If(true){love} //o código da atração por linierfarias
Summary:

Quando a ansiosa e metódica Isabella é convidada a integrar a equipe de uma das principais empresas de tecnologia do pais, ela vê sua vida simétrica e organizada ser colocada de pernas para o ar ao ter que trabalhar ao lado da intempestiva e impetuosa Alice. O resultado dessa parceria inusitada é uma divertida relação, cheia de indas e vindas, tapas e beijos e muita confusão.


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 30 Completa: Não Palavras: 91938 Leituras: 56166 Publicada: 07/11/2017 Atualizada: 22/04/2018
Notas:

Minha segunda história...

A primeira foi Amor... E Outros Dilemas. Quem leu, levanta a mão! Rsrs

O primeiro e o segundo capítulo, onde apresento as duas protagonistas, serão postados em novembro. O demais, serão postados a partir de dezembro, todas as quarta.

Espero que curtam.

E não esqueçam jamais de deixar a opinião vocês. 

Isso faz total diferença para mim.

Abraços!!!

 

1. Capitulo 1 - Isabella por linierfarias

2. Capitulo 2 - Alice por linierfarias

3. Capitulo 3 - Crash! Boom! Bang! por linierfarias

4. Capitulo 4 - Ironic por linierfarias

5. Capitulo 5 - Chasing The Sun por linierfarias

6. Capitulo 6 - Trouble por linierfarias

7. Capitulo 7 - Crazy In Love por linierfarias

8. Capitulo 8 - Animals por linierfarias

9. Capitulo 9 - Cool For The Summer por linierfarias

10. Capitulo 10 - Quando Você Passa por linierfarias

11. Capitulo 11 - Quando Você Passa (Parte II) por linierfarias

12. Capitulo 12 - Just The Way You Are por linierfarias

13. Capitulo 13 - The Reason por linierfarias

14. Capitulo 14 - Outro Lugar por linierfarias

15. Capitulo 15 - Firework por linierfarias

16. Capitulo 16 - All The Things She Said por linierfarias

17. Capitulo EXTRA - Teenage Dream por linierfarias

18. Capitulo 17 - Locked Out Of Heaven (Parte I) por linierfarias

19. Nota da Autora por linierfarias

20. Capitulo 17 - Locked Out Of Heaven (Parte II) por linierfarias

21. Capitulo 18 - When Love Takes Over por linierfarias

22. Capitulo 19 - Don't Go Away por linierfarias

23. Capitulo 20 - Let me Go por linierfarias

24. Capitulo 21 - Primeiros Erros por linierfarias

25. Capitulo 22 - Luxúria por linierfarias

26. Capitulo 23 - Hands To Myself por linierfarias

27. Capítulo 24 - Everybody's Fool por linierfarias

28. Capitulo 25 - Misunderstood por linierfarias

29. Capitulo 26 - Loca por linierfarias

30. Nota da Autora por linierfarias

Capitulo 1 - Isabella por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

StaticvoidMain(){

  var Capítulo= 1;

  var Título = “Isabella”;

                var POV= “Isabella”;

};

 

-- Quer parar de chacoalhar essas pernas, Isa? Já está me dando nos nervos.

-- Ai, Fê... Tô angustiada. Olha esse trânsito! Não posso chegar atrasada no meu primeiro dia. Que impressão vou causar?

-- Amiga, às vezes essa sua ansiedade extrapola todos os limites do aceitável. Nós já passamos da metade do caminho e ainda falta mais de uma hora. Fica calma, caramba!

-- Como você quer que eu fique calma? Faz mais de dez minutos que estamos paradas no mesmo lugar. Só pode ter havido algum acidente.

Estiquei o pescoço em uma tentativa falha de enxergar alguma anormalidade, mas não vi nada além do amontoado de carros enfileirados em nossa frente, buzinando freneticamente. Fernanda repetiu o meu gesto e, em seguida, deu-se por vencida, concordando comigo.

-- É, realmente está mais lento do que o normal.

-- Devíamos ter saído mais cedo.

Reclamei e me arrependi em seguida. Meu comentário a irritou de tal forma que foi impossível não ser atingida em cheio pelo sarcasmo lançado por ela quando disse:

-- Ah, me desculpe, madame! Amanhã vou tentar acordar às 4hda madrugada para garantir que a senhora chegue a tempo.

-- Desculpa, Fê! Estou sendo mal agradecida.

Lutei para conter minha ansiedade. Fernanda tinha razão. Apesar do engarrafamento, ainda estávamos muito adiantadas.

-- Tá, não esquenta! Ai, Isa, mas tenho que falar: ainda bem que não preciso te dar carona todos os dias! Acho que eu enlouqueceria rapidinho.

-- Nem me lembre disso, porque me dá vontade de matar o Lucas.

-- Por falar em Lucas, afinal, por que você ainda empresta o carro pra ele, hein? Que eu me lembre, deve ser a terceira vez que ele bate. Qual foi a desculpa desta vez?

A pergunta intempestiva de Fernanda fez meu tom de voz mudar imediatamente. Nós éramos melhores amigas desde o berçário, portanto, ela se sentia no total direito de se meter em minha vida na hora e da forma que bem entendesse. No geral, eu não me importava muito com isso, mesmo porque eu fazia exatamente o mesmo com ela. Mas quando o assunto era o Lucas, meu namorado, as perguntas e os comentários dela sempre me deixavam desconsertada, incomodada, sem saber muito bem como responder. O que eu jamais admitia, nem para ela e nem para mim mesma, era que o motivo de tanto incômodo se dava, única e exclusivamente, por concordar com absolutamente tudo o que ela dizia.

-- Disse que estava muito cansado. Dormiu ao volante quando voltava do show.

Falei, meio que já tentando desconversar, com o rosto virado para a janela, sem ter coragem de encará-la. Por isso, não pude ver a expressão em seu rosto. Isso, no entanto, não me impediu de sentir toda a ironia que ela depositou na voz ao falar:

-- Sei... Cansado e bêbado, imagino. 

Era muito provável que ela estivesse certa, no entanto...

-- Não, ele falou que só tinha tomado duas cervejas.

Isso era o que ele havia me dito. É, eu acreditei... Ou, pelo menos fingi ter acreditado. Era mais fácil assim.

-- E você acreditou? Isabella, francamente, sabia que eu não te entendo? Olha só você... Uma garota fantástica, linda, bem-sucedida, bem-criada... Nada me tira da cabeça que a única coisa que te prende àquele perdedor do Lucas é o comodismo de estarem juntos por tanto tempo.

-- Fê, não quero entrar nesse assunto. Sua implicância com o Lucas não encontra limites nunca.

-- Implicância? Isa, o cara está beirando os trinta anos e ainda age feito um adolescente inconsequente. Isso é absurdo! Pronto, falei.

-- Eita, que hoje você tá afiada, hein?

-- Amiga, tenha santa paciência, né? Essa história de ser músico era linda quando estávamos no colégio, mas já se passaram mais de dez anos e ele ainda não emplacou nada. Já tá mais do que na hora de procurar um trabalho de verdade, não acha? Ao invés de ficar vivendo como um parasita, te sugando.

Pronto, o assunto fatídico voltara à tona.

-- Fernanda, você tá sendo injusta. Não é bem assim. Ele ganha pelo trabalho dele, embora não seja muito, mas mesmo assim está sempre disposto a ajudar nas despesas.

-- Disposto? – Ela riu com escárnio antes de continuar. – Até onde eu sei, Isabella, quando duas pessoas moram juntas, dividir as despesas não é uma questão de disposição, mas sim de obrigação.

-- Menina, por que foi mesmo que eu não pedi um Uber, hein?

O meu tom de voz, àquela altura já impaciente, fez com que o dela se alterasse mais ainda, ao que retrucou quase aos gritos:

-- Porque você é uma maluca, paranoica, que tem medo do motorista ser, na verdade, um maníaco, que vai te assaltar ou te estuprar...

-- Você não lê as notícias? Semana passada mesmo, eu vi no jornal que...

Tentei, em vão, mudar de assunto, mas fui interrompida bruscamente no meio da frase:

-- Pois é, já que você é uma desvairada com síndrome do pânico que não usa transporte público, só te resta me ouvir. Então, cale a boca e receba. Isa, pelo amor de deus, ele te traiu.

-- Uma vez...E isso já faz mil anos...

-- Uma vez que você descobriu.

-- Aquilo não significou nada, Fernanda. Foi só sexo... Aliás, nem chegou a isso. Eu estava muito ausente, completamente concentrada no meu projeto. Ele se sentiu carente e foi fraco. Só isso.

-- Ah, claro! Sendo assim, tudo bem, né?

-- Fê, o que você quer que eu faça? Não vou ficar correndo atrás dele pra ver se descubro alguma coisa. Além do mais, nossa relação é bem maior que isso. Tem muita coisa envolvida... Uma vida inteira, pra falar a verdade. Nós temos uma história de mais de dez anos. As coisas nem sempre são fáceis na vida a dois.

Soltei tudo de uma vez. Queria deixar claro que os relacionamentos não eram perfeitos e que os percalços faziam parte da vida de qualquer casal. Precisava que ela entendesse que a cessão era algo fundamental na vida a dois e que um mero erro não poderia, jamais, ser maior do que um amor cultivado durante tanto tempo. Logo que me calei, o trânsito voltou a fluir, obrigando Fernanda a focar novamente no tráfego. Ela seguiu nosso caminho aparentemente resignada, embora eu tivesse plena convicção de que, no fundo, aquele silêncio repentino se manifestara apenas por ela saber que a conversa, como sempre, não traria resultado algum. Eu e a minha boca grande, no entanto, insistimos no assunto. Em mais uma tentativa frustrada de fazê-la enxergar a situação através de meus olhos, continuei:

--Olha, ele tem os defeitos dele...Aliás, muitos, eu admito. Mas eu também tenho os meus. Não sou nenhuma santa, se quer saber. Além disso, eu gosto de estar com ele, Fê. Nós cuidamos um do outro...

Ela deixou escapar mais um sorriso sarcástico e então voltou a falar. No entanto, mudou drasticamente a tática, pegando-me totalmente desprevenida ao perguntar:

-- Faz quanto tempo que vocês não transam?

-- O quê?

-- Responda à pergunta, Isabella.

Aonde ela queria chegar com aquilo? Ao que parecia, estava determinada de uma vez por todas a me provar que meu relacionamento com Lucas estava falido. Mas eu não ia permitir que vencesse tão fácil. Retruquei, vestindo a minha melhor máscara de indignação:

-- Isso não é da sua conta, sua metida.

-- Tá vendo? Se não quer responder é porque tá com vergonha de dizer que faz séculos.

-- Fernanda, não é o sexo que mantém um relacionamento.

-- Lógico que não. Mas você há de convir que sem ele, o sexo, não há relacionamento para se manter, não é verdade?

Eu precisava de uma arma mais poderosa. As minhas estavam falhando vergonhosamente. Apelei para um golpe baixo:

-- O que você entende sobre relacionamentos? Nunca passou mais de seis meses com um cara...

Mas Fernanda era uma guerreira e tanto. Sempre preparada para o melhor revide.

-- E o que VOCÊ entende? Até onde eu sei, sua única referência é o Lucas. O que, definitivamente, não é lá grande coisa.

-- Fernanda, eu não vou usar sexo como termômetro para avaliar o meu namoro. Nós estamos juntos há mais de dez anos... Moramos juntos. É natural que as coisas esfriem...

-- Quando tempo sem transar, Isa?

Ela não tinha limites... Nunca teve. Minha resposta foi precedida de um suspiro resignado:

-- Uns cinco meses, talvez...Não estou contando.

-- Eita...

O trânsito, àquela altura, já havia voltado a fluir normalmente e o meu destino se aproximava cada vez mais, para o meu total alívio. A inquisição não estava me agradando em nada. Era sempre assim: bastava o mínimo deslize do Lucas para aquele assunto vir à tona entre nós. E sempre que acontecia, o bom humor, característica tão peculiar de Fernanda, se esvaía no ar. Isso porque, não importava o quanto ela tentasse, a conversa sempre acabava da mesma forma: de minha parte, mil e uma tentativas de justificar os atos irresponsáveis do meu namorado, e da parte dela, as mais diversas réplicas e tréplicas, até finalmente se sentir derrotada.

-- Isso não é culpa dele. Ele até tem me procurado... Eu é que tenho andado muito estressada com a start up, com a proposta que recebi...

-- Claro, Isa. A culpa nunca é dele.

E sabendo que aquele assunto, como sempre, não nos faria chegar a lugar algum, seguimos o resto do caminho caladas. Chegamos na frente do prédio faltando ainda cerca de trinta minutos para dar o meu horário. Fernanda parou em frente a uma padaria, do outro lado da rua. Agradeci pela carona e fui respondida com um vago “de nada”. Sem me dar por vencida, antes de descer, abracei-a e dei um beijo estalado em seu rosto. Éramos como irmãs. Não alimentávamos aquele sentimento fraterno que tínhamos uma pela outra sequer pelos nossos próprios irmãos de sangue. Talvez por isso Fernanda se incomodasse tanto com o que, para ela, era a minha infelicidade.

-- Você vem me buscar mais tarde?

-- Claro! Se eu não vier, é capaz de você dormir aí.

Ela me respondeu em um tom brincalhão e eu sorri satisfeita ao perceber que seu humor já estava melhorando.

-- Você é minha heroína! Te ligo quando estiver livre.

-- Ok. Boa sorte lá.

-- Obrigada. Te amo, amiga!

-- Também te amo, sua chata!

Aliviada por ter chegado com bastante antecedência, resolvi entrar na padaria para tomar café, vez que não havia feito isso em casa. A ansiedade não me permitira. Enquanto saboreava a minha refeição, foi inevitável refletir sobre minha conversa com Fernanda.

Lucas era um deus na época do colégio. Os caras queriam ser iguais a ele, e as meninas, ficar com ele. Fernanda e eu não fugíamos a essa regra. Tal que a minha alegria não poderia ter sido maior quando ele começou a trocar olhares comigo de cima do palco, enquanto cantava e tocava em uma festa comemorativa do colégio. Dali até começarmos a namorar firme levou menos de uma semana. Ele exibia um belo rosto, marcado por traços afilados, o corpo definido em músculos torneados, a pele bronzeada por causa do sol forte ao qual se submetia quase todas as tardes, enquanto surfava... O conjunto da obra, por si só, já era irresistível. Por isso, o fato de cantar e tocar guitarra poderia ser considerado apenas como mero acessório, apensado à sua lista quilométrica de atributos. Ele desfilava charme para cima e para baixo nos corredores da escola. Sabia que era desejado e invejado, o que dava a ele uma autoconfiança inabalável. Anos depois, no entanto, ele foi vítima da própria vaidade. Certo de que logo conquistaria o sucesso, largou os estudos assim que concluiu o ensino médio, passando a se dedicar exclusivamente à carreira artística. No início, eu achava lindo. Dava total apoio a ele, ia a quantos shows podia ir, divulgava as apresentações da banda dele entre meus colegas da faculdade... Eu me considerava sua fã número um.

O tempo passou rápido. Quatro anos depois, eu havia me formado em Ciências da Computação, enquanto Lucas continuava na mesma vida. Sua confiança, no entanto, já não parecia mais tão inabalável como antes. Mesmo assim, ele jamais parecia disposto a desistir da carreira, e eu, embora já não tivesse mais qualquer esperança de que ele alcançasse o sucesso, não ousava interferir em suas decisões, afinal, aquele era o sonho dele.

Logo que me estabilizei em meu primeiro emprego, decidi colocar de vez os dois pés na vida adulta e saí da casa dos meus pais. Aluguei um apartamento e me mudei. Para o meu relacionamento com Lucas a situação havia melhorado consideravelmente, vez que na casa de nossos pais jamais havíamos tido a liberdade de dormir juntos. Começou com o final de semana. Sempre depois dos shows da banda dele, voltávamos para a minha casa. Depois ele passou a ficar na segunda, na terça... E quando eu menos esperava, todas as coisas dele já estavam no apartamento. Então, oficializamos para as famílias que estávamos morando juntos. Minha mãe aceitou, meio a contragosto. Meu pai surtou. Não foram poucas as vezes em que me acusou de estar vivendo com um vagabundo. Depois disso passou a me negar qualquer tipo de ajuda financeira. Não que eu precisasse do dinheiro do papaizinho para me sustentar, mas o que eu ganhava, no início da minha carreira, não era o suficiente para assumir todas as responsabilidades de uma casa. Lucas me ajudava como podia, mas passamos por vários apertos até a minha primeira promoção chegar. Fernanda, que no início do meu namoro havia sido uma das minhas maiores incentivadoras, aos poucos passou a se incomodar com a situação também e não preciso nem falar mais nada sobre o que ela pensava, pois creio que nosso recente diálogo tenha deixado isso bem claro. Embora indisfarçadamente incomodada, ela sempre procurou respeitar a minha decisão de me manter com Lucas, até que...

Eu havia sido contratada por uma empresa de tecnologia, inicialmente como programadora júnior. Não deu seis meses e eu fui promovida ao nível pleno. Mais um ano, virei sênior. Foi quando a empresa lançou um desafio. O vencedor se tornaria analista de sistemas e ainda seria o responsável pelo gerenciamento do projeto que atenderia o nosso mais novo cliente, um famoso banco privado que atuava em todo o território nacional. Dali em diante, passei a concentrar todas as horas do meu dia no projeto que eu tinha que desenvolver. Mal parava em casa e no pouco tempo em que permanecia lá, trabalhava ou dormia. Deixei de ir aos shows da banda do Lucas, dificilmente conversava com Fernanda, nem mesmo por telefone, não aparecia mais na casa dos meus pais... Estava verdadeiramente obcecada com a minha promoção. Aquele seria, certamente, um dos maiores passos em minha carreira profissional. Lucas passou a me cobrar pelas ausências. Entramos em uma crise séria, brigávamos o tempo todo, ele, cobrando minha atenção, e eu, pedindo paciência. Certa noite, depois de refletir sobre nossa última discussão, concluí que eu estava realmente muito obcecada com o projeto e resolvi aparecer de surpresa em um showda banda dele. Convidei Fernanda e ela aceitou me acompanhar. Até hoje, não sei explicar o motivo da minha frieza ao me deparar com a cena que vi, quando o procurei atrás do palco. Lucas estava com uma morena qualquer, dando o maior amasso da história. Ela com as mãos dentro da calça dele e ele atracado na boca dela, deslizando as mãos por baixo da saia. Não sei o que me moveu naquele instante. Só sei que uma súbita vontade de chegar mais perto se apoderou do meu corpo. Caminhei em direção aos dois, lentamente, observando cada movimento que faziam. O casal só se deu conta da minha presença quando, não eu, mas Fernanda, não contendo a indignação, chamou a atenção dos dois com a seguinte frase de efeito:

-- Será que vamos precisar jogar água quente pra apartar?

Eu a recriminei com um olhar severo. Não queria ter interrompido. Precisava saber até onde Lucas seria capaz de ir, bem ali, praticamente em público. Quando voltei a olhar na direção do meu namorado traidor, ele já arrumava as calças, ignorando totalmente a garota que, apenas alguns instantes antes, parecia-lhe tão íntima. A garota rapidamente sumiu das minhas vistas, enquanto Lucas, completamente desconsertado, encarava-me com ar de total desespero.

-- O que... O que você tá fazendo aqui?

Ele ainda teve a cara de pau de me perguntar. Mas eu estava iluminada naquela noite, só podia estar. Pois, incrivelmente, meu coração pulsava calmo dentro do meu peito. O que não significava que eu não estivesse me sentindo profundamente enganada e traída. Tal que respondi:

-- Eu devia ter te avisado que vinha, pra você calcular melhor o tempo que levaria, se agarrando com as vadias da festa?

-- Isa... Amor, não é o que você está pensando.

Ouvi a risada sarcástica de Fernanda, mas me mantive sóbria, focada e impassível ao responder:

-- Quero suas coisas fora da minha casa antes de o dia amanhecer.

Virei de costas para ele e saí, arrastando Fernanda em direção à rua. Mas não foi tão fácil assim me livrar de Lucas naquela noite. Ele veio atrás, pediu, implorou, rastejou... Eu não conseguia sequer encará-lo. Fui embora com Fernanda. Dormi na casa dela, pois sabia que ele apareceria na minha. Na manhã seguinte, voltei para o meu apartamento e o encontrei lá. Tivemos mais uma discussão, ele chorou muito, pediu-me perdão incontáveis vezes, tanto que eu quase cedi... Quase. No mesmo dia, ele foi para a casa de um amigo e ficou lá por algum tempo. Na primeira semana não parava de me ligar, às vezes aparecia na porta do meu prédio, outras vezes me esperava na saída do trabalho e, em todas as situações, eu me mantinha firme. Até que ele parou de correr atrás. No início fiquei aliviada, mas depois de uns dez dias comecei a me sentir tão sozinha. Cheguei até a perder o sono, algumas noites. Certa manhã, abri meu armário e vi o espaço vazio, onde antes suas roupas estavam. Comecei a chorar. Fernanda tentava me convencer de que não era dele que eu sentia falta. Para ela, eu só estava muito acostumada a ter alguém por perto. Ficava me dizendo que tudo o que eu precisava era me apaixonar por outra pessoa. Passou a me arrastar para noitadas em barzinhos e boates, tentava me fazer olhar para outros caras, mas ninguém me atraía ou me despertava o mínimo interesse.

Cerca de um mês e meio depois, fui almoçar no shopping e, casualmente, cruzei com Lucas. Minha raiva já não era mais tão forte e vê-lo no estado abatido em que ele se encontrava fez meu coração doer. Estava bem mais magro, a barba por fazer, os cabelos desgrenhados, a roupa amarrotada... Não parecia, nem de longe, o Lucas vaidoso e cheio de si que eu conhecia tão bem. Quando me viu, sorriu, mas logo sua expressão se entristeceu e ele baixou a cabeça. Fiquei consternada. Convidei-o para almoçar comigo e finalmente dei a ele a oportunidade de se explicar. Ele falou triste que estava muito arrependido, que havia sido fraco e que eu era tudo para ele. No fim, se justificou, dizendo que eu estava muito distante, que não nos víamos mais e não fazíamos mais sexo. A garota havia se oferecido e ele se deixou levar pelos instintos masculinos. Jurou que sequer lembrava o nome da menina e, por fim, me pediu uma chance. Não consegui identificar o que senti diante daquela proposta: amor, saudade, comodismo, pena... Impossível definir. A única coisa da qual eu tinha certeza era que eu o queria de volta. A solidão estava me matando. Então aceitei seu pedido de perdão e reatamos. De forma inacreditável, nos dias seguintes, nossa vida voltou a mais serena normalidade, como se nada tivesse acontecido. Dali em diante, Fernanda não me deu folga. Não perdia mais qualquer oportunidade de me criticar por ter reatado com Lucas. Começou a me acusar de estar sendo acomodada e passou a tratá-lo com o maior desdém possível. Ela não fazia a menor questão de ser agradável com ele, que, em resposta, começou a tratá-la exatamente da mesma forma. Por fim, para o bem de todos, passei a mantê-los o mais longe possível um do outro. Não saímos mais juntos e, como não estava disposta a abrir mão de nenhum, evitava até falar de um para o outro, pois era discussão na certa, bem como acabara de acontecer.

O fato é que eu sempre gostei de estabilidade. Estar com o Lucas era muito confortável. Sabia que, mesmo com todos os defeitos dele, ele me amava e cuidava de mim, aliás, com um zelo incrível. Tê-lo por perto me deixava segura, e isso não era algo tão fácil de se encontrar por aí a fora. Eu não poderia e nem queria arriscar perder aquilo. Ok, admito que Fernanda não estava errada ao dizer que ele vivia às minhas custas. Mas, e daí? Àquela altura do campeonato eu já ganhava bem o suficiente para sustentar uma família inteira. E se eu fosse o homem e ele a mulher? Para a sociedade seria normal, não seria? Eu me recusava a ser complacente com esse pensamento sexista, portanto, o fato de ser bem-sucedida e Lucas não, jamais fora um tabu para mim, embora no meu íntimo, não pelo dinheiro, mas pela realização pessoal que eu sei que encontraria, eu queria muito que ele desse certo na vida.

Fiquei tanto tempo viajando em minhas lembranças que quando dei por mim faltava apenas cinco minutos para as 9h, o horário em que eu deveria apresentar-me no meu novo emprego. Levantei, segui apressadamente para o caixa, paguei minha comanda e saí em disparada rumo ao prédio do outro lado da rua. Pus um pé na faixa de pedestre e observei os carros parando na primeira e na segunda faixa, dando-me passagem. A terceira faixa estava aparentemente vazia, então segui meu caminho quase correndo. Quando cruzei com o segundo carro meus pensamentos já não estavam mais na ação que eu estava executando. Àquela altura eu já estava nervosa, preocupada, achando um absurdo a minha displicência de não estar me apresentando com no mínimo uns dez minutos de antecedência. Fiquei tão distraída em meus pensamentos que não observei o carro que vinha em alta velocidade na terceira faixa, bem no momento em que eu a cruzei. Só me dei conta de que estava prestes a ser atropelada quando ouvi as muitas vozes na calçada do prédio, gritando em uníssono:

 

-- Cuidado! 

Notas finais:

Olá, meninas!

Não sei se estão sentindo falta de Amor… E Outros Dilemas, mas eu estou sentindo muita falta de vocês. Tanto que resolvi antecipar os dois primeiros capítulos da história que prometi postar em dezembro. No primeiro, que segue abaixo, vou apresentar a vocês a metódica e ansiosa Isabella, uma das protagonistas. Na semana que vem, apresentarei a intempestiva e divertida Alice.

Ao terminarem de ler, por favor, não esqueçam de falar o que acharam. Isso é muito importante para mim.

 

Espero que gostem.

 

E aí, meninas? 

O que acharam da Isabella?

Enquanto aguardam o próximo capítulo, que tal dar uma conferida em Amor... E Outros Dilemas ??? Essa já está finalizada.

 

CRÉDITOS:

Texto: Linier Farias;

Capa: Linier Farias;

Revisão: Joelma Leite;

Colaboração Técnica: Israel Reis.

Capitulo 2 - Alice por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

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                varCapítulo= 2;

  var Título = “Alice”;

                varPOV= “Alice”;

};

 

“A imperfeição é bela, a loucura é genial e é melhor ser absolutamente ridículo que absolutamente chato.”

- Marilyn Monroe

 

O que distingui o certo do errado? O moral do amoral? A bondade da maldade?

O que significa ser bom?

Existem milhares de variáveis que definem a maneira como as pessoas interpretam os ensinamentos que recebem ao longo da vida. Dentre elas, a que eu considero principal é a índole. A fórmula é simples: se o ponteiro da índole do sujeito aponta para o lado ruim, ele tende a pegar tudo o que aprendeu e usar como subsídio para justificar um comportamento egoísta, maldoso, preconceituoso... Se aponta para o lado bom, a tendência é que ele se torne amigável, empático, bondoso, compreensivo... O grau de “bondade” ou de “maldade”, no entanto, vai depender do ângulo em que o ponteiro se encontra. Agora, eis a questão: não sei para que lado o ponteiro da minha índole está apontado, pois, há quem diga que sou uma pessoa de bom coração. Amiga fiel, profissional dedicada, filha amorosa... Mas também há quem me julgue a mais egoísta e cafajeste das criaturas. Qual das duas versões de mim é a verdadeira? Depende do ponto de vista de quem emite a opinião. Mirela, a moça que passou a última noite comigo... Não, não... Espera... É Milena. Pois sim, Milena, com certeza, concorda com a segunda opção.

-- Alice, você é o pior tipo de cafajeste que existe, sabia?

-- Gata, por que você tá complicando as coisas? A noite foi ótima, mas eu não tô na vibe de namorar agora, entende?

“Nem agora, nem nunca...”

Pensei, mas não falei. Ela estava tão enfurecida por eu ter me negado a dar meu número que achei que fosse me bater.

-- Pois deveria ter deixado isso claro ontem, quando veio com aquela conversinha mole pra me convencer a ir pra cama com você.

“Que garota maluca!”

-- Escuta aqui, não lembro de ter posto uma aliança no teu dedo. E acho que deixei bem clara a minha intenção quando te trouxe pra um motel. Achei que você quisesse o mesmo que eu.

-- Sexo casual?

-- Exatamente.

-- E que tipo de vadia você acha que eu sou? Acha que eu saio por aí transando com qualquer uma?

“Na verdade, é exatamente isso que eu acho. Ah... Pra cima de mim, garota?”

Minha vontade era de xingar, jogar na cara que ela foi quem se jogou para mim a noite inteira e que eu só passei a noite com ela na falta de alguém mais interessante. Mas se eu fizesse isso, estaria sendo realmente uma cafajeste declarada.

-- Mirela...

Comecei a falar, mas fui interrompida imediatamente com o grito:

-- É Milena.

Fiz uma careta e levei as mãos aos ouvidos, tapando-os. Ela quase me deixara surda com o brado.

-- Ok, desculpa. Milena, não se menospreze assim. Fazer sexo casual não faz de você uma vadia.

-- Mas é claro que você pensa assim. Afinal, se pensasse o contrário, estaria chamando a si mesma de vadia, né?

-- Agora você tá me ofendendo.

-- Ah, que bonitinha! Até parece que você tem alguma honra.

-- E até parece que você estava domingo à noite em uma boate esperando encontrar o amor da sua vida.

-- Sabia que eu comecei a sair com garotas por causa dos caras que agem exatamente como você está agindo agora? Esse mundo, definitivamente, está perdido.

-- Gata, com todo respeito, essa é uma análise um tanto deturpada dos comportamentos feminino e masculino. Querer ou não um envolvimento sério não está ligado ao gênero e muito menos à orientação sexual.

-- E o que você é agora, uma antropóloga? Uma cientista social?

Aquela conversa não ia chegar a lugar algum e eu já estava mais do que atrasada para o trabalho. Resolvi mudar a tática. Estava prestes a me desculpar, sem sequer ter culpa. Apenas para poder encurtar a história. Ia dar razão a ela e dizer que sentia muito por ter causado uma impressão errada. Estava até disposta a oferecer uma carona para casa, mas então...

-- Escuta, Mirela...

-- Pela última vez, Alice: MI – LE – NA.

Pus tudo a perder.

Merda!”

Mas, e daí? A garota era completamente maluca mesmo e o sexo nem havia sido essas coisas todas. Se arrependimento matasse, eu estaria mortinha da silva. Mesmo assim, fui tomada por um senso de cavalheirismo. Não poderia deixá-la sair daquele jeito, por isso, fui atrás dela e tentei impedi-la de abrir a porta do quarto. Não fui rápida o bastante. A única coisa que consegui falar foi:

-- Espera, Milena. Eu te dou uma...

Mas já era tarde demais. Antes que eu conseguisse concluir a frase, ela já havia batido a porta do quarto na minha cara.

-- Carona.

Respirei fundo e levei as mãos à cabeça, completamente exasperada. Falei para mim mesma:

-- Dá pra acreditar nela?

Por um breve instante, senti-me culpada. Mas logo o sentimento se esvaiu, quando lembrei da forma em que fui aborda por ela na boate. Ela chegou se oferecendo, falando coisas obscenas no meu ouvido. Chamou-me para dançar e ficou o tempo todo se insinuando para mim, roçando o corpo no meu. Quando eu convidei:

-- Quer sair daqui?

A resposta dela foi imediata:

-- Achei que nunca fosse convidar. Pra onde pretende me levar?

-- Motel?

-- Já é.

Ela nem titubeou. Convidei para o motel porque sequer cogitava a possibilidade de levá-la para o meu apartamento. Minha casa sempre foi um ambiente sagrado. Não conseguia nem pensar em como seria se todas as garotas com quem fui para a cama soubessem onde eu morava. Eu certamente receberia algumas visitas inconvenientes de vez em quando. A única que frequentava a minha cama era Giselle, minha colega de trabalho, com quem eu costumava sair às vezes. Ela não era minha namorada. Nós sequer éramos amigas, na verdade. O que havia entre nós era um acordo tácito. Gostávamos muito de fazer sexo uma com a outra e ambas eram safadas demais para estarem em um relacionamento monogâmico. Assim, decidimos nomear a nossa relação como: “coleguismo colorido”. Era com ela, Giselle, que eu deveria ter passado a noite, mas tinha inventado uma desculpa qualquer para me desvencilhar de seu convite, pois eu estava começando a perder o controle da situação. Para mim, tudo continuava igual, mas ela já estava começando a dar sinais de que queria mais do que eu estava dando.

“Ei, espera aí... Tô falando com você que está lendo. Não está concordando com a Mirela/Milena, está? Eu não sou cafajeste? Não prometi nada a nenhuma das duas. Elas que estão projetando em mim seus desejos e frustrações. ”

Ok, dando continuidade à análise sobre o ponteiro da minha índole, e ainda tentando melhorar a minha situação, vamos analisar a minha pessoa sob outra perspectiva:

A maioria das pessoas acredita que a humanidade é regida por algum tipo de força maior, como: Jesus Cristo, Ala, Buda, Maomé... Jair Bolsonaro... Ou qualquer outra das milhares que existem, tanto faz. Bom, com todo respeito às crenças alheias, eu não acredito que haja um ser supremo que fica, seja lá de onde for, distribuindo ordens, julgamentos e punições, dizendo o que é certo e errado, separando os bons dos maus. Para mim, o que acontece na verdade é que cada um interpreta os ensinamentos religiosos que recebe ao longo da vida como bem quer e cria dentro de si o Deus em que é mais conveniente acreditar. A partir daí, passa a usar sua própria versão do que aprendeu como desculpa para criticar, julgar e sentenciar os outros. Eu me considero o extremo oposto disso. Sou grande fã daqueles que cuidam de suas próprias vidas e deixam as dos outros em paz. Admiro a diplomacia, a gentileza e a cordialidade. Brigar nunca me levou a lugar algum. Talvez seja por isso que nunca gostei da ideia de me relacionar com ninguém. As pessoas sempre dizem umas para as outras: “você precisa ser você mesma”. Coisa linda de se dizer, mas eu nunca concordei nem um pouco com isso, vez que o meu objetivo de vida sempre foi trabalhar para que, a cada dia, eu me transformasse em uma versão melhor de mim mesma. Sempre fui um espírito livre... Livre de amarras, de preconceito, de cólera... Livre de tudo que fizesse mal a mim ou àqueles que estão ao meu redor. Gosto da simplicidade das coisas. Sou extremamente prática. Para mim, complicado é desenvolver algoritmos. A vida tem que ser fácil, simples, divertida...

Algumas pessoas me chamam de louca pois, às vezes, em nome da minha paz interior, acabo agindo por impulso, tomando atitudes que são julgadas por muitos como inaceitáveis. Como parar o trânsito de uma avenida no horário de pico para ajudar um cachorro com a patinha quebrada a atravessar a rua, por exemplo. A grande questão, no entanto, é que só consigo encontrar minha sanidade nessa suposta loucura da qual sou acusada. E digo mais: no dia em que eu deixar de fazer algo que estou com vontade, aí sim, precisarei de uma camisa de força. Resumindo: o que as pessoas “normais” consideram loucura, eu chamo simplesmente de felicidade. Felicidade de ser o que eu quero ser, sem me preocupar com a opinião de mais ninguém.Portanto, quando sou chamada de louca, respondo com a frase de Rita Lee: “Louco é quem me diz e não é feliz”. Eu sou feliz.

Olhei o relógio... Passava das 7h da manhã. Deixei os pensamentos de lado e me apressei em pagar a conta, pois tinha que estar na empresa às 9h e ainda precisava ir em casa, tomar um banho descente e me arrumar.

Era 8h45 quando eu finalmente consegui sair de casa. Normalmente, quinze minutos seria um tempo bastante razoável para que eu fizesse o trajeto até o trabalho. Dependendo do trânsito, atrasaria no máximo uns dez minutos. Nada demais. Porém, naquele dia, Leandro, meu chefe, havia me incumbido de recepcionar a minha mais nova parceira de trabalho. Uma tal de Isabella Ferreira, suposto prodígio da programação. Nós duas trabalharíamos juntas no desenvolvimento da nova versão do sistema que era o nosso carro chefe: a plataforma de Internet Banking utilizada pelos maiores bancos do país. A tal garota prodígio havia desenvolvido um algoritmo de criptografia que, segundo Leandro, era digno dos maiores gênios do MIT. Já eu, conhecia de cabo a rabo a estrutura do sistema atual, bem como as reais necessidades dos nossos clientes. Por isso, a ideia de Leandro era que dividíssemos a gerência do projeto. Eu não estava nada satisfeita com a situação. Não estava gostando nada da ideia de compartilhar com alguém, cujo o trabalho eu sequer conhecia, a tomada de decisões acerca de um projeto que era gerenciado por mim – apenas por mim – durante tanto tempo. Não que eu estivesse me sentindo ameaçada, longe disso. O que me incomodava, na verdade, era que eu sequer havia conhecido a garota ou o projeto dela. Leandro havia negociado tudo enquanto eu cuidava de algumas questões na nossa sede do Rio de Janeiro, de onde eu acabara de voltar, depois de quase dez dias.

Respirei aliviada ao constatar que ainda faltava cinco minutos para as 9h quando eu finalmente alcancei a avenida do prédio da empresa. No entanto, plenamente ciente de que até estacionar, pegar o elevador e chegar na sala de reuniões o meu horário estaria estourado e eu provavelmente deixaria minha nova colega esperando por mim – coisa que eu achava abominável – resolvi ligar para Pedro, meu colega de trabalho e melhor amigo. Ele era um dos programadores sêniors da minha equipe. Não era a pessoa mais indicada para receber a novata, mas era melhor isso do que deixá-la esperando.

-- Fala, Alice.

-- E aí, Pedro, tudo bem?

-- Tudo tranquilo. E você?

-- Tudo certo. Pedrão, do meu coração, preciso que quebre um galho pra mim. A novata já chegou?

-- Acho que não, mas posso ver.

-- Faz isso pra mim, por favor. Já estou chegando, mas daqui que eu estacione e suba, pode ser que me atrase um pouco. Além disso, preciso ao menos de um café antes de falar com ela. Tô só o bagaço! Queria que você a recebesse e fosse apresentando a empresa, pode ser?

Ele riu antes de responder, plenamente ciente do motivo da minha ressaca.

-- Pode deixar! Pelo visto, a noite foi quente, hein? Quem foi a gata? A Gi não foi, pois ela já tá aqui desde às 8h, cuspindo fogo pra todo lado.

-- Acho que ela tá furiosa comigo. Passei dez dias fora e ainda dispensei o nosso encontro do final de semana.

-- Alice, sinto te dizer, mas essa relação de vocês tá parecendo muito com o namoro.

-- É, eu sei. Tá fugindo do controle. Tô pensando em acabar logo isso de uma vez por todas.

-- Se você não tá mais afim, acho melhor mesmo.

-- É, mas depois a gente conversa. Faz o que eu te pedi, tá bom?

-- Beleza, pode ficar tranquila.

-- Valeu, Pedrão!

-- Relaxa, gata. “Tâmo junto”!

 

Assim que desliguei, vi que chegou uma mensagem do Leandro pelo WhatsApp. Em um impulso, cliquei para visualizá-la. Foi questão de um segundo, um mísero segundo, o tempo que desviei meus olhos da via para olhar o texto que dizia simplesmente: “Bom dia, Alice”. Decidida a responder apenas depois de estacionar, joguei o celular de qualquer jeito no banco do carona, mas quando voltei a olhar para a via, uma moça estava atravessando a faixa de pedestre e eu já estava muito perto para conseguir frear a tempo de evitar um atropelamento. De todo modo, só me restava tentar. Em meio ao barulho dos pneus deslizando no asfalto e dos gritos das pessoas na rua, apertei forte o volante e fechei os olhos, já esperando o pior. Meu último pensamento antes de ter coragem de abri-los novamente foi: “Merda, será que eu a atropelei? ”

Notas finais:

Meninas, protagonistas devidamente apresentadas. A partir de dezembro, vocês vão descobrir o que vai acontecer depois deste primeiro encontro desastroso.

 

Gostaram da degustação? Deixem seus comentários, por favor.

Enquanto aguardam o próximo capítulo, que tal dar uma conferida em Amor... E Outros Dilemas ??? Essa já está finalizada.

 

CRÉDITOS:

Texto: Linier Farias;

Capa: Linier Farias;

Revisão: Joelma Leite;

Colaboração Técnica: Israel Reis.

Capitulo 3 - Crash! Boom! Bang! por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

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                varCapítulo= 3;

  var Título = “Crash! Boom! Bang!”;

                varPOV= “Isabella”;

};

 

 

“Nos atropelos da vida, entre idas e vindas, portas se abrem, janelas se fecham... Circunstâncias dificultam o percurso, mas a esperança alimenta minha alma sedenta em direção à sua. ”

 

- Cecília Lemos

 

Dizem por aí que quando se fica cara a cara com a morte é comum que uma retrospectiva de toda a vida se passe na mente em fração de segundos. Bom, se isso for realmente verdade, existem três possibilidades que podem determinar o motivo de não ter acontecido comigo. Primeira: aquela não era a hora da minha morte; segunda: a minha vida era tão chata e tão monótona que não havia nada de interessante para lembrar; terceira e mais provável: eu era tão obcecada com os meus compromissos que a minha maior preocupação naquele instante – mesmo estando em pânico com a ideia de morrer – era a imagem que eu iria passar caso chegasse atrasada ou não comparecesse à empresa no meu primeiro dia.

 

“É, eu sei o que estão pensando. E entendo... Já estou acostumada com os julgamentos. Fernanda concordaria com vocês em gênero, número e grau e ainda seria capaz de completar o meu raciocínio, dizendo: ‘Quarta: todas as opções anteriores’.”

 

O impacto do carro contra o meu corpo foi mínimo e praticamente indolor. E embora eu tenha sido lançada contra o chão, as sequelas foram somente algumas raladuras nas palmas das minhas mãos, que eu precisei usar como apoio para me salvar de dar de cara com o asfalto. Felizmente, o motorista irresponsável havia conseguido frear a tempo de evitar um desastre... Um maior, porque o estrago que aquele quase atropelamento causou no meu psicológico poderia facilmente ter me levado a óbito, caso a possibilidade de morrer de um colapso nervoso existisse.

 

Àquela altura, o caos já havia sido instaurado. Algumas pessoas que passavam pela calçada correram até mim e rapidamente fizeram um círculo em minha volta, fazendo com que respirar se tornasse uma tarefa bastante difícil. O carro parado na via impedia a fluência do trânsito e, pelo barulho ensurdecedor das buzinas – que, por sinal, estavam fazendo os meus nervos ficarem cada vez mais agitados – mesmo do chão, sem ter uma visão clara do que acontecia, era possível inferir que um engarrafamento já se formava atrás dele. Vi quando um senhor de meia idade correu até a porta do motorista e começou a xingá-lo. Percebi a porta se abrindo e alguém descendo, mas não consegui enxergar quem, pois, no mesmo instante, dois rapazes abaixaram e começaram a falar comigo, tentando saber se estava tudo bem e perguntando se era preciso chamar uma ambulância. Contrariando o forte incômodo que senti quando os dois tentaram agarrar os meus braços para me ajudar a levantar, agradeci gentilmente a preocupação e neguei a ajuda que me ofereciam. Eu não suportava a ideia de ser tocada. As únicas pessoas com quem eu compartilhava contatos físicos sem me sentir incomodada eram meus pais, Lucas e Fernanda. Eu também não estava precisando de um hospital e mesmo que estivesse, àquela altura, já vergonhosamente atrasada, não estava disposta a procurar atendimento médico. Tudo o que eu queria era levantar dali e correr em direção ao meu compromisso, embora no fundo houvesse em mim um desejo latente de tirar satisfações com aquele irresponsável, inconsequente, filho da...

 

“É uma mulher...”

 

Não sei por quê, mas tomar ciência de que “o” motorista era, na verdade, “a” motorista, causou-me certa estranheza. E o estranhamento não parou por aí... As pessoas abriram caminho para dar passagem a ela, que caminhava nervosamente em minha direção. Enquanto isso, eu, após negar a ajuda dos dois rapazes, tentava levantar do chão com certa dificuldade. Impressionante foi constatar que todo o nervosismo e a angústia que eu estava sentindo se esvaíram por um ínfimo instante, dando lugar a um sentimento que eu jamais poderia definir ou nomear, quando meus olhos encontraram os dela. O tempo ficou em suspenso enquanto aquele mar azul, quase transbordando de tanta intensidade, invadia-me sem pedir licença, como se tentasse enxergar além do físico. Senti-me completamente exposta com aquele contato. Quando o tempo voltou a correr, pisquei nervosamente e desviei o foco. No entanto, não fui capaz de afastar a necessidade que senti de avaliá-la da cabeça aos pés. Ela era bem mais alta do que eu. – Uns dez ou quinze centímetros, talvez. – O corpo esbelto, vestindo uma calça jeans muito justa, cheia de rasgões, uma camiseta branca – também muito justa – e um blazer vermelho, com as mangas arregaçadas até os cotovelos.  Os cabelos claros, muito lisos, cortados à altura dos ombros, a boca pequena, avermelhada, bem desenhada. Não estava usando qualquer maquiagem, mas nem precisava, pois, a pele rosada praticamente resplandecia sob a luz do sol. Ela era linda... Muito linda... Desconcertantemente linda. Além disso, algo nela, não sabia dizer o quê, deixava claro que era também extremamente autoconfiante e segura de si. Impossível para uma reles mortal como eu não reparar naquele obra-prima de mulher. Abobalhada e sem ser capaz de juntar simples palavras em uma frase coerente, emudeci. Ela também nada falou. Ficamos paradas de frente uma para a outra por um longo instante. Então as buzinas se intensificaram e alguns motoristas começaram a xingar. Foi nesse exato momento que fui trazida de volta à realidade e as milhares de sensações que percorriam meu corpo começaram a entrar em conflito. Olhei ao redor e o número de pessoas nos cercando já havia aumentado consideravelmente. Então... Começou. O ar fugiu dos meus pulmões, as pontas dos meus dedos começaram a formigar, as mãos começaram a suar, todos os pelos do meu corpo se eriçaram e fui tomada por uma tontura que fez minhas pernas falharem. A intensidade daquele olhar azul sobre mim, as pessoas ao meu redor, a ânsia de chegar logo ao meu destino, a experiência de quase ter sido atropelada... Aquilo tudo estava sendo demais para mim. Era nítido. Eu estava tendo um ataque de pânico. Perdi de vez o controle sobre as minhas pernas e os meus sentidos. Desfaleci... Pane no sistema, tela azul. Não sei por quanto tempo fiquei desacordada, mas quando recobrei a razão, me pareceu que havia sido apenas alguns instantes. Antes de abrir os olhos, senti um corpo abraçado ao meu. Eu estava no colo de alguém que me carregava... Alguém com um perfume maravilhoso o qual aspirei involuntariamente. Quando ouvi a voz falando:

 

-- Saiam da frente, por favor. Vou colocá-la no carro. Preciso levá-la a um hospital.

 

Tive certeza de que era ela. Tentei abrir os olhos, mas estavam pesados demais. Movi minha cabeça contra seu peito e pude ouvir as batidas aceleradas do coração. Inexplicável, inenarrável, indizível... Foi a sensação que senti com aquele contato. Por mais incrível que pudesse parecer, contrariando todas as minhas loucuras, estar abraçada àquela completa desconhecida que havia quase me matado, ao invés de me deixar mais angustiada, estava me acalmando. Fazia mais de um ano que eu não tinha um ataque de pânico. Justamente por conta do medo de tê-los, eu havia programado toda a minha vida para evitar que acontecesse. Fugia de situações que me causassem desconforto ou medo, evitava lugares muito lotados, – quando ia aos shows do Lucas, ficava sempre no cantinho do palco – não usava mais transportes públicos, não viajava de avião, a menos que fosse extremamente necessário... Eu havia estabelecido uma rotina que considerava segura para o meu bem-estar, contrariando todas as orientações do meu analista, que me dizia para fazer justamente o inverso: encarar os meus medos. Como se isso fosse tão simples.

 

Senti meu corpo sendo largado cuidadosamente no banco do carro e o contato com a mulher desconhecida sendo quebrado. Foi quando finalmente abri os olhos e encontrei novamente os dela. Sua expressão estava ainda mais assustada do que antes. Mais uma vez, calada eu estava e calada permaneci. Não sei dizer por quê, mas a maneira como ela me encarava estava me tirando o senso. Ela estava com medo, lógico, sem ter conhecimento da minha síndrome do pânico, devia estar achando que o meu desmaio havia sido por conta do acidente. Mas tinha algo além do medo nos olhos dela... Algo muito intenso na maneira como me encarava. Algo que eu não conseguia decifrar, mas que estava fazendo meu coração bater descompassado.

 

Foi ela quem finalmente quebrou o silêncio ao perguntar com toda a cautela:

 

-- Moça, você tá melhor?

 

Silêncio...

 

“Por que eu não consigo falar? ”

 

Ela insistiu. A voz mansa, baixa, quase sussurrada:

 

-- Moça... Moça, por favor, me responda: você tá bem?

 

Nada... Eu estava completamente paralisada.

 

-- Ok, vou te levar pra um hospital. Deixa só eu pôr o sinto em você...

 

“Hospital? Quê? Não, não, não...”

 

Finalmente eu recobrei a razão e a realidade pesou como mil toneladas em minhas costas.

 

“Fui quase atropelada, tive um ataque de pânico e... Atrasada... Estou muito atrasada.”

 

Antes que ela conseguisse passar o sinto de segurança pelo meu tórax, eu a empurrei bruscamente e saltei para fora do carro.

 

-- Não!

 

Praticamente gritei, já quase que completamente recuperada do choque. Quase... Pois quando olhei ao redor, a multidão ainda nos observava com curiosidade. Os sintomas começaram a voltar, mas, naquele instante, já plenamente consciente de que não poderia perder mais nem um segundo sequer, respirei fundo e me esforcei para manter a calma.

 

-- Eu preciso ir... Estou... Estou atrasada.

 

Minha voz saiu gaguejada, trêmula...

 

-- Você acabou de desmaiar. Deve ter batido a cabeça ou... Sei lá. Precisa ser examinada.

 

-- Olha, tá tudo bem, ok? Eu tô bem... Preciso ir...

 

Falei meio atordoada e já ia saindo quando ela me interceptou, segurando-me pelo braço. De novo aquela sensação... Respirei fundo novamente quando ouvi a voz dela dizendo:

 

-- De jeito nenhum. Não vou deixar que vá a lugar algum sem antes ser avaliada por um médico. É minha obrigação garantir que você fique bem.

 

Aquilo foi demais para mim. Ouvi-la falar daquele jeito me fez recuperar o senso perdido e instantaneamente me lembrei que a imprudência dela poderia ter ocasionado um desastre. Indo totalmente contra a sensação inexplicavelmente boa que eu estava sentindo com o contato, sacudi forte o meu braço para me livrar de sua mão e me virei para encará-la, desta vez disposta a falar tudo o que eu havia calado.

 

-- Olha aqui, garota, sua obrigação é dirigir com atenção, respeitar a sinalização... Respeitar a faixa de pedestres.

 

Meu tom arrogante a deixou visivelmente desconcertada. A imperatividade dela de instantes antes se esvaiu como em um passe de mágica, dando lugar a um rubor forte que fez as maçãs do rosto dela parecerem exatamente duas maçãs. Muito constrangida com a minha reação, ela respondeu meio que gaguejando:

 

-- Des... Me desculpe. Você tem toda a razão, moça. Eu sinto muitíssimo por ter causado...

 

-- É bom que sinta mesmo. E é bom que você comece a prestar mais atenção quando estiver dirigindo. Já parou pra pensar que poderia ter me matado?

 

Ela se incomodou com o meu comentário. Tanto que foi perceptível a mudança em sua postura, ao que ela se defendeu em um tom exasperado:

 

-- Olha o exagero, garota! Não aconteceu nada demais. Pra que isso tudo? Além disso, é muito fácil me culpar, né? Tua mãe não te ensinou que tem que olhar pros lados antes de atravessar a rua?

 

-- Ah, que lindo! Agora você vai culpar a vítima? Escuta aqui, só não vou registrar um BO contra você por tentativa de homicídio porque eu estou extremamente atrasada para o meu compromisso.

 

Se a minha intenção era deixá-la desconcertada, acho que fui muito eficiente nisso. Ela emudeceu. Levou as mãos à cabeça e começou a mexer nervosamente no cabelo. Abriu e fechou a boca diversas vezes, mas não conseguiu falar nada. Acabei por me sentir um pouco culpada e tentei amenizar as coisas:

 

-- Moça... Olha, eu tô bem. Não precisa se preocupar. O desmaio não teve nada a ver com o acidente. Foi só uma queda de pressão, mas já passou. Agradeço a sua preocupação, mas preciso ir. Estou realmente muito atrasada.

 

Funcionou. O alívio dela foi nítido, ao que me respondeu:

 

-- Tem certeza? Eu realmente ficaria mais confortável se...

 

-- Certeza absoluta. Relaxa! Não foi dessa vez que você matou alguém, mas se não tomar mais cuidado, esse dia vai chegar rapidinho.

 

Sem mais delongas, sem ao menos esperar a reação dela, arrumei a bolsa no ombro e saí, atravessando a barreira formada pelas pessoas que ainda nos cercavam, fazendo mil malabarismos para evitar qualquer contato com elas. Caminhei em direção ao prédio ainda zonza, lutando para tentar reestabelecer a calma. Milhares e milhares de pensamentos rondando a minha cabeça. Nada conciso, apenas um emaranhado de coisas desconexas. Um ataque de pânico depois de tanto tempo, um atraso de quase vinte minutos no meu primeiro dia de trabalho, um par de olhos azuis desconcertantes... Uma sensação de medo, raiva, frustração e... E... De quê?

 

“Que sensação é essa?”

 

Já no elevador, tentando reorganizar as ideias, suspirei. Quando o fiz, senti de novo aquele perfume. Instintivamente levei o rosto ao ombro e inalei profundamente. Estava lá... O cheiro dela impregnado na manga da minha blusa. De forma involuntária, fechei os olhos e me deixei ser conduzida por uma força estranha que fez milhares de borboletas se agitarem no meu estômago. Ao me dar conta disso, abri-os novamente e sacudi a cabeça na tentativa de afastar aquela sensação demasiadamente esquisita que estava querendo se apoderar de mim.

 

“Que coisa louca... Coisa mais estranha! Deixa isso de lado, Isa. Você tem muito mais com o que se preocupar.”

 

Lutei para afastar os pensamentos.

 

Na empresa, fui recebida por Pedro, um rapaz muito simpático, a quem tive que explicar de forma superficial o que acabara de me acontecer depois de ter dado um baita gemido quando ele apertou minha mão machucada. O bom foi que a oportunidade serviu para que eu justificasse o motivo do meu atraso.

 

-- Isabella, eu lamento pelo que aconteceu e ao mesmo tempo fico feliz que tenha ficado tudo bem, mas não se preocupe em justificar o seu atraso para mim. Tecnicamente, você é a minha chefe e não o contrário.

 

Olhei confusa para ele. Não estava entendendo nada.

 

-- Como assim? Achei que fosse o gerente do projeto.

 

Ele sorriu e me respondeu:

 

-- Não... Imagina! Ainda não tenho cacife pra isso, mas quem sabe um dia, né?

 

Sorri de volta. Minha ideia inicial era dar força à ambição dele, mas a curiosidade não me permitiu.

 

-- Se você não é o gerente, então quem é?

 

-- A Alice...

 

Ele fez uma pausa e me encarou, como se esperasse que eu reagisse àquela informação, mas o nome não significava nada para mim. Leandro havia me falado apenas que eu dividiria a gerência com outra pessoa, mas jamais me dissera quem?

 

-- Alice Schultz. O Leandro não te falou dela?

 

-- Na verdade, não.

 

-- Ela já deveria ter chegado, mas teve um imprevisto e se atrasou. Antes, ligou, pedindo que eu te recebesse e fosse apresentando a empresa.

 

“Nossa, quanta gentileza! Certamente deve estar incomodada com a ideia de ter alguém metendo o dedo no projeto dela e já quer começar me dando um chá de cadeira para mostrar quem manda.”

 

­-- Sei... Entendi.

 

Tentei disfarçar a ironia na minha voz, mas falhei miseravelmente. Prova disso foi a resposta quase indignada de Pedro:

 

-- Ei, ela nunca se atrasa, tá? É a pessoa mais comprometida desta empresa. Está aqui praticamente desde a fundação e é uma das maiores responsáveis pelo nosso sucesso. Além disso...

 

-- Pedro...

 

-- As pessoas aqui a idolatram. Ela o máximo. Um dia, estávamos em uma reunião com um cliente que...

 

-- Pedro, espera... Espera...

 

Finalmente se calou. Precisei interromper, pois ele parecia mais o líder do fã clube da tal Alice do que um funcionário da empresa. Continuei:

 

-- Eu não quis ofender. Imagino que para estar à frente de um projeto como este, ela deva ser extremamente competente e responsável. Não ousaria pôr isso em questão, ok?

 

Ele relaxou e abriu um sorriso brilhante, antes de dizer:

 

-- Fico feliz em ouvir isso. Você vai adorá-la! É impossível não gostar dela.

 

Sorri de volta e respondi sinceramente:

 

-- Espero que sim.

 

-- Vem. Vou te mostrar a empresa.

 

Ele me levou para um tour detalhado do ambiente. Apresentou-me aos setores, às pessoas e, por fim, disse que me levaria até a minha sala. A mesma da tal Alice. Explicou que como trabalharíamos juntas na nova versão da plataforma, era essencial que ficássemos o mais próximo possível. Enquanto ele falava sem parar sobre o tamanho da sala, que, além das nossas estações de trabalho, contava ainda com uma mesa de reuniões e uma enorme tela interativa que era usada para os desenhos dos projetos, eu só conseguia pensar em uma coisa...

 

“Azul...”

 

Mais uma vez, recriminei-me por tais pensamentos. Busquei focar na tagarelice de Pedro enquanto caminhávamos e comecei a entoar um mantra, pedindo repetidamente para que ele estivesse certo e a tal Alice fosse realmente uma pessoa bacana, pois desde que ouvira o nome dela pela primeira vez, desenhei em minha cabeça a imagem de uma megera, que pretendia pagar de santinha, absorver tudo o que poderia de mim e depois me descartar.

 

“Espero estar errada.”

 

Finalmente chegamos. Comigo ao seu lado, Pedro abriu a porta. Pelo que eu havia entendido, a sala deveria estar vazia, vez que a minha colega de trabalho estava atrasada. Mas, ao contrário disso, haviam duas pessoas presentes no ambiente. Duas mulheres que, aparentemente, estavam... Estavam... Se agarrando? Não posso afirmar ao certo, pois em concomitância com a abertura da porta, as duas se afastaram rapidamente. Uma delas, uma morena muito elegante, lindíssima... E a outra... Bem, a outra...

 

“Azul...”

 

 

 

“Acho que estou tendo outra crise...”

Notas finais:

Gostaram da promoção da Black Week? Deixem seus comentários, por favor.

 

E enquanto esperam o próximo capítulo, caso ainda não tenham lido, que tal darem uma conferida em Amor… E Outros Dilemas ???

 

É a minha primeira história publicada e já está completíssima.

 

Abraços!!

 

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CRÉDITOS:

 

Texto: Linier Farias;

 

Capa: Linier Farias;

 

Revisão: Joelma Leite;

 

Colaboração Técnica: Israel Reis.

Capitulo 4 - Ironic por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

StaticvoidMain(){

                varCapítulo= 4;

  var Título = “Ironic”;

                varPOV= “Alice”;

};

 

“Well life has a funny way of sneaking up on you...”

Ironic (Alanis Morissette, 1995)

 

“Está vendo aquela garota com cara de tacho, de pé, ao lado da mesa de reuniões? A de calça jeans rasgada e blazer vermelho... Isso mesmo, a bonitona de olho azul ali. Você a conhece? Não? Pois é, nem eu. Na verdade, eu achei que a conhecia, mas acabei de descobrir que estava profundamente enganada. E nem adianta tentar me convencer de que ela sou eu, porque não vai funcionar. Não mesmo. Eu não sou assim: não sou insegura, não ruborizo, não fico sem palavras e muito menos de pernas bambas por causa de uma garota. Ainda mais sendo essa garota tão teimosa, tão estúpida, tão maluca e tão... Tão... Cheirosa e.… Tão gata! Gata pra caralho!”

Se eu acreditasse nas baboseiras que as pessoas falam por aí, naquele instante, provavelmente começaria a filosofar sobre a grande e irônica peça que o destino me pregara: ser flagrada no maior amasso com Giselle pela garota que eu acabara de atropelar, descobrir que ela, a garota, seria a minha mais nova colega de trabalho e ainda por cima tomar ciência de que dividiria não só o meu projeto, mas também a minha sala com ela. Eu sequer fazia a menor ideia do que fazer ou falar. Na sala, quatro pares de olhos me fulminando, – cada um com uma expressão completamente diferente da outra – esperavam claramente que partisse de mim a iniciativa de contornar a situação, no entanto, não fui capaz de atender a expectativa de nenhum deles.

Por um momento, tive a sensação de ter saído do meu corpo e estar assistindo àquela cena inusitada no conforto da minha cama, devorando um balde de pipoca e olhando para a grande tela de TV que exibia uma daquelas séries bizarras do Netflix: a primeira imagem com a qual me deparei foi a minha própria, porém, embora a carcaça fosse a minha, não fui absolutamente capaz de reconhecer a garota insegura que exibia um rosto violentamente ruborizado e tremia da cabeça aos pés. Ao meu lado, encarando-me em um misto de frustração e curiosidade, estava Giselle. De frente para mim, Pedro exibia descaradamente todos os dentes, obviamente, divertidíssimo com a situação. Certeza que se naquele instante ele já soubesse do atropelamento, estaria bolando no chão de tanto rir da minha desgraça. Agora vamos ao quarto par de olhos... Aqueles enormes... Cor de mel... Os mesmos que apenas alguns instantes antes haviam fuzilado os meus com violência.

“O que essa garota tem que me deixa tão nervosa?”

Não sabia dizer o que estava me abalando daquela forma. Recusava-me a aceitar que tudo fosse por causa dela. Ao invés disso, preferi atribuir a responsabilidade à sequência de acontecimentos bizarros daquele dia, começando pela discussão de mais cedo no motel com a Mirela/Milena, seguindo com o quase atropelamento e terminando ali, bem na minha sala, com aquele encontro inusitado, que certamente fora orquestrado pelo destino em um dia em que ele, com certeza, estava muito entediado.

“Bem, isso é irônico, não acha? Pra você entender melhor a minha reação, tenho que contar a minha versão de tudo que acontecera até ali. Para isso, vou precisar voltar alguns minutos no tempo e explicar como me senti diante daquela tragédia que felizmente não foi consumada. Foi tudo muito rápido e àquela altura eu nem conseguia mais lembrar direito em detalhes o que havia acontecido, mas vou tentar. ”

Flashback:

Ao me deparar com a tragédia iminente que eu estava prestes a ocasionar, fui tomada por um medo irracional que fez com que o tempo entre a minha pisada brusca no pedal do freio e a parada efetiva do carro parecesse infinito. Quando finalmente consegui parar, permaneci de olhos fechados, incapaz de encarar as possíveis consequências da minha falta de atenção. Agarrada ao volante, completamente dominada pelo pânico que estava sentindo, lutei para controlar as batidas aceleradas do meu coração. Só voltei a abrir os olhos quando ouvi pancadas fortes no vidro da janela do motorista. Assustada, olhei para o lado e me deparei com a imagem de um senhor irritadíssimo, xingando-me dos mais diversos palavrões e pedindo... Pedindo não... Exigindo que eu saísse do carro. Atordoada, ignorei aquela abordagem agressiva e guiei o meu olhar para frente, onde um aglomerado de pessoas me impedia de avistar o alvo da minha maior preocupação: a garota que literalmente acabara de cruzar o meu caminho da forma mais intempestiva possível. Eu precisava descobrir a real gravidade da situação. Concluí que o único jeito era abrir a porta, descer, tentar sobreviver à inquisição do homem que não parava de gritar comigo e ir até lá. Sem mais delongas, foi o que eu fiz. Por um instante, achei que ele fosse me agredir, mas bastou um olhar firme e um:

- O senhor pode fazer o favor de me deixar passar?

E ele abriu caminho. Mas isso não o impediu de dar continuidade ao que estava fazendo. Enquanto eu caminhava apressada – com o coração aos pulos – em direção à multidão ao redor da moça caída do chão, precisei ouvi-lo tagarelar sobre a minha irresponsabilidade, imprudência, inconsequência e...

“Blá, blá, blá...”

Parei de ouvir no terceiro xingamento, pois foi aquele o exato instante em que avistei um grande par de olhos cor de mel me encarando com uma expressão assustada. Sem quebrar o contato, levantou-se. Pensei em ajudá-la, mas minhas pernas estavam misteriosamente paralisadas. Aparentemente, não havia sofrido nenhum dano grave e isso deveria ter me tranquilizado, no entanto, contrariando toda a lógica, quando ela finalmente se pôs de pé, entrei em um estado de perturbação extrema o qual eu jamais havia experimentado. Aquela era a coisinha pequena mais linda que eu já vira em toda a minha vida. Fiquei presa naquele mel por alguns instantes e, posso ter me enganado, mas ela pareceu tão capturada pelo momento quanto eu. As pessoas ao redor já não existiam mais. Éramos apenas ela, eu e a explosão de sensações que percorriam todo o meu corpo. Foi de forma totalmente involuntária que, quando finalmente consegui me soltar daquelas correntes que prendiam meus olhos nos dela, avaliei o resto da obra de arte. Era bem mais baixa do que eu. Além dos lindos olhos, tinha também longos cabelos castanhos, muito lisos, a pele morena, o rosto bonito, delicado, de traços angulados, a boca bem desenhada e... Covinhas.

“Amo covinhas.”

Ela usava uma camisa branca de mangas compridas por dentro de uma saia social cinza. Os botões de cima abertos davam-me acesso a uma visão deslumbrante do seu colo. A saia colada permitia que eu apreciasse as curvas sinuosas de sua cintura e quadris.

“Que delícia de mulher! Linda demais... Perfeita... Por que me olha assim?”

Perdi completamente o foco do real motivo de estar ali, pois foi impossível conter a onda de pensamentos pervertidos que se apoderaram de mim e que inevitavelmente me deixaram em estado de total excitação. Só fui capaz de recobrar a razão quando dezenas de buzinas começaram a soar praticamente ao mesmo tempo, fazendo com que ela se assustasse e quebrasse o contato. A sequência de acontecimentos depois disso causou em mim sensações que eu jamais poderia explicar. Tudo acontecera em segundos, mas a sensação era de que se passava em câmera lenta. Ela tremia da cabeça aos pés. Estava muito nervosa, atordoada, era nítido. Olhou ao redor, o peito começou a arfar, as mãos começaram a abrir e fechar em um movimento ritmado e as pernas ensaiaram falhar. Em um ímpeto, dei um passo em sua direção, com o intento de garantir que estaria perto o bastante para segurá-la caso caísse. Meu ato atraiu novamente a atenção dela para mim. Encarou-me mais uma vez bem dentro dos olhos. Intenso... Tentei falar, mas novamente aquele mel destruiu a minha capacidade cognitiva. Vi sua testa começar a brilhar e o sangue sumir de seu rosto. Os olhos reviraram e ela despencou. Felizmente meus instintos me dominaram e consegui agarrá-la antes que caísse no chão. Peguei-a no colo. Era incrivelmente leve e... Tinha um cheiro alucinante. Precisei me controlar para desviar os pensamentos obscenos que quiseram mais uma vez me dominar, afinal, não era fácil ignorar o corpo dela colado ao meu e o cheiro inebriante que exalava.

“Como pode ser tão perfeita? Pelos céus, Alice, deixa de ser pervertida! A garota está desmaiada e provavelmente por conta de ter sido atropelada por você.”

Sacudi forte a cabeça para afastar os pensamentos inadequados e busquei encontrar uma saída racional para a situação. Ela aparentava estar bem fisicamente, mas poderia ter batido a cabeça. Era a única explicação lógica para aquele desmaio. Ao chegar àquela conclusão, comecei a ficar seriamente preocupada com o estado dela e achei por bem levá-la imediatamente a um hospital. Os curiosos ainda nos cercavam, então precisei pedir:

-- Saiam da frente, por favor. Vou colocá-la no carro. Preciso levá-la a um hospital.

Ao meu comando, um corredor humano se formou imediatamente. Caminhei com ela no colo até a porta do passageiro e senti quando se moveu e apoiou a cabeça em meu peito. Prendi a respiração, senti um frio na barriga...

“Foco, Alice... Foco.”

Pedi a um rapaz que abrisse a porta para mim e em seguida, com todo cuidado, acomodei-a no banco do passageiro do meu carro. Já ia pôr o cinto de segurança, mas ela acordou.

Novamente o olhar... A intensidade... A paralisia...

“Que merda, Alice, o que tá acontecendo com você? Fala alguma coisa!”

Acima de qualquer coisa, eu precisava muito saber o que ela estava sentindo. Então, com muito esforço, finalmente consegui perguntar:

-- Moça, você tá melhor?

Silêncio...

“Por que ela não responde?”

O comportamento dela estava começando a me deixar apavorada. Insisti:

-- Moça... Moça, por favor, me responda: você tá bem?

Nada... Ela parecia paralisada. E eu comecei a ficar desesperada.

“Chega disso. Não vou pagar pra ver.”

-- Ok, vou te levar pra um hospital. Deixa só eu pôr o cinto em você...

Finalmente uma reação. Ela saiu do estado de catatonia. Ainda assim, não falou nada. Apenas olhou nervosamente de um lado para o outro e voltou a respirar descompassadamente. Vislumbrei um novo desmaio e tratei de me apressar em pôr o cinto, mas logo que o toquei, senti as mãos dela me empurrarem de forma brusca. Em seguida, saltou para fora do carro e praticamente gritou:

-- Não!

Eu já não estava entendendo mais nada e a sequência de acontecimentos que se seguiu me deixou ainda mais confusa. Primeiro, ela olhou ao redor e ficou mais uma vez muito nervosa. Achei que fosse passar mal novamente, mas ao invés disso puxou forte o ar para os pulmões enquanto apertava os olhos. Quando os abriu novamente, parecia mais calma. Olhou-me e falou:

-- Eu preciso ir... Estou... Estou atrasada.

Ela definitivamente não estava bem. Atribuí a responsabilidade a mim e insisti:

-- Você acabou de desmaiar. Deve ter batido a cabeça ou... sei lá. Precisa ser examinada.

Mas ela era uma coisinha teimosa:

-- Olha, tá tudo bem, ok? Eu tô bem... Preciso ir...

Só que eu mostrei ser bem mais, ao que agarrei o braço dela e impus:

-- De jeito nenhum. Não vou deixar que vá a lugar algum sem antes ser avaliada por um médico. É minha obrigação garantir que você fique bem.

Mas minha atitude fez com que ela finalmente saísse do estado de confusão o qual se encontrava até ali. Ficou visivelmente irritada. Livrou-se de forma brusca de minha mão que agarrava seu braço, virou e me fuzilou com aqueles olhos enormes, antes de falar em um tom nada ameno:

-- Olha aqui, garota, sua obrigação é dirigir com atenção, respeitar a sinalização... Respeitar a faixa de pedestres.

Fui pega totalmente de surpresa pela reação dela e por aqueles olhos lindos mais uma vez me desconcertando. Meu rosto queimou. Fiquei muito, mas muito constrangida mesmo. Tudo o que consegui falar... Falar não, gaguejar... Tudo o que consegui gaguejar foi:

-- Des... Me desculpe. Você tem toda a razão, moça. Eu sinto muitíssimo por ter causado...

-- É bom que sinta mesmo. E é bom que você comece a prestar mais atenção quando estiver dirigindo. Já parou pra pensar que poderia ter me matado?

“Eita, eita, eita... Que baixinha atrevida, metida a dona do mundo! Puxa vida, ela tem razão, mas o que ela acha? Acha que eu fiz de propósito? E por que ela não olha por onde anda?”

Meu constrangimento deu lugar à irritação.

-- Olha o exagero, garota! Não aconteceu nada demais. Pra que isso tudo? Além disso, é muito fácil me culpar, né? Tua mãe não te ensinou que tem que olhar pros lados antes de atravessar a rua?

-- Ah, que lindo! Agora você vai culpar a vítima? Escuta aqui, só não vou registrar um BO contra você por tentativa de homicídio porque eu estou extremamente atrasada para o meu compromisso.

“Bem, amigas, é oficial: Tô fudida! Por que raios esta garota tá me deixando assim, tão sem ação, tão constrangida, tão nervosa, tão perturbada e tão... Tão... Excitada?”

Abri a boca várias vezes para falar, mas não saiu nada. Entrei em desespero. Levei as mãos à cabeça e, sem mais o que fazer, comecei a mexer nervosamente no cabelo. Acho que ela percebeu o meu estado, pois tentou amenizar:

-- Moça... Olha, eu tô bem. Não precisa se preocupar. O desmaio não teve nada a ver com o acidente. Foi só uma queda de pressão, mas já passou. Agradeço a sua preocupação, mas preciso ir. Estou realmente muito atrasada.

A informação me deixou aliviada. Mas mesmo assim...

-- Tem certeza? Eu realmente ficaria mais confortável se...

-- Certeza absoluta. Relaxa! Não foi dessa vez que você matou alguém, mas se não tomar mais cuidado, esse dia vai chegar rapidinho.

E dizendo isso, virou-se e sumiu no meio da multidão, deixando-me lá, estatelada, sem ter qualquer condição de me mover. Precisei de alguns instantes para conseguir voltar ao carro, mas antes de conseguir ligá-lo, puxei forte o ar para tentar aquietar o tremor que me dominava. Foi pior. Quando inspirei, fui imediatamente embriagada pelo cheiro do perfume dela, que estava impregnado em mim. O tremor se agravou, o coração acelerou... Mais... E meu corpo todo ferveu.

“O que é isso? Como essa garota tão maluca, tão sem noção, pode ter me deixado neste estado? É a idade... Só pode ser a idade. Acho que estou ficando velha. Devo estar desenvolvendo hipertensão ou coisa assim. Preciso procurar um médico com urgência... Nem perguntei o nome dela... Talvez eu nunca mais a veja. Que droga! Quero vê-la... Preciso. Não... Alice, para! Ela é só uma garota. Com quantas garotas lindas e gostosas você já saiu? Para, para, para... Preciso procurar um médico hoje ainda. Só posso estar doente... Mel... O nome dela poderia ser Mel. Vou chamá-la de Mel.”

Entrei em minha sala ainda inebriada pelo cheiro de Mel impregnado em mim. A adrenalina percorrendo violentamente todo o meu corpo, como da primeira vez em que eu voei de asa delta, ou quando saltei de bungee jump... Sensação que nunca havia sentido por uma garota até aquele instante. Era como se eu estivesse à beira de um precipício, pronta para saltar, mas sem nenhum equipamento de proteção. Pior de tudo era que ao mesmo tempo em que eu tentava me convencer de que aquilo não passava de uma reação ao susto que eu havia tomado, a imagem de Mel não saía da minha cabeça um só instante. Fui tirada do transe por Giselle, que entrou na sala sem bater, como sempre, logo depois de mim.

-- Fiquei esperando você me ligar o final de semana inteiro. Me deu bolo, né?

-- Ah, gata! Eu tinha muito trabalho pra pôr em dias. Sequer consegui sair de casa. Não parei um só instante.

Menti descaradamente, ela sabia disso. Tanto que disse:

-- Ahan, sei... Vou fingir que acredito.

Mas quando quero, posso ser extremamente cara de pau.

-- E por que eu mentiria pra você?

-- Esquece. Deixa pra lá. Só me dá um beijinho pra matar essa saudade que eu tô de você. Daí eu te perdoo. Vem cá, vem?

E dizendo isso, agarrou-me. Um beijo quente, úmido, cheio de desejo. Corresponder foi inevitável. Giselle era uma mulher espetacular. Uma mulata lindíssima de cabelos cacheados e corpo escultural. Sensacional na cama, mas, além disso, não havia mais nada que me atraísse nela. Nunca me tratou mal, muito pelo contrário. Comigo, sempre foi só gentilezas. Mas eu não gostava do jeito arrogante – às vezes até grosseiro – que ela tratava as pessoas que, em tese, estavam abaixo dela. Ela meio que se sentia a dona do mundo. Era aquele tipo de pessoa que achava que dinheiro e poder falavam mais alto do que todo o resto. Não fosse isso, talvez eu até tivesse me apaixonado por ela. Havia algum tempo que eu estava notando um comportamento diferente nela que, ao contrário de mim, parecia não estar mais satisfeita com a nossa falta de compromisso. Se ela não fosse do jeito que era, talvez eu até estivesse disposta a arriscar me aquietar, afinal, a vida boêmia já não tinha mais a mesma graça de antes. As garotas ficavam cada vez mais desinteressantes e as noitadas cada vez mais sem sentido. Mas Giselle não era a pessoa certa para isso, por isso, eu havia decidido terminar tudo o que tínhamos antes que as coisas se complicassem ainda mais. Isso com certeza a pegaria de surpresa, mas era exatamente o que eu ia fazer.

-- Gi, para! Aqui não. Depois... Depois...

Falei, tentando me soltar dela, que não me largava por nada.

-- Faz mais de dez dias que não te vejo, Alice. Não aguento mais de vontade de te ter de novo...

-- Gisele, escuta... Espera...

Soltei-me dela com dificuldade e me afastei. Continuei a falar:

-- Pode entrar alguém a qualquer momento. Vamos acabar nos ferrando nessa história. Vamos nos ver fora daqui... A gente sai na sexta...

-- Sexta não. Hoje.

-- Mas hoje ainda é segunda...

Ela me interrompeu com um beijo e depois continuou, ainda agarrada em mim:

-- Alice, se você me fizer esperar mais um dia...

 

Ouvi a porta abrir e a empurrei para longe. Virei-me rapidamente, as mãos ávidas, tentando arrumar a roupa e os cabelos amarrotados, dei de cara com Pedro, olhando-me com um ar safado. Mas minha surpresa não poderia ter sido maior. Ao lado de Pedro, olhando-me com uma expressão de choque, Mel...

Notas finais:

A música que inspirou o capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=dIR88snxwYA

 

Meninas, agora sim... é hora de voltar a postar os capítulos semanalmente.

Farei as postagens sempre as terças, tá? Quero... "quero" não... eu preciso que me contem o que estão achando. Posso contar com isso?

Para começar, por que não me contam o que acharam desse?

E enquanto esperam o próximo capítulo, caso ainda não tenham lido, que tal darem uma conferida em Amor… E Outros Dilemas ???

É a minha primeira história publicada e já está completíssima.

Ah, só mais uma coisa: quem tiver interesse em compartilhar dicas de filmes, livros, séries ou qualquer outro tipo de conteúdo relativo ao universo lésbico, convido a curtir a página e se juntar ao grupo do CulturaLes, acessando os links abaixo:

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Abraços e até terça!!!

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CRÉDITOS:

Texto: Linier Farias;

Capa: Linier Farias;

Revisão: Joelma Leite.

Capitulo 5 - Chasing The Sun por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

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                varCapítulo= 5;

 

  var Título = “Chasing The Sun”;

 

                varPOV= “Isabella”;

 

};

 

 

 

“The sky is her blue eyes begin to open, the storm is upon me, but I'm chasing the sun and she's got me down on my knees”

 

Chasing The Sun (The Calling, 2004)

 

 

 

Por um breve instante imaginei estar vendo coisas, mas bastou meus olhos encontrarem mais uma vez aquele par de safiras brilhantes para que eu tivesse a certeza: era ela. A mulher perturbadora. Aquela que eu pensei que jamais teria o desprazer de rever.

 

“Desprazer? Sim, desprazer, afinal, ela não passa de uma inconsequente, irresponsável que, primeiro, quase me matou atropelada por não prestar atenção no trânsito; segundo, se deixou ser flagrada no maior amasso em um ambiente de trabalho, ainda por cima com outra mulher; e terceiro... Bem... Não tem terceiro. Ela é desprezível. Ponto final.”

 

“Mas por que meu corpo inteiro entra em frenesi quando a vejo?”

 

“Tá louca, Isa? Sim, você só pode estar.”

 

O fato era que desde o nosso desastroso primeiro encontro eu não conseguia tirá-la da cabeça. O motivo eu não sabia, mas ela estava lá, por mais que eu me esforçasse para que não estivesse. Ainda por cima, aquele cheiro impregnado em mim não ajudava em nada. Ele me perturbava de uma forma que não sabia dizer se era boa ou ruim. Quando tomei consciência de que era ela ali, se agarrando com aquela mulher, meu coração foi de zero a cem tão rápido que chegou a literalmente doer. Inevitavelmente, a calma, que eu havia recuperado com tanto esforço, abandonou-me mais uma vez. Respirei fundo para controlar o tremor que tentava fazer meu corpo convulsionar, mas falhei miseravelmente quando, como em um passe de mágica, mais uma vez fui capturada por aquele azul intenso que me sugava toda a sanidade.

 

“Mas o que tá fazendo aqui? Ah, isso tá claro, né? Estava se agarrando com aquela outra ali, que, por sinal, não parece estar nada constrangida com o flagra. Então ela é sapat... Digo... é lésbica. Se diz ‘lésbica’, Isa. Ela é lésbica... Bom, agora tá explicado o motivo de me olhar daquele jeito, mas ainda não entendi o que ela tá fazendo aqui. Será que me seguiu? Não, né? Dah! Claro que não. Deve ser funcionária... Espera... Merda! O que ela tá fazendo na sala da Alice Schultz? Será que...”

 

Não precisei concluir o raciocínio, pois Pedro tratou de confirmar a minha suspeita quando a cumprimentou com um baita de um sorriso irônico no rosto:

 

-- Bom dia, Schultz! Vejo que já começou muito bem a semana.

 

“Não acredito! É ela.”

 

A cara que ela fez, um misto de surpresa e constrangimento, não deixou dúvidas de que aquele reencontro havia sido tão perturbador para ela quanto estava sendo para mim. Quando pareceu finalmente assimilar o que estava acontecendo, ela quebrou o contato entre nós e começou a olhar nervosamente, de um lado para o outro, para as outras duas pessoas na sala. Arrumou a roupa e os cabelos amarrotados enquanto respondia e, ao mesmo tempo, se justificava:

 

-- Bom dia, Pedro! A Giselle e eu estávamos aproveitando para bater os prazos de execução de algumas ordens de serviços.

 

-- Ahan... Sei! Tô ligado.

 

O tom de Pedro, indisfarçadamente irônico, deixava claro que ele sabia exatamente que aquela era a mentira mais esfarrapada que Alice poderia ter inventado. Mas pelo menos ela teve a decência de tentar disfarçar. Já a outra, a tal Giselle, não parecia ter dado a mínima. E como se o fato de ter sido flagrada se agarrando com uma colega de trabalho dentro da sala de reuniões fosse a coisa mais natural do mundo, ela atravessou a sala e cumprimentou automaticamente a mim e ao Pedro. Primeiro ele:

 

-- Oi, Pedro!

 

Depois se virou para mim antes que ele respondesse e continuou:

 

-- E você é a novata, né? Como é mesmo seu nome? – Franziu o cenho. – Isadora?

 

Contrariando a antipatia instantânea que senti por ela, tentei ser gentil:

 

-- Isabella. Mas pode me chamar de Isa.

 

-- Isa... Tanto faz. Sou Giselle.

 

“Que metida!”

 

-- Prazer, Giselle.

 

-- Hunrum.

 

Mal tocou a minha mão, deu de ombros e fez que ia sair, mas antes ainda se virou para a outra e falou:

 

-- Mais tarde te procuro pra gente concluir.

 

Alice apenas acenou com a cabeça e voltou a me olhar. A pele branca exibia um rubor fortíssimo. Mais uma vez estávamos lá, nós duas e uma situação absolutamente constrangedora. Percebi que ela não conseguiria reagir e, tirando forças não sei de onde, finalmente consegui falar:

 

-- Oi, garota que não respeita as faixas de pedestres.

 

Provoquei e funcionou. Ela recuperou a fala e retrucou:

 

-- Olá, garota que não olha para os lados antes de atravessar a rua.

 

Pedro se meteu:

 

-- Como assim, vocês já se conhecem?

 

-- Mais ou menos.

 

Ela respondeu sem tirar os olhos de mim, arrancando de Pedro uma resposta cheia de malícia:

 

-- Este dia tá ficando cada vez mais interessante.

 

O comentário dele foi ignorado por ambas. O silêncio tomou conta de nós novamente. As sensações que percorriam o meu corpo eram inexplicáveis. Meu sangue fervia de raiva, frustração, nervosismo, medo... Desejo?

 

“O quê? Eu tô... Tô excitada? Sério isso?”

 

Mas era fato: eu estava excitada. Tentei negar para mim mesma, de forma inútil. Lembrei da música do Lulu Santos: “Nós somos medo e desejo, somos feitos de silêncio e sons. Tem certas coisas que eu não sei dizer.”

 

“Não, não, não... Espera aí! Tá pensando o quê? Não está achando que tô com tesão em uma mulher, está? Porque é óbvio, é lógico, está nítido que isso não tem nada a ver. Não mesmo! Para o seu governo, eu sou hétero, gosto de homem. Sou extremamente hétero. Nunca, jamais, nem em sonhos eu desejei uma mulher. Isso é culpa da falta de sexo. Fernanda tem razão, tô precisando tirar o atraso, porque já tá subindo pra cabeça.”

 

Recuperei a razão e afastei para longe aquela ideia absurda. Tratei de quebrar o silêncio novamente, respondendo com mais precisão à pergunta de Pedro:

 

-- Na verdade, Pedro, não nos conhecemos oficialmente. Nosso primeiro contato foi agora, há pouco. Na frente do prédio, quando ela tentou me matar.

 

-- Garota, mas você é uma coisinha exagerada, né? Para de falar isso. Já disse que não fiz de propósito e já me desculpei mil vezes contigo.

 

-- Queria ver você se desculpando se eu tivesse morrido...

 

Os ânimos estavam se alterando. Pedro, ao perceber, interrompeu o início da discussão, antes que as coisas saíssem do controle:

 

-- Ei, ei, ei... Parem com isso. Como pretendem trabalhar juntas, se logo no primeiro contato já estão se estranhando?

 

-- Trabalhar juntas?

 

O espanto dela estava estampado na cara. Pedro continuou:

 

-- Sim, juntas. Alice, esta é Isabella Ferreira. A sua nova parceira na gerência de projeto. Isa, Alice Schultz. Já te disse quem ela é, então...

 

-- Ah, não! Só pode ser brincadeira.

 

Ela bufou, interrompendo Pedro, e eu retruquei com sarcasmo:

 

-- O correto a se dizer é: “Seja bem-vinda, Isabella. Muito prazer!”

 

-- Sim, mas aí eu estaria dizendo algo que não sinto. O que eu não costumo fazer.

 

-- Não ache que tomar ciência disso esteja sendo mais agradável para mim.

 

Ao ouvir minha resposta, ela avançou em minha direção, parando a poucos centímetros de mim enquanto me fuzilava com o olhar enfurecido. Chegou tão perto que eu consegui sentir o calor que seu corpo emanava. O aroma alucinante que vinha dela invadiu novamente os meus sentidos, fazendo as borboletas se agitarem em meu estômago. Tremi e fiquei completamente sem ação. O coração pulsando acelerado. Antes de falar, percebi que olhou para a minha boca. Involuntariamente, olhei para a dela também e umedeci os lábios com a língua. Quando percebi o quanto aquilo era inadequado, sacudi a cabeça e dei um passo para trás. Ela retrucou:

 

-- Se você quiser, pode passar no RH. Acho que ainda dá tempo de declinar.

 

-- Mas você é uma cara de pau mesmo...

 

Foi Pedro quem interveio em um tom incisivo:

 

-- Meninas, pelo amor de Deus, né? Ainda bem que o Leandro não tá aqui. Onde vocês pensam que estão? Olhem, desculpem o meu atrevimento, afinal, tecnicamente são minhas chefes, mas preciso dizer que vocês têm que parar com isso agora mesmo. Cumprimentem-se e vamos começar a trabalhar. Isso aqui não é a casa da mãe joana.

 

Ele tinha razão. A despeito de todo o mau humor que aquela situação desagradável estava me causando, eu não podia perder o profissionalismo. Além disso, aquilo já estava virando um circo. Nós duas havíamos perdido o foco. Tínhamos um trabalho a fazer e nossas questões pessoais não podiam interferir. Decidi pela resignação. Era fato: eu teria que trabalhar com ela, então, não adiantava ficar batendo boca ali. Ela concluiu o mesmo, deixando isso claro ao que falou:

 

-- Tem razão, Pedro. Desculpe. – Virou-se para mim e continuou. – Desculpe, Isabella. É um prazer te conhecer. Espero que possamos formar uma ótima equipe. Seja bem-vinda.

 

Odeio que me chamem de Isabella, então falei:

 

-- Isa...

 

-- Como?

 

-- Por favor, me chame de Isa. E... – Limpei a garganta antes de continuar. – Alice, o prazer é meu.

 

Estendi a mão para alcançar a dela. Apertou a minha e gemi ao sentir o ardor causado pelos arranhões.

 

-- O que foi?

 

-- Nada... Tenho certeza de que seremos, sim, uma ótima equipe. Obrigada!

 

E com aquele gesto, em um acordo tácito, selamos uma trégua.

 

Pedro falou:

 

-- Então, meninas, agora que não estão mais tentando se matar, eu vou indo. Tenho muito trabalho. Isa, você tá entregue e, diga-se de passagem, em ótimas mãos. Mais uma vez, seja bem-vinda!

 

“É, sei... Tô é fodida.”

 

Foi o que eu pensei, mas ao invés disso, falei:

 

-- Obrigada, Pedro! Você foi muito atencioso e muito gentil. Recebeu-me muito bem. Não tenho como te agradecer.

 

“O que foi? Tá olhando o quê? Não achou que eu fosse perder a oportunidade de ser sarcástica, achou?”

 

-- Não há de quê. Depois vamos marcar uma happy hour pra te dar oficialmente as boas-vindas, ok?

 

-- Ótima ideia! Vamos marcar sim.

 

Sorri sincera pra ele, que em seguida saiu da sala, deixando-me pela primeira vez a sós com Alice.

 

“Eita, Isa, o que é isso? Por que essa mulher te perturba tanto? Vou ter que dar conta disso.”

 

Virei-me para ela, que já me esperava com a postura transformada. O rubor e a raiva exibidos instantes antes haviam dado lugar a um ar absolutamente profissional. Tratei de respirar fundo e fazer o mesmo. Ela falou:

 

-- Bem, melhor começarmos então. Temos muito o que conversar e muito trabalho a fazer.

 

-- Claro. Estou ansiosa pra conhecer o projeto.

 

-- E eu pra conhecer esse algoritmo inovador que você desenvolveu. Mas antes, deixa eu te apresentar a minha... Quero dizer, a nossa sala.

 

Ela me apresentou a sala que, além de escritório, servia também como sala de projetos. No centro, uma grande mesa retangular cercada de cadeiras. Na parede em frente a uma das cabeceiras, um moderno painel interativo. No outro canto da sala, nossas mesas, a minha e a dela, em formato de L, posicionadas lado a lado como se uma fosse espelho da outra. Explicou que desde que fora promovida a gerente de projetos nunca havia dividido a sala com ninguém. Eu, em contrapartida, falei que jamais havia tido uma sala só para mim.

 

-- Imagino a tua frustração em perder a privacidade de um escritório individual.

 

-- Não há frustração nenhuma. Nunca gostei da solidão desta sala.

 

-- É, percebi. Foi só hoje ou você sempre traz alguém pra te ajudar a superar essa solidão?

 

Foi inevitável alfinetar. A postura que ela se esforçava para exibir não condizia com a imagem da profissional totalmente antiética que havia demonstrado ser. Ela ruborizou e perguntou surpresa:

 

-- Do que você tá falando?

 

-- Ora, não precisa disfarçar. Sei exatamente o que Pedro e eu interrompemos.

 

-- Olha só, não é nada do que você tá pensan...

 

Não deixei que concluísse. Interrompi impaciente:

 

-- Não precisa me explicar, não me deve satisfações da tua vida. Só quero te pedir um favor.

 

-- Que favor?

 

-- Não quero interferir no teu espaço. No que depender de mim, você nem vai perceber que está dividindo o escritório comigo, exceto quando precisarmos tratar de assuntos relativos ao projeto, lógico. Mas eu gostaria que você encontrasse outro lugar para se agarrar com a tua namorada. Não quero ter receio de entrar em minha própria sala.

 

-- Escuta, Isa, não sei que tipo de imagem minha você desenhou na tua cabeça, mas não posso admitir que me tome por uma profissional sem ética. Este trabalho é tudo pra mim. Tenho muito orgulho da profissional que sou. Não cheguei até aqui à toa, eu trabalhei duro, de verdade. Posso admitir qualquer coisa, até dividir a gerência do meu projeto com você, mas não vou admitir que ponha em cheque o meu profissionalismo.

 

“Pois toma, Isa! Essa foi bem na minha testa.”

 

Não fui capaz de falar nada. Ainda estava assimilando e tentando formular uma tréplica quando ela continuou:

 

-- Não que isso seja da sua conta, mas a Giselle não é minha namorada. O que você viu aqui, realmente, foi bem inadequado e peço desculpas por isso, mas, ao contrário do que está pensando, não é rotina e garanto que não vai se repetir. Pode ficar tranquila. Vai poder entrar e sair da TUA sala sem maiores preocupações, quando bem entender.

 

Ela enfatizou a palavra “tua” e percebi que extrapolei na arrogância. Senti necessidade de me explicar:

 

-- Eu não quis dizer...

 

Mas ela não deixou:

 

-- Vamos ao que interessa? Temos muitas coisas para discutir e já perdemos muito tempo.

 

Não tive mais coragem de rebater. A postura dela àquela altura era altiva, firme, impassível. O olhar era vazio, distante... Intimidante.

 

-- Ok, vamos ao trabalho.

 

Sentei em uma das cadeiras que cercavam a mesa de reuniões enquanto ela ligava o painel. Apresentou-me a plataforma como era e, em seguida, o projeto para desenvolvimento da nova versão. Depois disso, seria a minha vez de apresentar o meu algoritmo de criptografia para então começarmos a traçar uma estratégia que possibilitasse a integração dos dois. Ela era realmente muito boa. Fiquei impressionada com o conhecimento técnico e com as ideias inovadoras que ela me apresentou. Além disso, pude me certificar de que ela não havia exagerado ao dizer o quanto amava o que fazia, pois isso estava nítido em cada palavra que saía da boca dela e era ratificado pelo brilho intenso daqueles olhos azuis ao apresentar cada detalhe do projeto. Confesso que em alguns momentos eu não consegui dar muita atenção ao que ela falava, pois acabava me distraindo, observando cada detalhe da aparência e do comportamento daquela mulher perturbadoramente encantadora. Quando chegou meu momento de apresentar, foi a vez dela fixar os olhos em mim. Fiquei constrangida, gaguejei, pareci insegura e tive ódio de mim por isso. Mas, contrariando a minha preocupação, ela pareceu bem impressionada com o que mostrei. No fim, percebi que ao menos no âmbito profissional, seria muito recompensador trabalhar com ela.

 

Nossa reunião estava tão produtiva que, em comum acordo, decidimos pedir comida. Almoçamos na sala mesmo, sem deixar de falar sobre a integração de nossos trabalhos. A tarde correu na velocidade da luz e, quando percebi, já passava das 18h. Ouvimos uma batida na porta e ambas viramos para ver a cabeça da tal Giselle aparecer.

 

-- Alice, já passa das 18h. Ainda temos que fechar aqueles prazos.

 

-- Giselle, desculpe, mas hoje eu não vou conseguir. Tenho muita coisa acumulada aqui. Conversamos amanhã, pode ser?

 

Giselle pareceu chateada, mas tentou disfarçar.

 

-- Ok. Mas não pode passar de amanhã. Lembre-se de que temos prazos.

 

-- Pode deixar.

 

Nitidamente frustrada, ela saiu batendo a porta. Nem se deu ao trabalho de nos cumprimentar.

 

“Que sujeitinha arrogante!”

 

-- Ela é sempre assim, tão educada?

 

Alice riu com a minha pergunta. Até então eu não havia a visto sorrir. Involuntariamente sorri de volta.

 

“Que linda! Como ela consegue ficar ainda mais linda?”

 

“Isa, não faz a louca, pelo amor de Deus!”

 

Removi rapidamente o sorriso bobo que eu estava exibindo. Encaramo-nos por um momento... Fiquei excitada.

 

“Merda!”

 

Desviei o olhar e ela me respondeu:

 

-- Ela não é tão ruim assim. Só tem esse jeitão meio...

 

-- Jura?

 

-- Tá bom, ela é uma metida.

 

Rimos juntas de novo, mas dessa vez evitei olhar para ela.

 

-- Isa, não se prenda por mim. Se quiser, já pode ir. Deve estar exausta. Eu vou me demorar um pouco, pois tenho que responder uns e-mails.

 

-- Nem vi a hora. Acabei esquecendo de ligar pra minha amiga, pra ela vir me buscar.

 

-- Hum, amiga... Sei...

 

“Epa! O que ela tá pensando?”

 

-- Ei, não é nada disso que você tá pensando? Eu sou hétero, tá? Tenho namorado.

 

“Pra que eu falei isso? Que estúpida!”

 

Ela me respondeu com ironia:

 

-- Desculpe, senhorita hétero. Não quis ofender.

 

Fiquei completamente constrangida com aquilo.

 

-- Desculpe-me você. Digo... Devo ter parecido uma preconceituosa, mas não sou, tá? Nada contra, mas a Fernanda é realmente minha amiga.

 

-- Relaxa! Eu não esquento com isso.

 

Falou-me com um sorriso irônico estampado na cara. Desconsertada, desviei o olhar e anunciei:

 

-- Vou ligar pra ela.

 

Liguei para Fernanda e me frustrei ao saber que teria que esperar mais de uma hora para que fosse me buscar. Ela tinha uma loja de sapatos no shopping e no final do ano as coisas ficavam sempre muito corridas por lá. Desliguei e Alice percebeu o meu desagrado.

 

-- Tudo bem?

 

-- Tudo. Só vou ter que esperar um bom tempo até que ela possa vir me buscar.

 

-- Você não tem carro?

 

-- Tenho, mas está na oficina.

 

-- Entendo. E o teu namorado? Não pode vir te buscar?

 

-- Ele deve estar trabalhando. Além disso, não tem carro.

 

-- Hunrum... E por que não pede um táxi ou um uber?

 

“Eita, que intrometida! Qual vai ser a próxima pergunta? Será que vai querer saber o meu CPF? Ai, ai... Como vou responder isso sem parecer uma doida?”

 

-- É que... Bem... Eu...

 

Não consegui falar. Ela pareceu curiosa e insistiu:

 

-- Algum problema?

 

-- Eu não uso transporte público.

 

Respondi de uma vez, com um olhar firme, sem dar margem para mais perguntas. Antes que ela falasse qualquer coisa, continuei:

 

-- Não precisa se preocupar, eu vou esperar lá embaixo.

 

Ela sorriu divertida. Estava rindo da minha cara. Fiquei com ódio. Então ofereceu:

 

-- Eu te levo.

 

-- O quê? Só se eu estivesse louca!

 

Respondi de forma impetuosa, sem me dar conta do quanto meu tom havia soado agressivo.

 

-- Garota, você realmente não foi com a minha cara, né?

 

-- Não é isso, é que...

 

-- É que...?

 

Não podia falar para ela o real motivo de negar a carona. Não ia dizer simplesmente que estava com medo de não saber lidar com o fato de ficarmos tão próximas, trancadas dentro de um carro, então menti:

 

-- Eu vi o jeito que você dirige e quase fui vítima da tua imprudência. Acha mesmo que vou entrar em um carro dirigido por você?

 

-- Pelos céus, vai remoer esse assunto até quando, hein? Para o seu governo, eu dirijo muito bem.

 

-- É? Pois não foi o que pareceu.

 

Ela levantou e começou a andar de um lado para o outro enquanto falava em um tom de profunda frustração:

 

-- Quer saber, Isa? Eu estava tentando ser gentil... Queria me redimir com você pra amenizar a impressão ruim que teve de mim, mas você parece estar mais interessada em me atacar do que em desenvolver uma relação cordial, então... Então...

 

-- Então?

 

-- Então fique aí, esperando a sua amiga. Eu vou embora. Por hoje, chega dessa inquisição.

 

Ela foi até a mesa, pegou a bolsa e já ia saindo, mas eu a interrompi:

 

-- Alice?

 

-- O quê? Quer me ofender mais um pouquinho?

 

-- Não... É que...

 

-- Anda, garota, fala logo.

 

-- Desculpa, Alice! Você tem razão, eu... Eu sinto muito. Não tenho o direito de te tratar assim.

 

Acho que ela estava esperando mais briga e como, ao invés disso, eu me desculpei, ficou sem ação. Continuei em um tom ameno:

 

-- A carona ainda está de pé?

 

Houve um instante de silêncio. Encaramo-nos e o olhar dela suavizou. Sorriu incrédula e agitou a cabeça.

 

“Que coisa mais linda, senhor!”

 

Àquela altura, eu já havia desistido de lutar contra o fato incontestável: ela me perturbava de um jeito que não era ruim. Tudo culpa daqueles malditos olhos azuis que me fisgaram da primeira vez que eu os fitei. Cada célula do meu corpo implorava pela proximidade dela. As reações que me provocou ao longo daquele dia eram inconfessáveis. Só me restava encontrar uma forma de anular aquilo, o que certamente não ia ser nada fácil.

 

Ela finalmente respondeu:

 

 

 

-- Vem. Vamos, antes que eu me arrependa.

Notas finais:

E enquanto esperam o próximo capítulo, caso ainda não tenham lido, que tal darem uma conferida em Amor… E Outros Dilemas ???

 

É a minha primeira história publicada e já está completíssima.

 

Ah, só mais uma coisa: quem tiver interesse em compartilhar dicas de filmes, livros, séries ou qualquer outro tipo de conteúdo relativo ao universo lésbico, convido a curtir a página e se juntar ao grupo do CulturaLes, acessando os links abaixo:

 

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Abraços e até terça!!!

Capitulo 6 - Trouble por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){

                var Capítulo= 6;

  var Título = “Trouble”;

                var POV= “Alice”;

 

“I’m Trouble”

 

Trouble (Pink, 2003)

 

Existe uma regra básica que qualquer ser humano precisa seguir a ferro e fogo na vida para não se ferrar: não se envolver com pessoas em seu ambiente de trabalho. Todo mundo sabe que isso é encrenca na certa. Todo mundo... Menos esta idiota que vos fala. Eu estava completamente encrencada por causa da minha história com Giselle. Sabia que terminar com ela não ia ser nada fácil e, pior ainda, continuar tendo que encará-la na empresa todos os dias depois do rompimento seria uma baita de uma provação. Giselle não era do tipo que sabia perder e não ia desistir sem uma boa briga. Bom, mas voltando à regra, nunca é tarde para pôr a cabeça no lugar, não é mesmo? Então era isso que eu estava determinada a fazer. Até descobrir que a minha mais nova parceira de trabalho era, ninguém mais, ninguém menos do que a Mel... Aquela a quem pensei jamais ver novamente, aquela cuja imagem deslumbrante eu acomodaria em um lugar especial da minha mente para usar no momento mais oportuno, de olhos fechados, quando estivesse transando com a próxima garota, aquela que de mel só tinha os olhos, mas nem por isso me perturbava menos.

 

Tudo bem, tenho que confessar que estava entoando um mantra silencioso para ter uma oportunidade de vê-la novamente, e aconteceu bem mais rápido do que eu esperava, mas se existia um Deus ele só podia estar de sacanagem comigo. Eu havia tomado uma decisão: depois de Giselle, por razões óbvias, eu jamais me envolveria novamente com ninguém do meu trabalho. E agora, essa.

 

“Papai Noel, já saquei qual é a tua, seu velhinho sacana. Você é um sádico. Me enviou exatamente o presente de natal que eu queria, mas não vou poder brincar com ele. Vou ter que me contentar em ficar apenas admirando de longe. Isso não se faz, Papai Noel. Sei que não fui uma menina boazinha, mas também não fui, de todo, malvada. Custava ter dado uma aliviada? A gente bem que podia ter se esbarrado na academia ou no shopping... Tinha que ser aqui? E, pior, tinha que ser justamente a minha nova parceira?”

 

“Já sei o que você tá pensando: lá vai a Alice se meter em encrenca de novo. Ainda nem se resolveu com a Giselle e já está se engraçando pela Isa. Pois tenho uma coisa pra te dizer: você está enganada. Sou uma pessoa determinada, decidida, controlada. Sou eu quem decide o rumo que a minha vida vai tomar. O que quero dizer com isso é que eu controlo o meu corpo e não o contrário... Tá bom, é mentira. Bem, pelo menos eu costumava controlar até hoje. Agora eu não passo de uma confusão de sentimentos e sensações, lutando contra a vontade incontrolável que estou sentindo de jogá-la em cima dessa mesa e percorrer cada pedacinho desse corpo moreno delicioso com a minha boca.”

 

Nosso primeiro dia de trabalho juntas não havia começado bem. Isa dos olhos de mel parecia ter uma antipatia natural por mim, e por mais que eu tentasse ser gentil, ela sempre me respondia com uma patada. Eu tinha que admitir que ela tinha bons motivos para não ir com a minha cara, mas se trabalharíamos juntas, ela ia precisar superar. Esforcei-me para assumir uma postura profissional e impus o respeito que precisava. Pareceu funcionar. Depois de alguns embates, vestimos os trajes da cordialidade e começamos a trabalhar. Grata surpresa: aparentemente nós seríamos ótimas parceiras. Ela pareceu verdadeiramente entusiasmada com a minha apresentação, mal sabendo ela que enquanto eu falava e mostrava o que já sabia de cor, estava completamente atenta a cada movimento dela. Cada vez que passou as mãos pelos cabelos, o jeito que franzia o cenho e apertava os olhos quando estava tentando entender algo, todas as vezes que tentou arrumar o decote para não exibir demais o colo, as cruzadas de perna, o jeito que organizou laptot, celular, caneta e bloco de notas de forma simétrica sobre a mesa de reuniões... A cada detalhe observado o meu desejo aumentava.

 

Não achei que fosse conseguir passar por aquele dia sem ter um colapso. Acabei e foi a vez dela apresentar. Eu já estava decidida a começar a imaginar velhinhas de biquíni, dançando Macarena, mas então ela começou a falar. Foi a minha salvação. Se tinha algo que me chamava mais atenção do que uma linda morena de corpo escultural e olhos cor de mel, era uma linda morena de corpo escultural, olhos cor de mel e uma mente incrivelmente brilhante. Se antes dela apresentar seu projeto eu já estava completamente embasbacada, quando começou a fazê-lo, passei a achar que havia encontrado a perfeição em forma de uma pequena mulher. Aquela apresentação foi a única coisa capaz de me tirar do estado de excitação física em que eu me encontrava, sendo essa excitação substituída pelas dezenas de orgasmos mentais que tive, assistindo-a falar com tanta propriedade sobre o que havia desenvolvido.

 

Nosso entrosamento era tamanho e o dia estava sendo tão produtivo que nem percebemos as horas passarem. Almoçamos na sala mesmo e quando notamos, já passava das 18h. Ouvimos uma batida na porta e ambas viramos para ver a cabeça de Giselle aparecer.

 

-- Alice, já passa das 18h. Ainda temos que fechar aqueles prazos.

 

“Merda, tinha esquecido da Giselle. Ela não vai aceitar outro fora, mas hoje eu não tô com cabeça. Muita informação para um dia só. Vou ter que tentar adiar.”

 

-- Giselle, desculpe, mas hoje eu não vou conseguir. Tenho muita coisa acumulada aqui. Conversamos amanhã, pode ser?

 

Pareceu chateada, mas tentou disfarçar. Acho que não queria mostrar vulnerabilidade na frente da Isa.

 

-- Ok. Mas não pode passar de amanhã. Lembre-se de que temos prazos.

 

-- Pode deixar.

 

Ela saiu batendo a porta sem sequer se dar ao trabalho de nos cumprimentar.

 

-- Ela é sempre assim, tão educada?

 

Isa perguntou com um ar brincalhão, demonstrando um senso de humor que me deixou completamente surpresa. Minha resposta foi sorrir. Ela sorriu de volta e nos encaramos. A excitação voltou.

 

“Merda!”

 

Ela desviou o olhar.

 

“Será que se incomodou ou... Não, não é possível.”

 

Respondi:

 

-- Ela não é tão ruim assim. Só tem esse jeitão meio...

 

-- Jura?

 

-- Tá bom, ela é uma metida.

 

Rimos juntas de novo, procurei novamente seus olhos, mas ela evitou.

 

“Não, é impressão. Tira isso da cabeça, Alice. Chega de encrenca.”

 

-- Isa, não se prenda por mim. Se quiser, já pode ir. Deve estar exausta. Eu vou me demorar um pouco, pois tenho que responder uns e-mails.

 

-- Nem vi a hora. Acabei esquecendo de ligar pra minha amiga, pra ela vir me buscar.

 

“Amiga? Haha... Eu sabia, eu sabia... Ela me olha com o mesmo desejo que eu olho pra ela. É lésbica também. Tenta disfarçar, mas é. Não deve ter saído do armário ainda.”

 

-- Hum, amiga... Sei...

 

Pensei alto e me arrependi no momento em que calei a boca. O bom humor dela foi embora. Ficou nitidamente ofendida.

 

-- Ei, não é nada disso que você tá pensando? Eu sou hétero, tá? Tenho namorado.

 

Falei besteira, mas não era para tanto, né?

 

-- Desculpe, senhorita hétero. Não quis ofender.

 

Meu sarcasmo foi inevitável e pareceu fazê-la perceber que havia exagerado na reação. Já tentando se redimir, falou:

 

-- Desculpe-me você. Digo... Devo ter parecido uma preconceituosa, mas não sou, tá? Nada contra, mas a Fernanda é realmente minha amiga.

 

“Será?”

 

-- Relaxa! Eu não esquento com isso.

 

-- Vou ligar pra ela.

 

Ela ligou para a amiga, mas se frustrou ao saber que demoraria. Estranhei o fato de precisar de carona.

 

“Como assim, ela não tem um carro? Tá, tudo bem. É uma opção, mas por que não pede um Uber ou táxi?”

 

Não consegui controlar a curiosidade. Não queria ser intrometida, mas acabei sendo:

 

-- Você não tem carro?

 

-- Tenho, mas está na oficina.

 

-- Entendo. E o teu namorado? Não pode vir te buscar?

 

“Agora eu descubro.”

 

-- Ele deve estar trabalhando. Além disso, não tem carro.

 

“Que tipo de cara adulto e com um trabalho não tem um carro? O tipo de cara que não existe. Você está mentindo pra mim, dona Isa? Que feio.”

 

Ela já estava de saco cheio daquela sabatina, mas eu queria... Queria não, precisava saber mais.

 

-- Hunrum... E por que não pede um táxi ou um uber?

 

-- É que... Bem... Eu...

 

Eu devo ter ido longe demais na intromissão. Ela estava se constrangendo, e eu, cada vez mais curiosa. Perguntei:

 

-- Algum problema?

 

-- Eu não uso transporte público.

 

A resposta dela foi firme. Não me deu margem para inquirir mais nada. Ela se agitou, levantou-se e começou a arrumar as coisas enquanto falava:

 

-- Não precisa se preocupar, eu vou esperar lá embaixo.

 

Ri do nervosismo dela. Ela pareceu irritada com a minha reação. Decidi oferecer carona. Não entendi porque não usava transporte público, mas desisti de entender o que se passava dentro daquela cabecinha maluca. Além do mais, a carona seria uma ótima oportunidade de descobrir mais sobre ela. Ofereci:

 

-- Eu te levo.

 

Mas eu pareci ofendê-la com a oferta. Fui surpreendida por sua resposta agressiva:

 

-- O quê? Só se eu estivesse louca!

 

Fiquei muito chateada porque, por mais que eu me esforçasse, ela parecia decidida a me odiar. Falei:

 

-- Garota, você realmente não foi com a minha cara, né?

 

-- Não é isso, é que...

 

-- É que...?

 

-- Eu vi o jeito que você dirige e quase fui vítima da tua imprudência. Acha mesmo que vou entrar em um carro dirigido por você?

 

-- Pelos céus, vai remoer esse assunto até quando, hein? Para o seu governo, eu dirijo muito bem.

 

-- É? Pois não foi o que pareceu.

 

Foi o fim da picada. Bom, pelo menos eu não ia ter que me preocupar em não me interessar, pois ela já estava dificultando as coisas o bastante. De todo modo, não consegui conter a minha frustração.

 

-- Quer saber, Isa? Eu estava tentando ser gentil... Queria me redimir com você pra amenizar a impressão ruim que teve de mim, mas você parece estar mais interessada em me atacar do que em desenvolver uma relação cordial, então... Então...

 

-- Então?

 

-- Então fique aí, esperando a sua amiga. Eu vou embora. Por hoje, chega dessa inquisição.

 

Peguei minha bolsa e já ia saindo, quando:

 

-- Alice?

 

-- O quê? Quer me ofender mais um pouquinho?

 

-- Não... É que...

 

-- Anda, garota, fala logo.

 

-- Desculpa, Alice! Você tem razão, eu... Eu sinto muito. Não tenho o direito de te tratar assim.

 

“Ahn? Quê? Espera aí, a gente não estava brigando? Essa garota é definitivamente uma doida. Eu aqui me preparando para responder a mais uma ofensa, e ela me pede desculpas. Não tô entendendo mais nada.”

 

Olhei confusa para ela, que me perguntou em um tom ameno:

 

-- A carona ainda está de pé?

 

Fiquei sem saber o que responder. Encaramo-nos. Eu estava com raiva, e se fosse qualquer outra pessoa, eu certamente teria mandado ir pastar, mas ela... Ela tinha o poder de me transformar em alguém que eu não conheço. Olhei para ela e aquele mel adoçou a minha raiva. Sorri incrédula, sacudindo a cabeça de forma negativa, tentando entender que poder era aquele que ela exercia sobre mim. Depois de algum tempo, respondi:

 

-- Vem. Vamos, antes que eu me arrependa.

 

No elevador, apenas nós duas e uma descida de vinte andares. Ela parou ao meu lado, mas a uma distância segura. Um silêncio sepulcral se instalou enquanto descíamos. Eu tinha medo de falar, pois não fazia ideia de como o humor dela estava, vez que já havia percebido que este oscilava mais do que a maré. Olhei de soslaio e percebi que ela estava ansiosa. Tremia a perna nervosamente e mordia o lábio inferior. Fiquei preocupada e perguntei:

 

-- Tá tudo bem?

 

-- Quê? – Perguntou-me confusa.

 

-- Você tá bem? Parece nervosa.

 

-- Tudo bem, é que... Eu só não gosto muito de elevad...

 

Antes que ela concluísse a frase, o elevador deu um solavanco forte, a luz oscilou e ele parou. No momento em que aconteceu, ela deu um grito e se jogou em meus braços. Abracei-a de volta, apertando-a mais do que precisava, pois não ia perder a oportunidade de tê-la tão próxima a mim mais uma vez, mesmo que fosse em uma situação como aquela. Aquele cheiro delicioso me invadiu e fez com que todos os músculos abaixo da minha cintura se contraíssem. Mas não era certo me aproveitar. Ela estava muito assustada... Apavorada, na verdade. O corpo todo tremia e a respiração estava entrecortada. Por um instante, cheguei a pensar que era por minha causa, mas achei por bem tirar isso da cabeça.

 

“Velhinhas gordas de calçolas, velhinhas gordas de calçolas, velinhas gordas de calçolas.”

 

Foi com muito esforço que separei nossos corpos para verificar como ela estava.

 

-- Isa, calma. Deve ter tido uma queda de energia, mas o prédio tem gerador. Daqui a pouco o elevador volta a funcionar.

 

Ela me encarou com aqueles olhos enormes. Estava apavorada mesmo. Olhou para os lados e foi até a porta. Começou a tateá-la enquanto falava:

 

-- Deus, não acredito nisso. Ele não vai cair, vai? Algum elevador daqui já caiu? Sabe o que acontece quando elevadores caem?

 

-- Ei, ei... Relaxa! Não vai cair.

 

-- E o oxigênio? Quanto tempo você acha que temos até acabar? Tô ficando meio sufocada. Você não tá com dificuldade de respirar?

 

“Eita! Essa é maluquinha, maluquinha!”

 

Senti vontade de rir do nervosismo dela, mas me contive. Comecei a entender o comportamento de mais cedo, na hora do acidente. Ela devia ter algum transtorno de ansiedade ou coisa do tipo. Isso explicava também o fato de não usar transporte público. Bom, se eu estivesse certa, era melhor torcer para aquele elevador voltar a funcionar o mais rápido possível, antes que ela tivesse outro piripaque.

 

-- Isa, vem cá.

 

Virei-a para mim e a segurei pelos ombros. Olhei firme em seus olhos e o simples ato trouxe-a de volta. Falei calmamente:

 

-- Confie em mim, o elevador não vai cair e o oxigênio não vai acabar. Respire fundo e tente se acalmar. Eu vou falar com a recepção pelo interfone pra ver qual a previsão de normalizar, ok?

 

-- Ok.

 

Ela respondeu meio incrédula. Reforcei:

 

-- Ei, nós vamos ficar bem, tá? Você vai ficar bem, não se preocupe.

 

-- Tá bom.

 

Apertei o botão do interfone, mas logo que o fiz o elevador voltou a descer. Apenas agradeci ao rapaz que me atendeu e voltei a olhar para Isa.

 

-- Viu? Eu disse que ia ficar tudo bem.

 

-- Obrigada, Alice, e... Desculpe por isso.

 

-- Não tem porque agradecer ou se desculpar.

 

-- Tem sim. Eu surtei, fiquei muito nervosa...

 

-- Isa, relaxa. Você não é a única com medo de elevador.

 

Eu já havia notado que o problema dela ia muito além, mas não queria deixá-la mais constrangida do que já estava, por isso, tentei agir com naturalidade. Em troca, recebi um lindo e sincero sorriso.

 

-- Mais uma vez, você me socorreu hoje.

 

Foi minha vez de sorrir. Não esperava uma gentileza daquelas.

 

-- Sempre que precisar.

 

Rimos juntas e o elevador chegou ao subsolo. Brinquei:

 

-- Viu? Terra firme.

 

-- Até que enfim.

 

Caminhamos em silêncio até o meu carro. Abri a porta para ela entrar e quando passou por mim, mais uma vez aquela vontade de agarrá-la.

 

“Velhinhas gordas de calçolas, velhinhas gordas de calçolas, velinhas gordas de calçolas.”

 

Fizemos a maior parte do caminho em silêncio. Eu não sabia o que perguntar ou falar, estava pisando em ovos. Não queria estragar o clima ameno que havia se estabelecido. Fui devagar, pois queria postergar ao máximo o tempo ao lado dela. Não podia tocá-la, mas podia ver as pernas expostas e sentir o cheiro. Além disso, tinha medo de acelerar e ela surtar. Quando chegamos na frente do prédio dela, foi minha vez de tremer da cabeça aos pés quando ela convidou:

 

-- Quer subir para um café?

 

-- Quê? Como?

 

Não acreditei no convite. Foi no mínimo inesperado. Ela percebeu a minha incredulidade e explicou:

 

-- Tô tentando ser gentil. Não quero que fique com uma impressão ruim. Eu sou uma pessoa agradável... Às vezes.

 

Terminou a frase com um sorriso no rosto e eu não tive outra opção, a não ser aceitar.

 

-- Ok. Eu aceito.

 

Ela morava no terceiro andar e logicamente subimos de escada. O apartamento era tão limpo e tão organizado que fiquei com medo de pisar no chão. Quase perguntei se ela queria que eu tirasse os sapatos, mas como ela entrou calçada, acompanhei. Quando cheguei na sala, tive certeza de que o tal namorado era real. Inúmeras fotos dos dois espalhadas em porta retratos.

 

-- Senta.

 

-- Obrigada!

 

-- Você quer café ou prefere um suco, um refrigerante... Te ofereceria uma cerveja, mas está dirigindo, então...

 

-- Eu aceito a cerveja.

 

-- Hum... Isso não parece certo.

 

Ela me olhou com ar de crítica enquanto falava. Não pude deixar de sorrir.

 

-- É preciso bem mais que uma cerveja pra me embriagar, relaxa.

 

-- É por isso que você atropela as pessoas.

 

-- Já vai começar?

 

-- Desculpa! Brincadeira. Ok, eu te acompanho em uma. Vou buscar, já volto.

 

Foi em direção à cozinha e voltou instantes depois, trazendo duas cervejas e dois descansos de copo. Sentou-se a certa distância de mim no sofá e virou-se para ficar de frente. Repeti o gesto dela. Encaramo-nos brevemente, os olhos cor de mel brilhando com intensidade encontraram os meus. Fiquei sem saber o que aquilo significava. Eu sempre soube ler as mulheres e a linguagem corporal dela era clara. Ela me desejava, tanto quanto eu a desejava. Mas vindo dela, eu estava com medo de estar errada. Além disso, tinha o fato de sermos parceiras e eu ainda não havia resolvido as coisas com a Giselle. Era muita encrenca junta. Desviei o olhar, ela fez o mesmo. Precisava de um assunto para neutralizar a situação. Olhei para o lado e vi a foto com o namorado.

 

-- Então esse é o namorado.

 

-- Sim, Lucas.

 

-- Estão juntos há quanto tempo?

 

-- Mais de dez anos.

 

-- Eita! Isso é uma vida. Não pensam em casar?

 

-- Na verdade, já moramos juntos. Casamento é uma mera formalidade, então...

 

-- Entendo.

 

Então ele mora com ela. Olhei ao redor para tentar disfarçar a minha frustração e vi outra foto dele com uma guitarra.

 

-- Ele toca guitarra?

 

-- Sim, é músico. Ele canta também.

 

-- Sério? Que legal! Qual estilo?

 

-- Rock. Tem uma banda.

 

-- Eu tocava e cantava na época do colégio. Era de uma banda também.

 

-- E por que parou?

 

-- Ah, você sabe. A vida adulta. Faculdade, trabalho... Mas a gente se reúne de vez em quando. É divertido.

 

-- Imagino.

 

-- Eu gostaria de ter continuado, mas é difícil conciliar com o trabalho e tudo mais. Não sei como o Lucas dá conta, mas admiro ele.

 

-- Mas ele não precisa conciliar. Vive disso.

 

-- Sério? Isso é um sonho.

 

-- Ahan... E às vezes um pesadelo.

 

-- Não entendi.

 

-- Deixa pra lá.

 

Falou exasperada e se levantou. Caminhou até a janela e se apoiou no batente, de costas para a rua. Arrumou nervosamente o cabelo e percebi que aquele assunto a estava incomodando. Isso ficou mais claro ainda quando ela mudou o foco:

 

-- E você e essa Giselle, como é que funciona esse não namoro de vocês?

 

Levantei e fui em direção a ela. Encarei-a e ela sustentou o olhar no meu em uma expressão firme, como se realmente esperasse uma resposta concisa para aquela pergunta indiscreta. Sim, indiscreta. Mas eu não podia julgá-la, já que até então a indiscreta era eu. Tentei responder em um tom casual:

 

-- Você perguntou, você respondeu.

 

Ela apenas inclinou o pescoço para o lado e franziu o cenho, como um cachorrinho que não entende quando falam com ele. Expliquei:

 

-- É o que você disse: um não namoro. Não temos nenhum compromisso.

 

-- Sexo casual?

 

“Garota, não fale a palavra ‘sexo’ na minha frente. Não brinque com fogo, porque eu tô doida pra te queimar com o meu.”

 

-- Sim, sexo casual.

 

Falei em um tom propositalmente baixo e rouco. Percebi que engoliu a seco. Vi o exato momento em que as pupilas dela dilataram e aquilo foi a minha deixa. Dei um passo para me aproximar mais. Ficamos a centímetros de distância. Meus olhos desceram para os lábios, que estavam entreabertos. Cheguei a calcular o beijo, mas ela me interrompeu em um tom que não deixava claro se ela queria que eu me aproximasse mais ou me afastasse:

 

-- Então é esse o teu lance? Gosta de fazer sexo casual com as tuas colegas de trabalho?

 

-- Não. Só com as lindas, como você.

 

“Merda! Idiota, estúpida! Pra quê foi falar isso?”

 

A expressão dela mudou de desejo para frustração. Afastou-se rapidamente de mim e virou-se para soltar com um escárnio indisfarçado:

 

-- Não sei como você conseguiu conquistar a Giselle com essa sua cantadinha de cafajeste, mas comigo não vai rolar, se é o que está pensando.

 

Eu até ensaiei uma tentativa de explicação, mas antes que eu conseguisse falar, a porta se abriu e um sujeito, provavelmente o tal Lucas, apareceu.

 

-- Boa noite! Amor, não sabia que tínhamos visita.

 

Ele caminhou até ela e a beijou... Na boca. Fiquei com inveja.

 

“Espera aí, a quem eu tô tentando enganar? Fiquei foi com ciúmes mesmo. Foi como se eu tivesse levado um soco no meio do estômago.”

 

-- Amor, esta é Alice Schultz, minha colega de trabalho. Fernanda não pode me buscar, e ela, gentilmente, se ofereceu pra me trazer. Alice, este é o Lucas, meu namorado.

 

Estendemos as mãos e nos cumprimentamos. Ele falou primeiro:

 

-- Alice, muito prazer. E obrigada por cuidar do meu bebê.

 

“Sério? Bebê? Alguém me consegue um balde pra eu vomitar.”

 

-- Lucas, o prazer é meu. E não há de quê.

 

-- Então, posso acompanhar vocês na cerveja?

 

-- Ah, Lucas, eu adoraria, mas fica pra próxima. Já deu o meu horário. Tenho um compromisso.

 

“É, tenho que procurar um buraco pra enfiar a minha cabeça.”

 

-- Ah, que pena! Vamos marcar outra noite então?

 

-- Claro, eu combino com a Isa.

 

-- Ok, vou aguardar.

 

-- Isa, obrigada pela cerveja.

 

-- Por nada. Obrigada pela carona.

 

-- Relaxa! Sempre que precisar.

 

Nem esperei mais qualquer reação dos dois. Saí em disparada, pouco me importando se minha atitude estava parecendo suspeita. Aquele dia, definitivamente, não estava sendo um dia fácil de administrar. Meus nervos estavam a flor da pele e eu não conseguia tirar aquela mulher irritantemente linda da minha cabeça. Precisava extravasar, mas bebida não ia funcionar. Então, menos de vinte minutos depois, já estava na porta da Giselle. Ela abriu e se surpreendeu.

 

-- Alice? Achei que tinha me dispens...

 

-- Cala a boca, Giselle.

 

Não a deixei falar. Calei a boca dela com um beijo quase desesperado. Arranquei suas roupas e transei com ela ali mesmo, no chão da sala, de olhos bem fechados, pensando em... Outra.

 

 

 

“Ok, eu admito. Não me meto em encrenca. Eu sou a própria encrenca. ”

Notas finais:

Então, contem o que acharam do capítulo. Alice é uma cafajeste de primeira, né?

 

E enquanto esperam o próximo capítulo, caso ainda não tenham lido, que tal darem uma conferida em Amor… E Outros Dilemas ???

É a minha primeira história publicada e já está completíssima.

 

Ah, só mais uma coisa: quem tiver interesse em compartilhar dicas de filmes, livros, séries ou qualquer outro tipo de conteúdo relativo ao universo lésbico, convido a curtir a página e se juntar ao grupo do CulturaLes, acessando os links abaixo:

 

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Abraços e até terça!!!

 

 

Capitulo 7 - Crazy In Love por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){

                var Capítulo = 7;

  var Título = “Crazy In Love”;

                var POV = “Isabella”;

};

 

“Such a funny thing for me to try to explain how I'm feeling, and my pride is the one to blame, 'cuz I know I don't understand just how your love can do what no one else can.”

 

 Crazy In Love (Beyonce, 2003)

 

“Eu não sou lésbica, eu não sou lésbica, eu não sou lésbica...”

Foi o que eu comecei a repetir mentalmente para ver se conseguia convencer a mim mesma disso. Não fazia o menor sentido, porque, de fato, não sou e nunca fui lésbica. Nunca senti atração por mulher nenhuma... Aliás, pensando melhor, nunca senti atração por ninguém, além do Lucas, claro. Pelo menos não aquela atração instantânea, aquela que vem só de olhar para a pessoa e faz todos os pelos do corpo se eriçarem... Aquela que faz as pernas ficarem bambas e o coração acelerar... Aquela que faz a garganta secar e a respiração descompassar... Aquela que te deixa com água na boca e com vontade de beijar... Aquela que eu estava sentindo naquele instante pela dona do par de olhos azuis mais intensos do universo.

 

“Espera... Nunca senti isso nem pelo Lucas. Merda! Será? Não, não pode ser e não é. Vou repetir quantas vezes precisar até convencer meu corpo disso. Eu não sou lésbica.”

Quando o elevador deu o solavanco e parou, eu fiquei desesperada. Completamente tomada pelo medo, deixei que meu instinto me guiasse e me joguei nos braços de Alice, que me recebeu de forma tão calorosa que cheguei a esquecer o medo por um breve instante. Senti o abraço apertar e o cheiro dela me invadir. Naquele instante eu não sabia mais o motivo do meu corpo tremer. Fiquei alucinada. Ela afastou nossos corpos e me perguntou se estava tudo bem, foi quando a realidade pesou e lembrei que estávamos em um elevador parado que poderia despencar a qualquer momento do vigésimo andar ou então nos matar sufocadas. A breve excitação que senti deu lugar ao desespero novamente e mais uma vez naquele mesmo dia eu estava tendo um ataque de pânico. Alice pareceu perceber e foi tão gentil, tão doce, tão delicada em tentar me acalmar que me deixou sinceramente comovida. A melhor maneira que encontrei de agradecê-la por me ter salvado de duas crises no mesmo dia foi convidá-la para subir e tomar uma bebida. Ela aceitou e, de repente, estava ali na minha sala, cara a cara comigo, devorando-me com aquele olhar faminto, tirando de mim qualquer controle que eu tinha sobre o meu corpo. Se bem que eu nem podia reclamar, pois fui eu quem a provocou quando a questionei sobre o relacionamento dela com a Giselle. Aquilo não era da minha conta, mas eu estava absolutamente tomada pela curiosidade desde a hora em que flagrei as duas juntas. Mesmo assim não passava pela minha cabeça perguntar a ela de forma tão direta. Quando percebi, as palavras já haviam saído da minha boca e ela já estava a centímetros de mim, enquanto nós debatíamos sua vida sexual. O olhar dela sobre a minha boca não deixava dúvidas sobre suas intenções. Eu cheguei a sentir o beijo iminente, inclusive entreabri os lábios para receber os dela, mas não... Aquilo era errado de muitas maneiras. Eu era comprometida, meu namorado poderia chegar a qualquer momento, ela era minha colega de trabalho e... Bem... Era uma mulher.

 

“O quê? Não, eu não sou preconceituosa, só não sou lésbica. Ah, se eu não sou lésbica, por que uma mulher está me deixando excitada? Você já viu a Alice? Acho que até um cubo de gelo ficaria excitado olhando para aquela mulher. Acho que até ela mesma fica excitada se olhando no espelho. Ela tem o tipo de beleza que você acha que só vai ver no cinema ou na televisão. É desconcertante encarar tanta beleza de frente. E além de linda, ela tem todo aquele porte, aquela atitude... Aqueles olhos... Ela é imponente, sabe? Natural ficar admirada, mas isso não faz de mim uma lésbica.”

 

A despeito da vontade alucinante que eu estava sentido de ser tomada por ela e descobrir o sabor daquela boca rosada, resgatei um fio de lucidez e interrompi o clima, perguntando se era hábito dela fazer sexo casual com as colegas de trabalho. Não sei se fiquei frustrada ou feliz com a resposta cafajeste que recebi:

 

-- Não. Só com as lindas como você.

 

Frustrada por meu desejo não ter se materializado e feliz pelo mesmo motivo. Entretanto, o que senti mesmo foi um balde de água fria sendo jogado em minha cabeça, pois aquela resposta arrancou de mim qualquer vontade de seguir adiante com aquela loucura. Não consegui controlar o tom de escárnio na minha voz quando me afastei e disse a ela, em outras palavras, que aquele joguinho podia ter funcionado com a Giselle, mas não funcionaria comigo. Acho que ela se arrependeu no exato momento em que falou, pois virou-se para mim com um olhar tão desesperado que se eu não estivesse tão frustrada, teria rido. Abriu e fechou a boca várias vezes, como se tentasse falar algo, mas antes de conseguir dizer qualquer coisa, Lucas chegou. Meu coração quase parou com o susto e com a possibilidade de ter sido flagrada por ele naquela cena maluca de instantes atrás, mas incrivelmente consegui agir com naturalidade. Alice não. Apresentei os dois, que se cumprimentaram e conversaram rapidamente, e em seguida ela saiu apressada, usando qualquer desculpa. Sequer esperou que eu a acompanhasse até a porta.

 

“Deus, o que tá havendo comigo?”

 

Eu nunca havia parado para pensar sobre a maneira como as pessoas me atraíam. Lucas foi o meu único namorado de verdade. Antes dele, tive pequenos affairs com garotos da escola, mas nada que passasse de alguns beijinhos ou amassos. Sempre fui muito nerd, a melhor da turma, e essa era a minha principal preocupação na época do colégio: ser a melhor. Isso me rendeu até uma fama de metida. Alguns meninos até se aproximavam, cantavam, convidavam para sair, mas eu raramente aceitava.  As vezes que cedi foram quase sempre motivadas por Fernanda, que insistia que eu devia parar de me cobrar tanto e curtir um pouco a adolescência. O Lucas não foi muito diferente dos outros. Sabia que ele era o garoto mais cobiçado da escola toda, mas mesmo assim eu nunca me interessei. Foi só quando ele deu em cima de mim que finalmente algo se acendeu. Foi ele o primeiro e o único a conseguir fazer meu coração acelerar e eu me sentir apaixonada. Talvez por isso eu tenha decidido que ele seria o homem da minha vida. E com ele fui feliz por muito tempo. Não que eu não fosse mais, mas as coisas estavam desgastadas entre nós, principalmente depois da traição. Sem contar que ele não dava uma dentro e, por mais que eu tentasse defendê-lo para meus pais e Fernanda, sabia que eles tinham razão. Nossas discussões aumentavam a cada dia e na mesma medida o sexo diminuía. Eu tentava o tempo todo me convencer de que era uma fase, mas a verdade era que tudo estava ficando cada vez mais difícil entre nós. A última havia sido a batida no meu carro, que me deixou furiosa e me trouxe um prejuízo de proporções homéricas. Eu já não tinha mais a menor paciência com ele, que, ao contrário de mim, parecia ser o mais apaixonado e dedicado namorado de todos. Isso, às vezes, fazia com que eu me sentisse muito culpada pela forma com que eu estava tratando-o, afinal, não era possível que ele fizesse as burradas que fazia por mal. Ele era só um meninão que precisava amadurecer, mas que me amava muito, e eu também o amava e não cogitava a possibilidade de ficarmos longe um do outro. Separação era algo impensável, por isso, eu havia decidido me esforçar para mudar a minha atitude, mas nem sempre eu conseguia.

 

-- Tá tudo bem com ela? Parecia meio... Sei lá... Nervosa.

 

-- T... Tá sim. Ela... Ela tinha um compromisso. Estava atrasada.

 

Respondi meio nervosa.

 

-- Que linda que ela é, né? Parece aquelas atrizes de cinema...

 

-- Ficou interessado? Quer o telefone dela?

 

Respondi sem pensar, usando um tom absolutamente rude. O que deve ter soado muito estranho para Lucas, porque nunca fui ciumenta. Ainda mais diante de um comentário tão trivial e pertinente daqueles, porque Alice era, de fato, lindíssima. Nem eu mesma entendi meu tom e o que me incomodou de fato.

 

-- Ei... Calma aí! Que novidade é essa agora de ciúmes?

 

Ele me perguntou incrédulo, com um sorriso no rosto. Acho que estava satisfeito, pensando que eu estava com ciúmes. Puxou-me para os seus braços e encaixou a boca no meu pescoço, mas... Não me acendeu. Ao contrário, senti uma vontade enorme de me desvencilhar daquele contato, mas me mantive. Abracei-o de volta e recebi o carinho sem muita vontade. Trocamos um beijo morno que logo foi ficando mais intenso. As mãos dele começaram a passear pelo meu corpo e... Fiquei incomodada. Precisava sair daquela situação, mas sem deixar que ele percebesse a minha falta de vontade.

 

-- Amor, tive um dia cheio. Tô com os nervos à flor da pele, quase fui atropelada, tive um ataque de pânico...

 

-- Quê?

 

Funcionou. Ele se afastou e me perguntou com olhos assustados:

 

-- Atropelada? Ataque de pânico? Que história é essa, Isa?

 

-- Calma, já tá tudo bem. Senta aí que vou te contar tudo.

 

Sentamos no sofá e, como era de praxe, acomodei minhas pernas sobre as dele, que imediatamente começou a massageá-las. Aquele sim era um carinho bem-vindo. Fiz um resumo dos fatos ocorridos naquele dia e ele ouviu tudo com atenção. Ficou bastante assustado com o fato de eu ter tido uma crise depois de tanto tempo.

 

-- Puxa vida, amor. Eu sinto muito que tenha passado por tudo isso.

 

-- É bom que sinta mesmo, pois tudo só aconteceu porque eu estava sem carro.

 

“Ai, que droga! Vivo prometendo que não vou jogar as coisas na cara dele, mas quando vejo já fiz. Merda!”

 

Ele se chateou. Largou minhas pernas e se levantou do sofá para ficar andando de um lado para o outro da sala. Eu poderia ter me desculpado... Na verdade eu queria ter feito isso, mas não fiz. Fiquei calada, esperando o que ele ia dizer.

 

-- Já disse que vou pagar o prejuízo, não disse? Já pedi desculpas, não pedi? O que mais você quer que eu faça?

 

Sim, ele disse que ia pagar o prejuízo, mas não tinha como fazer isso. De onde tiraria dinheiro? E sim, ele pediu desculpas, mas desculpas não iam fazer o carro se materializar.

 

-- A questão não é o prejuízo financeiro, Lucas. O problema é eu ter que ficar pedindo carona para um e para outro até a seguradora resolver liberar o carro reserva ou o meu ficar pronto. A questão é você parar de ser inconsequente e achar que seus atos irresponsáveis não geram transtornos nas vidas de outras pessoas...

 

-- Chega, Isa. Tô cansado de você jogando essas coisas na minha cara. Fugi mais cedo do ensaio porque estava todo empolgado pra ver você e saber como foi o seu primeiro dia, daí chego aqui e sou recebido dessa forma.

 

-- Ai, Lucas, não se faz de vítima, porque você não é. Não tente virar o jogo.

 

-- Quer saber? Eu devia ter ficado no meu ensaio.

 

-- Você veio mais cedo porque quis. Não pedi isso.

 

“Cara, como eu sou estúpida. E pior, mesmo tendo consciência disso, não consigo fazer nada a respeito.”

 

-- Ok, Isa. Tem razão. Vim mais cedo porque quis, porque sou um idiota apaixonado que fica correndo atrás de você feito um cachorrinho, mas que só leva patada. Vou voltar pra lá. É o melhor que faço. Tchau.

 

E sem dizer mais nada, saiu batendo porta. Eu estava chateada comigo mesma por tê-lo tratado daquela forma, mas foi impressionante constatar o alívio que senti em ficar sozinha. Não queria ter que conversar com ele ou encontrar formas de me desvencilhar de suas investidas. Só queria tomar um banho, comer alguma coisa e deitar, talvez ler um pouco, até apagar. E assim o fiz, exceto a parte de ler. Bem que tentei, mas não consegui me concentrar, pois, na minha cabeça, a imagem daquela mulher linda era predominante. Começou com a lembrança daquele comentário cafajeste que ela fez, mas rapidamente aquilo se apagou. Involuntariamente comecei a imaginar como teria sido aquele beijo que não se concretizou. Meu corpo chegou a arder só com a lembrança. Senti meu sexo contrair forte e imediatamente lembrei que nem os beijos e as carícias mais quentes do Lucas tinham o poder de me deixar tão excitada. Minha imaginação ganhou asas e adormeci pensando nela. Comecei a sonhar. No sonho, estávamos na sala e o beijo se concretizava. A boca tão macia, a língua quente explorando a minha boca com tanta perícia. Meu corpo foi suspenso e me senti sendo carregada no colo até o sofá. No caminho, afundei meu rosto no pescoço dela e aspirei forte o cheiro alucinante que ela exalava. Mordi, chupei, passei os lábios em toda a extensão daquele pescoço comprido. Senti meu corpo sendo acomodado delicadamente no sofá e quando vi, já estávamos nuas. Ela estava sobre mim e me encarava com toda aquela intensidade azul. Senti minha alma sendo invadida por aqueles olhos lindos. Mais uma vez nos beijamos com sofreguidão. Um beijo desesperado, molhado, delicioso. As mãos dela começaram a percorrer meu corpo. Agarraram e acariciaram os meus seios e depois uma desceu até meu sexo, que já aguardava ansiosamente o contato. Ela soltou minha boca e desceu até o seio livre. Abocanhou, primeiro com delicadeza, mas aos poucos foi dando mais intensidade à carícia. Senti um par de dedos longos me penetrar com vontade e imediatamente todo o meu corpo convulsionou. Acho que gritei, não sei se só no sonho ou se de verdade. Impressionante era ter consciência de que era um sonho. Ela começou a movimentar os dedos dentro de mim. Devagar... Devagar... E então foi acelerando. Meu corpo ardia, tremia, suava... O prazer era alucinante e só aumentava mais e mais... Até que eu explodi em um orgasmo surreal. Acordei ainda com o corpo tremendo e me sentei imediatamente. O coração a mil, a respiração descompassada e o corpo encharcado... De suor... De prazer... Sorri sem querer. Olhei para o lado e ainda estava sozinha. Alívio. Joguei o corpo para traz e me permiti apreciar aquele momento sem me julgar.

 

-- Ela me fez gozar sem sequer me tocar... Sem sequer estar presente. Que mulher é essa? Garota, você está me fazendo parecer uma louca.

 

 

 

 

Notas finais:

 

Capitulo 8 - Animals por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){

 

                var Capítulo = 8;

 

  var Título = “Animals”;

 

                var POV = “Alice”;

 

 

 

“You're like a drug that's killing me. I cut you out entirely,

 

but I get so high when I'm inside you. ”

 

 

 

Animals (Maroon 5, 2014)

 

 

 

-- Para de rir, seu idiota. O assunto é sério.

 

-- É que... É que...

 

Pedro não conseguia falar, as gargalhadas não deixavam. Ele ria da minha cara após ouvir em detalhes o meu relato sobre as presepadas do dia anterior. Estávamos na padaria em frente ao prédio da empresa. Tomávamos café da manhã lá todos os dias antes do trabalho. Naquele dia propositalmente havia pedido a ele que chegasse mais cedo, pois estava precisando botar para fora toda aquela tensão, desabafar com alguém para ver se eu conseguia extirpar todos os sentimentos malucos e confusos de dentro de mim. Contei sobre Isa, cada detalhe de como ela me tirou do sério o dia inteiro, como eu quase a beijei e como eu estraguei tudo com o meu comentário cafajeste. Depois falei que estava com tanta vontade dela quase a ponto de explodir e por isso fui procurar Giselle, que não entendeu nada, mas percebeu que eu não estava no meu normal. Acho que nunca transamos com tanta intensidade, mas mal sabia ela que estava sendo usada da forma mais vil possível. Quando terminamos, senti um peso nos ombros. Uma culpa. Não tinha o direito de ter feito aquilo, pior ainda quando a minha intenção antes era fazer justamente o contrário, terminar o nosso rolo. Para completar, quando terminei, levantei, vesti a roupa e saí, mas não sem antes termos uma pequena discussão por eu não querer ficar para dormir. Eu nem conseguia olhar na cara dela. Era como se eu a encarasse, ela pudesse ver em mim o real motivo de estar ali e não queria deixar as coisas mais complicadas do que já estavam, então, praticamente fugi de lá, deixando-a sem entender absolutamente nada.

 

“Lembra daquela parada sobre o ponteiro da índole, lá no capítulo 2? Pois é, se o meu estava no meio termo, ele agora certamente estava todo virado para o lado ruim.”

 

-- Pedro, é sério. Seja útil uma vez na vida e assuma o seu papel de amigo. Eu tô desesperada, fala alguma coisa pra me ajudar.

 

-- Tá bom, tá bom...

 

Respondeu ainda tentando se controlar. Deu mais uma risada e passou a mão no rosto para tentar se recompor. Respirou fundo e adotou uma postura séria, antes de falar:

 

-- Alice, brother, tu tá fodida.

 

-- Babaca!

 

“Por que eu estava esperando algo melhor vindo dele? Era só o Pedro. Acho que ele sequer já beijou na boca alguma vez na vida.”

 

-- Wow... Sem ofender, tá? – Ele já estava rindo de novo. – O que quer que eu diga? Como é que pretende se livrar da demônia procurando por ela pra aliviar as tuas tensões sexuais com a novatinha gostosa? Se fodeu, velho. Tá fodida. Se ela já não queria largar do teu pé antes, mesmo com o gelo que estava recebendo, agora vai virar chiclete. E digo mais: cuidado pra ela não perceber esse teu tesão incubado pela outra, viu? Capaz dela jogar uma maldição pra que as dez pragas do Egito caiam sobre a garota. Tadinha, já tô até com dó.

 

-- Tua sutileza me comove.

 

-- Quem fez pacto com o diabo foi você... E pior, ainda renovou o contrato.

 

-- Inferno! Eu deveria ser interditada, só faço merda. Pedro, me interdita? Sério, eu não posso viver em sociedade. Só me meto em presepada. Em um dia... Em um único dia, consegui queimar meu filme com três mulheres.

 

Sim, três: primeiro a Milena/Mirela, depois a minha Isa dos olhos de mel e, por último, Giselle, a quem o Pedro batizou carinhosamente de Demônia.

 

-- Verdade. Se você tivesse um pau, não seria tão tarada. Mas eu não vou te interditar não. Que graça teria a minha vida se você parasse de fazer merda? Ouvir tuas histórias é o meu maior entretenimento.

 

E começou a gargalhar de novo. Amassei alguns guardanapos de papel e atirei nele enquanto xingava:

 

-- Idiota, babaca, estúpido, cretino... Claro que se diverte com as minhas histórias. Tua vida sexual se resume em pegar avatares peitudos no Second Life.

 

Para quem não conhece, o Second Life é um ambiente virtual e tridimensional que simula em alguns aspectos a vida real e social do ser humano. Foi criado em 1999 e desenvolvido em 2003 e é mantido pela empresa Linden Lab. (Fonte: Wikipédia)

 

-- Para o seu governo, eu nem jogo Second Life.

 

-- Pior então. Nem sexo virtual faz.

 

-- Ei, não vire o jogo. Quem tá sendo humilhada e desmoralizada aqui é você.

 

Pedro tinha 28 anos. Era um cara bonitão, mas não percebia isso. O talento dele para conquistar era zero. Ele até tentava, não era tímido para se aproximar e sempre tinha um assunto que prendia a atenção das garotas, mas na hora do arremate, amarelava. Não tinha coragem de tomar iniciativa sequer de beijar. Então, se a garota não fosse muito proativa, tudo acabava na conversa mesmo. Era o típico geek: alto, nem gordo e nem magro, a genética o favoreceu, porque nunca entrou em uma academia, mas tinha os ombros largos e o peitoral cheio. Os cabelos curtos bagunçados, barba aparada e óculos de grau. Só usava calças largas e camisa de super-herói ou banda de rock. Era ótimo, meu melhor amigo. Sabe aquele cara que te acompanharia até o inferno se você chamasse? Era ele. Passávamos horas conversando bobagem ou jogando online. Ele, de fato, havia me alertado inúmeras vezes sobre meu rolo com a Giselle, mas como quando o assunto era sexo, eu não pensava com a cabeça, não dava ouvidos. Então, eu não podia reclamar da dura que ele me deu. Estava coberto de razão.

 

-- Falando sério... Preciso desfazer esse rolo com a Gi, Pedro. Ontem ela ficou uma fera comigo quando eu fui embora. Queria que eu ficasse pra dormir. Foi fogo pra conseguir me livrar dela.

 

-- Já devia ter desfeito... Ou melhor, não devia nem ter começado. E agora, ainda por cima, piorou tudo.

 

-- É, eu sei. Preciso parar de agir por impulso. Mas tá decidido: vou falar com ela hoje ainda.

 

-- Tem ciência de que ela não vai deixar isso barato, né? Pior, sabe que ela vai transformar a tua vida em um inferno dentro da empresa, não sabe? Capaz de sobrar até pra mim.

 

-- Eu nunca prometi nada a ela. Sempre deixei claro que não tínhamos qualquer compromisso. Ela não tem direito de se chatear.

 

-- Alice, às vezes você parece mais homem do que eu. Tua sensibilidade é zero para o sentimento das mulheres, velho. Caralho! Não vê que a demônia é apaixonada por você? Eu não tenho experiência com isso não, mas sei que mulher apaixonada é capaz de qualquer coisa pra conseguir o que quer. E se ela ainda tem o gênio do capeta, essas coisas podem ser maquiavélicas. Cuidado! Tô te avisando mais uma vez pra tomar cuidado com aquele filhote do coisa ruim.

 

-- Eu, hein! Tá assistindo muito filme, Pedrão. Deixa de inventar. É só a Gi. O que ela pode fazer?

 

-- Você não consegue imaginar?

 

-- Não. Até imagino que vá ficar chateada, mas daí a fazer algo contra mim ou contra qualquer pessoa no trabalho para se vingar, não consigo ver isso. Acima de tudo, ela é uma grande profissional.

 

-- Não confie nisso. Ela é profissional sim, mas está com o modo passional ativado. Pessoas passionais são imprevisíveis.

 

Achei aquilo tudo que ele falava um grande absurdo, mas eu pedi o conselho, então tinha que ouvir.

 

-- E o que sugere que eu faça?

 

-- Pra começar, tira o olho da novata. Dois motivos pra isso: um, ela é casada, hétero e tua colega de trabalho, ou seja, treta demais pra uma garota só. Dois, como eu já disse há pouco, se a satanás perceber essa tua atração por ela, vai achar que terminou tudo por causa disso e... Sério, Alice, sério mesmo... Tenho medo de rolar aquele lance de boneco de vodu ou um ritual macabro pra fazer a coitada da Isa acabar perdendo os dentes ou os cabelos...

 

Não aguentei e caí na gargalhada. Pedro tinha uma imaginação muito fértil, provavelmente por causa de todo aquele RPG que jogava. Para quem não sabe, RPG é a sigla inglesa de Role-Playing Game, que em português significa "jogo de interpretação de personagens", é um gênero de videogames. Consiste em um tipo de jogo no qual os jogadores desempenham o papel de um personagem em um cenário fictício. (Fonte: Wikipédia, de novo)

 

-- Tá, primeiro: a Isa não é casada e tenho minhas dúvidas sobre a heterossexualidade dela. Agora, o fato de ser minha colega de trabalho realmente complica as coisas. Mas não se preocupe, porque já desisti da ideia, ainda mais depois de ontem. Nem sei como vou conseguir encará-la hoje. Segundo: não acho que a Giselle, mesmo supostamente apaixonada por mim, seria capaz de fazer algo estúpido. Ela não perderia aquela pose dela por nada.

 

-- Bom, você tá avisada.

 

-- Ok, vou refletir sobre o seu conselho. O que mais sugere, meu mentor?

 

-- Sugiro que acabe logo esse rolo. Hoje ainda, como você mesma disse que ia fazer, antes que acabe fazendo mais merda. Mas leve equipamento de proteção quando for falar com ela. Colete a prova de balas é imprescindível. Escudo, capacete...

 

-- Besta.

 

Caí na gargalhada de novo. Pedro era ótimo.

 

-- E por último, aquieta esse facho, mulher. Parece uma cadelinha no cio. Aprende a controlar essa tua periquita. Vai aprender a pescar ou a tricotar, sei lá.

 

Eu disse que o Pedro era diferente, não disse? Um homem heterossexual normal jamais me daria uma sugestão dessas. Deixar de pegar tanta mulher... Onde já se viu? Mas ele tinha razão, mais uma vez. Eu estava precisando mesmo dar uma desacelerada, até porque eu estava fazendo tanto sexo que já estava perdendo a graça. Nem conseguia mais me divertir de verdade com isso.  Nem mesmo com Giselle, que sempre me acendeu, eu não conseguia mais achar as coisas interessantes. Por isso, concordei com Pedro:

 

-- É, nisso eu concordo com você. Já estava pensando mesmo sobre fazer um voto de castidade. Até pensei em procurar um convento, mas comecei a imaginar como seria pegar uma daquelas noviças dentro de uma capela, daí achei melhor desistir. Não quero tirar ninguém do caminho da luz.

 

Agora era Pedro quem gargalhava e jogava as bolinhas de guardanapo amassado em mim.

 

-- Você é doente, velho. Tarada total.

 

-- Não, sou só uma mulher jovem, em plena forma sexual. Mas falei sério, vou dar um tempo mesmo. Tenho que focar nesse projeto, preciso enfiar a cabeça no trabalho e me concentrar exclusivamente nisso. Então, nada de garotas por um bom tempo.

 

-- Principalmente se uma dessas garotas for a novata de olhos de mel ou a filha das trevas. Promete?

 

-- Prometo. Você agora está diante de uma mulher assexuada.

 

Mentira.

 

-- Jura que não vai ceder à vontade que tá de dar uns pegas na Isa?

 

-- Juro. A vontade nem existe mais. Já passou...

 

Mentira de novo.

 

-- Sério?

 

-- Seríssimo.

 

Mentira deslavada.

 

-- Então eu posso convidá-la pra sentar com a gente?

 

-- Quê?

 

Quase gritei.

 

-- Como assim, ela está aqui?

 

-- Sim, ela acabou de chegar e tá com uma amiga. Vou chamar...

 

-- Quê? Pedro, não... Não...

 

Mas foi tarde demais.

 

-- Isa, aqui... Senta com a gente?

 

“Ok, vamos logo esclarecer as coisas antes que vocês comecem a entender tudo errado. O lance com a Isa é só a novidade. Normal. Vou falar com todas as letras pra que não reste dúvidas: eu não estou apaixonada por ela. Eu não faço essas coisas... Eu não me apaixono. Tá bom, eu assumo que ela me tira do sério, mas isso é porque ela é gata demais, gostosa demais, cheirosa demais e não está disponível. Se estivesse, eu daria em cima, pegaria e depois passava, assim como já aconteceu com várias outras garotas. Como não vou poder fazer isso, ficarei ainda por muito tempo com essa cara de cachorro olhando o frango assar sem poder comê-lo, mas quando me acostumar com a presença dela, passa. Por que eu tô nervosa com a chegada dela? Simples, estou com vergonha por tudo o que aconteceu ontem. Ainda não estava preparada para encará-la. Quer que eu prove? Ela e a amiga se aproximaram da nossa mesa, e eu nem reparei nela, olhei foi pra amiga. Uma ruivinha bem gata, aliás, que usava um... Espera aí, o que a Isa fez no cabelo? Tá diferente de ontem. E esse batom deixou os lábios dela mais volumosos... Não, não, não... Tá rindo da minha cara, né? Ria, vai rindo aí. Mas lembre-se de que quem ri por último, ri melhor. Vou provar pra você como eu posso ser focada quando quero.”

 

-- Bom dia!

 

Ela cumprimentou.

 

“Page cardio, page cardio...”

 

Nota da autora: a expressão “page cardio” é bastante usada no seriado médico Grey’s Anatomy. É a frase que os personagens gritam quando há uma emergência cardíaca.

 

 

 

 

Notas finais:

Coitada da Alice, né, gente? Só faz presepada e está mais perdida do que cego em tiroteio. Como será que ela vai se sair nesse café da manhã?

 

Tinha dito que ia postar o capítulo ontem, mas não deu. Saí e acabei esquecendo de que precisava do notebook para fazer isso. Mais uma vez, mil desculpas. Mas amanhã tem mais. Para compensar a meu atraso no capítulo 7, o capítulo 8 está indo de bônus. Então o 9 sai amanhã normalmente.

 

Meninas, nem tenho como agradecer o ano maravilho que vocês me proporcionaram acompanhando e comentando Amor… e Outros Dilemas e if(true){love}. Espero que o 2018 de vocês seja maravilhoso e que nossa parceria perdure ao longo dele e de outros anos.

 

Grande abraço pra vocês!!!

Capitulo 9 - Cool For The Summer por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){

                var Capítulo= 9;

var Título = “Cool For The Summer”;

                var POV= “Isabella”;

};

 

“Got my mind on your body and your body on my mind
Got a taste for the cherryI just need to take a bite. ”

 

Cool For the Summer (Demi Lovato, 2015)

 

-- Você o quê?

“Isso foi um grito. Não foi uma alteração de voz, foi um grito mesmo. A autora? Fernanda. O motivo? Contei a ela sobre o meu sonho erótico com Alice. Consegue imaginar a cara dela? Tá bom, vou tentar narrar pra você a reação, mas adianto que nada se compara à cena ao vivo.”

Diferente do que eu fiz com o Lucas, para Fernanda eu contei cada detalhe de todas as maluquices que haviam acontecido comigo no dia anterior.  Não escondi nada, um sentimento sequer. Adiantava esconder? Fernanda me conhecia tão bem que dava para afirmar, sem medo, que me conhecia melhor do que eu mesma. Fora que era uma baita de uma curiosa, como qualquer boa geminiana. Eu vivia dizendo que ela estava na profissão errada, que devia ter estudado jornalismo para se tornar uma daquelas repórteres de tabloides que descobrem todas as fofocas mais quentes do mundo dos famosos. Enquanto nos guiava até o meu trabalho, ela ouvia atentamente cada palavra que eu falava. Os enormes olhos verdes estavam arregalados, fixos na rua, mas de vez em quando me dava uma fitada de soslaio. O queixo estava caído. Caiu na hora em que comecei a descrever como me senti no momento em que pus meus olhos em Alice pela primeira vez e permaneceu suspenso, contrariando a tagarelice tão peculiar dela, até que eu finalizei a história, contando sobre o sonho e como ele acabou. Foi aí que o quase desastre aconteceu.

“É isso mesmo que você leu. Em pouco mais de um dia: dois quase acidentes de trânsito, um ataque de pânico e meio, um semi flagra de sexo explícito, um elevador em pane, uma carona, várias discussões, o par de olhos azuis hipnotizantes, milhares de pensamentos inoportunos, um quase beijo, mais uma discussão e um sonho erótico desconcertante com direito a orgasmo e tudo. Tudo ocasionado direta ou indiretamente pela mesma pessoa: Alice. Se tivesse passado um furacão pela cidade entre aqueles dois dias, eu certamente o batizaria de furacão Alice.”

Dava para entender o descontrole momentâneo da Fernanda, pois, até aquele instante, a coisa mais emocionante que eu já tinha narrado para ela sobre a minha vida sexual foi a noite em que Lucas e eu transamos no quarto dos meus pais enquanto eles estavam jantando fora. Aliás, aquela também foi a ocasião em que eu perdi a minha virgindade. Nós tínhamos 18 anos, foi no início do nosso namoro. Já estava enrolando-o fazia certo tempo, dizendo que queria que fosse especial e blá, blá, blá... Mentira. A verdade é que nem de longe eu estava tão empolgada quanto ele e só de pensar no que poderia acontecer, eu entrava instantaneamente em pânico. Meu medo: sentir dor, engravidar, não saber o que fazer, ser descoberta pelos meus pais... Eu tinha uma lista de mais ou menos uns dez metros de coisas que me deixavam apavorada, mas sabia que tinha que acontecer.  Ele queria ir para um motel, mas nem tínhamos carro. Recusei-me a fazer o trajeto de táxi, primeiro porque, como já narrei, eu não ando de táxi, segundo porque com que cara eu ia olhar para o motorista me julgando? E terceiro porque para quem queria uma coisa especial, motel era o lugar menos apropriado, né? Fora que eu não tinha coragem de deitar na cama de um motel, aliás, acho que não tinha coragem de tocar sequer na maçaneta da porta. Na verdade, eu tinha medo de contrair uma DST só de aspirar o ar do quarto. Enfim, para encerrar, nem foi bom. Eu estava tão tensa e tão nervosa que contagiei o Lucas. Logo o Lucas, tão experiente, o rei da escola. No final, ele levou menos de três minutos para chegar lá e eu fiquei a ver navios, porque, como falei que estava sentindo dor, ele ficou tenso e não conseguiu mais levantar. A verdade é que ao invés de me frustrar, aquilo me deixou aliviada. Não queria mais aquela coisa dentro de mim. Só de pensar me dava náuseas. Foi só depois de algum tempo que pegamos o jeito e só então eu consegui, finalmente, ter o meu primeiro orgasmo.

Pois bem, mas voltando à Fernanda e o nosso incidente de trânsito.

-- Fê, eu tive um sonho erótico com ela. Acordei tendo um orgasmo, o corpo todo tremendo, encharcada de suor...

-- Você o quê? – O grito do início.

Estávamos cruzando um semáforo o qual Fernanda não reparou que tinha fechado fração de segundos antes, pois havia acabado de desviar os olhos da via para me encarar assustada. Nisso, ela não viu a mudança do amarelo para o vermelho. Um motoqueiro apressadinho, que ao invés de conferir o próprio sinal que o interditava, olhava para o sinal na via perpendicular, aguardando que ficasse vermelho, antecipou-se ao ver acontecer, antes mesmo que o dele ficasse verde, e avançou na via. Foi tudo muito rápido. Os olhos arregalados de Fernanda não saíram de cima de mim, nem mesmo quando o motoqueiro buzinou forte. Instintivamente, desviei meu olhar do dela e fitei a rua. Quando vi, estávamos a pouco de colidir com o motoqueiro. Gritei:

-- Fernanda, a moto. Freeeeeeia!

Saindo do transe, ela virou rapidamente para a rua a tempo de frear. O motoqueiro também foi muito astuto ao fazer uma manobra radical, quase encostando o joelho no chão para desviar. O carro vinha rápido, por isso, com o freio brusco, giramos na pista. O semáforo da perpendicular ainda demorou alguns segundos para abrir e não deu tempo de nenhum outro veículo avançar a ponto de colidir conosco. De todo modo, quase morri do coração e Fernanda também ficou transtornada. Depois do susto e de conferir se o motoqueiro estava bem, embora estivesse mais puto do que torcedor da seleção brasileira no dia do 7x1 contra a Alemanha, seguimos o nosso caminho.

-- Foi culpa sua. Como me dá uma informação dessas assim, no seco?

Ela esbravejava falsamente. Passado o susto, sabia que estava se divertindo com a minha cara.

-- Aliás, seco não, né, minha filha? Pelo que entendi, você estava era bem molhadinha.

-- Ridícula. Não sei por que te contei isso.

Ela ria e se divertia horrores com a minha cara.

-- Isa, eu sou uma péssima melhor amiga. Como nunca percebi que você é lésbica? Tá tão na cara! Agora tudo está claro.

O tom dela era de indignação consigo mesma. Ela se culpava, balançava a cabeça e ria, incrédula.

-- Quê? Como? Eu... Eu não sou...

Gaguejei. Que absurdo o que ela estava falando. Fui interrompida pela sequência do devaneio em voz alta dela:

-- Claro, você nunca se interessou por meninos. Era fogo pra algum conseguir te levar pra sair. E você não gostar de sexo... Que óbvio, cara! E eu pensando que você era só frígida ou que o miserável do Lucas não sabia fazer o babado direito, mas não. Você não gosta é da fruta. Como deixei isso passar?

Dava conta da minha vida como se fosse um jogador de RPG manipulando um de seus personagens.

A Alice já explicou pra vocês o que é RPG, né?

Pois bem, Fernanda tinha esse terrível defeito: achava que além da vida dela, tinha que viver a minha também, já que eu não o fazia. Palavras dela. Era sempre assim quando eu tinha uma dúvida ou uma decisão importante a tomar. Ela tomava as rédeas da situação, analisava os fatos, ponderava sobre os prós e os contras e no final dava o veredicto. Metida total. Tudo bem que eu quase nunca ia pela cabeça dela e acabava decidindo por mim mesma, mas até que eu gostava daquela preocupação toda. Ela realmente se importava comigo. Só que naquele instante, especificamente, eu estava mesmo era com vontade danada de esganar aquela enxerida sem noção. Onde se já se viu? Eu, lésbica. Absurdo. Quem nunca se excitou com uma situação inusitada? Eu estava certa de que aquele sonho havia sido o bastante para extirpar aquela maluquice toda da minha cabeça.

-- Tá maluca, garota? Você tá ficando doida?

-- Não, na verdade, eu estou no meu mais perfeito normal e ainda arrisco a dizer que nunca enxerguei tão claramente. Você é que tá doida. Doidinha, doidinha... Louquinha pela Alice dos olhos azuis. Ui, ui...

E soltou uma gargalhada. Comecei a estapear os braços dela.

-- Quer que eu bata o carro? Para com isso, sua maluca.

Ela reclamava, mas ainda ria da minha cara, deixando-me cada vez mais enfurecida. Mas tinha razão, meu acesso de raiva poderia ocasionar um acidente e corríamos o risco de não ter a mesma sorte que tivemos no primeiro. Parei e cruzei os braços no meu banco, completamente emburrada.

-- Não devia ter de contado.

-- Ow, sua bocó, para com isso, vai?

-- É sério, Fê. Não tô te contando pra você fazer piada a respeito. Não gostei do que você falou.

-- Não? E o que queria que eu dissesse?

-- Que eu tô maluca, que isso não é certo, que foi só reação a um dia intenso, que não tem dúvidas sobre a minha heterossexualidade...

-- Entendi! Queria que eu mentisse.

-- Fernanda...

-- Isa, meu amor, você sabe que eu te amo, não sabe? Sabe que é a irmã que eu nunca tive, que é meu xodozinho e que me preocupo demais com você. Responde, você tem ciência disso?

-- Sim, tenho.

-- Então, embora eu tenha falado em tom de brincadeira, o teor era sério. Pra mim, agora tudo faz sentido. Pensa só um pouquinho...

-- Fernanda, eu não sou lésbica.

Respondi incisiva.

-- Não é ou não quer ser?

-- Eu não sou. Eu amo o Lucas, eu gosto da vida que nós temos... Estamos passando por uma fase ruim, mas isso não significa que...

-- Isa, isso não tem nada a ver com o Lucas.

-- Como não? Nós somos praticamente casados, moramos juntos e...

-- E nada. Vocês vivem de conformismo. Acho que nem ele gosta mais de você como no início. É só cômodo pra vocês ficarem juntos. Diga-se de passagem, mais cômodo pra ele do que pra você. Para pra pensar, Isa. Quais os planos de vocês para o futuro? Pretendem comprar uma casa, ter filhos, fazer viagem de férias? Vocês têm planos de casal, Isa?

Ela fez uma pausa, mas estava claro que a pergunta era retórica. Fiquei apenas administrando na minha cabeça as informações que recebia, tentando encontrar algum nexo. Continuou:

-- Não tô dizendo que você tá apaixonada por essa Alice aí. Talvez nem tenha dado tempo pra isso, pois nem se conheceram direito. Não digo, muito menos, que ela é a pessoa certa ou errada pra você e se é cafajeste mesmo do jeito que falou, acho até que o melhor é se manter longe. Além do mais é sua colega de trabalho e isso seria muito complicado. Mas uma coisa é fato, amiga: ela despertou em você algo que nem sabia que existia. Olha, eu te conheço melhor do que a mim mesma, Isa. Isso eu garanto. Nunca te vi se sentindo tão mulher na vida. Nunca te vi corar ou falar tão empolgada de alguém. Esse desejo todo pode ser só pela tal da Alice especificamente e pode ser uma coisa passageira ou então você realmente descobriu que estava presa em Nárnia esse tempo todo e agora encontrou a porta do armário para sair e viver no mundo real. Só te digo uma coisa, de todo coração, e espero que ouça sem subir os muros de defesa: não se boicote, não se bloqueie. Certo e errado são duas coisas muito relativas, Isabella. Permita-se. Pare de pensar nas situações e nas outras pessoas e comece a pensar em você. Dê a você a oportunidade de pensar sobre isso, faça uma autoanálise, procure ajuda se precisar, mas não fique se boicotando antes de saber o que se passa de verdade nessa cabecinha dura aí. Eu tô aqui para o que você precisar, sabe disso. Só quero o seu bem e acima de tudo só quero que seja feliz.

Nota da autora: Nárnia é um mundo fantástico criado pelo escritor Irlandês CliveStaples Lewis como local narrativo para As Crônicas de Nárnia, uma série de sete livros. Para entrarem em Nárnia, os personagens do primeiro livro precisam atravessar um armário que serve como portal entre a Terra e o mundo mágico. (Fonte: Wikipédia. Não me julguem. Onde vocês pesquisariam?)

Essa era a minha Fernanda. A criatura mais porra louca e estabanada que eu conhecia na vida, mas também a amiga mais linda e parceira que alguém poderia ter. Por pior que fosse a situação, ela sempre achava um jeito de fazer com que eu me sentisse bem. Fazia-me sentir mais segurança e mais autonomia sobre a minha própria vida, mesmo que na maioria das vezes eu sempre acabasse enfiando os pés pelas mãos. Sobre o Lucas, ela estava certa. Não era a primeira vez que me falava aquilo tudo, mas acho que foi a primeira vez que de fato eu dei ouvidos. Sobre os meus sentimentos recentes pela Alice ou por mulheres em geral, eu já não sabia. Mas ela tinha razão em uma coisa: diante de tudo, não dava para continuar insistindo em me convencer na marra que eu não era lésbica ou pelo menos bissexual. Fato incontestável: realmente nunca havia me sentido tão mulher na vida depois de um orgasmo... E olha que foi só um sonho.

-- Ok.

-- Ok?

-- Sim, ok. O que quer que eu diga a mais?

-- Sei lá... Algo tipo: “Fê, você é a guru do amor. Como vivi esse tempo todo sem seguir os teus conselhos?”

-- Idiota.

Gargalhamos.

-- Só quero que você não se sinta mal com isso. Se descobrir mesmo que gosta de meninas, isso não é o fim do mundo. Já não é há muito tempo, amiga. E tem mais, eu sempre quis ter um amigo gay, então, já que não veio, vou ficar conformada e feliz com uma lésbica.

-- Palhaça! Você não toma jeito, né?

Eu já não tinha mais raiva das coisas que ela falou. Naquele instante, parecia mais natural pensar sobre aquilo tudo.

-- Obrigada, Fê. Vou pensar sobre o que me falou.

-- Promete?

-- Sim, prometo.

-- Chegamos.

-- Tá cedo ainda e sei que você tá adiantada. Deixa eu te pagar o café da manhã pra te agradecer a carona?

-- Não sou tão barata assim, garota. Mas vou aceitar pra abater do débito.

-- Anda, sua ridícula. Estaciona logo essa lata velha.

Estacionamos e caminhamos até a padaria em frente ao prédio da empresa, a mesma que havia tomado café no dia anterior. No caminho, mudamos o foco do assunto. Conversamos algumas amenidades, mas minha cabeça não parava de girar com todos aqueles sentimentos e informações. Era fato que Fernanda tinha razão, mas mesmo assim tudo estava fadado ao desastre de diversas formas. Primeiro de tudo eu não teria coragem de trair o Lucas, embora ele não tivesse tido a mesma consideração por mim. Segundo, Alice, por mais que mexesse comigo e estivesse claramente interessada, já havia deixado nítido que não passava de uma conquistadora em série e, por último, o quão complicado seria me envolver com uma pessoa do meu trabalho? Não, aquilo jamais daria certo. Tudo bem, eu estava disposta a descobrir se havia realmente me bandeado para o lado colorido da força, mas o meu teste não poderia ser com Alice. Ainda nem havia conseguido raciocinar sobre qual seria a minha reação ao revê-la naquele dia, já que além daqueles olhos desconcertantes, agora também vagava pela minha cabeça a imagem dela nua e o sentimento dos beijos e carícias que trocamos no meu sonho. Complicado, muito complicado. Pelo menos eu ainda tinha alguns minutos para me preparar para aquilo... Bem, era o que eu pensava, pois antes mesmo de concluir meu raciocínio, logo que entramos na padaria, avistei Pedro que acenava animado para mim. Não dava para ver o rosto da mulher sentada na frente dele, mas pelo cabelo e pelo porte, estava claro. Era ela.

-- Isa, aqui... Senta com a gente?

-- Quem é aquele?

Fernanda me perguntou curiosa.

-- É o Pedro. Meu colega na empresa.

-- Gatinho, hein? É solteiro?

Aquela era a Fernanda. Não perdia uma oportunidade.

-- Fê, é ela.

-- Quê? Como? Você quer dizer que ele é ela? Digo... Um homem trans? É isso?

Doida. Maluca... Não entendeu nada e eu não tinha forças para explicar. Minhas pernas estavam bambas. Ela virou, meu coração disparou.

-- Anda Isa, fala.

-- Não, sua tonta. A Alice... Tá na mesa com ele.

-- Não acredito.

Ela soltou um ar de espanto e levou as mãos à boca.

-- Vem, vamos lá. Quero conhecer.

-- Não, Fernanda, tá louca...

Mas era tarde demais. Ela já estava me arrastando pelo braço padaria adentro. Nem sei como cheguei naquela mesa, já que eu sequer sentia as minhas pernas. A boca estava seca. Ignorei sem querer a presença de Pedro, pois não consegui desgrudar as vistas dela. Estava mais linda ainda do que no dia anterior. Ela me olhava fixamente, como em todas as outras vezes em que o fez, e eu já estava até me acostumando com aquilo. Pior... Posso até dizer que estava gostando. Sorri sem perceber e cumprimentei:

-- Bom dia!

“Eu quero essa mulher. Quero provar essa cereja... Só preciso dar uma mordida.”

 

 

Capitulo 10 - Quando Você Passa por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static voidMain(){


                var Capítulo= 10;


  var Título = “Quando Você Passa”;


                var POV= “Alice”;


};


 


“Qualquer coisa entre nós vem crescendo pouco a pouco


E já não nos deixa a sós. Isso vai nos deixar loucos.”


 


Quando Você Passa (Sandy e Júnior, 2001)


 


-- ...Então, quando o Jon Snow pensa: “pronto, agora fodeu tudo!”, a Sansa chega com um exército e vira o jogo. Cara, melhor parte. Só de lembrar, eu me arrepio todo.


-- Que nada... isso foi fichinha diante da Arya Stark detonando a casa Frey inteira de uma vez só. E a morte do Mindinho? Tô te falando: o Jon Snow tem muito o que aprender com a Arya.


“Não, você não está lendo a história errada. Esses aí são Pedro e Fernanda, que acabaram de descobrir que são alma gêmeas.”


Começou assim:


-- Pessoal, esta é Fernanda, minha amiga. Fernanda, esses são Pedro e Alice, meus colegas de trabalho.


Então a tal Fernanda, muito provavelmente porque reparou na camisa do Game Of Thrones que o Pedro usava, ao invés de nos cumprimentar, falou em alto valiriano:


-- Valar Morghulis.


Olhei para o Pedro no exato momento em que as pupilas dele se dilataram. Pronto, ele estava perdidamente apaixonado. Respondeu orgulhoso, impondo um tom de voz mais forte:


-- Valar Dohaeris.


“Não preciso explicar o que é Game Of Thrones, né? Acho que todo mundo conhece. É aquela série que foi baseada nos livros de George RR Martin, As Crônicas de Gelo e Fogo. Aquela que tem um trono de ferro e todo mundo fica se matando pra sentar nele. É, eu sei, não faz o menor sentido mesmo. Fosse ao menos aquelas cadeiras que massageiam as costas... mas um trono de ferro? Só de pensar a minha bunda já fica quadrada. Enfim, Pedro é louco nessa série e aparentemente a ruivinha de olhos verdes amiga da Isa também. Para mais informações sobre a série, visite o site da Wikipédia.”


Isa nos apresentou rapidamente. A tal Fernanda era bem gata e muito simpática. Falava pelos cotovelos, mas mesmo com ela fazendo de tudo para se tornar o centro das atenções na mesa, quem acionou todos os meus sentidos foi Isa, que estava ainda mais linda do que no dia anterior. O cabelo estava diferente, acho que ela modelou as pontas com uma escova pois não estavam tão lisos. Ela estava usando um vestido verde escuro com um decote discreto. Tinha um colar bem delicado caindo sobre o seu busto e precisei me esforçar para desviar o olhar. Linda demais. Eu já estava totalmente acesa.


“Preciso achar algo melhor pra ajudar a desviar os pensamentos promíscuos. Velhas gordas de calçolas não estão mais servindo. Já sei... Donald Trump e Bolsonaro se beijando...”


Na mesa, só se ouvia a voz de Pedro e Fernanda. Nós duas apenas observávamos a interação empolgada dos dois, que pareciam ter esquecido da nossa existência. Algumas vezes fui flagrada olhando para ela, outras vezes fui eu a flagrá-la fazendo o mesmo comigo. Em determinado momento, olhamos ao mesmo tempo. Certeza que eu ruborizei, pois senti o meu rosto arder. Como sou muito branca, isso não passou despercebido. Ela deu um meio sorriso e desviou o olhar. Percebi que bebericava uma xícara de café meio sem vontade e resolvi tentar interagir. Falei baixinho, só para ela, sem interromper o diálogo... Quer dizer, o quase monólogo da matraca ao nosso lado:


-- Não vai comer?


Ela me olhou surpresa. Acho que não esperava a minha abordagem.


-- Tô meio sem fome. Até dei uma olhada no cardápio pra ver se me animava, mas nada me agradou.


-- Já provou o croissant de queijo daqui?


-- Não. Não gosto muito de croissant.


-- Entendi.


Não sabia se ela não estava muito para conversa ou se estava com algum problema. Parecia com o pensamento distante. Pensei em não importuná-la mais, mas quando vi, já estava falando de novo.


-- E o sonho?


Imaginei que ela devia odiar sonho de padaria, porque logo que eu perguntei, olhou para mim assustada. Não entendi nada quando ela me perguntou toda enrolada:


-- So... Sonho? Que sonho?


-- Sonho... O sonho daqui da padaria. É uma delícia. Já provou?


-- Ah...


Ela pareceu mais aliviada. Já ia responder, mas a amiga a cortou:


-- Ah, a Isa adora sonhos. Agora há pouco, no carro, ela vinha me contando que provou um delicioso ontem à noite.


Fernanda depositou certa ironia no comentário, mas não entendi o que quis dizer com aquilo. Isa é moreninha, mas deu para ver que corou e tentou disfarçar o constrangimento. Repreendeu a amiga:


-- Fernanda!


Não sabia do que elas estavam brincando, mas decidi me juntar as duas. Instiguei mais o assunto:


-- Sério? E qual era o sabor do recheio?


O olhar dela desviou da amiga para mim, ainda assustada. Quem respondeu mais uma vez foi Fernanda:


-- Era um recheio colorido. Ela não conseguiu identificar o sabor.


Ouvi a resposta de Fernanda, mas me dirigi à Isa quando perguntei:


-- Recheio colorido? Nunca vi. – Falei pensativa. Fiz a cara daquele emoji que tem o cenho franzido e a mão no queixo. – Mas era gostoso ao menos?


-- Si... sim. Foi gostos... Digo... Estava gostoso.


Ri sem querer de seu embaraço, mas não queria deixá-la mais constrangida, apesar de estar absolutamente curiosa para entender o teor da piada óbvia que Fernanda estava fazendo com ela. Tentei trazer o assunto de volta para o sentido literal:


-- Eles servem uns sonhos maravilhosos aqui. Vários recheios. E você pode até misturá-los. É tipo uma sorveteria, só que a casquinha é o sonho e o sorvete é o recheio. Tem até uma vitrine pra você escolher...


-- Hum... Que delícia! Eu quero. Pedro, vamos comigo? Quero montar um com pelo menos uns três sabores.


Nem terminei de falar e já fui interrompida mais uma vez pela Fernanda Faustão, que não deixava ninguém concluir uma frase sem se meter.


“Oh, louco, meu!”


-- Claro, vamos.


“Pelo menos o Pedro não vai precisar ter iniciativa de nada com essa aí.”


Quando os dois saíram, um grande e gordo elefante branco sentou conosco. Eu, sempre tão falante e segura de mim, não fazia ideia do que conversar. Estava nervosa, queria me desculpar pelo meu comportamento na noite anterior, mas estava com muita vergonha e também muito embasbacada com a imagem dela ali, linda, bem na minha frente. Passamos alguns instantes trocando olhares e sorrindo timidamente, até que ela quebrou o silêncio:


-- Não liga pra Fernanda, ela veio ao mundo sem filtro, mas é uma pessoa boa.


Sorri.


-- Não esquenta! Ela é ótima. Muito divertida. Acho que ela e o Pedro se entenderam bem.


-- É, parece que sim.


Sorriu. Linda... Divina... Vontade louca de beijar aquela boca.


“Trump e Bolsonaro se pegando, Trump e Bolsonaro se pegando, Trump e Bolsonaro se pegando... Merda! Também não tá funcionando.”


-- Isa, eu...


-- Alice, eu...


Falamos ao mesmo tempo e nos interrompemos sorrindo ao percebermos.


-- Fala. – Ela disse.


-- Não, pode falar.


-- Por favor, eu faço questão.


Respirei fundo e me preparei para me desculpar. Precisava fazer isso, senão não conseguiria passar o dia ao lado dela.


-- Isa, eu quero me desculpar pelo meu comportamento de ontem. Não queria te desrespeitar ou invadir o teu espaço... Eu... Eu... Olha, eu não pego todo mundo do trabalho, tá? Tem esse rolo com a Giselle mesmo, mas nunca me envolvi com mais ninguém da empresa... E nem com ela mais, também... As coisas entre nós não estão mais funcionando.


-- Alice, eu que quero me desculpar. Não tenho nada a ver com a sua vida e não tinha o direito de ter feito aquelas perguntas, muito menos de falar com você daquele jeito. Não queria ter te constrangido. Você foi tão legal comigo ontem e eu toda grosseira pro teu lado o tempo todo... É só que... Meu dia foi meio maluco, e eu estava uma pilha... Daí teve aquilo tudo e...


Ela desembestou a falar e já estava ficando nervosa. Fiquei com medo de que tivesse outra crise e interrompi:


-- Ei, calma... Calma. Respira... Relaxa...


-- Não, é que...


“Doidinha! Linda, mas é doidinha, doidinha. Fica nervosa tão fácil!”


Ela queria continuar, mas não deixei. Segurei as mãos dela por cima da mesa e as apertei em um gesto carinhoso. Calou-se imediatamente.


“Tá pensando que eu já estava querendo me aproveitar, né? Menos, viu? Também não sou tão tarada assim. Realmente só queria passar segurança... Mas a mão dela estava tão quentinha! Me arrepiei toda com o contato.”


-- Isa, não esquenta. Vamos esquecer?


-- Esquecer?


-- Vamos fazer assim: você me desculpa, eu te desculpo e começamos tudo do zero hoje. O que acha?


Ela sorriu. Estava decidido: o sorriso dela me arrebatava. Eu queria muito cumprir minhas promessas para Pedro, mas sabia que ia ter um trabalhão para fazer aquilo.


-- Parece bom pra mim.


Foi minha vez de sorrir. Com muito esforço, larguei a mão dela.


-- Combinado então. Amigas?


-- Amigas.


Selamos nosso trato com um aperto de mão. Tudo bem que o que eu queria mesmo era levá-la até o expositor dos recheios dos sonhos e consumir todos eles sobre o corpo dela, mas por hora me conformei em mantermos uma relação amigável, principalmente porque tínhamos muito trabalho a fazer juntas.


O futuro casal voltou para a mesa. Fernanda comia um sonho de três andares enquanto Pedro tirava sarro da cara dela. Isa e eu estávamos mais relaxadas e até entramos na brincadeira. Conversamos algumas amenidades e Pedro teve a brilhante ideia de marcar uma happy hour para nós quatro na sexta.


“Obrigada, Pedro! Eu aqui tentando não pensar na garota e você forçando encontros fora do trabalho.”


Isa não deu resposta, mas a papagaia aceitou pelas duas. Tentei facilitar as coisas para mim:


-- Chama o Lucas, Isa. Pra gente tomar aquela cerveja que eu não pude aceitar ontem.


“É, eu sei. Tô desesperada. Cara, é sério... É tudo o que eu mais quero, mas não posso me envolver com essa mulher. Já pensou na treta? Confesso que tô com inveja do Pedro e da Fernanda por não precisarem se preocupar com nada. Eu não tenho como me dar esse luxo. Convidei o namorado dela para tentar me controlar e não fazer besteira, mas na mesma hora que o fiz, imaginei os dois juntos e senti de novo aquele soco no estômago. Eureeeka... Achei algo que me faça brochar quando estiver pensando nela. Lucas, Lucas, Lucas...”


-- Ah, obrigada, mas ele não vai poder. Vai estar tocando fora da cidade.


“Oremos! Já tinha me arrependido mesmo de chamar.”


-- Fica pra próxima então.


Sorrimos. Percebi Fernanda e Pedro nos olhando com uma cara de “sei...” e desviei o olhar. O elefante branco sentou novamente entre nós, só que daquela vez, bem no meio da mesa. Mas ele não contava com a presença da Fernanda Stormtongue, da casa Targarelys, a não calada, quebradora de gelo, rainha da intromissão e dos “blá, blá, blás”. Foi ela quem desfez o silêncio:


Nota da autora: a brincadeira com o nome da Fernanda foi referência a apresentação da personagem Daenerys Targaryen, de Game Of Thrones.


-- Alice, obrigada por ter quebrado o meu galho ontem, levando a Isinha pra casa. Acabei me enrolando lá na loja. Essa época de final de ano é fogo.


-- Não esquenta, não foi trabalho nenhum. Ela mora pertinho da minha casa. É caminho, aliás.


-- Sério? Que ótimo! Então você pode deixá-la hoje de novo? Sério, porque é quase natal e fica difícil sair da loja antes das 22h...


-- Fernanda!


Isa nem deixou que ela continuasse. Completamente constrangida, cortou a amiga. Continuou:


-- Alice, não vou te incomodar com isso. – E virou-se para Fernanda. – Fê, não precisa se preocupar. Sei como tá o movimento na loja e já tinha decidido alugar um carro. A seguradora não quer me dar um reserva porque é o segundo acionamento só esse ano, mas prometeu aprontar o meu até o final de semana. Na hora do almoço eu resolvo isso e...


“Será que ela dirige mal? Dois acidentes em um ano só!”


Agora foi a minha vez de interromper:


-- Imagina, Isa, é meu caminho. Não precisa ter esse gasto, é desnecessário. Além do mais, é só até o final de semana. Posso te levar todos os dias, se quiser.


“Sim, mas antes eu preciso mandar instalar um dispositivo no banco do motorista que dê choque caso eu tire as mãos do volante.”


-- Não. Você deve ter seus compromissos e...


-- Sem compromissos. Meus compromissos desta semana são todos relacionados a trabalho, exceto a nossa happy hour de sexta, mas você vai junto, então...


-- Viu, Isa? Larga de ser boba, mulher. A Alice não se incomoda não, né, Alice?


-- Claro que não.


Respondi. Isa parecia tentar esconder a revolta que estava da amiga, que abria um sorriso frouxo e trocava olhares cúmplices com Pedro.


“Será que esses dois pilantras estão aprontando pra gente?”


Resignada, Isa perguntou diretamente a mim:


-- Tem certeza, Alice? Não quero mesmo te atrapalhar e...


-- Certeza absoluta. Faço questão de te levar.


-- Ok, então, obrigada!


Não respondi. Apenas sorri.


“Será que tô com cara de boba?”


E assim ficou combinado. Já estava dando a nossa hora e Isa se apressou em ir para a empresa. Pagamos a conta, Pedro e eu não deixamos as duas pagarem. Sim, somos dois perfeitos cavalheiros. Ainda acompanhamos a tagarela até o carro, que durante todo o caminho ficou falando sobre o movimento no shopping, o valor do câmbio, os novos lançamentos da Netflix, o clima, a globalização, o aumento no preço da gasolina, o concurso de miss universo, a paz mundial...


Começamos o nosso dia de trabalho em uma reunião com Leandro, meu amigo e dono da empresa. Falamos sobre nossos cronogramas e sobre a apresentação do novo projeto. Isa e eu fomos informadas que em quinze dias teríamos que embarcar para o Rio de Janeiro já com o projeto em mãos para apresentarmos aos clientes. Isa pareceu meio assustada com a informação, mas nada disse. Eu fiquei nervosa com a possibilidade de ficar sozinha com ela durante três dias. Não ia ser fácil. Saindo da reunião, fui procurar no mercado livre para ver se encontrava calcinhas térmicas, pois ia precisar de uma que mantivesse os meus países baixos resfriados durante essa viagem. Não achei. Quase chorei de desespero. Precisaria encontrar outro método.


Não vi a Giselle durante toda a manhã, mas por volta das 11h enviei um WhatsApp dizendo que queria almoçar com ela. A ideia era conversarmos a noite, mas eu havia me tornado recentemente a mais nova motorista particular da jovem Isabella Ferreira. Tarefa que aceitei de muito bom grado, embora soubesse a treta na qual estava me metendo. Giselle me respondeu alguns minutos depois, confirmando o nosso almoço. No horário marcado, nos encontramos no restaurante. Não saímos juntas para evitar os comentários, embora soubéssemos que todos falavam mesmo assim. Sentamos e fizemos os pedidos. Assim que o garçom se afastou, ela logo soltou um:


-- Tô morrendo de saudade. Ontem não deu nem pra começar.


“Merda! Isso vai ser muito mais difícil do que pensei, mas tenho que fazer.”


-- Giselle, a gente precisa conversar.


               


 


 

Notas finais:

E então, gostaram do capítulo surpresa?

 

Quero compensa-las pela minha falta da semana passada, para ver se me perdoam mais rápido.

 

Contem o que acharam, por favor;

 

Abraços!

Capitulo 11 - Quando Você Passa (Parte II) por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){


                var Capítulo= 11;


  var Título = “Quando você Passa – Parte 2”;


                varPOV= “Isabella”;


};


 


“Meu olhar decora cada movimento e até o teu sorriso me deixa sem graça.”


 


Quando Você Passa (Sandy e Júnior, 2001)


 


“Já ouviram aquela expressão: ‘tô virada no Jiraya’? É o mesmo que dizer: ‘tô furiosa’, ‘tô P da vida’, ‘tô explodindo de raiva’... Ou então, como boa cearense que sou, ‘tô fumando numa quenga’. Se eu fosse o Bruce Banner, naquele exato momento, teria me transformado no Hulk e esmagado a Fernanda. Cara, só estava faltando ela olhar para a Alice e dizer: ‘Alice, dá um trato nessa mulher porque ela tá desesperada’. Nunca me senti tão vendida na vida. Ela parecia a minha cafetina.”


Tudo começou quando ela, Fernanda, e Pedro descobriram algo incomum entre eles: a paixão por Game of Thrones. Os dois desembestaram a falar como duas matracas sobre a série, e Alice e eu ficamos só observando. Eu também amava a série e em outro momento até teria entrado na conversa, mas estava muito tensa com aquele par de olhos azuis me analisando de forma incansável. Não conseguia pensar em nada que não fosse a presença dela ali e as lembranças do dia anterior. Eu estava, ao mesmo tempo, excitada e constrangida, e podia jurar que ela estava percebendo isso, pois me sentia invadida. Sei que ela não tinha como ler os meus pensamentos, mas era como se pudesse. Por um instante, achei que estivesse mesmo, porque, olha o que ela me perguntou:


-- E o sonho?


Quase dei um pulo da cadeira.


“Como ela sabe do sonho? Não pode ser, não pode ser...”


Eu estava tão nervosa que não associei esta pergunta à anterior. Primeiro ela já tinha me questionado sobre o croissant que serviam na padaria. Eu neguei, ela fez uma pausa e depois perguntou sobre o sonho, mas era o sonho que o estabelecimento servia.


“Sonho de comer... Não de ser comida, sua tonta!”


Só que antes de concluir isso, perguntei toda enrolada:


-- So... Sonho? Que sonho?


-- Sonho... O sonho daqui da padaria. É uma delícia. Já provou?


-- Ah...


“Prazer! Meu nome é anta, e o seu?”


Minha cara de alívio deve ter sido nítida. Estava apenas esperando alguns segundos para minha voz voltar e já ia responder, só que a intrometida da minha melhor amiga decidiu sair do diálogo super empolgante que estava tendo com o Pedro para fazer o que mais gostava na vida: me constranger.


-- Ah, a Isa adora sonhos. Agora a pouco, no carro, ela vinha me contando que provou um delicioso ontem à noite.


Eu tinha certeza que o melhor remédio para tirar Fernanda de um coma após um traumatismo craniano era começar a contar algum babado forte ao lado do leito dela no hospital. Estar certa disso foi o que me deu confiança para procurar algo com que pudesse acertar sua cabeça ali mesmo, na frente de todo mundo. Depois, quando estivéssemos no hospital, bem longe da Alice, eu contaria alguma fofoca e ela acordaria.


Mas como não consegui encontrar nada para bater, apenas repreendi em um tom firme:


-- Fernanda!


Era melhor não ter dito nada, porque a minha atitude fez Alice olhar confusa para nós duas. Lógico que ela percebeu que não falávamos de um sonho de padaria. Corei na hora e agradeci por ser moreninha, pois assim o rubor ficava mais disfarçado. Após um breve instante de confusão, ela pareceu se divertir com a situação e resolveu se juntar à Fernanda. Com a atenção virada para mim, perguntou:


-- Sério? E qual era o sabor do recheio?


“Recheio: teus dedos; sabor: quero mais. Senhor, eu sou muito lésbica!”


Quase falei. Quase... Porque a enxerida respondeu por mim de novo:


-- Era um recheio colorido. Ela não conseguiu identificar o sabor.


“Vou matar a Fernanda. Vou puxar a língua dela, apoiar em uma pedra e cortar fora com uma faca. Será que tem como as coisas piorarem?”


Alice questionou pensativa:


-- Recheio colorido? Nunca vi. Mas era gostoso ao menos?


“Sim, as coisas podem piorar.”


-- Si... Sim. Foi gostos... Digo... Estava gostoso.


Alice riu do meu embaraço ao respondê-la, mas acho que percebeu o meu desconforto com aquela brincadeira e resolveu parar. Agradeci mentalmente quando ela voltou ao assunto inicial:


-- Eles servem uns sonhos maravilhosos aqui. Vários recheios. E você pode até misturá-los. É tipo uma sorveteria, só que a casquinha é o sonho e o sorvete é o recheio. Tem até uma vitrine pra você escolher...


Nem terminou de falar e já foi interrompida por Fernanda... De novo:


-- Hum... Que delícia! Eu quero. Pedro, vamos comigo? Quero montar um com pelo menos uns três sabores.


“Vade retro, satana!”


-- Claro, vamos.


“Espera, o Pedro ainda estava aqui? Tadinho do garoto. Fernanda vai engoli-lo tão fácil.”


Não sei se a saída dos dois me deixou mais aliviada ou mais tensa. Olhei para Alice e flagrei os olhos azuis me fitando. Sorri de forma involuntária. A cada segundo que passava eu tinha mais certeza de que o que eu estava sentindo não ia ser passageiro, porque quanto mais eu olhava para ela, mas eu a queria. Ela estava ainda mais linda do que no dia anterior. No rosto, uma maquiagem bem leve. Não que ela precisasse de maquiagem para isso, mas a que usava a deixou mais linda ainda. Estava sem o blazer, que repousava sobre as costas da cadeira. Vestia uma blusa branca básica, bem colada no corpo. Deu para ver que era atlética, os braços torneados, os ombros firmes, os seios...


“Você deve tá pensando: ‘Olha lá a Isa... Estava toda altiva, até pouco tempo atrás, pagando de heterazinha convicta e agora tá toda eriçada, reparando nos seios de uma mulher.’ Pois é... Não tenho nada pra dizer em minha defesa. Declaro-me culpada. Estava olhando mesmo e não era porque queria ter iguais.”


Pois bem, continuando... Os seios eram médios, redondos, firmes. Fiquei imaginando como seriam os mamilos.


“Devem ser rosados como os lábios dela. No sonho eram rosados. Ai... Muda o foco, Isa, porque do jeito que você tá, capaz de ter outro orgasmo espontâneo aqui mesmo, na frente dela.”


Esforcei-me para mudar o foco e lembrei o quanto Fernanda havia sido entrona, desde o momento em que eu as apresentei. Decidi me desculpar por ela:


-- Não liga pra Fernanda, ela veio ao mundo sem filtro, mas é uma pessoa boa.


Ela sorriu...


“Pelamordideus, mulher... Paaaara! Para de ser assim tão perfeita, tão linda, tão... Tão... Gostosa! Senhor... Tá decidido: sou lésbica.”


-- Não esquenta! Ela é ótima. Muito divertida. Acho que ela e o Pedro se entenderam bem.


“Ainda por cima é um poço de fofura e gentileza.”


-- É, parece que sim.


Falei e sorri. O sorriso mais abobalhado que já devo ter exibido na vida. Não porque ela não se incomodou com a Fernanda, mas porque fiquei lembrando do dia anterior, quando ela me carregou no colo após me salvar de dar de cara com o chão depois que eu desmaiei, do jeito que ela tocou nos meus ombros e falou comigo para me acalmar, na hora em que o elevador parou, da maneira como me invadia sem pedir licença com aqueles olhos lindos...


Tirando a frase cafajeste que soltou no final da noite, ela foi tão doce e tão gentil comigo o tempo inteiro e, enquanto isso, só me ocupei em ser desagradável com ela. Precisava me desculpar por isso.


-- Isa, eu...


-- Alice, eu...


Falamos ao mesmo tempo e nos interrompemos quando percebemos.


-- Fala. – Eu disse.


-- Não, pode falar.


-- Por favor, eu faço questão.


Respirou fundo e falou:


-- Isa, eu quero me desculpar pelo meu comportamento de ontem. Não queria te desrespeitar ou invadir o teu espaço... Eu... Eu... Olha, eu não pego todo mundo do trabalho, tá? Tem esse rolo com a Giselle mesmo, mas nunca me envolvi com mais ninguém da empresa... E nem com ela mais, também... As coisas entre nós não estão mais funcionando.


“Como assim, produção? Ela não tá mais com a Giselle? Terminaram? Não, eu não posso perguntar. O que você quer, Isa? Tá, já entendeu que tá afim dela, mas não esqueça dos contras. Pode até ser que ela esteja solteira, só que você não está... E mesmo que estivesse, vai ter que deixar essa história só nos teus sonhos mesmo, porque não dá certo se envolver com colegas de trabalho.”


-- Alice, eu que quero me desculpar. Não tenho nada a ver com a sua vida e não tinha o direito de ter feito aquelas perguntas, muito menos de falar com você daquele jeito. Não queria ter te constrangido. Você foi tão legal comigo ontem e eu toda grosseira pro teu lado o tempo todo... É só que... Meu dia foi meio maluco, e eu estava uma pilha... Daí teve aquilo tudo e...


Desembestei a falar e comecei a ficar nervosa, agitada. Ela percebeu e me interrompeu:


-- Ei, calma... Calma. Respira... Relaxa...


-- Não, é que...


Mas eu precisava continuar. Acho que nem estava conseguindo ser clara, mas tentei. Só que assim que comecei, ela pousou as mãos enormes sobre as minhas e as apertou.


-- Isa, não esquenta. Vamos esquecer?


“É, eu sei. Ela só estava tentando ser fofa mais uma vez, mas eu me arrepiei toda com aquele contato. Viu a mão dela? É enorme. Os dedos compridos... Lembrei do sonho e senti uma fisgada inoportuna entre as pernas... Não, não, não... Foco, Isa... Foco. Volta para o assunto.”


-- Esquecer?


-- Vamos fazer assim: você me desculpa, eu te desculpo e começamos tudo do zero hoje. O que acha?


Sorri. Ela despertava os sentimentos mais loucos em mim. Era responsável ao mesmo tempo por me excitar, me deixar nervosa e me acalmar.


-- Parece bom pra mim.


Foi a vez dela sorrir. Largou minhas mãos e eu sofri com isso. Um sentimento de perda... Quase puxei de volta, mas me controlei, embora já estivesse plenamente ciente de que queria muito mais do que só a mão dela sobre mim.


-- Combinado então. Amigas?


-- Amigas.


E pronto, era isso. Amigas era tudo o que poderíamos ser. Apertamos as mãos e selamos o acordo.


Pedro e Fernanda voltaram. Enquanto ela se lambuzava toda com o sonho que havia comprado, Pedro propôs uma happy hour na sexta. Não podia rolar. Precisava evitar ao máximo o contato com Alice, para minha segurança e para a dela. Mas a maldita tagarela mais uma vez passou na minha frente e decidiu por mim, dizendo que iríamos. Ia ficar chato dizer que não depois. Estava decidido: Fernanda era uma mulher morta.


“Bom, se não tem remédio, remediado está. Vamos pra essa happy hour e seja o que Deus quiser.”


Eu poderia jurar que Alice estava tão interessada em mim quanto eu nela, por isso, quando ela convidou o Lucas, estranhei. Pode ser que estivesse só tentando ser gentil. De todo modo, mesmo que ele não fosse tocar, eu não o chamaria. Já pensou ele percebendo o meu olhar indiscreto para Alice? Agradeci o convite e informei que ele não poderia ir.


Ficamos em silêncio por alguns instantes e as coisas começaram a ficar meio esquisitas. Pedro e Fernanda se olhavam com uma estranha cumplicidade e sorriam de forma maliciosa um para o outro. Depois de alguns instantes, foi Fernanda quem quebrou o silêncio:


-- Alice obrigada por ter quebrado o meu galho ontem, levando a Isinha pra casa. Acabei me enrolando lá na loja. Essa época de final de ano é fogo.


-- Não esquenta, não foi trabalho nenhum. Ela mora pertinho da minha casa. É caminho, aliás.


“Para de ser tão perfeita, garota!”


-- Sério? Que ótimo! Então você pode deixá-la hoje de novo? Sério, porque é quase natal e fica difícil sair da loja antes das 22h...


“O quêêêêêêêêêêê? O que eu faço com a Fernanda, hein? Já sei. Já viram Dexter? Vou forrar o chão, as paredes e o teto de um quarto com plástico, colocar uma maca bem no meio dele, injetar um sedativo de cavalo na Fernanda, deitá-la na maca, envolver o corpo dela com filme de PVC, matar, esquartejar, colocar as partes do corpo em sacos de lixo, encher os sacos com pedras de concreto e depois jogar tudo no meio do mar. Não me olhe assim, não. Ela merece. No meu lugar, você faria o mesmo.”


Nota da Autora: veja mais sobre Dexter em:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Dexter_(s%C3%A9rie_de_televis%C3%A3o).


Não deixei que ela continuasse. Quase gritei:


-- Fernanda!


Ela deu de ombros e começou a rir da minha cara. Virei para Alice:


-- Alice, não vou te incomodar com isso. – Em seguida, dirigi-me à Fernanda. – Fê, não precisa se preocupar. Sei como tá o movimento na loja e já tinha decidido alugar um carro. A seguradora não quer me dar um reserva porque é o segundo acionamento só esse ano, mas prometeu aprontar o meu até o final de semana. Na hora do almoço eu resolvo isso e...


Alice me interrompeu:


-- Imagina, Isa, é meu caminho. Não precisa ter esse gasto, é desnecessário. Além do mais, é só até o final de semana. Posso te levar todos os dias, se quiser.


“Todo dia? Garota, você tá brincando comigo. Isso é um jogo? Como acha que vou dar conta disso?”


-- Não. Você deve ter seus compromissos e...


“...E eu tô doida pra me jogar em cima de você, mas não posso, então é melhor não.”


-- Sem compromissos. Meus compromissos desta semana são todos relacionados a trabalho, exceto a nossa happy hour de sexta, mas você vai junto, então...


-- Viu, Isa? Larga de ser boba, mulher. A Alice não se incomoda, não, né, Alice?


-- Claro que não.


Resignada, perguntei à Alice:


-- Tem certeza, Alice? Não quero mesmo te atrapalhar e...


-- Certeza absoluta. Faço questão de te levar.


O que eu queria falar mesmo era:


“Por favor, me dê licença que preciso ir ali rapidinho tomar uma fluoxetina.”


No entanto, o que disse foi:


-- Ok, então, obrigada!


Ela não respondeu. Apenas sorriu. Linda demais, perfeita demais.


“Tô fodida.”


E assim ficou combinado. Até eu ter o meu carro de volta, Alice me daria carona para casa depois do trabalho.


Deu a nossa hora e comecei a apressar todo mundo. Já havia chegado atrasada no dia anterior e não estava disposta a repetir o ato naquele dia, principalmente porque Alice e eu teríamos reunião com o Leandro logo no início da manhã. Como ainda tínhamos um tempinho, acompanhamos a metida da Fernanda, que não se calava por nada, até o carro. Alice ria do falatório dela. Acho que não prestava atenção em nada do que dizia, mas estava se divertindo com seu comportamento espontâneo. Pedro olhava para Fernanda encantado, e eu conhecia a minha amiga o suficiente para saber que ela também estava interessada. Aquela happy hour de sexta estava fadada a acabar com os dois se agarrando e eu e a Alice segurando vela. Quero dizer... Se ela não se engraçasse por ninguém lá, então eu ficaria sozinha, olhando para o tempo. Só de pensar nisso, senti meu estômago embrulhar.


“O que é isso, Isa? Além de tudo, ainda está com ciúmes? Menos, né? É até melhor que ela arranje alguém. Pelo menos vai ficar longe e você não correrá riscos de fazer nenhuma besteira.”


Quando entramos no elevador, veio junto a tensão e a lembrança da minha experiência de quase morte na noite anterior. Acho que percebendo isso, Alice buscou o meu olhar falou sem som “calma, não vai cair”. Li os lábios dela e não acreditei naquela gentileza. Ela não fez isso para tirar sarro, estava preocupada mesmo. Sorri e instantaneamente fiquei mais calma. Minha tranquilidade só foi embora de novo quando Leandro, já na reunião, nos informou que teríamos que viajar para o Rio de Janeiro em quinze dias para a apresentação do projeto. Se tinha uma coisa que me assustava mais do que morrer asfixiada em um elevador era a ideia de entrar em um avião. Já tinha entrado várias vezes, mas em todas elas sofri desde a hora do embarque até o desembarque. Outra coisa que me deixou nervosa foi tomar ciência de que passaria três dias no Rio com Alice.


“Isso não vai funcionar.”


Depois da reunião, fomos ao trabalho. Nosso prazo estava curto e tínhamos muita coisa para fazer. Alice e eu vestimos as nossas melhores máscaras de profissionais éticas e fomos ao projeto. Impressionante a nossa sincronia. Sempre gostei de trabalhar sozinha porque, confesso, sou muito arrogante e autossuficiente quando o assunto é trabalho. Sempre achei que ninguém faria nada tão bem quanto eu. Mas com Alice era diferente. Eu admirava muito o seu conhecimento. Na verdade, acabei até percebendo que tinha muito a aprender com ela.


Achei que fôssemos almoçar juntas de novo, na sala, mas Alice me informou que tinha um compromisso. Tentei disfarçar a minha decepção e almocei sozinha. No intervalo, aproveitei para falar com Fernanda. Despejei ao telefone todos os palavrões que eu conhecia, mas a bandida não se deixou atingir. Ao invés disso só ria da minha cara. Depois que meus ânimos se acalmaram, ela soltou um:


-- Eita, filha! Mas também, como não ficar afim de um mulherão daquele? Isa, ela é enooooorme... E gata pra caralho, porra! Aquele olhão azul dela, menina... Ai, ai... Fora que parece ser super gente boa. Se você não pegar, eu pego.


-- Palhaça! Já tá planejando furar meu olho. E o Pedro?


-- Ah, ele é um fofo, né? E bem gatinho, mas é muito meninão. Acho que não rola, não.


-- Sei...


-- Tá, vai rolar, mas não sei se passa de uma vez.


-- Nenhum homem é bom o bastante pra você, né? A senhorita é muito seletiva. Por isso não desencalha.


-- Pode ser que eu seja lésbica e ainda não descobri. Vai que é isso? Se você não quiser mesmo a Alice, avisa, porque daí eu já faço logo o experimento e tiro a dúvida.


-- Mas é uma piranha mesmo, viu!


E assim levamos a conversa até que precisei desligar e voltar. Alice demorou um pouco do almoço e quando chegou, percebi que estava meio distante, pensativa. Não quis me intrometer, por isso não perguntei nada.


Já passava das 19h e nenhuma de nós duas havíamos percebido, mas a empresa estava vazia. Empolgamo-nos com o trabalho e conseguimos adiantar bastante coisa. Como eu estava de carona, não quis ser a que chamava para ir embora, mas ela parecia também já ter chegado ao limite. Desligamos tudo e quando eu estava pegando a minha bolsa, ela perguntou com um sorriso no rosto:


-- Vamos ao elevador?


Mais uma vez aquela carinha linda de preocupação, mas não resisti e decidi zoar:


-- Vai ficar tirando sarro do meu medo de elevador o tempo inteiro agora?


Falei em um tom sério, e ela arregalou os olhos assustada. Começou a gaguejar:


-- N... Não, eu... Eu não quis te...


Não aguentei e comecei a rir.


-- Tô só te zoando, boba. Relaxa!


-- Ah, então eu aqui preocupada com você, e você tirando uma com a minha cara. Muito bem!


E então foi a vez dela fazer a cara séria. Até cruzou os braços. Fiquei na dúvida se estava me zoando também ou se estava falando sério. Para não errar, optei por me desculpar:


-- Des... Desculpa, eu...


Fui interrompida por uma risada aberta, gostosa, seguida de um:


-- Te peguei.


Eu até pensei em retrucar, mas estava tão encantada com aquela mulher enorme, linda, sorrindo tão gostosamente para mim, que desisti. Apenas ri de volta.


-- Vamos?


-- Vamos.


Ficamos em silêncio a maior parte do caminho. Eu queria falar muitas coisas, mas tinha medo da minha boca me trair. Ela com certeza não estava bem. Estava muito calada e com um olhar distante. Estava me coçando para perguntar, mas não o fiz. Ela quebrou o silêncio:


-- Tô morrendo de fome. Meu estômago tá doendo até. Você se incomoda se eu passar em um drive thru pra comprar comida?


-- Lógico que não, imagina. Mas tenho uma ideia melhor...


“Isa, pare com isso agora mesmo.”


-- Lembra que tem uma pracinha na frente do meu prédio?


“Isa, não faça isso. Eu tô mandando.”


-- Lembro.


-- Então...


“Isa, você tá ficando maluca?”


-- Tem um food park lá...


“Isabella Ferreira...”


-- Por que você não estaciona na pracinha e a gente come alguma coisa por lá?


“Tá bom, depois não diga que eu não avisei.”


-- Ótima ideia. Eu topo.


 


 


 


 


 


 

Notas finais:

E aí, o que será que vai sair desse lanchinho no food park, hein?

Estão gostando? Contem o que acharam do capítulo.

Abraços!

Capitulo 12 - Just The Way You Are por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){


                var Capítulo= 12;


  var Título = “Just The Way You Are”;


                varPOV= “Alice”;


};


 


“And when you smile, the whole world stops and stares for a while


'Cause girl you're amazing just the way you are”


 


Just The Way You Are (Bruno Mars, 2010)


 


“Então, sei que você deve estar doida pra saber o que rolou entre mim e a Isa naquele food park após o convite que me pegou completamente de surpresa. Também tô doida pra te contar, porque, adianto, foi no mínimo... Interessante. Mas não posso entrar nesse assunto sem antes falar como foi a minha conversa com a Giselle. Então vamos lá...”


-- Giselle, a gente precisa conversar.


-- Iiihh... Que cara é essa, Alice? Nunca te vi tão séria assim, aliás, essa cara aí não parece nadinha com a que você fez ontem à noite quando eu...


-- Gi, sério... É importante.


-- Credo, eu hein! Que foi? Tá grávida e eu sou o pai? Mais fácil você ter me engravidado...


Ela não parecia disposta a me levar a sério. Precisei ser mais incisiva:


-- Giselle, por favor, eu tô falando sério.


-- Ai, tá bom, tá bom... Fala logo então o que é tão sério que te deixou com essa cara.


E quando ela finalmente me deu a atenção que pedi, fiquei toda enrolada para falar:


-- Bom, eu... Primeiro, eu queria... Bem...


-- Alice, tá tudo bem? Que nervosismo é esse?


-- Tá... É que... Primeiro, eu quero te pedir desculpas por ontem.


-- Ahn?


Ela parecia confusa. Expliquei:


-- Sim, pela maneira como eu cheguei na tua casa e te peguei daquele jeito, sem nem saber se você queria também e...


Interrompeu-me com uma gargalhada e depois falou:


-- É isso? Tá preocupada por ter aparecido sem avisar e quer se desculpar por isso? Não precisa, meu amor. Eu adorei.


“Bem, isso piora e muito as coisas.”


-- Não... Não é isso. Não exatamente.


-- Então me fala qual é o problema, Alice, porque já tô ficando nervosa.


E realmente já estava ficando impaciente com a imprecisão do que eu estava falando. Respirei fundo e tentei ser mais clara:


-- Gi, eu não devia ter aparecido daquele jeito na tua casa ontem.


-- Meu amor, já disse que eu gostei, mas se te preocupa tanto, aceito o teu pedido de desculpas.


-- Não, o que quero dizer é que nós não deveríamos ter transado.


-- Alice, tô ficando muito confusa. Dá pra ser mais objetiva?


-- Giselle, a gente não pode mais ficar juntas. Eu estava pra falar isso com você já há alguns dias, mas não o fiz. Ontem foi um erro. Eu estava pilhada, estressada e...


-- Me usou para aliviar a pressão?


-- Exatamente. Mas não me orgulho disso, não.


Pronto, falei. Ela sorria em um misto de ironia e incredulidade. Indagou:


-- E não foi sempre assim? Nosso lance não é esse? Acha que eu nunca fiz o mesmo com você?


-- É, eu sei, mas fiz quando tinha a intenção de terminar com você.


-- Terminar o quê, Alice? Nós não temos nada... Nunca tivemos. Sempre soube que você saía com outras garotas. Por que isso agora?


“Por que ela está tornando as coisas tão mais difíceis?”


-- Porque eu não acho certo que continuemos a ficar juntas, mesmo que seja casual.


-- Ah, meu Deus!


-- O que foi?


-- Quem é ela? Eu conheço?


-- Ela quem?


-- A garota por quem você tá apaixonada.


“Quê?”


-- Tá doida? Não tem garota nenhuma.


-- Se não tem, então por que você precisa terminar um relacionamento que nem existe?


-- Honestamente?


-- Não. – O tom irônico era nítido. – Tô esperando você me contar uma mentira. Lógico que eu quero que seja honesta.


-- Tá, vou falar.


-- Se puder ser esse ano ainda...


-- Giselle, acho que as coisas estão ficando mais intensas do que deveriam.


-- Quê? Como assim? Você tá me deixando confusa. Não tô entendendo mais nada.


“Valei-me, nossa senhora dos processadores lentos. Eu estou sendo bem objetiva, não estou?”


-- Olha, Gi, desculpa, não quero parecer prepotente. Mas acho que... Bem, eu acho que você tá mais envolvida nessa história do que eu. E não parece justo com você continuarmos.


Eu esperei ouvir toda a sorte de acusações e xingamentos, mas ao invés disso, ela me surpreendeu com um silêncio sepulcral e um olhar intenso. Encarou-me por alguns instantes e começou a olhar para as próprias mãos estendidas sobre a mesa. Percebi que sorria, mas balançava a cabeça em negativa.


-- Gi, eu...


-- Não, Alice. Agora sou eu quem vai falar.


Levantou o rosto e me interrompeu. Percebi os olhos marejados e me senti muito mal.


-- Ok, fala então.


-- Não posso mentir, você tem razão. Eu tô mais envolvida nessa história do que deveria. Confesso que ontem à noite, quando você chegou lá em casa daquele jeito, cheguei a acreditar que estava sentindo o mesmo, mas eu não faço o tipo bobinha apaixonada que se ilude com o mínimo, Alice. Logo que acabamos e você se apressou pra ir embora, saquei que estava errada...


-- Eu sinto muito, eu não devia...


-- Não, espera. Ainda não terminei.


-- Desculpe.


-- O que quero dizer é que você está certa, eu realmente estou apai... – Ela mesma se interrompeu. Limpou a garganta e continuou. – Muito envolvida com você, mas isso não é motivo para pararmos de ficar juntas. Eu não te cobro nada, Alice. Nunca te cobrei e nem pretendo cobrar. Sei que você é do mundo e que tentar te prender é dar um tiro no pé. Eu não ligo que saia com outras garotas, mas vou ligar e muito se parar de sair comigo.


Fomos interrompidas pelo garçom trazendo a nossa comida. Enquanto ele nos servia, fiquei ponderando sobre o que havia acabado de ouvir.


“Não, isso é muito esquisito. Que tipo de mendiga sentimental ela é. Como alguém pode estar apaixonado por uma pessoa e aceitar dividi-la com outras, só pra não ficar sem ela? Não que eu tenha experiência com paixão, mas isso parece, no mínimo, meio doentio. Estou começando a ver sentido nas coisas que o Pedro falou.”


O garçom nos deixou a sós novamente. Olhei para ela e a encontrei com uma expressão ansiosa, talvez até um pouco assustada. Ela parecia fragilizada, acuada, e eu poderia jurar que vi seus olhos marejarem. Aquela não era a Giselle austera, imponente e arrogante que eu conhecia. Estava bem longe disso. Senti um nó na garganta, porque aquilo significava que as coisas já estavam bem mais avançadas do que eu imaginava. Mais um motivo para não ceder àquela proposta dela. Já havíamos chegado a um ponto em que quanto mais nós ficássemos juntas, mais ela se machucaria. Eu precisava ser firme. Sabia que ia doer nela, mas se eu não fizesse o que tinha que fazer naquele instante, ela sairia ainda mais machucada no futuro.


-- Gi, você escutou o que acabou de falar? Como assume que está apaixonada e ao mesmo tempo diz que não vai se importar de me ver com outras? Isso não faz sentido.


-- Eu não acredito em monogamia, Alice. Não faço o tipo ciumenta. Pode ir brincar com quem quiser, desde que volte pra mim quando se cansar. Sexo é só sexo.


“Bizarro!”


-- E se eu me apaixonar por alguém?


-- Você está apaixonada por alguém?


Demorei um pouco para responder, pois quando ouvi a pergunta dela instantaneamente pensei na Isa. Mas não, eu não estava apaixonada pela Isa. Não podia estar. Nós havíamos acabado de nos conhecer. Não, era só atração e atração não é paixão.


-- Não, eu não estou. Mas pode acontecer, não pode?


-- Pode, inclusive por mim.


-- Giselle, já estamos nesse rolo há quase seis meses. Desculpe-me pelo que vou falar, mas se fosse para eu me apaixonar por você, já teria acontecido, não acha?


Minhas palavras a atingiram em cheio. De cara, até me arrependi do que falei, mas depois pensei que talvez aquela honestidade toda fosse melhor. Ela pareceu se acuar mais ainda, mas não se intimidou em contra argumentar:


-- Você não é do tipo que se apaixona, Alice. É uma conquistadora em série... Vive disso. É incapaz de se envolver emocionalmente com alguém, porque é uma menininha mimada e imatura que não consegue enxergar um palmo além do nariz.


“Quê? Quem ela pensa que é pra falar comigo desse jeito? Mimada, eu? Ela nem conhece a minha história, não sabe o quanto eu ralei pra chegar aonde cheguei. Mimada é ela... Uma prepotente, arrogante que acha que é dona do mundo.”


-- Giselle, você tá me ofendendo.


Ela riu com escárnio antes de continuar:


-- Ah, agora vai bancar a ofendida?


-- Olha só, não vou entrar nessa discussão com você, então, pode me xingar e falar o que quiser. O lance é que nós tivemos um rolo e foi muito bom por um tempo, mas agora não dá mais. O fato de você ter se envolvido é algo que eu lamento muito e me odeio por não ter percebido antes, pois se tivesse notado, não teria deixado as coisas avançarem tanto. Mas, Gi, independente disso, não tá mais rolando pra mim, portanto, se eu aceitasse essa sua proposta, teríamos dois problemas: a minha frustração e o teu sofrimento. Não ia ser legal pra nenhuma das duas, por isso, acho que o melhor mesmo é pôr um ponto final nessa história agora mesmo.


-- Você não passa de uma cafajeste, filha da puta, insensível e desprezível, sabia?


Ela estava indignada, irritadíssima, mas não estava mentindo. Eu era mesmo tudo aquilo.


-- E você sabia disso desde o início, Giselle. Nunca menti pra você.


Foi me calar e sentir o jato de vinho branco na minha cara. Em seguida, ela se levantou, recolheu o blazer, a bolsa e falou:


-- Vá pro inferno, você e a suas vadias. E nunca se esqueça da lei de causa e efeito.


E com essa frase de efeito, partiu.


“Espera, isso foi uma frase de efeito ou uma ameaça?”


Bem, acho que eu mereci o tratamento que recebi. Achei que ela foi até tranquila. Pedro tinha me amedrontado tanto que fiquei imaginando dezenas de coisas bizarras que ela poderia fazer contra mim. De todo modo, embora bastante aliviada em ter finalmente conseguido dar um basta naquela situação, eu estava longe de me sentir bem. Não foi legal a sensação de ver Giselle magoada. Estava com um nó na garganta e um sentimento de culpa absurda, mas estava certa de que havia agido da maneira mais adequada.


Não consegui almoçar, meu estômago estava embrulhando. Paguei a conta e segui para casa, pois, por causa do jato de vinho, precisava tomar um banho e trocar a blusa. Estava usando uma baby look branca básica e para não dar o que falar, peguei outra igual. Por sorte, não estava usando o blazer, pois não tinha outro igual para substituí-lo, então pude voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido.


Antes de entrar na minha sala, passei as vistas pela empresa para ver se Giselle estava lá. Não a vi, por isso, chamei Pedro na salinha do almoxarifado. Era uma salinha pequena, cheia de material de escritório. Sempre que queria fofocar alguma coisa com Pedro, nos trancávamos lá. O único cuidado que tínhamos que ter era falar baixinho.


Quando Pedro entrou na salinha, a primeira coisa que perguntei foi se ele tinha visto Giselle depois do almoço, mas a resposta foi negativa. Ele então me perguntou o que havia acontecido e contei.


-- Alice, você não deixou nenhuma calcinha na casa dela, deixou?


-- Não, por quê?


Perguntei curiosa.


-- E o teu cabelo? Não percebeu nenhuma mecha cortada?


-- Não, Pedro. Tá doido? O que tá querendo dizer?


-- Duas palavras: ritual satânico.


Ele falou em um tom assustado, como se realmente estivesse preocupado com a possibilidade de Giselle estar me lançando algum tipo de feitiço.


-- Seu idiota, para de zoar. Tô falando sério.


-- Sério, velho. Não brinca com isso, não. Quando chegar em casa, afaste a cama para ver se não tem um pentagrama desenhado embaixo dela.


-- Pedro, quer saber? Não tô com tempo pras tuas palhaçadas. Vou trabalhar.


E fui saindo da salinha, mas antes de atravessar a porta, ainda o ouvi cochichando um pouco mais alto:


-- Se sentir cheiro de enxofre, sai correndo.


-- Vai pro inferno!


-- Eu não. Tenho medo de encontrar a Demônia lá.


-- Ah, Pedro, tchau.


E foi assim que eu terminei com a Giselle.


Agora vamos ao food park. Vou pular a parte de como chegamos até lá porque sei que a Isa já contou. A única coisa que vou dizer é o quanto fiquei surpresa com aquele convite, pois eu podia jurar que ela estava tentando fugir de mim. Havia deixado isso claro ao mostrar todo o desconforto que sentiu quando a amiga insistiu para que eu desse carona a ela. Ah, teve toda aquela coisa de olhar pra Isa e ficar excitada, entrar no elevador com a Isa e ficar excitada, abrir a porta pra Isa entrar no carro e ficar excitada, Isa respirar e eu ficar excitada... Não preciso mais ficar repetindo isso, né?


No food park, escolhemos um caminhão que servia sanduíches. O garçom veio anotar os nossos pedidos. Perguntou primeiro à Isa:


-- E então, moça, o que vai querer?


-- Eu quero um sanduíche de peito de peru com queijo prato, no pão parmesão. Adiciona cream chesse, mas na parte de cima do pão e espalha bem, tá? É muito importante que toda a área esteja coberta pelo creme. Quero também alface, tomate... Duas rodelas, pepino e azeitona. Põe azeite, um pouquinho só de orégano... Não põe muito, senão amarga... E uma pitada de sal em cima da salada... Ah... E quero molho barbecue. Moço, é muito importante que os ingredientes sejam adicionados nessa ordem, tá? – O coitado só assentia com a cabeça. Os olhos arregalados. – Pra beber, guaraná sem gelo, mas só se for o Antártica. Se só tiver Kuat, traz uma Coca mesmo. Anotou tudo?


-- Si... Sim, senhora.


Coitado do rapaz. Eu me perdi no “queijo prato”. Dirigindo-se a mim, ele perguntou:


-- E você, moça?


-- Quero um sanduíche de rosbife e uma Coca. Obrigada!


Ele deu um sorriso de alívio hilário. Fiz muito esforço para não rir da cena. Antes que ele saísse, Isa voltou a abordá-lo:


-- Ah, moço, só mais uma coisa...


O coitado tinha desespero nos olhos ao perguntar:


-- Pois não?


-- Quero uma porção de batata frita.


Ele ficou esperando como se ela fosse falar mais, mas não falou. Então perguntou:


-- Então... Batata fritas com...?


-- Normal. Batata frita normal. Obrigada.


E ele saiu mais rápido do que o Flash. Não aguentei e caí na gargalhada.


-- Qual foi a graça?


-- Você.


E continuei rindo. Ela parecia confusa. Perguntou:


-- Eu?


-- Sim, você é uma graça.


-- Por quê? O que eu fiz de tão engraçado?


Ainda tentando parar de rir, respondi:


-- Deixou o garoto pirado com o teu pedido. Coitado.


-- Não entendi. O que tem de errado com o meu pedido?


-- Nada não. Esquece. Só me responde uma coisa: em que a ordem dos ingredientes vai interferir na montagem do sanduíche?


-- Ué, não é óbvio? O sabor altera se não estiver nessa ordem.


-- Quê? – E voltei a gargalhar. – Você não existe, Isa.


-- Tá rindo da minha cara, Alice?


-- E tem como não rir?


E ela acabou caindo na gargalhada comigo também. Entramos em uma conversa leve e divertida, falando de assuntos triviais. Finalmente parecíamos à vontade uma com a outra. Acabei descobrindo que ela era super metódica e organizada, o que já desconfiava. Ela tinha um senso de humor bastante negro. Lembrou-me muito o comportamento do Pedro. Percebi que ela não gostava de falar do namorado, o que foi o grande alívio, porque não queria falar sobre ele mesmo. Fez perguntas triviais sobre mim também. Contei a ela que era catarinense e descendente de alemães, mas que já morava em Fortaleza havia quase dez anos. Depois falamos de filmes, séries, livros, música... E quando vimos, já passava das 22h. Ela falou:


-- É acho que nos empolgamos. Preciso ir...


-- Claro, claro... Vou pedir a conta.


Quando o garoto que havia nos atendido trouxe a conta, tivemos uma pequena discussão sobre quem iria pagar. Ela fazia questão, pois queria agradecer pela carona. E eu fazia questão, pois quem estava desesperada era eu. Ficamos nesse embate por algum tempo, deixando o coitado do garçom mais uma vez impaciente. A batalha foi vencida por mim, mas perante a promessa de que a próxima seria por conta dela. Caminhamos até o meu carro em absoluto silêncio. Ao chegarmos, paramos uma de frente para a outra. Ela era linda demais e aquele arzinho leve e descontraído que exibia a deixava mais atraente ainda. Fiquei abobalhada olhando para ela, até que percebi que estava dando muito na cara. Decidi falar qualquer coisa para cortar o clima.


-- Então... Natal já tá chegando, né?


“É eu sei... Dei mais bandeira de nervosismo do que se tivesse falado do tempo. Ainda bem que ela entrou na minha.”


Respondeu:


-- Nem me fale. Só de pensar na reunião anual com todos aqueles tios e primos com quem não tenho a menor afinidade, fico com preguiça.


Sorri e falei saudosa:


-- Sinto falta do natal em família.


-- Quer trocar? Te empresto a minha família pra você passar o natal e em troca vou fazer o que você faria.


-- Se está disposta a virar a noite comendo peru assado com as mãos, bebendo vinho direto da garrafa e jogando vídeo game com o Pedro...


Ela sorriu. Falou:


-- Sério? Esse vai ser o teu natal?


-- Tem sido assim há uns três anos. Mas não menospreze, tá? É muito divertido.


-- É, eu imagino.


-- Está convidada... – Percebi a minha gafe e emendei. – Você e o Lucas, lógico.


Foi falar no nome dele e o brilho no olhar dela sumiu. Respondeu:


-- Lucas nunca passa natal e réveillon comigo. Sempre tem show agendado pra essas datas, o que é muito bom, porque o cachê é bem mais alto.


-- Ah, você deve odiar isso, né?


-- Na verdade, não. Já tô acostumada. Mas, vem cá... E o réveillon? Vai repetir a dose com o Pedro?


-- Esse ano as coisas foram meio corridas com esse lance do projeto novo, então não deu tempo programar nada, mas acho que vamos acabar caindo em alguma balada por aí.


-- Os pais da Fernanda têm um apartamento gigante na Beira-Mar. Da varanda, dá pra ver os shows na praia e a queima de fogos. Todos os anos ela dá uma festa de arromba lá. Você e o Pedro estão convidados.


“Quê? Ela tá me convidando pra passar a virada de ano com ela? É isso mesmo, produção?”


-- Olha só, que bacana! Agradeço o convite, mas será que ela vai gostar de você ter nos convidado para a festa dela?


-- Bem, a Fernanda é mestre na arte de tomar decisões por mim sem ao menos consultar minha opinião, então, acho que tenho certo crédito.


Pelo que eu havia percebido de manhã, ela estava coberta de razão mesmo.


-- Ok. Vou falar com o Pedro.


-- Sério?


Ela sorriu incrédula. Acho que não esperava que eu aceitasse.


-- Por quê tá perguntando isso? O convite não foi pra valer?


-- Não, é que... Digo... Foi pra valer sim... É que...


Mais uma vez ela estava toda enrolada para falar. Diverti-me com aquilo.


-- Relaxa. Eu entendi.


E ela se calou. Silêncio... E os pensamentos indevidos. Ficamos ali paradas de frente uma para outra por alguns instantes. Nossos olhares não se largavam, parecia haver um magnetismo entre eles. Ela estava tão linda, tão descontraída... Estava contra o vento, que deu uma rajada forte e jogou uma mecha do seu cabelo em sua boca. Não resisti. Estendi a mão e com toda a delicadeza, sem tirar os olhos dos dela, arrumei a mecha atrás da orelha. Senti que ela tremeu... Eu também tremi.


“Não, Alice. Saia daí agora mesmo. Lucas, Lucas, Lucas...”


Resolvi quebrar o clima antes que repetisse a bobagem da noite anterior:


-- Bem, melhor eu ir. Tá tarde já.


-- Verdade. Boa noite, Alice. E obrigada.


-- Pelo quê?


-- Pelo jantar, pela companhia...


-- Sendo assim, eu que agradeço.


Sorrimos juntas. Ela se aproximou mais. Era bem mais baixa do que eu, mas usava saltos enormes, por isso, a diferença de altura não parecia tão grande. O rosto dela foi chegando perto e eu comecei a ficar muito, mas muito nervosa. Algo que nunca havia me acontecido. Achei que fosse me beijar na boca, mas beijou meu rosto. Senti aquele cheiro delicioso e uma vontade sobrenatural de jogá-la para dentro do carro para poder aliviar toda aquela necessidade que eu estava sentindo de tê-la. Ela se afastou. Cheguei a sentir uma pontada no peito por causa disso. Olhou intensamente para mim mais uma vez, sorriu e falou:


-- Até amanhã, Alice. Boa noite.


Tudo o que consegui responder, em um tom quase inaudível, foi:


-- Boa noite.


E se foi. Só consegui entrar no carro depois de não conseguir mais vê-la.


“Cara, o que essa garota tá fazendo comigo?”


 


 

Notas finais:

Meninas, minha ideia essa semana foi presenteá-las com uma maratona de if(true){love} //O Código da Atração, masss… como tudo o que é bom dura pouco, as minhas férias acabaram e vou ter que voltar a trabalhar. Agora vou voltar aos capítulos semanais de novo, tá? Espero que tenham gostado do presente de ano novo.

 

Abraços!!!

Capitulo 13 - The Reason por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){


                Var Capítulo= 13;


var Título = “The Reason”;


                varPOV= “Isabella”;


};


 


“I'm not a perfect person, there's many things I wish I didn't do


But I continue learning, I never meant to do those things to you...”


 


The Reason (Hoobastank, 2003)


 


-- Garota, quem é você e o que fez com a verdadeira Isa?


Essa foi a pergunta que fiz para mim mesma em voz alta, enquanto atravessava a rua para entrar no meu prédio, logo após quase ter beijado Alice na boca em plena praça onde transitava grande parte dos meus vizinhos. Felizmente consegui resgatar um fio de juízo a tempo de desviar os meus lábios para o rosto dela. Mas chegar até ali, pareceu tão natural que me assustou. Começando pelo convite para o lanche. Foi automático. Eu não estava calculando nada, não premeditei absolutamente nada. Apenas aconteceu, e quando vi já estava a centímetros dela que, a propósito, conseguiu ficar mais linda e mais atraente ainda com aquela carinha toda nervosa. Sim, porque ela ficou muito nervosa com a minha aproximação, foi nítido. Não remeteu em nada a predadora cheia de si que quase havia me atacado na noite anterior, em meu apartamento. Eu não fazia ideia das sensações que a boca dela na minha poderiam ter me causado caso eu não tivesse me controlado, mas se eu fosse mensurar pelo que senti ao beijar aquela bochecha tão macia, tão delicada e tão cheirosa, diria que a experiência teria sido no mínimo extraordinária. Certamente havia conseguido um bom material para um novo sonho.


Como um ato tão simples foi capaz de mexer tanto comigo? Ela era tão perfeita! Gentil, carismática, divertida, linda demais... E tinha aqueles olhos... E aquele sorriso lindo, a boca rosada, tão convidativa. Era um raio de sol iluminando a escuridão a qual eu viva sem nem perceber. Nossa noite estava tão agradável que nem me dei conta do tempo que havia se passado. Eu não queria ir embora, não queria de forma alguma ficar longe dela. A sensação era inexplicável e eu estava vivendo um grande dilema.


“Isa, você é uma mulher comprometida, pelo amor de Deus. Além disso, por mais que seja encantadora, esse deve ser o jogo dela, que com certeza não é flor que se cheire. É uma conquistadora em série. Já deve ter usado esse charme irresistível com todas as garotas que levou pra cama.  Ela sabe que é linda, sabe que é interessante. Deve usar isso como arma. Você provavelmente é só o mais novo desafio dela. Sai dessa, garota.”


A minha mente e o meu corpo estavam completamente fora de sintonia. Cada partícula do meu corpo, cada milímetro da minha pele gritava o nome da Alice, mas cada neurônio do meu cérebro ponderava os contras daquela situação toda. Seria bem mais fácil se eu não tivesse plena convicção de que ela queria exatamente o mesmo que eu, mas ter ciência do desejo dela por mim só me instigava a querê-la mais. Aquilo estava me preocupando, pois a cada instante o meu corpo parecia adquirir mais vantagem na disputa contra a minha racionalidade. Ele simplesmente ganhava autonomia quando estava perto dela, como se um pequeno alienígena tarado, com um crush desgraçado em loiras altas de olhos azuis, tivesse invadido o meu cérebro e tomado o controle sobre os meus instintos. Mas tinha um porém: embora àquela altura eu já tivesse aceitado o fato incontestável de estar me sentindo atraída por Alice, trair o Lucas ainda era algo impensado para mim. Se soubesse disso, Fernanda me diria que chifre trocado não dói, só que comigo não funcionava assim. Na minha cabeça, descontar uma traição na mesma moeda te fazia tão traidor quanto quem traiu primeiro. Como eu poderia cobrar o Lucas por não ter sido leal e depois ser desleal da mesma forma? Não, comigo aquilo não funcionava, nem combinava, na verdade. Seria muita hipocrisia. Ele me traiu, eu perdoei. Pronto, prego batido e ponta virada. Fim da história. Se não quisesse ter perdoado, não devia ter aceitado voltar, por isso, a traição dele não era desculpa para que eu fizesse o mesmo.


“É isso. A sensatez deve sempre prevalecer. Cabeça 1 x 0 Corpo... Não, espera... Teve o sonho, então, Cabeça 1 x 1 Corpo. Estão empatados. Ainda dá pra reagir. Quê? A verdade, eu quase a beijei na boca agora mesmo. Cabeça 1 x 2 Corpo. Merda! Eu a convidei para passar a virada de ano comigo. Cabeça 1 x 3 Corpo. Ah, melhor parar de contar, porque se eu continuar, o Alemanha 7 x 1 Brasil vai parecer brincadeira de criança. Droga!”


Sabe aquele desenho do Coyote e do Papaléguas? Pois é, minha cabeça havia se transformado no Coyote e o meu corpo no Papaléguas. Parecia não haver plano mirabolante o suficiente para fazer a minha cabeça ganhar aquela disputa. Mas eu não podia me render. Aquilo estava fora de cogitação. Eu só precisava encontrar uma forma de ficar menos vulnerável na presença dela, o que certamente não seria nada fácil, vez que além de dividirmos a sala e a gerência de um projeto, ainda tínhamos mais compromissos agendados do que o Wesley Safadão tinha shows. Caronas diárias, uma happy hour, uma festa de réveillon e uma viagem de três dias para o Rio de Janeiro.


“Não, eu preciso encontrar algo que me ajude. Já sei, vou ler a Bíblia... Especificamente aquela parte que fala dos quarenta dias e quarenta noites que Jesus Cristo passou sendo tentado pelo diabo. Isso com certeza deve me inspirar... Deus do céu! Eu tô me transformando em uma maluca de pedra. Acho que o melhor mesmo é procurar um manicômio. Mas por que cargas d’água eu fui convidá-la para o réveillon na casa da Fernanda mesmo, hein? Fernanda... Puta que pariu. Depois que ela souber disso, eu não vou ter mais paz na vida. Cara, eu tô cavando a minha própria cova. Tô entrando em um barco furado... Em um caminho sem volta. Pior, não consigo tomar nenhuma atitude para evitar nada disso. Estou parecendo até feliz com a ideia de me afogar naquele sentimento... Naqueles olhos... Naquela boca... Aaaaah... Tô ferrada! Seja o que Deus quiser.”


Abri a porta do meu apartamento e me deparei com Lucas no meio da sala, impaciente, andando de um lado para o outro com o telefone no ouvido. Quando percebeu a minha presença, largou o telefone e veio em minha direção, falando em um tom impaciente:


-- Onde você estava? Tô te ligando há horas e você não atende.


“Merda, meu celular no silencioso dentro da bolsa. Nem lembrava desse pequeno detalhe: eu devo satisfações da minha vida ao meu namorado.”


Meio sem graça, respondi:


-- Eu... Eu estava na pracinha. Fui comer um sanduíche...


“Com a mulher com quem estou tendo sonhos eróticos e quase beijei na boca.”


Ele nem me deixou completar. Interrompeu-me irritado:


-- E custava ter avisado? Eu estava preocupado, Isa. Uma hora dessas...


-- Desculpa, Lucas. Esqueci o celular no silencioso dentro da bolsa e perdi a hora batendo papo...


-- Parece que você esquece do mundo quanto tá com a Fernanda, né?


Ele achava que eu estava com a Fernanda e eu poderia tê-lo deixado pensando assim, mas não consegui. Não sabia mentir, além do mais, tecnicamente eu não havia feito nada de errado... Tecnicamente, porque se pensamento contar...


Expliquei:


-- Eu não estava com a Fernanda. Estava com a Alice.


-- Alice? – Perguntou-me meio confuso.


-- Sim, Alice, que você conheceu ontem. – “Aquela que por pouco não me agarrou, instantes antes de você chegar...” – A Fernanda não tá conseguindo sair cedo da loja, então a Alice me ofereceu carona de novo. Ela mora aqui perto.


- Ahan... Mas por que demorou tanto? Por que não avisou que ia chegar tarde?


Ele já parecia mais calmo. Era compreensível a preocupação dele, afinal, já estava mesmo muito tarde. Aproximou-se de mim e beijou meus lábios rapidamente, antes que eu respondesse:


-- Desculpa! Era pra ter sido um lanchinho rápido, mas a gente se empolgou na conversa... - “E em outras coisas mais.” – Nem vi a hora passar. Além disso, achei que você estivesse ensaiando, então não me preocupei em avisar.


-- Tudo bem, desculpa o meu nervosismo também. É porque a hora passava e você não chegava, não atendia o celular... Fiquei preocupado, achando que poderia ter acontecido alguma coisa.


-- Tá, tudo bem, mas por que você não tá ensaiando?


-- Porque eu precisava conversar com você.


-- Sobre o quê?


-- Sobre ontem... Eu... Eu... Vamos sentar?


“Ah, não! Tudo, menos DR, por favor.”


Segui o comando dele e me sentei de lado no sofá. Ele fez o mesmo, ficando de frente para mim. Tudo que eu não queria era uma nova discussão, mas se ele havia faltado o ensaio para conversar, o mínimo que eu o devia era um pouco de atenção, ainda mais depois da maneira como eu o havia tratado na noite anterior.


*** Flashback:


Após o sonho com Alice, precisei de um novo banho para poder dormir, mas mesmo assim o sono não veio. Fiquei bolando de um lado para o outro na cama com a cabeça trabalhando a mil por hora. Lucas chegou em casa cerca de meia hora depois. Quando percebi sua chegada, fingi estar dormindo. Ele se preparou para deitar e quando deitou, tentou me acordar, mas resmunguei que estava exausta e virei para o outro lado. Não me orgulho do que fiz, mas eu estava me sentindo culpada, pois havia sido muito grosseira com ele, além disso, tinha o sonho... Não ia conseguir encará-lo.


*** Fim do flashback.


-- Então, o que você quer falar?


-- Amor, eu quero me desculpar com você. Não devia ter saído daquele jeito ontem. Você tinha toda a razão de estar chateada. Por minha culpa teve um dia de cão e...


“Eu aqui me sentindo mal por ter sido grosseira e por tê-lo traído em sonho, e ele se desculpando. Lucas, bem que você poderia ser um completo idiota e facilitar as coisas pra mim.”


­-- Não, Lucas... Eu que quero pedir desculpas a você por ter sido tão grosseira...


-- Para. Não tem do que se desculpar. Olha... Você não precisava me emprestar o carro, mas emprestou. Eu devia ter sido mais responsável e... Te causei altos prejuízos.


-- Lucas...


-- Escuta, Isa, não tem nada que eu possa fazer pra agilizar a entrega do teu carro, mas eu depositei na tua conta o dinheiro que você gastou com a franquia do seguro. Tá aqui o comprovante.


E me entregou um pedaço de papel com o comprovante de depósito. Olhei incrédula. Fiquei me perguntando de onde ele tinha tirado dinheiro para fazer aquilo. Não aguentei e perguntei:


-- Amor, de onde você tirou dinheiro? Há poucos dias me disse que estava zerado e...


-- Eu vendi a minha coleção de LPs dos Beatles.


-- O quê? – Quase gritei. – Tá maluco, Lucas? Você era louco por aquela coleção. Levou anos pra conseguir completá-la.


-- Era só um monte de vinis velhos, cobertos de poeira. Quem liga? – Ele ligava. Sei que ligava e muito. – Já estava pensando em vender faz tempo, além disso, tenho todas as músicas no celular.


-- Mas a coleção valia bem mais que isso...


-- Eu sei. Guardei o resto do dinheiro. Vai ajudar bastante nas despesas da casa por um tempo, até a gente conseguir emplacar essa música nova.


E começou a falar do mais novo futuro sucesso da banda dele, que provavelmente seria, na verdade, mais um fracasso. Sempre que lançavam uma música nova era assim, ele achava que seria a música que faria com que fossem vistos. Eu bem que tentava ser otimista, mas depois de tanto tempo, já não conseguia mais. Fiquei comovida com a atitude dele. Lucas era apaixonado pelos Beatles, e aquela coleção era o seu maior orgulho. Cheguei a sentir um nó na garganta quando o ouvi falar que vendeu.


-- Mas, amor, eu já tinha pago a franquia. Não precisava de nada disso...


-- Eu queria pagar, amor. Já me sinto mal o bastante por contribuir bem menos do que você com as despesas da casa. Não achei justo te deixar arcar com o prejuízo.


-- Nós já conversamos sobre isso...


-- É, eu sei, você já disse que não liga, mas eu ligo. Olha, Isa, eu juro que se soubesse fazer outra coisa, já teria desistido da banda, mas eu não sei. Acho que eu não seria bom nem limpando o chão. Eu só sou bom em duas coisas: tocar e te amar.


“Ai! Chega deu uma pontada no coração agora. Mas não de felicidade, e sim de culpa.”


-- Mas se você quiser que eu largue tudo e vá procurar um emprego normal, eu vou. Faço qualquer coisa pra te deixar feliz. Eu amo a música, é o meu sonho, mas você é a minha realidade. E se eu tiver que escolher entre as duas coisas, não pisco nem os olhos. Vou escolher você de cara. Sabe por quê?


-- Por quê?


-- Porque eu te amo mais do que eu amo a música. Porque acho que te amo mais do que a mim mesmo.


Qualquer garota normal se derreteria toda ao ouvir uma declaração daquelas, mas eu fiquei foi preocupada. Não queria que ele se sentisse daquele jeito. Eu o amava, sabia disso, mas nem de longe o amor que eu sentia se aproximava de uma coisa como aquelas. Além do mais, a ideia de ele me amar mais do que a si próprio me deixava muito assustada. Isso parecia meio doentio. Não sei se estava falando a verdade ou se só estava querendo me comprar com as palavras. De todo modo, não podia admitir aquilo. Impaciente com aquela situação, falei:


-- Para, Lucas. Para com isso.


-- Mas é verdade, amor.


-- Pois se é assim que você se sente, trate de tentar reverter. Lucas, ninguém pode amar outra pessoa mais do que a si próprio. Escute o que você tá dizendo... Você disse que largaria a música, que é o teu sonho de toda a vida, se eu te pedisse pra você arrumar qualquer outro emprego por aí. Como você viveria? Totalmente frustrado. Você sabe que eu jamais te pediria isso, mas mesmo que o fizesse, seria idiotice sua se aceitasse.


-- Isa, eu te amo. Não posso sequer imaginar como seria a minha vida sem você.


-- Eu também amo você, mas não posso admitir esse pensamento. Já foi absurda essa história de vender os discos...


-- Tá bom, tá bom... Esquece o que eu falei. Mas sobre os discos, já era. E acredite, eu não fiz de malgrado. Eu precisava fazer, eu queria... Tô me sentindo muito aliviado por ter te devolvido essa grana.


O que ele não lembrava era que já tinha batido o carro outras duas vezes, que já havia tomado tanta multa que cheguei a quase perder a minha carteira de motorista, que todas as vezes que saíamos ou viajávamos, quem arcava com a maioria das despesas era eu, que as despesas da casa, o plano de saúde dele, a conta do celular, as roupas que ele vestia, as cuecas que usava... Tudo era quase que cem por cento pago por mim. Mas eu não iria jogar isso na cara dele. Não podia. Eu havia aceitado aquela situação desde o início e se não estava satisfeita, meu dever era me separar. De todo modo, a atitude dele de vender os discos me comoveu, embora a maioria deles tivessem sido compradas com o meu dinheiro também. Ou seja, tecnicamente, ele não havia pago nada. Mas aquela discussão já estava demasiadamente cansativa, então decidi encerrá-la:


-- Tá bom, amor. Vamos esquecer essa história.


-- É tudo o que eu mais quero. Você me desculpa?


-- Tá desculpado.


-- Coisa boa! – Ele sorriu feliz. – Então vem cá, vem? Vamos fazer as pazes?


E me puxou para um beijo nada tímido. Retribuí sem vontade. Tentei protestar:


-- Amor, tá tarde, tô cansada, amanhã acordo ce...


Mas fui interrompida com um novo beijo. Não tinha jeito, precisei retribuir.


-- Hoje você não me escapa. Tô morrendo de saudade de você. Vem pro quarto, vem? Vou te fazer uma massagem bem gostosa pra você relaxar e depois te faço ter o maior orgasmo da história.


“Pode tentar... Difícil vai ser conseguir. A menos que tenha adquirido o poder da Mística, dos X-Men, e se transforme em uma bela loira de olhos azuis e lábios rosados.”


Nota da Autora: Mística é uma personagem da série de quadrinhos X-Men, da Marvel, que possui o poder de metamorfose, capaz de mudar suas células adquirindo a aparência que desejar e os poderes do que ela se transformar, tanto de humano quanto de animal, ela é uma mestra em manipular pessoas ao trocar sua aparência, assume seus atributos físicos, todas as habilidades, vestimentas e voz.


Fomos para o quarto e ele cumpriu a promessa. Entre beijos e carícias, tirou a minha roupa, deixando-me apenas de calcinha e sutiã. Precisou tirar a dele também – ficando apenas de cueca boxer – porque eu não movi um dedo para isso. Deitei de bruços, e ele começou a massagear as minhas costas. Estava gostoso, mas nem de longe a sensação remetia à excitação. Eu pressentia que teríamos um problema grave na hora H. Aquilo não ia funcionar. Felizmente, eu fui salva pelo gongo... Digo, pela ânsia de vômito. Eu havia comido um sanduíche enorme e me empanturrado de batata frita e refrigerante. Alice ainda arrematou a jacada com uma taça de sorvete. Normalmente só jantava um queijo quente ou uma saladinha com frango, por isso, aquela comida toda havia pesado no meu estômago. Sentindo-me meio nauseada, falei:


-- Amor, não tô me sentindo bem.


-- Quê? O que foi?


-- Não sei, meu estômago... Acho que vou vomit...


Precisei me calar para evitar vomitar na cama mesmo. Levantei correndo e fui para o banheiro. Só deu tempo levantar a tampa do vaso e todo o meu jantar super calórico foi colocado para fora. Lucas me seguiu. Estava nervoso, preocupado, segurava os meus cabelos para não sujarem. Passei muito mal, achei que nunca fosse parar de vomitar, mas incrivelmente estava feliz com aquilo. Antes aquela crise do que fazer sexo com o Lucas por obrigação. O coitado ainda limpou tudo pra mim. Bem que tentei limpar, mas ele não deixou. Senti uma culpa absurda por aquilo. Tomei banho, escovei os dentes e fui deitar. Ele já estava na cama quando cheguei. Falei:


-- Amor, desculpa, eu... eu sinto muito.


-- Tudo bem, meu amor. Eu entendo. Vai dormir, vai. Você precisa descansar. Se sentir alguma coisa, me chama. Boa noite.


E deu-me um beijo rápido nos lábios para se despedir. Pela primeira vez eu estava sentindo o peso dos novos sentimentos que habitavam o meu corpo. Mas então vieram as indagações: será que Alice era a responsável pela minha total falta de interesse no meu namorado? Será que se eu não a tivesse conhecido, aquele pedido de desculpas dele não teria me comovido? Ou será que Fernanda tinha razão, e o meu relacionamento já estava falido? Eram muitos “serás”.


-- Boa noite, amor.


“Não, Lucas, você não entende. Não faz ideia do que está acontecendo. Eu deveria ser honesta com você, mas sou covarde demais para falar. Eu sinto muito, meu amor. Eu sinto muito.”


Será que eu conseguiria encontrar as respostas para aquelas perguntas?


 


 

Notas finais:

Meninas, capítulo desta semana postadíssimo. O dia era amanhã, mas já estava pronto, então antecipei.

 

Não deixem de me contar o que acharam, ok?

 

Abraços e até semana que vem.

Capitulo 14 - Outro Lugar por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main(){

                var Capítulo= 14;

  var Título = “Outro Lugar”;

                var POV= “Alice”;

};

 

“Quero ter o teu encanto, tanto, pra me enfeitiçar
Quero ter você mais perto, pra poder te amar...”

Outro Lugar (Detonautas, 2002)

 

Voltando para casa, após quase ter sido beijada na boca pela minha morena dos olhos de mel, – Sim, porque me recuso a acreditar que essa não foi a intenção inicial dela – eu tentava lidar com aquela sensação que já não era mais momentânea, mas sim constante. Pela leveza que eu sentia, arriscava dizer que já estava até me acostumando com aquilo. Liguei o som do carro em uma rádio qualquer e estava tocando Detonautas, Outro Lugar. Lembrei dos tempos de colégio, da minha adolescência... E percebi que era assim que me sentia naquele instante: uma adolescente.

Aumentei o volume e comecei a cantar junto em voz alta, enquanto usava o volante como bateria:

-- “Eu podia até tentar acreditar nessa ilusão, não sei por que, viagem errada então. O meu caminho me levava a acreditar que eu estava certo, que eu era esperto e coisa e tal... Cara sinistro da zona sul, andando com um monte de santinha pra lá e pra cá, mas com você foi diferente, foi de primeira. Quando eu te vi, até me faltou ar. As oportunidades nessa vida me fazem crer que quando estamos frente a frente, só eu e você, o tempo passa tudo é mais fácil.
Difícil é esquecer o que eu faço quando você se vai. Eu fico aqui bolando planos mirabolantes,
fico inconstante, pareço iniciante. Eu vou fazer de tudo pra trazer você pra perto de mim... Pode acreditar que sim...”

O celular tocou, interrompendo o meu show. Como estava conectado ao som do carro através do bluetooth, apenas acionei o botão do volante para atender. Era Pedro:

-- Fala, seu pateta!

Atendi brincando. Eu estava alegre, divertida... A despeito de todo o desconforto que havia sentido durante a tarde, após a conversa complicada que tive com Giselle, naquele momento, a felicidade havia se apoderado de mim. Minha vontade era de cantar, dançar, pular, gritar... Em certo momento, até desejei que caísse um temporal, só para que eu pudesse parar o carro e sair correndo pela rua, interpretando aquela cena clássica de Cantando na Chuva. Até analisei alguns postes de luz, para ver se encontrava algum em que eu pudesse me pendurar e girar, para arrematar a performance.

O porquê de tanta felicidade? Pasmem, porque eu também pasmei quando me dei conta. Pois bem, o motivo não devia ter mais de 1,63m de altura, mas sua personalidade peculiar, de tão grandiosa, transbordava aquele corpinho pequeno e delicioso, deixando-a gigantesca. É, eu estou falando da minha Mel.

“Isabella... Lindo nome!”

Perdi as contas de quantas vezes já tinha repetido sozinha dentro do carro.

“Isa... Bella... Belíssima e encantadoramente... Como posso definir? Encantadoramente doidinha. Perfeita.”

Sim, perfeita, até nos defeitos. Toda metódica e certinha. Certeza que organizava as roupas por cor. E aquele atrevimento dela, quando não queria ficar por baixo? Ativava todas as terminações nervosas do meu corpo. Coisa mais linda era vê-la se enrolando toda para falar quando estava envergonhada. Mais linda ainda quando perdia o controle de tão nervosa e começava a ter aquelas crises de ansiedade. Aliás, aquilo havia acontecido tantas vezes em apenas dois dias que cheguei a ter o pensamento prepotente de que a causadora de tanto nervosismo era eu. Bom, eu não tinha como saber disso, mas de uma coisa eu tinha absoluta certeza: eu gostava da sensação de conseguir acalmá-la. Ela despertava em mim um instinto de proteção e de cuidado. Despertava ainda outros instintos não tão nobres, mas...

“Gente, quase esqueci do Pedro. Daqui a pouco eu volto a falar do quanto estou embasbacada pela Isa. Vou só atendê-lo rapidinho, ok?”

-- Maldita bastarda. Desertora, sacana, filha da puta! Levamos uma sova do boss porque você não apareceu pro raide. Como tu abandona teus companheiros de clã desse jeito?

“Tá, eu sei... Você não entendeu nada do que ele falou, né? Calma, vou explicar. Pedro e eu fazemos parte de um clã (time) que joga World of Warcraft online (um jogo de RPG) todas as terças e quintas. A revolta dele é porque eu não apareci pra jogar e o clã ficou incompleto. Por esse motivo, eles devem ter perdido o raide (batalha) para o boss (chefão). Deu pra entender mais ou menos?”

-- Puta que pariu, o raide. Foi mal, Pedrão! Esqueci completamente.

Esbravejei falsamente. Eu não tinha esquecido, mas não revelaria nem sob tortura que não me importei em dar bolo neles para ficar de papo com a Isa. Quem poderia me julgar? Acho que Pedro e eu éramos os mais velhos daquele clã. Os outros jogadores não deviam ter mais do que... Sei lá... Treze anos. E nós nem ficávamos juntos de verdade. Era cada um na sua casa, na frente do computador, com um fone de ouvido e um microfone. Coisa mais fria! Com a Isa não... Com ela não era frio, muito pelo contrário...

“Eita, já ia começar a falar da Isa de novo. Voltemos ao Pedro.”

-- “Foi mal” não. Foi péssimo. Tivemos que arrumar outro DPS pra jogar, mas o cara era tão noob que estava mais pra TANK.

“DPS é o cara que bate, no meu caso, a elfa sangrenta guerreira que metia a porrada em todo mundo. TANK é o chamariz da porrada. O papel do TANK é basicamente ficar apanhando pra manter o inimigo ocupado enquanto o DPS toca o terror. E noob é um jogador principiante.”

-- Não julgue o garoto. Você ficou com esse sentimento porque eu sou a melhor DPS que já existiu. Qualquer um parece noob quando comparado a mim.             

-- Ainda por cima, é uma baita de uma cara de pau. Espero que tenha uma boa desculpa, senão vou te banir do clã. O Norte se lembrará, Alice.

-- Eu estava com a Isa!

-- Quê? Tu estava transando com a Isa?

-- Não, seu idiota. Quem falou em transar? Ela me convidou para um lanche, ficamos conversando e perdi a noção do tempo.

-- Ainda bem que eu não comprei aquela tua promessa furada de hoje cedo, porque a parada tá mais séria do que eu pensava.

-- Ei, espera aí, do que você tá falando?

-- Alice Shcultz perdeu a noção do tempo e não foi por causa de trabalho, videogame ou sexo.

-- E o que tem isso? Vai dizer que nunca perdeu a noção do tempo por causa de um bom papo?

-- Já, mas com um brother... Falando de trabalho, videogame ou sexo. Não com uma gata com quem estivesse querendo transar. Bem, pelo menos não até transar com ela.

-- Ora, ora... Encontrei alguém mais cafajeste do que eu.

-- Alice, tu não percebeu ainda, né?

-- O quê?

-- Velho, caralho... Tu tá apaixonada.

“Quê? Como? Por que ele tá dizendo isso? Tá bom, eu tô mesmo viciada no cheiro dela, obcecada por aqueles olhos lindos, tarada naquele corpo delicioso, sedenta daquela boquinha pequena e bem desenhada... Mas isso não significa que eu esteja apaixonada... Ou será que significa? Não, não, não... O nome disso é tesão. É isso, tesão... Com adicional de admiração e encantamento... Ah, que confuso!”

-- Acho que “apaixonada” é uma palavra muito forte.

-- Tá vendo? Se fosse em outra situação, você teria me mandado tomar no cú. Nem consegue mais negar que tá apaixonadinha pela Isinha dos olhos de mel.

Ele tinha razão. Em outra situação, teria mandado mesmo.

“Cara, num é que eu tô apaixonada mesmo?”

Entrei em desespero e retruquei quase chorando:

-- Pedro, o que vai ser da minha vida agora? O que eu faço? Anda, você precisa me dizer algo útil. Vou passar aí pra você me dar um tapa na cara. Pode ser que eu acorde dessa maluquice.

O idiota estava se divertindo às minhas custas. Não parava de gargalhar.

Alguns minutos depois, cheguei à casa dele, que já me recebeu com uma cerveja.

“É um idiota, mas sabe como receber uma amiga desesperada.”

Logo que sentamos no sofá, disparei:

-- Anda, me dá logo uma surra.

-- Sinto te desapontar, mas isso não vai te ajudar. Paixão não passa assim não, Alice.

-- E o que eu faço?

-- Já te disse que não acho uma boa se meter nessa, mas nem vou gastar minha saliva repetindo, porque tu já tá enfiada até o pescoço.

-- Valeu, seu besta. Tá me ajudando pra caralho.

-- Olha, Alice, se te serve de consolo, acho que... Não, eu tenho certeza de que ela tá na mesma vibe.

-- Será?

-- Não tô entendendo essa tua insegurança. Sempre sacou quando uma gata estava na tua. Qual é a noia agora? A fodástica Alice não sabe mais ler as mulheres?

-- Ela é diferente. Não consigo lê-la. Às vezes acho que ela tá a fim, às vezes acho que não...

-- Isso é porque tu tá cega de paixão. Mas como eu tô enxergando perfeitamente bem, vou quebrar teu galho. Ela tá caidinha por você, Alice. Além de estar na cara, a Fernanda ainda deu a entender.

-- Quê? Do que você tá falando?

A informação me assustou, mas também me interessou.

-- Ué, você não viu? Ela forçou a maior barra entre vocês duas. Além disso, quando fomos pegar o sonho, ela perguntou na minha lata se eu não achava que estava rolando um clima entre vocês.

-- E o que você respondeu?

-- Eu não tinha porque mentir, tinha?

-- Não. E ela?

-- Ela disse que dava a maior força e propôs que eu convidasse vocês pra happy hour.

-- Sabia que vocês estavam tramando algo, mas achei que a intenção era forçar um encontro entre você e ela.

-- Bom, bem que eu queria, mas ela parecia mais interessada em vocês duas do que em mim, então...

“Tá bom, eu tô doida com a informação que acabei de receber, mas vou deixar minha euforia de lado um pouquinho pra cuidar da vida sexual desse pastel aqui, senão ele morre virgem.”

-- Ah, mas é um mané mesmo.

-- Ei, por que tá dizendo isso?

-- Ela tá na tua, seu idiota. Devia estar esperando você tomar alguma iniciativa. Mas deixa... Sexta você resolve isso.

-- Você acha?

-- Só você não viu. Ela só faltou se jogar em cima de você. Pateta!

Hilária a cara de felicidade que ele fez quando terminei de falar. Ao mesmo tempo em que ria, levantou e ficou fazendo uma dança estranha bem no meio da sala. Não aguentei e caí na gargalhada. Perguntei:

-- Tá tendo um ataque epilético?

-- Não... Isso é a dança do acasalamento.

“Que figura!”

Gargalhei mais ainda. Ele continuou dançando. Tentando me controlar, perguntei:

-- Por que tá fazendo a dança do acasalamento?

-- Ora, porque vou transar na sexta. É um aquecimento.

E nesse clima descontraído, terminei a minha noite. Saí da casa de Pedro com duas certezas. A primeira, Pedro, daquele jeito tosco dele, era o melhor amigo que eu poderia desejar. Acredita que ele não me baniu do clã, mesmo depois de eu ter assumido que estava me lembrando do jogo, mas não tive coragem de largar a Isa? Tudo bem que me banir seria dar um tiro no pé, porque eu era realmente a melhor jogadora daquele grupo, mas Pedro era um homem orgulhoso. A atitude dele foi nobre. A segunda certeza era: eu estava perdidamente... Não, fodidamente apaixonada... E em tempo recorde, pela Isa.

 

Nos dias que se seguiram, a certeza de que Isa era a mais nova detentora dos meus pensamentos e desejos apenas se ratificou. No entanto, mesmo com toda aquela proximidade entre nós, no trabalho e fora dele, não permiti que meus instintos predadores forçassem qualquer barra. Eu tinha muito medo de fazer bobagem, de me afoitar, afinal, ela era uma mulher comprometida e supostamente hétero. Qualquer passo em falso poderia afugentá-la, e eu simplesmente não conseguia sequer cogitar a ideia de não tê-la, mesmo que tão pouco. Conversar com ela havia se tornado um vício. Nós nos encontrávamos todas as manhãs na padaria, depois seguíamos para o trabalho, passávamos o dia inteiro juntas, com direito a almoço dentro da sala, e no final do dia eu ainda a levava para casa. Não repetimos mais o lanche no food park. Ela não me convidou novamente, e eu tampouco tive coragem de convidá-la. Estávamos próximas, diria que quase íntimas. Amava as nossas guerrinhas de sarcasmos. Ela era craque em me provocar e eu amava revidar. A cada palavra trocada, descobríamos mais sobre a outra e percebíamos o quanto éramos compatíveis nas nuances. Ela era bem discreta ao falar da vida pessoal, mas não foi difícil perceber que não tinha uma relação muito próxima com a família e que ela e o namorado não estavam vivendo a melhor fase. Não me orgulho disso, mas confesso que a percepção de que o relacionamento dela estava por um fio me deixou feliz. A possibilidade de ela ficar solteira, no entanto, não mudava muito as coisas para nós, afinal, até ali ainda era hétero e minha parceira de trabalho, então, não poderia acontecer.

Embora eu estivesse completamente louca por ela, já havia tomado a decisão de não dar asas aquele sentimento intempestivo que havia se apoderado de mim. Só tinha um problema: eu não sabia que a paixão tinha o poder de exorcizar qualquer vontade que pudesse existir de estar com alguém que não fosse “A” pessoa. Descobri isso da pior maneira possível. Na quarta, tentei sair com uma garota que deu match comigo no Tinder. Resultado: deixei a menina falando sozinha enquanto batia papo com a Isa pelo WhatsApp. Quando cheguei em casa, desinstalei o Tinder do celular e fui tomar banho para tirar da cara o cheiro da cerveja que havia sido jogada em mim pela tindergirl, cujo nome eu não me lembro, ao perceber que estava sendo esnobada. Isso me fez perceber que aquela era a segunda vez na mesma semana que eu levava um jato de bebida na cara. Lembrei da Giselle...

Não vi mais a Giselle depois da nossa conversa. Ela não voltou do almoço aquele dia e no dia seguinte, ao perguntar por ela para Jéssica, a recepcionista, soube que havia se afastado por motivos de doença e que só deveria voltar na semana seguinte, após o natal. Não acreditei na doença, no entanto, fiquei preocupada. Pensei em ligar, mas achei que isso só pioraria as coisas, caso fosse dor de cotovelo. Talvez fosse melhor mesmo ela dar um tempo, assim, quando voltasse, a cabeça estaria mais fria e poderíamos ensaiar uma convivência amigável. Para Pedro, ela estava mesmo era tramando algum plano macabro para me exterminar da face da terra.

“Pedro e sua imaginação fértil.”

Aliás, Pedro estava todo animadinho para a happy hour de sexta. Fernanda não havia mais aparecido para o café da manhã, mas após eu muito insistir, ele concordou em ligar para ela. Conversaram por horas e ele finalmente aceitou que ela estava realmente interessada. Na sexta, chegou para trabalhar todo arrumado. As calças cargo largas haviam dado lugar para um jeans escuro, bem justo. Ponto para ele que tinha pernas torneadas e uma bunda redondinha. A camiseta de super-herói havia sido substituída por uma camisa azul marinho de botões, com as mangas dobradas até o cotovelo. A barba estava aparada e o cabelo arrumado. Ele realmente estava disposto a fazer sexo naquela noite. Tirei muito sarro dele.

No final do expediente, foi a vez de Pedro tirar sarro de mim. Isa havia saído da sala, dizendo que iria retocar a maquiagem antes de sairmos. De repente, me deu a vontade de fazer o mesmo. Bem, no meu caso, não de retocar, pois não estava usando qualquer maquiagem aquele dia. Na verdade, só me maquiava quando tinha alguma reunião com cliente ou algum evento de gala. De vez em quando até passava um batom, mas a verdade é que eu detestava ter que me maquiar. Por isso, aquela vontade que se apoderara de mim havia sido no mínimo estranha. Pedro, pensando o mesmo, não deixou barato. Ao entrar na sala e me encontrar passando batom, perguntou confuso:

-- Por que tá passando essa merda na cara? Você detesta.

“É, por que eu tô passando essa merda na cara?”

-- Ah, sei lá! Deu vontade de ficar bonita.

Pedro me olhou incrédulo antes de soltar:

-- Alice, velho, é meio esquisito o que eu vou falar, principalmente porque tu é minha brother. Tô até me sentindo meio viado com isso, mas vou falar mesmo assim: tu é gata, Alice. Tipo... Gata mesmo, sacou? Sem passar reboco nenhum na cara. E se o que tá te preocupando é a Isa não achar isso, relaxa, porque tenho certeza de que ainda que ela te visse caída de bêbada na sarjeta, toda mijada, ainda te acharia gata. Não precisa passar essa merda aí não, porque nem combina contigo.

“A doçura com que ele trata uma mulher não é comovente? Por isso não transa.”

-- E quem disse que é por causa da Isa?

Retruquei sem energia. Se eu não conseguia enganar nem a mim, como eu enganaria o Pedro, que entendia mais dos meus sentimentos pela Isa do que eu mesma?

-- E eu não te conheço, né? Desde quando tu precisa de maquiagem pra se sentir segura em pegar alguém? Isso daí é porque tu tá querendo se mostrar pra ela, que eu sei. Quer que ela te note. Assume logo que fica mais bonito.

Ele tinha razão. Aquilo era patético.

-- Ok, não está mais aqui quem se maquiou.

Já estava tirando um lenço da bolsa para limpar o batom, mas fui interrompida pela entrada intempestiva de Isa na sala:

-- Tô pronta. Vam... – A frase ficou suspensa no ar. Ela emudeceu por alguns instantes, engoliu o nada e continuou. – Você tá usando batom?

Fui pega no flagra. Menti:

-- É... O Pedro disse pra eu passar. Falou que eu estava muito apagada.

-- Quê? Eu não dis...

O pateta retrucou, mas antes que continuasse, dei um chute na canela dele por baixo da mesa. Ele se corrigiu:

-- Ai... Digo... É... Um batonzinho pra iluminar não vai mal, né?

Isa nos olhou confusa, mas deu de ombros. Sem entender a nossa confusão, falou apenas:

-- Nossa, Pedro, você sabe como fazer uma mulher se sentir bem, né?

-- Sim, ele é super sensível.

Ironizei. Rimos juntas enquanto Pedro nos olhava com cara de pastel. Isa me olhou fundo nos olhos, fazendo com que eu tremesse dos pés à cabeça. Voltou a falar:

-- Alice, você tá muito linda com esse batom, mas sabe que não precisa né? Tua boca é tão rosadinha que já parece estar de batom o tempo inteiro.

Emudeci. Como eu poderia lidar com aquilo?

“Isa reparando na minha boca... Nunca pensei. Ou pensei?”

Foi minha vez de ficar com cara de pastel. Fiquei lá, feito boba, a boca abria e fechava, mas não conseguia expressar nada. Não costumava ficar envergonhada com elogios, muito pelo contrário. Eu me achava bonita, sabia que tinha meu charme, então, ser elogiada era apenas uma constatação desse fato. Mas vindo dela foi esquisito de receber. Talvez porque eu não estivesse esperando por aquilo ou talvez porque estivesse me sentindo horrorosa diante da tão maravilhosa imagem dela naquele tubinho preto com um decote em V, que instigaria a imaginação até de uma árvore, a maquiagem realçando aqueles olhos enormes e lindos, os cabelos caindo como um adorno deslumbrante para aquele rosto perfeito e delicado, cujo sorriso poderia iluminar as profundezas das trevas.

Foi ela mesma quem me tirou daquele transe constrangedor, mas apenas para me deixar mais encabulada ainda:

-- Passou blush também? Tá tão corada!

E soltou uma risada gostosa, que embora houvesse saído no intento de me sacanear, mexeu com o meu mais profundo instinto animal. Se eu tivesse deixado me levar, teria levantado e avançado sobre ela ali mesmo, na presença de Pedro. Mas, ao invés disso, desviei rapidamente o olhar, antes que fosse tarde demais. Enquanto eu tentava me recompor, Pedro e ela se divertiam às minhas custas. Foi ela mais uma vez quem falou:

-- Que bonitinha, toda envergonhada.

E foi se aproximando de mim, sorrindo.

“O que você tá fazendo? Não... Não chega perto. Sai daqui, Isa. Sai, ou eu não respondo por mim.”

Parou na minha frente, ainda sorrindo. Senti aquele cheiro alucinante. Tocou e acariciou meu rosto com as pontas dos dedos. Engoli a seco, fechei os olhos e respirei fundo.

“Essa garota tá me provocando e só pode ser de propósito.”

Abri os olhos e encontrei os dela, mas eles não estavam normais. Estavam escuros e me fuzilavam. Quase avancei. Falou em um tom que eu poderia jurar que era provocativo:

-- Até parece que não sabe que é bonita.

Senti uma vertigem forte e achei que fosse cair. Foi Pedro quem me salvou.

-- Ei, vocês sabem que eu tô aqui, não sabem?

Acho que ela finalmente percebeu o quanto aquela situação era inadequada e tratou de se recompor. Afastou-se e perguntou:

-- Então, nós vamos ou não vamos pra esse bar? A Fernanda já deve estar chegando lá?

Antes mesmo de terminar de falar:

-- Vamos.

Eu já estava na porta de saída.

Alguns instantes depois chegamos ao bar. Era um lugar enorme, com vários ambientes. Fernanda já nos esperava em nossa mesa e fez uma festa quando nos viu. Sentamos e começamos a conversar animadamente. O garçom se aproximou para anotar os nossos pedidos e todos se espantaram quando eu pedi uma água. Foi Pedro quem perguntou:

-- Como assim, não vai beber?

-- Não, tô dirigindo.

Mentira. Eu só não queria mesmo era perder o controle. Sabia que se bebesse, correria sérios riscos de agarrar a Isa.

-- Até parece. Mas tem razão. Eu mesmo achei melhor vir de Uber.

-- Eu também. – Fernanda completou.

Isa interferiu:

-- Alice, agora tô me sentindo culpada. Aposto que só veio de carro por minha causa.

-- Claro que não. Eu teria vindo de carro de qualquer jeito.

Tentei usar um tom casual, mas aquilo não era verdade. Sempre que saíamos e eu sabia que ia beber muito, não ia de carro. Pedro sabia disso e me olhou confuso, mas na mesma hora percebeu e calou o que pretendia falar. Isa não comprou o meu papo furado e retrucou:

-- Sei... Vou fingir que acredito. Mas vamos fazer assim, você bebe e eu dirijo. Deixo você na sua casa e depois dou um jeito de ir...

-- Não... Eu não quero mesmo beber, juro. Tô me sentindo meio enjoada.

Mentira.

-- Você não tá bem? Tá se sentindo mal? Quer ir pra casa ou pro méd...

-- Calma, doidinha.

Eu ri. Ela já estava ficando nervosa. Tratei de acalmá-la:

-- Tá tudo bem, só não estou com vontade de beber. Às vezes acontece.

Ela já estava caindo na minha, mas Pedro, como sempre, fez o favor de falar merda:

-- Só se “às vezes” for sinônimo de “nunca”.

“Esse mané vai me pagar.”

-- Pedrão, por que você não chama a Fernanda pra dançar? Olha essa música... Super combina com aquela coreografia que você ensaiou outro dia.

Eu estava me referindo à dança do acasalamento. Ele corou. Perfeito, objetivo atingido.

“Mission complete.”

Fernanda para Pedro:

-- Hummm... Então você sabe dançar, é?

-- Não... Digo... Sei... Mas, mas...

Antes que ele conseguisse formar a frase, Fernanda o arrastou para a pista de dança. Isa e eu ficamos sozinhas na mesa e ela insistiu no assunto:

-- Alice, não tô me sentindo bem com isso. Não é justo que você seja a minha babá.

-- Para, Isa. Já disse que não quero beber. Se eu quisesse, duas cervejas não me fariam mal pra dirigir. Eu tô bem, relaxa.

Ela me olhou incrédula, mas se resignou.

-- Tá bem, vou relaxar, mas só porque hoje é o último dia que vou te importunar com esse lance de carona. Amanhã recebo o meu carro.

Cheguei a sentir uma dor só de pensar que não teria mais a companhia dela na volta pra casa, todas as noites, e ela achando que estava me importunando.

-- Sei... Você tá é aliviada de não ter mais que andar de carro comigo. Pensa que eu esqueci que me chamou de barbeira da primeira vez que te ofereci carona?

Ela soltou uma gargalhada gostosa, antes de responder:

-- Você pode me culpar? Quase me matou atropelada.

-- Quem manda não olhar ao atravessar a rua?

-- Ih, não vamos entrar nessa discussão não, porque você perde. Quem foi que avançou a faixa de pedestre?

Ela tinha razão, eu havia sido a culpada mesmo.

-- Tem razão. Saiba que por sua causa, passei a me preocupar mais com a sinalização, tá?

-- Que ótimo! E o que tá querendo? Uma estrelinha, por não fazer mais do que a sua obrigação?

-- Seria um bom reconhecimento, se quer saber. Além disso, eu paguei minha dívida com você, te dando carona.

-- Nossa! – O riso dela murchou discretamente. – Então as caronas eram com o intuito de pagar uma dívida? E eu aqui achando que você gostava da minha companhia.

Ela entendeu tudo errado. Tratei de me explicar... Ou pelo menos tentei:

-- Não... Não foi isso que eu quis dizer... Eu gosto da tua companhia e...

-- Não precisa se explicar. Já acabou mesmo o teu martírio.

“Tecnicamente é um martírio mesmo, mas não pelos motivos que você deve estar pensando. Martírio é ter que me controlar pra não te agarrar dentro do carro. Mas isso eu não posso falar.”

-- Martírio? – Falei levemente irritada. – Tá maluca, Isa? Acha mesmo que eu ofereceria carona se não quisesse te levar?

Ela voltou a sorrir, e eu não entendi nada.

-- Calma, garota, tô só te zoando. Relaxa!

-- Hahaha... Muito engraçado.

-- Boba! Se quer saber, acho que você dirige muito bem e...

-- E...

-- Vou sentir falta das tuas caronas.

“Page cardio!”

-- Fique à vontade pra vender o carro.

Não resisti em provocar, e ela provocou de volta:

-- Não dê ideia. Vai que eu resolvo acatar.

-- Bom, eu ia adorar ser a sua motorista particular.

“Eu ia adorar ser tudo o que você quisesse.”

-- Você pediria demissão na segunda semana. Sou muito exigente.

“Essa brincadeira não vai acabar bem.”

-- Eu aguento o tranco. Adoro trabalhar sob pressão.

Encaramo-nos por alguns instantes e depois caímos na gargalhada, ambas percebendo que havia chegado o momento de parar com as provocações, antes que fosse tarde demais. Voltamos a falar de assuntos mais seguros e a noite seguiu sem maiores emoções. Bem... Exceto para Pedro e Fernanda, que se atracaram em um canto do bar e por lá ficaram.

Algumas horas depois, despedimo-nos do novo casal e fomos embora. Isa e eu ficamos em absoluto silêncio durante todo o caminho até o prédio dela. Havia um sentimento nostálgico no meu peito que, após muito tentar entender, percebi que era antecipação da saudade que eu ia sentir dela, pois só voltaríamos a nos encontrar na terça, depois do natal. Já parada na frente do prédio dela, tentei diminuir o tempo em que ficaríamos afastadas ao propor:

-- Quer que eu te leve pra buscar o carro amanhã?

-- De jeito nenhum! Não vou te incomodar com isso, ainda mais no sábado.

-- Isa, larga de ser boba. Não vai me incomodar.

Ela me olhou pensativa. Acho que ponderou sobre o assunto, mas mesmo assim negou:

-- Obrigada! Agradeço muito a gentileza, mas a Fernanda vai me levar. Já havíamos combinado.

Eu queria insistir, mas seria esquisito. Resolvi me conformar com o fato de ter que esperar quase cinco dias para vê-la novamente.

Já estávamos paradas havia alguns minutos, mas parecia que ela não queria sair, tampouco eu queria que ela se fosse. Não sei por que fiz, mas acomodei a cabeça no volante e fiquei olhando para ela, que sorriu com um ar que eu poderia jurar que era de encantamento.

-- Tá cansada, né? Vou subir... Deixar você ir embora.

-- Não, eu não tô nada cansada.

-- Tá sim, já tá até tendo que encostar a cabeça.

-- Não, não é isso... É que...

“É que eu quero te admirar e o ângulo é bom.”

-- É que...?

Voltei à posição normal. Não podia externar o que estava sentindo. Estava tendo dificuldades de assumir até para mim, imagine para ela. Resolvi acabar com aquela tortura. Não ia acontecer, não podia acontecer. Melhor mesmo era ir logo embora.

-- Nada. Tem razão, eu tô meio cansada mesmo. Melhor eu ir.

Olhou-me com certa dúvida, mas não me questionou. Ao invés disso:

-- Tá bom... Boa noite, então.

Sorri.

-- Boa noite, então.

Ela sorriu também.

-- Bom final de semana.

Era como se procurássemos assunto mas retardar a despedida. Havia um intervalo longo entre uma fala e outra.

-- Pra você também... E feliz natal. Até terça.

-- Verdade, tem o natal. Só te vejo de novo na terça, né?

Ela falou melancólica.

“É. Triste né? Também vou sentir saudade.”

-- Acho que sim.

-- Feliz natal, então.

Sorrimos. Ela se aproximou. Já sabia o que ia fazer: ia beijar meu rosto, como fez todas as noites ao se despedir. Apenas esperei que o fizesse, deixando-me mais uma vez naquele estado de êxtase o qual eu já havia me habituado a sentir.

“Espera, ela não tá desviando. A boca dela está vindo em direção à minha”

A penumbra do carro não permitia que eu visse a cor de seus olhos, mas não me impediu de ver a expressão de desejo e o brilho que vinham deles. Ela não ia beijar o meu rosto. Estava se movendo lentamente em direção à minha boca. Se eu tinha qualquer dúvida sobre sua intenção, essa se esvaiu quando suas mãos seguraram o meu rosto e a boca dela chegou tão perto que senti seu hálito.

-- Eu amo os teus olhos, Alice.

Falou em um fio de voz, e tive que engolir a seco. Acho que de todas as sensações novas que eu havia conhecido ao longo da semana, aquela foi a que mais mexeu comigo. Cada célula do meu corpo clamava por aquele contato. Beija-la era tudo o que eu mais queria, no entanto, eu temia demais aquela situação. Ela havia bebibo, estava com as emoções alteradas. Pelo pouco que eu a conhecia, dava para saber que se estivesse sóbria, jamais teria tido um ímpeto como aquele.

“Daí você deve estar se perguntando: ‘mas por que você tá preocupada com isso, Alice?’ Pois é, estou me fazendo a mesma pergunta. Parece muito errado ceder a esse desejo desta forma. E se ela se arrepender? ‘Se’ não, porque ela vai. E as coisas não vão ficar legais entre nós, se isso acontecer”

Continuou:

-- Eles me hipnotizam.

“Os teus fazem o mesmo comigo.”

Desceu os olhos para os meus lábios. Eu tremia da cabeça aos pés. Estava louca de vontade de agarrá-la, mas sentia todo o peso daquela situação nas minhas costas. Permaneci estática, tentando controlar a respiração, enquanto ela falou:

-- E essa boca? Tem noção do quanto ela me enlouquece?

-- Isa...

Consegui sussurrar. Absolutamente excitada, porém, completamente apavorada.

-- Desde o primeiro dia, eu quis sentir o gosto.

-- Isa, por favor.

“Que viadagem é essa, Alice? Você tá doida pra beijar a garota. Beija logo.”

Ela aproximou os lábios...

-- Isa, para.

“Tá louca, Alice?”

-- Por que, se eu sei que você também quer?

“Sabe? Pois é, eu quero... Quero mais que tudo.”

Roçou os lábios nos meus.

“Deus, eu vou ter um infarto. Sim, é isso que você leu:  agora eu acredito em Deus.”

-- Isa, você bebeu e...

-- Eu nunca estive tão lúcida.

Mordeu meu lábio inferior.

“Que delícia! Tá esperando o quê, Alice? Beija logo essa mulher...”

-- Isa, não...

A voz quase não saiu.

-- Por que não?

“É, por que não? Beija logo...”

Passou de leve a ponta da língua nos meus lábios.

“É agora. Não vou resistir.”

­-- Isa...

“Isa nada. Anda logo com isso, Alice!”

-- Eu... Nós... Melhor não.

-- Vai negar que quer?

-- Eu quero... Quero muito.

Roçou de novo os lábios nos meus.

-- Então me beija.

“Isso, beija.”

-- Não podemos... você... o Lucas.

“O quê? Tá louca? Idiota, covarde...”

Falar no Lucas foi o que bastou para que ela voltasse à realidade. Afastou-se de uma vez de mim. O distanciamento me causou algo muito parecido com dor. Arrependi-me na hora de ter invocado o nome dele. Nervosa, falou:

-- Tem razão. Não sei onde eu estava com a cabeça. Eu... Eu... Desculpa, Alice.

-- Ei, não fica assim...

Tentei toca-la, mas ela se desvencilhou.

-- Não... Eu... Tenho que ir. Obrigada pela carona. Tchau...

-- Isa, espera...

Mas foi tarde demais. Ela já havia saído em disparada.

“Idiota, estúpida. Desde quando a tua consciência pesa com traição, Alice? Por que não beijou?”

Esmurrei forte a direção do carro.

“Que raiva de mim. Por que eu simplesmente não beijei? O que tá acontecendo comigo?”

Eu não era mais eu mesma. Estava conhecendo, na marra, uma versão boba e apaixonada de mim, algo que jamais imaginei que pudesse me acontecer. Até consciência eu tinha adquirido. Em uma situação normal, eu teria agarrado Isa ali mesmo, dentro do carro, subido para o apartamento dela sem dar a menor importância para o namorado. No outro dia, a vida seguiria seu curso normal e a minha única preocupação seria encontrar desculpas para me desvencilhar se suas investidas, caso ela quisesse repetir. Mas, com Isa, eu não queria que fosse assim. Com ela, eu queria... queria... mais. É isso. Eu queria muito mais dela... muito mais do que ser seu experimento lésbico, muito mais do que sexo casual, muito mais do que ser um escape para um relacionamento frustrado. Eu queria que ela me quisesse da mesma forma e com a mesma intensidade que eu a queria.

“Por que isso está acontecendo comigo. Eu estava tão satisfeita com a minha vida fútil e desprovida de sentimentos... eu era feliz assim. Estava bem, jamais havia reclamado. Logo eu, a rainha da pegação, agora aqui a ponto de ter uma crise de choro por estar se sentindo apaixonada por alguém a quem eu não posso ter, porque já é de outro. É, parece que esse lance de justiça divina é coisa séria.”

Cheguei em casa arrasada. Um aperto tremendo no coração. Eu conseguia sentir o cheiro do perfume dela em mim. Nunca havia me sentido daquela forma em toda a vida... Eu estava desesperada por ela. Era mais do que vontade, era necessidade. Eu precisava tê-la, mas será que um dia eu a teria?

 

 

Notas finais:

Meninas, 

Capítulo da semana postado. 

Espero que estejam gostando da história.

Não deixem de me contar o que estão achando, ok?

Obrigada por estarem acompanhando.

Abraços e até a semana que vem.

Capitulo 15 - Firework por linierfarias

Static void Main (){


                var Capítulo= “15”;


  var Título = “Firework”;


                var POV= “Isabella”;


};


 


“Do you ever feel like a plastic bag, drifting through the wind, wanting to start again?


Do you ever feel... feel so paper-thin, like a house of cards, one blow from caving in?”


 


Firework (Katy Perry, 2010)


 


Sabe aquele filme Matrix? Pois é, em determinado momento do filme, Morpheus se encontra com Neo para explicar que o mundo no qual ele acha que vive não passa de uma simulação de computador, onde os humanos são meros escravos de um poderoso sistema, denominado Matrix, que controla a mente humana através de máquinas. Após revelar essa notícia bombástica, Morpheus dá a Neo a possibilidade de escolher entre duas pílulas, uma azul ou uma vermelha. Se escolhesse a pílula azul, Neo voltaria à sua vida ilusória, mas se optasse pela pílula vermelha, conheceria a verdade que estava por trás do mundo que ele julgava ser real.


O dilema do pobre Neo era o seguinte: “agora que eu sei a verdade, o que vou fazer? Se eu tomar a pílula azul, tudo vai ser mais fácil. Vou voltar, como se nada tivesse acontecido, para o mundo que eu conheço, onde já me viro muito bem, mas vou estar vivendo uma mentira. Se eu tomar a pílula vermelha, vou conhecer quem eu sou de verdade, a minha real natureza, o que de fato me mantem vivo. Mas será que vou saber lidar com o que eu não conheço? E se a verdade for assustadora demais, complicada demais, confusa demais? E se eu não conseguir lidar com a realidade? A pílula vermelha pode ser a minha salvação, mas também pode ser a minha perdição.”


Acontece que o Neo era um baita de um fodão. Ele não tinha medo de nada, então, sem pensar muito, tomou a pílula vermelha e começou a andar para cima e para baixo com aquele sobretudo bacana e aqueles óculos fininhos. Eu, no entanto, era uma tremenda de uma arregona. Já viu o Coragem, O Cão Covarde? Prazer, Coragem. Bastava me encontrar em uma situação complicada que já entrava em pânico e gritava o nome da Muriel. Só que no meu caso a Muriel era a Fernanda.


-- Por que eu tenho que ser a Muriel? Ela não é uma vovozinha que mora em um rancho no meio do nada? Não, eu quero ser a Trinity, com aquele cabelo estiloso, cheio de gel. Já viu como eu fico gostosa usando couro? Cara, eu fico muito sexy.


“Caso não saiba, a Trinity também é uma personagem do filme Matrix. E caso não tenha assistido Matrix, por favor, assista.”


-- Fernanda, por que você não me leva a sério, hein?


-- Como se desse pra levar a sério alguém que explana um problema sentimental fazendo analogia a um filme de ficção científica.


-- E que você queria? Acha que com um QI de 140 eu teria saco pra assistir comédia romântica?


-- Vem cá, todo nerd é metido assim ou esse é um defeito só teu?


-- Eu não sou nerd.


-- Você tem uma prateleira cheia de troféus das olimpíadas de matemática do colégio e a tua squeeze tem o formato daquele robozinho redondo do Star Wars.


-- O nome dele é BB8.


-- Olha aí, tá vendo?


-- Fernanda, foco.


-- Tá bom, tá bom... então, deixa eu ver se entendi: eu sou o Morpheus.


-- Isso.


-- Não posso mesmo ser a Trinity?


-- Fernanda...


-- Tá, chata. Não sabe nem brincar. Então eu sou o Morpheus e você é o Neo.


-- Ahan.


-- E a pílula azul é o mané do teu namorado.


-- Sim, a pílula azul é o meu namorado, que não é mané.


-- Então não estamos falando da mesma pessoa...


-- Chega, eu desisto. Vou embora.


Nós estávamos almoçando no shopping, após ela ter ido até a oficina comigo para buscarmos o meu carro.


-- Ok, calma... a pílula azul é o Lucas, que não é mané, e a pílula vermelha é a Alice.


-- Exatamente.


-- Tá ferrada.


-- Por quê?


-- Porque esse Morpheus com corpinho de Trinity aqui não vai te dar opção de escolher pílula azul nenhuma.


“Meu Deus, será que ela não consegue enxergar a gravidade da situação?”


-- Olha, eu não sei porque insisto com você, sabia?


-- Isabella, acorda pra Jesus, mulher! Não vê que não quer tomar pílula azul nenhuma? Tá é doidinha pra ter uma overdose de pílula vermelha, que eu sei... não consegue mais nem se controlar os impulsos.


Ela tinha razão. Eu estava tão gamada na Alice que sequer conseguia enxergar o Lucas naquela situação toda. Havia perdido completamente o senso lógico das coisas. Aquele ataque no carro foi movido puramente pelos meus instintos mais primitivos, aqueles que jamais haviam se manifestado até conhece-la. Toda a necessidade que senti de tê-la por perto desde a primeira vez que a vi, cumulada com à proximidade torturante entre nós e adicionada à ideia de que eu passaria muitos dias sem ver ou falar com ela, levou-me automaticamente àquela situação. Eu ansiava por aquele contato mais do que um náufrago ansiava por terra firme. Só conseguia pensar nela, em estar com ela, em ser dela, nem que fosse só uma vez. A pele era tão macia... Senti duas vezes naquela mesma noite. A boca tão linda, naquele tom róseo. Aproximei-me e senti seu corpo tremer, a respiração se alterar, os olhos azuis adquirirem um tom escuro... aquilo foi combustível para o meu desejo. Ela me queria também, eu sabia que queria. Senti o hálito doce, quente... fui ao delírio só pela antecipação do beijo. Meu estado era de total alucinação. Ela era a minha droga, e eu estava completamente dependente. Podia ter feito o que quisesse comigo ali mesmo, dentro do carro, na frente do meu prédio. Eu não ousaria impedir. Então ela invocou o nome do Lucas e foi como se um balde de gelo tivesse sido derramado sobre a minha cabeça. Acordei daquele sonho e comecei a viver meu pesadelo, ao constatar que, por mais que nada tivesse efetivamente se concretizado, eu havia acabado de trair o Lucas. Sim, trair, porque aquilo foi traição. Mas sabe o que foi engraçado constatar? Eu não me senti culpada. Não por aquilo.


-- Então, o que eu faço? Não tenho nem cara de olhar pra ela, depois daquele rompante de ontem. Ainda por cima, levei um fora. Ah, que vergonha!


Cobri o rosto com as mãos e balancei a cabeça em negativa. Pior do que tudo o que nos impedia de ficarmos juntas foi aquela negativa. Ela queria... deixou bem claro desde o primeiro dia. Eu estava tão fácil, era só pegar. Por que resistiu daquele jeito? Aquilo não entrava na minha cabeça de jeito nenhum.


-- Que fora? Tá maluca?


-- E como você chama aquela saída estratégica pela tangente?


-- Isa, vem cá, amorzinho. Senta aqui que a titia vai te explicar o que tá acontecendo. Você pode até ter esse QI fodástico aí, mas quem entende tudo de comédia romântica aqui sou eu. Vou até te indicar uns títulos depois...


-- Para de me zoar, caramba.


-- Não tô te zoando. É sério.


-- Fê, eu tô desesperada.


-- Amiga, as coisas são mais simples do que parecem. Primeiro, vou repetir pela milionésima vez: você está em um relacionamento falido, Isabella. E está extremamente frustrada com isso. E tem mais, não ache que a Alice tem qualquer coisa a ver com essa tua falta de interesse pelo man... digo, pelo Lucas. Tá bom, até acho que a chegada dela serviu pra te dar uma sacudida, mas você já vinha fugindo dele faz tempo, que eu sei. Não percebe que está maltratando a vocês dois ao insistir nisso? Até quando acha que vai conseguir desviar das investidas dele pra fazerem sexo?


-- Eu...


-- Shiiii... calada! Foi uma pergunta retórica. Quero que reflita silenciosamente sobre isso. Agora, vou continuar. Então, sua coisinha insegura, a Alice não te deu fora coisa nenhuma. Muito pelo contrário.


-- Como assim?


-- Tá vendo como é lenta para as coisas do coração? Isinha, sua bobinha, a Alice não te beijou porque tá louca por você.


“Quê?”


-- Agora que eu não entendi mais nada mesmo.


-- Meu Deeeeus! Alguém me mata com a faca da cozinha, por favor? Espera, vou pegar caneta e papel pra desenhar. Isa, ela tá aterrorizada. Raciocina comigo. A Alice vivia uma vida confortável de predadora. Ficava com todo rabo de saia que passava pela frente, não se apegava a ninguém. Então, conheceu você e pimba. Gamou. E você aí toda complicada, hétero, comprometida, colega de trabalho dela... como acha que ela tá lidando com isso? É muita coisa pra administrar. E você não enxerga isso porque é insegura e está tão presa nos teus próprios dilemas que não percebe que ela está tendo que enfrentar os dela também.


-- E de onde você tirou que ela tá gamada em mim? Quem garante que eu não sou só mais uma presa?


Revirou os olhos antes de falar:


-- Só um cego não vê. Amiga, na próxima oportunidade, vou tirar uma foto pra te mostrar a cara de boba que ela fica quando está te olhando. Isa, a mulher te idolatra. Ela te olha com encantamento, só falta babar. Não percebe? Ela tá apaixonada por você, do jeito que você está por ela.


“Qual a velocidade máxima que um coração pode bater? Apaixonada? Como assim? Bem, não vou bancar a modesta e dizer que não sabia que ela me queria, mas pensar em Alice apaixonada por mim, por essa, eu não esperava.”


-- Ai, Fê, isso só piora as coisas. Agora que não sei mesmo o que fazer.


-- Olha só, vou te mostrar que sou uma Morpheus melhor do que o do filme. Por hora, vou te dar uma pílula bem mais eficaz do que a vermelha ou a azul. O efeito dela é paliativo, mas vai te fazer relaxar um pouco pra poder refletir sobre o teu dilema shakespeariano.


“Ser lésbica ou não ser lésbica? Eis a questão.”


-- E que pílula é essa?


-- Uma pílula de vitamina B.


-- Vitamina B?


-- Sim, B... de brusinha. Já que estamos de bobeira no shopping em um sábado à tarde, vamos fazer compras. Comprar renova os ânimos, relaxa, restaura, revigora... Quem compra seus males espanta...


Inevitável gargalhar.


-- Fernanda, você não existe.


-- Eu sei. Sou peça rara, por isso, você me ama. Vem, anda logo que quero te contar do Pedro.


“Menina, esqueci do Pedro. Sou uma péssima amiga mesmo, viu!”


-- O Pedro... e então, foi bom? Vocês...


-- Umas cinco vezes.


-- Cinco?


Falei mais alto do que o normal e acabei chamando a atenção de uma senhorinha na mesa ao lado. Levei uma das mãos à boca envergonhada, enquanto Fernanda ria da minha confusão. Voltei a falar, mas em um tom sussurrado:


-- Cinco? Caramba, Fê?


“Como alguém consegue fazer sexo se cinco vezes seguida? Eu mal dou conta de uma...”


-- Ahan! Ele tem aquela carinha de bobão, mas é uma caixinha de surpresas.


Ela falava em um tom malicioso e com um sorriso sacana na cara.


-- Tá bom, conta. Mas não quero ouvir os detalhes sórdidos.


-- Ah, não... fica me alugando de guru do amor e de outros dilemas aí e não quer ouvir minha história? Pois vai ouvir sim, cada detalhe.


Ela tinha razão. Era o mínimo que eu devia.


-- Ai, pois conta... Já vi que vai rolar segundo encontro.


-- E tem como não rolar? Esqueceu que você o convidou pra minha festa sem me consultar?


-- Deixa de bancar a gostosa, porque você adorou.


E a tarde seguiu nesse clima de descontração. Fernanda tinha razão, a tal vitamina B surtia excelentes efeitos mesmo. Durante aquela tarde com ela, consegui me desfocar um pouco do amontoado de confusões que havia se instalado em minha mente.


Cheguei em casa me sentindo bem melhor. Durante o caminho de volta, sozinha no carro, voltei a pensar em tudo. Tentei decidir se deveria ou não entrar em contato com Alice para falar sobre o acontecido, mas como não fazia a menor ideia do que falar, acabei desistindo. Uma coisa que estava me incomodando também era o silêncio dela. Acabei ficando obcecada pelo meu celular, na expectativa de receber qualquer mensagem que não chegava. Mas o que ela poderia falar? Depois concluí que se Fernanda tivesse razão e ela estivesse realmente apaixonada por mim, então deveria estar tão confusa quanto eu. Resolvi dar tempo ao tempo. Os próximos dias distantes dela me dariam a oportunidade para refletir.


O problema, no entanto, seria encarar o Lucas, que àquela altura já estava para chegar de viagem. Agradeci mentalmente ao lembrar que viajaria de novo no domingo, mas enquanto não fosse, eu teria que encarar o meu martírio. Quando ele finalmente chegou, nem dei espaço para que pensasse em qualquer aproximação mais íntima. Cumprimentei rapidamente e já fui falando que estava com cólicas. Enquanto jantávamos, ele contou como havia sido a viagem e o show. Gelei quando me perguntou sobre a happy hour. Tentei usar um tom casual ao falar sobre o assunto e agradeci ao deus da mentira por ter me feito lembrar da Fernanda e do Pedro, pois se fosse falar sobre mim e Alice, certamente teria dado a maior bandeira, como péssima mentirosa que sou. Tentando encerrar a conversa, declarei que não estava me sentindo muito bem e fui deitar. No outro dia, acordei e fingi continuar dormindo até perceber que ele estava para sair. Desejou-me feliz natal, despediu-se e partiu. Alívio.


Depois da saída de Lucas, fui me aprontar para ir à casa de meus pais. Era véspera de natal e a família Ferreira era extremamente tradicional em relação a isso. Como era de praxe, cheguei cedo para ajudar nos preparativos. Minha mãe era tipo a agregadora da família. Fazia questão de convidar para a ceia toda a nossa árvore genealógica viva, mais agregados. A festa seguia todo o padrão de um bom e tradicional natal de família católica. Muita comida, muito vinho... cerveja não podia, porque era pecado. Vinho não. Outra coisa que não faltava era o amigo oculto. Era a pior parte, porque eu sempre sorteava alguma prima que detestava meu gosto para roupas e não conseguia disfarçar, algum primo que após receber uma, de praxe, camisa gola polo, se achava no direito de dar em cima de mim, ou algum tio ou tia que adoravam repetir a história do quanto a Isa era dentuça e desengonçada quando era criança e ia passar férias na casa deles, o que também acabava por ativar o modo “primo safado”, fazendo algum dos babacas se aproximar com desculpa de comentar que eu havia mudado e ficado mais bonita. Para arrematar, eu sempre ganhava um hidratante ou uma caixa de sabonetes. Depois vinha oração, ceia e a conversa fiada na sala. Meus irmãos é que foram espertos ao mudarem de cidade. Não precisavam passar por aquilo.


Já era quase 1h da madrugada quando finalmente decidi ir para casa. Minha mãe ainda insistiu para que eu ficasse, mas eu já não aguentava mais ouvir uma palavra do primo médico que se achava a criatura mais bem-sucedida da família e não parava de se gabar por sair nas colunas sociais e por ter comprado um carro importado.


Não dei atenção ao meu celular a noite inteira. Estava dentro da bolsa e mesmo depois que cheguei em casa, não lembrei da existência dele. Só vim me dar conta quando já estava deitada para dormir. Desbloqueei para checar se havia alguma mensagem do Lucas e congelei quando vi uma única notificação do WhatsApp. Era dela. Enviada meia noite em ponto, um simples e singelo:


-- Feliz Natal!


Com um emoji de papai noel do lado.


Eram duas palavras... duas simples palavras. Um cumprimento formal e tradicional para a data. Mas por que eu estava achando que aquilo significava bem mais? O que havia por trás daquele simples “feliz natal”?


Quem primeiro me respondeu essa pergunta foi um pequeno Lucas, vestido de anjinho, que pousou no meu ombro direito. Enquanto me estendia a mão que segurava uma pílula azul, falava:


“Deixa de ser boba, Isa. Ela com certeza enviou a mesma mensagem para toda a lista de contatos do celular. Você foi só mais uma. Não se julgue tão especial. Tome a pílula azul e deixe essa história de lado. Venha para mim. Nós temos uma vida estável, confortável... você gosta disso, não gosta? Gosta de certezas, de segurança. Anda, Isa, tome a pílula azul...”


Eu já estava estendendo a mão para pegar a pílula, mas então senti uma espetada no meu ombro esquerdo. Era Fernanda. Ela me cutucava com um tridente, usava um collant vermelho de couro, tinha rabo e chifre.


“Num é que a danada fica bem de couro mesmo?”


Com a outra mão, estendia-me uma pílula vermelha, enquanto falava:


“Oh, sua idiota, não vê que ela estava louca de vontade de falar com você e não sabia como puxar assunto? Se aproveitou do natal pra te cumprimentar. Anda logo, toma essa merda de pílula e vai responder o WhatsApp.”


“Não preciso nem dizer a quem eu dei ouvidos, preciso?”


-- Oi! Feliz natal pra você também.


Respondi e enviei uma carinha feliz. Acho que ela devia estar com a caixa da nossa conversa aberta, porque no mesmo instante fui notificada do recebimento e da visualização. Tive a certeza quando quase que de imediato recebi a mesma carinha feliz de volta. Aquela conversa não poderia e nem iria acabar ali, pelo menos no que dependesse de mim. Eu estava morrendo de saudade. Queria ter nem que fosse um pouquinho dela, ainda que só por mensagem. No entanto, não tive coragem de tocar no assunto que permeava a minha mente. Então, resolvi brincar:


-- Deve estar lambuzando o celular todo com essa mão suja de peru.


-- Ei, eu sou limpinha, tá? Já comi e já lavei as mãos.


“Limpinha e cheirosa... e linda... e gostosa... E eu sou muito lésbica.”


Enviei carinhas de risos. Ela perguntou:


-- E então, como tá a festa?


-- Não sei. Não fiquei pra ouvir o final da história da minha tia viúva que recentemente passou a frequentar o baile dos idosos.


-- Não acredito que saiu na melhor parte. – Várias carinhas gargalhando.


-- Pois é, sou dessas que saem correndo no melhor da festa.


Não sei porque cargas d’água falei aquilo. Eu tinha me prometido que não faria referência ao nosso último encontro. Não foi uma referência muito clara, mas ela era inteligente o bastante para entender as entrelinhas. Prova disso foi que levou segundos infinitos até que enviasse uma nova mensagem. Quando o fez, já foi mudando de assunto.


-- Acredita que fui abandonada em pleno natal pelo babaca do Pedro? Não fazem mais melhores amigos como antigamente. Tô pensando em adotar um cachorro...


-- Não acredito. Sério?


-- Seríssimo... e tudo por culpa sua?


-- Quê? E o que eu tenho a ver com isso?


-- Apresentou a Fernanda pra ele e agora o cara tá gamado.


-- Kkkkkkkkkkk... Ele saiu com ela?


-- Sim, estávamos aqui de boa, derrubando a segunda garrafa de vinho e jogando Guitar Hero. Pouco depois da meia noite, o celular dele tocou e era a Fernanda. Acho que eles não trocaram nem três palavras, ele desligou e já saiu correndo. Mal falou comigo.


-- A pilantra nem me falou nada.


-- Tô te falando, vai por mim. Melhor arranjar um cachorro. – Mais carinhas de riso.


-- Até que não é má ideia trocar a Fernanda por um cachorro.Emoji penando.


-- Cachorros não abandonam os donos sozinhos em pleno natal.


-- É... e não te julgam quando você conta um problema.


-- Exatamente. No máximo, te dão umas lambidas.


-- Sim, e isso nem é julgamento. É carinho.


-- Verdade... só tem o problema de ter que levar pra passear, né?


-- Ahan... e dar banho.


-- Ah, limpar cocô também não é legal.


-- Pois é... pelo menos nunca tive que limpar o cocô da Fernanda.


-- Sorte sua. Eu já limpei o vômito do Pedro.


“Quê? Deus me livre! Eu matava a Fernanda se me fizesse passar por isso.”


Enviei carinha de nojo e completei dizendo:


-- Se eu vir alguém vomitando, já era... vomito também.


-- Uhnnn... Que conversa mais interessante!


-- Kkkkk... de fato! Como chegamos aqui mesmo, hein?


-- Péssimos melhores amigos.


-- Ah, é mesmo.


-- Então resolvido: você fica com a Fernanda, que não vomita, não suja as calças e não te abandona. Eu vou arranjar um cachorro pra substituir o Pedro.


-- Kkkkk... Boba!


E nesse clima descontraído e relaxado, conversamos até os primeiros raios de sol atravessarem a janela do quarto. Alice era uma verdadeira palhaça, e eu estava me divertindo tanto com as bobagens dela que nem percebi o tempo passar. O mais engraçado era que embora meu senso de humor fosse bem desenvolvido, havia algum tempo que andava meio sisuda, sem ver muita graça em nada. Eu parecia estar em um estado de mau humor constante, uma TPM eterna. Nem as palhaçadas da Fernanda, que sempre me divertiram, pareciam mais ter graça. Mas com Alice era diferente, a menor bobagem que ela falava já me fazia rir horrores e despertava em mim uma vontade insana de brincar de volta.


Nossa conversa não foi toda voltada para brincadeiras. Falamos de muitas outras coisas também, dentre elas, trabalho. O que não mencionamos de jeito nenhum foi o meu ataque insano da noite de sexta. Não sei como consegui me controlar, pois estava louca de vontade de abordar o tema. Precisava saber o que estava se passando pela cabeça dela, mas ter aquela conversa por WhatsApp parecia inadequado, além disso, queria olhar fundo naqueles olhos azuis quando ela estivesse se explicando.


Ainda trocamos algumas poucas mensagens naquele dia. Poucas, porque dormi a manhã inteira e quando acordei, já dei de cara com Lucas. Almoçamos juntos e passamos o resto da tarde vendo TV. Mais uma vez, precisei encontrar desculpa para escapar das investidas sexuais dele. A daquele dia foi uma indisposição devido à falsa ressaca. Essa não colou e tivemos uma discussão. Não dei o braço a torcer... não poderia, nem que eu me esforçasse muito. Como eu faria sexo com ele se só conseguia pensar na Alice?


Minha cabeça estava uma bagunça, ainda mais depois de ouvir Fernanda falar sobre os sentimentos da Alice por mim. Eu a queria, eu precisava dela, precisava viver aquilo, mas, e o Lucas? Fernanda não tinha me falado nenhuma mentira, eu sabia que meu relacionamento estava falido. O problema era que não conseguia achar certo terminar com ele. Mais de dez anos de um relacionamento que, sim, teve muitos problemas, mas que também foi muito bom. Lucas poderia ter os defeitos dele, mas sempre foi muito parceiro, muito amigo. Sempre esteve lá para mim, dando apoio, atenção, carinho... segurando várias barras. Eu não sentia mais qualquer atração por ele e sabia que provavelmente jamais voltaria a sentir, mas, e a consideração? A amizade? A parceria? Como eu poderia trocar tudo aquilo por uma paixão desvairada que eu nem sabia se teria futuro?


Na terça, reencontrei Alice no café da manhã, como já era de praxe. Senti meu coração palpitar assim que a vi. Foi difícil resistir à vontade insana de me jogar em seus braços. Eu queria muito conversar, mas Pedro também estava, por isso, o foco do assunto foi a história dele com Fernanda. No decorrer do dia, tudo conspirou para que não ficássemos as sós. Tivemos uma reunião com Leandro logo cedo e em seguida reunimos a equipe a fim trabalharmos estratégias para o cumprimento do cronograma do projeto. Na hora do almoço, Leandro se juntou a nós para tratar dos detalhes de nossa viagem, que aconteceria logo após à virada de ano. A tarde também foi focada no trabalho e às 18h em ponto Alice anunciou que precisava ir embora, pois tinha um compromisso. Acho que não consegui disfarçar a cara de decepção. A primeira coisa que pensei foi que ela iria se encontrar com Giselle, que havia reaparecido após quase uma semana ausente. Aquilo tirou completamente o meu humor e cheguei em casa cuspindo fogo para todo lado. O pobre do Lucas foi quem pagou o pato, porque reclamei da toalha molhada, da tampa do vaso levantada, da mancha de copo na mesa de centro, do volume alto da TV, da temperatura do ar condicionado, da barba dele arranhando quando foi me beijar...


“Enfim, deu pra ver que eu tô P da vida, né?”


O bom foi que nem precisei encontrar desculpa para fugir dele àquela noite, pois meu comportamento o irritou tanto que foi dormir na sala. Sorte dele que dormiu, porque eu não consegui pregar o olho, pensando no que Alice poderia estar fazendo naquele exato momento. Olhei mil vezes para o celular, pensei em enviar mensagem, mas não fiz. Esperei que ela me enviasse ao menos um “boa noite”, mas também não aconteceu.


“Ela tá com a Giselle. Só pode estar.”


O resto da semana não foi muito diferente. Mal falamos sobre algo que não fosse trabalho. Até as conversas de WhatsApp haviam parado. Eu podia estar enganada, mas parecia que Alice estava evitando ficar a sós comigo. Havia sempre uma reunião ou um compromisso externo. Almoçarmos só nós duas era algo que não acontecia mais também. Quando não era Leandro, era Pedro nos fazendo companhia. Na quinta, eu já havia desistido de tentar. Estava completamente frustrada com aquele comportamento indiferente dela para comigo. Minha certeza absoluta àquela altura era que ela e Giselle haviam se entendido. Foi naquela semana que descobri o real significado da palavra “ciúme”. Como eu não podia simplesmente arrasta-la para um canto e tirar satisfações, vez que não tínhamos nada uma com a outra, descarreguei toda a minha frustração no resto do mundo. Meu humor havia se esvaído no ar. Não conseguia sorrir... era um estado constante de irritação.


Passei o sábado inteiro em casa, emburrada. Agradecendo mentalmente o fato de Lucas estar viajando, pois não estava com o menor saco para interagir com ele. Fernanda tentou me arrancar de casa, mas nem ela foi capaz. Pensei em desistir de aparecer na festa dela, no dia seguinte, mas quando fiz menção, fui ameaçada de morte.


Domingo chegou... último dia do ano. Eu estava pronta para a festa. Havia me vestido e me maquiado para exibir uma imagem de mim que absolutamente não condizia com o meu estado de espírito. O vestido branco agarrado ao corpo deixava à mostra, além de parte das minhas coxas, toda a extensão das minhas costas. O decote em V era bem insinuante. A sandália me deixava no mínimo uns quinze centímetros mais alta. Na maquiagem, realcei os olhos e passei na boca apenas um brilho discreto. Com os cabelos não tive muito trabalho, apenas soltei e joguei para o lado displicentemente. Olhei-me no espelho e aprovei o resultado.


“Por que me arrumei assim se nem queria ir pra festa? Simples. Porque eu queria que ela me visse e me desejasse... queria provoca-la de longe, até que ela ficasse louca de vontade. Queria que ela se arrependesse de ter me dado um fora.”


Cheguei ao apartamento e fui recebida por Fernanda, que não economizou na zoação:


-- Eita, que gostosa, hein, minha filha! Agora quem tá pensando em virar lésbica sou eu. Como nunca reparei que você tinha tudo isso aí pra oferecer, garota? Benza Deus, viu! E aí, topa?


-- Eca! Que nojo, Fernanda.


Ela gargalhou.


-- Boba! Você tá muito gata mesmo, mas meu lado masculino é completamente biba, florzinha. Agora... tem alguém aqui que vai pirar quando vir você.


Aquela frase me fez meu coração palpitar e minhas pernas bambearem.


-- Ela... ela já chegou?


-- Sim, cinco minutos atrás. E nem disfarçou, viu? Perguntou de cara por você.


-- Onde ela tá?


-- Lá na varanda, com o Pedro. Vem, vamos lá. Mas vou logo avisando: se prepara, porque a mulher tá um arraso. Nem sabia que tinha como ela ficar mais gata.


“Valei-me, nossa senhora das sapatões neófitas, dai-me forças pra suportar!”


Quando pisei na varanda, meus olhos foram automaticamente de encontro a ela. Havia muitas pessoas lá, mas eu não era capaz de nota-las. Só tinha olhos para ela. Fernanda não exagerou, a mulher estava um espetáculo. Estava maquiada. Não precisava de qualquer maquiagem para ser linda, mas quando usava, a beleza ficava ainda mais destacada. Vestia uma calça social branca de cintura alta e uma blusinha minúscula, tipo bustiê, também branca, que cobria apenas os seios, deixando exposta a parte da barriga que não estava coberta pela calça. Ela estava encostada de lado no parapeito da varanda, conversando alegremente com Pedro. Quando me viu, seu sorriso deu lugar a uma expressão de... não sabia dizer. Espanto? Encantamento? Desejo? Encarou-me fixamente enquanto Fernanda e eu nos aproximávamos. Cumprimentei os dois de longe, demonstrando que não tinha a menor intenção de estabelecer qualquer contato físico. Não que eu não quisesse, pois estava embevecida pela imagem dela e, além do mais, morrendo de saudade de sentir a textura macia de sua pele e aquele cheiro que me deixava maluca. Mas eu não poderia e nem iria mais me submeter àquela situação humilhante. Tinha decidido que não forçaria mais qualquer barra, além disso, estava muito chateada pelo descaso com o que ela havia me tratado durante toda a semana.


“Ah, e eu estava roendo de ciúmes com a possibilidade de ela ter se entendido com a entojada da Giselle.”


“Não, eu não vou fraquejar. Vou aprender, nem que seja na marra, a controlar esses impulsos loucos que tenho quando estou perto dela. Mas eu devo ser algum tipo de masoquista... por que eu fui convida-la pra vir, hein? E por que ela tem que ser tão irritantemente linda, cheirosa e irresistível?”


Após trocarmos meia dúzia de palavras amenas, Fernanda arrastou Pedro para longe. Sobramos nós duas, e eu fiquei sem saber como agir. Disfarcei meu desconcerto encostando no parapeito para observar a movimentação na praia. Ela voltou a se encostar também, na mesma posição que estava quando cheguei, só que bem próxima a mim. Comecei a suar frio. Ela quebrou o silêncio:


-- Você tá... – Suspirou e baixou a cabeça. Depois voltou a falar em um tom sussurrado. – Não consigo encontrar uma definição... – Voltou a me olhar. – Nossa, Isa, você tá perfeita... linda demais!


Queria dizer que me tinha me arrumado daquele jeito para ela, que a minha intenção era exatamente causar o efeito que estava causando, mas ao invés disso, tentando usar o tom mais casual possível, respondi apenas:


-- Obrigada! Você também está muito bonita.


Falei sem sequer conseguir encara-la. Não podia. Meus olhos me trairiam.


-- Isa, eu... a gente...


Virei-me para ela. Seu olhar era de desejo, percebi, mas também estava assustada. Fiz sinal para que continuasse e ela o fez:


-- Acho que precisamos conversar sobre o que aconteceu naquela noite.


“Acha? Você acha? Quase dez dias de angústia e você aparece simplesmente dizendo que acha que precisamos conversar?”


-- Alice, eu lamento pelo meu comportamento...


-- Não... não lamente, por favor.


-- E por que não?


-- Isa, você não sabe a batalha interna que eu travei pra resistir a você naquela noite. Aliás, não sabe o quanto eu tenho lutado para...


“Não acredito. Ela vai se declarar para mim... espera, quem é essa se aproximando?”


-- Não acredito no que eu tô vendo. Alice, é você mesmo?


“Não, é a Lady Gaga, sua idiota. Como se fosse possível alguém confundir a Alice.”


-- Vanessinha? Não acredito.


“Não, quem não acredita sou eu. E o prêmio de empata foda do ano vai para: Vanessinha Loira Koleston. Oh, produção, tira essa mulher daqui, por favor! Assim não dá pra continuar gravando.”


A tal da Vanessinha que, pelo que eu entendi, era uma amiga de faculdade da Alice, botou na cabeça que tinha todos os direitos reservados sobre ela naquela noite e decidiu que não sairia de perto por nada. Acho que ela devia ter algum problema para se comunicar, porque a cada palavra dita com aquela vozinha irritante de taquara rachada, encontrava dois lugares diferentes para tocar Alice. Eu já estava fervendo de ciúmes e não conseguia controlar a minha antipatia. Elas conversavam e conversavam. Estava claro que eu sobrava ali, então pedi licença e me afastei. Alice tentou me impedir, mas fingi não ouvir quando me chamou. Procurei socorro em um grupo de conhecidos que conversava na sala, mas não consegui dar muita atenção ao que falavam. Fui para a cozinha, que estava vazia, e me refugiei lá por um longo tempo. Servi-me de um copo de água e recostei do balcão da pia enquanto tentava controlar a minha frustração para poder voltar à festa. Olhei o relógio. Já se aproximava da meia noite e nada do meu humor melhorar. Eu tinha que voltar. Fernanda já devia estar louca a minha procura. Pus o copo na pia, peguei a pequena bolsa de mão que havia deixado sobre a mesa e segui rumo a porta de saída. Antes de alcança-la, no entanto, uma Alice completamente esbaforida apareceu.


-- Achei que tivesse ido embora. Te procurei por toda a parte...


Ela falava meio atordoada. Um olhar preocupado.


-- Só vim tomar um copo de água.


Respondi indiferente.


-- Você sumiu tem mais de vinte minutos, Isa.


-- Ah, você notou?


Não economizei na ironia. Ela percebeu e tomou satisfações:


-- Por que está falando assim comigo?


-- Impressão sua.


-- Sério, Isa?


Mentir ou disfarçar, definitivamente, não eram a minha praia, por isso, decidi jogar na cara dela tudo o que me incomodava:


-- Eu estava atrapalhando a sua conversa com a Vanessinha, por isso saí de lá. Mas por que está se importando com isso? Você me ignorou a semana inteira... tudo bem, eu entendi que sua namorada voltou, mas você...


-- Espera. – Interrompeu-me sobressaltada. – Namorada? Do que você tá falando?


-- Ora, não se faça de desentendida. Foi só a Giselle voltar e você mudou completamente comigo.


-- Eu já disse que a Giselle não é minha namorada... Aliás, ela não é mais nada minha. Terminei tudo semana passada.


“Terminou? E por que não me contou? Ora, Isa, isso não é da sua conta. Por que ela te contaria, sua idiota?”


-- Isso não é da minha conta. Não precisa se explicar...


-- Isa, escuta...


-- Alice, chega. Essa conversa não tem o menor sentido. Eu vou lá pra fora, já é quase meia noite.


E fui saindo, mas fui impedida por uma mão enorme segurando meu braço e me puxando. Ficamos frente a frente novamente, só que bem mais próximas do que antes. Senti um arrepio forte me tomar com aquela proximidade. Ficamos nos encarando por alguns instantes sem que nenhuma falasse nada. Minha raiva passou instantaneamente, dando lugar àquela sensação indescritível que se apoderava do meu corpo quando ela me tocava e me olhava daquele jeito. Meu corpo inteiro acendeu e minha respiração começou a falhar. Fui tomada pela mesma necessidade que havia se apoderado de mim na noite em que a ataquei no carro, mas daquela vez eu seria forte, tinha que ser. Ela ensaiou abrir a boca para falar algo, mas antes que a voz saísse, escutamos uma explosão de fogos e o grito das pessoas desejando feliz ano novo. Soltou meu braço. Estávamos quase da mesma altura, por causa da minha sandália de saltos enormes. Desviou o olhar do meu. Parecia travar uma luta interna. Respirou fundo antes de voltar a me olhar e falar em um fio de voz:


-- Feliz ano novo, Isa.


-- Feliz ano novo, Alice.


Fiquei estática, olhando para ela que, após alguns instantes, sem dar qualquer aviso, puxou-me pela cintura. Larguei a bolsa de qualquer jeito na mesa ao lado e agarrei seus ombros. Nos encaramos por apenas um segundo antes do que se seguiu, mas foi tempo o suficiente para enxergar a escuridão daquele olhar azul e a maneira como me devorava. Aproximou nossos lábios e, assim como eu havia feito no carro, roçou os dela nos meus, levando-me a um estado de completa alucinação. Se restava em mim qualquer dúvida sobre a minha condição sexual, naquele momento ela se esvaiu, porque nunca tive tanta certeza do que queria na vida. Mordi de leve seu lábio inferior e imediatamente fui tomada em um beijo avassalador, que destruiu todas as minhas estruturas. A sensação mais louca e alucinante que já havia experimentado na vida. A boca dela era tão macia, a língua quente se enroscava na minha sem qualquer pudor. Alternávamos entre beijos e mordidas leves enquanto tentávamos controlar os gemidos de puro êxtase que teimavam em sair de nossas gargantas. Nosso encaixe era simplesmente perfeito. Escorreguei as mãos até sua nuca e enfiei os dedos entre os cabelos. Em resposta, ela me apertou mais, deixando nossos corpos completamente colados um no outro. Suas mãos deslizavam famintas por toda a extensão das minhas costas nuas, causando-me sensações inconfessáveis e fazendo com que involuntariamente meu corpo buscasse mais atrito com o dela. Nossas línguas queriam se fundir, mal haviam se conhecido e já tinham uma intimidade tremenda. Uma de suas mãos escorregou até a minha bunda e a apertou maliciosamente, enquanto a outra alcançou a minha nuca e puxou de leve os meus cabelos, conduzindo minha cabeça para o lado, de modo a dar livre acesso à boca dela para explorar meu pescoço. Lembrei-me do sonho, mas apenas para constatar que nenhum sonho se compararia àquela pegação alucinante que era, ao mesmo tempo, devoradora e delicada. Algo que eu sequer poderia imaginar que existisse.


Quanto mais eu a sentia, mas eu a queria. A minha vontade era de nunca mais sair daquele contato. Não estava me preocupando sequer em ser flagrada, pois a qualquer momento alguém poderia entrar. Eu estava completamente dominada pelos meus instintos, pelo meu desejo. Nem tinha consciência de que eu a queria tanto... bem, eu sabia que queria, mas quando finalmente aconteceu, percebi que queria bem mais do que eu sabia. Sentia seus seios roçando nos meus e aquilo estava me enlouquecendo. Desci as mãos para explora-los, um pouco amedrontada por não saber muito bem o que estava fazendo, mas eu necessitava daquilo. Agarrei-os delicadamente por cima da mini blusa. Queria conhece-los, entender do que eles precisavam. Com a boca, trilhei um caminho delicioso que passou pelo pescoço, clavícula, até chegar no decote. Lá me demorei, beijando, mordiscando, passando a língua...  Em resposta, ela gemia deliciosamente, um gemido sussurrado, rouco, que entrava nos meus ouvidos instigavam ainda mais o meu desejo, cada vez mais latente. As mãos percorreram o caminho até as minhas coxas e se demoraram alguns instantes por lá, acariciando e apertando. Em um movimento rápido, ela me ergueu, virou nossos corpos em noventa graus e me sentou na mesa, acomodando-se entre as minhas pernas. Voltamos a nos beijar com sofreguidão. As mãos dela eram insaciáveis e exploravam as minhas coxas, tanto a parte exposta quanto a coberta pelo vestido. Ela estava completamente fora de si, assim como eu. Entre beijos e carícias, sussurrava na minha boca frases desconexas. Consegui decifrar apenas algumas, dentre elas:


-- Você me deixa louca, Isa. Também quis isso desde a primeira vez em que te vi.


Senti aquela mão enorme agarrar um dos meus seios por cima do vestido. Ela não teve qualquer pudor, agarrou mesmo, primeiro suavemente, mas ao perceber que não seria recriminada, pegou com vontade... e eu adorei.  


“Deus, eu sou muito lésbica... Lésbica demais.”


-- Quero mais, Isa... Eu quero muito mais de você.


“Só eu enxerguei duplo sentido nessa frase dela?”


Eu também queria muito mais dela. Queria sair dali, precisava de privacidade, precisava ser dela por completo e naquele instante. Meu desejo era tanto que sentia que poderia chegar a um orgasmo a qualquer momento, mas era muito arriscado continuarmos ali. Já ia sugerir que fôssemos para o antigo quarto da Fernanda, então o meu celular começou a tocar de forma estridente dentro da bolsa.


“Sério? É sério isso? Quem é o ser inconveniente que me liga numa hora dessas?”


Ignorei a chamada, mas a pessoa que estava ligando não ignorou a minha ignorância e voltou a ligar.


-- Não vai atender?


-- Não... deixa tocar.


Conversávamos entre amassos e beijos. O celular não parava e Alice começou a parecer impaciente.


-- Isa, atende logo. Deve ser importante.


-- Eu não quero atender...


-- Estão insistindo demais. Vai que é alguma emergência...


-- Tá bom, vou atender.


Muito a contragosto, deixei que ela se afastasse e peguei a bolsa para tirar o celular que continuava a tocar. Eu estava trêmula e quase não consegui executar a simples tarefa de destravar o botão da bolsa. Tirei o celular de dentro e consegui proeza de deixei-lo cair no chão. Alice abaixou para pegar e quando levantou, estendeu o aparelho para mim.


-- É o Lucas.


Falou totalmente sem graça. O olhar devorador de instantes antes havia dado lugar a uma expressão frustrada.


“Então, o ser inconveniente era o meu namorado, cuja existência eu havia ignorado completamente. Mas eu devo ter sapateado na tábua dos dez mandamentos pra estar sendo castigada desse jeito.”


-- Vou desligar o celular.


Não tinha o menor sentido atender. Peguei o celular e fiz menção de desliga-lo, mas ela não deixou. Pôs a mão sobre a minha e falou:


-- Não, atende. É seu namorado, deve estar querendo te desejar feliz ano novo.


-- Alice, eu não vou...


-- Atende, Isa, por favor.


Não estava entendendo o motivo da insistência dela, mas resolvi acatar. Desci da mesa e me afastei para atender. Falei com ele de péssimo humor e tentei desligar o mais rápido possível. Estava de costas para Alice, apoiada na pia. Quando finalmente consegui encerrar a ligação, virei-me e, para a minha surpresa, ela já não estava mais lá. Entrei em desespero.


“Merda, por que eu fui atender essa droga de ligação?”


Saí em disparada em sua procura e quase esbarrei com Fernanda quando entrei na sala. Ela estava tão esbaforida quanto eu e foi logo perguntando:


-- O que houve, Isa? Por que a Alice saiu correndo daquele jeito?


-- Quê? Ela foi embora.


-- Foi, acabou de sair. Estava com uma cara que... Ah, Isabella, anda logo, conta o que aconteceu.


“Ela foi embora... ela foi embora... e agora, o que eu faço?”


-- Tudo, Fernanda. Aconteceu tudo.


 


 


 


 

Notas finais:

E aí, meninas? O que acharam do capítulo da semana?

Por favor, não deixem de me contar.

Bom domingo a todas e até semana que vem.

Abraços!!!

Capitulo 16 - All The Things She Said por linierfarias

Static void Main (){

                var Capítulo= “16”;

  var Título = “All The Things She Said”;

                var POV= “Alice”;

};

“I can try to pretend, I can try to forget

But it's driving me mad, going out of my head”

 

All The Things She Said (t.A.T.u, 2002)

 

Se a minha vida fosse um livro, certeza que o autor era um baita de um invejoso, filho da mãe, frustrado, com uma vida sexual de merda que, para descontar as próprias insatisfações, havia decidido transformar uma personagem super gata, boa de cama, carismática, feliz e bem resolvida nesse saco de merda patético que agora anda por aí pelos cantos, toda melancólica, parecendo uma daquelas personagens com nome de pedra preciosa das novelas que passam à tarde no SBT.

“Cara, que merda é essa? Que louco! Por que eu saí correndo feito uma franguinha covarde?”

Eu, definitivamente, não estava gostando daquela nova versão de mim. Em outros tempos, não muito distantes dali, era capaz de ficar agarrando a garota enquanto ela falava com o namorado. Pior, nem seria de se surpreender se eu tomasse o telefone da mão da menina para contar ao corno o quanto estava achando a mulher dele gostosa, só por diversão. E de repente, como em um passe de mágica, lá estava eu, com a bunda de um elefante acomodada confortavelmente bem na minha consciência. Senti-me a pior das criaturas ao tomar ciência de que, primeiro, estava apaixonada. O que, por si só, já era demais para mim, mas como todo castigo para canalha é pouco, meu problema não era apenas admitir meus sentimentos e largar a vida bandida para me tornar a namoradinha feliz que andava de mãos dadas por aí e passava os domingos grudadinha que nem chicletinho no mozinho, fazendo maratona de séries na Netflix. Além disso, tinha mais. Doía o estômago, como se uma espada o tivesse atravessado, só de imaginar aquelas mãos peludas e asquerosas do Lucas passeando sobre aquela coisinha tão linda e delicada.

“Pois é, já viu aquele filme Maldita Sorte?”

“Já sei, já sei... você deve estar pensando assim: ‘lá vem a Alice com mais uma referência chata.’ Pois é isso mesmo. Vou usar uma referência chata sim, mas você vai ter que aguentar, porque depois de toda a frustração das últimas semanas, seguida daquela pegação alucinante bem na virada do ano, seguida de mais frustração, meu humor ficou bem ácido, então, se a Isa pode usar um filme pra fazer analogia aos sentimentos dela, eu também posso.”

“Então, voltando ao filme... é uma daquelas comédias românticas bem clichê. Tem esse cara que é um fodão, pegador, galinha pra caralho. Pois sim, ele descobre que tinha uma espécie de dom que consistia basicamente no seguinte: toda mulher que transava com ele, logo em seguida, encontrava o amor de sua vida. Para o garanhão, isso era o paraíso. Podia pegar todo mundo, sem ter que se preocupar em inventar desculpas pra não ligar depois. Maravilha, né? Presente dos deuses. Pois é, seria mesmo um baita de um presente, se não tivesse se tornada, na verdade, uma maldição. Olha só a merda que deu. O cara se apaixonou. E não foi tipo um crush qualquer. Ele gamou mesmo, arriou os quatro pneus e o step, ou seja, se fodeu ‘dicunforça’. Tudo o que ele mais queria era largar a vidinha de balada e sossegar com a gata, mas se transasse com ela, bang, já era.”

“Moral da história: paixão para cafajeste é sinônimo de castigo. Provavelmente, em algum lugar, devia existir a coordenadora do departamento dos galinhas apaixonados que, provavelmente, era uma solteirona ranzinza, muito da mal comida, que ficava atrás de uma mesa cheia de pastas, analisando fichas e deliberando máximas totalmente arbitrárias, do tipo: esse aqui não vai poder transar com a mulher, senão ela vai se apaixonar por outro; esse outro aqui vai até casar com a mulher que ama, mas vai ter que morar com a sogra com problemas de flatulência e o cunhado que ronca feito porco e anda só de cuequinha asa delta pelo meio da casa; e essa aqui... ah, para essa guardei algo bem especial. Ela vai gamar na colega de trabalho que tem um relacionamento de mais de dez anos com um cara e se diz hétero.”

Depois de pensar isso tudo, conclui que para resolver a minha situação só na base da porrada mesmo. E na cabeça, para garantir a eficácia. Com sorte, ficaria com amnésia e esqueceria da existência daquela bandida descarada que havia roubado o meu coração. Mas nem para isso o Pedro servia mais. Depois que começou a pegar a ruivinha Louro José, só queria saber de brincar de pintinho amarelinho ou fazer a dança do passarinho.

“Quem diria, né? O Pedro lá, se esbaldando com a ruivinha gostosa, e eu aqui, roendo. Melhor tomar cuidado, senão daqui a pouco começo a cantar Marília Mendonça.”

Pois bem, como não tinha mais o Pedro, foi jeito pesquisar no google sobre como desapaixonar de alguém. De cara, encontrei um site que enumerava sete passos. Abaixo, segue a lista, seguida de meus comentários sobre cada item contido nela:

  1. Corte e evite qualquer contato com a pessoa. – “Começamos errado, amigo. Só se eu pedir demissão ou mandar matá-la.”
  2. Dê um tempo também nos amigos em comum. – “Piorou, porque meu melhor amigo deve estar, neste exato momento, brincando de tiro ao alvo com a melhor amiga dela.”
  3. Faça uma lista de razões para esquecer. – “Ah, essa é fácil. Já fiz, só que não adiantou de nada.”
  4. Tente adotar novos hábitos e rotinas. – “Tipo o quê? Pegar homem? Ah, tenha santa paciência, né?”
  5. Conheça novos grupos de amigos. – “Até tentei ser amiga da tindergirl, mas tudo que ela falava, eu ouvia em chinês. E não sei falar chinês. Então, terminei com um banho de cerveja na cara.”
  6. Se permita mais, se goste mais e se cuide mais. – “Quê? Mais? Cara, eu me amo tanto que só não namoro comigo mesma porque me acho boa demais pra guardar tudo só pra mim.”
  7. Faça planos a curto prazo. – “Hahaha, parece piada. Meu plano a curto prazo está feito. Vou passar três dias com ela no Rio de Janeiro. Maravilha. Vá pro inferno, você e suas dicas furadas.”

No final, minha pesquisa só serviu para constatar que o Google só era bom mesmo em dar diagnóstico de câncer terminal quando você pesquisava por “resfriado”.

“Agora, chega de baboseira e vamos ao que interessa. Vou contar a minha versão dos fatos até aqui.”

Impossível calcular o tempo que fiquei martelando, pensando e repensando sobre aquela investida dentro do carro, após a happy hour. O coquetel que estava experimentando era formado por sentimentos completamente antagônicos. Paixão, medo, desejo, culpa, certeza, insegurança... Cada um com peso e medida diferentes. Por pouco, aqueles, cujas sensações me incentivavam a continuar, não me dominaram. Teria me rendido a ela facilmente naquele carro, mas eu havia desenvolvido um mantra mais do que eficaz que, quando recitado, invocava instantaneamente – fazendo emergir das profundezas mais obscuras do meu ser – o mais imperativo de todos os sentimentos: o ciúme. Não tinha mais qualquer dúvida sobre quere-la, ou melhor, sobre precisar... necessitar dela. Mas daquele jeito não me servia. Se fosse para ficar, só queria se fosse minha por completo e sequer sabia se ela queria o mesmo de mim. Bem, parecia querer, mas e se eu estivesse fantasiando tudo? Talvez só quisesse ter uma aventura lésbica, e eu estava ali, dando sopa. Só tinha um jeito de descobrir: perguntar. Até queria fazer isso, mas faltava coragem para ser sincera sobre os meus sentimentos e principalmente para sugerir que ela largasse o namorado. Não sabia nem por onde começar, então me afastar começou a parecer o mais sensato a se fazer... e poderia até ter sido mesmo, se eu tivesse conseguido segurar a ansiedade de falar com ela de novo. Impossível me conter, pois, àquela altura, cada impulso nervoso de cada um dos 86 bilhões de neurônios que habitavam o meu cérebro me levava, consciente ou inconscientemente, a pensar nela.

“Só para que tenha noção do que esse sentimento está me causando, agora tô ouvindo uma música daquela cantora... aquela... Sandyjúnio, que é filha do Chitãozinhoexoxoró, se ligou? Então, é uma música que fala assim: ‘Como cortar pela raiz se já deu flor?’ Pois é, pois bem, pois sim... então... como cortar? Alguém mais sábio que o google pode me passar a fórmula?”

Nota da autora: fãs de Sandy e Júnior e de Chitãozinho e Xororó, só para constar, também sou fã, tá? É que não poderia perder a piada.

Não resisti e enviei mensagem de feliz natal. Depois disso, conversamos por horas, mas ambas, em um acordo tácito, se abstiveram de tocar no assunto que realmente queriam abordar.

“Melhor assim. De repente, com o tempo acostuma.”

Foi o que pensei. E por mensagem talvez fosse até fácil, mas quando chegou a terça, minha amiga, e eu a vi. Estava linda, perfeita, bem ali na minha frente, sorrindo de orelha a orelha, fazendo meus olhos se deleitarem ao fitar aquela beleza radiante. Foi quando ratifiquei a certeza adormecida de que jamais me acostumaria.

“Te ver e não te querer é improvável, é impossível.”

Era bom demais tê-la tão perto, sentir o cheiro, ouvir a voz macia, o sorriso gostoso que fazia formar aquelas covinhas lindas na bochecha... o corpo pequeno e sinuoso que fazia o meu arder só de olhar. Sim, era bom demais, mas também era torturante demais. Amizade definitivamente não ia funcionar. Então passei a evita-la. Naquela semana, saí mais cedo, cheguei mais tarde, evitei ficar a sós com ela, inventei compromissos que não existiam, mas tudo era inútil. Quanto mais me afastava, mais queria ficar perto. Sábado eu não a vi e isso foi uma tortura. Não achei que pudesse sentir tanta falta de alguém na vida. Mesmo tentando desviar o foco, flagrei-me por diversas vezes revivendo nossos momentos juntas, olhando seu perfil no Instagram ou relendo, pela enésima vez, todas as nossas conversas no WhatsApp.

“Não, isso é ridículo. Não vou mais me torturar desse jeito. Eu preciso saber... preciso entender se estou sozinha nessa.”

Fui para a festa na casa da Fernanda decidida a finalmente ter uma conversa honesta com ela. Aquilo era algo que definitivamente não poderia mais ser adiado. Eu estava apavorada, mas era tudo ou nada. Só que a minha melhor amiga dos últimos tempos, a Lei de Murphy, resolveu se fantasiar de Vanessinha e me desejar feliz ano novo. Eu havia finalmente tomado coragem de começar a falar com a Isa, então, a danada apareceu e grudou em mim como chiclete. Quase não consegui me livrar. Isa, que não tinha escondido o incômodo pela presença dela, simplesmente evaporou. Levei cerca de vinte minutos para encontrá-la na cozinha.

“Daí em diante, você sabe o que aconteceu, não sabe? Bem, só não sabe o que eu senti, quando aconteceu. Amiga, eu conheci o paraíso. Cara, que boca... que língua... que beijo... que cheiro... que pele... que corpo... que delícia... que mulher... Eu já estava pirada desde a hora em que a vi chegar. Botei o olho nela naquela varanda e a primeira coisa que veio em minha cabeça foi: ‘que tiro foi esse hein?’ Sabe o Chaves quando via a Paty? Só faltei ter aquele piripaque que o deixava paralisado e precisavam jogar água na cara pra ele acordar. A mulher estava linda demais. Quis matar a diaba da Vanessinha só por ter me feito desviar o olhar.”

Fato incontestável: eu jamais teria o bastante daquela mulher. Estar com ela era mais perfeito do que eu poderia imaginar. Era irracional, intenso, sensual, quente... e ao mesmo tempo, doce, sutil, romântico e delicado. Definitivamente, não se tratava simplesmente daquele sentimento lascivo com o qual eu estava tão acostumada a lidar. Era mais, era muito mais, e eu queria... “queria” não, eu precisava de muito mais...

“Não, isso não se encontra duas vezes. É ela... tem que ser ela... a mulher da minha vida.”

E então...

“Maldito celular dos infernos, corno miserável... deve ter sentido o chifre apontando e ligou na hora mais inoportuna. Ódio... que ódio...”

Eu insisti para que ela atendesse, mas na verdade o que queria mesmo era que tivesse jogago o celular pela janela.

“Estranho isso... por que eu queria uma coisa e pedi outra?”

Resposta para mim mesma: essa é uma das maluquices que o ciúme de induz a fazer. Aliás, foi o maldito ciúme que me fez sair correndo feito doida de lá. Ceguei. Não via mais nada na minha frente. Esbarrei em meia dúzia de pessoas e desci mais rápido do que o trem bala. Estava possuída de raiva. Já na calçada do prédio, atravessei a Beira Mar e sumi na multidão. Não queria ser encontrada. Senti meu celular tocar, tirei do bolso e não me surpreendi ao ver que era ela. Desliguei-o imediatamente. Com certa dificuldade, atravessei a multidão e cheguei à beira do mar, onde sentei e permaneci, completamente absorta em meus pensamentos, até sentir a pele arder com os primeiros raios de sol. Sabe o que mais eu fiz além de pensar e olhar o mar? Caiam. Eu chorei. Chorei muito, chorei demais.

“Ela me usou. Só me quer pra satisfazer uma curiosidade, pra saciar um desejo. Ela ama o namorado, lógico que ama. É isso, a tal da justiça divina que eu não acreditava que existia. Como eu sou idiota. O que eu pensei? Que ela fosse largar o namorado pra ficar comigo. Que idiota! Quem sou eu na fila do pão, gente? Não passo de uma adolescente mimada que vive no corpo de uma mulher de trinta anos e que nunca foi capaz de se envolver emocionalmente com ninguém, por ser fútil e imatura. Giselle tinha toda razão. Aliás, ela havia acabado de se transformar em uma das minhas vítimas. Sequer olhava mais na minha cara. Mas também, o que eu esperava? Idiota, burra, estúpida... bem feito! Já deve ter feito tanta gente sofrer, sem nem ter se dado conta disso, agora é hora de pagar.”

Evitei a todo custo falar com Isa naquele dia. Ela ligou, mandou mensagem, mandou até direct no Instagram, mas ignorei tudo. Não podia falar. Estava me sentido humilhada, devastada. Precisava resgatar o mínimo de dignidade para encontrá-la no aeroporto, no dia seguinte.

Cheguei cedo, antes dela. Fui direto para o terminal de embarque e procurei um café próximo ao portão destinado ao nosso voo. Sentei e beberiquei um cappuccino enquanto fingia para mim mesma que estava me distraindo, mexendo no celular. Não precisei levantar os olhos para saber que ela estava lá. Senti o cheiro, a energia, atrevo-me a dizer que senti até o calor de sua pele. Lutei para controlar o tremor que quis tomar conta do meu corpo. Consegui. Já o coração, quase saltava pela boca sem que eu nada pudesse fazer. Mas, contrariando toda a ansiedade, permaneci de cabeça baixa, até que ouvi:

-- Oi!

-- Oi!

O tom dela foi doce, o meu seco. Houve um breve silêncio enquanto nossos olhos se comunicavam. Os dela, brilhavam, lindos, naquele tom de mel. Os meus, não sei, mas deviam estar tristes, pois aquele era o meu estado de espírito. Alguns segundos depois:

-- Não vai me convidar pra sentar?

-- Senta, por favor.

Mais uma vez o tom doce contra o seco. Ajeitou-se na cadeira, encarou-me e continuou:

-- Tá de mal?

Falou sério, mas sem perder a doçura.

-- Por que tá perguntando isso?

-- Porque você ignorou todas as minhas ligações e mensagens. Tá com raiva de mim?

-- Não é isso.

-- Então o que é?

-- Eu estive ocupada.

-- Sei.

Silêncio.

-- Alice, a gente pode conversar sobre o que aconteceu?

-- Não, nós não podemos.

-- Então vai ser assim? Vai fingir que não aconteceu nada e ficar me tratando desse jeito?

A doçura na voz dela já havia dado lugar a um tom tristonho. Virei o rosto. Não podia encara-la, tampouco responder àquela pergunta. Ela insistiu:

-- Bem, falta pelo menos quarenta minutos até o embarque e depois temos um voo de três horas e meia, onde ficaremos sentadas, uma do lado da outra. Então, se o teu plano for me evitar pra sempre, devo te alertar que a tarefa não será nada fácil nas próximas quatro horas e dez minutos.

-- Ok, Isabella, você venceu. Vá em frente, fale. – Respondi de forma exasperada, voltando a encara-la.

-- Agora eu sou Isabella?

-- Qual o problema? Não é o teu nome?

-- Sim, mas você sabe que eu não gost...

-- Tô esperando pra ouvir o que quer me dizer.

Ela suspirou e percebi que segurou uma resposta desaforada. Estava claramente frustrada com a minha falta de receptividade. Mas o que ela queria? Baixou a cabeça e coçou a testa. Ergueu novamente e me encarou profundamente com aqueles olhos enormes. Senti um frio na barriga com o simples contato. Suspirou mais uma vez e falou:

-- Alice, eu... eu sinto muito pelo que aconteceu... eu não devia ter atendido o telefone e...

-- Ah, não?

-- Por que está falando assim?

-- Por nada. Só tô tentando entender porque você não devia ter atendido o telefonema do teu namorado...

-- Alice... – Tentei em vão interrompe-la.

-- ... afinal, ele queria te desejar feliz ano novo, então era só você pedir pra que eu esperasse um pouco enquanto se falavam e depois voltaríamos a nos pegar como se nada tivesse acontecido.

Ela se agitou na cadeira. Respondeu-me chateada:

-- Isso não é justo. Eu ia desligar o celular e você insistiu pra que eu atendesse.

-- Sim, porque não tinha o menor sentido você não atender uma ligação do teu namorado na hora da virada, só porque estava vivendo uma aventura lésbica de ano novo.

-- Quê? Tá maluca? Aventura lésbica de ano novo?

-- E não era isso que estava fazendo?

Eu não conseguia controlar a estupidez no meu tom de voz. Era mais forte do que eu. E ela reagiu da pior forma a isso, fazendo o mesmo.

-- Então é isso que você pensa?

-- Era pra eu pensar diferente?

“Diz que sim, por favor. Acabe logo com essa tortura.”

Meu sonho era que ela me mandasse deixar de ser boba. Queria que dissesse que eu havia me enganado, que me queria mais do que só para sexo, que também estava apaixonada. E poderia até ter dito, não fosse a cabeça dela mais dura do que os ossos de adamantium do Wolverine. No geral, era uma pessoa gentil, mas se fosse contrariada, virava um siri dentro de uma lata. Por isso, a resposta veio como um tiro de bazuca bem no meio da minha testa:

-- Não. Pensou certinho, afinal, como alguém como você poderia pensar diferente? Mas deve ser bom demais pra você, não é mesmo? Encontrar alguém que também só quer sexo casual. Isso facilita as coisas na hora de ser uma imbecil e pular fora.

“Ai! Doeu.”

-- Isa, eu...

-- Não, Alice, chega. Agora sou eu quem não quer mais falar.

E foi se levantando...

-- Espera, eu só achei que...

-- Pro inferno, você e os teus “achismos”.

E saiu, empurrando a própria mala em direção as cadeiras de espera. Ainda tentei chamar:

-- Aonde você vai?

Mas ela não se deu nem ao trabalho de se virar para me responder. Apenas rosnou enquanto caminhava.

-- Sentar e esperar o embarque. Não venha atrás de mim.

“Mas é uma grossa, mesmo. Estúpida, idiota... tem uma bundinha linda, mas é uma cavala. Ah, que ódio.”

Duro foi controlar a vontade de ir atrás dela. Queria me explicar, mas também estava com raiva do coice que havia levado. No fim, optei por ficar onde estava mesmo, fingindo indiferença. Olhei de soslaio algumas vezes e percebi que ela fazia o mesmo.

“Quer brincar de quem vai dar o braço a torcer? Posso ser tão orgulhosa quanto ou mais do que você, dona Isa. Eu não vou ceder.”

Inevitável foi sentarmos uma ao lado da outra no avião, pois o voo estava lotado. Isso sim seria um problema, porque se era difícil ignora-la à distância, estando ela ao meu lado seria uma provação divina. Quando chegue à nossa fileira, ela já estava lá, lutando para tentar encaixar a mala no compartimento de bagagens. Involuntariamente, apressei-me em ajuda-la.

-- Eu faço isso pra você.

-- Não preciso da sua ajuda. Sei muito bem me virar sozinha.

-- Grossa. Pois se vire, então.

E guardei a minha própria mala no compartimento, com uma facilidade que a deixou com um olhar invejoso. Sorri ironicamente e sentei na minha poltrona. Depois de lutar mais um pouco, ela conseguiu terminar o que estava fazendo e sentou também. Sequer olhou para mim. Decidi ignora-la também, então tirei os fones de ouvido da bolsa e conectei na tela multimídia da poltrona do avião. Escolhi uma rádio aleatória e relaxei, de olhos fechados, ouvindo música que começou a tocar:

“A minha vida eu preciso mudar todo dia, pra escapar da rotina dos meus desejos por teus beijos...”

“Inferno! Agora vai ser assim? Não vou poder mais nem ouvir música sem lembrar dela? Merda, merda, mil vezes merda.”

Desisti de ouvir música. Peguei meu tablet na bolsa, tinha baixado alguns filmes para ver offline na Netflix. Já ia conectar o fone quando percebi uma movimentação estranha ao meu lado. Olhei de soslaio e vi Isa lutando nervosamente para afivelar o cinto de segurança. Não entendi o porquê de tanta dificuldade em executar uma tarefa tão simples, mas então percebi que as mãos dela estavam trêmulas.  Comecei a assisti-la sem disfarçar. Em determinado momento, perdi a paciência.

-- Espera, eu faço isso pra você.

Tomei o cinto das mãos dela e afivelei com a maior facilidade. Esperei uma patada, mas ao invés disso:

-- Obrigada! Não fechava por nada. Acho que está com def...

-- Ahan... tudo bem!

Cortei rápido o assunto, antes que ela achasse que eu estava cedendo. Voltei ao meu lugar e comecei a mexer no tablet. Não consegui, pois ela estava muito inquieta. Olhava o relógio, olhava para os lados, para cima... mexia na saída de ar. Estava quase me divertindo com aquela cena, mas comecei a perceber que agitação só aumentava. Virou-se para mim e falou:

-- Não vai desligar isso? Sabe que não é permitido...

-- Está no modo avião.

-- Mesmo assim, na hora da decolagem pode causar interferência.

“Doidinha. Agora eu entendi, claro. Ela tem medo de avião. Como não pensei isso? Se tinha medo de elevador, imagine de avião.”

-- Tá bom, vou desligar.

E assim o fiz. Ela começou a aspirar forte o ar.

-- Você tá sentindo esse cheiro forte de combustível?

-- Sim. Estão abastecendo o avião.

-- Ok, mas não era pro cheiro entrar aqui, era? Quero dizer, deve ter algum vazamento no tanque ou coisa parecida.

-- Isa, não tem vazamento nenhum. É normal. Daqui a pouco passa.

-- Não, senhora. Isso não é nada normal. Nunca senti antes. Vou chamar a aerom...

-- Ei... – Vire para ela. – Calma. Eu viajo pelo menos uma vez por mês e posso afirmar que isso é absolutamente normal.

O peito dela arfava, os olhos estavam assustados. Fiquei com tanta dó que só pensava em abraça-la para tentar fazer aquele medo passar. Achei que fosse insistir, mas percebi que se resignou ao perguntar:

-- Jura?

-- Juro. Pode confiar.

-- Ok. Não gosto muito de avião.

Sorri. Não era para ter feito isso, mas não resisti.

-- Esse foi o eufemismo do século.

-- Por que diz isso?

-- Isa, você tá apavorada.

Ela me encarou com olhos arregalados. Acho que pensou em revidar, mas desistiu.

-- Ah, Alice, eu tô mesmo. Tenho pânico de avião.

“Coisa linda! Como pode ser linda até assim? Ok, é oficial. Se um dia virar namorada dela, serei eu a barriga branca. Acabei de perder a guerra de dar o braço a torcer.”

-- Escuta, não se preocupa. Eu tô aqui com você.

-- Que legal. E você é a supergirl, por acaso? Digo, se o avião estiver caíndo, você vai saltar e segura-lo no ar?

-- Não, sua grossa. Mas eu viajo muito de avião e nenhum jamais caiu, então eu dou sorte.

-- Nossa, isso é reconfortante.

Sorri.

-- Boba! Você acha que eu não tenho medo também? Lógico que tenho. Quem, no fundo, não tem medo de voar?

-- Tá, e como você faz pra ficar assim, tão tranquila?

-- Simples. Só desfocar.

Terminei de falar no exato momento em que o avião começou a taxiar. Quando o pilotou alinhou na pista para decolar e o barulho do motor aumentou, ela imediatamente se ajeitou na poltrona, agarrou os apoios e fechou os olhos. O peito subia e descia violentamente. Estava suando frio, apavorada. Morri mil mortes com dó dela. Não resisti e agarrei forte sua mão.

-- Ei, tenta respirar com calma. Vai ficar tudo bem.

Sussurrei em seu ouvido. Ela acenou positivamente com a cabeça e apertou a minha mão. Levantamos voo e aos poucos ela foi ficando cada vez mais calma, até que o avião estabilizou no ar. Só então finalmente abriu os olhos.

-- Viu? Tá tudo bem.

-- Vai ficar tudo bem quando a gente pousar.

-- Tenho uma ideia. Vamos ver um filme, assim você desfoca um pouco. Topa dividir o fone comigo?

-- Parece uma boa ideia.

Escolhemos um filme, então apoiei o tablet na mesinha da poltrona e pusemos os fones. Pareceu funcionar, pois depois de um tempo ela ficou visivelmente mais calma. Ficou tão quieta que até estranhei. Nossas cabeças estavam próximas para que as duas pudessem usar os fones, mas eu estava evitando olhar para ela. Vários minutos se passaram até que senti a cabeça dela pousar no meu ombro. Não entendi, tampouco reagi. O máximo que fiz foi olhar de soslaio. Quando o fiz, vi que dormia. Achei tão lindo! Minha primeira vontade foi desligar tudo, levantar o apoio de braços que dividia as nossas poltronas e aconchega-la no meu peito, mas não tinha coragem para isso, então, fiquei estática. Apenas apreciando a sensação de sentir a respiração forte dela no meu pescoço enquanto eu fingia assistir ao filme.

“Uau, cara! Como eu tô apaixonada por essa mulher.”

Ela só voltou a se agitar quando o avião começou a descer para pousar, mas mais uma vez eu a acalmei. Quando descemos do avião, a falsa indiferença voltou. Caminhamos em absoluto silêncio até o desembarque. Só falou comigo para dizer:

-- Se importa de pegarmos táxi ao invés de Uber? Eu acho menos perigoso.

“O quê? Tá louca, garota? Sou uma mulher apaixonada. Acha mesmo que eu submeteria você a uma situação de extremo incômodo?”

-- Achei que você fosse preferir carro, então aluguei um.

-- Jura?

O olhar dela era um misto de espanto e felicidade.

“Coisa mais linda!”

-- Ué, fiz errado?

-- Alice...

-- Diga?

-- Obrigada.

Apenas sorri. Seguimos para o hotel, ficamos cada uma em um quarto. Uma hora depois, conforme combinado, nos encontramos no restaurante do próprio hotel para o almoço. Após isso, eu iria leva-la para conhecer a nossa filial. Passaríamos a tarde inteira lá, dando as pinceladas finais no projeto que deveríamos apresentar na tarde do dia seguinte ao nosso principal cliente.

A tarde seguiu sem maiores emoções. Quando o assunto era trabalho, nós duas levávamos muito a sério e colocávamos todas as diferenças de lado. Erámos um time entrosado e afiado. Leandro estava muito satisfeito com o resultado do nosso projeto. No fim do expediente, o pessoal da filial nos levou para um jantar informal bem descontraído, por sinal. Não bebi, pois estava de motorista da minha pequena medrosa, mas nem senti falta. Com ela, queria estar sempre lúcida para não perder nenhum detalhe. Ela bebeu muito pouco. Na verdade, eu já havia percebido que não era de beber muito.

Cerca de 21h seguimos para o hotel. No carro, uma conversa bem-humorada se estabeleceu entre nós. Havíamos, em um acordo tácito, deixado de lado os nossos problemas. Entramos no elevador ainda gargalhando de alguma bobagem. Ela nem demonstrava mais estar assustada com as subidas e descidas. Saltamos no mesmo andar. Nossos quartos ficavam quase de frente um para o outro. Paramos, cada uma em sua porta, e nos encaramos. Naquele instante, o clima mudou.  Comecei a me agitar. Lembrei do nosso beijo, daquela noite... Fiquei excitada instantaneamente. Achei melhor entrar, antes que tudo piorasse.

-- Boa noite, Isa. Durma bem.

-- Boa noite! Você também.

Mas nenhuma fez menção de entrar. Ficamos parada, nos encarando. Depois de um tempo que não pude calcular, consegui fugir do contato.

-- Então, tá. Vou indo...

-- Alice.

-- Oi.

“Ai, meu coração.”

-- A resposta é sim.

“Quê? Do que ela tá falando?”

-- Que resposta?

-- Você achou que não passava de uma aventura lésbica para mim e depois me perguntou se devia pensar diferente. Eu disse que não, mas a resposta correta era sim.

-- Isa, eu não tô entendo.

Ela se aproximou. Chegou tão perto que eu achei que fosse desmaiar de tão nervosa que fiquei. Apoiou as mãos nos meus ombros e me olhou bem no fundo dos olhos, antes de dizer a frase que jamais sairia da minha mente:

 

-- Alice, eu tô perdida e irremediavelmente apaixonada por você.

Notas finais:

Para não falarem que sou uma autora ruim por não ter lançado um capítulo extra, resolvi antecipar o que deveria postar amanhã.

Quero que me contem o que acharam.

Abraços e até a semana que vem.

Capitulo EXTRA - Teenage Dream por linierfarias

-- Isa, eu não tô entendo.

-- Alice, eu tô perdida e irremediavelmente apaixonada por você.

“Quê? Não, espera... para tudo, Brasil. Eu ouvi direito? Isa apaixonada por mim? Sério? O que eu faço? E agora, o que eu digo? Ai, meu coração...”

You think I'm pretty without any makeup on

(Você acha que sou linda sem qualquer maquiagem)

You think I'm funny when I tell the punchline wrong

(Você me acha engraçada quando conto uma piada errada)

I know you get me so I let my walls come down, down

(Eu sei que me entende, então eu abaixo a guarda)

Before you met me I was alright but

(Antes de você me conhecer, eu estava legal)

Things were kinda heavy, you brought me to life

(As coisas ficaram meio difíceis, você me trouxe à vida)

Now every February you'll be my valentine, valentine

(Agora em todos os dias dos namorados você será a minha)


Let's go all the way tonight, no regrets, just love

(Vamos percorrer todos os caminhos esta noite, sem arrependimentos, só amor)

We can dance until we die, you and I will be young forever

(Nós podemos dançar até morrer, você e eu seremos jovens para sempre)

You make me feel like I'm livin' a teenage dream

(Você me faz sentir como se eu estivesse vivendo um sonho adolescente)

The way you turn me on, I can't sleep

(O jeito que você me excita, eu não consigo dormir)

Let's run away and don't ever look back

(Vamos fugir e nunca mais olhar para trás)

Don't ever look back

(Nunca mais olhar para trás)

My heart stops when you look at me

(Meu coração para quando você olha para mim)

Just one touch now baby I believe this is real

(Apenas um toque, agora, amor, eu acredito, isso é real)

So take a chance and don't ever look back

(Então dê uma chance e não olhe para trás)

Don't ever look back

(Não olhe para trás)

 

“Uma salva de palmas para Katy Perry, que escreveu essa música a pedido meu.  Ah, e antes que você comece a perguntar pela conversa fiada e as referências, devo avisar que estarei muito ocupada esta noite para isso.”

 

-- Me dá o teu celular?

-- Quê?

-- Anda, me dá o teu celular, Isabella.

-- Espera aí, o que é isso, um assalto? Eu digo a você que estou apaixonada, e você quer roubar meu celular?

“Quando eu digo que essa aí é maluquinha da silva, ninguém acredita.”

-- Não é nada disso. Vamos, Isa, me dá o celular.

Mesmo confusa, ela por fim largou os meus ombros, pegou o celular na bolsa e me entregou. Desliguei-o e devolvi. Não estava disposta a arriscar que fossemos interrompidas mais uma vez por uma ligação indesejada. Lógico que o meu incômodo não se limitava a uma simples ligação. Era bem maior. Ela ainda era comprometida, mesmo se declarando apaixonada por mim. No entanto, aquele não era o momento de ter crise de consciência. Eu a queria demais para isso. Sabia que depois teríamos que esclarecer as coisas e me assustava o fato de não fazer ideia das reais intenções dela.

“Será que pensava em terminar com ele ou será que estava querendo me transformar em sua amante? Foda-se! Não vou surtar com isso agora.”

-- Pronto. Pode guardar.

-- Alice, eu não tô entendendo nada.

-- Não precisa. A única coisa que tem que entender é que eu também estou enlouquecidamente, completamente, irreversivelmente apaixonada por você, Isabella. Nunca imaginei que pudesse sentir algo assim.

Não consigo descrever a sensação de vê-la ali, bem na minha frente, com os olhos arregalados brilhando, lindos, enquanto a boca formava um sorriso iluminado. Foi a imagem mais perfeita que já vi na vida.

-- Vem comigo.

Eu não tinha qualquer pressa, queria apreciar cada milésimo de segundo com ela. Segurei sua mão e a conduzi para dentro do meu quarto. Paramos, uma de frente para a outra, e me permiti ao deleite de olhar para cada pedacinho daquela mulher que exercia sobre mim as mais intensas sensações. Aproximei-me, acariciei seu rosto com as pontas dos dedos e beijei seu rosto. Fui trilhando um caminho de beijos até chegar em seu ouvido e sussurrar:

-- Tão linda...

Desci a boca para o pescoço, inalei profundamente, depois beijei, mordisquei e voltei para o ouvido:

-- Tão cheirosa...

Voltei a beijar seu rosto, seguindo o caminho até a boca. Ela pôs os braços em volta do meu pescoço. O peito arfava, a respiração estava descompassada. Beijei seus lábios com uma calma torturante para mim e para ela. Um beijo doce, delicado, mas não por isso menos carregado de intensidade. Eu estava completamente perdida. Tinha certeza de que jamais teria o bastante daquela mulher. Voltei para o seu ouvido e completei:

-- Tão perfeita... Quero você para mim, Isa.

Ouvi um gemido discreto que foi seguido de:

-- E tudo o que eu mais quero é ser sua, Alice.

“Ah, depois dessa não tem mais como me conter, né? Você conseguiria manter o controle?”

Estávamos de pé, perto da porta. A cama não era muito distante dali, no entanto, a necessidade de toma-la todinha para mim não me permitia mais perder qualquer tempo. A calma deu lugar a urgência e a empurrei delicadamente até que suas costas colassem na porta e o meu corpo colasse no dela. Beijamo-nos como se nossas vidas dependessem daquele beijo. A boca dela era deliciosa, tão macia e pequena... se encaixava com perfeição na minha. Não me lembrava de já ter ficado tão excitada daquele jeito apenas com um beijo. A minha cabeça dava voltas e voltas, cada pelo do meu corpo estava eriçado, os gemidos dela na minha boca, faziam com que eu gemesse também. Estava alucinada, completamente entregue a ela. Nossas mãos passeavam ávidas pelo corpo uma da outra. As minhas desceram até suas coxas e levantaram o vestido para ganhar espaço, enquanto as dela se ocupavam em desabotoar a minha blusa, mas nossos corpos estavam tão colados que estava tendo dificuldades. Separei nossas bocas para facilitar o acesso e ela terminou o serviço.

“Antes de continuar, quero apenas fazer um comentário. Para uma lésbica virgem, Isabella Ferreira é bem saidinha. Mas não tô reclamando, muito pelo contrário...”

Como em um passe de mágicas, eu já estava sem blusa e sem sutiã, enquanto aquela boquinha deliciosa e saliente devorava os meus seios, deixando-me completamente fora de mim. Ela se deliciava em um, alternando entre chupar, lamber e mordiscar, enquanto acariciava o outro. Estava perfeito, mas eu também queria, então puxei sua cabeça e voltei a beija-la. Nossos corpos se roçavam, involuntariamente buscando atrito. Levantei uma de suas pernas e encaixei em minha cintura, agradecendo mentalmente por ela gostar tanto de salto alto. Com a mão livre, desci a alça do vestido e expus um dos seios. Foi a minha vez de provar. Era lindo, médio, firme, a auréola pequena e escura, o bico completamente eriçado... um convite irrecusável para a minha boca sedenta. Abocanhei, primeiro de forma delicada e depois com vontade, arrancando dela um gemido rouco tão gostoso que me fez sentir um pulsar entre as pernas e gemer também. Liberei o outro e fiz o mesmo, enquanto a mão que segurava sua coxa em minha cintura ficava cada vez mais assanhada. Subi, subi e subi... até chegar onde queria. Brinquei com o elástico da calcinha, queria leva-la às últimas consequências da provocação. Toquei tudo ao redor, mas não encostei em seu sexo. Minha missão estava sendo bem sucedida, pois quanto mais eu a provocava, mais ela mexia os quadris em minha direção. Mas ela não era a única a sofrer com aquela tortura, eu também ansiava pelo contato, então, sem mais delongas, pus a mão dentro da calcinha e a toquei. Estava tão molhada, quente, deliciosa. Gemi de tesão. Larguei o seio que devorava e a encarei. O olhar dela estava escuro, a boca úmida mordia o lábio. Sem quebrar o contato, movimentei meus dedos, massageando o ponto que pulsava de desejo. Ela gemeu... e gemeu... e gemeu... e falou:

-- Alice, quero você dentro de mim.

“Pedindo assim...”

Tomei sua boca em um beijo devorador enquanto a penetrava com um, depois com dois dedos. Estava a ponto de ter um orgasmo só pelo prazer de tê-la daquela forma, tão entregue a mim, e isso quase se concretizou quando a vi se rebolando em meus dedos.

“Duas perguntas: que mulher é essa e por que eu demorei tanto para conhece-la?”

Nos movimentos de seus quadris, o pedido para que eu acelerasse o ritmo estava implícito. Atendi prontamente. Movimentei mais rápido os dedos e fui presenteada com os vários espasmos que apertavam forte os meus dedos quando ela gozou lindamente para mim. E digo “lindamente” porque larguei sua boca para olha-la no momento em que o êxtase se apoderou do corpo dela. Linda demais, toda descabelada, um fio de suor brilhava na testa, a pele incendiando, a boca entreaberta, gemendo deliciosamente e os olhos alternando entre fechados e revirados. Aos poucos, foi se acalmando, a respiração voltando ao normal. Delicadamente, tirei os dedos de dentro dela e a beijei de forma doce. Senti seu corpo enfraquecer e a peguei no colo. Levei-a até a cama, mas antes de deita-la, tirei sua roupa e sandálias. Tirei também a minha própria calça, ficando só de calcinha, e me posicionei sobre ela, sem deixar meu corpo pesar. Um beijo rápido e falei:

-- Quero mais.

-- Eu também.

Sorrimos maliciosamente uma para a outra. Mais um beijo, desci a boca por seu pescoço, passando pelos seios rapidamente para dar um pouco de atenção aos dois, depois barriga, ventre e... cheguei onde queria. Provei de todas as formas... delicioso. Devorei seu sexo com voracidade, preenchendo todos os espaços, beijando, lambendo, chupando, mordiscando, arrancando dela as mais intensas reações. Ela gemia, puxava meus cabelos, rebolava na minha boca... linda, perfeita e deliciosa. Gozou de novo para mim, quase me levando junto ao êxtase. Não podia mais esperar. Arranquei minha calcinha e antes mesmo que os espasmos dela acabassem encaixei nossos corpos.

“Uau! Que delicia!”

Rocei nela de todas as formas. Estava completamente alucinada de desejo e o prazer que estava sentindo era inenarrável. Não demorou muito e senti que o meu próprio prazer estava perto. Pedi:

-- Goza de novo, goza comigo, vai...

 

E intensifiquei os movimentos até que explodi em um orgasmo surreal, trazendo-a junto comigo. Nem sabia que podia existir algo tão intenso, mas também não demorou muito a entender o porquê. Não era o sexo que estava me causando aquilo. Bom, pelo menos não o sexo só pelo sexo. Era ela, Isabela, a minha Isabella, a mulher que chegou para me enlouquecer e me transformar em uma boba apaixonada... a mulher que chegou para mudar a minha vida. 

Notas finais:

Capítulo bem curtinho, só para vocês pararem de me achar uma sádica. E vou logo avisando que se não bombar de comentários, nunca mais solto um extra.

Capitulo 17 - Locked Out Of Heaven (Parte I) por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main (){


                var Capítulo= “17”;


  var Título = “Locked Out Of Heaven”;


                var POV= “Isabella”;


};


“Cause your sex takes me to paradise


Yeah your sex takes me to paradise...”


 


Locked Out Of Heaven (Bruno Mars, 2012)


 


“Sabe quando você compra o seu primeiro carro? É uma conquista e tanto, não é mesmo? Você passa um tempão juntando uma grana para dar a entrada, depois começa a pesquisar pelos modelos que mais te agradam, mas que também precisam caber dentro do teu orçamento. No fim, você acaba comprando não o carro que você quer, mas sim aquele que te proporciona o melhor custo/benefício. Mesmo assim, você fica feliz, afinal, cara, agora você tem um carro e isso é o máximo. Não é o mais confortável, não é o mais bonito, não é o que te dá mais prazer de dirigir, mas ainda assim é uma conquista e tanto. Ok, tudo certo. Passa um tempo, você está lá, toda satisfeita, se achando o máximo por não ter mais que depender de ônibus ou de metrô, então alguém aparece na sua frente e te convida para fazer um test drive sem compromisso em uma Ferrari. Você não é idiota, não é mesmo? Quem não quer, pelo menos uma vez na vida, dar uma volta em uma Ferrari? Cara, até o cheiro da Ferrari é diferente. Você senta no banco do motorista e sente um poder sobrenatural. A sua primeira vontade é de enfiar o pé no acelerador e ir de zero a cem em cinco segundos, enquanto grita feito uma louca, igual aquele cara do Titanic: ‘Eu sou o rei do mundo! Eu sou o rei do mundo’. Tudo te agrada naquele carrão: o design, a beleza, o conforto, a potência do motor... É praticamente uma experiência religiosa dirigi-lo. Só tem um grande problema nisso tudo: aquele não é o seu carro. Poderia até ser, mas Ferrari é um carro complicado de se manter. Além de caro, o custo da manutenção é altíssimo e provavelmente te levaria à falência facilmente. Então, você lembra que o seu carro, aquele que você consegue dar conta, tá lá, guardadinho na garagem, esperando uma atençãozinha sua para uma manutenção atrasada, uma troca de óleo ou uma calibrada nos pneus. E é para ele que você tem que voltar, porque não tem cacife para manter uma Ferrari. Agora pense em como vai ser dirigir o seu carrinho depois dessa experiência...


-- Alice, eu não tô entendendo nada.


-- Não precisa. A única coisa que tem que entender é que eu também estou enlouquecidamente, completamente, irreversivelmente apaixonada por você, Isabella. Nunca imaginei que pudesse sentir algo assim.


“Pensou? E a que conclusão chegou? Pois é, exatamente. Não tem mais como.”


Não tenho como descrever com palavras a sensação de ouvir uma declaração como aquela, principalmente sendo o sentimento absolutamente recíproco. Não falei nada, deixei que meu corpo respondesse e apenas me permiti ser tomada, consumida, devorada deliciosamente por aquela mulher que me enlouquecia. Nunca achei que fosse capaz de sentir tanto prazer, na verdade, não me enxergava como uma pessoa sexual. Sexo para mim, até conhecer Alice, era algo que eu considerava até um pouco enfadonho. Não que eu não gostasse, mas meu corpo nem sempre reagia aos estímulos. Por um tempo, achei que isso fosse anormal e até cogitei procurar um especialista, mas depois dela percebi que o lance não era “o que” eu estava fazendo, mas sim “com quem” eu estava fazendo.


Era o meu terceiro orgasmo seguido e eu estava longe de me sentir satisfeita. Só conseguia pensar no próximo... E no outro... E no seguinte... E em mais. Alice parecia ter o manual de instruções do meu corpo. Sabia exatamente como, quando e onde estimular. Estar com ela daquele jeito era perfeito, surreal... Não digo que era um sonho, porque sonhei várias vezes com aquele momento e nem de longe a ilusão se comparava à realidade de sentir a pele macia ardendo em contato com a minha, aquela língua experiente experimentando e explorando cada centímetro do meu corpo, aquelas mãos enormes me apertando e me tomando em carícias alucinantes...


“Não, nenhum sonho faria jus àquela realidade.”


Era como se a minha existência tivesse sido iniciada ali, porque tudo o que havia vivido até então passou a parecer sem graça, sem qualquer emoção. Pudor? Vergonha? Medo? Receio? Com Alice, eu desconhecia o significado dessas palavras. Estava completamente entregue a ela, sem qualquer reserva, sem qualquer ressalva. Estava ali para satisfazê-la e deixar que fizesse o que bem entendesse de mim. Vê-la gozar tão intensamente com o corpo colado no meu e, melhor, saber que aquela carinha linda de desejo e aqueles gemidos roucos eram por minha causa, levou-me ao êxtase novamente e despertou uma fera voraz dentro de mim que eu, até então, desconhecia. Estava embevecida em me doar para ela daquela forma, mas depois de sentir o seu prazer se unindo ao meu, senti uma necessidade quase que irracional de experimentá-la também. Nunca havia estado com uma mulher antes, mas meu corpo misteriosamente parecia conhecer todos os caminhos a serem percorridos. Então, sem dar qualquer espaço para que ela resistisse, girei nossos corpos e iniciei uma deliciosa exploração.


Experimentei pedacinho por pedacinho daquela pele quente e macia, que se derretia sob a minha língua. Eu não tinha qualquer pressa, queria conhecê-la, estudá-la, testá-la. Aos poucos, fui descobrindo cada pontinho sensível e anotando em um bloquinho de notas mental para deixar salvo, pois sabia que não havia mais a menor possibilidade de voltar atrás depois dali, e muito menos de não querer repetir. Ela era deliciosa, a pele branca ganhava traços e marcas avermelhadas causados por meus dentes e unhas. Era tão cheirosa! Um cheiro peculiar e não era de perfume. Sim, tinha o perfume, mas eu estava falando do cheiro natural dela, um aroma inebriante que me fazia gemer só de sentir. A minha nova droga. Os seios eram tão lindos, médios, redondos, os mamilos rosados, eriçados, clamando por minha atenção. Não poderia decepcioná-los. Já éramos íntimos, havíamos nos conhecido alguns minutos antes, mas mesmo assim aquele segundo contato pareceu a apresentação formal. Experimentei cada um com uma delicadeza que parecia torturá-la. Arranhei os dentes nos biquinhos eriçados, depois brinquei com a ponta da língua. Transitei de um para o outro nessa calma torturante para ambas, mas me sentia compensada e instigada a continuar ao ouvir os gemidos e os pedidos safados que soavam roucos no ar:


-- Isa, não me tortura mais, vai. Chupa, por favor... Chupa forte. Me toma pra você...


“Deus... Quer dizer, acho que é até pecado falar em Deus com tantos pensamentos obscenos na mente, mas não consigo encontrar outra interjeição.”


Fiz o que me pediu, afinal, tinha como negar um pedido daqueles? E fiz mais, enquanto me deliciava, chupando forte, mordendo, apertando e beijando cada um dos seios, desci minha mão até seu sexo para sentir a intensidade daquele desejo. Não me decepcionei. Ela estava tão pronta, tão excitada... Meus dedos deslizavam facilmente pela pele sensível e quente. Demorei-me por longos instantes, conhecendo, explorando, massageando, arrancando dela as mais excitantes interjeições de puro prazer. Ela gemia, rebolava, passeava as mãos pelo meu corpo, falava algumas frases safadas e com isso instigava-me a querer mais, muito mais dela... Além de provocar o meu próprio desejo. Involuntariamente, eu procurava atrito do meu sexo com a sua coxa e por pouco não gozei. Parei antes de acontecer, porque aquele instante era dela e só para ela. Queria arrancar cada gota de prazer daquele corpo. Entrei nela bem devagar, pois, além da inexperiência, tinha medo de machucá-la com minha unha comprida. Acho que fiz certo, porque ela gemeu alto e a cara de prazer que fez não foi de dor. Iniciei um movimento cadenciado dentro dela enquanto descia minha boca por sua barriga, umbigo, ventre... Sem parar os movimentos, iniciei a exploração de seu sexo também com a língua. Ela gritou... E eu senti aquele gosto que quase fez meu coração explodir.


“Que delícia!”


Tomei-a para mim, com vontade, voracidade... Eu queria que fosse meu todo o prazer que ela pudesse sentir e estava mais do que disposta a não medir esforços para isso. Penetrei fundo, intensifiquei os movimentos com a língua e com os dedos e me deixei embevecer com seus gemidos de prazer. Uma corrente elétrica percorria nossos corpos e nos fazia tremer, alucinadas. Lambi, chupei, mordi, penetrei... Fundo... Fundo... Mais fundo... E fui presenteada com o mais sublime de todos os orgasmos. Ela me apertava, puxava os meus cabelos, dançava em minha boca, comprimia os meus dedos com espasmos fortes e sussurrava meu nome com uma rouquidão sensual.


“Que loucura, que tesão, que mulher... Definitivamente não posso mais viver sem isso.”


Minha vez, eu precisava. Sem dar o menor espaço para recuperação, montei nela e encaixei nossos sexos. Apoiei as mãos em seus ombros para encará-la, queria que ela visse o meu desejo também. Iniciei os movimentos, rebolando sinuosamente sobre ela, que de imediato agarrou meus seios com as mãos e depois com a boca. Não era possível calcular o meu nível de excitação. Eu só conseguia pensar em gozar e gozar... E gozar... E o fiz. Bastou que ela dissesse:


-- Goza pra mim, goza? Goza em mim...


E só tive tempo de responder de forma quase que indecifrável:


-- Gozo... Quantas vezes quiser... Com todo prazer...


E gozei, trazendo-a comigo. A sensação era de júbilo... Total êxtase. Nossos corpos tremiam abraçados um ao outro, como se quisessem se fundir. Milhares de borboletas voavam em meu estômago, transpirávamos, nossas peles ardiam... Era tanto prazer, tanta felicidade que senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Abraçada a ela enquanto nos recuperávamos, não consegui evitar o que disse em seu ouvido:


-- Por que demorei tanto pra te conhecer, Alice? Agora não vou conseguir mais te largar.


E fui agraciada com a melhor resposta:


 


-- Largar? E quem disse que eu permitiria? Não tem mais volta, Isa. Eu quero você pra mim... Só pra mim.

Nota da Autora por linierfarias

Queridas Leitoras,

Primeiramente, desculpem-me pela decepção, pois esta postagem não contem o restante do capítulo que eu havia prometido postar ontem. ='(

 

E em segundo lugar, gostaria de me justificar com vocês:

Este ano de 2018 começou com tudo. Parece que o meu amigo destino está de mal de mim e resolveu se vingar sendo um baita de um irônico. Isso, no entanto, não fez com que eu me sentisse no direito de falhar com vocês, por isso, até então estava vestindo a minha roupinha de sapo e dando os meus pulos para conseguir me virar nos trinta e não deixa-las na mão. Adotei a palavra "resiliência" como meu nome do meio, porque me recuso a cair e ficar no chão. Levantei, sacudi a poeira e dei a volta por cima, mas acabei tombando novamente. Desta vez, a pancada foi mais forte e causou em mim o pior dos danos: eu perdi a inspiração. Mas não precisam se preocupar porque não tenho a menor pretensão de parar a história no meio. O enredo já está todo calculado na minha cabeça, o que está faltando é apenas organizar tudo em palavras. Isso é que está sendo difícil, porém, estou tentado.

 

Peço a vocês que compreendam, pois vou precisar de um tempo para reorganizar as ideias. Prometo não me demorar. Creio que depois do carnaval estarei de volta com tudo.

 

Estou muito triste em ter que fazer isso, principalmente porque me comovo com o carinho de vocês em cada comentário que recebo e fico verdadeiramente satisfeita em vê-las tão empolgadas com o desenrolar da história de Isa e Alice. Mas eu ficaria mais triste ainda se tivesse que disponibilizar para vocês um capítulo escrito de qualquer jeito.

 

Então, será que posso contar com vocês de novo quando voltar?

 

Espero que sim.

Abraços,

Linier Farias

Capitulo 17 - Locked Out Of Heaven (Parte II) por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main (){


                var Capítulo= “17”;


  var Título = “Locked Out Of Heaven”;


                var POV= “Isabella”;


};


“Cause your sex takes me to paradise


Yeah your sex takes me to paradise...”


 


Locked Out Of Heaven (Bruno Mars, 2012)


 


-- Largar? E quem disse que eu permitiria? Não tem mais volta, Isa. Eu quero você pra mim... Só pra mim.


“Eu entendi errado ou isso foi um ultimato velado?”


Em resumo, Alice estava me dizendo que me queria, mas que não aceitaria me dividir com o Lucas. Eu tampouco pretendia tê-la como amante, mas sabia que dali em diante seria impossível resistir a ela, por isso, se quisesse dar asas àquele sentimento, teria que dar um fim ao meu relacionamento de mais de dez anos. A pergunta que não queria calar era: como?


“Pois é, ainda não sei como, mas sei que vou ter que fazer assim que essa viagem acabar.”


Engraçado mesmo era o tipo de culpa que eu estava sentindo. Eu não conseguia me julgar errada por estar traindo o Lucas, pois estar com Alice parecia ser a coisa mais certa que já havia feito na vida. O que eu julgava ofensivo mesmo naquele instante era impor a existência dele para ela. Por isso, decidi não mais ligar aquele telefone.


Naquela noite, fizemos amor até a exaustão nos abater. Amamo-nos tanto que passamos a conhecer cada minúcia do corpo uma da outra. Tínhamos uma cumplicidade ímpar, natural, como se já nos pertencêssemos por séculos. Não havia vergonha ou pudor entre nós, o que era novidade para mim, que sempre me limitei tanto na cama. Deixei que ela me explorasse como bem entendesse, pois eu já era toda e completamente dela.


“Pra quê resistir?”


Dormimos enroscadas uma na outra. Nossos corpos se encaixaram com uma facilidade e naturalidade assustadora. Era como se eu estivesse viajando por vinte e oito anos e finalmente tivesse voltado para casa. Ela deitou no meu peito e escondeu o rosto no meu pescoço. Era bem maior do que eu, uma mulher enorme e linda, aparentemente tão segura de si, tão dona dela mesma, mas o jeito que se acomodou no meu corpo mostrou que não passava de uma garotinha frágil, que precisava de alguém em quem confiar, que necessitava de um coração para fazer morada. E eu percebi, naquele instante, que queria ser esse alguém, por isso, a acolhi com todo o calor do meu corpo, afundei meu rosto em seus cabelos e enlacei sua cintura com uma de minhas pernas.


Dormi como um anjo, como há séculos não dormia. Um sono tranquilo e profundo. Acordei sentindo os lábios dela beijando o meu pescoço de um jeito apaixonantemente terno e doce, mas meus olhos se recusaram a descolar. Ainda sentia muito sono, por isso, sequer fiz qualquer esforço para abri-los. Apenas me mexi e ronronei preguiçosamente. Ela subiu a boca até o meu ouvido e depois de mordiscar levemente o lóbulo da minha orelha, sussurrou:


-- Bom dia!


Eu até tentei, mas nem todas aquelas sensações maravilhosas que ela me fazia sentir me livrou do meu mau humor matinal. Resmunguei:


-- Bom dia, nada. Me deixa dormir.


Ela sorriu no meu ouvido. Um sorriso gostoso, rouco, que quase me fez querer acordar. Quase, porque eu estava acabada. Após um beijo atrás da orelha, retrucou:


-- Sua preguiçosa, já passa das 7h.


-- E daí? Nossa reunião é só às 15h. Me deixa dormir, Alice. Tô exausta.


-- Que coisinha mais mal humorada de manhã cedo, Senhor! Nem parece que gozou várias e várias vezes a noite inteira.


“De fato. Mas é justamente por isso que estou exausta.”


-- Tá arrependida? Não me quer mais?


-- De jeito nenhum. O teu bom humor noturno super compensa esse abuso matinal.


E dizendo isso, se posicionou sobre mim e começou a me encher de beijos pelo rosto e pescoço, enquanto falava:


-- Anda, dorminhoca... – Mais beijos... – Acorda... – e mais... – Vamos tomar banho... – “Posso me acostumar a ser acordada assim todos os dias...” – Quero te levar em um lugar.


“Agora ela me acordou... Ou melhor, a curiosidade me acordou.”


Abri os olhos de repente e girei meu corpo para ficar por cima. Estávamos nuas e o simples atrito de nossas peles despertou a minha libido.


“Menina, tô parecendo a Anastacia Steele de Cinquenta Tons de Cinza, essa minha deusa interior não se aquieta, que coisa!”


Comecei a beijá-la, da mesma forma que ela havia feito comigo instantes antes, enquanto falava:


-- Que lugar? – Beijos e beijos... – Eu já conheço quase tudo no Rio, tá? – E mais beijos... – Acho que eu prefiro ficar aqui e repetir a maratona de ontem à noite.


-- Não, esse lugar, tenho certeza de que não conhece.


-- Humm... Tô curiosa.


-- Pois vai ficar até chegarmos lá. Anda, vamos tomar banho.


-- Ei, isso não se faz, sabia?


-- Banho...


A desgramada não me falou nada e ainda ficou fazendo suspense. Tomamos um banho delicioso...


“Muito delicioso, se é que me entendem.”


Ela vestiu uma calça jeans e uma regata preta bem justa, o que me proporcionou uma visão maravilhosa de seus ombros e costas definidos.


“Ai, ai... Valei-me, nossa senhora da eletricidade, dai-me resistência. Alguém aí liga o ar condicionado, pelamordideus! Tá quente demais, gente.”


Flagrou-me secando seu corpo descaradamente, encarou-me com aquele olhar azul mágico, sorriu e brincou:


-- Que foi, perdeu alguma coisa?


-- Não. Na verdade, eu achei.


Sorriu... Não só com a boca, mas com os olhos. Um sorriso lindo, encantado. Um sorriso que era só para mim. Sorri de volta e acho que fiz a mesma cara de apaixonada.


-- Sua boba.


Levantei-me para beijá-la. Estava ainda só de roupão, os pés descalços. Ela era bem mais alta do que eu, então tive que ficar de ponta de pé, mas ela ajudou, enlaçando a minha cintura e me erguendo. Indescritível a sensação de senti-la tão minha. Eu estava embevecida, embasbacada, enlevada, arrebatada por aquele sentimento maravilhoso que fazia meu coração pulsar descompassado e o meu corpo se sentir pleno. Trocamos um beijo cálido, delicado, carinhoso... que logo ganhou mais intensidade. Estava tudo tão perfeito que nem parecia ser verdade. Sabia que era errado, que estava traindo o meu namorado, mas nem essa ciência disso me fazia sentir culpa. Só havia uma palavra presente no meu vocabulário naquele instante: “Felicidade”.


“Acho que tem uma música que fala algo do tipo: ‘O problema dos erros é que às vezes eles beijam bem’. Pois é... Pior que beijam bem pra caralho e ainda fazem outras coisinhas a mais.”


Senti meus pés tocarem o chão novamente e o corpo dela se afastar do meu. Já ia protestar, mas fui interrompida antes:


-- Desse jeito a gente não vai sair desse quarto nunca mais.


-- Por mim tudo bem, não me importo.


-- Sua safadinha.


-- E tem como não ser com você?


-- Então é isso? Sou um pedaço de carne? Teu objeto sexual?


Retrucou com falsa indignação.


-- Boba, lógico que não. Mas não posso negar que estou adorando me aproveitar desse corpinho delicioso e branquinho aqui.


-- Ok, tenho que admitir que não estou sendo nenhuma santa. Esse corpinho moreno aqui também está me deixando louca, mas vou ser obrigada a pedir para você vesti-lo e de preferência com uma roupa bem confortável, porque o que vamos fazer exige isso.


-- Meu Deus, Alice, quer me matar de curiosidade?


-- Anda, se veste. Quanto mais rápido você se vestir, mais rápido vai saber dos meus planos.


Ela tinha razão, por isso, desisti de tentar descobrir o que estava tramando e me vesti. Também pus uma calça jeans, uma camiseta regata e um all star. Descemos e tomamos café rapidamente no restaurante do hotel mesmo. Pegamos o carro e seguimos. Não prestei muita atenção no caminho, pois não conseguia tirar meus olhos dela e a minha mente das lembranças alucinantes de tudo o que tínhamos feito na noite anterior. Eu estava sonhando acordada e sorrindo de graça. Alice dirigia sem usar GPS, como se já estivesse mais do que familiarizada com a cidade. Depois de vários minutos, chegamos a uma estrada estreita que parecia nos levar para cima e para cima infinitamente. Mais alguns minutos e chegamos a um pequeno estacionamento, onde apenas alguns carros estavam parados. Não havia muita movimentação no local, então não devia ser nenhum ponto turístico, como eu havia pensado.


-- Daqui a gente segue a pé.


Falou, ainda tentando manter o mistério. Quis perguntar novamente do que se tratava aquele passeio, mas como já sabia a resposta, desisti. Apenas saí do carro e segurei a mão que ela estendia para mim. Seguimos de mãos dadas por uma trilha estreita que também subia. Eu já estava começando a ficar preocupada, porque percebia que não parávamos de subir. Quando finalmente chegamos ao nosso destino, meu coração quase parou com o medo que senti só de me dar conta dos planos dela. Era uma rampa de voo livre e de cara já vi uma asa delta saltando. Comecei a tremer.


-- Alice, não. Nem pense nisso.


Ao invés de falar qualquer coisa, ela me abraçou forte e beijou o topo da minha testa. Só depois falou:


-- Não precisa saltar se não quiser, mas eu ficaria muito feliz se você saltasse comigo.


Desvencilhei-me de seus braços de forma brusca antes de esbravejar:


-- Tá doida? Tá de sacanagem comigo, né? Só pode estar. Você sabe que eu tenho pânico de altura. Já tô tremendo toda só de olhar.


-- Isa, calma. Eu não vou te obrigar...


-- Acho bom mesmo, porque...


-- Ei, ei... Me deixa falar?


-- Alice, eu não vou saltar e não tem nada que você diga que possa me convencer do contrário.


-- Eu posso pelo menos tentar? Prometo que se mesmo assim você não quiser, a gente volta pro carro e vai embora.


-- Não adianta, não vai funcionar.


-- Posso?


“O que ela tá pensando? Asa Delta? Eu tenho tanto medo de altura que não consigo olhar nem da janela do meu apartamento, e olha que eu moro no terceiro andar. Essa foi uma bola fora e tanto, Alice. Lamento, mas vou te frustrar.”


-- Tá bom, fala.


-- Você acha que eu tenho medo de alguma coisa?


-- Como assim, do que você tá falando?


-- Estou te perguntando se você acha que eu sinto medo de alguma coisa. De saltar de asa delta, por exemplo. Então, você acha?


Alice era impetuosa, intempestiva. Não parecia ter medo de nada. Na verdade, ela parecia dominar o mundo com seu atrevimento. Só havia uma resposta para aquela pergunta:


-- Não, acho que você não tem medo de nada.


-- Pois você está completamente equivocada. Eu tenho medo de tudo o que você tem. Eu tenho medo de voar de avião, tenho medo de ser assaltada ou estuprada por um motorista de Uber, tenho medo de um elevador enguiçar e cair comigo dentro, tenho medo de saltar de asa delta e tenho medo... Eu tenho muito medo do que eu estou sentindo por você, Isabella.


“Caramba, por essa eu não esperava.”


-- Do que... Do que você tá falando, Alice?


-- Eu tô falando que eu sou tão medrosa quanto você e como qualquer outra pessoa. A diferença entre nós é que eu escolhi lidar com isso, ao invés de usar como desculpa para abdicar das coisas boas da vida. Decidi encarar meus medos de frente e mostrar que embora o mundo me assuste, me recuso a me deixar abalar. E sabe o que eu descobri depois que comecei a agir dessa forma?


-- Não. O quê?


-- Que eu superestimava o medo. Que as coisas não são tão assustadoras quanto parecem. Na verdade, algumas delas, ao invés de assustadoras, acabam se mostrando extremamente prazerosas quando nos permitimos apreciá-las, como saltar de asa delta, por exemplo... Ou estar com você.


“Essa mulher existe, gente? Que linda, que fofa, que doce, que meiga, que gentil... Como pode? Por onde ela andou que não a encontrei antes?”


Fiz a única coisa que poderia fazer depois de uma declaração linda daquelas. Joguei-me em seus braços e abracei-a forte. Enquanto apreciava aquele contato, lembrei-me de todas as situações que me amedrontavam e de como reagi quando tive que encará-las e ela estava ao meu lado. Alice me acalmava, fazia com que tudo parecesse simples e inofensivo. Foi então que eu percebi que com ela eu não tinha medo de nada. E foi ali, naquele exato momento que eu percebi que a amava.


-- Vem comigo, Isa. Vamos saltar juntas? Você confia em mim? Confia que eu não vou deixar você se machucar? Salta comigo e te garanto que vai ser a experiência mais incrível de toda a sua vida.


Eu não sabia se havia duplo sentido naquelas palavras. Não sabia se estava falando de nós, ou da asa delta, ou das duas coisas, mas sabia que independente da intenção dela, estava sendo absolutamente sincera, então me senti segura. Completamente segura.


“Impressionante”


-- Eu quero saltar com você, Alice.


Ela abriu aquele sorriso mágico, ergueu-me em um abraço de urso e falou:


-- Obrigada por confiar. Você não vai se arrepender, prometo.


“Tá, confesso que as minhas pernas estão tremendo mais do que vara verde e que eu estou muitíssimo assustada, mas como eu poderia dizer não depois de tudo o que ela falou? Você diria?”


Caminhamos um pouco mais através da rampa e pude perceber que Alice não era figura rara por ali, pois conhecia todo mundo. Apresentou-me a algumas pessoas e acabei descobrindo que ela já voava há anos e inclusive era habilitada pela Confederação Brasileira de Voo Livre para fazer voos de instrução, ou seja, ela podia fazer voos duplos, sendo ela a instrutora, acompanhando alguém sem experiência, no caso, eu. Pusemos os equipamentos e em seguida ela e outro instrutor me explicaram cada detalhe do voo e me passaram um breve treinamento. Aparentemente era tudo muito simples, exceto pelo fato de que estaríamos voando por cima das montanhas e pela Floresta da Tijuca sem qualquer motorização.


“O que é que eu tô fazendo aqui, meu Deus! Será que ainda dá tempo de desistir?”


Eu estava apavorada, mas mesmo assim dei um voto de confiança para Alice. Não queria decepcioná-la, pois ela parecia tão empenhada em me levar naquele passeio. Além do mais, eu estava extremamente orgulhosa de vê-la lidando com aqueles equipamentos todos com a maior naturalidade. Era linda demais, perfeita demais... Tudo demais... Era até boa demais para ser de verdade. Acabei me dando conta de que o medo que eu sentia de que o que tínhamos acabasse era bem maior do que qualquer outro medo. Saltaria até sem asa delta, se estar com ela passasse a depender disso.


-- Pronta?


-- Não. Mas vamos mesmo assim.


Ela gargalhou.


-- Confia em mim, linda. A gente vai ficar bem.


-- Tá bom, eu confio.


E saltamos. Achei que fosse morrer no momento em que saímos da terra firme. Gritei, tremi, cerrei os olhos e não abri. Até que comecei a sentir uma calmaria.


-- Isa, abre o olho. Você tá perdendo a melhor parte.


Fiz o que ela ordenou. Abri o olho bem devagar, primeiro um, depois o outro. Lindo, maravilhoso... Ela estava coberta de razão. A sensação era tão incrível e a vista tão deslumbrante que o medo se foi. Foi perfeito... Ou melhor, mais do que perfeito. Foi sensacional. O voo durou cerca de doze minutos. Pousamos na praia de São Conrado. Eu não conseguia parar de sorrir, estava extasiada demais para isso. Após nos livrarmos dos equipamentos, ela me abraçou e me beijou.


-- E então? Tá arrependida?


-- Não. – Comecei a falar sem conseguir desmanchar o sorriso do meu rosto. – Eu tô é muito feliz. Quero ir de novo.


O sorriso de satisfação dela aumentou mais ainda a minha felicidade.


-- Vamos sempre que você quiser.


-- Obrigada, Alice. Foi incrível... Você é incrível.


-- Não, você é que é. Obrigada por confiar em mim.


“Ah, foda-se! Que se dane. Nunca fui de guardar o que sinto mesmo, então vou logo soltar.”


-- Alice...


-- Oi?


 


-- Eu te amo.

Notas finais:

Meninas lindas do meu coração, vocês não sabem o quanto me deixaram verdadeiramente emocionadas com os comentários lindos e carinhosos que recebi. Só tenho a agradecer tanta generosidade. Essa continuação de capítulo cheia de amorzinho foi a melhor maneira que encontrei de mostrar o quanto estou feliz com o apoio e a compreensão de vocês. 

Tenho uma coisa para dizer: EU VOLTEEEEEEEEI e agora é pra ficar, porque aqui é o meu lugar.

Espero que estejam gostando do rumo que a história está tomando. 

Não deixem de falar o que estão achando, por favor.

Abraços!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

 

Capitulo 18 - When Love Takes Over por linierfarias
Notas do autor:

Texto: Linier Farias | Revisão: Joelma Leite

Static void Main (){


                var Capítulo= “18”;


  var Título = “When Love Takes Over”;


                var POV= “Alice”;


};


“When love takes over, yeah


You know you can't deny...”


 


 


When Love Takes Over (David Guetta feat. Kelly Rowland, 2009)


 


-- Alice...


-- Oi?


-- Eu te amo.


Tem um episódio de Dragon Ball que exibe uma luta entre o Goku e o Kuririn em um torneio de artes marciais.


“Sim, eu assistia Dragon Ball e estou usando um episódio para comparar com o que estou passando agora. Você vai ter que aceitar.”


Bom, as lutas nesse desenho eram algo bastante comum de acontecer, mas essa que estou falando, especificamente, foi diferente, porque começou e aproximadamente um segundo depois acabou, com o Kuririn nocauteado. Não foi possível ver a olho nu o que havia acontecido, porque o Goku era muito veloz, então o Tenshinhan precisou explicar ao público, que não havia entendido nada. O engraçado foi a quantidade de coisas que o Goku conseguiu fazer nesse curto espaço de tempo. Em menos de um segundo, ele desferiu oito golpes no Kuririn, finalizando literalmente – como diria o Shaolin do Sertão – com um golpe “tora pleura”, ou seja, com um chute bem no peito dele. E tem mais, antes do Kuririn cair, o Goku ainda teve tempo de fazer uma careta e mostrar a língua para ele.


Pois é, acho que eu penso tão rápido quanto o Goku luta, porque entre o momento da declaração da Isa e o momento em que a respondi, levou menos de um segundo, mas foi tempo o suficiente para eu pensar tudo isso:


"Não, não... Espera aí, espera aí, espera aí... Deixa ver se entendi direito. A Isa tá dizendo que me ama? A Isa? A minha Isa, que eu achei que não fosse minha? E o que é isso que eu tô sentindo? Meu coração tá queimando. Parece que encostaram um ferro de passar quente nele. E o meu estômago? Alguém organizou uma Rave por lá sem minha autorização e nem me convidaram. Meu Deus, meu Deus... Tá vendo? Até em Deus eu tô acreditando agora. Calma, Alice... Calma. Respira... Ela me ama, ela me ama... e eu? Como eu vou saber se é amor?”


Eu não sei o que Diabos aconteceu com o meu cérebro, mas naquele instante me veio uma música do Só Pra Contrariar na cabeça, acredita? Mas não reclamei, porque ela foi bem providencial.  Comecei a cantarolar mentalmente e a comparar verso por verso com o que eu estava sentindo. O nome da música é Quando é Amor.


(A gente sabe que é amor quando um simples beijo queima o coração. Um sorriso, um olhar, um toque, um aperto de mão)


“Confere.”


(A gente sente é pra valer, o corpo treme todo, a voz não quer sair. Não dá pra disfarçar, os olhos não conseguem mentir)


“Se for assim, é amor desde o dia em que eu a vi pela primeira vez.”


(A gente deita pra dormir, mas o sono não vem, não quer saber de nada, não quer ver ninguém... O tempo é inimigo corre devagar)


“Sim, sim, sim... Isso mesmo... Só existe a Isa. Eu perco o sono pensando nela e quando finalmente adormeço, sonho com ela. Quando acordo, a imagem dela é a primeira que vem em minha mente e as outras pessoas não têm mais a menor graça.”


(No rádio uma canção tão bela, uma história de amor)


“Essa eu nem preciso comentar, né? Essa música é a prova disso.”


(Eu quero estar contigo seja como for. Sem essa de juízo. Não dá pra esperar)


“Exatamente. Não consigo mais pensar em nada, não consigo julgar certo e errado. Eu só quero estar com ela. É isso, eu a amo. Alexandre Pires, você é o cara. Obrigada!”


Então, depois de tudo isso, a resposta mais lógica seria:


“Eu também te amo.”


Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, o meu pensamento “The Flash” continuou:


“Quais são os planos dela? Será que quer me manter como amante? Será que pretende terminar com o namorado? Será que vai ter coragem de se assumir lésbica? Será que quer ser minha namorada?”


Eram muitos “serás”. Eu já tinha certeza de que também a amava, mas estava insegura demais, por isso, decidi não me expor antes de ter certeza das intenções dela.


-- Isa, o que você está pretendendo fazer quando voltarmos para Fortaleza?


O sorriso dela murchou e ela me lançou um olhar confuso, antes de responder:


-- Como... Como assim, Alice? Do que você tá falando?


Tentei não sorrir de forma irônica, mas falhei.


-- Eu tô falando de você... De mim... Do... – Limpei a garganta antes de continuar, pois era inevitável me incomodar quando falava o nome do namorado dela. - ...do Lucas.


Ela baixou a cabeça. Foi nítido o seu incômodo. Virou-se para o mar e o encarou, cruzando os braços. Deu um longo suspiro, coçou o cenho e virou-se novamente para mim.


-- Alice, eu...


“Deus, o que tô fazendo? A gente mal começou a ter algo de concreto e eu já estou pressionando. Que ridículo! Quem sou eu?”


Interrompi meio sem jeito:


-- Isa, desculpa. Desculpa, eu... Eu não tenho o direito...


-- Não, espera. Eu quero falar.


-- Não precisa. Você não me deve nada...


-- Não devo a você, mas devo a mim. E quero falar, posso?


-- Pode sim, desculpe.


-- Bom, primeiro, pare de se desculpar. Você não me deve desculpas nenhuma. Acho que consigo entender a tua preocupação.


-- Consegue?


-- Sim, eu disse que te amo e nós estamos vivendo tudo isso aqui como se não houvesse amanhã, mas há amanhã, literalmente. E amanhã estaremos de volta à realidade. Eu tentei não pensar sobre isso por hora, porque não queria estragar esse momento tão mágico, mas você tem razão. Não podemos fazer tudo isso que estamos fazendo e simplesmente esquecer de tudo que está envolvido.


-- Isa, isso não é uma cobrança. Eu entendo que você tem a tua vida e...


-- E a minha vida é uma merda. Alice, o meu relacionamento com o Lucas já acabou faz tempo. Eu vinha empurrando isso com a barriga por puro comodismo, mas agora, independentemente de você querer ficar comigo ou não, eu finalmente percebi que está mais do que na hora de dar um basta nisso.


“Independentemente de querer ficar com ela ou não? Ela é cega? Não tá vendo que eu tô de quatro?”


-- Isa, você tá falando sério?


-- Seríssimo, mas não quero que ache que isso é uma forma de te pressionar. Eu te amo, Alice. Eu não menti quando disse isso, mas não espero que me ame de volta. Eu só precisava falar para não explodir. É que... É que... Você me faz tão bem! Quando estou com você eu sinto que posso tudo, eu... Eu sinto um calor aqui no peito, eu fico rindo à toa, só consigo pensar em te beijar, em te sentir, em te ter...


-- Isa...


-- Você é tão incrível, eu fico...


-- Isa, me ouve...


-- ...toda boba te olhando. O teu sorriso é tão lindo! E esses olhos? Eu amo os teus olhos, Alice...


-- Isa, eu te amo.


-- ...é como mergulhar no mar... Espera... O quê? O que você disse?


“Minha maluquinha. Amo quando fica assim toda confusa e nervosa... Bem, eu amo de todo jeito, né?”


Ratifiquei com um sorriso bobo nos lábios:


-- Eu disse que te amo.


E mais uma vez fui presenteada com aquele sorriso lindo, que faziam os olhos dela sumirem e a as covinhas das bochechas aparecerem.


“Sim, eu te amo... Te amo... Te amo... Te amo...”


Ela se jogou em mim, agarrando-se em minha cintura com as pernas e abraçando o meu pescoço. Trocamos um beijo delicioso. Aquela, sem sombra de dúvidas, era a boca mais perfeita que eu já tinha beijado e não conseguia mais imaginar como seria a minha vida se não pudesse beijá-la de novo.


-- Eu te amo, Alice.


-- Sim, mas eu te amo mais.


-- Absurdo. Eu amo mais.


E ficamos, entre beijos e palavras, nessa disputa deliciosa.


Eu havia pedido a um amigo para descer o nosso carro e levá-lo até a praia. Quando pousamos, ele já nos esperava. Agradeci e voltamos para o hotel. Entramos no quarto aos beijos, esbarrando nas paredes e nos móveis. Não sei dizer qual das duas tinha mais pressa, mas acho que era eu, pois por mim, teria feito aquilo na praia mesmo. Eu estava tão feliz! Sentia-me plena, realizada. Não conseguia parar de querê-la e tampouco sentia vontade de tentar fazer isso. Lógico que já havia me envolvido emocionalmente com outras pessoas antes, já havia namorado e tudo, mas nada se comparava ao que eu sentia por ela. Era mágico, surreal.


Pois é, não deu tempo mesmo chegar na cama. Esbarramos na mesa e eu a virei de costas para mim. Já havia tirado sua camiseta e aberto o botão e o zíper da calça. Tirei a minha própria camiseta, afastei o cabelo dela para o lado e comecei a beijar sua nuca enquanto minhas mãos safadas apalpavam aquele corpinho pequeno e delicioso que eu amava. Sim, amava muito... Amava tudo naquela mulher, a personalidade, o sorriso, o olhar, o corpo, o beijo, o cheiro, o sexo...


“Ah, o sexo! Ai, ai...”


Amava a maneira que ela se doava para mim, sem qualquer reserva ou pudor. Aquilo me enlouquecia. Enquanto eu a beijava, ela gemia, afastava a cabeça para abrir espaço, movimentava o quadril de encontro ao meu e apertava as minhas coxas com as mãos. Mordisquei suas costas, explorei os seios com uma das mãos e com a outra, o interior de sua calça jeans. Não me fiz de rogada ao pôr os dedos dentro de sua calcinha e ir direto ao ponto que já pulsava de desenho. Massageei com prazer, sentindo o meu próprio desejo pulsar com o contato e com o som daquele gemido delicioso chegando aos meus ouvidos. Entre gemidos, verbalizei mais uma vez:


-- Eu amo você.


E ela não me decepcionou ao responder:


-- Também amo você.


Aquela declaração era música para os meus ouvidos e combustível para o meu fogo, que já havia se alastrado para o corpo inteiro. Desocupei as mãos para me livrar de sua calça, levando a calcinha junto.


“Que bundinha!”


Virei o pescoço para apreciar, enquanto acariciava sua bunda com as mãos. Não resisti e sussurrei em seu ouvido:


-- Gostosa!


Ela suspirou. Mordisquei sua orelha e falei mais:


-- Você me mata de tesão. Te quero todinha pra mim.


Ela gemeu em antecipação. Estava enlouquecida, assim como eu. Era fogo demais. Nossas peles ardiam. Enlouqueci quando ela falou:


-- Então pega logo, vai. Me toma pra você... Me come, Alice.


-- Com prazer.


Desci a boca por suas costas e fui abaixando até ficar de joelhos. Ela apoiou as mãos na mesa e curvou um pouco o corpo, dando-me um acesso perfeito, se é que me entendem. Enquanto a penetrei, deliciei-me beijando e mordendo aquela bundinha gostosa. Ela rebolou para mim, levando-me à loucura. Demorei-me algum tempo assim, depois levantei e a virei de frente. Ergui-a e sentei-a sobre a mesa. Ela jogou o corpo para trás, apoiando-se nos cotovelos. Posicionei-me entre suas pernas e pus-me a massagear seu sexo com o polegar, enquanto minha boca se deliciava, primeiro com o gosto dela e depois com o sabor de seus seios. Entrei nela com vontade, fundo, forte... Iniciei os movimentos e senti o corpo dela tremer. O orgasmo foi quase instantâneo. Ela me apertava os dedos com espasmos fortes enquanto gemia e sacudia o corpo descontroladamente. Eu estava extasiada só de ver e de saber que havia sido a responsável por aquele prazer. Ergui-a novamente, levei-a até a cama e deitei-a. Livrei-me do resto de minhas roupas e encaixei nossos corpos para iniciar um movimento que me levou ao êxtase rapidamente.


Quase perdemos a hora para a nossa reunião, mas conseguimos chegar a tempo. Difícil mesmo foi conseguir concentração para apresentarmos o projeto, pois não parávamos de nos entreolhar. Nossos lábios não paravam de exibir aquele sorriso bobo de quem estar amando e, não tenho certeza, mas acho que qualquer um perto de nós conseguia perceber o que estava acontecendo. Enfim, apesar disso, a reunião foi um sucesso.


À noite, mais uma vez saímos com o pessoal da filial e mais uma vez voltamos para o hotel e nos amamos até a exaustão. No dia seguinte, tivemos mais duas reuniões, pela manhã na filial e à tarde em mais um cliente. Desta última, saímos direto para o aeroporto. Já havíamos feito o check out no hotel e posto as malas no carro.


Nossa segunda viagem de avião não remeteu em nada à primeira. Isa estava relaxada e tranquila. Não demonstrou medo, exceto no momento da decolagem. Durante todo o voo, conversamos, brincamos e namoramos. Passamos a conhecer bem mais uma da outra. Não voltei a tocar no nome do Lucas, estava ansiosa para saber como e quando ela terminaria com ele, mas não quis pressioná-la. Sabia que não seria nada fácil para ela, então decidi esperar que ela tocasse no assunto.


Eu havia pedido ao Pedro que fosse nos buscar no aeroporto, para que ela não precisasse ir de táxi. Desembarcamos e caminhamos até a saída ainda no mesmo clima de descontração. Sorríamos e conversávamos o tempo todo, sem nunca pararmos de trocar carinhos discretos. Cruzamos o portão de desembarque de braços dados e sorrindo, mas o sorriso de ambas sumiu do rosto quando levantamos a cabeça para procurar o Pedro. Ele estava lá, não só ele como Fernanda também... E havia ainda uma terceira pessoa.


“Adivinha quem é? Sim, exatamente. Adivinhou.”


-- Lucas? O que você tá fazendo aqui?


Enquanto ela perguntava espantada, se desfazia rapidamente do meu abraço. Olhei para Pedro e Fernanda e fui retribuída com um olhar de “eu não tinha como avisar e não havia nada que pudesse ser feito para evitar”. Transtornada, olhei para Isa e depois para o namorado. Ele estava nervoso, inquieto. Tive mais certeza disso ainda quando ele respondeu:


-- Vim conferir se você estava viva. Afinal, passou três dias com o celular desligado, sem me dar qualquer notícia.


“Pior que ele tem razão. Isso não se faz. Mas, mesmo assim, não consigo evitar essa sensação de ter levado um soco no estômago ao me deparar com ele.”


Mas essa não foi a pior parte. A pior foi essa:


-- Lucas, vamos pra casa. A gente precisa conversar. – E virou-se para mim. – Alice, a gente se fala amanhã.


E foi embora.

Notas finais:

Meninas, estava atrasada e não queria deixar de postar hoje, por isso, não revisei. Mas amanhã reviso direitinho e posto atualizado.

 

E então, o que acharam do capítulo?

Capitulo 19 - Don't Go Away por linierfarias

Static void Main (){


                var Capítulo= “19”;


  var Título = “Don’t Go Away”;


                var POV= “Alice”;


};


“So don't go away. Say what you say


But say that you'll stay forever and a day in the time of my life”


 


Don’t Go Away (Oasis, 1997)


 


“Lembra daquela parada que eu falei uma vez? Aquela, sobre cafajestes não terem o direito à felicidade plena. Lembrou? Então, você deve ter achado que eu estava dramatizando, né? E agora, consegue concordar comigo? Se ainda não concorda, preciso te mostrar: tá vendo aquela ali, sendo conduzida rumo a saída do aeroporto por uma mão peluda e asquerosa apoiada em suas costas? Pois é, aquela é a minha garota... quer dizer, minha não, né? Os três últimos dias me fizeram acreditar que ela era, mas acabei de perceber que tudo não passou de uma mera ilusão. Então, corrigindo, aquela não é a minha garota... aquela, minha amiga, é a garota que eu amo. Bem, tecnicamente, ela me ama também... pelo menos disse que amava, mas será que agora, de volta à realidade, ela vai continuar amando?”


Eu não era a única confusa naquela situação. Pedro e Fernanda também pareciam completamente desconfortáveis. Antes que Isa saísse com o namorado, ela até tentou:


-- Isa, o que tá havendo...


Mas nem conseguiu concluir a pergunta, pois Isa a interrompeu antes:


-- Fernanda, agora não. Depois eu explico.


Fernanda ainda fez menção de insistir, mas:


-- Por favor, Fê. Respeita o que eu tô te pedindo.


O tom dela era tão sério que nem Fernanda, que parecia não temer nada, pareceu assustada. Mesmo assim, o fora que Isa deu nela não foi o suficiente para cessar sua curiosidade. Então, sem ter o que fazer em relação aquele apelo da amiga, ela acabou me transformando em seu novo alvo:


-- E você, nem pense em me dar fora também. Vai ter que contar tudinho que está acontecendo. Que cena foi essa? Que história é essa da Isa passar três dias sem dar satisfações pro traste? O que aconteceu nessa viagem, Alice? Anda, rasga logo.


Eu estava tão confusa e tão transtornada que sequer consegui responde-la. Ao invés disso, olhei para Pedro e fiz um apelo silencioso por socorro. Felizmente, ele entendeu e me atendeu:


-- Fê, calma, deixa a Alice respirar. Ela não tá bem, não vê?


E eu não estava mesmo. Cheguei até a pensar que a síndrome do pânico da Isa havia passado para mim. Era, sem sombra de dúvidas, a pior sensação que eu já havia sentido na vida. Na hora em que me dei conta da presença do Lucas no aeroporto, tenho certeza de que meu coração parou por um segundo. Senti uma pontada forte no peito e, em seguida, uma descarga elétrica intensa paralisou o meu corpo. Minhas mãos suaram e eu tremi inteira. Meu estômago, nem se fala. Aquela já familiar sensação de ter levado um soco nele. Não era medo do Lucas, longe disso. Todas aquelas sensações estavam sendo causadas por um único motivo: ciúmes. E quando adquiri consciência de que não tinha o menor direito de impedir que Isa fosse embora com ele daquele jeito, tive que me segurar para não deixar as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. A sensação era de total impotência, o que era raro para mim, que sempre tinha o controle da maioria das situações.


“Você não pode fazer nada, Alice. Absolutamente nada, a não ser se conformar e esperar. Ele é o namorado e é pra ele que ela deve satisfações. O que estava esperando? Que ela o mandasse ir pastar ali mesmo? Lógico que não faria uma coisa dessas. Mas aquela despedida tão vaga... ‘Alice, a gente se fala amanhã’. Amanhã? Como ‘amanhã’? E até lá, o que eu faço? E o que ela vai falar amanhã? Será que vai dizer que o que vivemos foi um erro e que não está disposta a terminar um relacionamento de tanto tempo por causa de uma aventura? Ou será que só está me pedindo um tempo para poder ter uma conversa definitiva com ele e acabar tudo? Será que ela vai contar o que houve entre nós? Não, melhor não contar. E se ele surtar? E se ficar com raiva e... ah... sei lá... Um homem traído é um ser imprevisível. Será que ela vai correr algum perigo se contar? E se ele agredi-la? Amanhã... amanhã... amanhã... como ela pôde me deixar no escuro assim? Como vou poder esperar até amanhã para saber o que está acontecendo?”


-- Alice, vem. A gente leva você pra casa.


-- Alice, desculpa. É que tô muito preocupada. Nunca vi a Isa assim...


-- Fernanda, não precisa se desculpar. Eu entendo a tua ansiedade, mas infelizmente estou no mesmo barco que você.


-- Tá, mas o que houve? Por que tudo isso está acontecendo? Ao menos isso você sabe me dizer, sei que pode.


-- É, acho que posso. Mas não aqui. – Virei-me para Pedro. – Pedrão, agradeço mesmo a carona, mas não posso ir pra casa. Vou pirar se ficar sozinha lá. Vamos parar em algum lugar e vocês me acompanham em umas cervejas, pode ser?


-- Claro, lógico que sim. – Virou-se para Fernanda. – Tudo bem pra você?


-- Nem precisa perguntar, né, Pedro? Vamos logo.


No bar, Pedro e Fernanda ouviram tudo chocados. Ele bem mais que ela, pois, pelo que me falou, Fernanda já havia percebido a amiga apaixonada há muito tempo. Já Pedro, embora soubesse dos meus sentimentos, ficou surpreso ao me ouvir dizendo que a amava. Mas foi uma surpresa sem julgamentos ou críticas. Ele só não achava que os sentimentos estivessem tão intensos.


Aquela saída com eles foi bem providencial. Desabafar ajudou bastante a aliviar a ansiedade que eu estava sentindo, no entanto, não foi muito eficaz para acalentar meu coração. Eu ainda não sabia o que estava acontecendo e ainda tinha muito medo de, no dia seguinte, ouvir o que não queria. Olhava constantemente para o celular, mas nem um sinal de Isa. Em determinado momento, não resisti e enviei um “Oi” pelo WhatsApp, mas isso só serviu para me deixar mais ansiosa ainda, pois a mensagem sequer chegou para ela. Deduzi que o celular ainda estava desligado. A ansiedade tomou conta de novo. A conversa de bar já não me distraía mais, eu já estava meio zonza da bebida e já era quase 2h da madrugada. Fernanda tinha ido no banheiro e Pedro estava no balcão, pegando outra rodada de bebida. Comecei a mexer no celular e vi as fotos do voo de asa delta. Olhei uma a uma e fiquei sorrindo feito boba. Em uma delas, especificamente, Isa estava sorrindo, encantada com a paisagem, as covinhas do rosto bem marcadas. Ao lado, eu, com a maior cara de apaixonada do universo. Paisagem nenhuma parecia mais interessante do que a imagem dela tão linda, tão descontraída, ao meu lado. Em um impulso, provavelmente movida pelo o álcool, postei a foto no Instagram. Até ensaiei pensar antes de postar, pois achei que seria no mínimo esquisito, mas não tinha nada demais na foto. Eram duas amigas voando juntas. Além do mais, meu perfil era bloqueado e só meus amigos poderiam ver aquela foto, ou seja, não havia perigo do Lucas ver.


“Pois é... o Lucas realmente não viu, mas adivinha quem curtiu no mesmo instante em que eu postei? Consegue adivinhar? Isso mesmo, acertou. A sumida, porém não morta, Giselle.”


Arrependi-me no mesmo instante, mas apagar parecia mais idiota ainda do que ter postado, então, deixei lá. Mas fiquei com uma sensação esquisita de que aquilo me traria problemas. Não demorou muito para eu ter certeza de que não estava enganada. As cervejas que Pedro nos trouxe foram as últimas. Quando acabamos de tomar, já passavam das 2h e trabalharíamos no dia seguinte. Eu sabia que não dormiria, mas não estava me sentindo confortável em obrigar Pedro e Fernanda me acompanharem naquela vigília. Fomos embora, eles me deixaram no meu prédio e seguiram. Logo que saí do elevador, senti o telefone vibrar.


“É ela, só pode ser.”


Ansiosa, peguei rapidamente o telefone para olhar quem era, mas me decepcionei. Não era Isa, mas sim Giselle. Ponderei por alguns instantes e por fim decidi atende-la. Não devia ter feito isso, mas mais uma vez era o álcool quem agia por mim.


-- Oi, Gi. Tá tudo bem? Por que está me ligando a essa hora?


-- É ela, né, Alice? A novata?


“Merda.”


-- Quê? Do que você tá falando?


Tive que fingir que não sabia do que estava falando, pois sabia que se assumisse, a reação dela não seria nada agradável.


-- Não me faça de idiota. Você terminou comigo porque tá transando com a novata.


“Porra.”


-- Tá maluca, Giselle? A Isa é minha amiga.


-- É, eu vi a amizade de vocês no Instagram. Você toda apaixonadinha, saltando de asa delta com ela.


O tom dela não poderia ter sido mais irônico. Insisti na mentira:


-- Você tá completamente doida. Tá até vendo coisas. Eu, Alice, apaixonada? Olha, Gi, não que eu te deva qualquer satisfação da minha vida, mas vou repetir: a Isabella é minha amiga, só isso.


-- Alice, você é uma vadia muito da mau caráter mesmo, viu? Que foi? Cansou das piranhas que você pegava nos bares e boates e resolveu enfileirar as colegas de trabalho pra satisfazer essa tua perversão?


-- Giselle, você está me ofendendo e eu não sou obrigada a ouvir. Tampouco vou discutir, então, boa noite.


E desliguei o telefone, que logo em seguida voltou a tocar. Ela de novo.


“Que maluca! Vai me alugar com isso pra sempre agora?”


-- O que foi agora?


-- Você vai me pagar por isso, Alice. Não vai sair ilesa dessa história. Isso vai ter volta, pode esperar.


“Ah, tenha santa paciência. Já tô no meu limite e já dei moral demais pra essa doida.”


-- Vá pro inferno, você e suas ameaças. E não me ligue mais. Adeus.


-- Alice, não desligue o telefone na minha cara...


“Quem ela pensa que é?”


Desliguei. E fiz mais, em um ímpeto, movida pela raiva que estava sentindo, arremessei o celular contra a parede. Ele se partiu em mil pedaços.


“Droga, merda, porra... estúpida, idiota, retardada... puta que pariu. E agora? E se a Isa me ligar? Onde vou encontrar um celular pra comprar às 2h da manhã? Que ódio de mim.”


O que me conformava era que ela provavelmente não me ligaria mesmo, mas mesmo assim não consegui conter o nervosismo. Quando finalmente consegui adormecer, já passavam das 4h da manhã.


Acordei assustada... e atrasada. Sem celular, sem despertador. Apressei-me em me arrumar e fui para a empresa. Já passava das 9h quando cheguei lá. Entrei na sala e a mesa de Isa estava vazia, indicando que ainda não havia chegado. Fui até a recepção falar com a Jéssica, que informou não ter recebido nenhum recado dela sobre chegar atrasada. Isa era obcecada com pontualidade, então aquilo estava no mínimo estranho. Resolvi ligar para ela do telefone da recepção mesmo, mas o celular ainda estava desligado. Comecei a entrar em desespero. Quase corri até a mesa do Pedro, pois precisava falar com alguém, mas antes de alcança-la, Jéssica gritou por mim:


-- Alice, o Leandro está chamando você na sala dele. Disse que é urgente.


“Ah, não, Leandro. Agora não tô com cabeça.”


-- Obrigada, Jéssica. Já estou indo.


Desviei o caminho e segui até a sala de Leandro, que me recebeu com um semblante que eu poderia definir, no mínimo, como assustador.


-- Senta, Alice. Tenho um assunto muito delicado pra conversar com você.


-- Credo, Leandro. Que cara é essa? Fiquei com medo agora.


-- Olha, não vou fazer rodeios. Somos amigos, acima de tudo, e quero que saiba que estou do seu lado para o que der e vier, mas enquanto empresa, vou precisar adotar certas medidas...


“Espera, do que ele tá falando? Que papo estranho é esse?”


-- Você disse que não ia fazer rodeios.


-- Alice, a Giselle acabou de sair da minha sala. Ela veio formalizar uma acusação contra você.


“Quê? O que essa maluca fez?”


-- Acusação? Do que você tá falando, Leandro? Que acusação é essa?


-- Assédio sexual.


-- Quê?


Não disfarcei o meu espanto. Aquilo era absurdo demais. O constrangimento de Leandro também estava nítido e ele tentou de verdade tirar o peso do que falou a seguir, mas falhou miseravelmente:


-- Alice, quero que saiba que eu não acreditei em uma palavra sequer do que ela me falou, mas é minha obrigação apurar e adotar as medidas cabíveis. Vamos provar a sua inocência, mas enquanto isso não posso deixar vocês duas no mesmo ambiente. Por isso, vou ter que te afastar até tudo se resolver.


Então, voltando em falar no ônus de ser cafajeste: tem uma novela argentina, o nome é Lalola. O enredo fala basicamente sobre um cara que era o maior cafajeste. Um dia, uma garota joga um feitiço nele e, do nada, ele vira mulher. A garota queria que ele sentisse na pele como era ser uma mulher, pois talvez assim ele aprendesse como tratar uma. Pois bem, como eu já sou mulher, acho que a garota que jogou o feitiço em mim focou em outra lição de moral. Só digo uma coisa: ela pegou muito pesado, viu? Porque não sei mais o que pode dar errado em minha vida.


“Agora fodeu a porra toda.”


 


 

Notas finais:

Quero que me contem o que acharam do capítulo, por favor.

Bom domingo!

Capitulo 20 - Let me Go por linierfarias

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                var Capítulo= “20”;

  var Título = “Let Me Go”;

                var POV= “Isabella”;

};

“Love that once hung on the wall
Used to mean something, but now it means nothing...”

 

Let Me Go (Avril Lavigne feat. Chad Kroeger, 2013)

 

“Já viu aquele filme que conta a história de uma garota que vive uma vida tranquila ao lado do namorado há mais de dez anos e de repente se vê atraída e, posteriormente, perdidamente apaixonada pela colega de trabalho que quase a matou atropelada no dia em que se conheceram? Pois é, a garota até tenta resistir, mas não consegue e acaba traindo o namorado com a colega, durante uma viagem de trabalho que as duas fazem juntas para o Rio de Janeiro. A merda toda do filme acontece quando elas estão voltando de viagem. Ao desembarcarem no aeroporto, elas dão de cara com o namorado traído, que estava com uma cara nada boa...

Epa! Espera aí, mas isso não é um filme... É a minha vida. Caramba!”

Eu estava de coração partido por ter abandonado Alice daquele jeito no aeroporto. Sorte que Pedro e Fernanda estavam lá. Isso foi o que me deixou um pouco mais tranquila, pois sabia que eles não a deixariam desamparada e tinha a mínima esperança de que Fernanda a convencesse que a maneira fria como a deixei não condizia em absoluto com o que eu estava sentindo. Quando me despedi daquela maneira absurdamente fria e vaga, vi em seu olhar que aquilo a estava magoando. Mal sabia ela que a minha real vontade era de puxa-la para o canto e pedir que tivesse um pouco de paciência, pois aquela seria a última noite em que eu seria a namorada do Lucas. Nas próximas, se ela quisesse, eu passaria a ser completa e exclusivamente dela.

Eu estava com raiva... raiva não... estava com ódio do Lucas por ter aparecido daquele jeito. Estava tão furiosa que sequer consegui raciocinar no primeiro momento, tanto que, ao chegarmos no carro, esbravejei da forma mais estúpida:

-- Que porra é essa, Lucas? Que ceninha ridícula foi aquela lá dentro?

E entrei no carro, batendo forte a porta. Emburrada, aguardei que ele ocupasse o banco do motorista e nos conduzisse até em casa, mas antes de sair, ele se virou para mim e retrucou:

-- “Ceninha”, Isabella? Não vem nem responder. “Que porra é essa” digo eu, que tô há três dias sem ter notícias suas. Que porra você estava fazendo no Rio de Janeiro que não teve tempo sequer de ligar pro teu namorado pra dar notícias? E pior... por que a merda do teu celular passou três dias desligado?

“Merda, ele tá certo. O que eu estava pensando?”

A reação do Lucas ao meu rompante me fez cair na real. O que eu tinha feito não era certo e se alguém ali precisava se explicar ou se justificar, esse alguém era eu, pois, embora a minha intenção fosse romper com ele, eu ainda não havia rompido. Então, o meu comportamento havia sido, no mínimo, uma baita falta de consideração. De todo modo, mesmo adquirindo ciência daquilo, não estava disposta a ter aquela conversa dentro do carro, no estacionamento do aeroporto, por isso, pedi:

-- Vamos pra casa, por favor? Lá a gente conversa.

Conhecendo-me como conhecia, Lucas sabia que não ia adiantar nada insistir na conversa. Certamente, esse foi o motivo que o fez se resignar e finalmente ligar o carro. Fizemos o caminho todo em silêncio absoluto, cada um com os seus pensamentos. Ele, provavelmente, tentando entender o meu comportamento atípico, procurando uma justificativa plausível para a minha atitude. E eu, ensaiando mentalmente o que estava preste dizer, tentando encontrar as melhores palavras para terminar um relacionamento que, até pouco tempo antes, eu achava que seria perene. Ao mesmo tempo, Alice não saía da minha cabeça. Queria encontrar uma forma de falar com ela para tranquiliza-la, mas já estava me sentindo muito mal pela traição. Não por ter ficado com ela, mas por ter feito isso estando comprometida com o Lucas.

Entramos em casa e antes mesmo de nos acomodarmos no sofá, já fui falando:

-- Lucas, não há justificativa para o que eu fiz, então não espero que me desculpe.

-- Como assim “não há justificativa”? O que aconteceu nessa viagem, Isa? Por que você passou todos esses dias sem me dar notícias? Eu fiquei muito preocupado, sabia? O que tá acontecendo com você, afinal? Não te reconheço mais.

Àquela altura, meu peito já arfava e o coração batia a mil por hora. Mas não era o momento de ter uma crise de ansiedade, por isso, antes de responde-lo, puxei forte o ar para os pulmões, três vezes seguidas, apertei os olhos e pressionei as têmporas. Depois de dez anos, Lucas já sabia que aquilo não era um bom sinal, então, ao perceber que eu tentava me controlar, sua própria agitação aumentou. Eu ainda estava sentada no sofá, ele, que já havia se levantado, acomodou-se na mesinha de centro, ficando de frente para mim. Segurou minhas mãos e as apertou forte, enquanto me encarava com um olhar absurdamente confuso e desesperado. Abriu e fechou a boca várias vezes, antes de finalmente conseguir falar:

-- Amor, o que aconteceu nessa viagem? O que... – Suspirou. – O que tá acontecendo com você, Isa?

“Não adianta postergar. Quanto mais rápido, menos dor. Sem mais rodeios.”

-- Lucas, acabou. Não dá mais... nós... nós não podemos mais ficar juntos.

“Sabe qual a grande diferença entre a pílula azul que foi oferecida ao Neo e a que foi oferecida a mim? A diferença é que a do Neo não teve um colapso nervoso e se desmanchou em lágrimas quando foi rejeitada por ele. Fácil demais pro Neo bancar o fodão depois de engolir a pílula vermelha que o Morpheus ofereceu. Queria ver se ele tivesse que passar pelo que eu estou passando aqui.”

-- Amor, o que você tá dizendo? De novo, não, Isa. Eu não vou suportar ficar longe de você mais uma vez. Pra quê isso? É só uma fase, como tantas outras fases ruins que já superamos. Ficarmos separados só vai tornar as coisas mais difíceis.

-- Lucas, não é uma fase...

-- Olha, desculpa, eu não devia ter ido no aeroporto. Desculpa por aquela cena, eu... é que eu não tinha notícias suas e estava tão preocupado...

“Meu Deus! Eu o traí, e ele quem está se sentindo culpado. Não, não, não... isso é demais. E você aí, não me chame de idiota. Ele já me traiu, isso é verdade, mas a minha traição foi muito maior do que a dele, pois eu estou perdidamente apaixonada pela minha amante. Amante... que horror pensar na Alice assim. Alice... ela deve estar enlouquecida a essa altura... Isa, para... foco. Depois você pensa nela. Agora é hora de resolver as coisas com o Lucas, você deve no mínimo isso a ele.”

-- Lucas, não tem nada a ver com isso. Para, por favor. Não se desculpe.

-- Não, amor... eu devia ter confiado em você. Se não me ligou, é porque não estava podendo e...

-- Não, não, não... Para, Lucas. Para com isso, por favor.

-- Parar com o quê? Parar de tentar te convencer a não se separar de mim? Não, Isabella, não me peça isso. Eu amo você... amo demais. Quase morri quando você me deixou daquela vez. Foi um erro idiota... eu fui estúpido, imbecil... Não quero passar por aquilo de novo... eu não vou suportar. Eu não aceito isso, Isa. Não aceito.

-- Infelizmente, você aceitar ou não, não faz mais a menor diferença.

Se eu mesma me espantei com a frieza com que a frase havia saído, imagine o Lucas. Ele parecia não acreditar no que estava ouvido. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, passando as mãos pelos cabelos em uma atitude nervosa. Foi com lágrimas nos olhos que me perguntou:

-- O que tá acontecendo com você?

Partiu meu coração vê-lo daquela forma, mas continuar vivendo um relacionamento de mentiras era algo que eu não cogitava mais. Por isso, precisei me segurar para não ceder à vontade que senti de acalenta-lo. Eu o amava, isso não havia mudado. Vivemos uma vida juntos, passamos por muitas coisas... Ele tinha os defeitos dele, que não eram poucos, de fato. Mas não posso acusa-lo de não ter me amado e cuidado de mim. Lucas era meu parceiro, meu amigo, meu companheiro. Aquele fim não ia doer só nele. Eu ia sentir também, mas ao menos eu tinha a Alice, a Fernanda, meu trabalho... E ele? Eu era tudo que ele tinha. Depois de um tempo juntos, Lucas passou a me amar de uma maneira que não era nada saudável. Vivia em função do que eu queria ou precisava e se anulou completamente. Eu até percebi isso, mas como era cômodo demais para mim, fui egoísta e jamais tomei qualquer atitude para fazê-lo mudar.

“E agora, como vai ser? Será que ele vai dar conta? Vai sim... ele vai. E se duvidar, um dia vai perceber que esse término foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para ambos. Tá doendo e ainda vai doer, mas, como diria a Dora Doralina da minha amada Rachel de Queiroz: ‘doer, dói sempre. Só não dói depois de morto, porque a vida toda é um doer. O ruim é quando fica dormente.’ Ele vai superar... eu vou superar.”

Não teve justificativa ou explicação que o convencesse de que o fim era inevitável. Eu até pensei em contar sobre a Alice, isso certamente o faria cair na real, mas o término por si só já o estava devastando por demais e eu não queria tornar as coisas piores do que já estavam. Minha noite foi um martírio. Ele alternava entre as mais antagônicas reações: hora chorava, hora ria de nervoso, depois esbravejava, ficava em absoluto silêncio, voltava a insistir que deveríamos voltar e recomeçava o ciclo. Em determinado momento, deitou no meu colo e chorou em um silêncio doído, até que adormeceu. Foi então que olhei para o relógio. Assustei-me ao constatar que já passava das 3h da madrugada. Com todo cuidado, me desvencilhei dele e levantei. Peguei o celular na bolsa e praticamente corri até o banheiro do meu quarto enquanto o ligava. Tranquei a porta e chequei as mensagens. Havia um milhão do Lucas, além das chamadas perdidas, algumas da Fernanda e uma da Alice. Meu coração apertou. Abri e li o mísero “Oi!”, enviado no início da madrugada.

“Obvio que ela não mandaria mais que um ‘oi’. Certamente esperaria a minha resposta para poder falar mais. Como não respondi, limitou-se a isso.”

Não pensei mais. Apenas respondi:

-- Ainda tá acordada?

Nada... ela sequer recebeu a mensagem. Resolvi ligar... caixa postal.

“Merda! Deve ter ficado furiosa comigo e resolveu desligar o telefone. E agora?”

Resolvi ligar para Fernanda, que me atendeu com voz de sono, mas com uma preocupação perceptível:

-- Você tá bem?

-- Não... digo, sim... Ah, eu vou ficar.

-- E o Lucas?

-- Eu terminei com ele, Fê.

-- Sério? – Falou, a voz de sono dando lugar ao tom espantado.

-- Sério. Mas depois eu explico. Quero saber da Alice. Você falou com ela?

-- Sim, nós saímos pra tomar umas cervejas e depois a deixamos em casa.

-- E como ela está?

-- Surtada, né, Isa? Ela contou tudo.

-- Merda! Eu não consegui ligar antes. O Lucas estava super mal e não tive coragem. Liguei agora e deu caixa postal.

-- Relaxa! Ela bebeu um bocado e deve ter dormido. De manhã vocês se falam.

-- É, pode ser. Agora eu tenho que desligar, Fê.

-- Tá louca? Você não vai me contar...

-- A gente conversa amanhã, prometo. O Lucas pode acordar...

Nem terminei de falar e ouvi as batidas na porta do banheiro, seguidas de:

-- Isa, tá falando com quem?

“Merda!”

-- Com a Fernanda. Já estou saindo. – Gritei e em seguida voltei a cochichar para Fernanda. – Fê, tenho mesmo que desligar. Ligo pra você de manhã, prometo.

-- Tá, vai. Beijo e se cuida.

-- Tá, beijo!

Desliguei o celular novamente, para evitar que Alice me ligasse, caso visse as chamadas e as mensagens. Ao sair do banheiro, encontrei Lucas sentado na cama. O sentimento da vez era raiva. Começamos a discutir por causa de Fernanda. Ele a acusava de fazer minha cabeça para romper o nosso relacionamento e eu me defendia, dizendo que tinha vontade própria. Mas briga, mais desgaste, mais dor...

Foi apenas quando o dia já estava clareando que ele pareceu finalmente entender que minha decisão era irreversível. Como ele não tinha para onde ir, anunciei que lhe daria o final de semana para encontrar um lugar. Transferi de volta o dinheiro que ele havia me dado para pagar a franquia do seguro e disse que juntasse com o restante que havia conseguido pela venda dos LPs para encontrar um lugar para ficar. Ainda discutimos por isso, pois ele se recusava a aceitar o dinheiro de volta, mas no fim o convenci de que não havia muitas opções. Ficou ofendido quando insinuei isso, provavelmente por isso se pôs a jurar que me pagaria de volta cada centavo. Desisti de me explicar e apenas aceitei o que falou. E assim o meu relacionamento com Lucas acabou.

Já passava das 10h quando finalmente consegui sair de casa para ir trabalhar. Estava exausta, esgotada física e emocionalmente, mas mesmo assim meu senso de responsabilidade não me deixava inventar uma desculpa para faltar. Além disso, estava ansiosa para encontrar Alice e sabia que o trabalho seria o lugar mais óbvio para isso. Antes de sair da garagem, liguei o celular, mas nenhum sinal dela. Liguei e deu caixa postal novamente. Apressei-me em sair e segui rumo à empresa.

Passei direto para a minha sala e não consegui disfarçar a decepção quando ao invés de encontrar Alice, encontrei Giselle, sentada em uma das cadeiras da mesa de reuniões.

-- Bom dia, novata? Perdeu a hora?

Nem tentei ser gentil:

-- Virou minha chefe, agora?

O tom de escárnio da risada dela penetrou meus ouvidos de forma estridente e me causou náuseas. Levantou-se, cruzou os braços e veio andando em minha direção enquanto falava com um ar debochado:

-- Mas é muito abusada mesmo. Tá se achando a rainha da cocada preta, né? A prodígio, queridinha do chefe, achando que pode fazer e acontecer que vai ficar tudo bem...

-- Oh, garota, não vou me dar nem ao trabalho de te responder porque eu tenho mais o que fazer. Quer fazer o favor de sair da minha sala e me deixar trabalhar?

E dizendo isso, caminhei até a minha mesa. Inevitavelmente, olhei para a da Alice e percebi que o computador estava desligado.

-- Que foi? Tá procurando a namoradinha? Sinto decepcionar, mas ela não está e nem vai voltar tão cedo.

“Quê? Como ela sabe? E o que tá querendo dizer com isso? Que história é essa de que ela não vai voltar tão cedo?”

Foi inevitável a minha cara de confusão, tanto que nem consegui responder. Percebendo isso, ela soltou outra risada irônica e continuou:

-- É isso mesmo. Sua namoradinha vagabunda foi afastada porque não consegue controlar aquelas mãos enormes dela, sabe? Tem essa necessidade compulsiva de estar sempre apalpando as colegas de trabalho. Alguém precisava para-la e eu resolvi fazer esse bem pra humanidade. Sorry, baby... Bye, bye...

Falou com o ar debochado e saiu sorrindo enquanto eu tentava administrar o que havia acabado de ouvir. Não estava entendendo nada.

“Afastada por não controlar as mãos? Do que essa louca tá falando? Não, isso não pode ficar assim...”

Caminhei em direção a porta também. Eu ia traze-la de volta para explicar aquela história absurda, mas antes de sair da sala, Pedro apareceu e me empurrou de volta para dentro.

-- Isa, entra aí. Preciso te falar uma coisa.

-- Pedro, você sabe do que essa maluca da Giselle tá falando?

-- Sei... Cara, fodeu. Essa demônia descobriu que vocês estão juntas e, por vingança, acusou a Alice de assédio sexual para o Leandro.

-- Quê? Que história louca é essa, Pedro?

-- Pois é, louca mesmo.

-- Cadê a Alice? Eu preciso falar com ela.

-- Isa, a Alice sumiu.

-- Como sumiu?

-- Sumiu. Ela saiu transtornada da sala do Leandro. Eles brigaram feio. Ainda consegui para-la por um instante e arrancar algumas coisas dessa história, mas depois ela pegou o carro e saiu. Já tentei encontrá-la em toda parte, mas nada. Ela nem tá em casa e nem atende o telefone. Tô preocupado, cara.

 

“Quer uma história absurda? Tá aí uma. Que vontade de matar essa vaca da Giselle. E a Alice? Meu Deus, deve estar transtornada. Que merda! E tudo por minha culpa. E agora, o que eu faço?”

Notas finais:

Meninas, estou antecipando do de amanhã, tá? O que significa que amanhã não tem. A menos que...

kkkkk

Contem o que estão achando, por favor!

Capitulo 21 - Primeiros Erros por linierfarias
Notas do autor:

Esse capítulo tem cross over com Amor... E Outros Dilemas, tá?

Static void Main (){


                var Capítulo= “21”;


  var Título = “Primeiros Erros”;


                var POV= “Alice”;


};


“Se um dia eu pudesse ver meu passado inteiro


E fizesse parar de chover nos primeiros erros, o meu corpo viraria sol,


Minha mente viraria sol, mas só chove, chove, chove, chove...”


 


Primeiros Erros (Kiko Zambianchi, 1985)


 


-- Que porra é essa de chuva, Alice? Do que você tá falando?


-- Ai, Gus, você tá lerdo, hein! Te conheci mais esperto.


“Essa é a hora que você pergunta: ‘quem diabos é Gus?’ Calma, que eu vou explicar.”


Depois de sair transtornada da sala do Leandro, ainda esbarrei com o Pedro e tive que contar o que havia acontecido. Mas eu resumi tudo e depois saí correndo sem dizer aonde iria. Bem, tecnicamente não fiz por mal, porque nem que eu quisesse, poderia dizer, já que nem eu sabia. A única coisa da qual eu tinha absoluta certeza naquele instante era de que precisava me afastar dali.


Sabe aqueles filmes de comédia bem pastelões onde tudo começa bem e então alguém vai lá e faz uma coisa idiota, daí, depois disso, tudo desanda, fazendo o resto do filme virar uma sequência inacreditável de acontecimentos ilógicos e bizarros? Pois é, a minha vida estava se parecendo justamente com um desses filmes. Por isso eu queria fugir logo, antes que, além da demônia desvairada me acusando de assédio sexual, aparecesse outra ex enfurecida dizendo que estava grávida de um filho meu ou coisa do tipo.


“Já pensou na merda? E o pior de tudo é que a minha credibilidade tem estado tão contestável ultimamente que é capaz de todo mundo acreditar que eu realmente seja o pai da criança.”


Pelo menos em Se Beber, Não Case, a pior coisa com a qual os protagonistas tiveram que lidar foi o Mike Tyson indo atrás deles para recuperar seu tigre roubado... Não, espera... também teve o lance do cara que perdeu o dente... Ah, e o bebê no armário. E tinha aquele mafioso coreano atrás deles também, mas, mesmo assim, eu ainda preferiria estar na pele deles do que na minha própria.


“Que inferno! Já que a minha vida tinha que se transformar em um filme de comédia besteirol, custava ter sido aquele que o cara arranja um controle remoto que controla o tempo? Assim, eu poderia voltar até o dia em que as presas daquela filhote de cascavel com naja cravaram o meu pescoço pela primeira vez e manda-la pastar, ao invés de me envolver com ela.”


Bem, mas voltando ao Gus...


Quando entrei no carro, comecei a dirigir sem pensar muito sobre meu destino. Só queria ir para algum lugar que me acalmasse. Precisava esfriar a cabeça para poder administrar aquela situação absurda. Na conversa com Leandro, tudo havia ficado muito claro. Ele tinha absoluta certeza de que a acusação maluca da Giselle não passava de uma forma vil que ela havia encontrado para se vingar de mim. Mas essa certeza não era o bastante. Como dono da empresa, ele precisava zelar pelo bem-estar de seus funcionários, então, até que tudo fosse esclarecido, eu realmente precisaria me afastar para garantir que as coisas não piorassem. Leandro ainda me garantiu que logo que tudo fosse esclarecido, seria a vez da Giselle arcar com as consequências de seus atos. Mesmo assim, não consegui controlar a raiva. Acabei perdendo a calma e discutindo feio com ele. Principalmente depois que sugeriu que eu deveria me afastar da Isa para evitar que as coisas piorassem para o meu lado.


No carro, minha cabeça girava e girava. A vontade era de bater na porta da Isa, mas tinha ciência de que isso seria completamente inadequado.


“Ah, Isa, o que tá acontecendo com você? Por que me deixou daquele jeito e não me deu mais notícias? Por favor, não diga que mudou de ideia e resolveu ficar com o Lucas. Por favor!”


Ir para casa também estava fora de cogitação, pois precisava me acalmar, espairecer, respirar ar puro... Mar... Eu precisava do mar. Pensando nisso, após algumas voltas aleatórias pela cidade, peguei a estrada rumo ao litoral oeste e acabei na praia do Cumbuco. Com os sapatos na mão e as barras da calça dobrada, caminhei à beira-mar até sentir minhas pernas falharem, então sentei na areia e passei a observar a paisagem. Foi nessa hora que reencontrei Gustavo, o Gus, um amigo da época da faculdade de quem eu não tinha notícias havia muito tempo.


-- Tá perdida?


Eu até vi um rapaz saindo do mar e achei o rosto familiar, mas só quando ele falou comigo foi que o reconheci.


-- Gus? Não acredito que é você.


Levantei para dar um longo abraço nele, que me deixou toda encharcada. Não me importei com isso, pois realmente estava muito feliz em revê-lo.


-- Alice, quanto tempo, cara?


-- Pois é, acho que não nos vemos desde que você foi estudar nos Estados Unidos com a Clara.


-- É, mas já voltamos há mais de quatro anos.


-- Caramba! E nem pra me avisar, né?


-- Ah, amiga, desculpa. Acabou que a correria me fez deixar passar despercebido.


-- Eu entendo. Minha vida também é uma loucura só.


-- Mas me conta, gata! Como você tá?


Sorri, porque se eu começasse a falar dos meus problemas, ele provavelmente sairia correndo.


-- Indo... Mas eu quero saber é de você. Conta, como estão as coisas? E a Clarinha, hein? Vocês ainda protagonizam a versão cearense de Will & Grace?


“Para quem não conhece, Will & Grace é uma série de TV americana que conta a história dos amigos Will, que é gay, e Grace, que é hétero. Gus e Clara eram tão amigos na faculdade que passaram a ser comparados ao casal da série.”


-- Sim, com a diferença de que a minha Grace resolveu dar um passeio pelo brejo e acabou casada com uma mulher.


-- Não brinca! A Clarinha, lésbica? Nem acredito.


-- Pois é, quem diria, né? E tem mais, a mulher tá apaixonadérrima. Precisa ver.


-- Então a rainha do gelo se deixou ser aquecida... e por uma mulher?


-- Pra você ver como as pessoas mudam. Eu, por exemplo... Você algum dia imaginou que veria o teu principal parceiro da vadiagem amarrado?


-- Ah, mas eu lembro que você ficou gamadaço naquele loirinho de cabelinho de anjo que era calouro. Quase desistiu de viajar por causa dele... como era mesmo o nome?


-- Nicolas.


-- É, o Nic.


-- Então, depois que terminamos, eu voltei pra vadiagem e por lá fiquei. Até que o reencontrei ano passado e voltamos, acredita?


-- Que louco isso, Gus?


-- Pois é, Alice. Parece que ninguém é imune ao amor.


-- Começo a perceber que isso é verdade.


-- Como assim, Brasil? Não me diga que até você largou a vida bandida e permitiu que alguém enlaçasse esse coraçãozinho selvagem.


-- Sim, eu digo.


-- Meu Deus, é o fim dos tempos.


Gargalhamos juntos. Ele continuou:


-- Quero saber dessa história direitinho.


Juntei-me a ele e Nicolas no restaurante da pousada em que estavam hospedados e, enquanto almoçávamos, contei tudo o que estava acontecendo em minha vida. Os dois ouviram atentamente e tentaram me acalmar. Nicolas era advogado e me garantiu que eu não tinha como sair culpada das acusações feitas por Giselle. Dispôs-se ainda a me representar, caso fosse necessário e me orientou a processar a filhote de belzebu por calúnia e difamação. Agradeci e fiquei de pensar a respeito com mais calma, pois não tinha certeza se estava disposta a passar pelo desgaste de um processo. Sobre a Isa, os dois me garantiram que, diante do que eu havia contado, não havia qualquer possibilidade de ela voltar atrás na decisão de se separar do Lucas. Acabaram me convencendo de que uma vez que eu já estava lá, deveria pegar um quarto na pousada e passar o final de semana.


Gus me convenceu também a ligar mais uma vez para Isa do celular dele, vez que eu estava sem o meu. Liguei, mas me frustrei, pois chamou até cair a ligação. Ela definitivamente não estava disposta a falar comigo. Nicolas tentou me fazer pensar diferente:


-- Gata, ela não conhece o número do Gus e não sabe que você está sem celular. Deve ter achado que era outra pessoa e não quis atender.


-- Ai, será, Nic?


Perguntei ao Nicolas, mas foi Gustavo quem respondeu:


-- Amiga, deixa de ser boba. Essa mulher te ama, cara.


-- Eu tô insegura demais, Gus. Meu coração parece que vai explodir.


-- Oh, meu Deus! Vem cá, sua coisinha sensível, vem? – Abraçou-me e continuou. – Vamos fazer assim: a gente vai em alguma lojinha por aqui pra você comprar um biquíni e umas roupas, daí depois você se registra na pousada, toma um bom banho, dorme um pouco e à noite a gente sai pra jantar e tomar todas. Amanhã, pegamos uma praia pra botar uma corzinha nessa sua bunda branca e você tenta ligar pra ela de novo. O que acha?


Pareceu uma boa ideia, pois voltar para casa estava fora de cogitação. Respondi, tentando esboçar um sorriso:


-- Eu topo.


Nicolas reagiu animadamente:


-- Esse é o espírito, amiga.


E Gus completou:


-- Essa é a minha garota. Vamos lá então.


Seguimos o roteiro sugerido por Gustavo, exceto pela parte de dormir, pois foi impossível para mim pregar o olho. Ao invés disso, fui dar alguns mergulhos no mar. Apesar de continuar angustiada com tudo o que estava acontecendo, a sensação de estar em contato com a natureza e de poder observar aquela paisagem deslumbrante estava me servindo de conforto. No entanto, sem celular, a dúvida que pairava em minha mente era se Isa estaria ou não tentando me contatar e isso me fazia ficar ansiosa novamente.


“Merda! Eu devia ter comprado um celular novo antes de vir pra cá. Sou uma idiota completa mesmo. Burra, burra, burra...”


À noite, fomos a pé mesmo a um pequeno restaurante local, onde jantamos, e depois seguimos para um barzinho de decoração rústica, bem charmoso, que ficava quase ao lado. Lá, uma banda tocava pop/rock nacional e vários turistas se divertiam. Começamos a beber e a conversar. Gus me falou da empresa que tinha aberto em sociedade com a Clara. Eles desenvolviam jogos e aplicativos para as mais diversas plataformas e os negócios estavam indo de vento em popa. Estavam inclusive pensando em expansão e procurando um novo sócio. Aquela conversa fez meu radar apitar, pois desde a época da faculdade eu tinha planos de ter a minha própria empresa. Estava até economizando para isso, mas até aquele momento ainda não tinha pensado em quando eu efetivamente realizaria esse sonho. Trabalhar com Leandro era muito bom. Não era sócia dele, mas era como se fosse, pois eu possuía total autonomia para tocar meus projetos. Ele confiava em mim cegamente, e eu não pensava em larga-lo tão cedo, mas diante de tudo o que estava acontecendo, comecei a cogitar essa possibilidade. No entanto, resolvi deixar aquele assunto para depois e voltei a me concentrar em tentar me divertir um pouco.


Já passava das 22h. Gus e eu ríamos alto, cantávamos junto com a banda e conversávamos as mais diversas bobagens. Àquela altura, Nic já havia pedido arrego e voltado para a pousada, pois não conseguiu acompanhar o nosso ritmo. Quando a banda começou a tocar Primeiro Erros, não aguentei e pedi para me juntar a eles. Não sei se por educação ou por diversão o vocalista me passou o microfone e comecei a cantar como se estivesse em um festival de rock. Felizmente, mesmo bêbada, eu era bem afinada e no final da música fui aplaudida por todos.


De volta à mesa, fui debater com Gus sobre a letra da música. Eu já estava completamente bêbada, e ele também. Quem chegasse perto, certamente não entenderia nada daquela conversa maluca. Comparando os meus problemas a uma chuva torrencial que não parava de cair, comecei a falar, sem dar uma sequência lógica às palavras:


-- Só chove, Gus... É muita chuva... chuva demais. Tá vendo? Não para de chover, olha...


E apontava para cima da minha cabeça. Gustavo olhava e não entendia nada.


-- Que porra é essa de chuva, Alice? Do que você tá falando?


-- A chuva, cara... a música... A chuva da música, não tá ób... ób... óbvio?


-- Não... não tô entendendo porra nenhuma do que tu tá falando, gata. Na boa.


E gargalhamos juntos, porque no fim nem eu estava entendendo mais também. Mesmo assim, insisti no assunto:


-- É uma “mesáfora”.


-- Uma o quê?


“Gente, como pode? Eu tô falando tão claramente!”


-- Ai, Gus, você tá lerdo, hein! Te conheci mais esperto.


-- E quando eu te conheci, você não ficava bêbada tão rápido. Anda logo, explica direito que porra de chuva é essa, caramba. Já tô perdendo a paciência.


-- Gus, não tem graça fazer uma “mesáfora” foda se você tem que explica-la. – Bufei e continuei. – A chuva da música não é real, saca? É só uma “mesáf...” metáf... – Soluço. – ...fora. Metáfora... Que palavra bonita, né? ME–TÁ–FO–RA. Não acha bonita? Eu gosto dessa palavra, você não gosta?


Ele já ia responder, mas calou-se ao perceber a aproximação de uma moça morena, muito bonita que era a cara da...


“Espera aí, ela é a cara da Isa. Será que eu tô tão bêbada que já tô até vendo coisas?”


­-- Oi, você deve ser o Gustavo.


-- Ahan, e você é a Isa, né?


“Caraca, velho. Além de ser a cara da Isa ainda tem o mesmo nome. Dá pra acreditar?”


-- E eu sou a Alice, prazer.


E estendi a mão para cumprimenta-la. Com um sorriso de quem estava se divertindo as minhas custas, apertou a minha mão de volta e respondeu com ironia:


-- Muito prazer, Alice. Você vem sempre aqui?


-- Não, só quando a mulher que eu amo desaparece e eu sou acusada de assédio sexual pela minha ex... Mas, vem cá, você tem uma irmã gêmea? Porque, na boa, tu é a cara de uma pessoa que eu conheço.


-- É, parece que alguém bebeu além da conta aqui. Vem, acho que tá na hora de você tomar um banho e deitar. Vamos pra pousada.


-- Espera, garota, não é assim que as coisas funcionam. Tá bom que você é a cara da mulher que eu amo, mas não vai conseguir me levar pra cama assim tão fácil. Paga ao menos um sorvetinho primeiro? Eu sou romântica.


“Tá, eu sabia que era a Isa. Mas não ia perder uma piada dessas, né? E funcionou, porque ela não parava de sorrir.”


-- E desde quando você ficou difícil? Lembro muito bem que tentou me atacar na primeira noite.


-- E eu lembro muito bem que depois dessa noite, foi você quem tentou me atacar.


-- Boba! Eu te procurei o dia inteiro, sabia? Onde meteu o teu celular?


-- Eu quebrei. Como me achou?


-- Retornei uma ligação de um número desconhecido e o Gustavo aqui me atendeu.


-- Que pilantra, sacana, filho da puta! – Virei-me pra ele. – Eu aqui desesperada por notícias e você me escondendo que tinha falado com ela?


-- Se eu falasse, você ficaria mais ansiosa do que já estava. Além disso, achei que ia gostar da surpresa.


-- Bem, dessa parte eu gostei. Mas você vai me pagar por isso mesmo assim, viu? Assim que eu terminar de matar essa coisinha linda aqui, que me fez morrer mil mortes sem me dar notícias desde ontem.


Sorrimos. Gus pediu a conta, pagamos e seguimos para a pousada. Parei de frente para a porta do nosso quarto e fiquei olhando a porta, até que Isa perguntou:


-- O que você tá esperando pra abrir a porta?


-- Tô esperando ela parar de se mexer.


-- Meu Deus!


Ela sorriu e tomou a chave da minha mão. Abriu a porta e me deu passagem para que eu entrasse primeiro. Eu não conseguia parar de olhar abobalhada para aquele sorriso lindo, aquelas covinhas, aqueles olhos enormes cor de mel. Não estava acreditando que era real. Depois de tanta angústia, ela estava lá comigo. Não havíamos conversado nada até então, mas se estava entrando no quarto para dormirmos juntas, significava que ainda me queria. A sensação de tê-la ao meu lado era tão boa, tão revigorante, que a história toda com a demônia havia até perdido a importância naquele instante.


Entramos e não aguentei mais. Puxei-a para os meus braços e a beijei com sofreguidão. Ela correspondeu, apaixonada. Trocamos um beijo cheio de saudades e promessas. As línguas se buscavam ansiosas, o gosto adocicado e a maciez daqueles lábios tiravam de dentro de mim toda a angústia e o temor que haviam se acumulado em vinte e quatro horas. A cada instante ao lado dela, eu tinha mais certeza do amor que sentia e só conseguia pensar em tê-la só para mim.


-- Fala pra mim que você é minha, só minha. Fala, Isa.


-- Eu te amo, Alice.


Falávamos entre beijos, as respirações já completamente alteradas.


-- Eu também te amo, mas preciso saber...


-- Sua, Alice... só sua.


Afastei nossos lábios e a encarei. Precisava ouvir com todas as letras e olhar nos olhos dela enquanto falava. Pedi:


-- Repete.


-- Eu sou só sua... Digo, se você me quiser, é claro.


“Tão linda a carinha de insegurança que ela fez!”


-- E você ainda tem dúvidas?


-- Não, é só que...


-- Isa, quer namorar comigo?


Ela sorriu e brincou:


-- Tá me pedindo em namoro bêbada? E se amanhã, quando estiver sóbria, você se arrepender?


-- Eu tô sóbria desde que te vi naquele bar, mas se não acredita, vou provar.


Afastei nossos corpos e fiz um “quatro” com as pernas, ao mesmo tempo em que repetia a pergunta:


-- Isabella, você quer ser minha namorada?


-- Quero, sua boba. Eu te amo!


“Ah, uma resposta dessas merece uma dancinha, não merece?”


Comecei a dançar e cantarolar Primeiros Erros no meio do quarto. Gritei:


-- Gus, a chuva passou e o tempo abriu.


Gargalhando, Isa perguntou:


-- Do que você tá falando, sua maluca?


-- De nada! Vem cá, vem? Que eu quero matar a saudade.


Na velocidade da luz, nossas roupas foram arrancadas e arremessadas longe. Joguei-a na cama e caí por cima dela. Beijei cada pedacinho daquele corpo que eu amava e já estava familiarizada. Entre beijos, carícias e palavras sussurradas, não conseguíamos parar de sorrir. Não dava para acreditar que ela finalmente seria minha sem qualquer barreira. Depois de um tempo naquela posição, ela virou nossos corpos e tomou o controle. Encaixou nossos sexos, que já pulsavam ardentes, desejosos um do outro, e começou a rebolar em cima de mim, deixando-me absolutamente transtornada de tanto desejo.


-- Senti saudades.


-- Eu também, meu amor. Eu também... Rebola pra mim, vai? Quero gozar assim, te olhando rebolar.


-- O prazer vai ser todo meu, amor.


Não demorou muito até sermos tomadas por um orgasmo alucinante, arrebatador, que fez nossos corpos convulsionarem de tanto prazer. Mas não era para menos. Era tanto amor, tanto desejo, tanta saudade que a sensação não poderia ter sido diferente. E foi assim por boa parte da noite, até que adormecemos exaustas.


Não fazíamos ideia do que seria de nossas vidas dali em diante. Ambas ainda tinham muita coisa para lidar. Eu não sabia ao certo o que havia se passado entre a Isa e o Lucas, mas sabia que as coisas entre os dois não se resolveriam da noite para o dia, literalmente. Com toda certeza, Isa ainda teria que enfrentar muitas coisas por conta desse término. Já eu, além de ter que enfrentar a acusação da Giselle, tinha que encontrar uma forma de lidar com a reação de Leandro ao saber do meu namoro com a Isa. Pensar sobre isso acabou me levando à lembrança do que Gustavo havia me falado.


“Será que não está na hora de largar o Leandro e seguir caminho com as minhas próprias pernas? Antes eu me preocupava em deixa-lo na mão, mas agora ele tem a Isa, que é tão boa ou melhor do que eu. Sei que é muita coisa para ela dar conta sozinha, mas tem muita gente qualificada lá que merece uma promoção. O Pedro, por exemplo.”


Enfim, embora as coisas com a Isa estivessem aparentemente entrando nos eixos, aquela havia sido apenas uma batalha das muitas que teríamos que lutar até conseguirmos botar tudo em seu devido lugar. Mas o mais importante de tudo era que dali em diante não estaríamos mais a sós, pois tínhamos uma à outra como apoio e o amor que sentíamos como arma.

Notas finais:

Eita que amorzinho, né, gente? Mas o que será que vai ser das duas de agora em diante? Será que o Lucas vai deixar a Isa ir assim, tão fácil? Será que o Leandro vai aceitar esse namoro das duas, depois da acusação feita pela filha das trevas? Será que a Alice vai jogar tudo pro ar e recomeçar com o Gus e a Clara? E será que ela vai processar a Demônia?

Ah, outra coisa, gostaram o cross over com Amor... E Outros Dilemas?

Só lembrando que esse é o capítulo de amanhã que eu postei hoje, porque sou muito boazinha.

Não deixem de me contar o que estão achando, por favor.

Abraços e até a semana que vem!

Capitulo 22 - Luxúria por linierfarias

Static void Main (){


                var Capítulo= “22”;


  var Título = “Luxúria”;


                var POV= “Isabella”;


};


“Eu quero é derrapar nas curvas do teu corpo, surpreender seus movimentos, virar o jogo


Eu quero é beber o que dele escorre pela pele e nunca mais esfriar minha febre...”


 


Luxúria (Isabella Taviani, 2007)


 


“Tá, eu sei que você deve estar esperando que eu fale de como consegui encontrar a Alice, do quanto ainda estou incomodada com a minha conversa com o Lucas e de como estou furiosa com aquela Diabolin de araque da Giselle. Não me entenda mal, não é que eu não queira falar sobre isso, mas é que não posso entrar em assunto algum antes de compartilhar o que estou pensando agora: cara, como pude passar vinte e oito anos da minha vida sem perceber que era completamente... absolutamente... exageradamente... incalculavelmente... absurdamente lésbica? E não tem aquele lance de ‘Ah, eu me apaixonei pela pessoa. O fato de ser uma mulher é só um detalhe’. Nada disso. Claro que eu me apaixonei pela pessoa, mas o corpo dela veio junto e... vou te contar... que corpinho, hein? Olha isso? Ah, desculpa... você não tá vendo, né? Bem, azar o seu, porque eu tô me esbaldando aqui. ”


Estávamos no quarto da pousada. Havíamos acabado de tomar café da manhã, e Alice, já de biquíni, passava protetor solar no próprio corpo para depois irmos à praia. Meus olhos acompanhavam cada movimento sem pestanejar, e se a simples visão já estava me deixando completamente excitada, acho que dá para imaginar o que eu senti quando ela pediu:


-- Pode passar nas minhas costas?


A tentação era grande, mas se eu atendesse aquele pedido, certamente não sairíamos do quarto tão cedo, por isso perguntei:


-- Você tem certeza disso?


Até aquele momento, ela ainda não havia notado que estava sendo observada, mas minha pergunta fez a ficha cair e percebendo o meu olhar desejoso, provocou:


-- Por quê? Acha que não vai conseguir controlar as mãos?


-- Provavelmente não.


O olhar dela mudou também. De sereno, ficou selvagem.


-- Sabe...  – Falou e foi se aproximando. – Não tem muito tempo... – Entregou-me o frasco com o protetor solar e continuou a falar enquanto se sentava de costas para mim. – Lembro de você me falando, em um tom bem grosseiro, diga-se de passagem, que não era lésbica.


“Já ouviu a frase: ‘Você tem o direito de permanecer calada. Tudo o que disser poderá ser usado contra você no tribunal’? Pois bem, se me permite um conselho, nunca perca uma boa oportunidade de permanecer calada.”


-- Sim, mas isso foi antes...


Minha frase saiu em um fio de voz. Despejei um pouco do creme nas mãos e comecei a espalhar em suas costas. Àquela altura, meu corpo já estava completamente dominado pelo desejo, e eu não era a única. Ela não conseguia disfarçar o efeito que o contato das minhas mãos em sua pele estava lhe causando. Seu desejo ficou ainda mais claro quando suspirou profundamente, ao mesmo tempo em que jogou o pescoço para o lado. Com um tom de voz rouco e absurdamente provocativo, perguntou:


-- Antes de quê?


Minhas mãos começaram a apertar a pele com mais força, ajoelhei-me na cama, por trás dela, e passei a massagear seus ombros. Aproximei a boca de seu ouvido e respondi, devolvendo o tom provocativo:


-- Antes de você me seduzir com esse charme devastador.


Mordisquei o lóbulo da orelha e desci com a boca pelo pescoço, enquanto as mãos se moviam para os seios e os massageavam suavemente por cima do biquíni. Com isso, arranquei dela um gemido delicioso, seguido de mais uma provocação:


-- Se vamos falar de sedução, precisamos conversar sobre o teu comportamento...


Antes que ela concluísse a frase, pus uma das mãos por dentro do biquíni e comecei a brincar com o biquinho eriçado. Ela gemeu novamente, deixando a frase em suspenso. Interrompi os beijos para instiga-la a continuar:


-- O que tem o meu comportamento?


Com a outra mão, desfiz o laço do biquíni e depois agarrei com vontade os dois seios.


“Já disse que morro de tesão neles?”


Minha boca voltou a explorar nuca e pescoço. Àquela altura, nossas respirações já estavam completamente alteradas. Senti suas mãos agarrando as minhas coxas por trás e puxando o meu corpo para mais perto do dela.


-- Não lembra do jeito que me provocou no carro? E do que fez comigo na festa de virada de ano? E de todo o resto?


-- Sim, eu lembro, mas foi tudo culpa sua. Não parava de me olhar com esses olhos azuis hipnotizantes. Eu me sentia invadida, completamente despida quando me olhava daquele jeito... ainda sinto, na verdade. Além disso, você não tem espelho em casa? Até uma árvore teria tesão em você, meu amor. Gostosa demais, nossa!


Uma das mãos dela já havia percorrido o caminho até a parte de baixo do meu biquíni e, naquele exato instante, se instalava por dentro dele.


-- Gostoso é te sentir assim, toda pronta pra mim.


Minha vez de gemer alto ao sentir aqueles dedos hábeis deslizando pelo meu sexo e massageando-o com perícia. Meu quadril começou a se mover em sincronia, ao mesmo tempo em que copiava sua ação, descendo uma das mãos para dentro da calcinha do biquíni dela. Estava tão molhada, tão pronta, tão gostosa...


“Viu? Eu disse que era lésbica demais, não disse?”


Comecei a massagear aquele pontinho entumecido que se oferecia para mim e clamava por atenção. Meus dedos escorregavam com facilidade, e a cada movimento, ela ofegava mais. Movimentava os quadris, acompanhando o ritmo que eu impunha. Eu queria mais, muito mais... queria senti-la por completo, de todas as formas. Precisava tomar posse mais uma vez do que já era declaradamente meu.


-- Quero você na minha boca.


Meu pedido causou efeito imediato nela, que antes mesmo de me deixar terminar a frase, já havia se virado de frente para mim. O olhar completamente selvagem, azul escuro, a boca entreaberta, o rubor queimando seu rosto... mordi o lábio em antecipação e fui tomada por um beijo avassalador. Enquanto nos beijávamos, as mãos percorriam os corpos uma da outra com urgência e sem qualquer pudor. Aos poucos, completamente trêmulas, fomos desfalecendo sobre a cama, ela por cima de mim. Separou nossos lábios e desceu os dela pelo meu pescoço até chegar nos seios para abocanhar um e depois o outro. Foi então que percebi que ela estava tentando me enrolar, ignorando o meu desejo de toma-la. Enfiei a mão em seus cabelos e interrompi o que estava fazendo. Ela me olhou confusa e ficou mais ainda quando girei nossos corpos, ficando por cima.


-- Eu disse que queria você na minha boca.


Não dei tempo para que fizesse ou pensasse em nada. Deslizei meu corpo para baixo e encaixei a boca em seu sexo, tomando-o para mim com vontade. O gosto era perfeito, a iguaria mais saborosa que eu já havia provado. E a reação dela ao meu contato fazia o prazer crescer ainda mais. Ela gemia, rebolava para mim e falava de forma absolutamente sedutora:


-- Que boca gostosa... Que delícia!


Provoquei o quanto pude, queria postergar ao máximo seu prazer. Entrei nela com os dedos e sincronizei os movimentos com os da minha língua. Quando sentia o sexo dela se contraindo, interrompia... tirava os dedos, a boca... subia para os seios, brincava com eles, estimulava... E depois voltava a penetra-la e chupa-la. Ela estava alucinada, completamente fora de si. As palavras saiam sem qualquer nexo, mesmo assim, com muito esforço, ainda consegui compreender algumas coisas, tipo:


-- Isso é tort... tortura... me deixa gozar...


E apenas para continuar com a provocação, parei o que estava fazendo para perguntar:


-- Quer gozar?


-- Si... sim... continua, por favor...


Voltei a movimentar os dedos, passei a língua suavemente e continuei a provocar:


-- E o que eu vou ganhar se fizer você gozar agora?


-- O que você quiser...


-- Jura?


-- Juro, eu juro... o que você quiser, mas me faz gozar agora, por favor?


-- Hum... o que eu quiser?


-- Isa, já disse que sim... vai, por favor! Não aguento mais.


Não pude deixar de sorrir, primeiro por estar achando uma graça aquele desespero dela, meu tesão estava transbordando com aquilo, literalmente. Segundo, porque ela nem imaginava o que eu tinha em mente. Aquela promessa seria certamente cobrada em um futuro bem próximo.


Voltei a me concentrar no prazer que eu estava proporcionando. Devorei cada pedacinho de Alice enquanto a penetrava forte, mantendo um ritmo frenético. Senti mais uma vez meus dedos sendo comprimidos, mas daquela vez, ao invés de interromper, mantive o ritmo, até que ela gozou deliciosamente em minha boca, fazendo-me quase gozar junto de tanto prazer que aquilo me causou. Mal deu tempo de tirar a boca e os dedos, e já senti meu corpo sendo dominado. Em um movimento rápido, ela me puxou e me fez ficar de joelhos sobre o seu rosto, literalmente sentada na boca dela.


-- Também quero você na minha boca. Minha vez...


Nem consegui responder. Ela me devorou com tanta intensidade que se não fosse a cabeceira da cama para eu me agarrar, minhas pernas não teriam dado conta do recado. Gozei tão forte, tão intenso, que cheguei a ver fogos de artifício explodindo em minha frente. Tenho certeza de que nossos vizinhos de quarto ouviram os meus gemidos.


“Já reparou como o tempo se arrasta quando estamos fazendo algo que não gostamos e como ele parece voar quando estamos fazendo algo que nos deixa felizes?”


Era assim quando eu estava com a Alice. O tempo parecia voar. Em um piscar de olhos, aquele final de semana passou e o momento de encarar de frente os nossos problemas chegou. Em um acordo tácito, tínhamos decidido não tocar no nome de Lucas ou no de Giselle durante todo o tempo em que ficamos na praia, mas na noite de domingo, já de volta à cidade, o momento fatídico havia chegado. Estávamos jantando em um restaurante que ficava próximo ao prédio de Fernanda. Alice até tentou me convencer a dormir com ela, mas, embora a proposta fosse tentadora, eu estava devendo uma conversa à Fernanda. Já tinha combinado que dormiria na casa dela, que até havia desmarcado um encontro com Pedro por minha causa. Não seria justo desmarcar. Pois bem, durante o jantar, um assunto levou ao outro, até que:


-- Sabe uma coisa que não entendo, Isa? Se o apartamento é seu, por que foi você quem teve que sair de lá?


“Ih, outra Fernanda na minha vida!”


-- Porque ele não tem pra onde ir.


Alice até tentou disfarçar a frustração ao ouvir a minha resposta vaga, mas falhou.


-- E ele não poderia ficar na casa de um amigo ou em um hotel, enquanto não encontra um lugar pra alugar?


-- Os amigos deles não têm espaço, e ele não tem grana pra pagar um hotel.


-- E família, ele não tem?


-- A mãe morreu, o irmão é casado e mora em outra cidade, e o pai rompeu com ele.


-- E como vai ser isso? Sei que você tem a Fernanda e tem a minha casa também, mas... e a sua privacidade, suas coisas... Digo, é a sua casa, né? Sei que não é da minha conta, mas isso não parece certo.


-- Claro que é da sua conta. Somos namoradas, não somos?


Ela apenas assentiu com a cabeça. Estava nitidamente desconfortável com a situação. Tentei explicar:


-- Alice, é só por um tempo, até ele encontrar um lugar pra ficar.


-- Quanto tempo?


“Pra quem não costumava namorar, até que ela aprende rápido a cobrar satisfações, né?”


-- Não sei... Eu dei a ele o final de semana, mas acho difícil que tenha conseguido algo.


-- Olha, Isa, me desculpa, mas eu preciso falar. Desse jeito, as coisas ficam bem cômodas pra ele...


-- Pode ser, mas o que eu posso fazer? Eu o peguei desprevenido. Ele não esperava por esse término. Está arrasado, só não quis dar a ele mais uma coisa com o que se preocupar, por isso, não pressionei para que saísse logo.


-- Isa, ele é adulto... vai se virar, vai sobreviver.


“Por que as pessoas não entendem, hein?”


-- Alice, ele é adulto sim, mas não amadureceu. Sei que você não vai entender, mas eu meio que me sinto responsável por ele.


-- Você não é mãe dele.


-- Não sou, mas não posso simplesmente colocá-lo na rua.


-- Sim, você pode.


-- Não, Alice. Não é assim que funciona. Nós temos uma história... um vida inteira juntos. Eu te amo, e é com você que quero ficar, mas isso não muda o fato do Lucas fazer parte da minha vida. E antes que você me pergunte... Não, eu não quero mais ficar com ele, mas ainda me importo com seu bem estar e não vou ficar bem sabendo que ele está na rua, sem ter pra onde ir.


-- Ele não vai amadurecer nunca se continuar sendo tratado com uma criança.


Suspirei exasperada. Aquela conversa estava se tornando a nossa primeira briga oficial de namoradas.


-- Tá, e o que você quer que eu faça?


-- Eu quero que se ponha no meu lugar. Como se sentiria se eu te dissesse que a Giselle ia ter que ficar na minha casa por tempo indeterminado?


-- Você há de convir que são duas situações bem diferentes.


-- Tudo bem, mas e se não fossem? E se fossem situações similares?


-- Alice, eu não vou ficar lá com ele...


-- Não, mas e quando precisar de roupa limpa? Ou mexer no teu computador... sei lá. Eventualmente vai precisar ir lá, não vai?


“Deus, isso tá indo longe demais. Preciso dar um jeito de parar, antes que se torne uma briga feia.”


Agarrei as mãos dela por cima da mesa e apertei forte, ao mesmo tempo em que a encarava firmemente. Tentando passar toda a segurança que eu pude, falei:


-- Escuta, eu vou resolver isso essa semana ainda, tá bom? Eu prometo. Só não vamos brigar por isso, por favor.


Ela respirou fundo, claramente, tentando se acalmar. Respondeu:


-- Desculpa, eu surtei. Mas é que não concordo com isso, Isa. Não consigo entender os teus motivos, por mais que eu me esforce.


-- Mas eu preciso que você tente entender e preciso que confie em mim. Eu amo você e estou dizendo que vou resolver isso o mais rápido possível, só que vai ser do meu jeito. Não posso, não quero e nem vou colocá-lo na rua, mas essa semana mesmo ele sai de lá, nem que eu mesma tenha que procurar um lugar pra ele.


-- Isa, você precisa se ouvir, isso é ridículo. O que mais você vai fazer? Dar pensão alimentícia pra ele?


-- Ele não tem nada... não tem casa, não tem família, não tem dinheiro... e os amigos não são amigos de verdade. Eu não posso deixa-lo à mercê da própria sorte...


-- Não, Isa... por favor, para.


-- Parar?


-- Sim, pare, porque só está piorando as coisas. Olha, eu não vou concordar com você nunca sobre isso, mas também não vou pôr uma faca no seu pescoço. Então só te peço que resolva isso o mais rápido possível e tenha cuidado pra não fazer papel de idiota.


-- Alice, compreenda...


-- Não adianta. Eu não vou compreender. Faça o que tem que fazer, mas, repito, tenha cuidado.


“Será que ninguém consegue entender que eu não posso simplesmente dar um pé na bunda do Lucas?”


A verdade era que eu estava apavorada com o que poderia acontecer com o Lucas depois daquele término. Nem tinha tido coragem de falar para ele sobre a Alice, porque o simples rompimento já havia tirado toda a estabilidade emocional que ele tinha. Durante o final de semana inteiro não tive notícias dele, e preciso conferssar que, por mais que estivesse transbordando felicidade por estar com a Alice, em momento algum consegui parar de pensar no que ele poderia estar fazendo ou pensando. O meu medo maior era de que fizesse alguma besteira. Se isso viesse a acontecer, eu certamente me sentiria a maior responsável e não fazia a menor ideia de como lidaria com a culpa. Sabia que as minhas atitudes poderiam afastar Alice de mim, mas se ela me amava de verdade, teria que aprender a confiar no meu julgamento e enfrentar o problema ao meu lado, da mesma forma que eu estava disposta a ficar ao lado dela no caso da Giselle.


-- Amor, confia em mim, por favor. Eu prometo que tudo vai ficar bem.


Tentei usar o tom mais meigo que pude e funcionou. Ela amoleceu um pouco. Olhou-me com olhos gentis e esboçou um sorriso, antes de pedir:


-- Repete.


-- Repetir o quê? Que tudo vai ficar bem?


-- Não... você me chamou de amor...


Não aguentei, tive que rir da carinha boba e apaixonada que ela fez.


-- Repito... quantas vezes você quiser. Amor, amor, amor, amor, amor, meu amor...


-- Ok... Amor! – Sorriu. – Vou confiar em você, mas, por favor, não me deixa esperar muito tempo. Resolva isso logo.


-- Tão linda com ciúme!


-- E quem disse que é ciúme?


-- Ah, e não é?


-- Claro que não. Sou uma mulher adulta, madura, segura, que... que...


-- Que...?


-- Que está morrendo de ciúmes da namorada dela com o ex.


Caí na gargalhada.


-- Sua boba, não tem qualquer motivo pra sentir ciúmes. Eu amo você... amo demais. Será que já não te provei?


-- Já, mas bem que você poderia provar mais um pouquinho, indo dormir comigo, né?


-- Amor, eu não posso. Você conhece a Fernanda. Tô devendo uma conversa a ela há dias. Entenda isso, por favor.


-- Tá bom, isso eu entendo. É só que já tô mal acostumada com a tua presença... e amanhã nem vou te ver no trabalho.


-- A gente se vê à noite, eu prometo. Mas vem cá, falando em trabalho, como vai ser? Quando você volta?


-- Amanhã vou tentar almoçar com o Leandro. Eu devo desculpas a ele, fui extremamente estúpida. Só depois dessa conversa é que vou saber como as coisas vão ficar.


-- Você deveria mesmo pensar sobre processar aquela vaca demoníaca. Se não fizer isso, vai tornar as coisas muito fáceis pra ela.


-- É, eu sei, mas não quero pensar nisso até provar a minha inocência.


-- O que não vai ser muito difícil, né? Porque todo mundo sabe que aquela piranha passava o tempo se jogando pra você.


-- Sim, mas vamos ver. Não vou cantar vitória antes do tempo, porque aprendi que jamais devo subestimar a Giselle.


-- Tem razão, mas vai dar tudo certo, você vai ver.


-- Tomara, amor. Tomara!


-- Melhor pedirmos a conta. Já tá tarde, e eu ainda vou ter que enfrentar a inquisição da Fernanda, antes de finalmente poder dormir.


-- Tá bom. Que jeito, né?


-- Eu te compenso amanhã, prometo.


-- Vou aproveitar pra passar no shopping e comprar um celular novo. Te mando uma mensagem quando estiver funcionando.


-- Tá. Ah... já ia esquecendo. Se prepara, tá? Amanhã vou cobrar a sua dívida.


-- Que dívida?


-- Agora você não lembra, né? Mas ontem, quando estava me implorando pra te fazer gozar, disse que faria qualquer coisa que eu quisesse.


-- Ei, isso é sacanagem. Eu nem estava pensando direito.


-- Problema seu, meu amor. Prometeu, vai ter que cumprir. Se prepara, porque vou cobrar caro.


-- Tô ficando com medo. Não vai me dar nenhuma pista?


-- Não. Na hora certa, você vai saber.


Pegamos a conta e ela me acompanhou até meu carro. Nos despedimos com um beijo intenso, carregado de saudade antecipada. No caminho para o apartamento de Fernanda, comecei a procurar uma maneira célere e indolor de resolver o problema do Lucas, mas não tive sucesso em encontrar a solução. Só tinha uma certeza: eu precisava urgentemente dar um jeito naquela situação, ou aquilo poderia se transformar em um grande problema para o meu namoro.

Capitulo 23 - Hands To Myself por linierfarias

Static void Main (){

                var Capítulo= “23”;

  var Título = “Hands To Myself”;

                var POV= “Alice”;

};

“Can’t keep my hands to myself”

 

Hands To Myself (Selena Gomez, 2015)

 

“Tá, eu sei que você deve estar louca pra saber o que eu tô achando dessa história da Isa querer manter o Lucas no apartamento dela; como eu vou me virar pra explicar ao Leandro sobre o nosso namoro; e o que eu vou fazer pra provar minha inocência perante às acusações absurdas da Giselle. Não me entenda mal, não é que eu não queira falar sobre isso, mas é que não posso falar sobre assunto nenhum sem antes compartilhar uma coisa com você: cara, eu nunca pensei que um dia ficaria tão completamente... estupidamente... absurdamente... exageradamente... abobalhadamente apaixonada por alguém como estou pela Isa. E não tem aquele lance de ‘Ah, é só uma baita de um tesão. Quando tiver bem muito dela, isso vai passar’. Nada disso. Claro que sinto uma grande atração física por ela, afinal, é uma delícia de mulher. Gostosa pra caramba... ai, ai... só de lembrar já fico toda acesa. Mas não é só isso, e o que vejo além, supera todo e qualquer outro tipo de atração que eu já senti na vida. O sorriso dela me ilumina, me arrebata... Sou capaz de ceder ao pedido mais absurdo que ela possa me fazer se, em troca, receber aquele sorriso. E a voz? Música para os meus ouvidos. Acho a coisa mais linda quando ela fica nervosinha, com medo da maior bobagem. Minha vontade é de pega-la no colo e fazer com que se sinta segura e protegida. Outra coisa que me deixa louca é aquele jeito metido a mandão dela... aquele ar altivo, um pouco arrogante. Fora que é inteligente pra caralho, brilhante, meiga, sensível, engraçada... porra, eu virei um clichê. Tô muito apaixonada!”

Quando acordei, olhei para o relógio na mesinha de cabeceira e me assustei ao ver que já passava das 10h. Levantei em um impulso, assustada, e só quando já estava de pé foi que me lembrei que não teria que ir trabalhar. A sensação foi um misto de alívio – por não estar atrasada – e frustração – por lembrar do motivo pelo qual estava em casa em plena segunda de manhã. Ensaiei me chatear com aquilo, mas afastei os pensamentos problemáticos da cabeça. Na noite anterior, após comprar o celular, havia ligado para o Leandro e combinado o almoço. Sabia que nossa conversa não seria fácil, então decidi me sentir bem até lá.

“E não há nada como ouvir voz da pessoa que ama para isso, não acha?”

-- Oi!

-- Bom dia, coisa linda!

-- Bom dia, meu amor!

“Era disso que eu estava falando. É ouvi-la me chamar de ‘meu amor’ e ficar com cara de boba imediatamente.”

-- Você tá bem?

-- Tô, e você?

-- Bem também. Acabei de acordar, acredita?

-- Vida boa...

-- Quem dera! E você tá fazendo o quê?              

-- Trabalhando, ué... – Usou um tom irônico ao falar, afinal, o que mais ela estaria fazendo na segunda de manhã? – Aliás, fazendo o meu trabalho e o seu, viu, sua folgada?!

-- Ah, mas que culpa eu tenho? Não pedi pra ser afastada.

-- A culpa é sua, sim, que não consegue manter essas mãos safadas longe das tuas colegas de trabalho.

-- Então a culpa é do Leandro, que não facilita a minha vida e só contrata gata pra trabalhar na empresa dele.

-- Cuidado com o que faz e fala... não tem medo que eu te acuse de assédio sexual também?

-- Quê? Meu amor, acho que você tá precisando reavaliar as circunstâncias, porque se tem alguém assediando alguém aqui, esse alguém é você.

E eu não estava mentindo. Sempre fui safada, mas depois que conheci a Isa, descobri que era apenas uma aspirante na arte da safadeza.

-- Está dizendo que eu tô te assediando?

-- Sim, mas isso não é uma acusação, não, tá? Pode assediar. Tô adorando...

-- É?

-- Ahan!

-- Tá bom, então. Já que insiste... Ainda tá deitada?

Perguntou-me com uma voz baixa, rouca, extremamente sedutora. Não sabia se ela estava mal-intencionada ao falar daquele jeito, de todo modo, eu estava gostando.

-- Tô, por quê?

Devolvi o tom sedutor.

-- E tá vestindo o quê?

“Entendeu agora o que eu quis dizer com aquele lance sobre safadeza? Isa é mestra nessa arte, não chego nem aos pés dela. Aquela carinha de mulher séria é pura balela.”

­-- Você sabe que eu durmo sem roupa.

Provoquei de volta e ouvi a respiração dela se alterar antes de voltar a falar:

-- Me dá um minuto?

-- Pedindo assim, dou tudo o que você quiser.

Ouvi o sorriso baixo, cheio de malícia e, em seguida, o barulho do celular se chocando contra a madeira. Alguns instantes depois, o som foi da porta se fechando. Imaginei que a porta da sala estivesse aberta, e ela fechou para poder falar mais à vontade. Mas alguns segundos, e ela voltou a falar:

-- Tô com saudade.

-- Eu também, morrendo...

-- Sonhei com você a noite inteira.

-- Foi? E sonhou o quê?

Ela respirou fundo e fez uma pausa antes de reponder:

-- À noite eu te digo... ou melhor, a gente reproduz.

-- Ah, não. Quero saber agora.

-- Agora não dá, Alice. Tô trabalhando.

-- Ahan, sei! Se não quer me contar, por que foi fechar a porta, então? E por que perguntou o que eu tô vestindo?

-- Touché! – Sorriu. – Tá, eu ia falar mesmo, porque foi só ouvir a tua voz que tudo voltou à minha cabeça, mas tive um súbito de consciência e percebi que não posso falar disso com você aqui... e se entrar alguém?

-- Ué, mas a porta não tá fechada? Ninguém vai entrar sem bater.

-- Alice... de noite eu falo, prometo!

-- Não, quero saber agora. Fala, vai... por favor!

Pus toda a malícia que pude naquele pedido, e foi um tiro fatal. Após uma pausa, respondeu:

-- Tá bom, eu falo... – Respirou fundo mais uma vez. – Você estava exatamente como tá agora, completamente nua...

-- Eu estava? E os biquinhos dos meus seios estavam eriçados? Porque eles estão agora, sabia? Foi só ouvir a tua voz, e eles se acenderam. Estão morrendo de saudade da tua boca.

-- Sim, estavam bem durinhos, e eu não resisti em passar a língua neles... depois passei os dentes, enquanto a minha mão descia bem para o meio das tuas pernas. Você estava tão molhada, amor... meus dedos deslizaram facilmente. E agora, você tá molhada?

“Porra... como essa mulher consegue me deixar assim, apenas falando safadeza pelo telefone?”

-- O que você acha? Tô morrendo de tesão, amor... Só de ouvir você falar.

-- Tá? Então faz assim: põe a tua mão lá e leva um pouquinho desse tesão até o biquinho do seio. Eu fiz isso no sonho, depois eu chupei forte o seio lambuzado. Delícia!

“Eita, assim eu não vou aguentar.”

Eu fiz mesmo o que ela me pediu. Toquei meu sexo e levei um pouco do líquido até o mamilo. Imaginei a boca dela saboreando meu gosto, e foi impossível não descer a mão para me tocar com volúpia. Estava morrendo de tesão e gemi involuntariamente quando comecei a massagear meu sexo úmido.

-- Amor, você tá se tocando?

-- Tô...

-- Então para.

“Quê? Tá louca?”

-- Por quê?

Mesmo ela pedindo, não fui capaz de parar. Eu estava muitíssimo excitada, morrendo de vontade de fazer amor com ela. Era capaz de gozar mesmo sem me tocar, só imaginando aquela cena, tamanho era o meu desejo.

-- Porque não é pra gozar agora. Eu só comecei a contar o sonho.

Eu ouvia a voz dela e até queria que continuasse a falar do sonho, mas àquela altura a minha imaginação já havia viajado para tão longe que voltar parecia impossível. Em minha mente, a boca dela já havia largado os seios e descido até o meu sexo. Eu sentia os dedos dela me preenchendo, ao mesmo tempo em que a boca faminta me devorava inteira. E por estar em outra dimensão, ignorei a ordem que recebi e continuei com os movimentos. Só consegui balbuciar:

-- Amor... não dá... pra parar... tesão demais.

-- Alice, não goza agora... Alice... fala comigo, tá me ouvindo?

Eu estava, mas não conseguia parar de gemer. Estava quase gozando. Ela insistiu:

-- Alice, eu não terminei ainda... espera.

Tarde demais, não consegui segurar. Gozei forte ouvindo a voz dela e imaginando aquela boquinha me devorando inteira. Não me preocupei em abafar os gemidos, e assim ela teve a certeza do que acabara de acontecer. Ainda com a voz trêmula, falei:

-- Que delícia, amor! Gozei tão gostoso pensando em você.

-- Eu te deixei gozar, Alice? Eu disse pra você se segurar, não disse?

“Como assim, ela tá chateada porque eu gozei? Mas foi ela quem provocou isso. Não tô entendendo nada.”

-- Mas, amor, você ficou me provocando e...

-- E eu estava só começando. Não contei nem metade do sonho, custava ter tido paciência?

-- Você tá chateada?

-- Chateada? Eu tô furiosa com você, Alice. E eu, como fico?

­-- Mas você pode continuar. Eu tô louquinha de tesão ainda, gozo de novo fácil, fácil.

-- Não. Não quero mais.

Falou com um tonzinho de birra delicioso, que só me deixou com mais vontade ainda dela. Eu não estava entendo se era raiva de verdade ou só charminho, mas preferi acreditar na segunda opção, por isso, ntão pedi:

-- Conta, vai... conta o resto do sonho. Quero saber...

-- Já disse que não. O orgasmo foi bom, pelo menos?

-- Ahan! Só teria sido melhor se fosse a tua mão, ao invés da minha.

-- Não, você tá errada. Tenho certeza absoluta de que não teve a mesma graça que teria se tivesse me deixado terminar. Agora você nunca vai saber o que eu fiz com a boca, com os dedos, com o meu corpo... enfim, como eu te fiz gozar bem gostoso no sonho.

“Essa garota sabe como me provocar. Caramba! Já tô louquinha de novo... e morrendo de curiosidade.”

-- Desculpa, vai! É que eu não estava aguentando de tanto tesão. Tua voz gostosa sussurrando no meu ouvido, a saudade... não consegui segurar, mas já tô pronta de novo. Continua, por favor! Conta pra mim o resto do sonho, conta? Prometo que agora só vou gozar quando você me disser pra gozar.

-- Não.

-- Amor, não faz assim...

-- Você não precisou de mim pra gozar agora, há pouco. Faça sozinha. Eu vou trabalhar.

-- Não é verdade. Eu preciso de você, sim.

-- Pois é, não parece. Tchau, Alice. Vou trabalhar.

-- Amor... é sério?

-- Desligando...

-- Isa...

-- Tchau.

-- Pelo menos me fala que horas você virá...

Tarde demais, ela já tinha desligado.

“Sabe o que é pior? Esse jeito mandão e mal-humorado dela só me deixa com mais tesão. Tô ferrada.”

Gozei de novo... Impossível controlar a minha mão.

“É eu sei que disse a ela que só gozaria quando mandasse, mas ela só vai saber se você contar. Não vai contar, vai?” 

Por volta das 13h, encontrei Leandro em um restaurante onde costumávamos almoçar. Ele me cumprimentou com os olhos assustados, acho que estava com medo que eu tivesse outro ataque, mas tratei de acalmá-lo logo de cara:

-- Leandro, eu te devo desculpas pelo meu comportamento em nossa última conversa. Imagino que não deva estar sendo nada fácil pra você administrar essa situação e lamento muitíssimo por ter perdido o controle.

-- Relaxa, Alice. Eu consegui entender você. Meu medo, na verdade, era que você não me entendesse.

-- Eu entendo... agora, de cabeça fria, consigo entender. Só que na hora foi mais forte do que eu, e não só por causa da acusação absurda daquela... daquela...

-- Giselle...

-- É, dessazinha aí. Digo, lógico que a acusação me irritou, mas não vou ter nenhuma dificuldade pra provar que sou inocente. Tenho o backup de todas as nossas conversas no WhatsApp, posso conseguir com a operadora os registros das ligações dela pra mim... fora que todo mundo via lá na empresa que ela era quem não largava do meu pé. Vai ser um desgaste, mas vou provar. O que me irrita mesmo é ter que me afastar do projeto justo agora, com as coisas pegando fogo. A Isa é boa, melhor que eu até, mas é muita coisa pra ela dar conta sozinha. Não é justo.

-- Com relação a isso, fica tranquila. Vou pôr o Pedro com ela a partir de hoje. Sei que não é a mesma coisa, mas vai ajudar bastante. Além do mais, não creio que demoremos muito tempo para esclarecer isso, já que a acusação é só no âmbito administrativo. A Giselle não vai te processar judicialmente.

-- Nem tem como, né? Como ela provaria? Agora, eu... pode ter certeza, Leandro. Assim que eu esclarecer as coisas, vou processá-la por calúnia e difamação.

-- Não acha isso meio drástico?

-- Drástico? Não, Leandro. Drástica... e baixa, diga-se de passagem, foi a forma que aquela demônia dos infernos encontrou pra chamar a minha atenção. E tudo porque não soube lidar com a rejeição e o ciúme. O que ela achou? Que depois de me acusar de assédio ia encher a cabeça da Isa de caraminhola e fazer a gente se separar? E mesmo que o plano funcionasse, será que pensou que nós ficaríamos juntas de novo de novo? Porque se foi isso, tá provado que ela é uma louca, desvairada, descompensada. Pode internar em um manicômio.

-- Alice, mulher rejeitada é fogo.

-- Leandro, por favor, não me venha com esse papinho aí de “mulher rejeitada”, porque isso não tem nada a ver com o fato dela ser mulher. É uma questão de caráter, não tem qualquer relação com gênero.

-- Tem razão, me expressei mal...

-- Não, você foi machista e sexista.

-- Alice...

-- Leandro, chega, por favor. Vamos ao que importa. Quero saber o que eu preciso de apresentar pra provar a minha inocência.

Leandro respirou fundo. Ele era um cara legal, mas aquele comentário fora absurdamente infeliz, principalmente para o momento. E eu não seria eu se ouvisse uma atrocidade daquelas e me calasse. Resignado, ele se limitou a me responder:

-- Creio que os backups e os registros das ligações sejam suficientes. Além disso, já orientei o RH a ouvir alguns funcionários e sei que todos ficarão do teu lado. Até o final da semana, essa situação estará resolvida, fique tranquila.

-- E o que vai fazer com ela?

-- Demitir. É uma excelente profissional, mas depois disso tudo não tenho como mantê-la.

-- Bom. Agora vamos ao outro ponto.

-- A Isabella, imagino.

-- Exato. Leandro, nós estamos namorando.

-- Alice, pelo amor de Deus, já viu que isso não dá certo. Por que não mantém seus relacionamentos fora do local de trabalho?

-- Porque não é simples assim. Eu tô apaixonada por ela, não é um caso qualquer.

-- Por quanto tempo, Alice? Vai demorar quanto pra enjoar da menina e terminar? E se ela surtar, igual a Giselle? Olha, por mais que eu seja seu amigo, não posso aceitar mais esse tipo de situação. Já vou perder a Giselle, e não vai ser nada fácil encontrar alguém à altura pra substituí-la. Quer que eu perca a Isa também? O baque vai ser bem maior. Investi muito alto na contratação dela, Alice. Você sabe o quanto. Além disso, pra onde vai a credibilidade da empresa? Não posso deixar que ponha tudo a perder.

-- Ok, acho que eu mereci ouvir isso, afinal, meu passado me condena, e só por isso não vou me ofender, tá? No entanto, preciso esclarecer que a situação com a Isa é bem diferente. Eu a amo, Leandro. De verdade, é sério. Nunca senti por ninguém o que sinto por ela. Juro pra você que tentei lutar contra isso, mas não deu.

-- Não duvido, mas mesmo assim não tenho condições de arriscar. Olha só, vocês duas são meu time dos sonhos, tudo o que a minha empresa precisava pra se consolidar como a melhor e maior do país no segmento. Uma crise entre as duas pode vir a pôr tudo a perder.

-- Leandro, somos mulheres adultas, sensatas e, acima de tudo, extremamente profissionais. Eu te afirmo com segurança, por mim e pela Isa, que jamais deixaríamos que um problema pessoal nosso interferisse no trabalho.

-- Isso é lindo na teoria. Não duvido das suas intenções, mas na prática não é bem assim.

-- Certo, então temos um problema bem maior do que a acusação de assédio.

-- É, parece que sim.

-- E como vamos resolver?

-- Bem, eu não posso aceitar um relacionamento entre vocês duas.

-- Mas você tem ciência de que entramos na casa do “sem jeito”, né? Porque mesmo que estivéssemos dispostas a terminar, o sentimento existe e só por isso, segundo a tua teoria, as coisas já ficariam complicadas.

-- É, eu sei.

-- E então?

-- Bem, confesso que não esperava ouvir que você está apaixonada por ela. Isso muda as coisas completamente. Alice, por mais que isso vá me onerar, não posso manter vocês duas trabalhando juntas. Vou precisar rescindir o contrato da Isa.

-- O quê? Tá maluco, Leandro. Você mesmo disse que acabou de investir altíssimo nela. E o algoritmo que ela desenvolveu?

-- Eu comprei a licença e os direitos... e paguei muito caro, por sinal. Não precisa se preocupar com questões financeiras, porque posso garantir que a conta dela está bem recheada. Eu não a contratei por isso. Contratei porque ela é brilhante.

-- E vai demitir porque é burro.

-- Alice, olha o respeito. Não esqueça que sou seu chefe.

-- Quem tá faltando com respeito aqui é você, Leandro. O que está fazendo é uma grande falta de respeito comigo e, acima de tudo, com a Isa. Quem leva essa merda de empresa nas costas há anos sou eu e, não me entenda mal, eu amo o que faço... você me paga bem pra caralho, mas não é só isso que importa. Cara, depois de tantos anos, você me deve o mínimo de credibilidade. Eu errei com a Giselle, eu sei, mas aprendi. Não tô repetindo com a Isa o que aconteceu com ela, já disse que é diferente. Confia em mim, Leandro. Estou te dizendo que não vou deixar a minha vida pessoal interferir no trabalho. Acredita nisso, caramba. Só te peço um voto de confiança.

-- Não sei, Alice... Tô com medo de arriscar.

-- Deveria estar com mais medo de arriscar perder uma de nós duas. Estamos em total sintonia com o projeto. Os clientes estão maravilhados, empolgadíssimos. Você sabe, tem recebido o retorno deles. Não seja burro, Leandro. Não desfaça esse time sinérgico por medo de uma situação hipotética.

Ele respirou fundo, virou para o lado e encarou o nada, enquanto coçava a testa. Estava claramente tentando absorver as minhas palavras. Mais alguns instantes, e voltou a me olhar. Com um ar bastante sério, falou:

-- Tá ficando sério esse negócio de me chamar de burro, né?

-- Desculpa, é com todo respeito. Senhor Burro, melhorou assim?

Rimos. Naquele momento, percebi que havia acabado de domar a fera.

-- Tá bom, Alice, vou confiar em você. Mas mantenha esse relacionamento totalmente fora da empresa. E não falo só das possíveis brigas. Não quero saber de vocês duas de pegação, tá? Na primeira situação inadequada, teremos sérios problemas.

-- Pode deixar, chefe.

Bati continência, e sorrimos juntos novamente. Não foi fácil, mas consegui convencê-lo. De todo modo, mesmo que não tivesse conseguido, eu já tinha o plano B. Nem em sonho eu deixaria que ele demitisse a Isa, antes disso eu pediria demissão. E era o que eu estava disposta a fazer, caso ele não tivesse aceitado a nossa relação.

O almoço seguiu tranquilamente. Falamos mais sobre o caso da Giselle e acertamos algumas estratégias para mitigar os danos causados pelo meu afastamento. O que demorou a passar mesmo foi a tarde. Isa mal me deu atenção, trocamos apenas algumas mensagens, pois ela estava realmente muito ocupada. Em uma dessas mensagens, ela me falou que precisaria passar em casa antes de ir para o meu apartamento, pois tinha que pegar algumas roupas e itens de higiene. Não quis bancar a ciumenta, mas quando li, quase me ofereci para ir junto. Só de pensar nela perto daquele marmanjo peludo, meu estômago revirava, sem contar que eu já estava demasiadamente incomodada com a decisão dela de mantê-lo por lá até que encontrasse outro lugar, pois tinha alguma coisa que me dizia que ele demoraria demais a encontrar. No fim, optei por me resignar. Apenas respirei fundo e falei que ficaria esperando ansiosamente.

Já passava das 20h, e nenhum sinal da Isa, nem uma mensagem sequer. Ela havia me falado que chegaria por volta das 19h30’. Eu já tinha até preparado o nosso jantar. Mais meia hora se passou, e decidi que não esperaria mais. Liguei pra ela:

-- Oi, desculpa... sei que tô atrasada.

-- Tá tudo bem, amor?

-- Não, Alice... não tá.

-- O que houve?

-- É o Lucas. Ele tá caído de bêbado aqui. Vomitou o apartamento inteiro. Quando cheguei, ele estava aos prantos, falando que não tinha mais sentido viver sem mim...

“Eu sabia. Que ódio!”

-- Isa, isso é chantagem emocional barata.

-- Eu, sei... eu sei... Mas não posso deixo-la aqui nesse estado. Você entende?

-- Não, eu com certeza não entendo.

-- Alice, por favor... Só vou dar um jeito de botar ele no chuveiro, limpar essa sujeira, e assim que ele dormir, o que vai ser logo, eu vou te encontrar.

-- Isabella, você não está se ouvindo, está?

-- Amor...

-- Não, sem essa de “amor”. Você acabou de me dizer que vai dar banho no teu ex, o que é só mais um absurdo diante de todos os outros. Como quer que eu me sinta? Ponha-se no meu lugar.

-- O que tá achando? Que eu vou transar com ele? Você tá louca?

-- Claro que não, mas isso não torna as coisas mais fáceis.

-- E o que você quer que eu faça, Alice? Quer que eu o deixe aqui, nesse estado?

-- Eu quero que você deixe esse marmanjo viver a vida dele e que você venha viver a sua. Ele não é criança, Isabella. Tenho certeza de que sabe se cuidar.

-- Não, ele não sabe. É adulto, mas é imaturo.

-- Pois é, mas enquanto você não deixar de agir como a mãe dele, ele nunca vai amadurecer.

-- Eu não menti pra você, amor. Eu disse que precisava de um tempo pra resolver tudo, não é simples assim.

-- Ok, Isa. Então resolva. Depois que resolver, aí você me procura, tá? Porque eu não quero e nem vou competir com esse cara pela tua atenção. Tchau...

-- Alice, espera...

“Esperar é o caralho.”

 

Desliguei.

Notas finais:

Meninas, não deixem de me contar o que estão achando, tá? A opinião de vocês é fundamental para o desenrolar da história.

Espero que tenham gostado do capítulo.

Abraços e até domingo que vem!!!

Capítulo 24 - Everybody's Fool por linierfarias

Static void Main (){

                var Capítulo= “24”;

  var Título = “Everybody’s Fool”;

                var POV= “Isabella”;

};

“But now I know she never was and never will be

You don't know how you've betrayed me

And somehow you've got everybody fooled...”

 

Everybody’s Fool (Evanescence, 2003)

 

“Tem um filme antigo de suspense, com a Halle Barry, o nome é Na Companhia do Medo. Ele conta a história de uma psiquiatra criminalista conceituada que após se envolver em um acidente e quase matar uma garota atropelada, sofre um apagão e acorda dias depois, internada no sanatório onde trabalha. Pra piorar as coisas, ela descobre que está sendo acusada pelo assassinato do próprio marido, morto cruelmente a machadadas. Ela passa o filme inteiro sem entender nada do que está acontecendo, acreditando estar sendo vítima de uma conspiração bizarra, pois nada do que ouve faz o menor sentido em sua cabeça, mesmo com as pessoas em quem mais confia reafirmando os fatos.

No final... ***** ALERTA DE SPOILER ***** Então, vou te dar mais uma chance de não ler o que acontece no final do filme... Vai ler mesmo assim? Tudo bem, você quem sabe.

Então, continuando... No final, após visitar a cena do crime, a psiquiatra finalmente se dá conta de que foi realmente ela quem o matou. Não preciso dizer o quanto ela ficou transtornada com essa descoberta, né?

Agora, você deve estar se perguntando o que isso tem a ver comigo. Em resumo, eis o meu medo: será que tá todo mundo certo, e só eu não me dou conta de sou a grande responsável pelo Lucas ter se transformado... ou melhor, por ele não ter se transformado em um homem adulto?”

-- Fernanda, você não tá entendendo. A Alice pôs uma faca no meu pescoço. Me deu um ultimato.

-- Ultimato quem tá te dando é esse mané aí. Tá te manipulando mais uma vez, e você nem percebe.

-- Você tá louca. Como ele pode estar me manipulando? Olha só pra isso. – Apontei para Lucas, que estava adormecido no sofá da sala, com a camisa toda suja de vômito. – Ele não sabe nem o que tá fazendo, Fê. Tá caído de bêbado. Mas a Alice sabe... ela sabe exatamente o que tá fazendo. Eu conversei com ela sobre isso. Falei que não seria tão simples assim me afastar do Lucas. Ele é uma criança.

-- Olha, Isabella, vou te contar uma coisa, minha filha... Não sei pra que serve essa tua porra de QI do Eistein, porque, na boa, tu consegue ser uma completa idiota, de vez em quando.

-- Escuta aqui, eu te chamei pra me ajudar e não pra ficar me xingando. Se não vai ajudar, prefiro que vá embora.

“Espera, você não tá entendendo nada, né? Calma, vou explicar.”

Depois que a Alice desligou na minha cara, o que, diga-se de passagem, deixou-me furiosa, fui tentar arrastar o Lucas paro banheiro, mas foi em vão. Ele era muito maior do que eu e era forte também. Além disso, eu não conseguia me aproximar muito, pois o cheiro de vômito fazia o meu estômago revirar. A minha primeira ideia era pedir à própria Alice que viesse em meu socorro, mas nossa conversa não havia sido das mais amigáveis, por isso, decidi ligar para Fernanda. Cerca de meia hora depois, ela apareceu no meu apartamento. Narrei todo o acontecido, inclusive a parte da discussão com a Alice, e ela deu toda a razão à minha namorada, fazendo a minha raiva aumentar. Eu estava furiosa com a Alice pela falta de compreensão e pela grosseira dispensadas a mim naquela ligação.

“O que ela queria que eu fizesse, afinal? Eu não posso simplesmente ignorar o que aconteceu aqui. O Lucas está destruído, e é tudo culpa minha. Estávamos supostamente bem na cabeça dele e, do nada, eu cheguei e acabei tudo. Eu não quero e nem vou voltar com ele, mas tenho obrigação de ajuda-lo a passar por isso. Custa a Alice ter um pouco de paciência e confiar em mim? Eu a amo e já provei isso mil vezes, mas não é tão simples assim acabar uma história de mais de dez anos. Não, eu não vou ceder a esse capricho ridículo. Ela nunca teve um relacionamento que durasse tanto, por isso não entende. Mas se quiser realmente ficar comigo, vai ter que aprender a entender.”

Voltando à Fernanda, após a minha grosseria, para variar, ao invés de revidar, ela apenas bufou, como quem tenta buscar o autocontrole. Em seguida, muito calmamente, falou:

-- Isa, vem cá.

Aquilo não era um pedido, mas sim uma ordem. Arrastou-me pelo braço até que eu ficasse em frente ao espelho do bar, na sala. Parou ao meu lado, e ficamos nos encarando através dos nossos reflexos. Perguntou:

-- O que você tá vendo?

-- Aonde você quer chegar com isso, Fê?

-- Isa, essa sou eu sendo foda, como sempre. Vou te dar mais uma lição de moral. Quer fazer o favor de não atrapalhar? Responde à pergunta.

A despeito da raiva e frustração que estava sentindo, sorri.

“Tem como não rir de uma palhaça dessas?”

-- Tá... eu vejo nossas imagens refletidas em um espelho.

-- Sim, isso tá meio óbvio... tão óbvio quanto o fato de que sou muito mais gata do que você, mas quero que enxergue além. Quem são essas duas mulheres, Isa?

-- Bem, essa ruiva gata aí é a minha melhor amiga, praticamente minha irmã...

-- Fala um pouco da trajetória de vida dela.

-- Ela foi uma criança sapeca, uma adolescente namoradeira e agora é uma adulta bem-sucedida e feliz...

-- E o que mais?

-- Não sei o quer que eu fale.

-- Quero que diga que apesar de ter me divertido muito, eu também ralei pra caramba, estudei pra caramba, trabalhei demais e que, hoje, tudo o que eu tenho... a independência que conquistei, minha casa, meu carro... tudo isso é fruto do meu suor e dedicação.

-- Sim, eu sei disso.

-- Eu sei que sabe e sei também que tem ciência de que a história dessa outra mulher aí é bem parecida com a minha. Isa, quando você olha pra quem somos hoje, enxerga alguma coisa do que fomos no passado?

-- Na verdade, bem pouco... quase nada.

-- Exatamente, porque essa é a lei da vida. A gente vem ao mundo pra evoluir. A borboleta nasce lagarta, sabia?

-- Ok, mas qual é o ponto?

-- Vem aqui.

Ela nos levou até o Lucas, que, ainda adormecido no sofá da sala, roncava alto. Paramos em frente a ele. Embora dez anos mais velho, a aparência dele ainda remetia e muito a de quando nos conhecemos. A camisa de banda de rock, as calças surradas, cabelos bagunçados, a barba por fazer... Mas aquele era o estilo dele, eu não podia julgar. Fernanda continuou:

-- Agora me diz o que vê.

-- O Lucas.

-- Tá, mas é um Lucas evoluído, assim como nós, ou o mesmo Lucas que conhecemos no colégio?

-- Já saquei, Fê, mas é diferente...

-- Diferente por quê? Nós tivemos exatamente as mesmas oportunidades, Isa. A diferença é que nós soubemos... soubemos não, quisemos aproveita-las, e ele não.

-- Você sabe que o Lucas sempre foi fraco emocionalmente, a relação com o pai dele é péssima, a mãe morreu cedo e...

-- E você assumiu o papel dela.

-- Não é bem assim...

-- É assim, sim. E fez mais, porque tenho certeza de que a mãe dele de verdade não o teria mimado tanto.

-- Está querendo dizer que ele não evoluiu por minha causa?

-- Não exatamente. Ele não evoluiu porque não quis... preferiu viver de sonhos e expectativas, acreditar que um dia emplacaria como artista. Mas que interesse ele poderia ter em pensar diferente, se você facilitava tanto as coisas? Sempre foi cômodo demais pra ele. Isa, quando o Lucas precisou se preocupar em pagar uma conta de energia? Alguma vez ele gastou um centavo na manutenção de um carro? Até o plano de saúde dele é você quem paga, sem contar as outras coisas... Ele já comprou alguma cueca? Eu poderia passar a noite inteira enumerando, mas sei que no fundo você tem ciência disso. Olha, eu não duvido que as tuas intenções foram as melhores, afinal, você não queria destruir as esperanças dele, mas fazendo o que fez, nem se deu conta que colaborou pra ele se tornar essa criança mimada de quase trinta anos.

“Fernanda e esse poder de acertar em cheio, sempre.”

No fundo, eu sabia que ela estava certa, mas admitir seria muito doloroso. Por isso, tudo o que fiz foi ficar calada, de pé, encarando a imagem patética daquele homem arriado no meu sofá. Ela me observou por alguns instantes e logo voltou a falar:

-- Então, eu sou foda, né? Te peguei de jeito... Tá refletindo sobre o que eu falei, não tá? Tá pensando assim: “Porra, cara, o que seria da minha vida sem os conselhos da Fernanda?”

-- Tá, Fê, você venceu. É difícil admitir, mas você tem razão.

-- Eu sei, bebê. – O tom foi irônico e, para arrematar, apertou minha bochecha.

-- No entanto, isso não torna as coisas mais fáceis.

-- Ah, Isabella, vá tomar no...

-- FERNANDA.

-- Tá, desculpa. Mas o que é agora?

-- Se eu sou realmente a responsável por ele ter se tornado um perdedor, sinto uma obrigação maior ainda de ajuda-lo a andar com as próprias pernas.

-- Porra, cara. Tu é burra ou só se passa? Isa, uma criança só aprende a andar de bicicleta de verdade quando os pais tiram as rodinhas de apoio. Elas vão cair, vão se machucar, mas eventualmente vão aprender a se equilibrar. Sei que você se preocupa muito com quem ama e, sinceramente, tenho até medo de um dia você ter um filho e pôr ele numa bolha, mas não é assim que as coisas funcionam. Você não vai estar aqui pra sempre pelo Lucas. Ele precisa aprender a viver sozinho, a se virar sozinho... Quanto mais perto você ficar, mais difícil vai ser pra ele. Reflita sobre isso.

“É, faz sentido... é difícil admitir, mas faz.”

-- Ai, Fê... É tudo tão complicado! Eu tô perdida, não sei o que fazer. Ainda mais agora essa briga com a Alice... não sei, o que eu faço?

-- Primeiro, deixa esse marmanjo caído aí. Amanhã ele vai acordar com uma baita de uma ressaca, mas vai tomar um banho, um remedinho pra dor de cabeça e logo se sentirá melhor. Segundo, vai atrás da tua namorada, cara. Nem precisava tá te dizendo isso, né, Isa? A mulher te ama, você a ama também... sem contar que... vamos combinar, né? Se você estivesse lá agora, já teria gozado no mínimo umas três vezes, e isso é bem melhor do que ficar limpando vômito de ex.

-- Meu Deus! Por que eu te falo sobre a minha vida sexual?

-- Nem precisava falar, boba! É só observar a tua pele, o teu semblante... Tá na cara que você tem gozado todo dia.

-- Cala boca, sua maluca. Vai que ele ouve.

-- Bem, isso é a terceira coisa. Quando ele estiver sóbrio, você precisa contar, Isa. Não que eu me importe com esse mané, mas não é justo esconder esse teu lance com a Alice, até porque ele vai acabar descobrindo de outro jeito e vai ser muito pior.

-- É, eu sei... Preciso contar, mas no dia em que terminei, não tive coragem.

-- Pois trate de arranjar. E por último, você vai viver como nômade pro resto da vida? Ele precisa sair do teu AP, cara.

-- Fê, é impressão minha ou você tá falando “cara”, “porra” e “foda”... o tempo todo, agora?

-- Não é impressão. Tudo culpa do Pedro.

-- É, eu imaginei.

-- Não desconversa, Isa.

-- Tá, bom... vou falar com ele amanhã. Só fico preocupada de ele não ter pra onde ir.

-- Acredite, quando ele se vir sem teto, vai encontrar um lugar.

-- Isso é cruel.

-- Não é. Cruel é você perder o teu espaço, a tua privacidade. Não que eu não goste de te receber na minha casa, e tenho certeza de que pra Alice será sempre um grande prazer também, mas eu te conheço. Sei que gosta das coisas do teu jeito, toda metodicazinha, organizada... gavetas pra separar as calcinhas de bolinha das listradas...

-- Quanto você quer pra parar de me zoar?

-- Nada... eu só quero que você saia daqui agora e vá fazer as pazes com a tua namorada. E depois, que faça o que eu disse e resolva as coisas com esse zé mané.

-- Me ajuda ao menos a colocá-lo na cama?

-- Isabella...

-- Ai, sua chata! Tá bom, tá bom... Vamos.

Descemos. Decidi seguir os conselhos da fodona... digo, da Fernanda, e deixei Lucas adormecido no sofá mesmo. Por dentro, as coisas não tinham mudado muito. Eu continuava lamentando a situação e temendo que a história não acabasse bem, mas, no fim, aceitei que ela tinha razão. Foi duro admitir, mas finalmente optei por me resignar e aceitar. Não ia ser fácil para mim quebrar aquele vínculo, mas eu realmente teria que fazer de forma drástica. Por mim mesma, por ele e pela Alice.

“Alice...”

Era nela em quem estava pensando quando entrei no carro. Segui para sua casa disposta a acertar, de uma vez por todas, aquela história. Eu ia ligar para avisar que estava indo, mas decidi fazer uma surpresa, além disso, não sabia qual era o nível de chateação dela comigo e fiquei com medo que nem atendesse. Eu tinha medo, inclusive, de que não autorizasse nem a minha subida, por isso, quando anunciei ao porteiro:

-- Sou Isabella, vim para ver a Alice, do 1203.

E ele me respondeu:

-- Ah, dona Isabella, a dona Alice já deixou a sua subida autorizada, pode ir.

Minha surpresa não poderia ter sido maior, e embora eu a estivesse xingando mentalmente por não morar em um andar mais baixo, fiquei muito feliz. Até lembrei daquela música do Nando Reis quando apertei o 12. Contrariando toda a tensão que os elevadores me causavam, subi os doze andares com um sorriso bobo no rosto e cantarolando a música:

-- Aperto o doze que é o seu andar, não vejo a hora de te encontrar pra continuar aquela conversa que não terminamos ontem... ficou pra hoje...

Mas o sorriso se esvaiu após tocar a campainha e ser atendido por alguém que eu definitivamente não esperava.

-- Boa noite, novata! Desculpa te chamar de novata, mas é que sempre esqueço o teu nome. É Isa... Isa... Isa o quê mesmo, hein?

“Não, você não está enganada. Esta é a vaca demoníaca falando. O que ela está fazendo aqui? É bom que a Alice tenha uma boa explicação. E não, eu não faço aquele tipo clichê que tira conclusões próprias e sai correndo, deixando a situação em suspenso. Eu tiro satisfações mesmo e só me conformo depois de ouvir cada centavinho de explicação.”

A minha vontade era de voar nos cabelos daquela filhote de credo em cruz ali mesmo, na porta do apartamento de Alice, mas não faria nada antes de tomar satisfações com a dona da casa.

-- Cadê a Alice?

-- Tá no quarto, mas... vem cá, o que faz aqui tão tarde? Sabia que não é educado aparecer assim na casa dos outros sem avisar?

Meu sangue ferveu e começou a circular rápido pelo corpo, comecei a suar frio e a tremer. O coração pulava forte no peito. Eu estava tendo uma crise, mas não era de pânico. Era de ódio.

“No quarto? Como assim? Será que elas estavam... será que... não, não, não... Alice não ia fazer isso comigo. Não pode ser tudo mentira... Será? E se ela fosse fazer uma coisa dessas, porque com essa piranha macabra, que só a prejudicou? Não, Isa, para... não fique tirando conclusões. Entre de uma vez por todas e cobre da Alice uma explicação.”

Foi exatamente o que fiz. Atropelei a vagabunda, que quase caiu, e entrei. Era a primeira vez que entrava no apartamento de Alice, não estava familiarizada com nada e não fazia a menor ideia de onde ficava o quarto dela, por isso, ao invés de procurar, gritei:

-- Alice, cadê você?

-- Já disse, bebê, ela tá no quarto. Vim abrir pra ela, porque estava com pouca roupa.

-- Escuta aqui, sua cascavel trevosa, eu não faço ideia do que veio fazer aqui, mas é melhor calar a boca, senão te mostro em dois segundos como você vai embora.

Ela chegou a ri alto, com um sarcasmo que me enojou, mas antes que conseguisse soltar a próxima frase venenosa, Alice apareceu na sala, transtornada... Só de roupão. Se eu fosse o Hulk, teria me transformado naquele instante e esmagado as duas de uma vez só de tanto ódio que senti. Mas como sou só eu, apenas perguntei, forçando para que as palavras saíssem entre os dentes trincados:

-- O que essa piranha tá fazendo na tua casa, Alice?

 

“Sabe aquele outro filme? Aquele em que o personagem cafajeste não tem jeito e na primeira oportunidade que tem, encontra a desculpa mais esfarrapada do mundo pra trair a mocinha? Pois é, esse é o filme da minha vida agora.”

Notas finais:

Gente, por favor, não queiram cometer um autoracídio. É domingo de páscoa. Cadê o amor nos corações de vocês?

Abraços e Feliz Páscoa.

Até domingo que vem.

#posteiesaícorrendo

Capitulo 25 - Misunderstood por linierfarias

Static void Main (){

                var Capítulo= “25”;

                var Título = “Misunderstood”;

                var POV= “Alice”;

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“I should have drove all night
I would have run all the lights
I was misunderstood
I stumbled like my words
Did the best I could
Damn, misunderstood”

Misunderstood (Bon Jovi, 2002)

 

— Amor, espera aí… você não tá achando que…

— Achando o quê? Que você ficou com raiva de mim e transou com a jacutinga das trevas pra se vingar? Bem, você é de convir que a situação aqui não colabora pra que eu pense diferente, né? Mas estou te dando o benefício da dúvida, Alice, e espero que tenha uma explicação bem convincente pra me dar.

Eu já ia abrindo a boca para falar, mas então a cascavel dos infernos me interrompeu, enquanto se aproximava de mim cheia de mãos:

— Alice, amor… desde quando você dá satisfações da sua vida? Deixa essa idiota pensar o que quiser…

— Cala a boca, Giselle.

As palavras saíram gritadas da minha boca, e ao mesmo tempo em que gritei, empurrei a vaca pelos ombros para evitar que conseguisse me tocar.

“Acredita que a piranha é tão cara de pau que riu com ironia?”

Ignorei a vontade que tive de escorraçar Giselle dali e virei para Isa – era com ela que eu estava preocupada de verdade – Notei que estava fervendo de ódio, beirando um ataque de nervos. Abri a boca para falar, mas ela tomou a frente:

— Alice, tira essa mulher daqui, antes que eu dê motivos a ela pra me acusar de algo também. Só que no meu caso, a acusação vai ser por agressão.

— Você e mais quantas mais vão me bater, sua pintora de rodapé?

Isa não se deu mais nem ao trabalho de responder com palavras. Aconteceu tudo muito rápido, nem consigo narrar em detalhes. Só sei que antes mesmo da Giselle terminar a frase, as duas já estavam engalfinhadas no meio da minha sala.

“Acredite ou não, mas em todos esses anos nessa vida bandida, esta é a primeira vez que isto me acontece. Nunca duas mulheres brigaram por minha causa antes. Em outros tempos… e com outras mulheres, eu talvez até estivesse me divertindo, mas nessa situação… porraaaa… E agora, o que eu faço? Bem que você poderia me dar uma ajudinha, né? Ao invés de ficar aí me julgando. Ah, já saquei, não vai mover um dedo pra me ajudar sem ter uma explicação sobre o que rolou aqui antes da Isa chegar. Tá bem, vou explicar logo, até porque tenho mais medo de você do que da Isa.”

Início do flashback:

— Ok, Isa. Então resolva. Depois que resolver, aí você me procura, tá? Porque eu não quero e nem vou competir com esse cara pela tua atenção. Tchau…

— Alice, espera…

“Esperar é o caralho.”

Desliguei.

“Está lembrando disso? Pois é, como acha que eu me senti depois de ouvir que a minha namorada havia se atrasado para um encontro comigo porque tinha que dar banho no ex-namorado vomitado que estava caído de bêbado no apartamento dela? Ah, vá tomar no…”

Ódio era o sentimento mais bonito que tinha no meu coração depois de desligar o telefone. Eu não conseguia acreditar que a Isa fosse tão idiota e tão ingênua a ponto de não enxergar que estava sendo manipulada pelo folgado do Lucas, então, o cérebro traiçoeiro começou a fantasiar que ela ainda o queria e que faltava pouco para que terminasse comigo para poder voltar com ele. Isso foi o bastante para que eu ficasse completamente angustiada, tanto que cheguei a chorar de raiva e a me xingar por ter caído na besteira de me apaixonar. Andei de um lado para o outro na sala por um bom tempo e cheguei a pegar a bolsa e as chaves do carro para ir até lá, mas, em um fio de lucidez, percebi o quanto aquilo seria estúpido. Sem saber mais o que fazer, só me restava ligar para o Pedro, mas por conta da minha ausência na empresa, ele estava tendo que trabalhar dobrado, e naquela noite não tinha hora para sair do trabalho.

Não tinha jeito, eu precisaria esperar e torcer para estar enganada. Tomei um banho demorado e usei a água fria que caía sobre a minha cabeça para tentar reorganizar as ideias. Sequei o corpo com uma toalha e depois, despida mesmo, deitei na cama. Sabia que não conseguiria dormir, mas não tinha mais nada que eu pudesse fazer, então tentaria ao menos relaxar.

Cerca de dez minutos depois, a campainha tocou, e meu coração disparou de imediato.

“É a Isa, só pode ser. Ela veio… ela veio…”

Não sabia se estava mais feliz ou tensa.

“Deixa de ser insegura, Alice, isso nem combina com você. Pensa em tudo que aconteceu até aqui, essa mulher te ama. Você está sendo incompreensiva, devia tê-la apoiado e não agido feito uma idiota, pondo uma faca no pescoço da garota.”

Levantei rápido para atender e já ia correndo para a porta sem roupa mesmo, sorte que voltei atrás e peguei um roupão, porque se estivesse pelada, a cena teria sido no mínimo inusitada. Não dá para narrar o tamanho da minha frustração quando abri a porta e dei de cara com Giselle.

— Que porra você veio fazer aqui e por que não avisou que viria?

— Eu preciso muito conversar com você, Alice. Não avisei porque sabia que me daria um fora.

Minha vontade era de assassinar o seu Jonas, o porteiro, por tê-la deixado subir sem avisar, mas depois lembrei que a culpa era toda minha, pois não havia dito a ele que a presença maligna da Diabolin não era mais bem-vinda em meu apartamento.

— Giselle, vai embora. Não temos nada pra conversar, nosso assunto em comum vai ser resolvido através dos nossos advogados.

Falei em um tom mal-humorado e fui fechando a porta, mas ela a segurou, impedindo, ao mesmo tempo em que falou:

— Me escuta, por favor. Eu vou retirar a acusação, mas preciso que me ouça.

“Retirar a acusação? Tá, agora estou ficando interessada nessa conversa. Mesmo assim…”

— Beleza, você quer conversar? Vamos conversar, mas nem aqui e nem agora. Isso é inadequado. Eu ligo pra você e marcamos dia, hora e lugar… e o Leandro vai estar presente.

— Alice, que bobagem. Do que tem medo? Sou eu.

— Isso deveria significar alguma coisa? Eu não conheço você, Giselle, e maldita foi a hora em que me envolvi…

— Não fala isso, por favor! Assim você me magoa.

Falou em um tom sofrido, os olhos marejaram.

“Eu devo ser uma anta mesmo, porque tô morrendo de pena da cara de cachorro abandonado que ela tá fazendo.”

— Ok, fala o que tem pra falar.

— Não vai me deixar entrar?

— Não.

Na mesma hora em que neguei, a porta do elevador abriu, e de dentro dele saíram dona Chica e dona Iraci, minhas vizinhas do lado. Eram irmãs gêmeas e deviam ter uns 184 anos. Nunca casaram ou tiveram filhos, e eu suspeitava que a maior diversão da vida das duas era dar conta do que eu fazia ou deixava de fazer, porque não paravam de xeretar.

— Boa noite, minha filha.

— Boa noite, dona Chica. Como tem passado? Dona Iraci, tudo bem com a senhora?

Nem sabia se estava trocando os nomes. Éramos vizinha havia anos, mas nunca fui capaz de distingui-las.

“Tanto faz.”

— É, minha filha, você sabe, né? A gente tá levando como Deus quer.

“Eu mencionei que são evangélicas e que acham que têm a missão de me salvar do mundo obscuro e pervertido em que eu vivo?”

— Estamos vindo da Igreja agora. O pastor estava pregando sobre céu e inferno… Alice, minha querida, porque não aparece no culto de quarta-feira? A palavra do senhor é tão bonita e tem o poder de transformação. Tenho certeza de que vai se sentir melhor.

— Mas eu não estou me sentindo mal, dona Chica.

— As coisas do mundo fazem as pessoas terem essa ilusão, Alice. É uma falsa sensação de que está tudo bem que o pecado causa. Quando você morrer e tiver que prestar conta, o inferno vai estar esperando.

— É, minha querida… nós temos que garantir nosso lugar no paraíso…

“Se elas soubessem que eu estava com o diabo bem na minha frente…”

— Anda, Giselle, entra… Ok, dona Iraci, mas agora eu tenho que resolver umas coisas aqui, tá? Depois a gente conversa e a senhora me ensina como despachar uns demônios. Boa noite para as duas.

Nem esperei mais que falassem qualquer coisa, arrastei Giselle para dentro.

“Que outro jeito eu poderia dar?”

— Acho que você poderia ir ao culto com elas, pra ver se tira um pouco dessa maldade do teu coração.

— Alice…

— “Alice” é uma ova, Giselle. Que porra de acusação foi essa? O que passou pela sua cabeça? Quer destruir a minha carreira, e tudo por ciúme? Isso foi baixo demais, até pra você.

— Me desculpa, por favor. Eu fiquei cega de ódio quando soube que você tinha me trocado por aquela va…

— Olhe a língua. Não vou admitir que xingue a Isa. E eu não troquei você por ninguém. Nós não tínhamos nada sério, sempre deixei isso claro.

— Mesmo assim doeu… e ainda dói. Alice, eu amo você, sempre amei. Eu sabia que tentar te amarrar seria uma idiotice, por isso nunca exigi fidelidade. Você me pegou completamente de surpresa quando terminou comigo do nada. Como acha que eu me senti depois, vendo você toda apaixonadinha por outra? Fiquei sem rumo, perdi completamente a razão e agi por impulso, mas eu me arrependi. Olha, amanhã mesmo eu vou conversar com o Leandro e esclarecer tudo, prometo.

“E agora? Será que eu confio no que ela está me dizendo? Parece que está sendo sincera, mas vindo dela, melhor ficar sempre com os dois pés atrás.”

Eu não sabia o que pensar. Minha razão dizia para expulsá-la do apartamento, mas eu queria muito que as coisas se resolvessem, então decidi pelo menos ouvir tudo o que tinha para dizer. Depois eu pensaria em uma reação.

— Ok, você venceu. Vou ouvir o que tem a dizer, mas antes preciso vestir uma roupa.

— Que besteira é essa? Como se eu não conhecesse em detalhes o corpo debaixo desse roupão.

— Giselle, facilita, vai?! Já volto.

Fui para o quarto me vestir e assim que abri a porta do armário, ouvi a campainha tocar.

“Porra, só falta ser a Isa. Ela não vai entender nada. Merda, merda, merda… como eu consigo me meter em tanta presepada?”

Fim do Flashback

Depois de muito trabalho e uns dois tapas perdidos na cara, consegui separar as duas. Isa não deixou barato para Giselle. Tive que segurar o riso quando olhei para a cara da Demônia e a vi toda descabelada e com um arranhão no rosto.

“Minha baixinha só é pequena, mas atrevimento não lhe falta.”

Voltemos ao foco:

— Giselle, vai embora daqui, agora.

— Alice, você não viu o que projeto de hobbit fez comigo? Era ela quem deveria ser expulsa daqui.

“Porra, cara, que inferno! Pelas rugas de Matusalém, eu devo ter picado salsinha na tábua dos dez mandamentos pra merecer isso.”

— Garota, você não ouviu o que eu disse? Pois vou dizer com todas as letras e em alto e bom tom: CAI FORA… AGORA.

Mas quem reagiu, ao invés dela, foi Isa, para o meu completo desespero.

— Não precisa expulsa-la. Eu que cheguei para atrapalhar. Pode deixar, eu vou.

— QUÊ? Não, você não vai a lugar nenhum. Não sem antes eu explicar o que aconteceu aqui.

— Quer saber, Alice? Não quero mais explicações, eu não tenho que passar por isso. Agora faço minhas as suas palavras: resolva o que tem pra resolver com essa piranha e depois você me procura. Não vou ficar competindo com ela pela sua atenção.

“Touché. ‘A indireta que eu te dei, se ainda lembra, não sei, mas se lembrar, devolva-me’. Eu e a minha boca grande.”

— Amor, espera…

Mas foi tarde demais, ela saiu. Eu até pensei em correr atrás, mas estava só de roupão. Precisava me vestir antes. Pensei rápido e corri para o interfone, ignorando completamente a voz da Giselle, que azucrinava os meus ouvidos.

— Seu Jonas, é a Alice, do 1203.

— Dona Alice, opa, o que a senhora manda? Tá boa?

— Escuta, seu Jonas, sabe a moça que eu autorizei a subida, a Isabella?

— Sei, ela subiu faz pouco tempo. O que tem ela?

— Ela tá descendo, e preciso que a segure aí na portaria até eu chegar.

— Como?

— Não sei… sei lá… finge tá passando mal… um ataque cardíaco, pronto, finge que tá tendo um ataque cardíaco e pede a ajuda dela.

— Mas dona Alice, aí eu teria que deixar a portaria. Eu posso perder o meu emprego, a senhora sabia?

— Seu Jonas, é rapidinho. Eu tô chegando.

— Eu sei, eu sei… Mas sabe como é, né? Emprego tá difícil, eu tenho quatro filhos pequenos, mulher… a senhora sabia que o que eu ganho aqui mal dá pra pagar as contas?

“Desgraçado, tá querendo me extorquir.”

— Cem reais, seu Jonas.

— Além disso, é começo de ano. Tenho que comprar material escolar pros quatro…

— Duzentos…

— Meu aluguel vai ser reajustado…

— Trezentos…

— Minha filhinha quer entrar no balé…

“Filho da puta.”

— Quatrocentos, seu Jonas… quatrocentos.

— Ai…

— O que foi? Senti uma pontadinha bem de leve aqui no meu coração.

“Desgraçado, chantagista do caralho.”

— Tá, tá, tá… quinhentos e o senhor cai na frente do portão agora.

— Dona Alice, eu tenho que desligar. Não tô passando muito bem, acho que tô tendo um ataque cardíaco.

— Beleza, chego já aí.

— Nada de cheque, hein? Quero em espécie.

“Se eu continuar me metendo em encrenca assim e tiver que pagar pra me livrar delas, vou a falência em uma semana.”

Vesti-me na velocidade da luz, nem liguei para a presença da vaca satânica buzinando besteira no meu ouvido enquanto fazia isso. Peguei o dinheiro do porteiro sacana e corri para o elevador, ainda com os sapatos na mão. Deixei a megera trancada pelo lado de fora do apartamento e não permiti que descesse comigo.

Quando cheguei na portaria, se eu não estivesse tão desesperada, teria rido à beça da cena. Seu Jonas caído no chão… ele tinha entendido errado, eu falei “ataque cardíaco”, mas ele estava simulando um ataque epilético. Isa gritava por socorro, porém, devido ao horário, não tinha ninguém por lá. Quando me viu, pediu: