou te cobrando nada. Só quero que você consiga relaxar! - disse ela, me impedindo de rodar a xícara mais uma vez.

- Desculpa - disse, segurando a mão dela.

- Não precisa se desculpar. Me prometa apenas que vai viver um dia de cada vez! - pediu ela.

- Vou tentar - disse.

Levantei e fui tomar banho. Sai do banheiro de biquíni e a primeira reação de Solange foi perguntar:

- Vamos para a praia?

- Não, mas essa é a única roupa que eu tenho! - falei rindo.

- Seu guarda roupa está interessante: um biquíni, roupas emprestadas e um vestido de edredom. É, acho que as nossas opções de lugares para onde ir estão bem restritas. - brincou.

- Pois é, sendo assim, me resta ir pra casa - falei, colocando o short do dia anterior.

- Bom, você quem sabe. Se quiser, podemos ficar por aqui - sugeriu ela.

- Obrigada, mas acho que tenho que ir pra casa. Preciso colocar algumas coisas em ordem - falei.

- OK. Se quiser companhia, é só ligar - disse ela, beijando a minha boca suavemente, sem que eu oferecesse qualquer resistência.

Ela ficou esperando até que o elevador chegasse. Quando a porta abriu, voltei rapidinho para roubar um beijo e me despedir com uma piscada.

 

Notas finais:

Luisa estava precisando deixar a tensão de lado e apenas viver. Um pouco de carinho às vezes cai bem, né meninas?

Capitulo 5 - Eu não te peço muita coisa, só uma chance (me liga) por Poracaso

Cheguei em casa e, quando abri meu computador, a sensação que eu tive foi que tinha me ausentado do mundo durante um mês. Existiam mais de 100 mensagens no meu e-mail, entre propagandas nada segmentadas, tipo "aumente seu pênis" - logo pra mim, que nem tinha e nem gostava -, e coisas de trabalho.

Tentei colocar tudo em dia, focar numa coisa que desse resultado e me mantivesse distante das questões ético-emocionais que me rondavam naquele momento. Já era noite quando consegui acabar tudo o que a minha caixa de entrada me solicitava.

Quando terminei, estava exausta e com fome. Olhei para mim e percebi que ainda estava de biquíni. Subi as escadas correndo para me livrar daquelas roupas e entrei no banheiro já me desfazendo delas. Estava embaixo do chuveiro quando escutei o telefone tocar. Não me apressei. Ele tocou diversas vezes e depois de tanta insistência eu já tinha certeza que só podia ser minha mãe. Isso me fez demorar ainda mais no banho. Desde que eu e Carol tínhamos nos separado, minha mãe estava ainda mais controladora, me tratando como se eu fosse uma adolescente descompensada. Resolvi então que ficaria mais alguns minutos no banho.

Estava vestindo roupas dignas depois de 24h, quando o interfone tocou. Atendi e o porteiro anunciou Solange. Liberei sua entrada e em alguns minutos ela tocou a campainha.

- Oi! - disse eu, surpresa pela visita inesperada. - Entra - disse, escancarando a porta.

- Desculpa, Lu, aparecer assim sem avisar, mas é que liguei aqui para sua casa várias vezes e você não atendeu - explicou.

- É que eu estava no banho! - disse, ficando um pouco assustada com a situação. Eu não atendo ao telefone e ela vem até a minha casa, assim, imediatamente? Isso me parecia um pouco obsessivo.

- Lu, é que você esqueceu o celular na minha casa e ele tocou várias vezes. Liguei pra cá para te avisar, mas você não atendeu. Como as ligações eram todas da mesma pessoa, fiquei preocupada e resolvi vir te entregar - esclareceu ela.

- Ai, Solange, desculpa - disse eu, colocando as mãos na cabeça - Minha mãe às vezes não tem limites. Liga até eu atender - expliquei.

- Só que não era sua mãe, Lu - disse, me entregando o telefone com cara apreensiva. - Era Carol.

Peguei o telefone, desbloqueei o aparelho e vi 35 ligações não atendidas registradas.

- Não quero falar com ela - disse eu, categórica.

- Lu, podemos conversar um pouco? - disse ela, olhando para o sofá.

- Claro, fique à vontade - disse, sentando com ela.

- Lu, você não acha que devia ligar e ouvir o que ela tem a dizer?- perguntou.

- Olha, Solange, se é sobre isso que você quer conversar, acho que vou ter que pedir a você que vá embora - falei, áspera.

- Bom, só queria te ajudar - disse ela, se levantando.

- Eu, francamente, não entendo. Eu devo ser muito ruim de cama, viu? Você passa a noite comigo e vem na minha casa mandar eu ligar para minha ex - disse de costas pra ela.

Quando acabei a frase, ouvi o barulho da porta batendo nas minhas costas. Quando virei, ela não estava mais lá.

Abri a porta correndo, a tempo de encontrá-la esperando o elevador.

Ela me olhou magoada, enquanto eu pedia:

- Desculpa, por favor!

- Não, Luísa, não desculpo, não. Mas entendo você - falou enquanto a porta do elevador se abria.

- Não vai embora. Volta, por favor - pedi, quase numa prece.

Ela soltou o botão que mantinha a porta do elevador aberta, deixando que ele partisse vazio. Então, entrou de volta no meu apartamento, enquanto eu fechava a porta num suspiro aliviado.

Ela parou no meio da minha sala como se esperasse o próximo comando. Eu, então, disse:

- Você não quer sentar?

- Não. Voltei apenas para escutar o que você tem a dizer sobre o que acabou de acontecer - cobrou ela.

- Desculpa, falei sem querer - disse.

- Não, Luísa, não foi sem querer. Você disse exatamente o que você quis, como você quis - decretou.

- Você tem razão. Estou insegura e acabei descontando em você - justifiquei.

Ela sentou como se enfim tivesse escutado algo que fazia sentido e pelo que ela esperava desde o começo. Fez sinal para que eu sentasse junto dela, mas eu não atendi. Sentia como se qualquer aproximação pudesse ameaçar a minha integridade ou a dela. Ela pareceu entender o recado:

- Lu, senta. Eu não vou te fazer mal. Sou eu. Confie em mim - falou com um carinho que me fez lembrar a noite anterior.

Sentei ao lado dela, mas guardei uma certa distância.

- Lu, olha só, o que eu vim fazer aqui não tem nada a ver com o que aconteceu entre a gente. Eu gosto muito de você e estou pronta para viver isso. Mas acho que você não está. Quero te ajudar, seja lá qual for nosso final - falou olhando diretamente pra mim, enquanto eu abaixava os olhos, num misto de vergonha e fragilidade.

- Então foi só uma noite né? Devo ser um troféu na sua estante - falei sem pensar no que estava dizendo.

- Luísa, acho que seria mais digno da sua parte ter me deixado ir embora. Você tem certeza que me pediu pra ficar pra me dizer isso? - perguntou.

- Desculpa - pedi sem jeito.

- Quantas vezes você pretende me pedir desculpas? - falou ela com firmeza, levantando e me olhando de cima.

Eu me encolhi no canto do sofá, como um animal encurralado.

Comecei a chorar. Soluçava sem controle. Tudo que eu não queria era isso.

Ela sentou bem perto de mim e tentou fazer com que eu soltasse minhas pernas e saísse da posição fetal na qual me encontrava.

Ela me colocou sentada no colo dela e encostou minha cabeça no seu ombro e disse:

- Lu, eu só quero que você fique bem. Não estou te jogando pra cima de ninguém, mas acho que você precisa aprender a concluir as coisas, fechar os ciclos. É só isso, não tem nada a ver com a nossa noite. O que aconteceu ontem foi como um sonho. Foi ótimo, você é ótima de cama! - falou ela, tirando meu cabelo que estava grudado no rosto por causa das lágrimas e me beijando suavemente.

Soltei um riso tímido e segurei o braço dela.

- Vou te botar na cama. Vamos lá? - chamou.

Levantei e subi as escadas, segurando a mão dela atrás de mim.

Ela me deitou na cama, ligou o ar-condicionado, colocou o edredom em cima de mim, me deu um beijo no rosto e disse:

- Fica bem!

A ideia de ficar sozinha era a morte pra mim. Não queria enfrentar a noite, os pesadelos, o medo, tudo, sozinha. Eu segurei o braço dela tão forte que acho até que a machuquei.

- Que foi? - perguntou.

- Fica comigo - pedi.

- Fico sim, eu vou em casa rápido pegar uma roupa pra poder ir para o trabalho amanhã e volto, pode ser?- perguntou.

- Quanto tempo? - perguntei.

- Em 30 minutos, no máximo, estou de volta - calculou ela.

- Posso ir com você? - perguntei, sem querer ficar ali, só.

- Meu amor, você já está de pijama, eu volto rápido - prometeu ela.

- Tá bom - concordei.

Assim que ela saiu comecei a chorar novamente e assim fiquei até ela voltar.

- Meu amor, o que aconteceu? - perguntou olhando para meu rosto vermelho e meus olhos inchados.

- Você demorou - disse.

- Desculpe, peguei um pouco de trânsito. Mas eu cheguei. Você jantou? Quer comer alguma coisa?

- Não quero nada - respondi.

- Eu vou fazer um chá pra você - sugeriu.

- Tá - concordei.

Acordei gritando por causa de um pesadelo.

Solange subiu as escadas correndo e me encontrou mais uma vez chorando.

- O que foi, Lu? - perguntou me abraçando.

- Você prometeu que não ia me deixar só! - disse nervosa.

- E não deixei. Estava no sofá, lá embaixo - explicou.

- Fica aqui comigo? - pedi.

- Claro, meu amor - aceitou.

Ela deitou ao meu lado embaixo do edredom e colocou minha cabeça em cima do ombro dela, como se fosse um travesseiro.

Consegui dormir relativamente bem, com algumas intercorrências de um ou outro pesadelo.

Acordamos cedo, tomamos café da manhã juntas e saímos na mesma hora para trabalhar. Eu estava cansada da noite anterior e Solange também não parecia ter tido a melhor noite da vida dela, mas agia como se tivesse dormido em lençol 200 fios.

 

Notas finais:

Meninas, estamos vendo que não está sendo fácil para Luisa, mas o que eu gostaria de saber é:

vocês acham que Solange está certa ou Luisa não deveria ligar para Carol e apenas tentar esquecer?

Capitulo 6 - Veja bem, meu bem, sinto te informar que arranjei alguém pra me confortar por Poracaso

No fim do dia, parecia que eu tinha sido atropelada por uma máquina de asfalto. Daquelas que tem um rolo compressor. Tudo em mim doía.

Solange me ligou e marcamos de tomar um café numa livraria perto do trabalho dela. Conversamos um bom tempo e ela me perguntou se eu tinha condições de dormir sozinha.

Eu não tinha, mas também não tinha coragem de pedir a ela para dormir comigo outra noite. Não precisou.

- Você quer que eu durma lá com você? - ofereceu ela.

- Não quero dar trabalho - respondi.

- Não é trabalho nenhum. Tenho roupa no carro, se você quiser, eu vou - falou.

- Eu quero. Prometo que não vou repetir a noite de ontem - disse envergonhada.

- E se repetir, qual é o problema? - quis saber.

- Você ficar outra noite sem dormir, esse é o problema - expliquei.

- Tenho tantas noites pra dormir, não vejo mal nenhum em perder algumas - riu ela.

Pagamos a conta e saímos. Chegamos em casa e fui tomar banho enquanto ela preparava um café pra ela e um chá pra mim.

Saí do banho e a mesa já estava posta. Tinha chá, café, torradas e biscoito doce. Olhei aquilo e disse:

- De onde veio tudo isso?

- Da padaria. Passei lá antes de encontrar você. Ia levar pra casa, mas como vim pra cá... - explicou

Conversávamos sobre amenidades na varanda, até que fomos interrompidas pelo meu celular.

Era Carol.

Solange olhou para o telefone em cima da mesa, mas não falou nada. Esperou que eu tomasse uma decisão. Mas o que fiz foi virar o visor do telefone de cabeça para baixo, colocar no silencioso e continuar falando. Ela, por sua vez, não questionou, seguiu conversando. Assim como Carol seguiu ligando.

Foram mais 12 ligações não atendidas antes de subirmos para deitar. Solange não insistiu mais para ficar no sofá e eu gostei que ela ficasse na cama. Me sentia mais segura assim.

Os outros dias da semana seguiram-se exatamente iguais. Dormi acompanhada por Solange todos os dias. Meu sono foi ficando mais tranquilo e eu já me sentia mais confiante.

O curioso é que em nenhum desses dias fizemos outra coisa a não ser dormir juntas.

Vez por outra, ainda trocávamos um beijo, mas nada que passasse para a fronteira do sexual.

 

Notas finais:

Desculpem o atraso dessa semana, meninas. Postarei outro capítulo mais cedo para compensar. Espero que gostem!

Capitulo 7 - O ciúme lançou sua flecha preta e se viu ferido justo na garganta por Poracaso

Na sexta-feira, Marcos e Marina foram jantar conosco lá em casa e conversamos até as 3h da manhã. Eu e Solange acordamos cedo para caminhar na praia e, enquanto eu me arrumava no quarto, ela preparava o café.

A campainha tocou e eu gritei para Solange atender, porque ainda estava amarrando meu biquíni. Acabei de me trocar e desci correndo as escadas, elogiando o cheiro que vinha da cozinha.

Quando cheguei embaixo, Carol e Solange estavam paradas no meio da sala. Fui baixando o tom de voz, como uma vitrola com rotação lenta.

Solange me olhou, enquanto Carol me analisava criteriosamente e dizia com ironia:

- Vocês fazem um bonito casal!

- Vou deixar vocês a sós - disse Solange

- Você não vai sair daqui - eu disse, olhando para ela.

- Lu, é melhor que essa conversa seja somente entre vocês - disse ela.

- Não quero ficar sozinha com ela - eu disse.

- Não é possível que você não consiga ficar longe da sua namoradinha nova alguns minutos - continuou Carol.

- Odeio você - gritei com raiva.

Solange me segurou e me sentou no sofá, enquanto Carol permanecia em pé no centro da sala.

- Carolina - falou Solange. - Acho que você veio aqui por um motivo e, realmente, não creio que seja agredir ninguém nem piorar a sua situação. Então, esfrie sua cabeça e comece de novo. Eu disse a você que não perdoaria você uma segunda vez, lembra? - concluiu.

- Desculpem, fui infantil. Me desculpem de verdade - falou Carol. - Luísa, eu só quero conversar com você e só vim até aqui porque te ligo há uma semana e você não me atende - contemporizou Carol.

- Mas eu não tenho o que falar com você - insisti.

- Lu, olha só - disse Solange se aproximando de mim - você não acha que é melhor vocês conversarem e resolverem logo tudo que têm pendente? - perguntou.

Eu comecei a chorar e me abracei com ela. A essa altura, Carol olhava pra nós, complacente, a espera de uma definição.

Diante do impasse, Carol se aproximou, abaixou-se de modo a ficar na mesma altura em que estávamos e disse:

- Solange, se você não se importar, não tenho qualquer problema em que permaneça aqui enquanto conversamos. Acho que dessa forma Luísa vai ficar mais tranquila - propôs ela.

- Lu? - disse Solange, segurando meu rosto.

Fiz que sim com a cabeça e então ela disse:

- Vamos fazer assim, eu vou ficar lá em cima e qualquer coisa é só você me chamar, OK? - sugeriu ela.

- Tá - respondi enxugando as lágrimas.

Ela me deu um beijo na testa, e sussurrou no meu ouvido:

- Qualquer coisa é só chamar!

Enquanto Solange subia as escadas, Carol tomava assento no sofá.

 

Capitulo 8 - Diga que já não me quer, negue que me pertenceu por Poracaso

Quando ela sentou eu recuei um pouco instintivamente. Ela então perguntou:

- Você quer que eu sente no chão?

- Não precisa - disse fungando.

Então, ela começou:

- Luísa, queria conversar sobre o que aconteceu lá em Londres...

- Eu sei exatamente o que aconteceu e não adianta você querer me enganar.

- Meu bem, veja só, me deixe falar, ai depois você diz o que quiser, tá certo? - pediu.

Não respondi e limitei-me a enxugar, com a mão, o nariz que insistia em escorrer, mas não mais a interrompi.

- Eu sei que o que aconteceu não tem explicação, nem pretendo arrumar uma. Quero apenas que saiba que foi uma mistura de carência, bebedeiras e fraqueza - disse com as lágrimas escorrendo. - A ideia de viver sem você me mata por dentro e por fora. Você é a minha história perfeita, meu plano bem sucedido. É a mulher que eu sempre quis pra construir uma família, para envelhecer comigo. Peço que reconsidere sua decisão em relação a mim, em relação a nós, que deixe eu te mostrar que eu errei, mas que quero consertar, por favor - concluiu.

Eu tinha permanecido de cabeça baixa enquanto ela falava e as lágrimas já tinham formado uma grande mancha no sofá, logo à frente das minhas pernas que estavam cruzadas em posição de yoga.

Ela, ao contrário, olhava fixamente pra mim, em busca dos meus olhos. Mesmo sem vê-la, podia ouvir sua voz embargada e já fanhosa pelo choro contido.

Quando ela parou de falar, ficamos algum tempo em silêncio até que ergui a cabeça. Meus olhos encharcados cruzaram com os dela, que me olhavam como no dia em que acordei gritando no meio da noite na casa dela.

- Ainda está doendo demais - eu disse aos soluços.

- Lu, você não precisa responder agora. A gente pode ir conversando, retomando aos poucos o contato - sugeriu.

- Mas eu não sei se eu quero. Não sei se consigo fazer isso - duvidei.

- Meu bem, você está confusa, normal. Estamos vivendo uma situação de estresse, não se cobre - disse ela, segurando minhas mãos.

Eu puxei as mãos e ela me olhou como se tivéssemos voltado à estaca zero.

- Lu, veja só, vamos combinar uma coisa então. Você me promete que vai atender minhas ligações, aí nós vamos nos falando e quando você estiver mais segura a gente se encontra, o que você acha? - propôs.

Balancei a cabeça concordando, mas ainda soluçava sem conseguir conter o choro.

Ela se aproximou para me abraçar, mas eu consegui escapar. Ela então levantou, foi até a cozinha e voltou com um copo d'água, o qual me entregou. Ela afagou meus cabelos e subiu em direção ao meu quarto. Pude ver ela e Solange conversando como se fossem amigas. Ver aquilo me lembrou o quanto eu ainda precisava amadurecer. Elas desceram as escadas juntas e se aproximaram de mim. Carol então beijou minha cabeça e disse:

- Fica bem!

Solange sentou ao meu lado e eu me atirei nos braços dela, enquanto Carol se dirigia à porta. Ela já estava quase com a mão na maçaneta quando voltou pra perto de nós, dirigiu-se à Solange e perguntou:

- Você vai ficar por aqui? Digo, vai dormir aqui?

- Tenho feio isso há uma semana - respondeu ela sem me soltar do abraço.

- OK. Não deixe ela só, por favor - pediu.

- Não vou deixar - disse.

- Obrigada - agradeceu Carol.

Escutei ela fechando a porta, mas continuei abraçada com Solange, que sugeriu:

- Lu, por que a gente não come alguma coisa, vai pra praia, fica um pouco lá sentada, toma uma água de coco, depois a gente almoça e volta pra casa? O que você acha?

- Pode ser - respondi, me soltando dela.

 

Notas finais:

Será que a confiança de Luisa será reconquisyada?

Capitulo 9 - Preciso descobrir, no último momento, um tempo que refaz o que desfez por Poracaso

Quando sentamos na praia, falei:

- Acho que você tinha razão. Essa conversa era necessária, mesmo que doesse.

- Talvez ainda doa durante um tempo, mas depois essa dor fará parte do passado, vai virar lembrança - disse ela.

- Você acha que ela me ama? - perguntei.

- Lu, sentimento é sempre um assunto delicado. E nesse caso, tentarei dar uma resposta imparcial, OK? - falou.

- Desculpa. Não precisa responder - falei, envergonhada pela pergunta.

- Respondo com o maior prazer. Sabe, Lu, tenho muitos anos de estrada, estou nessa vida há mais tempo do que vocês duas juntas - disse ela, rindo - Então, alguns pudores já não me pertencem. Gostaria muito de ter você comigo, mas tenho consciência de que o que é bom tem que ser inteiro e eu sei que não posso te ter assim hoje. Seria paciente e esperaria o tempo que fosse preciso se tivesse certeza que um dia teria você toda pra mim. Acontece que você não pode me dar essa garantia e eu entendo. Mas, voltando ao que você me perguntou... acho que ela te ama sim.

- Mas se amasse de verdade não teria me traído - argumentei.

- Até entendo o seu raciocínio, mas a vida real não funciona desse jeito, né? As pessoas são falíveis, erram, são humanas. Acontece, Lu! E não acho, sinceramente, que isso queira dizer que ela não te ame, não te deseje. Acho que isso quer dizer apenas que ela foi fraca - justificou.

- O que você faria? - quis saber.

- Perdoaria. Pagaria pra ver - respondeu ela.

- E se acontecesse de novo? - perguntei.

- Eu teria tentado - respondeu, categórica.

- E teria se machucado novamente - disse.

- E quem garante que não teria sofrido mais se não tivesse tentado? - rebateu. Como eu disse, sentimento é um assunto complicado - completou ela.

- Muito - ri.

 

Notas finais:

Seria Solange a voz da razão? 

Capitulo 10 - Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, tempo tempo tempo tempo, quando o tempo for propício por Poracaso

No sábado, Solange dormiu em minha casa como havia prometido, mas, no domingo, achei por bem liberá-la desta obrigação, que mesmo ela dizendo que fazia com prazer, me sentia abusando da sua boa vontade.

Ela foi para casa, mas ligava pra mim várias vezes por dia pra se assegurar que estava tudo bem.

A semana começou atribulada. No final da segunda-feira, a sensação que eu tinha era que já era sexta, tal o meu nível de estresse.

Saí do trabalho e liguei para Marcos e Marina. Nos encontramos no bar de sempre. A conclusão que chegamos é que a situação era grave, pois estávamos fazendo um happy hour em plena segunda-feira, mas como a sensação era de sexta-feira, estávamos dentro da margem de erro.

Consegui passar em branco naquela noite. A grande estrela foi Marina, que trouxe uma história daquelas de que só Marina conseguia ser personagem. Dessa vez, ela tinha arrumado um pretendente no cemitério, durante um enterro. O que me provou, mais uma vez, que o destino pode se atravessar na nossa frente a qualquer momento e em qualquer lugar.

Eu e Marcos tentávamos acompanhar a história de Marina, mas confesso que a narrativa parecia cada vez mais surreal. Enquanto eu me esforçava para não perder o fio da meada, meu celular interrompeu a conversa.

- Alô?

- Oi Lu, tudo bem? - perguntou Carol.

- Tudo - respondi sem saber muito bem ainda como lidar com essa nova situação, na qual não éramos oficialmente nada, mas também não agíamos mais como inimigas.

Marina fazia movimentos labiais perguntando quem era. Quando respondi, ela e Marcos começaram a prestar atenção em cada palavra que eu dizia.

- Você já está em casa? - quis saber.

- Não. Estou acompanhando Marcos e Marina numa cerveja - respondi.

- Será que eu podia ver você? - ela perguntou.

- Agora? - respondi sem saber o que dizer.

Olhei para os meninos como se precisasse de ajuda para responder. Os dois, então, fizeram sinal para que eu dissesse que sim.

- Bom, pode, você encontra a gente aqui? - quis saber.

- Sim. Vocês estão no lugar de sempre? - perguntou.

- Estamos - confirmei.

- Em 10 minutos chego ai - falou.

Bastou eu desligar o telefone para os dois dizerem que eu devia dar uma chance a Carol. Eu expus meus argumentos e então concluímos que o melhor era ir devagar para ver no que dava.

Carol chegou rápido, falou com os meninos, me cumprimentou com um beijo no rosto e sentou na cadeira ao meu lado. Marina perguntou se ela queria tomar uma cerveja, mas ela recusou sob o argumento de que estava dirigindo. Ela ficou por lá cerca de 1 hora e se despediu, alegando que já estava tarde e que no dia seguinte teria que acordar cedo para dar aula.

Novamente se despediu de mim com um beijo no rosto e antes de ir embora me perguntou:

- Solange vai dormir na sua casa?

- Não - respondi.

- Você vai ficar bem sozinha? - questionou.

- Ainda não sei, mas na dúvida, só pretendo sair daqui quando estiver com muito sono - esclareci.

- Por que você não liga pra Solange e pede a ela pra ir ficar com você? - sugeriu.

Ao ouvir essa frase, Marcos e Marina não conseguiram disfarçar a surpresa e olharam para Carol como se tivessem acabado de escutar uma aberração.

E, de fato, essa frase era, no mínimo, inusitada, vinda de Carol.

Diante dos olhares espantados, Carol tentou se explicar.

- Bom, eu estou à disposição e gostaria de poder ajudar, mas não sei se você se sentiria à vontade, então...

Os olhares agora se voltavam para mim, à espera da minha resposta.

- Olha, acho que vou ficar bem sozinha, mas obrigada pela preocupação - respondi abraçando-a.

Ela então se despediu e partiu.

Não preciso nem dizer que essa história rendeu o resto da noite. E a conclusão foi que ela, de fato, estava tentando de todas as formas se redimir. Estava tão empenhada, que o altruísmo tornou-se sua principal característica.

Eu continuava reticente quanto à decisão de reatar, no entanto, reconhecia os esforços dela.

Voltei para casa e desabei na cama. Acordei duas vezes durante a madrugada, mas no geral o saldo desta primeira noite foi positivo.

No outro dia, Carol mandou uma mensagem na hora do almoço, perguntando se eu tinha algo marcado para mais tarde. Eu respondi que não e ela perguntou se podíamos jantar juntas. Enquanto eu pensava no que responder, Solange me ligou perguntando como as coisas estavam indo. Eu então contei da noite anterior e do convite para logo mais, de modo a colocá-la a par das novidades. Ela então disse:

- Quer saber minha opinião?

Na verdade era tudo que eu queria, mas não tive coragem de perguntar para não parecer folgada, mais do que já estava me sentindo!

- Sim - respondi.

- Acho que você deve aceitar.

- Mas não é muito cedo?

- Vê qual é, Lu. Concordo que você deva ir devagar, mas precisa dar espaço para ela tentar, ou então, nunca vai saber o final da história. Você só vai até onde quiser.

- Obrigada viu? Não sei nem como te agradecer.

- Não precisa agradecer. Só quero te ver feliz. Assim que puder me dê notícias, ok?

- Dou sim. Pode deixar!

Desliguei o telefone, escrevi sim e apertei o botão enviar. Imediatamente, ela respondeu:

- Às 21h, na sua casa? Eu levo a comida.

Acho que eu preferia um local público, do qual pudesse sair a qualquer momento. Ainda me sentia pouco à vontade em recebê-la sozinha na minha casa.

- Pensei em alguma coisa mais cedo, em outro lugar - respondi tentando me proteger de algo que se parecesse com um encontro.

- Por mim tudo bem, você tem alguma sugestão? - perguntou.

- O que você acha do café da livraria? - perguntei.

- Acho ótimo! Às 19h fica bom pra você? - quis saber.

- Pode ser, vou daqui do escritório direto.

- Então, até mais tarde - despediu-se.

- Um beijo - soltei, meio sem graça.

 

Capitulo 11 - Pra que mentir, fingir que perdoou, tentar ficar amigos sem rancor por Poracaso

Acabei me atrasando para sair do escritório e, quando cheguei ao café, Carol já estava lá.

- Desculpa pelo atraso! - pedi.

- Fique tranquila, imaginei que tivesse tido problemas para sair do escritório. - riu ela, levantando-se e me abraçando.

Sentei na cadeira à frente dela e abri o cardápio em busca de algo que matasse minha fome, mas, principalmente, fugindo de encará-la diretamente. Penso que minha indiscrição foi tanta, que ela, ao perceber minha movimentação, disparou:

- Muita fome?

- É que só comi uma salada no almoço e como já são quase 8 da noite... - tentei disfarçar.

- Quer pedir logo, então? - perguntou ela também disfarçando.

- Se você não se importar? É que também não queria demorar muito. Estou cansada - emendei.

- Você quer ir embora? Podemos marcar para outro dia? - perguntou, conciliadora.

- Não, desculpa. Só estou cansada do dia - expliquei.

- Lu, a gente fica até a hora que você quiser - disse ela, colocando a mão sobre a minha, como se tentasse conter minha agitação.

- Obrigada. Você já escolheu? - perguntei, mudando de assunto, aproveitando para tirar a minha mão de baixo da dela, com medo de me deixar levar por aquele cuidado quase maternal que me fazia baixar a guarda.

- Eu vou querer o de sempre e você? - quis saber.

- Também!

Ela então chamou o garçom e pediu com total certeza, sem que eu precisasse dizer uma só palavra:

- Um chá preto de limão, um quiche de alho poró, uma soda italiana de maçã verde e um sanduíche de queijo do reino.

Ela perguntou como tinha sido meu dia, eu fiz um breve relato sobre isso e, em seguida, emendamos uma conversa sobre um livro que ela estava lendo.

Levantei para ir ao banheiro e quando voltei vi que havia um homem em pé ao lado da nossa mesa, conversando com Carol. Como não conhecia, não quis me aproximar, e fui até o balcão, junto da mesa, pedir uma água. De lá, pude escutar uma parte da conversa, em que ele perguntava sobre Mariana e sobre "como tinham ficado as coisas entre elas".

Ouvir aquilo foi como um banho de água fria, como se eu tivesse sido novamente tragada pela realidade. Me concentrei na resposta dela: "não tivemos mais contato desde antes de eu sair de Londres. Isso pra mim é página virada". Tive medo de ela ter me visto e só ter dito isso para tentar me convencer. Bom, àquela altura, não sabia mais qual era o meu próximo passo. Na dúvida, voltei para a mesa.

- Lu, lembra de Chico? Vocês se conheceram quando você esteve lá em Londres - apresentou ela.

Lembrei. Era o amigo da tal mulher.

- Lembro sim. Tudo bem? - perguntei, cumprimentando-o.

- Tudo ótimo. Não tinha reparado como você é linda! - observou ele.

- Obrigada! - eu disse sentando na cadeira, sem saber o que aquela frase queria dizer. Seria um conforto, tipo: você foi traída, mas o que isso importa, você é linda!; ou se era uma constatação, tipo: gente, com essa mulher linda, por que ela foi procurar outra?

Seja lá o que fosse, uma coisa era oficial, eu havia sido traída e as pessoas sabiam disso.

Eles se despediram e Chico foi embora. A partir dali, a noite não seria mais a mesma.

A comida chegou e remexi no prato calada e assim fiquei o resto da noite. Minha cabeça tentava processar a retomada de uma história que eu já estava há tanto tempo tentando esquecer ou, pelo menos, superar.

Carol tentou puxar conversa de todas as formas:

- A comida não está boa?

- Perdi a fome - respondi

- Mas você estava morrendo de fome, Lu! - observou.

- Foi, mas passou - disse já sem muita paciência.

- Tome pelo menos o chá, você está sem comer desde o almoço! - disse ela.

- Já disse que não estou com fome - falei empurrando o prato.

- OK. Vou pedir para embalar, aí você leva e, se tiver fome, come mais tarde, tá bom? - sugeriu.

- Vou à livraria ver se tem um livro e já volto - falei, sem responder à pergunta dela.

- OK - disse ela.

Voltei depois de 20 minutos folheando livros diversos, até me pegar com um sobre raças raras de cães. Carol já havia acabado de comer. Quando sentei ela disse:

- Lu, o que está acontecendo? Sei que você está cansada e tal, mas, além disso, tem mais alguma coisa? - perguntou desconfiada.

- Não.

- Lu, veja só, a gente já passou por tanta coisa e ainda está passando, será que não é melhor nos ajudarmos para conseguirmos seguir em frente, seja como for? - disse ela paciente.

- Pra você tanto faz, né? - falei com raiva.

- Você sabe que não. Eu amo você e quero você bem e comigo. Se você não me quiser, vou sofrer pra caralho, mas quero que você fique bem do mesmo jeito. Então, deixa eu te ajudar. - falou segurando a minha mão.

Eu, novamente, puxei a mão e escondi meu rosto com ela, apoiando os cotovelos na mesa.

- Eu ouvi sua conversa com Chico. Eu não queria, mas foi inevitável. Eu ouvi ele te perguntando como tinha ficado a sua situação com aquela mulher. Todo mundo sabe o que aconteceu e eu sou uma idiota nessa história toda. - descarreguei, com os olhos cheios d'água.

- Lu, vê só, você não quer ir conversar em outro lugar? - perguntou.

- Pra você tentar me convencer que não me traiu? - falei enquanto as lágrimas pingavam sobre a mesa.

- Lu, eu nunca tentei nada em relação a isso. Assumi meu erro desde o começo e, embora entenda sua raiva, não acho justo que você faça isso. Essa situação é desconfortável pra nós duas, não só pra você. Eu sempre estive disposta a conversar e estou aqui mais uma vez, mas se você continuar agindo como uma criança mimada, o máximo que vamos conseguir é sair daqui brigadas! - disse com firmeza.

- É porque ainda dói muito!

- Eu sei. Dói em mim também, e como dói! Mas temos que decidir o que será daqui para frente, senão vai doer muito mais, meu bem - disse ela arrastando a cadeira pra perto de mim.

- Olha - continuou - você quer ir conversar na sua casa? - propôs.

- Você me deixa no escritório para eu pegar meu carro? Eu vim a pé.

- Melhor, você deixa o carro no escritório e vai comigo, amanhã você pega o carro de volta. O que você acha? - sugeriu.

- Pode ser.

- Então vamos - disse ela já de pé.

Fui o caminho inteiro dispersa, perdida nos meus pensamentos. De vez em quando Carol me fazia alguma pergunta e eu fingia atenção.

Carol estacionou o carro na vaga que costumava ser dela na garagem quando começamos a namorar, o que me provocou uma mistura de medo com incômodo. Quando entramos em casa, a sensação continuava. Era a primeira vez que eu ficava sozinha com Carol desde que tudo havia acontecido.

O incômodo começou a virar impaciência e joguei minha bolsa em cima da mesa. Carol sentou calmamente no sofá e olhou para mim como se esperasse que eu recobrasse a tranquilidade.

Fui até a cozinha pegar um copo de água e acabei deixando-o cair no chão. Definitivamente, eu não estava à vontade com aquela situação. Carol foi ao meu encontro e recolheu a maior parte dos cacos de vidro que se espalharam pelo chão, enquanto eu pegava a vassoura e a pá para limpar o restante.

Ela me observava encostada no balcão até que o silêncio foi quebrado.

- A gente pode conversar? -perguntou.

- Pode - respondi encostando do outro lado do balcão, de frente para ela.

- Queria saber o que você pretende fazer com a gente daqui pra frente - perguntou ela.

- E sou eu que sei? - rebati com raiva.

- Luísa, será que podemos conversar como pessoas adultas? Eu já assumi meu erro, admito que foi a maior merda que eu já fiz em toda a minha vida. Entendo toda a sua dor, porque toda vez que te vejo sofrer dói em mim também. Tô morrendo de medo de perder você pra sempre, mas porra, Luísa, preciso que você colabore para avançarmos, nem que seja para acabar com isso de uma vez por todas!

Ela estava certa, durante todo esse tempo eu não estava sendo razoável. Aquelas palavras serviram para me trazer de volta à realidade. Ela mal acabou de falar e eu já não conseguia mais segurar o choro. Me joguei nos braços dela como se aquilo fosse me proteger do que estava acontecendo.

Ela me abraçou forte como sempre fazia quando eu chorava. Eu passei cinco minutos soluçando sem que tivesse controle sobre isso. Ela acompanhou tudo calada, somente passando a mão na minha nuca. Depois de algum tempo, ela me afastou devagar empurrando meus ombros para longe do corpo dela.

- Lu, que tal você tomar um banho, tirar essa roupa? - sugeriu.

- Não quero, eu tô bem.

- Luuuu, para de ser cabeça dura. - pediu ela. Vamos, eu levo você até lá em cima.

Ela me deixou na porta do banheiro e disse que estaria me esperando do lado de fora.

Tomei um banho menos demorado do que eu queria, mas útil para o que eu precisava. Saí do banheiro enrolada na toalha e encontrei Carol sentada na ponta da cama.

- Tá se sentindo melhor? - perguntou ela.

- Humhum

- Bom, então acho que já posso ir embora. Só quero que assim que você puder, me diga o que pretende fazer para que eu também possa tocar minha vida. - pediu, enquanto levantava da cama e vinha em minha direção.

Ao se aproximar de mim, ela me abraçou e disse no meu ouvido:

- Eu vou te amar pra sempre.

 

Capitulo 12 - Não me deixe só, eu tenho medo do escuro por Poracaso

Quando escutei a porta bater lá embaixo fui tomada por um pânico absoluto, um medo completamente irracional de estar só. E naquele momento estar só tinha tantos significados, que todos eles se misturavam dentro de mim, tornando-me incapaz de identificar o que me fazia temer.

Disquei o número de Carol no telefone.

- Oi, Lu - atendeu ela.

- Volta, por favor - pedi, sem consegui parecer controlada.

- O que aconteceu? - ela perguntou aflita.

- Volta - chorei.

- Calma, já estou subindo - avisou ela.

Desci as escadas correndo como se estivesse fugindo de alguém. E estava, fugindo da minha passividade, dos meus medos, da minha insegurança.

Quando a campainha tocou, eu abri a porta imediatamente e me atirei nos braços dela. Carol me abraçou segurando a minha cabeça com uma das mãos enquanto alisava as minhas costa com a outra.

Chorei abraçada a ela por um longo tempo. Ela não me perguntou absolutamente nada, apenas se manteve ali, de pé, me envolvendo no seu abraço.

Depois que os soluços ficaram mais espaçados e minha respiração parecia mais perto do normal, ela foi me soltando aos poucos, devagar, como me preparando para o que estava fora dos braços dela.

Quando eu já estava solta, ela se afastou em direção à cozinha. Foi então que me percebi livre. O pânico tomou conta de mim novamente. Comecei a chorar de novo e ela voltou rapidamente para mais uma vez me envolver.

- Só fui pegar um copo d'água pra você, meu bem. Mas já estou aqui. Pronto, está tudo bem - disse me tranquilizando

- Eu não quero ficar aqui sozinha, por favor - pedi.

- Não vai ficar. Não vou deixar você só. Estou aqui com você, tá bom? - falou.

Balancei a cabeça positivamente em resposta e apertei ela ainda mais forte.

- Vamos subir? Vou te colocar na cama pra você descansar um pouco, foi um longo dia. - disse ela.

- Não quero dormir. Não quero ficar sozinha - eu disse sem conseguir disfarçar o medo que tomava conta de mim.

Ela então segurou meus braços firmemente, afastando meu corpo do dela e olhando nos meus olhos, disse:

- Lu, eu não vou te deixar só. Vou ficar com você até você me pedir para que eu vá. Estou com você, tá bom?

Escutar aquilo me aqueceu por dentro e acho que até me arrancou um discreto sorriso. Carol me puxou de volta pra ela, afagou minha cabeça e perguntou:

- E aí, podemos subir agora?

- Podemos - respondi segurando sua mão.

Subimos a escada de mãos dadas.

Quando chegamos lá em cima ela perguntou se eu queria colocar o pijama. Foi ai que me dei conta que eu ainda estava enrolada na toalha. A mesma com a qual ela havia me deixado.

Minha vontade era de deitar do jeito que estava. Meus olhos ardiam e meu corpo doía como seu eu tivesse corrido a São Silvestre. Tudo que eu queria era minha cama.

Mas vendo a minha hesitação, ela me entregou o pijama e eu prontamente fui até o banheiro vesti-lo. Escovei os dentes e deitei, ocupando o lugar que costumava ser meu, quando éramos nós. Ela também deitou no seu antigo lugar.

- Você quer um pijama? - ofereci.

- Gostaria, acho que dormir de jeans seria um desafio. - falou rindo.

- Posso? - perguntou ela abrindo meu guarda roupa.

- Claro.

- Mesmo lugar?

- Tudo igual.

Ela abriu a primeira gaveta do armário e pegou um pijama bem folgado que eu costumava vestir aos domingos para ficar de bobeira em casa. Ela riu, provavelmente porque teve essa mesma lembrança, mas preferiu não externar. Enquanto ela ia ao banheiro se trocar, eu pensava como era estranho tê-la ali tão perto, mas ao mesmo tempo com uma distância implícita entre nós. Distância essa que eu, mais do que ninguém, impus.

Antes que eu me perdesse completamente nos meus devaneios, Carol me trouxe de volta:

- Lu, você tem uma escova de dente para me emprestar?

- Tenho sim, pode pegar aí no armário - respondi, sendo jogada novamente em meus pensamentos. Agora eu havia voltado no tempo, quando ainda tínhamos duas casas e escovas aqui e ali. Bons tempos, pensei.

Quando ela deitou na cama, de novo fui tragada pela realidade.

- Quer ver um filme enquanto o sono não vem?

- Quero sim.

Ela colocou um filme que me arremessou para tão longe que, dessa vez, eu não era capaz de saber onde estava.

- Bom, com esse filme, não tem erro. Você vai dormir tranquila!

Era Nothing Hill, meu filme preferido. Ela realmente estava cuidando de mim.

Ela se acomodou ao meu lado, mas a distância entre nós permanecia. Naquele momento, a separação parecia mais física do que emocional. Na verdade, parecia mais medo de que qualquer aproximação soasse como desrespeito. Mas a iniciativa veio em forma de oferta:

- Quer deitar no meu ombro?

Fui pega de surpresa. Por mais que quisesse aquilo, ainda lutava contra minhas inseguranças. Tive vontade de me esconder embaixo do edredom. Mas optei por somente responder:

- Quero.

Ela me olhou como se jamais esperasse essa resposta. Aproximou-se de mim e eu acomodei minha cabeça no seu ombro, como costumei fazer nos últimos anos.

Estava protegida, podia dormir sem medo.

E foi exatamente o que fiz. Peguei no sono antes mesmo da metade do filme. Do jeito que eu gostava, adormecer antes dela, nos braços dela.

Foram 10 horas de sono, sem interrupção.

Quando acordei já eram quase 11 horas da manhã. Carol não estava mais na cama, mas havia um bilhete em cima do travesseiro dela.

"Desci pra não correr o risco de te acordar. Espero você para o café da manhã"

Li o bilhete e me perguntei se estava pronta para aquilo. Com preguiça de procurar a resposta ou com medo de encontra-la, virei para o lado e me permiti mais 5 minutos.

Acordei depois de meia hora, sem nenhum arrependimento por ter estendido meus 5 minutos.

11h30, hora de levantar.

Desci a escada preguiçosamente. Vi Carol, lendo o jornal na varanda. De lá de baixo, ela me olhou com uma caneca - que supus ser de café - na mão e disse:

- O bilhete dizia café da manhã, mas...

- Por essa, você está perdoada - falei enquanto me aproximava do último degrau.

Ela andou em minha direção, segurou na minha cintura e disse:

- Você é capaz de me perdoar por outras coisas?

- Tem alguma coisa que eu possa comer ou serei punida por me entregar a Morfeu? - perguntei, desconversando.

Ela ajeitou o cabelo preso despretensiosamente em um coque e respondeu:

- Vamos lá, jamais puniria você por qualquer coisa. Para provar isso, pedi almoço faz uma meia hora, deve estar chegando. Quer chá?

- Por favor.

Ela me trouxe a caneca, sentou-se ao meu lado, colocando os pés sobre a mesa de centro.

- Carol?

Ela virou o rosto pra mim, fazendo-me perceber o quão perto nós estávamos.

Eu baixei os olhos, sem saber como lidar com aquela proximidade repentina.

- Obrigada

- Pelo que?

- Por ter ficado.

Ela virou o corpo todo pra mim, respirou e começou:

- Lu, eu te amo, queira você ou não. Estarei sempre por perto quando precisar.

Fiz menção de falar alguma coisa para rebater o que ela dizia, mas fui impedida.

- Lu, nós temos uma história. E, como toda história, a nossa está passando por um capítulo complicado. Cabe a nós decidirmos o destino que daremos a ela. Deixa eu te mostrar que eu posso te fazer feliz.

Quis sair dali rapidamente. Não estava pronta para essa resposta. Embora a palavra que eu tinha na minha boca fosse "sim", meu instinto de proteção dizia que ainda não era hora de baixar a guarda.

O interfone tocou e eu agradeci por aquela interrupção.

Era a comida.

 

Notas finais:

Ai, esse capítulo foi intenso! Vocês gostaram meninas?

Capitulo 13 - solidão é lava, que cobre tudo por Poracaso

Quis abraçá-la forte quando vi que o almoço era comida japonesa. Não precisei, minha cara falou por mim.

- Ainda lembro seu prato preferido.

- Feliz por isso!

Almoçamos tranquilamente, sem que o assunto interrompido voltasse à tona. Melhor assim, naquele momento queria viver de amenidades.

Já era fim de tarde quando acabamos de lavar os pratos. Quanto mais a noite se aproximava, mais eu ficava inquieta sobre o que viria a seguir. Algo se alternava em mim, entre congelar o tempo para que pudéssemos ficar ali, nós duas, e coloca-la para fora dali e ficar só, onde ninguém pudesse me machucar.

Até que fui puxada dos meus pensamentos.

- Lu, como você está?

- Bem - respondi sem muita certeza de onde aquilo ia dar.

- Você quer que eu vá embora?

Senti meu corpo congelar e percebi que o sorriso apagou-se do meu rosto imediatamente. Era chegada a hora.

Não queria parecer fraca e pedir que ficasse, ao mesmo tempo não queria ficar sem a companhia dela.

- Tô bem, mas antes de ir, você pode me levar até o escritório para eu pegar o carro? - pedi, querendo mantê-la comigo um pouco mais.

- Claro!

Peguei meu carro, passei no supermercado pra comprar algumas coisas que amenizassem minha solidão num sábado à noite, e voltei para casa com uma massa, chocolate e chá, muito chá.

Cheguei em casa e tentei me entreter primeiro com um livro, depois com uma série e, por fim, com o trabalho. Estava finalizando uma peça e a primeira garrafa de chá, quando meu celular tocou.

Para quem tinha apostado num sábado tranquilo, parece que o jogo estava começando a virar.

- Alô?

- Dona Luísa? É seu Manuel, que toma conta aqui da casa da senhora.

- Oi, seu Manuel, algum problema?

- Na verdade, sim. É que um cano estourou na cozinha e a casa tá toda alagada. Eu já chamei o encanador do condomínio e fechei o registro geral. Ele tá vindo pra cá, mas preciso que a senhora venha também caso ele precise de algum material.

- Chego aí em 30 minutos seu Manoel.

- Pode vir com calma, eu vou ficar por aqui.

Tomei um banho, coloquei um jeans e uma camiseta e cheguei lá a tempo de quase dar um mergulho na cozinha.

Seu Manoel já tinha enxugado grande parte da água, mas ainda tentava expulsar o resto com o rodo.

O encanador estava com a cabeça embaixo do balcão quando entrei.

- Boa noite.

- Oi, dona Luísa, já tirei quase toda a água, só falta passar um pano na sala. Chico tá aí vendo o que pode fazer.

- Muito obrigada, Manoel. Chico, você já sabe o que aconteceu?

- Falta de uso, dona Luísa. O joelho que liga os dois canos ressecou a partiu. Dê uma olhadinha aqui.

Abaixei para conferir o estrago e o que senti foi uma grande quantidade de água me atingir direto no rosto. Fiquei ensopada. Quem tá na chuva, né? Mas o sacrifício valeu para dar uma olhada.

Estava segurando o cano enquanto Chico procurava um joelho novo em sua caixa de ferramentas, quando senti uma mão me puxando pela cintura.

- Desde quando você entende de cano, moça?

- Carol? - disse, surpresa. O que você está fazendo aqui?

- Seu Manoel deixou um recado. Assim que ouvi vim pra cá - respondeu.

- Desculpe, dona Carol, eu não consegui falar com a senhora aí liguei para dona Luisa - se explicou.

- A casa é nossa, Manoel, não tem porque se desculpar - disse ela - Chico, quanto tempo pra deixar isso aí em ordem?

- Mais uma hora e acabo aqui - previu ele.

- Lu, você jantou? - perguntou ela.

- Não.

- Vou pedir alguma coisa pra gente, então - falou. Chico e Manoel querem jantar com a gente?

- Não senhora, minha patroa tá me esperando pra jantar - adiantou-se Manoel.

- Eu já jantei, obrigado - renunciou Chico.

- Bom, então, o que você quer comer, Lu? - consultou ela.

- Qualquer coisa - falei, sem fazer nenhuma questão de decidir.

- Quer comida chinesa? - perguntou.

- Quero sim! - concordei.

Sentamos na mesa do jardim para jantar e conversamos tranquilamente, embora os assuntos não fossem assim tão amenos.

- Você pensa em voltar pra cá? - perguntou ela.

- Acho que essa casa é um projeto nosso. Não tenho planos nem coragem de tornar isso meu.

- Lu, precisamos decidir o que fazer. É caro manter isso aqui de pé. Estamos sustentando, cada uma, duas casas. Não quero te pressionar, mas acho que precisamos pensar no que faremos.

- Você tem razão.

 

Notas finais:

Ao menos o cano está sendo consertado. O coração também?

Capitulo 14 - É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã, é um belo horizonte, é uma febre terçã por Poracaso

Conforme previsto, uma hora depois, o serviço estava concluído. Manoel acabara de enxugar o chão e nós tínhamos acabado de jantar.

Quando Chico e Manoel saíram, já passava das 10h da noite.

Espirrei.

Foi quando me dei conta que eu ainda estava ensopada. Minha camiseta e o jeans estavam colados no meu corpo e meu cabelo estava completamente molhado.

Carol olhou para mim e disse:

- Tem roupa sua aí? Acho melhor você tirar isso antes que pegue uma gripe.

- Não precisa, já vou - anunciei.

Espirrei novamente.

- Lu, por favor! - falou, suplicante.

- Tá bom, tá bom, vou ver se tem alguma coisa lá em cima - concordei.

Achei um short e uma camiseta. Estava prestes a tirar o sutiã, quando Carol bateu na porta do quarto, que estava entreaberta.

- Oi - respondi, virando de costas para ela, instintivamente.

- Desculpa, eu não sabia que... - disse ela, desconcertada.

- Não, tudo bem - falei

Espirrei. Espirrei. Espirrei.

Ela se aproximou de mim e tocou minha testa.

- Lu, você tá com febre - sentenciou.

- Impressão sua - neguei, embora sentisse a garganta dar sinais de que as coisas não estavam bem.

- Olha, Lu, por que não dormimos essa noite aqui? É imprudente voltar pra casa a essa hora com você assim - propôs.

Eu já estava recostada na cama, sentindo os olhos pesarem.

- Certo - concordei, sem resistência.

Ela foi até o banheiro e voltou dizendo:

- Tem antitérmico dentro do prazo de validade aqui, vou pegar água pra você tomar - falou.

Eu já tinha colocado um pijama que encontrei no guarda-roupa.

Engoli o remédio e puxei o edredom até o pescoço. Ela sentou ao meu lado na cama e disse:

- Eu vou estar no quarto de hóspede, qualquer coisa é só chamar.

Antes de sair, ela me deu um beijo na testa e me entregou o controle remoto da TV, mostrando não ter esquecido que eu só dormia assistindo a alguma coisa.

Ela encostou a porta e eu liguei a TV. A essa altura, a garganta já incomodava bastante.

A dificuldade para engolir, provocada pelo inchaço das minhas amígdalas, fez com que eu percebesse que algumas coisas ainda estavam presas na minha garganta e precisavam ser digeridas.

Levantei e parei em frente à porta do quarto de hóspedes.

Respirei.

Bati.

- Oi Lu, entra - autorizou.

- Desculpa.

- Você está sentindo alguma coisa? - perguntou ela, tocando meu pescoço para sentir a temperatura. - Você tá bem quente ainda.

- A gente pode conversar? Prometo que não vou tomar muito seu tempo.

- Você não toma meu tempo, Lu - disse ela se ajeitando na cama e chegando para perto de mim.

- Carol, posso te perguntar uma coisa?

- Claro, meu bem.

- Quanto tempo você ficou com aquela mulher?

- Lu, a gente já teve essa conversa.

- Carol, já está sendo bem difícil falar sobre isso, então, teria como você somente responder? - pedi.

- Tá bom. Ficamos juntas por 3 semanas.

- O que ela tinha? - perguntei com vergonha e com medo de ouvir a resposta.

- Absolutamente nada. A questão não era ela e sim eu. Eu agi de forma irresponsável, covarde, como um bicho no cio - respondeu ela com algo que parecia sinceridade.

- O que você sentia ou sente por ela?

- Sentia atração, apenas. Depois daquelas 3 semanas, mais nada.

Tive vontade de dizer muitas coisas a ela, xingar, gritar, mas tudo em mim doía, sobretudo o coração.

Lembrei que já tínhamos passado dessa fase e que não valia a pena voltar. Então, segui em frente.

- O sexo era bom? - saiu sem querer.

- Lu, o que é que tá acontecendo? Por que isso?

- Responde, Carol.

- Foi bom, mas foi só sexo. Por pior que seja dizer isso, ela foi uma ferramenta para saciar uma necessidade, um desejo que, naquele momento, era puramente animal. Não havia amor, paixão, só o necessário para que aquele tipo de relação acontecesse, atração. - relatou ela, de forma bem convincente - Nós nos usamos.

- Vocês ainda se falam?

- Lu, desde aquele dia, falei com ela uma única vez pedindo que não me procurasse mais. E foi assim que foi feito.

- Obrigada. - disse, levantando da cama como se aquilo me custasse muita energia.

Ela percebeu o meu esforço e pulou da cama imediatamente para tocar minha testa.

- Lu, acho que essa febre não está baixando. O que você está sentindo?

- Muita dor no corpo e na garganta. Meus olhos estão ardendo e dói para respirar.

- Vou colocar o termômetro em você.

Ela me acompanhou até o quarto que um dia foi nosso e colocou o termômetro por baixo da blusa do meu pijama.

Três minutos depois, o bip do aparelho soou.

- 39,8 Lu! Vamos no hospital.

- Não vou, não. Quero deitar. Me dá um tempo para descansar, que vou melhorar.

- Você vai tomar um banho agora pra essa febre baixar! - disse, me puxando pelo braço.

- Carol, tô morrendo de frio. Deixa eu deitar, por favor.

- Lu, tira a roupa e entra no chuveiro ou então vamos para o hospital - disse ela.

Sem escolha, comecei a tirar a blusa.

Ela me ajudou a tirar a calça do pijama e ligou o chuveiro. Ficou do lado de fora do box, enquanto eu entrava na água.

Eu já tremia de frio, quando ela diminuiu a temperatura do chuveiro e a água gelada tocou meu corpo.

Foi impossível conter o grito e o choro.

Ela me abraçou me enrolando na toalha:

- Desculpa meu bem, desculpa, mas eu precisava fazer isso pra a febre baixar.

Eu não conseguia parar de chorar e minha garganta doía ainda mais. Queria botar ela pra fora dali, mas a dor dela parecia maior que a minha.

Ela me secou com a toalha e colocou minha roupa. Eu já estava aquecida, mas ainda soluçava quando ela me deitou na cama e me cobriu com dois edredons.

O termômetro apitou.

- 39. Parece que valeu o sofrimento. Vou pegar um copo d'água pra você tomar o antitérmico e já volto.

Eu tremia de frio, quando ela voltou com uma xícara de chocolate quente.

Nunca aprendi a operar aquela máquina de bebidas quentes em cápsula que ela havia insistido em comprar, embora eu adorasse o chocolate quente que saia dela.

A bebida me aqueceu por dentro e foi impossível não agradecer por ela estar comigo.

Ela sentou na cama, me deu o remédio, sorriu e perguntou:

- Ainda com raiva de mim?

Fiz que não com a cabeça, porque falar era um esforço sobre-humano naquele momento.

- Você quer que eu fique aqui ou volto para o meu quarto?

Tive vontade de dizer que o quarto dela era ali, mas não foi dessa vez que venci a queda de braço comigo mesma.

- Você pode ficar aqui?

- Claro.

Ela dormiu ao meu lado e acordou às 4h da manhã quando levantei para ir ao banheiro.

- Lu, como você está?

- Com muita dor.

Carol tocou na minha testa e disse:

- Coloca uma roupa que vou te levar no hospital.

Estava tão mole que resolvi nem tentar contrariá-la. Apenas obedeci.

Enquanto Carol preenchia minha ficha na emergência, eu larguei meu corpo numa das cadeiras da sala de espera.

Depois de passar pela triagem, ganhei uma pulseira amarela, que indicava que eu não estava bem, mas também não estava à beira da morte.

Quando o médico finalmente me chamou, Carol entrou comigo no consultório. Como eu não conseguia falar, ela acabou respondendo às perguntas do clínico geral, que depois de olhar minha garganta revelou:

- A garganta dela está bastante inflamada. Deve estar sentindo muita dor. A ausculta também revelou um chiado, então vou pedir um raio x do tórax e da face.

A essa altura, eles agiam como se eu fosse só um corpo, sem vontades. Não triangulavam o diálogo e tomavam decisões entre eles. Não lutei para ser incluída, preferi ficar de fora.

Voltamos do rx para o consultório e então veio o veredito:

- É bronquite.

- Bronquite? - assustou-se Carol.

Eu continuei sem reação, mas com frio, muito frio.

- Você é irmã dela? - perguntou o médico.

- Não, somos... é, bom, somos amigas - respondeu ela olhando pra mim confusa.

Foi estranho escutar ela falar isso.

- Preciso que ela fique em repouso absoluto. Vou passar um antibiótico para a bronquite, que vai servir também para a garganta e um spray para aliviar a dor.

- Dr., e a febre? Desde ontem que está alta e não cede.

- Você vai revezar os antitérmicos. Dê ibuprofeno, se depois de 3h a febre continuar subindo, você dá novalgina. É importante que a febre não suba.

- E a alimentação?

- Olha, do jeito que a garganta dela está, acho difícil que queira comer, mas ela precisa se alimentar. Tente coisas líquidas, suco, sopa, chá e pastosas, purê, frutas amassadas. Não deixe ela de estômago vazio, ok?

- Ela vai ficar bem? - perguntou angustiada.

- Se fizer tudo direitinho, em 72 horas a garganta deve estar melhor e em uma semana deve regredir. Mas ela precisa ficar de repouso ou a bronquite pode virar uma pneumonia.

- Pode deixar - garantiu ela.

Ela me ajudou a descer da maca, pegou as receitas, apertou a mão do médico e me tirou dali.

Eu dormi no banco do carona e só acordei quando Carol estacionou no prédio dela.

Não questionei, apenas entrei no apartamento, sentei no sofá e liguei a TV.

Carol foi até a cozinha e alguns minutos depois um cheiro de comida invadiu a sala. Em seguida, ela apareceu com um prato de purê e um copo de suco de laranja.

Tinha certeza de que eu não era capaz de engolir nada, mas travar uma luta com Carol, neste momento, seria entrar no ringue já derrotada. Elas estava determinada a cuidar de mim.

Me entreguei.

Peguei o prato e tentei. Cada garfada arrancava uma lágrima de mim. Carol me olhava com compaixão e dizia:

- Só mais um pouquinho, meu bem.

Até que ela não suportou mais o meu sofrimento e determinou:

- Acho que está bom. Foi um ótimo começo - disse, entregando-me o copo de suco.

O esforço parecia ter me enfraquecido ainda mais. Carol me levou até a cama e me cobriu com um grosso edredom. Depois ela voltou com dois comprimidos e me fez engolir ambos.

Definitivamente, o ser humano engole mais coisas do que pode ao longo da vida.

Dormi.

 

Notas finais:

Muitos acontecimentos, conversas e finalmente Luisa está colocando pra fora. Vocês acham que ela vai conseguir passar em cima do ocorrido?

Capitulo 15 - Minha garganta arranha a tinta e os azulejos do teu quarto, da cozinha, da sala de estar por Poracaso

Quando acordei, Carol estava falando ao telefone. Escutei alguma coisa sobre alguém vir no outro dia pela manhã para ficar comigo. Tentei levantar para tomar pé da situação, mas percebi que ainda não era o momento. Meu corpo todo doía.

Carol escutou minha movimentação e apareceu na porta do quarto. Finalizou a conversa, trouxe o telefone e me entregou, dizendo:

- Seu celular tocou muitas vezes. Tirei de perto de você para não te acordar. Vi que era Solange e tomei a liberdade de atender - falou.

Aquilo me deu uma sensação estranha e a reação foi ainda pior.

- Olha, Carol, agradeço por estar cuidando de mim, mas gostaria de manter a minha privacidade - falei, exaltada.

- Lu, desculpa, não foi minha intenção. Ela já tinha ligado várias vezes e acabei me colocando no lugar dela, tentando ter notícias suas sem conseguir, por isso atendi. Não quero, de forma alguma, desrespeitar você - explicou ela, nervosa.

- Eu vou chamar um Uber e voltar pra casa - decidi.

- Lu, por favor, não faz assim. Desculpa, de verdade. Não vai embora. Você não tá bem. Eu combinei com Solange dela ficar aqui com você amanhã, enquanto eu estiver na universidade - anunciou.

- Você o que? Quando você pretendia me consultar? - disparei.

- Ela ligou e eu disse que você estava doente. Então, ela se ofereceu. Eu não pedi nada. Pode ligar pra ela - disse.

Depois de respirar e tentar ponderar as coisas, resolvi ligar.

Solange confirmou que Carol já atendeu o telefone se identificando e dizendo que eu estava doente. Foi aí que ela se ofereceu para o que fosse necessário.

Desliguei o telefone e me desculpei com Carol, deixando claro que as desculpas não eram pela invasão de privacidade, mas pelo julgamento.

De volta à paz, resolvi ficar. De fato, não estava bem para ficar sozinha.

Carol me abraçou em agradecimento e eis que ...

...febre!

Levantei para tomar banho, enquanto ela preparava algo para comermos.

Não demorei muito de pé depois do jantar. Tentei ficar um pouco na sala, mas meu corpo doía. Carol foi pra cama comigo e lá ficou até eu dormir.

Acordei no meio da madrugada com muito frio. Levantei para ir ao banheiro e Carol imediatamente apareceu no quarto.

Febre. 38,5.

- Onde você estava? - perguntei.

- No sofá da sala.

- Você não quer vir pra cá? - chamei.

- Bom, achei que você não ficaria à vontade, então achei melhor ficar por lá mesmo - explicou.

- A casa é sua, a cama é sua. Por mim, não tem problema, pode vir! - liberei.

Ela me deu o remédio e deitou ao meu lado. Ocupou tão pouco espaço na cama, que parecia que eu estava com uma doença contagiosa. Bom, nesse caso, fazia sentido, porque eu realmente estava.

Acordei com Solange alisando meus cabelos.

- Bom dia, como se sente? - disse ela.

- Como se eu tivesse sido atropelada por um trio elétrico. Obrigada por ter vindo.

- É um prazer, mesmo que seja nessa situação! A senhorita precisa comer alguma coisa para tomar o antibiótico - disse.

Ela tocou em mim e disse:

- Acho que está com febre. Vamos colocar o termômetro - declarou.

Enquanto esperávamos o veredito do termômetro, ela disse:

- O que você quer comer? Maria está aqui para atender às suas vontades - falou.

- Mariazinha está aqui? - perguntei animada.

- Está sim. 39. Vou pegar o antitérmico. O que você quer comer?

- Chama Maria pra mim, por favor? - pedi

- Claro!

Maria prestava serviço para Carol há 10 anos. Quando nos mudamos, foi conosco e, quando nos separamos, voltou pra Carol. Ou seja, uma história de amor!

- Mariazinha, que saudades!

- Lulu! Como você está? Fiquei tão preocupada quando Carol me contou que estava doente. O que você quer comer? - disse ela, cuidadosa.

- Nada.

- Ah não! Carol me fez tantas recomendações que se ela chegar aqui e souber que você não comeu nada, eu tô na rua e Solange também! Você não quer isso pra gente né, Lulu?!

- De jeito nenhum! Mas não consigo engolir. Dói muito.

- E se for um suco de mamão com laranja e uma sopinha para o almoço? - sugeriu.

- É o jeito - aceitei.

Comi, tomei os remédios e deitei novamente, com Solange sentada ao meu lado conversando. Pouco tempo depois comecei a me sentir muito enjoada. Deixei um rastro de vômito da cama até o banheiro. Continuei vomitando, enquanto Solange segurava meu cabelo.

Solange gritou por Maria, que ajudou a tirar minhas roupas sujas e me colocou no box para tomar banho. A essa altura, eu mal conseguia ficar de pé, o que fez com que tivessem que colocar um banco para que eu pudesse sentar.

 

Capitulo 16 - A tristeza tem sempre uma esperança, de um dia não ser mais triste não por Poracaso

SOLANGE

Diante do estado de Luisa, decidi que o melhor era ligar para Carol. Lu insistiu para que eu não fizesse isso, de modo a não preocupá-la e atrapalhar sua aula. Como já estava perto das 12h, achei por bem ligar - a essa altura a aula já teria acabado e, tenho certeza, se eu não ligasse ela jamais confiaria em mim.

- Oi, Solange.

- Carol, você está voltando? - perguntei

- Estou no apartamento de Luisa, pegando umas roupas para ela. Você precisa ir embora, não é?

- Não é isso. Acho que ela precisa ser vista por um médico o mais rápido possível - falei.

- O que foi que aconteceu?

- A febre não cede e ela vomitou muito, mal consegue se manter de pé. Acho que é o caso de trazer um médico aqui para examiná-la - expliquei.

- Minha mãe é médica. Vou pedir para ela ir ai agora. Você pode recebê-la? Chego já - falou.

- Não se preocupe. Não vou sair daqui.

A mãe de Carol chegou em 10 minutos. Uma mulher bonita, simpática, na casa de seus 65 anos. Lembrava muito a filha no jeito com o qual ocupava os espaços, dominava as situações.

Antes de ir até o quarto ver Luísa, ela quis saber o que tinha acontecido. Conversamos e a coloquei a par dos últimos acontecimentos, já que Carol tinha feito um histórico da situação e ela sabia uma boa parte do quadro.

Ela então entrou no quarto e encontrou Luísa com um moletom de Carol, cochilando. Ela olhou para a ex nora com dó de ter que acordá-la.

- Lu, sou eu. Desculpa, mas preciso que acorde para que eu possa dar uma olhada em você - falou carinhosa.

Luísa abriu os olhos confusa e, quando a viu, chorou, abraçando-a. Embora eu não conhecesse as relações, a cena me tocou.

- Ei, mocinha, que história é essa de ficar me dando susto, hein! Não tenho mais idade pra isso não, viu? - disse a ex sogra.

- Que saudades de você - disse Luísa, soluçando.

- Eu também! Mas agora eu tô aqui com você. Não precisa chorar, tá bom?

Carol chegou na porta do quarto exatamente nessa hora. Olhou pra mim sem entender o que estava acontecendo e perguntou baixinho:

- O que aconteceu?

- Ela se emocionou muito quando viu sua mãe e parece que a recíproca foi verdadeira - julguei.

- Não tenha dúvida. Luísa é a filha perdida da minha mãe. Ela já a examinou? - quis saber.

- Ainda não. E acho que você não devia apressá-la pra isso. Parece que as duas estavam precisando desse encontro - sugeri.

- Tem razão.

Depois de um longo abraço, a mãe de Carol pediu que saíssemos do quarto para que ela pudesse examinar Luísa.

Cerca de 30 minutos depois, ela saiu do quarto, chamou Maria e pediu que levasse um chá de erva doce para Luísa. Depois veio até nós e sentou-se na poltrona a nossa frente.

- E então? - perguntou Carol

Perguntei se Carol queria que eu saísse, mas ela disse que não.

- Bom, a bronquite se transformou numa pneumonia. O antibiótico, claramente, não está dando conta do quadro. A garganta está muito inflamada e suspeito que seja estafilococos, uma bactéria resistente a uma grande parte dos antibióticos, o que explicaria o agravamento da situação. O vômito me preocupa porque mostra uma reação desesperada do corpo, que, por sua vez, acaba debilitando-a ainda mais.

- O que você aconselha, mãe? - perguntou Carol.

- Você sabe o quanto eu gosto dessa menina e o quanto eu estou chateada com você pelo que você fez, né?

- Mãe, isso vem ao caso nesse momento?

- Não, mas nunca vou perder qualquer oportunidade de fazer você se sentir culpada - falou beirando um seriado de comédia americano, o que me impediu de manter a seriedade.

Eu ri involuntariamente, o que fez com que Carol também risse.

- Você acha que eu não me sinto culpada, mãe? Eu amo Luísa. Mas chamei você aqui para nos dizer qual é a situação.

- OK. A situação é séria, Carol. Eu vou ligar para um amigo meu que é pneumo e relatar o caso. Mas minha indicação é de internar imediatamente - determinou.

- Internar?

- Não tem outra forma de reverter o quadro, que não seja mediante medicação venosa, que só pode ser administrada no hospital - explicou.

- Você pode ligar então para o seu amigo? - pediu.

- Claro. Vou fazer isso agora.

Depois de 20 minutos ao telefone, a mãe de Carol disse que o médico estaria esperando no hospital.

Enquanto Carol preparava, escondida, uma sacola com as coisa de Luísa, eu ajudava ela a se vestir e a mãe de Carol explicava a necessidade do procedimento, já que a resistência de Lu em ir ao hospital era enorme. A princípio, não revelamos que ela seria internada, apenas que seria preciso realizar alguns exames.

Carol perguntou se eu podia ir com elas para o caso de precisarem de algum apoio. Me dispus prontamente.

Chegando ao hospital, o pneumologista já estava a nossa espera e começou a realizar os exames - RX, exames de sangue e urina.

Luísa ia ficando cada vez mais mole e impaciente.

Os primeiros resultados iam saindo e a gravidade do caso se confirmando.

O parecer do médico foi conclusivo. Não havia como continuar o tratamento em casa. Ele optou por coloca-la na UTI e ministrar antibióticos venosos.

Segundo a mãe de Carol, agora era esperar Lu reagir. Mas, enquanto isso, quem reagiu super mal foi Carol. Desde que o médico deu o diagnóstico de pneumonia aguda, ela desabou. Ficou muito nervosa, irreconhecível. Aquela mulher forte, decidida, simplesmente foi reduzida a pó.

Sobrou pra mim acompanhar Luísa até a UTI.

- Por que Carol não veio? - perguntou ela.

- Ela precisava assinar uns documentos na recepção, mas no horário de visita ela vem ver você - despistei.

- Eu não queria ficar aqui sozinha - choramingou.

- Meu bem, prometo que vai ser por pouco tempo. Você devia aproveitar para descansar um pouco. Quando acordar já vai estar na hora da visita. Quer que traga alguma coisa pra você se distrair? Um livro, uma revista? - ofereci.

- Pode ser um livro de suspense - sugeriu.

- Então vamos fazer o seguinte, eu vou ter que sair agora, mas volto mais tarde com o melhor livro de suspense que você ainda não leu! Combinado?

- Combinado. Você pode pedir para Carol vir mais tarde?

- Acho que eu nem vou precisar pedir, mas pode deixar comigo, tá bom? Agora, dorme um pouco.

- Tá bom.

Foi difícil deixá-la ali sozinha. Confesso que quase desabo também. Mas me segurei.

Encontrei Carol conversando com a mãe na recepção, ainda sem conseguir conter as lágrimas. Por mais que a mãe explicasse que aquele era um procedimento normal para casos como aquele, o ambiente de UTI, de fato, parecia assustador.

Fomos tomar um café na lanchonete do hospital e falei para Carol que Luísa tinha ficado bem, embora um pouco assustada. E, claro, que tinha perguntado por ela várias vezes. Ela chorou ainda mais.

Me despedi dela e fui trabalhar um pouco. Quando saí do banco, passei numa livraria para cumprir minha promessa e então fui para o hospital. Cheguei 30 minutos antes do início da visita. E o que encontrei foi um pequeno tumulto.

Carol tinha avisado à mãe de Luísa.

Ela estava muito nervosa e o clima estava tenso. Então, achamos por bem que ela entrasse primeiro, junto com Carol. Ela ficou lá por 15 minutos e saiu bem mais tranquila depois que viu que estava tudo sob controle.

Carol permaneceu lá dentro e eu entrei para me juntar a ela.

- Ei, como está você?

- Inchada de tanto dormir! - disse ela, já um pouco mais corada.

- Adivinha o que eu trouxe pra você? - perguntei.

- Netflix?

- Eu tentei, mas me barraram - brinquei, sussurrando. Mas o livro deixaram entrar!

- Oba!

Carol estava mais contida, mas ainda claramente preocupada. Ficou todo o tempo da visita alisando os cabelos de Luísa e conversando com as enfermeiras para saber se estava tudo bem.

Foram mais três dias de UTI e outros três no quarto, até que Luísa recebesse alta.

Carol dormiu todos as noites no hospital. Durante o dia nos revezávamos eu, Marina, Marcos e as mães de Carol e Lu. Foram dias intensos.

Lu foi pra casa com uma série de restrições, muitos remédios, fisioterapia respiratória e sem liberação para trabalhar ou fazer exercícios físicos. Portanto, repouso absoluto por mais uma semana.

O escritório transferiu uma estagiária para o apartamento de Carol, contra a vontade dela e do médico, mas foi um consenso autorizar, de modo a manter Luísa ocupada e ativa, ou ela enlouqueceria.

 

Notas finais:

A situação de saúde de Luísa não era das melhores, então ela não teve condições de narrar o capítulo de hoje. Carol também está bastante abalada. Mas tem mais alguém nessa história que tem direito a contar sua parte.

Um capítulo Narrado por Solange, o que acharam? 

Capitulo 17 - Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está por Poracaso

Um mês depois

- Carol - chamou Luísa.

- Oi, meu bem.

- Preciso voltar pra minha casa - anunciou.

- Já?

- Faz um mês que estou entre sua casa e o hospital. Quero muito voltar para o meu canto, para minhas coisas - declarou.

- Eu entendo. Mas você acha que vai ficar bem sozinha?

- Vou tentar. E você? Vai ficar bem sozinha? - quis saber.

- Com certeza não.

- Não faz assim. Eu quero que você saiba que sou eternamente grata por tudo que você fez por mim.

- Faria tudo novamente. Não quero sua gratidão - falou, magoada.

- Olha, acho que não vale a pena a gente entrar numa discussão agora. Já conseguimos reconstruir tantas coisas que perdemos nesses últimos tempos. Não quero, e sei que você também não, voltar à estaca zero. Tenho certeza que saímos mais fortes disso tudo. Então, não tenho dúvidas, que é um bom começo. - disse Luísa.

- O que você quer dizer com começo? - quis saber Carol.

- Quero dizer exatamente o que eu disse! Que tudo isso fez com que conseguíssemos, ao menos, dialogar, aparar as arestas. Temos coisas a tratar e precisamos agir com maturidade - Explicou.

- OK.

Luísa arrumou suas coisas, que se resumiam a poucas roupas e muitos remédios sob o olhar atento de Carol, que permaneceu sentada no sofá da sala, fingindo prestar atenção em um livro.

Depois deitou-se na cama que nos últimos 20 dias tinha voltado a dividir com Carol, não por decisão de ambas, mas quase por recomendação médica, para que Carol pudesse monitorar a febre e ministrar os remédios.

Esperou por Carol por quase 2 horas, mas ela não veio.

Na sala, Carol sentia alívio por ver Luísa se recuperando, mas também sentia ela novamente escorregando por entre seus dedos. Não que em algum momento ela tenha sentido que a tinha de volta, mas a proximidade dos últimos dias tinha lhe dado um novo ânimo. Cuidar de Luísa vinha sendo imensamente gratificante, como se ela estivesse pagando uma dívida que nunca lhe foi cobrada formalmente e, ao mesmo tempo, fosse sua grande chance de mostrar que podia ser útil e confiável.

Mas toda sua demonstração de zelo ainda não fora suficiente para Luísa.

Era preciso mais.

 

Notas finais:

Fiz esse capítulo com narração em terceira pessoa, para transitarmos entre os sentimentos das duas personagens nesse momento. O que acham que vem por aí?

Capitulo 18 - Me liga. Me manda um telegrama. Uma carta de amor. Que eu vou até lá. por Poracaso

No dia seguinte, domingo, Carol foi deixar Luísa em casa. A pouca bagagem fez com que a mudança fosse fácil e rápida. Dez minutos de carro e uma mala de mão depois, estava feito.

E doeu.

Doeu mais do que Carol podia imaginar.

Aquela nova sensação de perda, mesmo que não tivesse recuperado absolutamente nada, doía.

Dessa vez, com um agravante: Carol sabia que Lu ainda não estava bem. Então, o medo vinha como um novo ingrediente para essa receita amarga.

Carol desfez a mala sob as reclamações de Luísa. Organizou uma planilha com os horários das medicações e acomodou Luísa na cama.

- Você tem certeza que vai ficar bem? - perguntou Carol.

- Tenho. Fica tranquila - respondeu.

- Promete que se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, você me liga? - checou.

- Prometo.

- Cadê seu celular?

- Está aqui comigo.

- OK. Quer que eu pegue água?

- Carol, eu vou ficar bem. Qualquer coisa, juro que ligo pra você. - tranquilizou Luísa.

- Então, eu vou indo. Qualquer coisa é só ligar que chego em 5 minutos. - reforçou.

- Pode deixar - respondeu Luísa, paciente.

Carol despediu-se com um beijo na testa de Luísa e desceu as escadas inquieta. Chegando lá embaixo gritou:

- Qualquer coisa é só ligar!

- Eu sei - respondeu Luísa

Ela então bateu a porta.

Ainda demorou um tempo no corredor, sem saber direito o que fazer. Ficou esperando como se a qualquer momento Luísa fosse abrir a porta e puxar-lhe pra dentro.

Até se dar conta que não havia chamado o elevador.

Hora de partir.

Naquela noite, Carol não dormiu. Ligou para Luísa várias vezes. Avisou de todos os horários de remédios. Alertou sobre as horas das refeições. Deu recomendações sobre não fazer esforço.

Viu o sol nascer e com ele a rotina de uma mulher solteira.

E, mais uma vez, teve certeza que não era isso que queria. Que o que queria era estar casada. Na verdade, o que queria era estar casada com Luísa.

No dia seguinte, ligou para lembrar da consulta com o pneumologista dali a dois dias. Ligou para saber se tinha dormido bem, ligou para saber se tinha comido, ligou para saber se sentia-se bem, ligou para saber se sentia sua falta.

Luísa respondeu a todas as suas perguntas, menos à última. Dessa, ela se esquivou. Mas aceitou a oferta de Carol, para acompanhá-la na consulta com o médico.

E assim foram.

As notícias eram boas, em sua maioria. Luísa se recuperava bem, mas ainda existiam riscos de recaída, que precisavam ser considerados. Dessa forma, a indicação era de trabalhar apenas meio expediente no escritório, continuar com os antibióticos e evitar exercícios mais pesados, portanto nada de corridas, só caminhadas curtas.

Luísa não gostou das restrições, sobretudo as que envolviam o trabalho. O escritório sentia a falta dela e ela sentia falta da rotina de trabalho. Embora tivesse uma estagiária à sua disposição 8h por dia, em sua casa, sentia falta de estar lá, dos tribunais.

Ouvindo os argumentos de Luísa, o médico liberou ela para participar das audiências, mas não abriu mão de que trabalhasse apenas meio expediente no escritório durante o próximo mês.

Bom, ela encarou aquilo como uma vitória diante de um juiz.

Saíram felizes.

Quando entraram no carro, Carol a abraçou e disse:

- Que tal se a gente comemorar?

- Comemorar?

- Sim, sua melhora!

- Podemos sair e encher a cara. Vamos tomar todas! Que é que você acha? - disse Luísa irônica.

- Eu topo. Acho que podemos virar a noite tomando chá. E só parar quando não soubermos mais os nossos nomes! - sugeriu Carol.

Luísa respondeu rindo:

- É uma proposta quase irrecusável, mas vai ficar pra próxima. Tenho uma petição pra acabar.

- Eu posso esperar você acabar e pedir alguma coisa pra gente comer...

- Carol, acho melhor não. Posso demorar e não quero que fique esperando. Marcamos outro dia.

- Tudo bem.

Quando chegaram na frente do prédio de Luísa, Carol insistiu:

- Tem certeza que não quer companhia?

- Hoje não - confirmou

- Tá bom - disse Carol, baixando a cabeça e tirando as mãos da direção.

- Ei, a gente marca outro dia - falou Luísa, dando-lhe um beijo de despedida no rosto.

Carol respondeu com um sorriso de canto de boca. Quando Luísa estava saindo do carro, ela segurou sua mão e disse:

- Eu amo você.

- Carol...

- Não fala nada, só queria dizer.

- Tá bom. Obrigada pela companhia.

- Foi um prazer.

Luísa saiu do carro, entrou pela portaria e sumiu no elevador.

Carol ficou ali, observando tudo de dentro do carro. Pensando como seria se pudesse estar com ela, tê-la de volta.

 

Capitulo 19 - Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual por Poracaso

Carol e Luísa desenvolveram uma rotina própria de comunicação. Embora não fossem um casal, se falavam todos os dias, várias vezes por dia. Carol ainda cuidava dos horários dos remédios e monitorava se Luísa estava cumprindo tudo que fora determinado pelo médico.

Vez por outra, tentava se aproximar para além dos telefonemas, mas Luísa sempre encontrava uma forma delicada de delimitar os espaços.

Mas qualquer espaço já era melhor que nenhum, pensava Carol.

Ela sabia que suas chances eram mínimas, mas tinha decidido investir todas as suas energias no resgate daquele relacionamento. E isso envolvia respeitar espaço e tempo. Portanto, se manteria firme nessa missão.

Uma semana havia se passado desde a consulta com o pneumologista, na qual tinha acompanhado Luísa. Ela estava na universidade, à tarde, quando a estagiária de Luísa ligou para ela dizendo que Lu estava se queixando de falta de ar e que aparentava cansaço.

Carol quis saber mais detalhes, mas a jovem explicou. Estava aproveitando que Luísa tinha ido ao banheiro para ligar e que não queria que ela ficasse sabendo que a iniciativa de contatar Carol tinha partido dela.

Carol pediu que ela não saísse de lá.

Então, ligou para o celular de Luísa.

- Oi, Carol - atendeu Luísa

- Oi, Lu, tudo bem?

- Tudo e você?

- Tudo certo. Olha, tava pensando se a gente podia conversar sobre a escritura da casa. Como tem todo um processo jurídico, queria ver se você me ajuda.

- Claro! Podemos marcar - respondeu

Carol percebeu que ela estava meio ofegante, o que batia com a dificuldade para respirar relatada pela estagiária.

- Você está ocupada? - perguntou Carol.

- Estou trabalhando em casa - disse.

- Estou te achando cansada - desafiou

- Hoje acordei com um pouco de falta de ar, mas tá tudo bem - contornou.

- Você já ligou para o médico? - quis saber Carol.

- Não é necessário - amenizou

- Olha, Lu, o que você teve foi muito sério. Ele falou dos riscos de uma recaída. Não acho que seja prudente esperar a situação se resolver sozinha - decretou

Luísa ficou um tempo em silêncio, como se estivesse ponderando o que tinha acabado de ouvir e então:

- Você pode ligar pra ele, então? - pediu Luísa.

- Claro que posso. Vou fazer isso e falo com você daqui a pouco - disse Carol.

Depois de ter ouvido do médico que Luísa precisava ser avaliada imediatamente, Carol ligou para ela de volta:

- Lu, ele disse que precisa lhe examinar. Eu estou saindo da universidade e passo aí pra pegar você.

- Mas...

- Você está só? - disse, fingindo não saber da presença da estagiária.

- Não. Letícia está aqui comigo - disse.

- Diga a ela que não saia daí até eu chegar, ok? - pediu.

- Tá bom.

Quando Carol chegou, Luísa e Letícia já estavam aguardando na portaria do prédio.

Luísa entrou no carro, enquanto Carol agradecia a Letícia, piscando com o olho direito para sua cúmplice.

O médico tirou a temperatura de Luísa e fez os exames de rotina. Ela tinha 38 de febre e respirava com dificuldade.

Foi rápido até os resultados apontarem para uma sinusite.

De volta ao início.

Mais antibióticos.

Mais antitérmicos.

Mais restrições.

Mais repouso.

O médico recomendou repouso absoluto e que ela não fosse deixada sozinha.

Luísa entrou no carro arrasada, pela doença e pela impotência. Portanto, corpo e alma padeciam.

Carol entrou no carro com uma certeza: não deixaria Luísa piorar.

Ao chegar no prédio de Luísa, Carol buzinou para que o porteiro abrisse o portão da garagem. Luísa olhou de lado pra ela e ia começar a falar, quando Carol a interrompeu:

- Lu, não perca seu tempo. Eu não vou deixar você sozinha e estou apenas seguindo as recomendações do médico e, sobretudo, as do meu coração. Então, vamos evitar desgastes. Prometo que se você preferir, eu nem dirijo a palavra a você, mas só, você não vai ficar. Se você preferir ligar pra alguém vir ficar com você, tudo bem, mas só saio daqui quando a pessoa que você escolher chegar.

Luísa olhou para ela com preguiça, saiu do carro sem dizer nada. Ambas caminharam até o elevador e subiram juntas sem dar uma palavra. Entraram em casa e subiram até o quarto. Enquanto Luísa tomava banho, Carol ligou para a farmácia, pediu os remédios e improvisou alguma coisa para elas comerem.

Luísa comeu calada, só falou o estritamente necessário. Tornou a subir para o quarto. Carol fez um chá, pegou os remédios e subiu. Colocou tudo na cabeceira de Lu e perguntou:

- Posso tomar um banho?

- Pode.

- Você me empresta um pijama? Amanhã não dou aula de manhã, então passo em casa e pego algumas roupas. Já liguei para Maria vir para cá logo cedo. - avisou.

- Pode pegar um pijama no guarda-roupa.

- Obrigada.

Carol saiu do banheiro vestida de Luísa. Embora Carol fosse mais alta, tinham praticamente o mesmo corpo, o que facilitava as coisas. Nunca compartilharam roupas, pois tinham estilos muito diferentes. Carol mais despojada, Luísa sempre mais formal, na maioria das vezes, por força do trabalho.

Carol pegou um travesseiro e um cobertor e já ia descendo. Quando Luísa perguntou:

- Você vai pra onde?

- Lá pra baixo, pro sofá.

- Não tem necessidade disso, Carol - reclamou Luísa.

- Só achei que você não ficaria à vontade - explicou.

- Passei quase um mês na sua casa e você dormiu comigo todos os dias. Não vai ser agora que vou criar caso - falou.

- Tudo bem, já que você insiste... - disse ela, brincando.

- Sem graça! - resmungou Luísa.

Carol olhou pra ela e percebeu a expressão de cansaço, que deixava seus olhos frágeis.

- Você tá se sentindo bem?

- Estou cansada disso tudo - disse ela, deixando as lágrimas rolarem.

Carol abraçou ela, que soluçava sem parar.

- Ei, calma. Vai ficar tudo bem. Sei que é difícil estar nessa esse tempo todo, mas entenda, você precisa dar um tempo para o seu corpo. Ele está se recuperando de uma tormenta, está frágil. Que tal diminuir o ritmo? Você tira uma semana de férias, sem nenhum trabalho. Se dê esse tempo.

Aos poucos, a respiração foi voltando ao ritmo normal e os soluços foram se espaçando. Mas ela não soltou Carol. Continuava ali, firme, como se aquela fosse sua única segurança.

Carol deixou que ela ficasse até se sentir segura para ir se soltando aos poucos. Elas então deitaram-se lado a lado, Luísa com a cabeça no seu ombro e Carol alisando-lhe os cabelos.

Luísa dormiu rápido, mas Carol ainda ficou um bom tempo olhando para ela, num sono tranquilo, tentando imaginar como ela devia estar se sentindo, presa dentro de casa, com alguém que talvez ela não quisesse ali.

E esse alguém era ela.

Carol saiu da cama, desceu, ligou para Solange.

- Oi, Carol, aconteceu alguma coisa?

- Oi, Solange, desculpa ligar a essa hora, mas é que Luísa teve uma recaída. Está com febre e respirando com dificuldade. O médico recomendou repouso absoluto.

- Não é possível! Posso ajudar em alguma coisa?

- Acho que sim. Eu não sei se ela me quer aqui de verdade ou se só está acuada, sem saída. Não sei até que ponto minha presença aqui ajuda, entende?

- Ela falou alguma coisa sobre isso pra você?

- Na verdade, eu não deixei que ela falasse. Mas sugeri que se ela não quisesse a mim, que ligasse para outra pessoa, mas que sozinha ela não ficaria.

- Ela ligou para alguém?

- Não.

- Então qual é o seu medo, Carol?

- De estar forçando a barra.

- Você acha que está?

- Não, mas estou com medo.

- Carol, é até engraçado te ouvir falar assim. Você está sempre tão certa de tudo e agora está aí, toda insegura!

- Faz tempo que não tenho mais segurança quando o assunto é Luísa.

- O mundo dá voltas, né?

- Muitas.

- Bom, mas, respondendo ao que você me perguntou, acho que, ao contrário de você, Luísa nunca esteve tão segura quando o assunto é Carol! Então, acho que se ela permitiu que você ficasse aí, talvez ela queira você e não outra pessoa. Ela sabe que tem a quem recorrer, que não precisa ser a você.

- Mas ela estava cansada e também eu não deixei ela falar...

- Carol, você acha que ela se calaria porque você a interrompeu?

- Não é isso, mas ...

- Carol, você não tem nenhum poder sobre ela.

- Eu sei. Na verdade, nunca quis ter, só não quero atrapalhar.

- Você já influenciou Luísa muitas vezes quando estavam juntas, mas desde que tudo aconteceu, ela aprendeu a tomar as próprias decisões e está se saindo muito bem.

- Concordo com você. Também percebo ela muito mais madura, segura. Minha única preocupação é mesmo não acabar deixando ela pouco à vontade.

- Olha, Carol, eu acho que antes de qualquer coisa vocês têm uma história. Luísa está fragilizada com a doença e acho que ela quer ao lado dela alguém com quem tenha intimidade. Claro que ela tem opções, tem a mim, a Marcos, a Marina. Mas ninguém tem intimidade suficiente para levá-la ao banheiro, para limpar vômito, por mais que façamos sem nenhum problema, ela não se sente à vontade como ainda se sente com você. Então, se eu fosse você, ficava aí.

- Solange, não sei como agradecer.

- Não agradeça, fiz por Luísa. Outra coisa, você precisa de ajuda amanhã?

- Não dou aula amanhã e pedi para Maria vir pra cá enquanto for preciso.

- Eu passo por aí à tarde para dar uma olhada nela e ai a gente combina o que fazer nos outros dias, OK?

- Tá certo, ela vai gostar de ver você. Estou preocupada com ela.

- Alguma coisa em especial?

- Ela chorou bastante agora à noite. Chorou tanto que pegou no sono. Ela está sentindo falta do trabalho, de correr, acho que até de ficar só, sem ninguém cuidando dela, sabe?

- Normal, Carol. Ela vem de uma internação, de um tratamento com remédios fortes, fora as dores, o mal estar e a saída da rotina, que a gente sabe que, no caso de Luísa, é devastador. Temos que cuidar para ela sair logo dessa e para manter o ânimo em alta.

- Verdade e, mais uma vez, obrigada!

- Até amanhã.

 

Capitulo 20 - Amanhã ódios aplicados, temores abrandados, será pleno. por Poracaso

Quando Luísa acordou, Carol já não estava na cama. Ela ouviu vozes lá embaixo e resolveu levantar. Ficou tonta ao se pôr de pé e acabou sentando na beira da cama. Ela nem precisou chamar, Carol chegou rápido ao perceber a movimentação.

- Bom dia, como você está?

- Um pouco tonta.

- Deixa eu colocar umas almofadas aqui para você se encostar. Vou pegar seu café da manhã e já volto. Quer alguma coisa?

- Não. Maria está aí?

- Está.

- Eu posso vê-la?

- Vou pedir para ela vir aqui.

Carol desceu as escadas correndo já gritando por Maria, que quase tropeça no tapete pensando que alguma coisa tinha acontecido.

- O que aconteceu, Carolina?

- Luísa quer ver você!

- Que susto, menina, pensei que tinha acontecido alguma coisa!

Maria subiu as escadas com dificuldade depois do susto. Mas esqueceu do esforço quando viu Luísa:

- Minha Lulu!

- Mariazinha!

Carol vinha logo atrás de Maria.

- Você quer que eu faça o que de gostoso pra você comer?

- Bolo de chocolate!

- Vou fazer um com bem muita calda, só pra você!

- E eu? - quis saber Carol.

- Você pode comer um pedacinho! - disse Maria.

- Sebe o que eu acho? Que Luísa tá ficando doente de propósito, só pra ter você aqui!

- Mas não sou só eu que estou aqui, você também está, então, nada melhor do que está cercada pelas pessoas que ela ama e que amam ela, não é, Lulu?

O olhar de Carol e Luísa se cruzou, enquanto Maria abraçava Luísa com um sorrisinho malicioso.

- Bom, então vou descer para preparar seu café da manhã e seu bolo de chocolate. Carol, você sobe com a bandeja, senão eu vou morrer nessa escada e aí, nada de comida!

- Claro! Lu, não saia daí. Eu já subo, tá bom?

- Fique certa de que eu não vou a lugar nenhum!

Carol esperou chegar lá embaixo para dizer:

- Dona Maria, a Sra. pode me explicar o que foi isso lá em cima?

- Isso o que? - respondeu Maria rindo.

- Muito engraçadinha a senhora, mas não faça mais isso. Luísa está chateada comigo, com toda razão, e não quero que ninguém a pressione.

- Ela tem toda razão mesmo. Você foi uma idiota!

- Ma-ri-aaaa! O que é isso?

- É o que você foi. Agora tá ai sofrendo, comendo o pão que o diabo amassou, ou melhor, você mesma amassou, você e essa outra que você arrumou no estrangeiro.

- Maria, deixa eu te explicar uma coisa: eu amo Luísa, essa história foi um erro sem tamanho e estou pagando por ele e talvez pague pelo resto da vida.

- Ai, se arrependimento matasse, Carolina!

- Pois é. Eu estaria morta, não tenha dúvida disso. Mas enquanto não morro, vou lutar.

 

Notas finais:

Carol só anda recebendo verdades na cara, mesmo com tanto esforço e zelo. Vocês acham que ela deveria  se conformar e desistir? 

Capitulo 21 - Mesmo querendo, eu não vou me enganar, eu conheço seus passos, eu vejo seus erros. por Poracaso

Já era quase duas da tarde quando Solange tocou a campainha.

Ela trouxe revistas e um livro com uma trama jurídica bem ao gosto de Luísa. Elas conversaram horas, o que deu uma folga para Carol ir até o mercado comprar umas coisas que Maria havia pedido.

Quando Solange se despediu de Luísa, já era noite. Carol desceu com ela e foi levá-la até a porta. Na saída ela perguntou:

- O que você achou dela?

- Você fala do estado geral?

- Sim.

- Fisicamente, achei abatida, mais magra, frágil. Emocionalmente, achei impaciente, na verdade, de saco cheio de estar presa em casa, mas acho uma reação super normal!

- Sim, cabe a nós termos paciência.

- Exatamente.

- Bom, obrigada.

- Quero ela feliz e curada. Olha, quando subir, coloca o termômetro nela, que acho que ela está quente.

- Pode deixar, sei cuidar dela.

- Talvez fisicamente saiba, emocionalmente, nem sempre.

O elevador chegou e Solange desapareceu dentro dele.

Carol fechou a porta escorando a testa na parte de dentro, tentando descobrir quando tudo aquilo ia acabar. E chegou a uma única conclusão: muito provavelmente, nunca. Aquele era um erro assumido para sempre.

Ela subiu cansada de si mesma.

Luísa estava dormindo, o livro caído no colo e os óculos pendendo do rosto. Ela riu da cena ao mesmo tempo que sentia um carinho enorme por aquele momento.

Tirou os óculos de Luísa, colocou o livro na mesa de cabeceira, encostou a mão na sua testa e teve que aceitar, mais uma vez, que Solange estava certa.

A febre tinha voltado.

Carol deitou ao lado de Luísa e lhe deu o antitérmico junto com o antibiótico. Ela engoliu os remédios e se aninhou no ombro de Carol como se fosse a única coisa que pudesse fazer naquele momento.

O dia começou às 4 da manhã com Carol tentando baixar a febre de Luísa embaixo do chuveiro. O termômetro marcava 40 graus quando Carol começou a colocar compressa na testa de Luísa e então ela disse:

- Fica comigo?

Carol foi pega de surpresa e não sabia direito se aquilo tinha sido um indício de uma abertura para um retorno, um medo de que ela saísse do seu lado naquele momento ou um delírio febril. Na dúvida, seja o que significasse aquele pedido, ela respondeu:

- Fico.

E ficou. Não saiu do lado de Luísa um só minuto. Não foi trabalhar, cancelou orientações, abandonou aquele dia para cumprir o que havia prometido.

A recompensa foi Luísa a tarde toda sem febre.

 

Notas finais:

O que será que significou o pedido de Luisa, Meninas?

Capitulo 22 - Porém não tive coragem de abrir a mensagem. Porque na incerteza eu meditava e dizia: será de alegria? Será de tristeza? por Poracaso

A semana chegou ao seu final com Luísa bem melhor. Carol continuava de prontidão no apartamento de Lu, mas já pressentia que a qualquer momento seria convidada, gentilmente, a se retirar.

Enquanto isso, o que tinha pela frente era uma consulta com o médico.

- As notícias são boas! A infecção cedeu, na segunda você pode voltar a trabalhar no escritório. Na semana seguinte, poderá voltar a fazer pequenas caminhadas e trabalhar os dois expedientes, normalmente. Enfim, vida que segue.

- Pensei que nunca mais ia ouvir isso! - comemorou Luísa.

- Mas não quero você ainda fazendo extravagâncias, nem descuidando da alimentação e dos remédios. Também precisa manter a fisioterapia pulmonar por mais um mês para depois reavaliarmos, ok?

- Pode deixar, doutor, ela vai fazer tudo direitinho - afirmou Carol.

As recomendações do médico foram a deixa para Carol fazer a pergunta para a qual ela não tinha certeza se queria ouvir a resposta. Esperou chegarem em casa para ter coragem:

- Lu, agora que o pior já passou e você está melhor, o que você quer que eu faça?

Depois que fez a pergunta, percebeu que não foi a melhor construção, mas foi a única que teve coragem de fazer. O correto, ela sabia, era perguntar: Você ainda me quer aqui? Mas, para essa, ela não tinha coragem.

Luísa, por sua vez, talvez também não estivesse pronta para responder qualquer que fosse a construção daquela pergunta. Como foi pega de surpresa, ela encarou Carol e emudeceu, como se errar aquela resposta significasse perder 1 milhão de reais em barras de ouro. E o que é pior, ela não podia recorrer a ninguém para ajudá-la.

Então...

...Ela, simplesmente, usou sua experiência como advogada.

- Acho que você pode tomar um banho enquanto eu providencio o jantar! Hoje você está de folga!

- Banho? Folga? Sério?

- Eu sei, que depois de um mês cuidando de doente é até difícil se desapegar, mas sou eu quem estou dizendo. Vai lá, toma um banho, que hoje vamos comemorar!

Carol, no fundo, comemorou, pois entendeu que nenhuma das duas estava preparada para se desprender da outra. O que restava naquele momento era tomar banho e celebrar.

Quando desceu, já tinham uma bela mesa com sushi e um vinho.

- Gente, como isso aqui aconteceu?

- Sou boa nisso!

- Sem dúvida, é!

- Tá com fome?

- Se eu não estivesse, ficaria agora mesmo!

- Então, senta, pode ir servindo o vinho enquanto vou tomar um banho rápido e já desço.

- Você vai tomar vinho?

- Vou.

- Vai? Você não bebe e ainda está tomando remédio!

- Uma tacinha só não tem problema e você está de folga, lembra? Então, finge que não viu.

Carol esperou Luísa subir as escadas para se beliscar e conferir que aquilo estava mesmo acontecendo.

 

Notas finais:

Quem conseguiu ler sem sentir o coração aquecer um pouquinho?

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